As pesquisas mostram que,
desenhado em diferentes formatos, o bumerangue era usado pelos aborígenes
australianos, pelas tribos da Europa e até pelos faraós do Antigo Egito.[1] Em todos os casos, quando o caçador
errava o alvo, a arma retornava ao local de onde havia sido arremessada,
exigindo do lançador o cuidado para não ser atingido por ela.
Passados pouco mais de
dez meses desde a sua posse, vários sinais indicam que alguns dos bumerangues
lançados pelo Presidente dos EUA, Donald Trump não atingiram o objetivo
desejado e, ao voltarem, feriram a sua imagem. As manifestações “No Kings” (Sem
Reis) que marcaram presença em várias cidades,[2] os
protestos organizados pelos sindicatos no Dia do Trabalho,[3] o
aumento de 11 pontos percentuais na desaprovação do seu governo,[4] a
vitória dos democratas nas eleições para a prefeitura de Nova Iorque e os
governos da Virgínia e Nova Jersey[5] são
os hematomas cujas dores acenderam alertas preocupantes no Salão Oval da Casa
Branca.
Reconquistar a confiança perdida demanda uma luta
contra o tempo, à medida que a continuidade do “jeito Trump” de governar estará
ameaçada, caso o Presidente dos EUA não consiga manter a atual maioria nas duas
casas do legislativo após as eleições para a renovação parcial da Câmara dos
Deputados e do Senado, marcada para novembro de 2026. Uma tarefa nada fácil
diante da alta dos preços e dos efeitos da desvalorização do dólar na inflação
do país, das pressões do empresariado atingido pelas tarifas sobre os
importados e do impacto da nova lei orçamentária no cotidiano dos mais
necessitados, das denúncias do caso Epstein e do fracasso das negociações com a
Rússia para o cessar-fogo na Ucrânia que mostraram a incompetência de Trump na
hora de lidar com uma raposa esperta como Putin.
As reflexões que seguem apontam as razões da volta dos
bumerangues e os problemas agravados pelas escolhas de Donald Trump.
1.
O que importa para o estadunidense
comum.
A
economia capitalista é uma máquina complexa. Encontrar o equilíbrio entre crescimento,
geração de empregos, aumento da renda e preços baixos demanda uma sintonia fina
com a realidade de cada setor, ajustes constantes para que oferta e procura não
sofram sobressaltos, financiamentos baratos, intervenções governamentais capazes
de esvaziar o conflito social e garantir um ambiente de lucros compensatórios
para as empresas. Por isso, baixar os preços não é uma tarefa tão simples
quanto Trump fez acreditar para obter os votos que lhe dariam um novo mandato
presidencial.
Um ano depois da eleição, as pessoas sentem no bolso
que as coisas caminharam na contramão do prometido. Alguns dados ilustram a
distância entre as promessas de campanha e o cotidiano de quem se esfola para
ganhar o pão de cada dia.
Em agosto de 2024, ao culpar Biden pela alta do custo
de vida, o então candidato, Donald Trump, prometia baixar imediatamente os preços
das mercadorias que mais pesavam no orçamento doméstico. Alguns exemplos ajudam
a visualizar o que aconteceu. Quando assumiu a Presidência, em janeiro deste
ano, o preço da dúzia de ovos grandes era de US$ 4,93. No mês de março, a
escassez causada pela gripe aviária elevou o valor médio do produto a US$ 6,23.
Desde então, graças ao forte aumento das importações livres de restrições e
tarifas, os ovos podem ser comprados por US$ 3,49, uma quantia que passa bem
longe do US$ 1,00 a dúzia do primeiro mandato de Trump e almejada por seus
eleitores.
A redução dos preços da gasolina segue na lista dos
desejos. Ainda em agosto de 2024, Trump prometeu que um galão do produto seria
vendido a menos de US$ 2,00. De acordo com a Associação Automobilística
Americana, em 21 de janeiro de 2025, dia da posse, esta quantidade da gasolina
comum custava, em média, US$ 3,12 e, dez meses depois, o preço havia caído
apenas para US$ 3,07. Quem estranha o descumprimento desta promessa esquece que
uma quantidade considerável do petróleo estadunidense vem da fragmentação das
rochas de xisto, um processo de extração bem mais caros em relação aos demais.
Sendo assim, não há como esperar que as petrolíferas pratiquem preços que façam
seus balanços desconhecerem os lucros que almejam.
