sábado, 8 de agosto de 2026

É POSSÍVEL AMAR AS PESSOAS COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ?

 

 

Por Max Diógenes


Os objetos não deveriam tocar, já que não vivem. Utilizamo-los, colocamo-los em seus lugares, vivemos no meio deles: são úteis e nada mais. E a mim eles tocam – é insuportável. Tenho medo de entrar em contato com eles exatamente como se fossem animais vivos.

(Antoine Roquentin)

No dia 12 de maio de 2026, uma terça-feira, o presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, que soma, em dois mandatos, vinte e sete anos à frente do clube merengue, convocou a imprensa espanhola para uma coletiva relâmpago, na qual não fez a menor questão de falar sobre a preparação do clube para a temporada 2026/2027, não abordando questões como a contratação de um novo treinador ou a respeito da chegada de possíveis reforços para o elenco, ou seja, não despendeu tempo algum para tratar daquilo que, em tese, realmente importa para os torcedores de um time de futebol: o futebol. Tive acesso ao conteúdo dessa coletiva, por meio de matéria publicada na página do globo.com, no mesmo dia da concessão da entrevista do velho mandatário.

Para além do conteúdo da famigerada entrevista, me chamou a atenção uma imagem escolhida pelos editores da página para ilustrar, ao longo do texto, determinado momento da fala de Florentino. A foto é do bilionário sentado atrás de uma espécie de bancada ou púlpito estampado com o emblema do Real Madrid em preto e branco e à frente de um fundo com tom azul claro no qual também há o escudo do clube estampado, mas, agora, em cores. Essa imagem foi precedida pela seguinte transcrição de parte da entrevista de Pérez:

“Preciso vir a público frear tudo isso, porque não posso admitir, como presidente do Madrid, que existam pessoas nos meios de comunicação tentando se aproveitar porque neste ano não ganhamos La Liga ou a Champions. Faz menos de dois anos que ganhei uma La Liga e uma Champions, mas isso já foi esquecido. Agora dizem por aí que o Madrid é uma ruína, um caos. Como pode ser um caos se é o clube mais prestigiado do mundo e isso é reconhecido por todos?”.

Foi exatamente a junção de imagem e fala que me aguçou a vontade de tornar a produzir um texto, pois há tempos, em função de coisas que tenho lido, ouvido e vivido, sinto-me tentado a escrever sobre... Bem; você verá.

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A empresa para a qual trabalho atualmente, do ramo de produção de tecidos especiais – couro para bolas esportivas, bolsas, sapatos, estofados para o setor automobilístico, etc. – desde o fim do ano passado, tem enfrentado dificuldades para a contratação e manutenção de força de trabalho para os departamentos produtivos – o famoso chão de fábrica. Diante desses percalços em relação aos trabalhadores, tem tomado iniciativas como pesquisas de clima organizacional, formação de parceria com instituição de curso superior para que funcionários possam se qualificar profissionalmente com descontos, campanhas de prevenção à determinadas patologias sociais que tem seu combate ou prevenção simbolizados nos meses coloridos – setembro amarelo, novembro azul, janeiro branco, “diabo laranja”... –, adição de máquinas de café com leite e chocolate em pó instantâneos no refeitório, etc.

À primeira vista, admito que até eu caí na tentação de acreditar que a empresa estaria genuinamente disposta a ceder em certos pontos, em pró dos trabalhadores, devido a necessidade de se conseguir contratar e mantê-los nos postos de produção. Em notícias veiculadas pelos meios de comunicação tradicionais e por posts de redes sociais, a gente vê a inevitabilidade de ações tomadas por muitos empreendimentos, sobretudo, dos setores de serviços e do comércio, para tal. Por que não uma tradicional e consolidada organização da indústria?... Ledo engano – sabe de nada inocente... Na prática, o que temos presenciado no que tange à mudanças dentro da organização, é uma tentativa velada dos administradores de diminuir o salário indireto dos funcionários – por meio de redução de benefícios –, maior controle burocrático do comportamento e do tempo dos trabalhadores durante sua estadia no ambiente interno da fábrica – instalações de novas câmeras de segurança, proibição de se adentrar aos setores produtivos portando o aparelho celular de uso pessoal e alimentos que poderiam ser compartilhados entre os trabalhadores ou mesmo vendidos para complemento de renda, exigência rigorosa do uso de uniformes, uso de epi´s em setores que até há pouco não eram necessários, entre outras medidas.

