domingo, 16 de junho de 2024

A conta chegou: A tragédia climática no Rio Grande do Sul.

 

Publicado em 08/05/2014 por Leonardo Boff


Interrompo minha reflexão sobre os vetores da crise sistêmica atual e as eventuais saídas da crise, em razão da tragédia ambiental ocorrida no Rio Grande do Sul. As intensas chuvas e as catastróficas enchentes, com as águas invadindo cidades inteiras, destruindo-as em parte, deslocando centenas de famílias, causando milhares de refugiados ou de desaparecidos e mortos, nos fazem pensar.

Antes de mais nada nossa profunda solidariedade às populações atingidas por esta calamidade de proporções bíblicas. Expressamos nossa compaixão, pois como ensinava Santo Tomás na Suma Teológica:

 “a compaixão em si é a virtude maior. Pois faz parte da compaixão derramar-se sobre os outros – e o que é mais ainda – ajudar a fraqueza e a dor dos outros”.

Todo o país se mobilizou. O povo brasileiro mostrou o melhor de si, sua capacidade de solidariedade e disposição de ajuda, a despeito dos perversos que exploram a desgraça para fins particulares e por mentiras e calúnias.

Seria errôneo pensar que se trata apenas de uma catástrofe natural, pois de tempos em tempos ocorrem fenômenos semelhantes. Desta vez a natureza da tragédia possui outra origem. Temos a ver com a nova fase em que entrou o planeta Terra: a instalação de um novo estágio, caracterizado pelo aumento do aquecimento global. Tudo isso de origem antropogênica, quer dizer, produzida pelos seres humanos, mas mais especificamente pelo capitalismo anglo-saxão, devastador dos equilíbrios naturais.

Há negacionistas em todos as esferas, especialmente entre os CEOS das grandes empresas e naqueles que se sentem bem na situação de privilégio, assentados sobre uma situação de conforto. Mas a avalanche de transtornos nos climas, a irrupção de eventos extremos, as ondas de calor intenso e de secas severas, os grandes incêndios, os tornados e as enchentes apavorantes, constituem fenômenos inegáveis. Está tocando a pele dos mais resistentes. Começaram também eles a pensar.

Considerando a história do planeta que já existe há mais de 4 bilhões de anos, constatamos que aquecimento global participa da evolução e do dinamismo do universo; este está sempre em movimento e se adaptando às circunvoluções energéticas que ocorrem no decorrer do processo cosmogênico. Assim o planeta Terra conheceu muitas fases, algumas de extremo frio, outras de extremo calor como há 14 milhões de anos. Nesta época de calor extremos não existia ainda o ser humano que somente irrompeu na África há 7-8 milhões de anos e o homo sapiens atual há apenas 200 mil anos.

O próprio ser humano percorreu várias etapas em seu diálogo com a natureza: inicialmente predominava uma interação pacífica com ela; depois passou a uma intervenção ativa nos seus ritmos, desviando cursos de rios para a irrigação, cortando territórios para estradas; passou para uma verdadeira agressão da natureza, precisamente a partir do processo industrialista que se aproveitou dos recursos naturais para a riqueza de alguns à custa da pobreza das grandes maiorias; esta agressão foi levada por tecnologias eficientes a uma verdadeira destruição da natureza, ao devastar inteiros ecossistemas, pelo desflorestamento em função da produção de commodities, pelo mau uso do solo impregnando-o de agrotóxicos, contaminando as águas e os ares. Estamos em plena fase de destruição das bases naturais que sustentam nossa vida. Digamos o nome: é o modo de produção/devastação do sistema capitalista anglo-saxão hoje globalizado, com seus mantras: maximização do lucro através da super exploração dos bens e serviços naturais, no quadro de severa competição sem qualquer laivo de colaboração.

Este processo teve um pesado custo, sequer tomado em conta pelos operadores deste sistema. Os danos naturais e sociais eram considerados como efeitos colaterais que não entravam na contabilidade das empresas. Ao estado e não a eles cabia enfrentar tais taxas de iniquidade.

A Terra viva começou a reagir enviando vírus, bactérias, todo tipo de doenças, tufões, tempestades rigorosas e por fim um aumento de sua temperatura natural. Ela entrou em ebulição. Iniciamos um caminho sem volta. São os gases de efeito estufa: o CO2, o metano (28 vezes mais danoso que o CO2), o óxido nitroso e o enxofre entre outros. Só em 2023 foram lançados na atmosfera 40,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono, com consta no relatório da COP 28, realizada no Cairo.

Vejamos os níveis de crescimento desse gás: em 1950 as emissões eram de 6 bilhões de toneladas; em 2000 já eram 25 bilhões; em 2015 subiu para 35,6 bilhões; em 2022 foram 37,5 bilhões e finalmente em 2023, como referimos, foram 40,9 bilhões de toneladas anuais. Esse volume de gazes funciona como uma estufa, impedindo que os raios do sol retornem para o universo, criando uma capa quente, ocasionando o aquecimento do inteiro planeta. Acresce dizer que o dióxido de carbono, CO2, permanece na atmosfera por cerca de 100 a 110 anos.

 Como a Terra pode digerir semelhante poluição?

 O acordo de Paris na COP de 2015 estabelecia cotas de redução dessas gazes com a criação de energias alternativas (eólica, solar, das marés). Nada de substancial foi feito. Agora chegou a conta a ser paga por toda a humanidade: um aquecimento irreversível que tornará algumas regiões do planeta na África, na Ásia e também entre nós, inabitáveis.

O que estamos assistindo no Rio Grande do Sul é apenas o começo de um processo que, mantido o tipo atual de civilização dilapidadora da natureza, tende a piorar. Os próprios climatólogos alertam: a ciência e a técnica despertaram tarde demais para essa mudança climática. Agora não poderão evitá-la, apenas advertir da chegada de eventos extremos e de mitigar seus efeitos danosos.

Terra e Humanidade deverão adaptar-se a essa mudança climática. Idosos e crianças e muitos organismos vivos terão dificuldade de adaptação e irão sofrer muito e até morrer. A Mãe Terra daqui por diante conhecerá transformações nunca dantes havidas. Algumas podem dizimar as vidas de milhares de pessoas. Se não cuidarmos, o planeta inteiro poderá ser hostil à vida da natureza e à nossa vida. No seu termo, poderemos até desaparecer. Seria o preço de nossa irresponsabilidade, desumanidade e descuido da natureza que tudo nos dá para viver. Não conseguimos pagar a conta.

 

Leonardo Boff escreveu: 

- Como cuidar da Casa Comum: como protelar o fim do mundo, Vozes 2024; 

- O doloroso parto da Mãe Terra, Vozes 2021; 

- A busca da justa medida: como equilibrar o planeta Terra, Vozes 2021.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Crise Climática e o Rio Grande do Sul - Verdades difíceis de engolir.

 

 

 

Imagem: arvoreagua.org

 Imagens chocantes e desesperadoras encheram as redes sociais, jornais e telejornais nos últimos dias, de repente a “tal” crise climática (alertada já há algum tempo por especialistas) virou manchete e ganhou notoriedade. Pedidos de ajuda e arrecadações sejam em dinheiro, materiais, alimentos ou produtos de higiene pessoal e limpeza são comuns. Cabe aqui chamar a atenção para o poder da solidariedade promovida pela classe, principalmente em momentos de crise, a classe sempre ajuda a classe.

 

Algo que sempre parecia distante da realidade ou coisa de filmes de ficção, de repente se tornou o centro das atenções e o que, para muitos, é apenas resultado da fúria da natureza ou do “criador” contra a espécie humana após anos de exploração e destruição é, na verdade, uma somatória de diversos fatores.

 

As fortes chuvas atingiram 463 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul (Carta Capital), no entanto, 336 decretaram estado de emergência (Clima Info) com resultados devastadores, milhares de famílias desabrigadas crescente número de mortos (157 em 20/05, Carta Capital) e desaparecidos (88 em 20/05, Carta Capital) e podemos inserir nessa lista, a dificuldade no transporte (inclusive das vítimas), na evacuação das áreas atingidas e a insegurança alimentar, energética e sanitária, afinal a distribuição de água foi evidentemente afetada e o risco de contaminação e surtos de diversas doenças é iminente. O resultado não poderia ser diferente, pois em dez dias (entre 24/04 e 04/05) choveu cerca de ¼ do esperado para um ano, em números, seriam aproximadamente 420 mm dos 1.500 mm esperados para um ano no estado inteiro do Rio Grande do Sul (Jornal da USP). Em suma, as fortes chuvas que atingiram e devastaram o estado são resultantes da combinação de fatores como as mudanças climáticas em curso, fim do fenômeno natural El Niño, forte bloqueio atmosférico nas regiões centrais do país (o que impede que a massa de ar frio avance e “disperse” a chuva) e tudo isso ainda sendo potencializado pela crescente destruição ambiental, ou seja, não é obra do acaso, não é “natural” ou “castigo”. É, na verdade, fruto de anos de desmatamento, queimadas, queima de combustíveis fósseis, desrespeito a natureza e o uso indiscriminado de agrotóxicos que contaminam (na verdade, envenenam) o solo, os alimentos que chegam às nossas mesas, a água e coloca em risco a vida de muitos insetos essenciais para a polinização, ou seja, compromete toda a biodiversidade. É fato, eventos extremos relacionados ao clima seja de calor ou tempestades serão cada vez mais frequentes.

 

Apesar da chuva intensa (acima do esperado para o tempo descrito), culpar as forças da natureza é simplista demais e não analisa o problema como um todo, afinal o governo sabia e ignorou porque não era conveniente agir. Em menos de 1 ano, o RS já registrou 4 tragédias climáticas sendo elas em junho/2023 (com 16 mortos e mais de 3,2 mil desabrigados), em setembro/2023 (com 54 mortes e mais de 20 mil desabrigados), em novembro/2023 (com 5 mortes e mais de 28 mil desabrigados) e agora em maios/2024 – com dados ainda sendo contabilizados (Justiça Eco, 2024). Evidenciando que não há “surpresas” nesse cenário, a infeliz e triste “surpresa” fica apenas para aqueles vivenciaram as cenas de destruição, que perderam suas casas, entes queridos e suas vidas.

 

A destruição, a exploração da natureza e dos recursos naturais, bem como da mão de obra, é fruto das políticas que sempre favorecem o capital. É algo baseado única e exclusivamente na obtenção do lucro e concentração de bens nas mãos dos senhores do poder. Diante disso, a crise ambiental e climática são inevitáveis, mas o grau dos danos e tragédias que isso causará principalmente aos mais vulneráveis depende do monitoramento, combate ao negacionismo, garantia de proteção ambiental, da visibilidade e exercício das práticas indicadas por estudos científicos sérios, mas, principalmente, requer que a vida seja priorizada ao invés do capital. É pensar a vida além do Capitalismo e da banalização da “proteção e preservação” do meio ambiente, afinal o que vemos hoje são práticas ditas como “sustentáveis”, mas que, na verdade, apenas amenizam ou disfarçam danos e continuam a serviço do capital. É preciso pensar a biodiversidade como toda forma de vida que ela verdadeiramente representa e a espécie humana como integrante desse cenário. É preciso preservar (ou salvar – se assim preferir) a natureza e não o Capitalismo!

 

Em 2015, o relatório intitulado “Brasil 2040”, solicitado pela Presidência da República foi resultado de um estudo que analisou impactos em infraestrutura, agricultura, energia, entre outros – foi feito por vários órgãos de pesquisa do país e custou R$ 3,5 milhões (Intercept – Brasil, 2024) e, embora seja uma situação extremamente triste, diante deste documento, não é possível afirmar que foi totalmente inesperada. No entanto, cabe aqui as perguntas:

 

Por que nada foi feito?

Por que as pessoas não foram alertadas?