A frustração da promessa de reduzir pela metade os
preços da energia elétrica fez os estadunidenses desejarem os valores cobrados
no governo Biden. De fato, em janeiro de 2025, as famílias pagavam, em média,
15,94 centavos de dólar por quilowatt-hora consumido. Em agosto de 2025, este
valor atingiu 17,62 centavos de dólar, sendo que, nas regiões onde estavam
sendo implantados novos datacenters, a escassez provocada pela alta demanda de
eletricidade aumentou os preços das distribuidoras em até 267,0%. Neste
contexto, o corte dos subsídios às energias renováveis, realizado por Trump no
início do mandato, e a alta do preço do aço causada pelas tarifas de importação
explicam por que, da construção de novas usinas às torres de transmissão,
passando pelos materiais que demandam matérias-primas importadas, o custo final
da eletricidade só poderia aumentar, algo que passou longe da percepção que a
população tinha na hora de votar.
Na lista das queixas, estão também os efeitos do
encarecimento de 12,9% da carne moída, o aumento médio de 18,9% do café, as
bananas que ficaram 6,9% mais caras e de tudo o que, não sendo produzido nos
EUA, passou a ser importado a preços majorados pelas taxas alfandegárias.[6] Para
termos uma ideia da distância entre o que o povo esperava e o impacto das políticas
governamentais nos gastos domésticos, os novos cálculos do Centro de Pesquisas
Orçamentárias da Universidade de Yale revelam que, para manter os hábitos
anteriores ao segundo mandato de Trump, cada núcleo familiar terá que gastar,
em média, uma soma adicional de US$ 2.400 anuais.[7]
Inicialmente, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott
Bessent, havia sugerido que a valorização do dólar reduziria o impacto das
tarifas sobre os preços dos importados. Contudo, como veremos mais adiante, as
incertezas despertadas na economia mundial pelas escolhas de Trump fizeram com
que, entre 21 de janeiro e 14 de novembro de 2025, a moeda estadunidense
sofresse uma desvalorização de 11,36% em relação ao Euro, de 3,24% diante do
Yuan Chinês, de 7,25% na comparação com a Libra Esterlina do Reino Unido e de
8,86% para o Iene japonês, só para citar algumas das moedas utilizadas no
comércio internacional.[8]
Concretamente, mesmo sem a aplicação das tarifas sobre as importações, a perda
de valor do dólar obrigaria, por si só, a usar uma maior quantidade desta moeda
para comprar as mercadorias produzidas no exterior, uma realidade que ficou bem
pior com os impostos sobre os importados.
A guerra de tarifas
trouxe prejuízos e preocupações em vários setores produtivos. No agronegócio, a
suspensão total das compras de soja pela China deixou de cabelos em pé os
fazendeiros que contavam com elas para esvaziar os armazéns. Pequenas e médias
empresas que dependiam da importação de componentes amargaram prejuízos mensais
em seus balanços na exata medida em que a elevação dos custos de produção
forçava a reduzir as margens de lucros e encolhia o mercado consumidor. Nas
indústrias de beneficiamento do café, a taxa de 50% sobre a importação do
produto brasileiro (que representa 35,0% da sua matéria prima) criou sérios
problemas de lucratividade ao impossibilitar que faturassem US$ 43,00 para cada
US$ 1,00 de produto importado.[9] E,
após as restrições impostas pela China à venda de terras raras essenciais na
produção de armamentos, o complexo industrial-militar dos EUA disparou inúmeros
alertas quanto às dificuldades que enfrentaria em médio prazo para dar conta da
demanda e do desenvolvimento de novos equipamentos.
Por isso, diante das pressões inflacionárias e do
aumento do descontentamento, Trump se apressou, por exemplo, a zerar as taxas
alfandegárias impostas aos 105 itens exportados pelo Equador e aos produtos
alimentícios brasileiros, elevou a importação de carne da Argentina, reduziu as
tarifas sobre os medicamentos vindos da Suíça, negociou com a China a redução
das taxas recíprocas de importação em troca da compra de soja pelo gigante
asiático e da flexibilização nas vendas de terras raras pelo prazo de doze meses.[10]
Longe de reconhecer suas besteiras, cada recuo de Trump
foi por ele apresentado como a jogada de uma estratégia calculada. Mas, à
medida que a alta dos preços contraria as expectativas da população, não são
poucos os que ouvem suas declarações com a desconfiança de quem percebe a
tentativa de tampar o sol com a peneira.
