quinta-feira, 4 de junho de 2026

O dedo de Trump nas eleições dos EUA

 


No calendário político estadunidense, faltam pouco mais de cinco meses para o pleito que escolherá os 435 integrantes da Câmara dos Deputados, 35 dos 100 senadores e os governadores de 39 Estados e territórios.[1] Realizadas no meio do mandato presidencial, estas eleições são um teste político para a Presidência da República. Historicamente, quanto maior a insatisfação com a política governamental, menor é a chance de o partido do Presidente manter a mesma representação parlamentar.

            A administração de Donald Trump se aproxima deste momento crucial num clima de descontentamento que a pesquisa de opinião do Financial Times traduz em números de forma clara e direta: 58,0% dos entrevistados desaprovam a forma com a qual o governo lida com a inflação e o custo de vida, apontados como os principais problemas do país.[2]

            Concretamente, se o Partido Republicano perder a maioria na Câmara dos Deputados ou no Senado, os Democratas podem iniciar investigações contra membros do governo, realizar audiências públicas para fiscalizar a aplicação das verbas orçamentárias e levar adiante uma série de medidas que freariam a total liberdade de ação com a qual Donald Trump vem conduzindo o seu mandato.

Diante desta possibilidade, os comentaristas políticos são unânimes em afirmar que o Presidente não aceitará pacificamente a vontade popular se esta vier a privá-lo da maioria que lhe dá sustentação nas duas casas do Congresso Nacional. O fantasma dos acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, quando a invasão de manifestantes pró-Trump tentou impedir a posse de Joe Biden, ainda ronda as instituições estadunidenses e se mantém vivo com a periódica reafirmação de que a eleição de Biden contou com os votos de imigrantes ilegais.

Além da pressa em apresentar resultados que provem o acerto das escolhas do seu governo, o esforço de Trump para não perder a maioria no Senado e na Câmara dos Deputados inclui medidas que interferem em elementos-chave do processo eleitoral. As reflexões que seguem descrevem os passos dados pelo Presidente dos EUA a fim de garantir um panorama institucional que sustente seus esforços de criar uma ordem favorável às demandas do grande capital e de proporcionar a adesão popular a medidas mais contundentes, caso a contagem dos votos lhe seja desfavorável.

1.     As características do processo eleitoral estadunidense...e suas brechas

À diferença do que acontece no Brasil, ter a maioria da preferência nacional dos eleitores não garante a um partido a obtenção de um número equivalente de deputados e senadores no Congresso Nacional. Nos Estados Unidos, apenas o candidato que recebe a maioria dos votos no distrito eleitoral onde se apresentou é declarado vencedor (ou no Estado inteiro quando se trata de eleger senadores e governadores).[3] A votação dos demais concorrentes é registrada em ata e não serve para nenhum tipo de cálculo relacionado à futura composição do Congresso. Por isso, um partido pode obter a maioria dos votos ao ganhar a disputa por uma ampla margem em vários distritos, mas não conseguir a maioria dos assentos na Câmara dos Deputados, caso o seu adversário emplaque seus candidatos na maioria deles. Concretamente, no total das 435 áreas em que é realizada a votação, de nada adianta aos Democratas conseguir a vitória com uma porcentagem expressiva de votos em 217 delas se os Republicanos ganharem nas 218 restantes, ainda que seja por apenas um ou dois votos de diferença.

No momento em que escrevemos, algumas pesquisas de opinião registram que os Democratas contam com a preferência de 47,0% das pessoas entrevistadas ante 45.0% dos Republicanos.[4] Contudo, isso significa apenas que o Partido Democrata conta com uma pequena vantagem nacional. Neste cenário, os Republicanos temem não conseguir a preferência dos eleitores nas 17 áreas onde o voto majoritário flutua entre o candidato do governo e o da oposição a depender da aprovação da política presidencial.[5] De consequência, as atenções do Partido se voltam inteiramente à necessidade de não perder a atual diferença de 5 representantes com a qual garante a maioria na Câmara dos Deputados.

Ciente disso, desde agosto de 2025, Donald Trump vem pressionando os governadores republicanos a melhorar as perspectivas de desempenho da legenda nos Estados. Com base nos resultados dos pleitos anteriores, a reorganização territorial dos distritos eleitorais se apresenta como uma medida sem a qual é impossível aumentar as chances de manter a maioria republicana na Câmara dos Deputados.

