O crescimento econômico e a queda do desemprego
enchem de orgulho os governantes. O cardápio de medidas que proporcionou estes
resultados costuma ser apresentado como o melhor possível numa realidade onde
ministros, secretários e assessores atuam como cozinheiros dedicados à
preparação de pratos novos e saborosos.
Contudo, um olhar atento à lista de
ingredientes mostra que, diante de interesses e demandas de grupos sociais tão
diferentes, há sempre algo muito indigesto. Os problemas desta presença
amarelam os sorrisos confiantes das equipes governamentais e mostram sua
incapacidade de retirar do cardápio os componentes mais problemáticos.
Longe de negar os esforços governamentais e a
veracidade das estatísticas, as reflexões que seguem buscam mostrar parte dos
elementos indigestos que sustentam os bons números da economia. Faremos isso
comparando os dados de várias pesquisas e mostrando as tendências que seus
números projetam para o futuro. O seu esforço de acompanhar os raciocínios e as
conclusões às quais chegaremos será compensado pelo aprimoramento de um olhar
crítico, desses que, além de ler o nome do prato, se preocupa em identificar os
ingredientes que entraram na sua preparação.
1. Os grandes números da economia...e o seu avesso.
O Brasil encerrou o ano de 2025 com um
crescimento acima do esperado, uma tendência à diminuição dos níveis de
pobreza, recordes na geração de empregos, um aumento real significativo do
salário médio nacional e um resultado invejável do comércio exterior. Pode não
ser uma maravilha, mas os avanços conseguidos deveriam ampliar a satisfação das
pessoas em relação ao presente e a sua confiança diante do futuro, algo que não
encontra respaldo nas pesquisas de opinião realizadas em 2026. O que explica
este gosto amargo na boca de um contingente expressivo da população? É o que
veremos a seguir.
Vamos começar pela balança comercial. O orgulho
de ter alcançado o terceiro maior superávit da série histórica mostra a
capacidade de reação do país às adversidades de um mercado internacional
atormentado pelas tarifas alfandegárias impostas às importações dos EUA. O
superávit de 68 bilhões e 300 milhões de dólares foi alcançado graças a um
aumento de 3,9% das exportações brasileiras, na comparação com 2024, e apesar
de uma alta de 7,1% das importações.[1] Neste processo,
alguns setores da economia, como o calçadista, não conseguiram se refazer do
impacto negativo provocado pelas tarifas de Donald Trump; outros, como o de
carnes e derivados, driblaram estas barreiras com sobras; e há outros ainda,
como o de exportação de café, que venderam menos e lucraram bem mais.
Este último caso chama a nossa atenção por dois
motivos. O primeiro deles é que, graças à forte valorização do preço
internacional da saca, os cafeicultores aumentaram em 24,1% suas receitas com
as vendas externas apesar de exportarem 20,8% a menos em relação a 2024.[2] O
segundo, é que apesar desta queda, o café comercializado no território nacional
foi o item da cesta básica que mais aumentou com uma alta de 5,8%.
Basta isso para visualizarmos os efeitos
negativos de priorizar as exportações e adotar os preços internacionais como
base para as vendas no mercado interno. Apesar de o Brasil ser o maior produtor
mundial de café, a sua população viu o produto vendido nos supermercados sofrer
um aumento de 116,0% nos últimos cinco anos.[3] Para conhecer os
efeitos desta alta nos sentimentos da população é só entrar na fila do
supermercado e ouvir as conversas do povo...algo que a grande maioria da
própria esquerda deixou de fazer a partir do momento em que adotou as leis de
mercado como bússola da sua ação.
Quanto mais avançamos na tarefa de fuçar na
realidade, mais percebemos que o agronegócio tende a encarecer o que vai para
as nossas mesas. Maior produtor de soja do Brasil, o estado de Mato Grosso, por
exemplo, enfrenta uma escassez estrutural de frutas, verduras e legumes. Na
cidade de Sinop, a demanda de terras para a produção de grãos destinados à
exportação e os efeitos nocivos dos agrotóxicos no meio ambiente se uniram aos
problemas climáticos para produzir uma situação preocupante: 95,0% do abastecimento
de hortifrúti dependem da importação de outras regiões, o que leva os moradores
locais a pagarem caro por produtos corriqueiros.[4]
Enquanto o agro festeja os lucros das exportações, a população precisa retirar
uma fatia adicional da sua renda para comer.