Infelizmente, não encontramos estatísticas
que relacionem a alta dos preços de mercadorias e serviços em função das
deportações de imigrantes empregados na agricultura, na construção civil e nas
tarefas domésticas. Além da indignação causada pela forma como as prisões são
efetuadas, pelas condições degradantes dos centros de permanência dos sem
documentos e pelo fato de o Estado oferecer recompensas em dinheiro a quem
ajuda a localizá-lo, os empregadores estadunidenses não encontram autóctones
que aceitem trabalhar em serviços perigosos e desgastantes, durante a mesma
quantidade de horas e com os mesmos baixos salários dos migrantes expulsos do
país. Na comparação entre junho deste ano e o mesmo mês de 2024, a construção
civil, por exemplo, ampliou a oferta de emprego em 64.000 postos de trabalho,
um aumento que os analistas atribuem ao buraco deixado pelos deportados e não à
elevação das atividades do setor. [11]
Na
tentativa de baratear os ordenados das trabalhadoras domésticas e das
cuidadoras, Trump propõe excluir a obrigação de as famílias contratantes
pagarem o salário mínimo de US$ 7,25 por hora. Resta saber quantas
estadunidenses disputarão as vagas deixadas pelas esposas e filhas de imigrantes
que, em 2024, representavam 43,0% dos ocupados nestas tarefas. Vários sinais
indicam que, forçadas e escolher entre pagar um ordenado maior e renunciar às
empregadas domésticas, as famílias de classe média começam a perceber que não
havia problema algum com as estrangeiras que trabalhavam direitinho e não se queixavam
de receber uma mixaria pelo fato de terem entrado ilegalmente no país.
O
passar dos meses também mostra que pagará mais pela América Grande alardeada
pelo Presidente Republicano. As demissões em massa dos funcionários públicos e
o fim do salário mínimo de US$ 17,45 por hora para os contratados nos órgãos
federais[12] são
apenas o tira-gosto das amarguras que a aprovação do orçamento dos EUA colocou
na mesa de muitas famílias.
2.
A lei orçamentária de Donald Trump.
Sempre que um governante anuncia que o seu
governo criará um futuro melhor para todos, o bom senso convida a verificar
como isso se traduz nos gastos do Estado. Analisando a lei orçamentária
recém-aprovada,[13] a primeira coisa que salta aos olhos é a redução dos impostos. De acordo
com o texto, quem ganha até 500 mil dólares anuais aumentará a dedução dos
tributos estaduais e locais dos atuais 10 mil para 40 mil dólares, enquanto as
empresas poderão incluir os gastos com pesquisas e investimentos no rol de
critérios que encolhem os valores devidos. Os aposentados com mais de 65 anos poderão
saborear o gosto de uma lambida nesta rapadura com a dedução de 4 mil dólares,
enquanto os assalariados terão a mesma satisfação com o fim do imposto de renda
sobre gorjetas e horas-extra.
No quesito
aumento dos gastos, destacamos três itens: a defesa, que receberá um aporte
adicional de 150 bilhões de dólares; os investimentos na agenda anti-imigração que
contarão com 175 bilhões de dólares (para a construção de 1,120 km de muro na
fronteira com o México, 2.665 km de diferentes tipos de barreiras, além da
contratação de 18.000 pessoas entre funcionários da alfândega, agentes da polícia
anti-imigração e da patrulha de fronteira); e a possibilidade de o governo
ampliar em 5 trilhões de dólares o endividamento do Estado sem depender da
aprovação do Congresso.
A lista dos
cortes revela quem pagará a conta. Entre os itens com impactos mais
significativos, encontramos a eliminação de 930 bilhões de dólares nas áreas de
assistência médica e alimentar para a baixa renda e a inclusão de critérios
mais rígidos para ter acesso a estes benefícios. Com isso, cerca de 10 milhões
e 900 mil pessoas podem ficar sem seguro saúde e outros 4 milhões de famílias não
devem conseguir arcar com o reajuste dos valores do convênio médico. Quanto ao
auxílio alimentação, as estimativas apontam uma redução de 3 milhões de pessoas
no universo das 42 milhões que tinham direito ao benefício.
Seguindo com os
cortes mais expressivos, encontramos a diminuição de 330 bilhões de dólares em
empréstimos estudantis ao longo dos próximos dez anos e o fim dos programas de
pagamento destas dívidas de acordo com a renda dos estudantes. Concretamente,
isso vai reduzir o número de jovens de baixa renda que poderão custear seus
estudos e estrangular financeiramente parte significativa dos que já recorreram
a eles.
Somando a
arrecadação dos 300 bilhões de dólares oriundos das tarifas alfandegárias sobre
os importados, os cortes de gastos e as isenções tributárias, o Tesouro dos EUA
estima que a dívida pública do país aumentará em 3 trilhões e 300 bilhões de
dólares. Com isso, Trump eleva a desconfiança internacional em relação ao dólar.