Reorganizar a divisão distrital é uma tarefa assumida no país inteiro após o censo da população, realizado a cada dez anos. De acordo com a legislação vigente e seguindo procedimentos próprios de cada Estado, a partir dos dados apresentados pelo recenseamento de abril de 2020, os governadores já haviam redefinido algumas das áreas que integram os distritos a fim de equilibrar o número médio de seus habitantes. Contudo, nada impede que, seguindo a legislação local, o legislativo e o executivo de cada Estado reordenem a divisão distrital sempre que considerarem necessário.

Sabendo da finalidade eleitoral da redistribuição territorial, os próprios parlamentares oposicionistas podem questionar nos órgãos superiores do judiciário a divisão do Estado com base na qual o partido que governa pretende realizar as eleições de novembro de 2026, caso entendam que as distorções existentes prejudicam a representação da população. No momento em que escrevemos, o processo de “manipulação dos distritos eleitorais” favorece o Partido de Donald Trump. Vejamos as situações mais significativas.

No final de abril deste ano, a Suprema Corte dos EUA decidiu a favor de uma ação movida pelos Republicanos no Estado da Louisiana. Segundo seus autores, em 2022, o governo local teria criado uma circunscrição eleitoral composta por uma população majoritariamente negra. À medida que os afrodescendentes representam cerca de um terço dos habitantes do Estado, o viés racial do distrito inviabilizaria a correta representação da composição étnica do Estado.

A bem da verdade, o motivo é outro. Antes da última reorganização distrital, o assento correspondente à grande parte da região em questão havia sido ocupado por um branco desde 1885 e por um Republicano desde 2009. Nas eleições de 2024, os votantes deste distrito elegeram para a Câmara dos Deputados a afrodescendente democrata Cleo Fields, uma “afronta” que os conservadores não engoliram.[6] Infelizmente, o golpe desferido contra a representação negra na Câmara dos Deputados fez mais uma vítima. Na esteira da jurisprudência criada pela decisão da Suprema Corte, o legislativo do Tennessee aprovou a redistribuição territorial de um distrito onde a população majoritariamente afrodescendente poderia dar a vitória aos democratas.[7]

Em 2024, no Estado da Flórida, os candidatos Republicanos levaram a melhor em 20 dos 28 distritos existentes. O novo mapa eleitoral, supostamente redesenhado para melhorar a representação das comunidades minoritárias, amplia as chances de o Partido de Trump elevar a 24 o número de deputados eleitos para o Congresso Nacional. Algo semelhante aconteceu nos Estados de Missouri, Carolina do Norte e Ohio, onde a reorganização distrital proporciona aos Republicanos certa vantagem em algumas das cadeiras em disputa.[8]

Diante das investidas dos Republicanos, os governadores da oposição também correram para “mexer os pauzinhos”. Os legisladores do Estado da Virgínia promoveram a reorganização dos distritos locais com o intuito de favorecer o Partido Democrata que governa esta entidade federativa. Porém, ao julgar uma ação impetrada pelos Republicanos, a Suprema Corte reconheceu as falhas processuais nela apontadas e, com base numa lei do início do século passado, mandou que as eleições de novembro adotem a divisão distrital utilizada no pleito de 2024. Com isso, as chances de arrancar 4 cadeiras atualmente ocupadas pelos Republicanos ganhou as feições de uma possibilidade mais distante.[9]

Obviamente, nenhuma destas medidas garante que Republicanos e Democratas alcancem a maioria de 218 representantes na Câmara dos Deputados. Até novembro, a lista de êxitos e fracassos do governo Trump oferece várias possibilidades de mudança no humor dos eleitores. Com base nelas os marqueteiros de ambos os partidos terão que suar a camisa para conquistar as preferências dos votantes e, sobretudo, para fazer com que mais dos costumeiros 40,0% deles exerçam o direito de escolher seus representantes.

No “vale tudo” do caminho rumo às eleições, outras possibilidades prometem favorecer o Partido Republicano. É o que veremos no próximo capítulo.