 

 Poderia responder de forma bastante simplista culpando esse ou aquele governo, a imprevisibilidade da natureza, “o criador e seus castigos”, ou ainda que o “tal” relatório apontava probabilidades, mas não “certezas absolutas” (afinal, por que salvar vidas, cidades e a natureza seria importante, não é mesmo? – contém ironia). Enfim, inúmeras são as justificativas para “salvar o Capitalismo”, no entanto, a resposta soa de forma constrangedora, revoltante e irônica: Porque não era conveniente agir e porque a prioridade nesse sistema é o acúmulo de capital, manutenção da burguesia e a exploração da classe trabalhadora, do meio ambiente, dos recursos naturais e de tudo que for possível e a favor de manter a riqueza nas mãos da minoria, a fim de manter o Sistema funcionando (custe o que custar), o mesmo sistema que banaliza (e sacrifica se preciso for) a vida humana, a biodiversidade e toda a natureza. Infelizmente, é preciso reconhecer que nesse Sistema a prioridade não é (e nunca será) a vida, seja ela qual for (a sua, a minha, dos comparsas de trabalho, dos amigos, familiares e até dos outros seres vivos com os quais dividimos esse planeta).

 

É válido ressaltar que, o mesmo relatório, fez projeções alarmantes e preocupantes para os próximos anos de 2040, 2070 e 2100. Não são meras “previsões” sem nexo ou baseadas em “achismos”, são projeções baseadas em estudos, modelos e é consenso no meio científico que eventos extremos (como as chuvas no RS) serão cada vez mais frequentes em várias áreas.  Em outras palavras, não quero ser portadora de más notícias, portanto é evidente que esse sistema já não nos basta mais. É ele ou a vida!

 

  T.V.A.F. – Uma mulher Inconformada e Divergente


  

Imagem criada pelo artista gráfico Dinelli – Perfil Instagram: @1dinelli


 FONTES:

CLIMA INFO. Com tragédia climática, governo e Congresso costuram “orçamento de guerra” para reconstruir Rio Grande do Sul. Disponível em: < https://climainfo.org.br/2024/05/06/com-tragedia-climatica-governo-e-congresso-costuram-orcamento-de-guerra-para-reconstruir-rio-grande-do-sul/ >. Acesso em 08 de Maio, 2024.

CARTA CAPITAL. Número de mortos no Rio Grande do Sul sobe para 157; 88 ainda estão desaparecidos. Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/sociedade/numero-de-mortos-no-rio-grande-do-sul-sobe-para-157-88-ainda-estao-desaparecidos/ >. Acesso em 20 de maio, 2024.

CORTÊS, P. L. Chuvas no Rio Grande do Sul devastam o Estado, provocando mortes e o deslocamento de populações. Jornal USP. Disponível em: < https://jornal.usp.br/radio-usp/chuvas-no-rio-grande-do-sul-devastam-o-estado-provocando-mortes-e-o-deslocamento-de-populacoes/ >. Acesso em 06 de maio, 2024.

DIAS, T. Enchentes no RS: Leia O Relatório de 2015 que projetou o desastre – e os Governos escolheram engavetar. Intercept Brasil. Disponível em: < https://www.intercept.com.br/2024/05/06/enchentes-no-rs-leia-o-relatorio-de-2015-que-projetou-o-desastre-e-os-governos-escolheram-engavetar/ >. Acesso em 08 de maio, 2024.

JUSTIÇA ECO. Observatório da Justiça e Conservação. Vídeos e análises disponíveis em: < https://justicaeco.com.br/>. Acesso em 08 de maio, 2024.



segunda-feira, 13 de maio de 2024

A Bíblia, os Pobres e a Revolução Humanizadora

 

E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir”. 

Lucas 6:20,21





Pobres. Pobreza. Empobrecimento. Pior que essas palavras é a realidade que elas significam. O pobre é destituído de recursos que providenciem bem-estar à vida. E por bem-estar entendo a experiência de uma vida com abundância, sem desperdícios. Uma abundância que mata a fome, agasalha e abriga o corpo, cuida da saúde e garante o trabalho, o descanso, o lazer e a seguridade social, com uma polpuda e merecida aposentadoria. Sem essa abundância, temos a pobreza. Ora, ninguém é pobre por querer ser pobre, exceto, é claro, aqueles que seguem ordens religiosas com voto de pobreza, por opção de foro íntimo ou por algum ideal em que acreditem. Assim como pode haver alguém na pobreza por falta de orientação... Mas são exceções. A pobreza não é desejada. Ser pobre não é um projeto de vida. Empobrecer não é propósito das pessoas. Entretanto, a realidade é que existem pobres. O fato é que o empobrecimento chega para muita gente. A pobreza está por aí, grassando (ou desgraçando) a (pobre) vida de muitas pessoas.

No relato dos quatro evangelhos do Novo Testamento, deparamo-nos com Jesus cercado por pessoas destituídas de recursos econômicos, que vão até ele na busca da supressão de seus anseios. Ele mesmo, proativamente, aproxima-se de tais pessoas e, em várias passagens bíblicas, dá-lhes atenção especial.

Ora, o tema da pobreza percorre toda a Sagrada Escritura. No pentateuco, temos leis específicas que tratam do pobre, providenciando dispositivos legais de socorro, bem como a proibição da exploração dos mais ricos sobre os mais pobres.  Nos profetas, há uma profusão de mensagens que denunciam a opressão do Estado Monárquico israelita e dos mais abastados sobre os empobrecidos, afirmando, sempre, que Deus está do lado destes últimos. E no Novo Testamento, há recomendações epistolares dos apóstolos sobre a atenção a ser dada aos mais pobres e, principalmente, os relatos evangélicos da atuação de Jesus, por obras e palavras, em favor dos pobres. Você, caro leitor e prezada leitora que porventura passar os olhos sobre este texto, poderá valer-se de um exemplar das Sagradas Escrituras para ali encontrar as abundantes citações bíblicas sobre isto que afirmei acima. Aqui, por questão de espaço e opção pessoal, posso oferecer alguns exemplos.

Logo nos primeiros livros bíblicos, que são os chamados “livros da lei”, são nos apresentadas listas de normas que organizam a vida em sociedade. Entre as várias espécies de leis, há algumas que tratam da condição dos mais pobres, estabelecendo regras e condutas que evitem a exploração e a opressão sobre os despossuídos de bens. A seguir, selecionei algumas:

“Sempre haverá pobres na terra. Portanto, eu ordeno a você que abra o coração para o seu irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de sua terra”. Deuteronômio 15:11

"Quando fizerem a colheita da sua ter­ra, não colham até as extremidades da sua ­la­voura nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vi­nha nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem-nas para o necessitado e para o estran­geiro. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês”. Levítico 19:9-10

"Se alguém do seu povo empobrecer e não puder sustentar-se, ajudem-no como se faz ao estrangeiro e ao residente temporário, para que possa continuar a viver entre vocês. Não cobrem dele juro algum, mas temam o seu Deus, para que o seu próximo continue a viver entre vocês. Vo­cês não poderão exigir dele juros nem lhe emprestar mantimento visando a algum lucro. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês, que os tirou da terra do Egito para dar a vocês a terra de Canaã e para ser o seu Deus”.  Levítico 25-35-38

“Também seis anos semearás tua terra, e recolherás os seus frutos; mas ao sétimo a dispensarás e deixarás descansar, para que possam comer os pobres do teu povo, e da sobra comam os animais do campo. Assim farás com a tua vinha e com o teu olival”. Êxodo 23.10-11

No livro de Provérbios, que se trata de uma coletânea de sabedoria popular coletada, temos: “Oprimir o pobre é ultrajar o seu Criador, mas tratar com bondade o necessitado é honrar a Deus”. Provérbios 14.31

Já os profetas são pródigos em mensagem que denunciam a existência da pobreza como resultado de injustiças.

“Assim diz o Senhor: Por três transgressões de Israel, e por quatro, não retirarei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos, suspirando pelo pó da terra, sobre a cabeça dos pobres, pervertem o caminho dos mansos; e um homem e seu pai entram à mesma moça, para profanarem o meu santo nome”. Amós 2:6,7

“Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: Soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado”. Ezequiel 16:49

No Novo Testamento, temos recomendações nas cartas apostólicas a respeito da situação dos pobres e, também, as falas e gestos de Jesus em relação a esse grupo social, propondo um olhar específico e especial aos “desafortunados” da terra.

Em meu entendimento, a partir dos textos bíblicos, a existência de pobres e a realidade da pobreza manifestam algo ruim e errado na sociedade humana. “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. Aliás, se pensamos em “sociedade humana”, pensamos em pessoas, humanas, associadas entre si. Associadas para juntas sobreviverem neste “mundão de Deus.” No entanto, ao logo da história dessa sociedade humana, ouvimos falar e mesmo presenciamos que pessoas, humanas, associam-se para empreender guerras, para conspirar contra algo, para repartir os despojos da rapina, para manter o “status quo”, para formar condomínios e guetos e para tantas outras “obras” nem sempre louváveis. Pouco ou nada há na direção de uma associação que nasça e frutifique no empenho, humano, de buscar meios de superação da pobreza e a retirada de um sem números de pessoas, humanas, da condição de pobre.

Entendo, e creio, que a mensagem evangélica, isto é, fundamentada no Evangelho conforme as Sagradas Escrituras, é uma proclamação libertária que conclama as pessoas, humanas, a se humanizarem, indicando que não estão sozinhas nesse empenho, mas, antes, amparadas pela fé NAquele que se manifesta no texto bíblico: “O Senhor despediu vazios os ricos”. Junto com essa verdade alvissareira, humanizar-se implica e inclui sair da condição de pobre. A mensagem evangélica, antes de ser um chamado à santificação, separando pessoas deste “mundão de Deus, é um convite à humanização das pessoas. A pobreza, consequência direta da ação (des)humana de exploração, escravização, espoliação e indiferença ao outro, é uma bestialização de pessoas, humanas, atiradas à sua própria sorte, em um mundo cruel sustentado pela injustiça social e segregação entre pessoas, humanas, que competem entre si numa aguerrida batalha por sobrevivência, a qual tem se revelado, ou se manifestado, dia após dia, como uma massacre de fortes sobre fracos, sem nos esquecermos de que os fortes, ao longo da longa história da humanidade, fortaleceram-se às custas dos fracos.

Os pobres não estão na Bíblia por nada. Não estão nas páginas das Sagradas Escrituras como alvo de caridade dos filhos de Deus. Os pobres não aparecem no livro sagrado dos cristãos para serem objeto de misericórdia. Não. Estão ali para revelar os descaminhos da humanidade. E não devem ser vistos como desfavorecidos por Deus, ou por Ele não abençoados. A pobreza não é causada por “demônios da pobreza”, nem é um castigo divino para pessoas desobedientes aos mandamentos bíblicos. A pobreza não é fruto de pecado ou maldição, mas obra conjunta da ganância, do individualismo, da falta de empatia, da sede de poder e do medo de perder um suposto poder.

Na Bíblia, os pobres têm uma certa primazia na ação de Deus em prol da humanidade. Jesus andou entre eles e foi um deles: “As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Mateus 8.20. E até na sua morte, precisou de um túmulo emprestado. Com seus discípulos, andou pelas beiradas das plantações, colhendo espigas de trigo em dia de sábado, seguindo leis de Moisés que permitiam que os pobres assim o fizessem, sem serem importunados por isso pelos agricultores. “Em dia de sábado, Jesus atravessava umas plantações; seus discípulos iam colhendo espigas {de trigo}, as debulhavam na mão e comiam. Alguns dos fariseus lhes diziam: Por que fazeis o que não é permitido no sábado?” Lucas 6.1-2 e “Quando segardes a messe na vossa terra, não colhereis até as extremidades da lavoura, tampouco recolhereis as espigas que caem aos vossos pés durante a colheita. Deixareis essa parte para o pobre e para estrangeiro. Eu Sou Yahweh, o SENHOR, o vosso Deus!”. Levítico 23.22

Como escrevi acima, a Bíblia é uma mensagem libertária. Não é uma conclamação à luta de classes, mas à dissipação da separação entre as pessoas. Assim, a pobreza não tem lugar no propósito redentor da humanidade apregoado por profetas e apóstolos. A riqueza também não tem lugar, na mediada em que ela é construída (e sustentada) sobre a exploração de um homem sobre outro homem. Gosto de um hino, pouco cantado nas igrejas, intitulado “Que estou fazendo se sou cristão?”. Em uma das estrofes temos a frase “a vil miséria insulta os céus”. É isso! Pobreza, miséria e carestia estão na Bíblia, mas não são bíblicas. São, antes, uma denúncia da falta de fé, de amor e de fidelidade Àquele que “faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos”. Mateus 5.45 

Nas linhas bem traçadas das Sagradas Escrituras, os “pobres da terra” são mencionados para que sejam lembrados. Lembrados, vistos, percebidos e socorridos. Se levarmos com seriedade e consideração que a proclamação bíblica é uma mensagem de que os seres humanos foram criados à imagem e semelhança” de Deus, não poderemos fazer vistas grossas para o fato, palpável e tangível, de que todos somos irmãos. Ora, se assim é, encerro com a recomendação bíblica: “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir seu a irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor e Deus”? Não é um versículo bíblico que apoia uma mudança estrutural na sociedade no que se refere às desigualdades sociais, mas uma atenção consciente ao que ele preconiza poderia bem ser o começo de uma revolução.