O avanço desta
desconfiança é sinalizado pela forte valorização do ouro. O aumento das compras
internacionais do precioso metal prova a existência de certo ceticismo quanto à
capacidade de os EUA honrarem seus compromissos e garantirem o valor da sua
moeda. Entre 2010 e 2021, por exemplo, os bancos centrais do mundo inteiro
compraram, em média, 481 toneladas de ouro ao ano para formar suas reservas de
valor. Esta quantidade subiu para mil toneladas desde 2022.[14] Graças a esta mudança,
segundo o Fundo Monetário Internacional, a participação do dólar nas reservas
internacionais caiu de 71,5%, em 2002, para os atuais 57,8%.[15] Quando focamos o período
mais recente, percebemos que deste movimento provocou uma mudança significativa
na cotação do ouro. No início de 2024, dos a Onça Troy (31,104 gramas) podia
ser comprada por US$ 2.000. Nos primeiro dias de janeiro de 2025, já eram
necessários US$ 2.835 e, em 21 de novembro passado, o pregão fechou em US$
4.079, uma valorização de 43,88% só nos últimos 11 meses.[16]
Dito isso, quem
ganha e quem perde com a construção da América Grande? Quando somamos o aumento
do desemprego de 4,0% para 4,4% da população economicamente ativa, entre
janeiro e setembro deste ano,[17] a elevação do custo de
vida em função das tarifas alfandegárias e os cortes orçamentários promovidos
por Trump, as projeções disponíveis apontam uma transferência de renda no
estilo Robin Hood às avessas. Segundo Michael Roberts, entre 2026 e 2034, os 10% mais pobres da
população verão a sua renda encolher 3,1% enquanto os 10% mais ricos
registrarão uma elevação de 2,8% na riqueza que atualmente possuem.[18]
À medida que prejudica as faixas de renda mais baixas
e favorece as demais, não sabemos qual será o impacto efetivo da aplicação da
Lei Orçamentária na desaprovação do Presidente. Sabendo que os mais
necessitados constituem um contingente considerável de eleitores e que a queda
na popularidade de Trump coloca, desde já, um ponto de interrogação na
possibilidade de manter a maioria na Câmara e no Senado, estamos convencidos de
que o Presidente dos EUA precisa de algo que, ao mesmo tempo, concentre as
atenções do país, faça a população esquecer suas dores e, ao projetá-lo como
“vencedor”, traga alguma vantagem à população estadunidense. Algo que vem sendo preparado com a reorganização da antiga base militar estadunidense
em Porto Rico e com a presença de uma esquadra naval fortemente armada no Mar
do Caribe que, violando o direito internacional, bombardeou supostas
embarcações de traficantes e aponta a Venezuela como a vítima que, ao ser
sacrificada no altar do Deus Trump, lhe dará o petróleo e o apoio de que
precisa para subir nas pesquisas de opinião.
3. A desconfiança da
Europa e o golpe baixo na sua extrema direita.
A vitória de
Trump nas eleições de novembro de 2024 carregava o desejo da extrema direita do
Velho Continente de encontrar nele um parceiro à altura de suas necessidades. Parceiro
é alguém que age em pé de igualdade, que, ao tecer relações de cumplicidade,
ganha fazendo ganhar. Contudo, pouco depois da posse, os neofascistas de todas
as cores descobriram que o Presidente dos EUA é daqueles irmãos autoritários
que, por serem maiores, não aceitam repreensões e demandam submissão absoluta.
Em março deste
ano, com uma simples canetada, Trump elevou as tarifas alfandegárias sobre os
produtos vendidos aos EUA pela União Europeia da faixa entre 1,7% a 2,0%, aplicada
nos 24 anos anteriores, para 30,0%. Após uma paciente e cuidadosa negociação,
os representantes do bloco conseguiram um acordo que reduzia a 15,0% a
porcentagem sobre suas exportações.
A ideia de que,
no fundo, podia ser um bom negócio durou até a publicação dos termos pactuados.
De fato, além de a UE enfrentar uma barreira tarifária sete vezes maior que a
anterior, o bloco se comprometia a investir 600 bilhões de dólares nos EUA e a
aumentar em 750 bilhões de dólares a compra de hidrocarbonetos estadunidense a
fim de reduzir o pouco que restava do suprimento de energia vindo da Rússia.