 

2.     Como usar a lei para dificultar o voto dos pobres.

            De acordo com a legislação, pode votar o cidadão estadunidense que completar os 18 anos de idade até o dia da eleição. A viabilização desta possibilidade depende de normas estaduais que definem a comprovação de sua cidadania na hora de solicitar a inserção do seu nome na lista de votantes. Alguns estados definem prazos para que isso ocorra, outros permitem que o eleitor se registre no dia da eleição e há casos em que o votante não cadastrado escolhe o candidato de sua preferência com um “voto provisório”, que será computado na contagem final se a sua condição de cidadão não for contestada. Às vezes, os municípios recebem a incumbência de organizar os processos eleitorais nos distritos e de definir os documentos válidos na hora de comprovar a cidadania estadunidense, o que leva a aumentar as possibilidades desta comprovação.

Em geral, quanto maiores são as exigências, maiores são também as dificuldades que os pobres enfrentam para poder votar. Concretamente, pedir que a comprovação da cidadania seja feita somente com a apresentação da certidão de nascimento, da carteira de motorista ou do passaporte, implica em alijar um número considerável de pessoas pelo simples fato de elas não terem estes documentos. No caso da certidão de nascimento, é bastante comum que a precariedade das condições de vida tenha levado à sua perda e que a família não tenha condições de conseguir uma segunda via. É assim que, de acordo com o Centro Brennan para a Justiça, 9,0% dos cidadãos estadunidenses em idade de votar (cerca de 21 milhões e 300 mil pessoas) não podem votar pelo simples fato de não ter nenhum desses três documentos. [10]

Sabendo que o voto não é obrigatório e que a preocupação central dos Republicanos passa longe de fazer com que a população menos inclinada a escolher candidatos do seu partido exerça este direito, não estranhamos que as ações em curso tratem justamente de evitar que os mais pobres se dirijam às urnas. Em fevereiro, a preocupação de garantir que apenas cidadãos estadunidenses compareçam nas sessões eleitorais levou a Câmara dos Deputados a aprovar que a inscrição nas listas de votantes ocorra, obrigatoriamente, mediante a apresentação da certidão de nascimento ou do passaporte. Se a norma passar no Senado, o partido de Trump aumentará ainda mais o contingente de pessoas impossibilitadas de votar nas eleições deste ano por não ter possuir um dos documentos que comprovam a sua condição de cidadão dos EUA.[11]

No momento em que escrevemos, as apurações das irregularidades levaram a magros resultados. Em janeiro de 2025, a organização Judicial Watch divulgou um relatório pelo qual 388 não-cidadãos estadunidenses do Distrito de Colúmbia teriam votado na eleição presidencial de 2024, vencida por Donald Trump. Por sua vez, segundo o banco de dados da instituição conservadora Heritage Foundation, haveria mais de mil e seiscentas fraudes registradas nos processos eleitorais dos Estados Unidos. Com base nos números destes levantamentos, em 2024, o pesquisador Jesse Richman, da Old Dominion University, apurou a presença de somente 79 eleitores não-cidadãos que se registraram para votar entre 2002 e 2022, sendo que apenas 67 deles expressaram sua preferência eleitoral nos pleitos realizados neste intervalo de tempo.[12]

Poucos ou muitos, para Trump, o que importa é mostrar que a permissividade das regras locais na comprovação da cidadania do eleitor pode comprometer a lisura de uma eleição, caso o governo federal deixe tudo por conta dos Estados. Mas, enquanto o Senado se debruça sobre o projeto de lei aprovado pelos Deputados, o Presidente dos EUA vai além da definição dos documentos necessários a serem nacionalmente exigidos. Em suas intervenções, Trump afirma que garantir uma eleição “limpa” demanda entregar ao governo federal a possibilidade de intervir na organização e na fiscalização do pleito, algo que, pelas normas vigentes, compete aos Estados.

Neste contexto, o fato de a Casa Branca enviar ordens que estabelecem regras para a elaboração das listas eleitorais dos distritos e o voto pelo correio, não só dá corpo e forma às ideias do Presidente como, a nosso ver, aplana o terreno para medidas mais contundentes em caso de perda da maioria Parlamentar. E não é para menos, pois, o simples fato de Estados governados pela oposição não terem acatado as ordens recebidas pode ser usado para apontar nesta recusa as condições que favoreceram as supostas irregularidades que estarão sendo denunciadas.[13]

A engrossar o caldo desta eventualidade, encontramos vários comentaristas e influenciadores sociais que defendem a necessidade de Trump declarar uma situação de emergência de segurança nacional sempre que suspeitar de alguma fraude. A legislação já confere ao Presidente da República o poder de apreender boletins de urna em caso de irregularidades. Por isso, alimentar a suspeição em volta do processo eleitoral ajuda a vincular a rejeição da nacionalização das eleições a irregularidades graças às quais os candidatos democratas teriam saído vencedores em alguns distritos.[14]