 

A.L.P.

 

 

 

domingo, 28 de abril de 2024

A Degradação humana : racismo, misoginia, xenofobia e transfobia na sociedade do capital.

 Iniciamos nossa reflexão trazendo um exemplo da degradação humana a que estamos sujeitos, desta vez em outra área da sociedade do capital diferente da que trataremos no texto (entretenimento), a política burguesa. Apreciem com moderação a solução para os males atuais apresentada por este ser miserável, um verdadeiro expoente da mediocridade humana que grassa pelos quatro cantos do planeta...

"Este país não precisa de mais projetos de lei. Este país não precisa mais de emenda. Este país precisa de homens com testosterona. É isso que esse país precisa..."                            

  Nikolas Ferreira




Propomos uma reflexão sobre um vídeo do Humorista Tiago Santineli. Clic neste link para ver o vídeo antes de ler nossas observações: 

LACRAÇÃO NO HOMEM-ARANHA 😭


Vejamos o que nós Divergentes temos a dizer!

 

Os homens adultos preconceituosos que jogam videogame (como o do vídeo) assim como tantos outros, reclamam da chamada lacração que segundo eles estaria destruindo a sociedade, o que de fato equivale a afirmar de forma velada: - “sou racista, misógino, xenófobo, transfóbico...” e toda podridão em forma de preconceito!

 Pelas redes sociais podemos encontrar casos como o de um outro gamer que ficou alucinado pelo simples fato do Homem-Aranha em seu novo jogo – Marvel’s Spider-Man 2- ter como personagem mais relevante o Miles Morales e não Peter Parker. Tal fato o deixou transtornado devido ao fato da Mary Jane - mulher trabalhadora, jornalista – resolver por si seus próprios problemas, em lugar de se fazer presente a Gata Negra - uma mulher com uma roupa coladíssima ao corpo. A verdade é que para esse povo reacionário e enrustido, só pode existir o padrão de beleza burguês com homens brancos sheipados e mulheres seminuas. Talvez já tenha passado da hora e seja relevante nos perguntarmos sobre quais seriam os motivos que levam um ser humano adulto chegar ao ponto de se incomodar com tais questões, que tipo de sociedade é essa na qual a degradação humana é tão acentuada e com pessoas tão ridiculamente medíocres?!

Todo aquele que se volta contra o que é diferente - ou seria humano? - e vive a incomodar-se com o “politicamente correto”, no fundo é um reacionário e quer ter o "direito" de ser racista, transfóbico, enfim, de excluir os que não considera humanos, e defende que a exploração da humanidade por uma pequena parcela da população na sociedade do capital, prossiga sem freios...

Para aqueles que são a favor do respeito as diferenças, os chamados progressistas – leia-se principalmente os socialdemocratas -, o capital deve incluir todos como seres humanos, mas eles abstraem ou ignoram propositalmente um fator importantíssimo: O essencial para que o capitalismo prossiga vivo e forte, ele necessita da exploração de todos nós como portadores de capacidade de trabalho. Pouco importa para o ser do capital, o sexo, a cor da pele, a orientação sexual etc., de cada ser humano. Na porta de entrada do modo de produção capitalista há uma grotesca inscrição: "Arbeit macht frei" ("o trabalho liberta ou nos torna livres"); se na democracia burguesa a inscrição estará colorida e enfeitada com a inclusão e aceitação de todos na “roda de moer gente do Capital”, se na forma ditatorial, estará nua e crua como uma bofetada na cara do proletariado.

Por isso, dizemos: é obvio que para a sociedade burguesa, a inclusão de todos mostrará que no capitalismo tudo correrá maravilhosamente bem, visto que, com isso ela vai continuar legitimando a valorização do valor, servindo-se das "pautas identitárias" para vender mercadorias e explorar a força de trabalho sem limites; lucrando com a venda de filmes, cadernos, fantasias etc.

“A degradação humana aumenta na proporção direta a valorização do mundo das mercadorias.” Ou seja, quanto mais o capitalismo se coloca como defensor das identidades mais ele se valoriza e mais degenerada se torna a condição da humanidade.

Por isso, todo aquele que se volta contra o que é realmente característico do nosso ser -a diversidade-, no fundo é um reacionário e quer ter o "direito" de excluir a maior parte da humanidade de ser reconhecida humanamente.

Não temos nenhuma dúvida do quão importante é para as crianças, como nos demonstra Santinelli, o reconhecimento de sua identidade, de ser parte da humanidade. Evidencia-se assim que é realmente mágico para quem raramente o obteve, aquilo que deveria ser rotineiro: imagine que você nunca se viu em lugar algum de forma positiva a não ser em seus amigos e familiares do seu entorno, e de repente você se enxerga no seu herói favorito, quão avassalador deve ser o impacto desta visão, principalmente para sua autoestima. Agora sim ela/ele pode se considerar um ser humano incrível, e isso meus caros, os reacionários não toleram.

Temos que tomar muito cuidado para que tal encantamento não crie uma ilusão na nossa classe, e não a faça acreditar que ao ser reconhecida nas suas diferenças e por direito e merecimento, respeitada por isso, seus problemas estarão resolvidos. Na aparência pode ser que sim, pois ao conquistar o direito de vender sua força de trabalho e receber salários iguais para trabalhos iguais sem nenhuma forma de discriminação, ela poderá ter uma vida mais digna, afinal, agora "estarão" nas propagandas, anúncios e em todos os cargos e funções da sociedade do capital.

Mas a questão que nos preocupa é que se fosse algo que pudesse ser solucionado pelo capital com a educação e pelas oportunidades iguais para todos, ou seja, pela competição em iguais condições, pelo individualismo, você acha que   não o teriam feito a muito tempo? Pensamos que é a mesma falsa cura para todos os males pela milésima vez indicada, e assim dia após dia a degradação humana persiste arruinando a vida da nossa classe

E o que nós divergentes temos a acrescentar sobre tal questão?

Divergimos totalmente dos reacionários; e em comum com os progressistas temos a convicção de que toda a pluralidade é o que de fato nos faz humanos, no entanto, entendemos que a causa principal do problema é a sociedade do capital, portanto, a solução não será apenas  a adoção de uma atitude progressista e que com esta poderemos vir a ter um salto de consciência e aderir a luta pelo real fim da exploração e opressão.

Contra fatos não há argumentos. A verdade é que historicamente, tanto os reacionários quanto os progressistas (principalmente os socialdemocratas, que têm apoiado e defendido o capital com unhas e dentes, muitas vezes sendo coniventes com as ditaduras e o reacionarismo como males necessários), em última instância acabam se tornando um grande mal para a nossa classe, sua emancipação e para a destruição de toda forma de opressão, tudo que num primeiro momento dizem combater!

Para nós, só há uma maneira de ir à raiz de todas as formas de opressão e defender as mais diferentes formas de ser da humanidade: combatendo a exploração humana!

Contra a exploração humana só há a emancipação humana como solução!

Estamos num tempo de reconstruir laços, de nos unirmos e confiarmos somente em nós mesmos plantando a semente da organização para que no futuro toda forma de ser expresse a regra e não a exceção, uma sociabilidade humana de fato.

Encerramos com o exemplo emblemático de Fred Hampton (no vídeo abaixo), membro do Partido dos Panteras Negras demonstrando quem é nosso real inimigo, o capital, este sim nos explora de maneira brutal, perpetuando uma sociedade onde os reacionários como Nikolas Ferreira se sentem muito bem a vontade para oprimir e expor a mais brutal degradação humana por meio de suas palavras/ações e, pasmem, agora com o diferencial de nos trazer como a grande solução do século, um hormônio!




Todo poder para nossa classe proletária!

 

 

 

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Quarta parte: música e poesia como arma de resistência

 



“Os ventos da indignação nunca pararam de fazer ressoar as letras e as melodias que falavam de resistência e de liberdade. Atentos às sementes de rebeldia que a criatividade dos simples semeou nas páginas do tempo, vamos resgatar a greve operária na cidade de Lawrence, nos EUA. Seguiremos para a Itália, onde as trabalhadoras dos arrozais cantavam para fomentar a união e a luta. Encerraremos esta etapa na Rússia com as músicas de jovens mulheres que fizeram tremer os alicerces do Kremlin.”(E.G)


A história dos movimentos sociais revela que poemas e canções de protesto nasceram da vontade de expressar em músicas e versos os sofrimentos do cotidiano e a necessidade de vencer a passividade dos oprimidos. Enraizadas no terreno do vivido, as palavras cantadas e declamadas convidavam a resistir e a somar forças para mudar os rumos do presente.

Os grupos de poder procuraram deter estes corais de vozes que semeavam ideias e colhiam ações. Em nome de uma paz social que só beneficiava os seus interesses, usaram a violência policial, as prisões e os assassinatos para calar quem, vencido o medo, questionava uma ordem invariavelmente apresentada como justa e natural. 

Os ventos da indignação nunca pararam de fazer ressoar as letras e as melodias que falavam de resistência e de liberdade. Atentos às sementes de rebeldia que a criatividade dos simples semeou nas páginas do tempo, vamos resgatar a greve operária na cidade de Lawrence, nos EUA. Seguiremos para a Itália, onde as trabalhadoras dos arrozais cantavam para fomentar a união e a luta. Encerraremos esta etapa na Rússia com as músicas de jovens mulheres que fizeram tremer os alicerces do Kremlin.

 

 

4.1 Lawrence, 1912: a greve do pão e das rosas

Em 1910, o operariado da cidade de Lawrence, no estado de Massachusetts, fornecia 25% dos tecidos fabricados nos Estados Unidos. O fato de a força de trabalho ser majoritariamente composta por imigrantes estrangeiros não afetava a produção e os lucros empresariais.[1] Conhecer algumas palavras em inglês e prestar atenção ao que faziam os colegas era mais que suficiente para assimilar as tarefas a serem desempenhadas.

Para os patrões, as barreiras linguísticas eram uma benção. Com os operários não conseguindo se comunicar entre si no ambiente de trabalho e seguindo hábitos culturais que dificultavam o entrosamento fora do ambiente fabril, a probabilidade de uma greve prolongada era considerada inexistente.

Esta convicção era fortalecida por dois elementos igualmente importantes. O primeiro deles deitava raízes nas condições de vida miseráveis produzidas pelos baixos salários. Com a fome marcando presença constante nas famílias operárias, perder dias de pagamento por ter aderido a uma paralisação era um luxo que ninguém podia se permitir. Por outro lado, a quase totalidade dos empregados ganhava ordenados dos quais era impossível descontar a mensalidade das filiações sindicais. Isso fazia com que os dirigentes das principais entidades representativas do setor (vinculadas à Federação Americana do Trabalho - AFL, pela sigla em inglês) sequer aparecessem na cidade. 

Verdade que, em Lawrence, já haviam marcado presença também alguns dirigentes da Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW, pela sigla em inglês), uma central sindical de tendência anarquista, mas as pouquíssimas adesões conseguidas não preocupavam os empresários. Some isso ao fato de que, desde a fundação da cidade, em 1845, nunca haviam ocorrido paralisações que não pudessem ser imediatamente resolvidas com a demissão dos agitadores e entenderá por que os patrões se sentiam seguros e confiantes de que nada ameaçaria seus lucros.