Do comércio exterior, passamos agora à criação
de empregos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), em 2025, a taxa média de desemprego ficou em 5,6%, a menor da série
histórica iniciada em 2012. Ao comparar os dados com os de 2024, percebemos que
os empregos com carteira assinada atingiram o recorde de 38 milhões e 900 mil
vagas; o contingente de empregados sem carteira assinada caiu 0,8% em relação a
2024; enquanto o rendimento médio habitual dos ocupados cresceu 5,7% acima da
inflação, sempre na comparação entre 2025 e o ano anterior.[5]
Procurar
o que há de errado num cenário como este parece tão absurdo quanto tentar
encontrar chifres na cabeça de um cavalo. Contudo, quando a nossa reflexão
incorpora outros elementos, percebemos que há aspectos gritantes se escondendo
nas dobras da economia de mercado. O primeiro alerta guarda uma relação direta
com os dados do Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE)
referentes aos resultados de 21.510 campanhas salariais tabulados pela entidade
ao longo de 2025.
Este levantamento mostra que os aumentos reais
de salário conseguidos pelos sindicatos registraram uma média de 0,87% acima do
Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), abaixo, portanto, do 1,70% de
2023 e do 1,25% de 2024. [6] Este
panorama mais próximo do que aconteceu com a base da renda real dos
assalariados representados pelos sindicatos do país ganha tons ainda mais
sérios quando levamos em consideração o fato de o INPC ter encerrado o ano de
2025 com uma alta acumulada de 3,90%, abaixo, portanto, dos 4,26% da inflação
oficial.
O fato de o aumento médio real de dezenas de
milhões de assalariados com um contrato formal ter ficado em torno de meio
ponto percentual levanta a dúvida de que a diferença com o resultado apurado
pelo IBGE não guarda uma relação direta apenas com os critérios utilizados na
elaboração das estatísticas. Conhecendo o empresariado brasileiro, também seria
ingênuo apostar numa atitude mais benevolente em termos de remuneração da parte
dos ordenados vinculada às metas e às horas extras. Logo, a explicação desta diferença
não pode deixar de incorporar como elemento-chave a exploração mais prolongada
e intensa da força de trabalho, algo que mostraremos nas próximas páginas.
O segundo alerta ganha forma a partir da renda
do trabalho apurada pelo Censo de 2022 e à sua comparação com os dados
coletados em 2010. O quadro que segue oferece uma imagem comparativa da
porcentagem da população em cada faixa de renda:
|
Faixas
de renda
|
Censo
de 2010
|
Censo
de 2022
|
|
Sem
rendimentos
|
2,4%
|
1,0%
|
|
Até
¼ de salário mínimo
|
3,1%
|
3,9%
|
|
Mais
de ¼ a ½ salário mínimo
|
5,3%
|
6,3%
|
|
Mais
de ½ a 1 salário mínimo
|
25,6%
|
24,2%
|
|
Mais
de 1 a 2 salários mínimos
|
34,2%
|
32,7%
|
|
Mais
de 2 a 3 salários mínimos
|
11,1%
|
14,2%
|
|
Mais
de 3 a 5 salários mínimos
|
8,7%
|
10,1%
|
|
Mais
de 5 a 10 salários mínimos
|
6,4%
|
5,1%
|
|
Mais
de 10 salários mínimos
|
3,2%
|
2,6%
|
Fonte: IBGE[7]
Os números apresentados trazem boas e más notícias. As boas
começam com a redução para menos da metade do contingente de pessoas ocupadas
que não têm rendimento; passam pelo aumento em três pontos percentuais dos que
recebem de 2 a 3 salários mínimo e se encerram com alta de 1,4 pontos
percentuais do grupo de trabalhadores e trabalhadoras da faixa seguinte. Apesar
deste avanço, é importante lembrar que de acordo com o DIEESE, o salário necessário para que a família média brasileira tenha uma
renda suficiente para assegurar as condições de vida que a Constituição aponta
como dignas, flutua entre 4,5 e 5 salários mínimos. Logo, pelos dados de 2022,
podemos apenas comemorar o fato de que, na faixa entre 3 e 5 salários mínimos,
talvez 1 em cada 100 ocupados a mais tenha saído do sufoco.