No jogo da extrema direita estadunidense, não faltam também encarregados de criarem cortinas de fumaça enquanto os tomadores de decisão jogam suas cartas mais importantes. No final de abril deste ano, o influenciador Nick Fuentes usou um podcast para levantar uma polêmica aparentemente surpreendente. Sob o título “Que direitos você tiraria das mulheres?”, Nick  somou sua voz ao crescente coral que defende o fim do voto feminino. Vista de fora, a sua intervenção parece não passar de uma bravata do machismo conservador, alicerçada nas considerações da comentarista política Helen Andrews, cujos artigos abrem as portas ao do direito de voto para as mulheres.

Ainda que restrita aos círculos mais conservadores, esta demanda apela à instabilidade econômica e do mercado de trabalho supostamente gerada pelas mulheres, aos avanços das agendas progressistas, às leis que, em alguns estados do país, protegem o aborto e às consequências negativas da atuação feminina na vida política do país para promover o fim do direito de voto para as mulheres.[15] A verdadeira razão desta demanda, que ninguém deste grupo reconhece, é outra: de acordo com as pesquisas, as mulheres estadunidenses tendem a votar mais em candidatos do Partido Democrata do que nos do Republicano...o que, obviamente, é um problema para um grupo que precisa se manter no poder. Ainda que baste pouco para desmascarar as verdadeiras intenções desta polêmica, quanto mais as pessoas entram nela, menos tempo e energias dedicarão a entender o clima eleitoral que está sendo preparado com o cuidado de quem pretende evitar uma emboscada.

Nossas reflexões chegaram ao fim. Esperamos que estas breves linhas tenham mostrado mais um capítulo do insidioso jogo com o qual a extrema direita lança mão de recursos legais para despertar medos e incertezas a fim de organizar o cenário eleitoral de acordo com seus interesses. Apresentadas como lógicas e justificáveis pelos Republicanos, o conjunto destas medidas prepara um ambiente favorável à aceitação popular de ações mais contundentes, caso o pleito entregue aos democratas a maioria em uma das casas do Parlamento.

Como vem ocorrendo em todos os países em que a extrema direita ganhou um espaço considerável ou já está no governo, Trump e os Republicanos tratam de fragilizar sistematicamente os mecanismos que dificultam sua ulterior expansão. Ora com intervenções sutis e progressivas, ora com uma avalanche de posturas e ordens executivas que testam a capacidade de resposta das instituições, ora com medidas que levam o povo estadunidense a aderir à fragilização da ordem vigente, o convencimento da população está sendo travado com argumentos lógicos e aparentemente inquestionáveis que redefinem a democracia para que ela esteja a serviço de um projeto de poucos e para poucos.

Desmascarar as intenções do que é apresentado como justo e correto demanda ter os pés firmemente apoiados numa leitura crítica dos acontecimentos, algo que, infelizmente, poucos dominam. Esperamos, torcemos e desejamos que a classe trabalhadora dos EUA aja no sentido de derrotar os planos da extrema direita e de inaugurar um novo tempo na definição dos passos que organizam a vida em sociedade.

 

Emilio Gennari, Brasil, 24 de maio de 2026.



[1] Em: https://en.wikipedia.org/wiki/2026_United_States_elections  Acesso realizado em 11.05.2026.

[3] Vale lembrar que o mandato de senador é de seis anos, e a cada dois anos um terço das cadeiras da Casa é submetido a renovação. Nas eleições de novembro deste ano, não haverá votação para o Senado em 14 estados: Arizona, Califórnia, Connecticut, Dakota do Norte, Indiana, Maryland, Missouri, Nevada, Nova York, Pensilvânia, Utah, Vermont, Washington e Wisconsin.