A exploração do trabalho se refletia no panorama desolador em que vivia o operariado. A maioria morava em cubículos e, para reduzir o peso do aluguel e da calefação no orçamento doméstico, era comum que mais famílias se apinhassem no mesmo espaço. Do mesmo modo, a penúria forçava os pais a violarem a lei que não permitia o trabalho fabril de menores de 14 anos. Apesar da consciência dos riscos a que estavam submetidas as crianças, a maioria costumava mentir a idade dos filhos para que os magros salários por eles recebidos reduzissem o peso de suas necessidades nos gastos familiares.[2]

  Com a carne alçada à categoria de “bem de luxo”, a dieta diária era à base de pão, melaço e feijão. A desnutrição abria caminhos às doenças que matavam metade das crianças das famílias operárias antes dos seis anos de idade. Quem escapava deste flagelo não podia certamente esperar um futuro róseo. A soma de desnutrição, insalubridade das moradias e das fábricas, exaustão provocada pela jornada semanal de 56 horas, acidentes e doenças reduzia a esperança média de vida dos operários a 39 anos e 6 meses.[3]

Neste contexto, trabalharem todos e incessantemente aparentava ser a única forma de não aumentar os sofrimentos a que uma família era submetida. A revolta perdia seguidamente a batalha contra o conformismo de uma classe que, em pequena parte, havia participado de alguma luta em seu país de origem, mas que, ao procurar um futuro melhor nos EUA, apostava no sacrifício pessoal para dar aos filhos o que os adultos não iriam ter.

Em 1911, a redução do trabalho semanal de 56 para 54 horas, determinada pela Assembleia Legislativa de Massachusetts a partir de 1º de janeiro de 1912, fortalecia a crença de que as coisas iriam melhorar. Contudo, no dia 11 do mesmo mês, quando haveria o primeiro pagamento após a lei entrar em vigor, o operariado de Lawrence se deparou com uma surpresa amarga. Ao contar o dinheiro, as mulheres polonesas da Everett Cotton Mill foram as primeira a perceber que as duas horas a menos da jornada semanal haviam sido descontadas dos ordenados. Os 30 centavos de dólar tirados de cada uma delas eram o preço dos três pães que, a partir de agora, elas não poderiam mais comprar. A dieta que já era pobre, seria ainda mais fraca. Sem pensar duas vezes, as operárias da Everett desligaram os teares.

Na manhã seguinte, a constatação do desconto em outras fábricas fez a raiva se espalhar como um rastilho de pólvora. Metade do operariado da cidade entrou em greve imediatamente e, três dias depois, milhares de homens, mulheres e crianças se dirigiram às empresas que ainda estavam trabalhando para forçar a paralisação das atividades. Uma semana depois, o maquinário das indústrias têxteis de Lawrence estava às moscas.[4]

Uma mangueira anti-incêndio usada para afastar um piquete móvel nos primeiros dias da greve.

Com a polícia pronta a prender os piqueteiros por vadiagem, os trabalhadores criaram o “piquete em movimento”. Contingentes de uma centena de pessoas formavam uma corrente humana que ia de uma fábrica a outra para garantir a continuidade da greve. A espontaneidade ditava o ritmo das ações. Pedras eram lançadas contra as vidros das empresas ainda em atividade e as tentativas de invadir seus recintos eram repelidas pelos chefes com jatos de água gelada das mangueiras de incêndio. Seguidas provocações dos grevistas davam origem a embates com os policiais que aguardavam a chegada do exército para organizar a defesa armada das instalações.


Não demorou muito para que o operariado em luta percebesse a necessidade de ir além das ações e posturas adotadas. Os bloqueios armados pelo exército em volta das fábricas ameaçavam matar quem se aproximasse. A recusa dos patrões de sentarem à mesa de negociação e a perspectiva de ver a fome aumentar exponencialmente colocavam em risco a continuidade da greve. É neste contexto que, na segunda quinzena de janeiro, um grupo de operários entrou em contato com a IWW que enviou Joseph Ettor e Arturo Giovannitti para Lawrence.

Ambos perceberam logo que as barreiras linguísticas estavam entre as primeiras dificuldades a serem superadas. Apenas 8% dos grevistas havia nascido nos Estado Unidos e, ainda que todos conhecessem palavras ou frases em inglês, era impossível usar esta língua para os contatos que a greve demandava.[5] Foi assim que os sindicalistas criaram um comitê composto por dois representantes de cada grupo étnico. Além de assumirem o comando da paralisação e se capacitarem para as negociações, cabia a eles reunir as demandas dos operários e traduzir os pontos principais de cada reunião nos 25 idiomas falados nas fábricas.

A ampliação dos laços de solidariedade entre as famílias das diferentes nacionalidades foi outro elemento essencial para contornar as dificuldades imediatas. Para dar conta dos rigores do inverno, carvão para a calefação e para cozinhar, roupas quentes, cobertores, alimentos, bem como qualquer doação recebida, eram partilhados segundo as necessidades e as disponibilidades do momento. Com os recursos disponíveis, foi montado também um refeitório no qual os grevistas poderiam comprar uma refeição a preço de custo enquanto seus filhos e filhas comiam gratuitamente um prato de comida quente. Equipes de operários e operárias fizeram com que este serviço funcionasse durante parte considerável da paralisação.

Autoridades e empresários não demoraram a perceber que a resistência organizada pela IWW dificilmente seria vencida sem medidas drásticas. Numa escolha coordenada com o aparato repressor, o chefe da Companhia Americana da Lã, William Wood, contratou um agente funerário local para plantar dinamite nos locais onde os grevistas costumavam se reunir. A descoberta dos explosivos pelas forças de segurança desacreditaria a greve e justificaria que a mesma fosse sufocada num banho de sangue. Felizmente, o tiro saiu pela culatra, pois um grupo de grevistas encontrou os jornais com as matérias que anunciavam os resultados das batidas policiais antes que as mesmas tivessem sido realizadas.[6]

Fracassado o primeiro plano, a segunda tentativa visava neutralizar os sindicalistas da IWW. No dia 29 de janeiro, a milícia encurralou um grande grupo de manifestantes. Depois de vários empurrões, um tiro matou Annie Lo Pizzo, uma mulher de 34 anos que participava dos protestos. A polícia acusou Joseph Ettor e Arturo Giovannitti pelo assassinato. Os dois sindicalistas, que sequer se encontravam no lugar na hora do disparo, foram presos sem direito a fiança. Em abril, um mês após o encerramento da greve, José Caruso, foi detido sob a mesma acusação. Todos foram absolvidos no dia 26 de novembro depois de inúmeros protestos de rua e embates jurídicos.[7]


De esquerda para direita: José Caruso, Joseph Ettor e Arturo

Contudo, a prisão de Ettor e Giovannitti não teve o efeito esperado. A IWW enviou imediatamente Elizabeth Gurley Flynn e Bill Haywood para substitui-los. A avaliação dos acontecimentos levou os sindicalistas recém-chegados a mostrarem que provações, agressões e violências contra agentes e edifícios voltariam como um bumerangue que atingiria os grevistas com força muito maior.

Desde o início, as autoridades vinham justificando a crescente repressão como resposta às ações dos grevistas que eram reprovadas pela população. Entre os casos registrados pelas crônicas policiais, resgatamos o que ocorreu quando três operárias se depararam com um agente que caminhava sozinho sobre uma ponte próxima ao parque fabril. Aceleraram o passo, investiram contra ele, tiraram a arma, o porrete, o distintivo e as calças, deixando-o amarrado nos seus suspensórios sobre o chão gelado. Ao comentar o ocorrido, o promotor distrital disse:

“Um policial pode lidar com dez homens, enquanto são necessários 10 policiais para lidar com uma mulher”.[8]

Se, de um lado, estas palavras soavam como um elogio à determinação e à coragem das operárias, de outro, eram o prenúncio de que a violência policial aumentaria ainda mais. A própria Elizabeth, ao narrar os acontecimentos posteriores, escreveu em sua autobiografia:

“À medida que o terrível inverno da Nova Inglaterra se arrastava, o terror e a violência aumentavam. Em 19 de fevereiro de 1912, policiais com cassetetes derrotaram 100 mulheres que estavam na manifestação. Ao desferir um único golpe certeiro, o cassetete derrubava a mulher no chão como um tiro e, instantaneamente, a polícia a atacava puxando-a de todas as maneiras possíveis”.[9]

Os fatos mostravam que estava na hora de empregar a bravura para garantir a continuidade da greve e não para ações que aumentariam a fúria com a qual os policiais investiam contra os manifestantes. As mulheres compreenderam logo que manter a paralisação total do trabalho era o golpe mais forte que o operariado podia desferir naquele momento e que todos os esforços deviam ser dirigidos para que as fábricas permanecessem inoperantes. Por isso, assumiram a dianteira dos piquetes móveis e das manifestações; trataram de acalmar os ânimos de quem não via a hora de ir pelas vias de fato; se encarregaram de manter um trabalho de contrainformação com os comerciantes e as pessoas que se encontravam nas lojas, ruas e praças de Lawrence para ampliar o apoio à greve.

Só uma coisa não mudou: o operariado de Lawrence estava sempre cantando. Ao falar disso em sua reportagem na The American Magazine, Ray Stannard Baker escreve:

“É a primeira greve onde vi as pessoas cantarem. Não esquecerei tão cedo a curiosa elevação, o estranho fogo repentino das nacionalidades misturadas nas reuniões da greve, quando irrompiam na linguagem universal da canção. Não cantavam só nas reuniões, mas também nas casas de sopa [onde havia refeições gratuitas para as crianças] e nas ruas”.[10]

Em línguas diferentes a depender da composição étnica do piquete, os imigrantes encontravam nos cantos de luta conhecidos e nos que foram criados durante a greve a expressão comum de uma revolta que unia, marcava presença em todos os bairros da cidade e assustava quem sempre havia apostado na sua passividade. A letra da música “No bom e velho piquete” é a única que a nossa pesquisa conseguiu recuperar. Nela, os grevistas ironizam Mr. Lowe, dono de uma das grandes fábricas de Lawrence, e colocam a sindicalista da IWW, Elizabeth Gurley Flynn, na chefia. Vamos à letra:

No bom e velho piquete, no bom e velho piquete.

Os trabalhadores vêm de todos os lugares,

de quase todos os climas.

 

Os gregos e os polacos estão muito fortes,

os alemães estão o tempo todo,

Mas queremos ver mais irlandeses,

no bom e velho piquete.

 

No bom e velho piquete, no bom e velho piquete,

vamos vestir o Sr. Lowe de macacão

e [fazê-lo] desistir de beber vinho.

 

Então Gurley Flynn será o chefe.

Elizabeth Gurley Flynn, em 1913.

Oh Deus, isso não vai ficar bem.

Os grevistas usarão diamantes no bom e velho piquete.[11]

Era no bom e velho piquete que todas as etnias experimentavam o significado e o poder da sua união. Uma união que queria o patrão de macacão sendo obrigado a renunciar aos prazeres da vida, simbolizados pelo vinho, e a sindicalista no comando da geração e da distribuição da riqueza. Realizada esta mudança, a vida mudaria radicalmente. O bom e velho piquete, criado para ter de volta os três pães tirados de suas mesas pelos descontos da redução da jornada, faria com que, graças às vitórias alcançadas, os grevistas usariam diamantes ao participar de um futuro bom e velho piquete.

Bill Haywood, em 1916.

Viver o cotidiano do movimento permitia que as pessoas transitassem da reivindicação que lhe havia dado origem, para a defesa do direito à vida e ao respeito do trabalho e do trabalhador. Esta evolução nascia de uma união que, ao incorporar as formas de resistência e cooperação de cada grupo étnico, superava as barreiras criadas pelas fronteiras dos países de origem.[12]

Ao perguntar a um grupo de italianos presentes numa reunião de que país eles eram, Bill Haywood recebeu uma resposta inesperada:

“Somos trabalhadores industriais do mundo”.[13]

Bill Haywood, em 1916.