As más notícias estreiam com um aumento de 1,8 pontos
percentual entre quem ganha até um quarto e deste patamar até meio salário
mínimo, sinal de que a precarização seguiu aumentando na base da pirâmide. Uma
realidade que se confirma quando, ao somar todas as faixas de renda até um
salário mínimo, temos uma alta de quase meio ponto percentual na comparação
entre os 34,0% de 2010 e os 34,4% de 2022.
Do mesmo modo, percebemos
que a quantidade de pessoas que recebe entre 1 e 2 salários mínimo passou de
34,2% no Censo de 2010 para 32,7% no levantamento realizado doze anos depois.
Parte da diferença de 1,5 pontos percentuais pode ter passado para a faixa
anterior e para a seguinte. Contudo, de zero a 2 salários mínimos, temos que 68
em cada 100 ocupados passavam por uma dose diferenciada de perrengues para
chegar ao fim do mês, apenas 2,5% a menos em relação a 2010.
Último, mas não menos
importante, é o fato de que, em 2022, os dados mostram uma queda de 1,9 pontos
percentuais nos que são considerados “bons empregos” por pagarem acima de 5
salários mínimos. E, aqui, salta aos olhos o fato de que o contingente representado
por esta diferença passou para a faixa de renda anterior, o que implica num
achatamento dos ganhos e, de consequência, do padrão de vida.
Nesta altura, surge uma
pergunta bem simples: por que isso ocorreu?
A resposta está nos
investimentos em capital fixo e na quantidade de empresas que investiram na
inovação de seus produtos e dos processos de negócios.
Antes de adentrarmos nas
porcentagens do PIB investidas em máquinas e infraestrutura, precisamos lembrar
que, para muitos economistas, a modernização capaz de colocar o Brasil em
condições de enfrentar a competitividade internacional e gerar um número maior
de bons empregos demandaria recursos anuais entre 23,0% e 25,0% do seu PIB.
De acordo com o IBGE, em
2010, a taxa de investimento em capital fixo foi de 20,5% do PIB. Em 2013,
atingiu o ponto mais alto dos últimos 15 anos com a marca de 20,9%. Nos quatro
anos seguintes, a taxa foi caindo progressivamente até os 14,6%, apurados em
2017. A subida deste fundo do poço foi lenta e com alguns sobressaltos. As
contas nacionais de 2022, ano em que foi realizado o Censo, mostraram que ela
havia atingido 17,8% do PIB. A diferença de 2,7 pontos percentuais na taxa de
investimentos em relação a 2010 é uma peça-chave na explicação da queda de 2,5
pontos percentuais nas vagas cuja remuneração está acima dos 5 salários
mínimos. Sabendo que, em 2025, a taxa de investimento fechou em 16,8% do PIB[8], não seria de estranhar que
os bons empregos tivessem encolhido ainda mais. Esta suspeita é alimentada
também por um elemento importante na compreensão do engajamento empresarial nos
processos de inovação. Ainda de acordo com o IBGE a porcentagem de empresas que
introduziu alguma inovação nos produtos e na forma em que realizava seus
negócios caiu de 70,5%, em 2021, para 64,4%, em 2024 (último dado disponível),
o menor patamar da série histórica.[9] Logo, como esperar bons
empregos se o processo de inovação vem perdendo impulso?
A primeira consequência
deste processo está na crescente dificuldade de as pessoas com graduação e
especializações universitárias encontrarem vagas correspondentes aos títulos de
estudo conseguidos, uma situação que força a aceitar ocupações de menor remuneração.
A frustração amargada após anos de sacrifícios semeia doses generosas de
descontentamento nos principais centros do país e, ao que tudo indica, não há
sinais para que diminua nos próximos anos.[10]
Bom...mas...se os
empresários investem abaixo do necessário, como fazem para garantir os lucros
almejados? É o que veremos a seguir.
2.
Se não há mágica...qual é o truque?