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Lendo o livro recém lançado pelo Gustavo Machado – Marx e a filosofia: o Capital como crítica à metafísica – retomei o contato com uma das valiosas descobertas

do velho Karl, no que tange ao entendimento da funcionalidade do modo de produção capitalista: o fetichismo da mercadoria. Machado cita a afirmação de Marx de que, nas relações sociais, dentro desse modo de produção e distribuição da riqueza e, consequentemente, de organização da vida humana, para efetivamente nos relacionarmos socialmente uns com os outros – relações sociais, são diferentes de relações interpessoais – temos de ser portadores de mercadorias para que, no circuito de troca, encontremos outros portadores de outras mercadorias para realizarmos a permuta, de modo que, com a comutação, os envolvidos tenham saciadas suas necessidades imediatas a partir do desfrute do valor de uso – da utilidade – da mercadoria recém adquirida, ou seja, para que haja efetivamente relação social no mundo capitalista “as pessoas existem umas para as outras apenas como representantes da mercadoria” (Marx, 2013, p. 160, apud Machado, 2025, p. 238). De acordo com o Gustavo, com a inexorabilidade da existência da mercadoria para que haja relação social no capitalismo

“os indivíduos deixam de ser a substância das relações sociais, deixam de ser as entidades singulares e vivas em que tudo o mais não passa de um produto de sua atividade. Enquanto meros representantes, toda a sua substância, toda a sua potência para ser está depositada nas mercadorias que representam. É a coisa produzida por eles que atua como sujeito do processo”. (2025, p. 238).

Com a imagem do emblema do Real Madrid ao fundo e com Florentino se referindo ao clube do qual é mandatário há quase três décadas, na terceira pessoa, tive uma sensação nauseante, tanto quanto Antoine Roquetin no momento em que descobre a náusea, no romance homônimo à tal sensação, quando passou a sentir a condição gelatinosa do mundo material ao seu redor, ocasião na qual tudo o que deveria ser concreto e sólido como uma rocha, passa a ser frágil como uma moleira. Tanto quanto a mesa de madeira da seção quatro do capítulo primeiro d’o Capital que nos assombra ao se pôr “de cabeça para baixo... e em sua cabeça de madeira nascem minhocas” (Marx, 2013, p. 146), me aterrorizei com aquele escudo “dançando por vontade própria” (Marx, 2013, p. 146) diante de meus olhos: “Agora dizem por aí que o Madrid é uma ruína, um caos. Como pode ser um caos se é o clube mais prestigiado do mundo e isso é reconhecido por todos?”.

“A camisa que entorta o varal”; “noventa minutos no Bernabeu é muito tempo”; “PSG e City podem ter muito dinheiro, mas o Madrid tem a tradição”; “naturalmente, o maior clube do mundo”... Eis alguns dos chavões proliferados por torcedores

madridistas e por profissionais da imprensa acerca da aura merengue. A tradição e a excelência futebolísticas que se formataram ao longo das décadas quase que por passe de mágica; bastou a confecção de um uniforme inteiramente branco e o sonho de jovens estudantes de la Instituición Libre de Enseñanza para que, paulatinamente, na sala de troféus do Bernabeu, em julho de 2026, tivesse seu espaço tomado por nove taças dos campeonatos mundiais de clubes – em suas distintas versões –, quinze orelhudas da UEFA, trinta e seis La Liga, vinte Copas do Rei, além de troféus de Liga Europa, Supercopas – continentais e nacionais – e por aí vai.