Agora, no lugar de usar as nossas palavras, vamos deixar que seja a carta aberta que os grevistas dirigiram à população de Lawrence, no final de fevereiro de 1912, a mostrar a leitura dos acontecimentos e a percepção de seus interesse enquanto classe trabalhadora que a greve havia proporcionado:

Nós, os 20.000 trabalhadores têxteis de Lawrence, estamos em greve pelo direito de viver livres da escravatura e da fome; livre de excesso de trabalho e de salários insuficientes; livres de um estado de coisas que tinha se tornado tão insuportável e fora do nosso controle a tal ponto que fomos obrigados a marchar para fora dos currais de escravos de Lawrence em resistência unida contra os erros e injustiças de anos de escravatura assalariada.

Em nossa luta, sofremos e suportamos pacientemente os abusos e as calúnias dos proprietários das fábricas, do governo municipal, da polícia, da milícia, do governo estadual, do legislativo e do juiz do tribunal de polícia local. Sentimos que, por uma questão de justiça com os nossos colegas trabalhadores, deveríamos neste momento dar a conhecer as causas que nos levaram a atacar os proprietários das fábricas de Lawrence.

Afirmamos que, como membros úteis da sociedade e como produtores de riqueza, temos o direito de levar uma vida decente e honrada; que deveríamos ter casas e não barracos; que deveríamos ter alimentos limpos e não adulterados e a preços elevados; que deveríamos ter roupas adequadas ao clima e não roupas de má qualidade. Para garantir comida, vestuário e abrigo suficientes numa sociedade composta por uma classe de ladrões, por um lado, e por uma classe trabalhadora, por outro, é absolutamente necessário que os trabalhadores se unam e formem um sindicato, organizando os seus poderes de tal forma que lhes pareça mais provável atingir sua segurança e felicidade.

A prudência, na verdade, ditará que as condições há muito estabelecidas não devem ser alteradas por causas leves ou transitórias e, portanto, toda a experiência tem mostrado que os trabalhadores estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são sofríveis, do que a corrigi-los, atacando a miséria a que estão habituados. Mas quando uma longa série de abusos e maus-tratos, que perseguem invariavelmente o mesmo objetivo, evidencia o desígnio de reduzi-los a um estado de mendicância, é seu dever resistir a tais táticas e ter novas proteções para a sua segurança futura. Tal tem sido o sofrimento paciente destes trabalhadores têxteis, e tal é agora a necessidade que os obriga a lutar contra a classe proprietária das fábricas.

A história dos atuais usineiros é uma história de seguidos abusos, todos tendo por objetivo o estabelecimento de uma tirania absoluta sobre estes trabalhadores têxteis. Para provar isto, deixemos que os fatos sejam apresentados a todos os homens e mulheres de pensamento correto do mundo civilizado. Estes usineiros recusaram-se a reunir-se com os comités de grevistas. Recusaram-se a considerar as suas reivindicações de qualquer forma que fosse razoável ou justa.

Eles, na segurança de seus suntuosos escritórios, atrás de robustos portões e fileiras cerradas de baionetas e cassetetes de policiais, desafiaram o Estado, a cidade e o povo. Na verdade, a cidade de Lawrence e o governo de Massachusetts tornaram-se criaturas dos proprietários das fábricas. Declararam que não negociarão com os grevistas até que estes voltem à escravatura contra a qual se rebelam. 

Eles deixaram os trabalhadores famintos e os levaram a tal ponto que suas casas não são mais lares, na medida em que as mães e as crianças são levadas pelos baixos salários a trabalharem ao lado do pai na fábrica por um salário que significa a mera sobrevivência e a morte prematura. A grande taxa de mortalidade de crianças com menos de um ano de idade em Lawrence prova que a maioria destas crianças morrem porque passaram fome antes do nascimento. E aqueles que sobrevivem à fome tornam-se vítimas da desnutrição.

A brutalidade da polícia ao lidar com os grevistas despertou-nos para um estado de oposição rebelde a todos esses métodos de manutenção da ordem. Os crimes da polícia durante este enfrentamento estão quase além da imaginação humana. Eles arrastaram meninas de suas camas à meia-noite. Bateram nos manifestantes em todas as oportunidades. Arrastaram crianças dos braços das mães e com os seus porretes bateram em mulheres grávidas. Eles colocaram pessoas na prisão sem qualquer motivo. Eles impediram as mães de enviarem os seus filhos para fora da cidade e agarraram violentamente as crianças e as mães e atirando-as em carroças de patrulha como se fossem lixo.

Eles causaram a morte de um grevista ao levar os grevistas a um estado de violência. Eles prenderam e espancaram rapazes e prenderam moças inocentes que nada haviam feito.

A milícia usou todos os tipos de métodos para derrotar os grevistas. Eles golpearam um menino com a baioneta. Eles espancaram os grevistas. Eles receberam ordens de atirar para matar. Eles assassinaram um jovem, que morreu em consequência de uma baioneta nas costas. Ameaçaram de morte um grevista se ele não fechasse a janela de sua casa. Eles ameaçaram ficar nesta cidade até o fim da greve. Eles atacaram um cidadão com baionetas porque ele não se movia rápido o suficiente. E eles detiveram na ponta da baioneta centenas de cidadãos e veteranos da Guerra Civil.


Lawrence 1912: um piquete móvel encurralado pelas baionetas da milícia.

Lawrence 1912: grevistas reunidos no Common.


 A prefeitura negou aos grevistas o direito de desfilar pelas ruas. Eles abreviaram as reuniões públicas ao recusar aos grevistas o uso da Câmara Municipal e dos espaços públicos para reuniões públicas. Eles transformaram os edifícios públicos da cidade em hospedarias para um exército de mercenários e açougueiros. Negaram aos grevistas o direito de usar o Common para reuniões de massa e ordenaram à polícia que afastasse as crianças dos seus pais, e são responsáveis ​​por toda a violência e brutalidade por parte da polícia.


O Legislativo de Massachusetts recusou-se a usar qualquer quantia do dinheiro do Estado para ajudar os grevistas. Votaram 150.000 dólares para manter um exército de 1.500 milicianos prontos a abater homens, mulheres e crianças inocentes que estão em greve por um salário digno. Recusaram-se a usar os poderes do Estado em favor dos trabalhadores. Nomearam comissões de investigação, que declaram, depois de perceberem os sinais de sofrimento dos grevistas de qualquer país de origem, que não há problemas com estas pessoas.

Todas as nações do mundo estão representadas nesta luta dos trabalhadores por mais pão. O filho louro do Norte marcha, lado a lado, com seu irmão moreno do Sul. Eles trabalharam juntos na fábrica para um único chefe. E agora uniram-se numa grande causa e puseram de lado todos os preconceitos raciais e religiosos em prol do bem comum, determinados a obter uma vitória sobre a ganância dos proprietários das fábricas corruptos e insensíveis, que governaram este povo durante tanto tempo com o chicote da fome e do desemprego.

Proscritos, com os filhos tirados deles, privados dos seus direitos perante a lei, cercados pelas baionetas da milícia e conduzidos para cima e para baixo nas ruas da cidade por um corpo policial superalimentado e arrogante, nós, trabalhadores têxteis, filhos e filhas da classe trabalhadora, apelamos a todo o mundo civilizado para testemunhar o que sofremos nas mãos dos mercenários da classe proprietária das fábricas. Estes homens e mulheres não podem sofrer por muito mais tempo; eles serão obrigados a levantar-se em revolta armada contra os seus opressores se for permitido que a atual situação continue em Lawrence.[14]

À medida que o tempo passava e os patrões se recusavam a negociar, a solidariedade escasseava. As doações eram insuficiente para que os filhos e filhas das famílias operárias de Lawrence não sentissem ainda mais fome e frio. As doenças e as mortes se tornaram mais frequentes e o sofrimento gerado pelas perdas estava abalando o espírito de luta e a coragem que mulheres e homens vinham demonstrando desde o início da paralisação.

Esta foto apareceu na primeira página do The Day Book, em 21/02/1912 e retrata a chegada de um grupo de crianças de Lawrence em Nova Iorque. Na faixa principal: “Um dia lembraremos do exílio!”


A situação foi amenizada quando, acatando a sugestão dos sindicalistas da IWW, as crianças foram passar um tempo nas casas de quem dispunha de melhores condições econômicas.

Bill e Elizabeth haviam entrado em contato com amigos socialistas de Nova Iorque que publicaram anúncios apelando às famílias de toda a Costa Leste para que acolhessem as crianças cujos país estavam em greve. Centenas de pessoas responderam ao apelo e cerca de 700 crianças foram beneficiadas pela solidariedade de lares que em Nova Iorque, Vermont, Filadélfia e outras cidades menores tinham condições de vesti-las e alimentá-las.


O “Exílio das crianças”, como foi chamado este processo, já havia se mostrado uma estratégia bem-sucedida em paralisações prolongadas ocorridas na Bélgica, na Itália e na França. Além de aliviar as famílias, os contatos com a realidade operária de Lawrence através dos relatos dos pequenos levaram mais gente a apoiar a greve.[15]

No dia 24 de fevereiro de 1912, cerca de 40 crianças acompanhadas por suas mães aguardavam na estação ferroviária da cidade o trem que as levaria para Filadélfia. A polícia interveio com requintes de crueldade. Bateu em todo mundo e prendeu muitas mulheres e crianças. Uma mãe grávida abortou. Levadas à delegacia, as mulheres se recusaram a pagar a fiança em sinal de protesto e optaram por ficarem presas, incluídas as que estavam com crianças de colo.

A aprovação do acordo que marcou o fim da greve.

Estampadas em vários jornais do país, as notícias do ocorrido atraíram as atenções para Lawrence. A esposa do Presidente da República manifestou a sua indignação e o Congresso dos Estados Unidos realizou várias audiências públicas. Nelas, os deputados recolheram testemunhos dos abusos que vinham sendo cometidos nas fábricas e das arbitrariedades perpetradas por policiais e soldados durante a greve. Era tudo o que a elite local não queria.

Desmascarados e encurralados, os patrões tiveram que ceder. No dia 14 de março, o acordo votado em praça pública previa aumentos salariais de 5% a 25%, a semana de 54 horas, o pagamento em dobro das horas extras, o fim dos prêmios de produção (cujas regras remuneravam poucos enquanto forçavam todos a trabalharem muito mais) e a não punição dos grevistas.[16]


A greve de Lawrence se tornou um marco na história da classe trabalhadora estadunidense e continua sendo lembrada nos dias atuais como “a greve do pão e das rosas”. A referência ao pão, guarda uma relação direta com aos pães que os operários deixariam de comprar pelo desconto correspondente à redução da jornada de trabalho. As rosas vêm do poema de James Oppenheim, publicado na The American Magazine, em dezembro de 1911, pouco antes do início da paralisação.

 Os versos que seguem com a correspondente tradução em português foram musicados anos depois. Você pode ter acesso a uma das versões pelo link https://drive.google.com/file/d/1TF6bcLghGVGwMIAv5Kg7wPUfNY_1eZt0/view?usp=drivesdk

 

Bread and Roses[17]

[Pão e Rosas]

 

As we go marching, marching in the beauty of the day

[À medida que marchamos, marchamos na beleza do dia]

 

A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray

[Um milhão de cozinhas escuras, mil sótãos de moinho cinzentos]

 

Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses

[São tocados com todo o brilho que um sol repentino revela]

 

For the people hear us singing: bread and roses, bread and roses

[Pois o povo nos ouve cantando: pão e rosas, pão e rosas]

 

As we go marching, marching, we battle too for men

[À medida que marchamos, marchamos, nós também lutamos pelos homens]

 

For they are women's children and we mother them again

[Pois eles são filhos de mulheres e nós somos mães deles novamente]

 

Our lives shall not be sweatened from birth until life closes

[Nossas vidas não serão suadas do nascimento até que a vida termine]

 

Hearts starve as well as bodies.

[Os corações morrem de fome assim como os corpos.]

 

Give us bread, but give us roses!

[Deem-nos pão, mas deem-nos rosas!]

 

As we go marching, marching, unnumbered women dead

[À medida que marchamos, marchamos, inúmeras mulheres mortas]

 

Go crying through our singing heir ancient call for bread

[Vão chorando através do nosso canto seu antigo clamor por pão]

 

Small art and love and beauty their drudging spirits knew

[Pequena arte, amor e beleza seus espíritos oprimidos conheciam]

 

Yes, it is bread we fight for, but we fight for roses too

[Sim, é pelo pão que lutamos, mas também lutamos pelas rosas]

 

As we go marching, marching, we bring the greater days

[À medida que marchamos, marchamos, nós trazemos os melhores dias]

 

The rising of the women means the rising of the race

[Pois a ascensão das mulheres significa a ascensão da raça]

 

No more the drudge and idler - ten who toil where one reposes

[Chega de escravo e preguiçoso - dez que trabalham duro onde um repousa]

 

But the sharing of lives glories. Bread and roses, bread and roses.