Em: https://monitordademocracia.org.br/congresso-dos-estados-unidos-o-que-esperar-das-midterms-2026/ 

Acesso realizado em 12.05.2026

[13] Baseamos nossas afirmações tanto no conteúdo das ordens executivas e na forma como foram apresentadas no próprio documento da Casa Branca como nas análises de clima pré-eleitoral de alguns comentaristas da política local. O documento ao qual nos referimos foi divulgado em: https://www.whitehouse.gov/fact-sheets/2026/03/fact-sheet-president-donald-j-trump-ensures-citizenship-verification-and-voter-eligibility-in-federal-elections/  Acesso realizado em 12.05.2026.

sábado, 16 de maio de 2026

O Capital Não é Fiel à Bandeira Nacional

Universidade Columbia. Fotografia: Alex Kent/Getty Images

 

O capital não é fiel à bandeira nacional, mas à melhor resposta para a pergunta “quanto quero ganhar com isso?”[1] (Emilio Gennari)

 

Donald Trump em seu Make America Great Again (MAGA) se apresentou como a mais recente grande esperança da Nação “americana” em sua segunda campanha presidencial. Mas não se pode julgar um homem pelo que ele pensa de si mesmo, e sim, por meio do estudo da realidade na qual ele constrói sua visão de mundo.  Apesar de todas as suas promessas de campanha apontarem em uma direção, as ações tomadas em seu governo – que estão deixando todos atônitos - apontam na direção oposta. O que podemos inferir a partir das controversas ações pessoais e governamentais de Donald Trump?

Um primeiro aspecto a ser observado sobre este fenômeno é o fato dos Estados Nacionais caminharem cada vez mais na direção de uma transição para Estados do Capital enfraquecendo as fronteiras nacionais, que no passado foram a base do nascimento do grande mercado, necessário ao desenvolvimento do Capital.

A partir do surgimento do Estados Nacionais quebram-se as amarras internas à exploração do proletariado. A compra e venda da força de trabalho em território nacional tornou-se livre dos empecilhos feudais e dos outros modos de produção existentes. A partir daí, os capitalistas garantem o monopólio da compra e venda da Força de Trabalho dentro das fronteiras nacionais, as relações capitalistas se desenvolvem sob a égide da Burguesia Capitalista Nacional. Neste contexto histórico, as Burguesias Capitalistas Nacionais procuram fortalecer seu Estado Nacional, para garantir o monopólio da compra e venda da Força de Trabalho e as exportações de mercadorias para realização da Mais-Valia. Este processo desencadeou um poderoso desenvolvimento das forças produtivas do trabalho, gerando a concentração e centralização de Capital e a formação das grandes empresas monopolistas nacionais.

As necessidades da reprodução ampliada do Capital geraram essa forma histórica denominada Imperialismo. A exportação de Capital-mercadoria, de Capital-monetário e a disputa pelo mercado de Força de Trabalho - monopólio das Burguesias Nacionais Capitalistas - são algumas das principais características do Imperialismo. Estas disputas interburguesas provocaram a invasão e partilha da Ásia e da África e terminaram por levar os Estados Nacionais a duas Grandes Guerras Mundiais entre 1914 e 1945.

Entretanto, o período pós-guerra, foi palco de profundas transformações na base material[2] das sociedades capitalistas, a mais importante do nosso ponto de vista, foi a transnacionalização do Capital, ou seja, a compra e venda de força de trabalho deixa de ser monopólio das Burguesias Capitalistas Nacionais. O fim da Guerra fria no início dos anos 1990, abre um período histórico no qual não há praticamente nenhuma barreira para a circulação do Capital e da compra e venda de sua mercadoria fundamental: a Força de Trabalho. Ou seja, os Estados Nacionais que com suas fronteiras haviam sido o motor do livre desenvolvimento das relações sociais capitalistas, converteram-se no seu entrave. 

A base material dos Estados Nacionais foi seriamente debilitada e gerou uma série de bizarrices políticas e filosóficas. A defesa da soberania nacional, o anti-imperialismo, bandeiras caras aos revolucionários do século XX, foram seriamente abaladas. O mesmo está acontecendo com o Patriotismo e o Nacionalismo, que produziu estranhas manifestações no Brasil, nas quais, os patriotas desfilavam com camisetas da seleção brasileira com logotipo da Nike, com bandeiras de Israel e Estados Unidos e pedidos de intervenção estrangeira no próprio país[3]

No Plano político, as ações práticas do projeto MAGA de Donald Trump fundamentado na defesa do retorno a “Grande Nação”, a bizarrice é ainda maior, visto que, parece muito mais uma tentativa de sabotar as organizações políticas e militares (ONU – OTAN)[4] que garantiam a força dos Estados Nacionais, pois, acelerou os acordos transnacionais entre UE e Mercosul, UE e Índia[5], etc. No caso da intervenção na Venezuela, em nome da defesa dos "interesses americanos", o “nacionalista” Trump credenciou as transnacionais Repsol (“Espanhola”), ENI (“Italiana”), BP e Shell (“Britânicas”) ao lado da “estadunidense” Chevron, a explorar o petróleo naquele país[6].