O clube foi alçado à superpotência mundial de futebol por meio de colaborações financeiras e políticas no período da ditadura franquista, sendo ferramenta de propaganda para demonstrar o quão “bem sucedido” era o regime; constantemente o clube surge dentre os do topo de listas que avaliam as instituições futebolísticas mais valiosas do mundo, tanto no que tange a patrimônio quanto à capacidade de gerar receitas; Florentino Pérez é um burguês da construção e da engenharia civil com influência, inclusive, em meios de comunicação na Espanha; segundo o estatuto do clube, para pleitear a presidência, o candidato tem de dar uma garantia financeira pessoal no valor de 15% do orçamento anual em vigência, ou seja, o comandante será sempre um bilionário com influência política... Entretanto... Apesar de toda essa materialidade que propiciou ao Madrid se tornar o Madrid e que propicia a continuar sendo o Madrid, nota-se que há, mesmo na percepção de um longevo presidente que há quase trinta anos participa de todo o processo de construção e de consolidação do Real como o maior clube de futebol no mundo, intrinsecamente em sua fala, certa noção de que o clube – como diriam os jovens – “farma aura”.

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O Real Madrid Club de Fútbol é uma mercadoria – o fato de ser gerido por modelo associativo e não por modelo de sociedade anônima, não anula isso em nada – produzida no circuito futebolístico do mercado. Para que se produza e reproduza enquanto tal, tem de conseguir se trocar pela mercadoria universal – o dinheiro. A qualidade do futebol entregue pelo Real Madrid é a melhor que existe no circuito futebolístico do mercado; é o futebol por excelência. Tal nível de qualidade exige um tempo de trabalho social médio – executado por jogadores, gestores, treinadores, funcionários do administrativo, de limpeza, dos refeitórios, dos trabalhadores da

construção civil que ergueram toda a infraestrutura de seus estádios e centros de treinamento, etc. – maior do que a maioria esmagadora dos demais clubes de futebol de todo o mundo conseguem, o que envolve maior capacidade de investimento e, portanto, maior quantidade de dinheiro – em caixa, patrimônio ou crédito. Quanto maior a qualidade, mais arrecada e mais gasta. Para se manter no topo do circuito futebolístico do mercado, maior quantidade de riqueza precisa arrecadar para continuar a investir massivamente. É um processo sem fim que só pode ser mantido e aperfeiçoado se a lógica seguida for a do saco sem fundo.

Todo esse movimento reiterado, insistente, freqüente, infinito, chega à percepção dos homens e mulheres, constituintes e construtores desse processo, como o mecanismo mesmo do funcionamento do mundo; natural; autômato. O tecido social funciona por conta própria...

“o caráter misterioso da forma-mercadoria consiste, portanto, simplesmente no fato de que ela reflete aos homens os caracteres sociais de seu próprio trabalho como caracteres objetivos dos próprios produtos do trabalho, como propriedades sociais que são naturais a essas coisas e, por isso, reflete também a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social entre objetos, existentes à margem dos produtores.” (MARX, 2013, p. 147).

Nós, humanos, por meio do trabalho, botamos a bagaça para funcionar, entretanto, diante de nossos olhos, a coisa aparece como se funcionasse por conta própria. Entretanto, o caráter fetichista da mercadoria não impera sem lastro no mundo objetivo, concreto, palpável. Apesar de parecer pairar nas nuvens, ele tem os pés firmemente fincados no chão.

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As empresas, principalmente, as dos setores do comércio e da prestação de serviços que tiveram de realizar adequações administrativas para poder contratar e manter trabalhadores, só o fizeram na medida em que a correlação de forças entre capital – os empresários – e o trabalho – nós, que botamos a mão na massa – pendeu minimamente – e bota minimamente nisso – para o nosso lado. Com a baixa taxa de desemprego – segundo parâmetros e métricas do mundo capitalista – em nosso país, o trabalhador, ainda que momentaneamente, tem o poder de escolher entre um emprego

péssimo e um ruim – entre um bolo de cocô e um bolo de cocô coberto com granulado e com uma cereja no topo. Isso tem forçado os empresários desses ramos a ofertar um salário um pouco maior, um pouquinho mais de benefícios, possibilidade de se trabalhar em jornadas de 5x2, etc.