[Mas a partilha das glórias de vidas. Pão e rosas, pão e rosas]

 

Os historiadores ainda discutem se as mulheres de Lawrence usaram os termos pão e rosas em seus cantos, cartazes, palavras de ordem, passeatas e demais momentos da luta. O importante para nós é constatar que elas encarnaram cada palavra do poema. Os dois meses de luta aos quais dedicaram corpo e alma eram o sol que iluminava as cozinhas escuras e os sótãos cinzentos onde a vida era consumida sem esperança na dura exploração do trabalho e nos sofrimentos de uma existência miserável.

Sim, em cada instante da greve elas viviam o antigo clamor por pão de milhões de vítimas da desnutrição, mas também a luta pelas rosas, ou seja, pelas coisas boas da vida. Nas ruas e praças de Lawrence, as mulheres não pediam licença para assumir o comando, simplesmente, faziam a luta acontecer ao batalharem, lado a lado, com os homens. Na dianteira dos momentos mais duros e perigosos, elas marcavam os passos do longo caminhar para uma realidade na qual não haveria ninguém que fosse escravo e nenhum preguiçoso que ficasse olhando dez que se esfolavam de tanto trabalhar. Um mundo onde todos trabalhariam para viver e a “partilha das glorias da vida” distribuiria entre todos as riquezas produzidas.

No dialogo entre a arte e os movimentos, o próprio Oppenheim oferece o seu poema a mulheres diferentes. Na publicação de dezembro de 1911, o havia dedicado às “Mulheres do Ocidente” das quais teria ouvido a expressão “pão e rosas” pela primeira vez. Em 1915, quando os seus versos foram publicados no livro The Cry for Justice: An Anthology of the Literature of Social Protest (O Clamor pela Justiça: uma Antologia da Literatura do Protesto Social), o poeta ofereceu a sua arte às mulheres de Lawrence. Ao fazê-lo, escreve:

“Numa passeata de grevistas em Lawrence, Massachusetts, algumas jovens carregavam uma faixa com os dizeres: Queremos pão e rosas também!”.[18]

Passado mais de um século daquele longínquo primeiro trimestre de 1912, anualmente, no dia 1º de maio, o Heritage Festival de Lawrence celebra a diversidade étnica e a história das lutas operárias da cidade. A música “Pão e Rosas” continua sendo cantada neste evento e em várias outras manifestações de protesto como o legado de uma construção que ainda não terminou.[19]

Das fábricas de Lawrence, seguimos agora para os arrozais do norte da Itália onde outros cantos marcaram o ritmo do trabalho e da luta.

 

4.2 Itália 1880-1965: as mulheres dos arrozais enfrentam seus feitores

Entre maio e junho de cada ano, nas planícies formadas pelo rio Pó, no norte da Itália, grupos de mulheres saiam dos vilarejos onde moravam para trabalhar nos arrozais. Eram chamadas de “mondine” por realizarem a “monda”, ou seja, a erradicação das ervas daninhas que sufocariam os pés de arroz a serem transplantados. Parte destas trabalhadoras sazonais morava nas proximidades dos campos de cultivo e parte vinha de outras regiões.

Trazer gente de fora tranquilizava os fazendeiros. As mulheres dos vilarejos a centenas de quilômetros dos arrozais não se conheciam e, de consequência, levariam mais tempo para tecer laços capazes de dar vida a qualquer forma organizada de protesto nos 45-55 dias em que trabalhariam juntas. Do mesmo modo, o fato de encararem a viagem em vagões ferroviários destinados ao transporte do gado para se esfolarem em um ambiente infestado por ratos, sanguessugas, insetos e cobras d’água eram um sinal de que a pressão da miséria familiar desaconselharia a perder dias e horas de serviço.

Um celeiro adaptado para servir de dormitório.


Ao desembarcar nas estações ferroviárias mais próximas, as mondinas colocavam nos ombros os sacos de tecido ou as pequenas malas de papelão com seus pertences e se dirigiam aos celeiros que serviam de dormitório. Colchões de palha e alguns fios de varal eram tudo o que encontravam naquelas acomodações improvisadas. A água para beber e cozinhar vinha dos poços cavados nas proximidades do alojamento, mas para lavar roupas, louças e tomar banho, as mulheres contavam apenas com algum riacho próximo.

Acordadas antes das cinco da manhã as mondinas tomavam um pouco de leite com pão e iam a pé ao arrozal. Três horas antes do almoço e sem que ninguém deixasse o seu posto, o feitor entregava a cada uma delas um pedaço de pão e uma concha metálica cheia d’água.


As necessidades fisiológicas era feitas recuando um pouco em relação às demais para não atrapalhar o andamento do trabalho. Quem podia aguentar, esperava a hora do almoço para se aliviar atrás de uma árvore ou em algum lugar mais afastado do grupo, pois este era o único momento em que era consentido sair do arrozal.

Curvadas, com a água entre os joelhos e os tornozelos, as mãos arrancado as ervas daninhas ou plantando as mudas, um lenço ou um chapéu de palha na cabeça, as mondinas usavam vestidos ou calças curtas, meias de algodão e mangas cumpridas para proteger as pernas e os braços das picadas dos insetos. As mangas cumpridas serviam também para esconder alguma rã capturada durante a labuta, ovos de pássaros retirados dos ninhos ou uma batata “roubada” a fim de enriquecer as magras refeições à base de arroz, feijão, polenta e, raramente, macarrão. 

As condições de trabalho da limpeza do terreno e do plantio das mudas.



Descalças no meio da lama, sob a chuva ou o sol, as mulheres formavam filas paralelas que seguiam em marcha ré nas quadras de terra que lhes eram destinadas durante uma jornada que variava de dez a doze horas diárias. A necessidade de avançarem juntas para garantir um trabalho sem falhas levava as mais rápidas a ajudarem as mais lentas, criando assim importantes momentos de solidariedade.
[20]

Os elementos que acabamos de listar permitem perceber que o equilíbrio entre a necessidade de se conformar para garantir algum recurso que minorasse a miséria e a possibilidade de alguma expressão revolta era sempre instável e incerto. O passado já havia mostrado aos fazendeiros que o fato de as mulheres não se conhecerem, por si só, não impedia que elas paralisassem o serviço naquele que era um momento delicado do cultivo do arroz.

Por outro lado, levar um grupo a sair do conformismo para a indignação e, desta, para a resistência organizada não era uma tarefa simples nas 7-9 semanas em que as pessoas trabalhavam juntas. As concepções religiosas que associavam a pobreza à vontade divina impregnavam o imaginário popular. Muitos padres pregavam o respeito sagrado às autoridades, apontavam o empregador como alguém sem o qual as pessoas não teriam sequer o pouco que conseguiam e afirmavam que o inferno era o destino de quem subvertia a ordem. Some o efeito apaziguador destes elementos ao medo que as mondinas tinham de não serem contratadas no ano seguinte e entenderá por que estimular a rebeldia demandava superar uma longa série de bloqueios e preocupações. Inúmeros os relatos de mães que, diante da exaustão das filhas ou de suas expressões de revolta reafirmavam a necessidade de aceitar a própria sina dizendo:

“Temos que ficar caladas. Eles é que mandam. Se nos rebelamos, para nós, não haverá mais trabalho”.[21]

Como organizar a resistência num cenário onde a resignação era de casa?

O primeiro passo veio da resposta ao silêncio imposto durante o trabalho. Os feitores proibiam às mulheres de conversarem durante a monda. De um lado, temiam que, ao se distraírem, elas tanto reduziriam o ritmo de trabalho, como deixariam para trás parte das ervas daninhas. De outro, patrões e encarregados temiam que estes contatos verbais, cujo conteúdo não conseguiam ouvir, fossem confabulações com as quais as mondinas preparavam alguma “vingança”. Por isso, as repreensões não dispensavam gritos, palavrões, ameaças, blasfêmias e, não poucas vezes, o capataz interrompia a conversa descendo nas costas das conversadeiras o bastão no qual se apoiava.

Foi para reagir a esta proibição que as mondinas começaram a entoar músicas conhecidas nos ambientes rurais da época. O repertório incluía letras que falavam de amor e de saudade, de patriotismo e da coragem de corpos especializados do exército. Outras  ironizavam normas morais da igreja, faziam gozação das “pessoas de bem” que as discriminavam por sua condição social e até se aventuravam nos terrenos proibidos de uma sexualidade sempre apontada como algo pecaminoso e degradante. Punir todas elas por cantarem juntas seria impossível e contraproducente, pois estimularia a vontade de dar o troco aumentando o volume da voz ou respondendo às humilhações sofridas com músicas e atitudes mais raivosas e ofensivas.

Passado algum tempo, o cantarem juntas produziu uma convergência de interesses. As mondinas conseguiam aliviar o cansaço, esquecer as dores do corpo, fazer o tempo passar mais depressa e até dar algumas risadas. Patrões e capatazes viram que, quanto mais animado o ritmo, mais as mulheres aceleravam a execução das tarefas. Foi assim que eles mesmos passaram a interromper os silêncios pedindo que cantassem  músicas animadas. O que nenhum deles esperava é que isso poderia se tornar uma forma de articular a resistência e medir a disposição para a luta.

Não demorou muito para que as melodias mais conhecidas servissem de base para letras que ironizavam feitores e fazendeiros sem que estes entendessem que estavam falando deles ou que jogos de rimas improvisadas se tornassem uma espécie de código para reduzir coletivamente o ritmo de trabalho. Daí para letras de denúncia, protesto e resistência foi um passo.[22] A seguir, vamos apresentar algumas das músicas “rebeldes” de acordo com o período histórico em que nasceram e se disseminaram entre as mondinas do vale do Pó.

Cantada em dialeto desde o final do século XIX, Senhor patrão das lindas calças brancas (Sciur padrun da li béli braghi bianchi) usa a ironia para chamar o patrão de vagabundo. Vamos acompanhar a letra que, se quiser, você pode ouvir em https://drive.google.com/file/d/1VBl5M-VmM-IzXEN7oQYZuV313Yh2ajJG/view?usp=drivesdk :

 

Sciur padrun da li béli braghi bianchi,

[Senhor patrão das lindas calças brancas]

fora li palanchi, fora li palanchi,

[solta o dinheiro, solta o dinheiro]

sciur padrun da li béli braghi bianchi,

[Senhor patrão das lindas calças brancas]

fora li palanchi ch’anduma a cà.

[Solta o dinheiro que vamos para casa].

 

Ascuza, sciur padrun s’a l’èm fat tribulèr,

[Desculpe senhor patrão se o fizemos penar]

iera li prèmi vòlti, iera li prèmi vòlti,

[eram as primeiras vezes, eram as primeiras vezes]

Ascuza, sciur padrun s’a l’èm fat tribulèr,

[Desculpe senhor patrão se o fizemos penar]

l’era li prèmi volti, ch’a’n saiévum cuma fèr.

[Eram as primeiras vezes, não sabíamos como fazer]

 

Sciur padrun da li béli braghi bianchi,

[Senhor patrão das lindas calças brancas]

fora li palanchi, fora li palanchi,

[solta o dinheiro, solta o dinheiro]

sciur padrun da li béli braghi bianchi,

[Senhor patrão das lindas calças brancas]

fora li palanchi ch’anduma a cà.

[Solta o dinheiro que vamos pra casa].

 

E non va piú a mesi e nemmeno a settimane

[Já não é questão de meses e nem de semanas]

La va a poche ore, la va a poche ore

[É questão de poucas horas, é questão de poucas horas]

E non va piú a mesi e nemmeno a settimane

[Já não é questão de meses e nem de semanas]

La va a poche ore, e poi dopo andiamo a cá.