Na economia real, nada
aparece num passe de mágica ou por um milagre divino. Por isso, a busca de
respostas deve sempre identificar as pegadas deixadas pelo capital em seu
caminhar pelo país. Pegadas nas quais encontramos leis e decretos que favorecem
a acumulação a custo zero para os patrões, ações criminosas contra a
arrecadação pública, mortes e adoecimentos de trabalhadores e trabalhadoras que
atuam num ambiente pensado para maximizar os lucros e não a proteção de suas
vidas.
A resposta à pergunta que
encerrava a parte anterior percorre dois caminhos paralelos. O primeiro deles
deita raízes na isenção e redução de tributos, nos descontos obtidos quando do
acerto das dívidas com o Estado, na obtenção de créditos a juros subsidiados
pelo governo, na sonegação e no não pagamento dos valores devidos.[11]
Para você ter uma ideia do
montante que não é arrecadado em função da renúncia fiscal, basta pensar que,
segundo a receita federal, em 2021, este dinheiro representava 5,26% do PIB;
subiu a 5,98% no ano seguinte; e encerrou 2023 em 5,96%.[12]
Em 2024, esta porcentagem caiu a 5,78% do PIB[13]
e, caso sejam confirmadas as projeções às quais tivemos acesso, em 2025, deve
ter alcançado os 6,3% do PIB (cerca de 800 bilhões de reais).[14] Em relação a 2026, a
estimativa da Associação dos Auditores Fiscais da Receita do Brasil aponta a
possibilidade de as renúncias somarem 903 bilhões e 300 milhões de reais, dos
quais 618 bilhões e 400 milhões de reais (um valor que corresponde a quase quatro
vezes o orçamento do programa Bolsa Família) não têm nenhuma contrapartida
comprovada para a sociedade.[15]
A estas quantias reguladas
pela legislação, devemos acrescentar os montantes da sonegação fiscal e das
dívidas dos empresários com o Estado. No caso da sonegação, obviamente, só é
possível oferecer uma estimativa. De acordo com os cálculos do Sindicato dos
Profissionais da Fazenda (SINPROFAZ), os empresários de todos os setores da
economia sonegam o equivalente a 23% da arrecadação anual,[16]
algo que, no ano passado, pode ter atingido os 664 bilhões de reais.[17] Se isso não bastasse, no
final de 2025, o não pagamento dos valores devidos ao governo federal em anos
de calote dos empresários acumulou um montante superior aos 2 trilhões e 886
bilhões de reais arrecadados pela Receita Federal...e isso porque os auditores
fiscais recuperaram para os cofres públicos uma fatia de 68 bilhões e 100
milhões de reais do montante da dívida ativa.[18]
Em todos estes casos, o peso da ação empresarial cai nas costas da população na
exata medida em que faltam recursos para o social e os déficits nas contas
públicas elevam a dívida interna, exigem cada vez mais dinheiro para o
pagamento dos juros e pressionam a inflação.
A segunda forma de
proporcionar certo patamar de competitividade e os lucros desejados guarda uma
relação direta com a dilapidação da força de trabalho. Trata-se de um processo
cujos contornos são delineados tanto pelas denúncias do trabalho escravo e infantil,
como pela ocorrência de acidentes e afastamentos por adoecimento no exercício
da profissão. Em todos estes casos, as estatísticas mostram que, entre 2021 e
2025, houve uma piora significativa dos indicadores.
Segundo o Ministério dos
Direitos Humanos e da Cidadania, as denuncias de trabalho análogo à escravidão
passaram de 1.918, em 2021, para 4.515 no ano passado, um aumento de 135,4%. Se
você acha que estamos falando de casos ocorridos em algum dos longínquos
grotões do Brasil, pois está redondamente enganado. Ao centrar as atenções no
ano de 2025, percebemos que o estado de São Paulo lidera com folga o ranking
nacional com 1.129 denúncias. Minas Gerais vem em segundo lugar, com 679, e o
Rio de Janeiro é medalha de bronze com 364 denúncias.[19]
No mesmo período, 68 em cada 100 trabalhadores foram resgatados destas
condições nas áreas urbanas numa quantidade de fiscalizações bem inferior ao
volume de denúncias: foram apenas 215 ações em São Paulo, 145 em Minas Gerais e
123 no Rio de Janeiro, só para citar os estados que estavam no topo da lista.[20]
Quando comparamos o número
de denúncias às fiscalizações realizadas percebemos que, de um lado, o aumento
das primeiras revela a existência de um contingente crescente de trabalhadores
pedindo socorro. De outro, o grupo de fiscais voltados à apuração deste crime
passa longe de conseguir dar conta do recado pelo fato de seu contingente ser
menos da metade do recomendado pela Organização Internacional do Trabalho a
países com características semelhantes às nossas.