Na contramão desse movimento, a fábrica na qual trabalho tem buscado uma reestruturação por meio do enrijecimento de normas; do fortalecimento da burocracia organizacional... Os gestores fazem parecer crerem que a dificuldade para contratar e manter os funcionários por tempo considerável após a contratação está atrelada a algum tipo de desorganização administrativa e que, portanto, basta arrumar a casa, colocar as coisas nos eixos, que o fluxo de funcionários se estabilizará para um nível que possa ser considerado dentro do normal. Tudo não passa de uma questão de técnica e eficiência.

Os gestores que optam pelo primeiro caminho, não o fazem pensando no bem estar dos funcionários que estão e que em breve estarão na empresa; o mesmo vale para, por exemplo, a fábrica na qual trampo. O aperfeiçoamento administrativo, não visa a melhora das condições de trabalho, dos salários, dos benefícios e, por conseguinte, da qualidade de vida dos trabalhadores. Tais medidas só são tomadas, porque a atual correlação de forças entre capitalistas e trabalhadores tem interferido na taxa de lucro dos proprietários, naquele fluxo infinito de arrecadação e investimentos para se manter e ampliar a produção de alguma mercadoria, que citamos acima, usando o Madrid como exemplo – apesar dos casos não serem exatamente iguais.

Um dirigente de futebol que convoca uma entrevista coletiva para não falar de futebol; empresas que tomam medidas à margem das conseqüências que tais medidas possam ter para seus trabalhadores, ainda que por tabela, vez ou outra, tais conseqüências lhes sejam “benéficas”. Recentemente, matriculei-me num curso superior à distância de Gestão em Recursos Humanos. No primeiro semestre, há a disciplina de Relações Étnico-Raciais, Direitos Humanos e Educação Ambiental. Também há a disciplina de Comunicação não violenta, Escuta Ativa e Linguagem não corporal. Você, suposto leitor ocasional desse texto, consegue vislumbrar alguma utilidade, alguma funcionalidade, alguma utilidade em se estudar tais tópicos num curso voltado para o mundo corporativo? A mesma estrutura produtiva que relega o povo negro a empregos de menor qualificação e com menores remunerações, que devasta terras que em tese seriam ambientalmente protegidas ou terras indígenas, na qual dia sim, dia também, naturaliza cobranças por produtividade, seja no escritório, seja na operação de uma máquina industrial qualquer ou em relação às metas de vendas num determinado

comércio utilizando-se de métodos militares, põe em pauta tais questões num curso acadêmico, voltado para a gestão e, portanto, para a manutenção dessa estrutura produtiva, para quê?

Em sua famosa obra, A Sociedade do Espetáculo, publicada em meados da década de 60 do século passado, Gui Debord, que entende a mercadoria – a relação social mercadoria – como o espetáculo em si, pauta-se por Feuerbach, para quem, “Nosso tempo, sem dúvida... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser” (FEUERBACH, apud DEBORD, 2003, p. 13). Para o contexto empresarial, formar o quadro de “colaboradores” com funcionários que tenham aprendido alguma coisa sobre tais questões, talvez – só talvez, rs – só se faça útil para que no dia-a-dia se evitem deslizes éticos e possíveis processos.

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Agora, saiamos das relações sociais, ou seja, das relações nas quais humanos que portam mercadorias realizam uns com os outros as trocas dessas mercadorias; as relações nas quais toda a riqueza do mundo é produzida e distribuída seguindo a lógica do Deus Mercado e aterrissemos na terra de nossas relações interpessoais. Nosso convívio dentro do núcleo familiar; as horas em que passamos sentados numa mesa de bar tomando umas cervejas com amigos enquanto jogamos conversa fora; a noite de sábado com comida de delivery, seguida de série em alguma plataforma de streaming e de sexo catártico com nosso parceiro ou parceira; as festas para arrecadação de fundos da igreja do bairro ou o grupo de esposas católicas que se reúnem às segundas-feiras para uma roda de confidencialidades; as viagens de longa estadia com os filhos para algum resort com mata preservada ou para alguma praia do litoral paulista; o encontro com os membros da torcida organizada do clube da cidade de porte médio, do interior do estado e que disputa a série C do campeonato brasileiro. Já teve, em algum momento da vida, a sensação de que todas essas experiências de convivência corriqueira, de alguma forma, tanto quanto ocorre nas relações sociais, também são, digamos, envolvidas por uma nébula de pura conveniência?