No Estreito de Ormuz vemos as transnacionais do petróleo e do complexo industrial-militar e tecnológico lucrarem bilhões e as demais protestarem com a paralisação da circulação do Capital e o encarecimento das matérias-primas.

 REUTERS - Diego Vara
Em nossa opinião, precisamos mudar a chave de leitura. Admitir que os Estados Nacionais estão em transição e que nossas antigas bandeiras: anti-imperialismo, defesa da soberania nacional, bem como, da democracia como valor universal precisam ser no mínimo problematizadas. Tratar os grupos transnacionais como países é no mínimo aceitar o fetichismo, também no plano do pensamento.

Estamos num período em que as transacionais compram e vendem força de trabalho em qualquer território do mundo, respeitadas as regras locais, e que cada Estado defende os capitalistas que estão explorando naquele território, como disse o CEO da Coca-Cola[7]. 

Donnald Trump está na realidade cumprindo as demandas que vão além das barreiras nacionais, é um catalizador daquilo que mais diz combater, nas linhas tortas do Capital Nacional a escrita é transnacional[8]. O tarifaço se converte em seu contrário com grandes acordos de livre comércio se desenhando no horizonte - Mercosul-UE[9] e EU-Índia-, além de afetar empresas transnacionais como a Coca-Cola – que na visão de muitos seria estadunidense – com as tarifas sobre o alumínio e boicotes, levando seu CEO a destacar a “localidade” da marca, ou seja, na Alemanha é alemã, no Mexico é mexicana, ou seja, é produzida mundo afora pelo proletariado.

As políticas anti-imigração que seriam um meio de proteger o povo norte-americano do invasor estrangeiro – ironia da história? – se converteu em um remédio amargo para “seu próprio povo” e não poderia ser diferente, qual seria o resultado de impedir a circulação da mercadoria mais importante no Capitalismo: a Força de Trabalho? Aliás, Trump parece ter um fetiche em travar a circulação de mercadorias, não pensando duas vezes em iniciar uma guerra com o Irã, mesmo com os alertas do resultado previsível como consequência do conflito: o bloqueio do Estreito de Ormuz.[10]

O Capital nacional - em suas personificações patrióticas – tem sido expressão dos maiores exemplos da degradação humana[11] - racismo, xenofobia, transfobia, homofobia, misoginia etc. -, os patriotas encarnando esse velho “Walking Dead” nacionalista se debatem com todas as forças agarrados ao passado, suas pátrias brilham em seu cérebro - o ideal cega -, enquanto na prática ostentam bandeiras de Israel e Estados Unidos, se alimentam da transnacionalidade negando-a[12]. Torcem para times que contratam jogadores de várias partes do planeta, suas seleções são patrocinadas por empresas que contratam e  exploram a força de trabalho livremente em qualquer localidade do planeta. A fidelidade capitalista só conhece uma expressão: a “valorização do valor”, como escreveu Emilio Gennari. Como um Ezequiel moderno o Capital diz: “Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem fielmente às minhas leis.” (Ezequiel 36:27)[13].

Em uma matéria do site G1 consta a reveladora afirmação na qual a  “revista Forbes calcula que a fortuna de Trump agora chega a US$ 6,3 bilhões, um aumento de 60% em comparação ao período antes de sua volta à presidência[...]”[14], a máscara nacional de Trump é sempre posta de lado quando lhe convém, “no Catar, por exemplo, um clube de golfe e casas de luxo com o nome Trump está sendo construído em parte por uma empresa do próprio governo do país” e “no Vietnã, segundo o The New York Times, agricultores foram retirados de suas terras pelo governo para dar espaço a um resort Trump, e o acordo foi aprovado em uma cerimônia oficial com a presença do vice-primeiro-ministro.”

E disse o Senhor Capital ao atual presidente dos Estados Unidos: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de todas as nações, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem proclamando a nação, teu bolso e tua fortuna se regozijarão[15].

Coletivo IDE

 

[2]  Ver Tumulo Revolução Burguesa e Revolução Anticapitalista.