Novos problemas aparecem
quando focamos as atenções nas 4321 pessoas que foram presas pelo envolvimento
nestas formas de contratação entre 2000 e 2025. Deste total, 1.578 foram
absolvidas (37,0%) e somente 191 (4,0%) pagaram por todos os crimes apurados nas
fiscalizações. Sendo assim, acreditamos não estar cometendo nenhum equívoco ao
afirmar que manter pessoas em regime de trabalho análogo à escravidão é um
crime que compensa e que, se nada mudar, a estimativa da organização
internacional Walk Free pela qual o Brasil teria um milhão de pessoas
submetidas a esta condição extremamente degradante tende a aumentar no próximo
período.[21]
O panorama do trabalho
infantil é igualmente desolador. Entre 2021 e 2025, o número de denúncias
recebidas pelo Ministério Público do Trabalho mais que dobrou, ao saltar de
3.354 para 7.966. Na avaliação por Estado, São Paulo ganha disparado dos demais
ao pular de 716, em 2021, para 2.124 no ano passado, um crescimento de 296,6%.
A medalha de prata vai, novamente, para Minas Gerais, com 918 denúncias. O
terceiro, quarto e quinto lugar de 2025 são ocupados, respectivamente, por
Paraná (com 529), Rio Grande do Sul (com 426) e Santa Catarina (com 392
denúncias).
A dimensão deste problema
no território nacional foi revelada pelo IBGE nos dados de 2024 que apontavam a
existência de um milhão e 600 mil crianças e adolescentes em situação de
trabalho infantil, dos quais 560 mil estariam nas piores atividades. Para termos
uma ideia da distância entre o número de vítimas e a quantidades de resgates
efetuados, basta pensar que, no mesmo ano, o Estado conseguiu chegar a apenas
0,2% delas.[22]
Ninguém duvida da
existência de falhas na capacidade de intervenção do Estado; de que denúncias
com dados incompletos dificultam as apurações; de que as administrações
públicas destinam bem pouco dinheiro para erradicar o trabalho infantil; de que
o racismo
estrutural
e a naturalização social deste trabalho têm um papel de primeira ordem na
aceitação desta praga; mas é igualmente inegável que a pobreza e a insegurança
alimentar fazem com que inúmeras famílias dependam da renda gerada por crianças
e adolescentes para sobreviver.
Ainda no terreno da
dilapidação da força de trabalho, mais sinais alarmantes vêm do forte
crescimento do número de acidentes de trabalho e de afastamentos prolongados
registrados pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). A partir de 2022,
os registros do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) têm apontado um aumento
sistemático das ocorrências que vitimam trabalhadores nos locais de trabalho. O
quadro que segue mostra a alta percentual de um ano para outro:
|
Período
|
Taxa de crescimento das
ocorrências
|
|
Entre 2021 e 2022
|
12,63%
|
|
Entre 2022 e 2023
|
11,91%
|
|
Entre 2023 e 2024
|
11,16%
|
|
Entre janeiro e junho de
2024 e o mesmo período de 2025
|
8,98%
|
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego[23]
Para que você possa ter uma ideia da realidade retratada
pelas porcentagens, vamos considerar os dados do primeiro semestre de 2025.
Entre janeiro e junho, foram registradas 377.384 notificações de acidentes de
trabalho e a morte de 1.673 empregados. A contas feitas, são 2.085 ocorrências
por dia, uma morte a cada 3 horas, sendo que 62 de cada 100 acidentados foram
afastados de suas funções por até 15 dias e outros 12 precisaram de um tempo
maior para se recuperar.[24] Apesar de a subnotificação
das ocorrências, da falta de padronização dos procedimentos de extração de
dados e da ausência de um sistema de registro unificado impedir a mensuração da
quantidade real dos acidentes de trabalho, os números existentes provam a
deterioração das condições de trabalho.