Concretamente, a
percepção pela qual a não redução das tarifas impostas por Trump levaria ao
fechamento de empresas que dependem estruturalmente das exportações para os EUA
fez com que Bruxelas aceitasse gerar postos de trabalho, renda e riqueza em
território estadunidense com recursos que farão falta na hora de sustentar o
seu próprio crescimento econômico. Por outro lado, o aumento da compra de
hidrocarbonetos a um preço superior ao que estava sendo pago à Rússia vai encarecer
os preços da energia, tornando a produção local menos competitiva.
Diante do texto
final, Marine Le Pen, líder da extrema direita francesa, denunciou o acordo
como “um fiasco político, econômico e moral”.[19] Contudo, a possibilidade
de levar a sua crítica verbal para o campo das ações esbarrou tanto no fato de
que, sem o acordo, as consequências econômicas seriam mais profundas, como na
constatação pela qual foi a extrema direita estadunidense a impor as tarifas
sobre as exportações do bloco. Ou seja, o estrago na casa dos europeus estava
sendo feito por um “parceiro” que, ao adotar o protecionismo como política de
Estado, colocava em maus lençóis os neofascismos locais.
Mas este não
seria o único sapo que os países da UE teriam que engolir. Apesar da crescente
ameaça russa, do dinheiro e do material bélico com os quais sustentaram a
defesa da Ucrânia, em nenhum momento Bruxelas foi sequer consultada a respeito
das condições para o cessar-fogo que Trump e Putin estavam negociando. Enquanto
os governos do Velho Continente se desgastavam junto a suas populações para
equacionar os déficits oriundos da ajuda financeira à Ucrânia, o Presidente dos
EUA impunha a Kiev o controle das jazidas de Terras Raras do país a fim de
compensar os valores recebidos do governo Biden.
Paralelamente a
isso, a diminuição das verbas estadunidenses para manter as bases militares da
OTAN na Europa ocorria enquanto Moscou aumentava seus ataques aos territórios
ucranianos e sinalizava que seu poder bélico ameaçaria o Velho Continente após
o fim das hostilidades na Ucrânia. Para termos uma ideia desta pressão, basta
pensar que entre 20 de janeiro e 19 de julho, a Rússia mais que dobrou o número
de mísseis e drones lançados contra a Ucrânia em relação aos últimos seis do
governo Biden.[20] Em agosto, Moscou anunciou a produção em massa de mísseis hipersónicos com
capacidade nuclear,[21] e, em outubro, comunicou ao mundo que havia testado com
sucesso o torpedo nuclear Poseidon (capaz de devastar as regiões costeiras com
uma espécie de tsunami radiativo) e o novo míssil de cruzeiro movido a energia
nuclear Burevestnik.[22]
Diante destes
fatores e no período de dez anos, os integrantes da OTAN em território europeu concordaram
em aumentar de 2,0% para 5,0% do PIB seus gastos bélicos anuais. A gravidade
desta opção em termos de submissão aos EUA vai além dos sacrifícios que
continuarão sendo impostos às populações locais. O atraso tecnológico e a
incapacidade de produzir em quantidade suficiente o que a Europa precisa para
ampliar imediatamente as suas defesas forçam os líderes do Velho Continente a entregar
ao complexo industrial-militar estadunidense parte considerável dos 500 bilhões
de euros correspondentes às novas porcentagens do PIB destinadas aos armamentos.[23] Em função disso, a Europa diminui
ainda mais o seu “peso geopolítico” em relação aos EUA e adia indefinidamente a
autonomia com a qual sonhava há décadas.
Mas, a vantagem com
a qual Trump conta neste momento pode desgastar os vínculos com os EUA à medida
que sua postura atualiza uma pergunta que, na hora de a França optar por um
arsenal nuclear próprio, o General e ex-presidente do país, Charles De Gaulle fez ao governo
estadunidense: em caso de ataque soviético, os EUA virão defender a Europa?
A União Soviética da Guerra Fria não existe mais, mas
a posição da Rússia passa bem longe de ser amigável. A volta da mesma pergunta expressa
a incerteza que ganha corpo à medida que os governos europeus começam a ver
Washington como um aliado no qual não se pode confiar. Sendo assim, até quando
a Europa aceitará uma submissão que mina suas perspectivas de futuro? Em que momento
as consequências desta postura farão o bumerangue se voltar contra os EUA?
No momento em que escrevemos, não há respostas para
estas perguntas. Diante do peso das ameaças e dos sacrifícios que lhe serão
impostos, esperamos apenas que a classe trabalhadora não demore a rejeitar a
lógica da acumulação que passeia perigosamente pelos campos da guerra.
Emilio
Gennari. Brasil, 30 de novembro de 2025.