[É questão de poucas horas, e depois vamos para casa]

 

Sciur padrun da li béli braghi bianchi,

[Senhor patrão das lindas calças brancas]

fora li palanchi, fora li palanchi,

[solta o dinheiro, solta o dinheiro]

sciur padrun da li béli braghi bianchi,

[Senhor patrão das lindas calças brancas]

fora li palanchi ch’anduma a cà.

[Solta o dinheiro que vamos pra casa].

 

E quando o treno scefla e i mundéin a la stassion

[E quando o trem assobia e as mondinas estão na estação]

con la cassietta in spala, con la cassietta in spala;

[Com a malinha no ombro, com a malinha no ombro]

E quando o treno scefla e i mundéin a la stassion

[E quando o trem assobia e as mondinas estão na estação]

con la cassietta in spala, su e giú per i vagon!

[Com a malinha no ombro, caminhando pelos vagões!]

 

Sciur padrun da li béli braghi bianchi,

[Senhor patrão das lindas calças brancas]

fora li palanchi, fora li palanchi,

[solta o dinheiro, solta o dinheiro]

sciur padrun da li béli braghi bianchi,

[Senhor patrão das lindas calças brancas]

fora li palanchi ch’anduma a cà.

[Solta o dinheiro que vamos pra casa].

 

Cantada com a vontade de se ver livre do trabalho penoso do arrozal, a letra ironiza os fazendeiros do começo ao fim. Identificar o patrão como o homem das lindas calças brancas num cenário onde as mondinas trabalhavam no meio do barro é dizer que ele não faz nada e desfruta do bom e do melhor. É contra essa figura que as mulheres costumavam gritar para que soltasse o pagamento que elas queriam voltar para casa.

Na primeira estrofe, as mondinas pedem desculpas por terem feito o patrão penar alegando que eram novatas e não sabiam fazer o serviço. Ora, não havia nada complexo ou que demandasse experiência nas tarefas que executavam. A parte mais difícil era aprender a lidar com a fadiga, a fome, a sede e a sensação de esgotamento físico que crescia ainda mais no final da temporada. Poupar energias, reduzir coletivamente o ritmo ou parar quando uma mondina passava mal gerava uma demora que fazia o patrão penar pelas horas ou dias de pagamento a mais que deveria desembolsar. Enquanto o “penar” das mondinas ocorria sob o peso do trabalho, o “penar” do patrão que nada fazia se limitava à dor no coração pelo dinheiro a mais que devia pagar.

Anos depois, em algumas regiões, as trabalhadoras acrescentaram uma estrofes  explicitando que o fazendeiro era uma pessoa muito boa só para pedir que se apressassem e fizessem as mãos andarem com a velocidade de um trem. Em outra versão, acrescentaram uma descrição do trabalho que alterava as operações para a limpeza do terreno. No lugar de erradicar as plantas daninhas, a letra, sempre cantada em dialeto, convidava a quebrá-las, arrancando apenas a parte acima da raiz. Desta forma, ninguém poderia dizer que as ervas não haviam sido removidas, mas, ao crescerem rapidamente graças às raízes que continuavam no solo, reduziriam a produção de arroz. Tudo leva a crer que, em determinados momentos de tensão, a música convidava a uma forma de sabotagem.[23]

A luta pela jornada de oito horas marca as greves das mondinas desde a segunda metade do século XIX. Entre os enfrentamentos mais duros, lembramos os que ocorreram na região de Vercelli, norte da Itália, quando, em junho de 1882, as manifestações pedindo aumento de salário e redução da jornada recuaram apenas depois que a polícia prendeu 19 mulheres.

Quase seis anos depois, no dia 29 de maio, os fazendeiros do município de Trino, no vercellese, afixaram um aviso na praça principal dizendo que o pagamento diário seria de 80 centavos de Lira para um trabalho que se estenderia durante as horas de luz da jornada. A notícia acendeu a revolta em todos os arrozais. Um rio de gente percorreu as ruas do vilarejo usando trapos de tecidos amarrados em pedaços de madeira como se fossem bandeiras. Fazendeiros e autoridades locais chamaram a cavalaria que prendeu 60 mulheres, das quais 25 foram condenadas a um ano e 12 dias de prisão. Assustados, os patrões aumentaram o pagamento para uma Lira e 25 centavos, mas mantiveram a duração da jornada.[24]

Região do Piemonte com a localização de Vercelli e do “vercellese” em verde claro.

Para termos uma ideia de como a revolta vinha se generalizando, ainda em junho de 1882, na cidade de Molinella, cerca de 30 km a leste de Bologna, as greves varriam os arrozais com as mesmas reivindicações. Os protestos foram contidos com uma ação de morde-assopra da maçonaria local. De um lado, os fazendeiros solicitaram ao governador que mandasse policiais e soldados para controlar a situação com o uso da força. De outro, prometeram à população que realizariam estudos para melhorar a situação das trabalhadoras locais.


[25]

M

Mapa da Emilia Romagna com a localização de Molinella



No dia 24 de maio de 1886, a história se repetia, desta vez com requintes de crueldade. As mondinas iniciavam uma greve para reduzir a jornada de trabalho e aumentar de 70 centavos para uma Lira o pagamento diário. Policiais e soldados entraram em cena para bater, prender e intimidar as grevistas. Apesar disso, longe de recuar, a greve se espalhou nas regiões próximas
.[26] Nas duas décadas seguintes, as coisas não seriam diferentes.

É neste contexto que, em 1906, nasce a música As oito horas (Le otto ore) que você pode ouvir através do link https://drive.google.com/file/d/1V-aHjktKsdk9j7eOV7VAaOv4I3xVOj4Z/view?usp=drivesdk

 

Le otto ore

Se otto ore vi sembran poche, provate voi a lavorar

[Se oito horas parecem poucas, experimentem vocês a trabalhar]

Se otto ore vi sembran poche, provate voi a lavorar

[Se oito horas parecem poucas, experimentem vocês a trabalhar]

 

E proverete la differenza di lavorare e di comandar

[E experimentarão a diferença entre trabalhar e mandar]

E proverete la differenza di lavorare e di comandar.

[E experimentarão a diferença entre trabalhar e mandar]

 

Se otto ore son troppo poche, chi non lavora non mangerá.

[Se oito horas são poucas demais, quem não trabalha não comerá]

Se otto ore son troppo poche, chi non lavora non mangerá.

[Se oito horas são poucas demais, quem não trabalha não comerá]

 

E quei vigliacchi di sfruttatori saranno loro a lavorar.

[E aqueles covardes de exploradores serão eles a trabalhar]

E quei vigliacchi di sfruttatori saranno loro a lavorar.

[E aqueles covardes de exploradores serão eles a trabalhar]

 

Construída sobre a melodia da música “A Bandeira Tricolor” (La Bandiera tricolor) que corria de boca em boca desde 1840, a letra rebate a ideia, comumente defendida pelos fazendeiros, pela qual trabalhar apenas 8 horas era pouco demais para o salário pago. A resposta cantada pelas mulheres colocava as coisas em pratos limpos. De um lado, apelava à diferença entre trabalhar e mandar, afirmando que os patrões não trabalhavam, mas apenas davam ordens. Sendo assim, nenhum deles sabia o que era se esfolar na monda durante dez-doze horas.

 De outro, se as oito horas eram poucas demais pelo salário pago, os fazendeiros que não trabalhavam, então, não deveriam ter direito a comer e, no futuro projetado a partir de uma reviravolta das relações de produção, seriam “aqueles covardes de exploradores a trabalhar”. Impossível não ver neste verso a influência das ideias anarquistas e comunistas que usavam estas expressões simples e diretas para visualizar as mudanças que levariam a um mundo de justiça e igualdade.

As lutas pelas oito horas marcaram fortemente o período de 1900 a 1910. A primeira vitória ocorreu em Vercelli, em 1º de junho de 1906, quando a greve das mondinas, apoiada pelos demais assalariados agrícolas, conseguiu conquistar a jornada de 8 horas. Três anos depois, as paralisações estenderiam a vitória a todos os arrozais do Piemonte e, em 1912, também aos da Lombardia e da Emilia Romagna.[27]

Paralelamente à agitação, a partir de 1898, iniciava a organização das Ligas Camponesas. Tratava-se de um trabalho árduo tanto em função da ação patronal e da postura da igreja católica, como pelo baixo grau de alfabetização dos assalariados agrícolas. Em 1 de dezembro de 1900, nasceu o jornal A Risaia (O Arrozal), vinculado ao Partido Socialista, que durante décadas foi o elo de ligação das mondinas do Piemonte.[28]

Cópia do jornal A Risaia de 17 de junho de 1911



É justamente no processo de formação e consolidação das organizações camponesas que, entre 1900 e 1914, nasceu “A Liga” (La Lega).[29] Vejamos o que diz a letra desta canção, cuja versão em italiano você pode ouvir em: https://drive.google.com/file/d/1V2LKE6bXC5LKAS1DFBakr7zYY-nqKrZv/view?usp=drivesdk

La Lega

 

Sebben che siamo donne, paura non abbiamo

[Apesar de sermos mulheres, medo é o que não temos]

Per amor dei nostri figli, per amor dei nostri figli 

[Por amor dos nossos filhos, por amor dos nossos filhos]

Sebben che siamo donne, paura non abbiamo

[Apesar de sermos mulheres, medo é o que não temos]

Per amor dei nostri figli, in lega ci mettiamo

[Por amor dos nossos filhos, nos unimos na liga]

 

A oilí oilí oilá e la lega crescerá

[A oilí oilí oilá e a liga crescerá]

E noialtri lavoratori, e noialtri lavoratori

[E nós trabalhadores, e nós trabalhadores]

A oilí oilí oilá e la lega crescerá

[A oilí oilí oilá e a liga crescerá]

E noialtri lavoratori vogliam la libertá

[E nós trabalhadores queremos a liberdade]

 

E la libertá non viene perché non c’é l’unione

[E a liberdade não vem porque não há união]

Crumiri col padrone, crumiri col padrone

[Pelegos com o patrão, pelegos com o patrão]

E la libertá non viene perché non c’é l’unione

[E a liberdade não vem porque não há união]

Crumiri col padrone son tutti da ammazzar

[Pelegos com o patrão são todos pra matar]

 

A oilí oilí oilá e la lega crescerá

[A oilí oilí oilá e a liga crescerá]

E noialtri lavoratori, e noialtri lavoratori

[E nós trabalhadores, e nós trabalhadores]

A oilí oilí oilá e la lega crescerá

[A oilí oilí oilá e a liga crescerá]

E noialtri lavoratori vogliam la libertá

[E nós trabalhadores queremos a liberdade]

 

Sebben che siamo donne, paura non abbiamo

[Apesar de sermos mulheres, medo é o que não temos]

Abbiam delle belle buone lingue, abbiam delle belle buone lingue

[Temos línguas bem afiadas, temos línguas bem afiadas]

Sebben che siamo donne, paura non abbiamo

[Apesar de sermos mulheres, medo é o que não temos]

Abbiam delle belle buone lingue e ben ci difendiamo

[Temos línguas bem afiadas e nos defendemos bem]

 

A oilí oilí oilá e la lega crescerá

[A oilí oilí oilá e a liga crescerá]

E noialtri lavoratori, e noialtri lavoratori

[E nós trabalhadores, e nós trabalhadores]

A oilí oilí oilá e la lega crescerá

[A oilí oilí oilá e a liga crescerá]

E noialtri lavoratori vogliam la libertá

[E nós trabalhadores queremos a liberdade]

 

E voialtri signoroni che ci avete tanto orgoglio

[E vocês ricaços que tens sempre tanto orgulho orgulho]

Abbassate la superbia, abbassate la superbia

[Diminuam a soberba, diminuam a soberba]

E voialtri signoroni che ci avete tanto orgoglio

[E vocês ricaços que tens sempre tanto orgulho]

Abbassate la superbia e aprite il portafoglio

[Diminuam a soberba e abram a carteira]

 

A oilí oilí oilá e la lega crescerá

[A oilí oilí oilá e a liga crescerá]

E noialtri lavoratori, e noialtri lavoratori

[E nós trabalhadores, e nós trabalhadores]

A oilí oilí oilá e la lega crescerá

[A oilí oilí oilá e a liga crescerá]

E noialtri lavoratori vogliamo la libertá

[E nós trabalhadores queremos a liberdade]

 

Considerada a primeira canção da luta proletária das mulheres italianas, A Liga convida à união de todas as mondinas questionando os aspectos centrais do senso comum da época. À fragilidade, ao medo, à suposta incapacidade de lidar com a política, ao papel de mãe cuja preocupação com os filhos leva a mulher a se afastar de tudo o que poderia trazer consequências negativas para a família, as mondinas opõem a adesão à Liga como o ato de quem não tem medo de lutar e luta porque ama os próprios filhos. Não o amor de quem, por temer as privações que a própria luta pode trazer, prefere não se envolver em nada, mas, sim, o amor de uma mãe que, se unindo à liga, quer para os filhos um futuro livre da escravidão da miséria.