Os benefícios de
incapacidade temporária superior a 15 dias retratados nas estatísticas do INSS
mostram a evolução desta carnificina num contingente de empregados formais que
representa cerca de 45 em cada 100 ocupados. Pelos números divulgados, o total de
afastamentos entre 2021 e 2025 mais que dobrou ao passar de 1.983.421 para
4.126.112. Do total registrado no ano passado, 546.254 tiveram como causa os
transtornos mentais de trabalhadores e trabalhadoras em mais de 2.000
profissões, um aumento de 194,1% em relação aos 185.708 de 2021.
A piora progressiva das
pressões do trabalho no mesmo período de tempo é confirmada também pela
quantidade de novos processos por assédio moral na justiça trabalhista e pelas
denúncias recebidas. Os novos processos passaram de 84.196, em 2021 para 142.814
no ano passado (69,6% a mais); as denúncias por assédio junto ao Ministério
Público do Trabalho pularam de 4.776, em 2021, para 18.207, em 2025, (alta de
281,2%); e no Disque 100 passaram de 299 para 2.757 (alta de 822,1%) nos mesmos
cinco anos. [25]
Se isso não espelha o
lucrar “arrancando o couro do peão”...eu não sei que outra definição sintetiza
melhor o cenário retratado pelos números apresentados.
3.
A economia doméstica diante da inflação oficial.
É fato que a percepção da
perda de poder de compra dos salários não guarda uma relação direta somente com
os índices oficiais que medem a elevação média dos preços de mercado. A rigor,
a sensação de que o dinheiro que entra aumentou, mas com ele é possível comprar
menos do que no passado depende tanto da quantidade e da variedade dos itens
consumidos, como de uma série de outros fatores com peso diferenciado em cada
núcleo familiar. Alguns exemplos ajudam a visualizar aumentos a partir dos
quais as pessoas precisam retirar mensalmente uma fatia maior de sua renda.
De acordo com a Agência
Nacional de Saúde Suplementar, em 2025, o reajuste médio dos planos de saúde
ficou em 11,15%, uma alta que corresponde a mais que o dobro da inflação
apurada.[26] Na seara das mensalidades
escolares, estes aumentos chegaram a 9,8% quando consideramos todos os níveis
do ensino privado.[27]
Quem paga o aluguel também
passou longe de ter algum refresco. A mordida média na renda do trabalho teve
um aumento de 9,44%, 5,18 pontos percentuais acima da inflação oficial.[28] Comprar um imóvel novo
também não foi nada fácil. Na cidade de São Paulo, por exemplo, apesar de os
lançamentos de 2025 crescerem 34,0% em relação a 2024 e de 64,0% do total das
113.000 unidades comercializadas serem do programa Minha Casa Minha Vida, o
aumento médio dos preços à vista fechou o mês de dezembro em 15,3%.[29]
Mas há também um tipo de
impacto no orçamento doméstico que os cálculos oficiais não incorporam. Estamos
nos referindo, por exemplo, ao desgaste financeiro provocado pelo atraso na
concessão de um benefício previdenciário. Em 1º de janeiro de 2025, a fila de
espera do INSS estava em 2 milhões e 40 mil pessoas e encerrou 31 de dezembro
em 3 milhões e 38 mil, uma alta de 48,9%.[30]
Sim eu sei que estamos falando de uma pequena parcela da população, mas, se
somar isso aos fatores já citados e ao fato de a situação de cada membro da
fila gerar reflexos em um número semelhante de famílias, perceberá que o
descontentamento deste “pouco” tem uma caixa de ressonância considerável.
A pegada desta realidade
nas contas nacionais foi captada pelo IBGE nos cálculos do PIB pela ótica da
demanda.[31] Ao tratar do consumo das
famílias, o Instituto apontou um crescimento de apenas 1,3% em relação ao ano
anterior, quando o mesmo indicador havia registrado uma elevação de 5,1% ante
2023. O peso da taxa SELIC mais elevada (14,3%, na média anual do ano passado,
ante 10,9% em 2024) foi apontado como um dos elementos pelos quais o consumo
das famílias cresceu apenas 0,7% no primeiro trimestre de 2025 e 0,5% no
segundo; sendo que, entre julho e setembro, encolheu 0,1% e ficou no mesmo
patamar entre outubro e dezembro.[32]
Contudo, à exceção de cerca
de 80,0% dos contratos de financiamento habitacional que, pelas regras
vigentes, não podem ter uma taxa de juros acima dos 12,0% anuais,[33] todas as demais formas de
crédito conheceram taxas bem superiores à SELIC. Em dezembro do ano passado, o
Banco Central do Brasil apontou que a média anual da taxa de juros para pessoa
física havia sido de 60,1%, 7 pontos percentuais acima da apurada em 2024.[34] No mesmo mês, o
levantamento da Confederação Nacional do Comércio mostrou que o impacto do
custo de vida e dos juros no orçamento doméstico fez com que 2025 encerrasse
com 78,9% das famílias endividadas, 2,3 pontos percentuais acima do apurado um
ano antes.[35]
Acreditamos que os dados
apresentados explicam por que a maioria da população não sentiu nenhuma melhora
na economia e pouca diferença fez o valor a mais que entrou na conta graças à
isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000.[36]
Neste cenário, não podemos estranhar que 61 em cada 100 trabalhadores afirmem
querer mudar de emprego na esperança de ganhar mais pelo suor derramado nas
tarefas diárias.[37]
Mas isso não é tudo. Sabemos que o fato de a renda do trabalho
dar conta do consumo familiar tem grande impacto nas decisões de voto dos
eleitores. E aqui, erra quem acredita que as pessoas se referem apenas à
possibilidade de satisfazer suas necessidades básicas. Em toda a pirâmide
social, comprar não é apenas uma forma de garantir os meios para a
sobrevivência física, mas, também de ganhar certa visibilidade social. Bens
como carros, aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos mostram a familiares,
vizinhos e conhecidos o “sucesso” alcançado e, em geral, marcam o ponto de
partida do esforço para alcançar novos patamares.
À medida que o padrão de consumo eleva a visibilidade do
indivíduo e molda a sua identidade, as condições que o obrigam a permanecer no
mesmo nível ou ameaçam fazê-lo regredir em função dos juros das dívidas, da
precarização das relações de trabalho ou de ações criminosas alimentam o medo e
a busca de proteção. Uma proteção cuja origem não está na preocupação de um
indivíduo cuidar do outro a fim de fortalecer os laços da luta coletiva para
eliminar as engrenagens que alimentam a exploração do trabalho e a marginalização,
mas que visa o endurecimento das formas de coerção com as quais acreditam poder
proteger o patrimônio individual. Nada garante que matar bandidos dê os
resultados almejados, mas a sensação de que o mal está tendo o tratamento que
merece ajuda a controlar as angústias e renova as esperanças de tempos mais
promissores.
Neste sentido, diminuir a pobreza, vencer a fome, garantir um
botijão de gás, depositar um valor mensal para que os estudantes das famílias
necessitadas possam continuar na escola ou qualquer outro programa social
destinado a quem está na base da pirâmide pode ser importante para o governo,
mas é bem menos significativo para uma sociedade que aposta no “eu consumidor”
como caminho da afirmação social. Desta forma, entre os remendos ao
esgarçamento das relações interpessoais causado pela pobreza e a ausência de
uma reflexão sobre as causas estruturais da marginalização como explicação para
os aspectos indigestos do país, a melhora do consumo passa a ocupar o centro
das preocupações da própria classe trabalhadora e da quase totalidade das
direções dos movimentos que dizem representa-la.
Dormir com um barulho desses é difícil. Ver a direita crescer
surfando no descontentamento popular provocado pelos mecanismos de exploração
dos grupos de poder por ela representados devora parte do pouco sono que
restava. Mas ver que a importância de destruir estes mesmos mecanismos é
coberta por uma camada de chumbo cuja espessura aumenta com o auxílio de quem
deveria centrar seus esforços em removê-la transforma a insônia em companheira
de todas as horas.
Emilio
Gennari, Brasil, 22 de março de 2026.
Vamos
deixar este princípio para problematizar numa outra oportunidade. Pois, o
racismo é uma degradação humana combatida por todas as classes.