E a fazer a liga crescer será, justamente, esta luta pela liberdade. Uma liberdade que não vem por falta de união e pela divisão criada pelos pelegos (crumiri). O recado para eles é límpido e cristalino: não haverá piedade para quem, sendo trabalhador, trai a sua classe para beneficiar a si próprio. Daí que eles sofrerão o mesmo destino dos patrões: são todos pra matar.

A terceira estrofe responde ao preconceito dos homens que intimavam as mulheres a se calarem por não saberem nada, por falarem à toa ou por terem a língua solta. A eles, as mondinas declaram em alto e bom som que têm línguas bem afiadas e se defendem muito bem. Desta forma, também não precisam de ninguém que fale por elas, pois a ampliação das fileiras da Liga dará conta de fazer ressoar a voz que se ergue dos arrozais.

A música se encerra com um recado aos fazendeiros que aponta os primeiros passos do movimento: vocês que estão sempre cheios de orgulho, enfrentarão nossa luta pela liberdade que os fará baixarem a crista e abrirem a carteira para aumentarem os nossos salários. O futuro em direção ao qual a Liga caminha tem nesta queda de braço, de igual para igual, o seu primeiro passo.


Mas, o que nunca veio de mãos beijadas ficaria ainda mais difícil durante o fascismo. Em fevereiro de 1927, por exemplo, devido à queda dos preços do arroz e com o consentimento dos sindicatos fascistas, os patrões da região de Vercelli decidiram reduzir os salários das mondinas em 30%. Nas semanas até maio, quando iniciavam os trabalhos nos campos de cultivo, grupos de trabalhadoras realizaram uma série de reuniões clandestinas nos principais centros produtores para articularem a defesa dos salários.

Apesar do aparato repressor do fascismo, o jornal “La Risaia” divulgou uma edição especial na qual se pedia a todas as mondinas que bloqueassem o acesso aos arrozais a partir de abril a fim de atrasar a preparação das mudas. A repressão da polícia fascista foi duríssima desde o primeiro instante. Apesar disso, as mulheres levaram adiante o plano de luta com o apoio das demais organizações camponesas e de membros do Partido Comunista que atuavam na região.


No dia 10 de junho de 1944, na região de Bologna, foi publicado o jornal “A Mondariso” (sinônimo de mondina que era mais usado na Emilia Romagna).[31] Impresso
clandestinamente, o material informava das vitórias obtidas em algumas greves realizadas na região, pedia apoio à luta partisan e trazia a pauta de reivindicações que seria adotada na paralisação de 1200 mondinas de Molinella entre os dias 13 e 17 do mesmo mês.

Cópia do primeiro número de “La Mondariso”.

No primeiro dia da greve, grupos fascistas prenderam muitas mulheres. Longe de se intimidarem, as mondinas protestaram na praça da cidade para reivindicar a libertação das companheiras. Na manhã do dia 14, os fascistas encurralaram um grupo delas a caminho do arrozal onde realizariam um piquete, esbofetearam e bateram em todas elas com pedaços de paus. Dez mulheres foram enfileiradas na que se apresentava como uma execução iminente.

Apesar do grande número de pessoas detidas, as manifestações continuaram. No dia 15, partisans armados apareceram nos arrozais e os fascistas recuaram. A greve conseguiu manter a jornada de 8 horas, trouxe um pequeno aumento dos salários, a suspensão dos trabalhos quando dos alarmes antiaéreos e o não desconto das horas perdidas durante os bombardeios.

Numa luta que somava forças contra a ditadura fascista, nas semanas seguintes, os partisans dificultaram a colheita do milho na mesma região. Incendiaram e explodiram algumas colheitadeiras, mataram vários milicianos fascistas que faziam a escolta armada dos equipamentos, esconderam e distribuíram entre os assalariados agrícolas o milho subtraído aos fazendeiros.[32]

O fim da segunda guerra mundial, em 1945, trouxe alívio e novas preocupações. Os cinco anos até 1950 foram particularmente duros para a classe trabalhadora italiana. O país enfrentava os problemas da reconstrução num cenário de miséria e desemprego que levou muita gente a migrar para Bélgica, Suíça, Alemanha, França e outras nações europeias. O governo eleito não só continuava tratando os protestos sociais como caso de polícia, como havia criado corpos de agentes treinados para reprimir greves e manifestações populares com requintes de crueldade. Em 1949, por exemplo, seis mondinas foram assassinadas por eles durante uma manifestação em Molinella.[33]

Desarmamento dos grupos partisans, fome, desemprego e repressão faziam com que os patrões tivessem faca e queijo na mão na hora de decidir como e quanto aprofundar a exploração. E, para piorar as coisas, grande parte dos políticos de centro, que haviam apoiado a resistência ao fascismo e conheciam por dentro a organização dos trabalhadores, defendiam abertamente os interesses empresariais como parte do compromisso para a reconstrução do país.

Esta realidade que negava as esperanças alimentadas durante a luta contra o fascismo e justificava os retrocessos nas relações de trabalho se refletia na mescla de sofrimento e revolta expressa neste que é um dos primeiros cantos das mondinas do pós-guerra: “Diremos adeus ao senhor patrão” (Saluteremo il signor padrone) que você pode ouvir em italiano acessando o link https://drive.google.com/file/d/1Twin86785h6neD5D9Wj3t1HsZU55POov/view?usp=drivesdk

 

Saluteremo il signor padrone

 

Saluteremo il signor padrone per il male che ci ha fatto

[Diremos adeus ao senhor patrão pelo mal que nos fez]

che ci ha sempre maltrattato fino all’ultimo momen’

[Ele que sempre nos maltratou até o último momento]

 

Saluteremo il signor padrone con la sua risera neta

[Diremos adeus ao senhor patrão com o seu arrozal limpo]

pochi soldi in la casseta e i debiti da pagar

[Pouco dinheiro na mala e as dívidas para pagar]

 

Macchinista, macchinista faccia sporca, metti l’olio nei stantuffi

[Maquinista (de trem), maquinista cara suja, põe óleo nos pistões]

di risaia siamo stufi, di risaia siamo stufi.

[estamos fartas de arrozal, estamos fartas de arrozal]

Macchinista, macchinista faccia sporca, metti l’olio nei stantuffi

[Maquinista (de trem), maquinista cara suja, põe óleo nos pistões]

di risaia siamo stufi, a casa nostra vogliamo andar.

[Estamos fartas de arrozal, queremos ir para a nossa casa]

 

Con un piede, con un piede sulla staffa e quell’altro sul vagone

[Com um pé, com um pé no estribo e o outro no vagão]

Ti saluto cappellone, ti saluto cappellone.

[Adeus chapelãozão, adeus chapelãozão]

 

Con un piede, con un piede sulla staffa e quell’altro sul vagone

[Com um pé, com um pé no estribo e o outro no vagão]

ti saluto cappellone, a casa nostra vogliamo andar.

[Adeus chapelãozão, queremos ir para a nossa casa].

 

À diferenças das músicas apresentadas anteriormente, não encontramos aqui nem a ironia do Sciur Padrun, nem o protesto de Le otto ore e, menos ainda, a garra de La Lega. A carga de sofrimento vivida no trabalho foi traduzida com a vontade de dizer adeus ao patrão e ao arrozal limpo que consumiam a vida das mondinas. A revolta nascida dos maus tratos se amplia na percepção do magro salário para pagar as dívidas, mas não vai além da vontade de nunca mais voltar àquela exploração. Contudo, para a grande maioria daquelas mulheres, a chance de realizar este desejo em curto prazo era remota.

Em meio às contradições do pós-guerra e irmanadas no sofrimento do arrozal, as mondinas levariam um tempo para resgatar a identidade coletiva de resistência que, durante décadas, esteve na base de suas lutas. Uma das expressões musicais que retoma este processo apareceu em 1950, quando Pietro Besate, um dirigente comunista de Vercelli, diretamente envolvido com a luta delas, escreveu uma letra que percorreria todos os arrozais da Itália do norte.

Composta tendo como base a melodia de “A andorinha” (La rondinella), uma antiga canção popular do vale do Pó, as estrofes resgatam a identidade destas trabalhadoras, os momentos marcantes de sua história de luta e o orgulho por um trabalho desprezado pelas “pessoas de bem”. Mais uma vez, você pode ouvir a música através do link https://drive.google.com/file/d/1V6_URihr9jw5KAsEK1As1Ll6FnXLl4Mq/view?usp=drivesdk

 

Son la mondina, son la sfruttata

 

Son la mondina, son la sfruttata, son la proletaria che giammai tremó

[Sou a mondina, sou a explorada, sou a proletária que nunca tremeu]

Mi hanno uccisa e incatenata, carcere e violenza, nulla mi fermó.

[Me mataram e acorrentaram, cárcere e violência, nada me parou]

 

Coi nostri corpi sulle rotaie, noi abbiamo fermato il nostro sfruttator

[Com nossos corpos nos trilhos, nós paramos o nosso explorador]

C’é tanto fango nelle risaie, ma non porta macchia il simbol del lavor

[Há muita lama nos arrozais, mas não há manchas no símbolo do trabalho]

 

Ed ai padroni farem la guerra, tutte unite insieme noi la vincerem

[E faremos guerra aos patrões, todas juntas, unidas, nós a venceremos]

Non piú sfruttati sulla terra, ma piú forti dei cannoni noi sarem

[Nunca mais explorados sobre a terra, e seremos mais fortes dos canhões]

 

Questa bandiera gloriosa e bella noi l’abbiam raccolta e la porterem piú su

[Esta bandeira gloriosa e bela nós a recolhemos e a ergueremos ainda mais]

Dal Vercellese a Molinella, alla testa della nostra gioventu

[Da região de Vercelli a Molinella, à frente da nossa juventude]

 

E lotteremo per il lavoro, per la pace e il pane e per la libertá

[E lutaremos pelo trabalho, pela paz, pelo pão e pela liberdade]

E costruiremo un mondo nuovo, di giustizia e di vera civiltá

[E construiremos um mundo novo, de justiça e de verdadeira civilização].

 

A letra resgata a firmeza e a força de uma mulher que, submetida às formas mais duras de exploração e violência, nunca vacilou na luta a ponto de, em junho de 1909, usar o próprio corpo para parar a corrida do trem onde os patrões traziam centenas de mulheres contratadas para substituir as mondinas que haviam paralisado o trabalho na região de Vercelli.[34] 

A música traz também o orgulho do próprio ofício. Ao dizer que “há muita lama nos arrozais, mas não há manchas no símbolo do trabalho”, as mulheres contestavam quantos, em seus vilarejos de origem, fossem eles ricos ou remediados, consideravam sua labuta sazonal como algo típico de gente miserável, ignorante, desprezível e de comportamentos moralmente condenáveis. De alguma forma, era como se a lama que, no final da jornada, cobria as pernas e os braços das mondinas fosse a marca registrada de um trabalho privo de qualquer dignidade. Neste contexto, afirmar o orgulho do próprio ofício era o primeiro passo para ir à luta de cabeça erguida.

A estrofe seguinte afirma com todas as letras o objetivo desta luta: fazer guerra aos patrões com uma união mais forte dos canhões para que não haja mais exploração sobre a terra. Novamente, mais do que a uma figura de linguagem, o texto se refere a situações históricas conhecidas desde 1906, quando peças de artilharia manuseada por soldados do exército foram posicionadas nas rotas de acesso aos campos de cultivos e às casas dos fazendeiros para impedir que as mondinas em greve se aproximassem delas.