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Em algum momento da vida, provavelmente, num vídeo do Youtube, o Padre Fábio de Melo – Jesus amado; a quem estou recorrendo; como se já não me bastasse ter recorrido ao Legião Urbana na elaboração do título; mais a frente é possível, inclusive, que me utilize de Karnal; que faaaaseee – numa palestra qualquer proferida em algum lugar, trás boa reflexão acerca do significado e do valor que passaremos a ter para as pessoas, a partir do momento em que deixarmos de ser úteis à estas. Reproduzindo o exemplo do líder católico, imagine-se já velho e quase que vegetando numa cadeira de rodas, já sem serventia alguma para qualquer outro ser humano. Hoje, tu convive com alguém que teria a disponibilidade de, nessa situação, ao longo do dia, lhe empurrar para um banho de sol em troca de nada? E melhor: alguém que depois de lhe coloca debaixo do sol, estaria disposto a te retirar quando o calor arder em demasia?

Também no Youtube, numa fabulosa aula organizada pelo coletivo “Decifra-me Enquanto te Devoro”, o professor Sérgio Lessa também indaga sobre a possibilidade de se viver algo que possamos chamar de amor verdadeiro em sociedades cujos modos de produção e distribuição da riqueza, estratificam os seres humanos em classes, com especial atenção, como não poderia deixar de ser, ao nosso velho modo de produção capitalista. Num mundo pautado pela exploração do trabalho alheio e, portanto, por relações de dominação do homem pelo homem, se faz possível, por exemplo, a vivência de algo que possamos chamar de amor, haja vista que nas palavras do próprio professor “o amor é tudo, menos uma relação de dominação”? Consegue calcular a quantidade de pessoas que tu considera realmente amar e que na relação dialética entre vocês que se amam, não há uma conexão hierarquizada?

Na obra “Por que as mulheres têm melhor sexo sob o socialismo e outros argumentos para a independência econômica”, Kristen Ghodsee mostra, a partir de documentos estatísticos e relatos, como a não dependência econômica de um dos parceiros em relação ao outro, em vínculos conjugais dentro de diversos países nos quais, no mínimo, se iniciou um processo revolucionário, propiciou a experimentação daquilo que ousamos chamar de amor, de modo mais profundo, desinteressado, talvez até com maior autenticidade e entrega. Tu podes amar e ser amado independentemente de construção de patrimônio? Na mesma obra e pautando-se pelo mesmo ferramental documental, a autora constata que no ocidente capitalista, intencionalmente, tanto mulheres quanto homens tendem a mercantilizar as relações amorosas, com mulheres se criando enquanto produto a ser adquirido por um homem financeiramente bem sucedido e provedor e com este batalhando para construir riqueza a ponto de poder comprar uma

mulher bela, recatada e do lar como esposa. É possível vislumbrar felicidade em matrimônios dessa natureza? Se não, tem como escapar a esse padrão? Pela dificuldade do escape, sobretudo, em redes sociais, presenciamos uma violenta guerra dos sexos, numa “equivocada luta das mulheres contra os homens – e vice-versa – e não contra o capital” como bem coloca o professor Lessa.

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Apelando para a experiência anedótica, ou seja, para minha própria vivência ao longo de quarenta anos de vida e após ter apanhado de todas as formas possíveis, tendo a entender que relações interpessoais autênticas, produtoras de afetos profundos são cada vez mais raras e não por conta de uma natureza humana desumana e sim porque a vida duma sociedade pautada pela competição voraz e pela necessidade do embrutecimento do individualismo para a sobrevivência nos leva à essa condição. No capitalismo, amar é um ato de resistência – o amor é revolucionário; tenho certeza de que alguém já disse isso, só não me lembro quem; desculpem pela falta de crédito.

Para mim, me aproximar de pessoas é algo extremamente difícil nesse mundo. Claro, teríamos de fazer toda uma longa discussão sobre uma ontologia do amor, dos afetos e da humanidade, para tentarmos compreender se há o “amor em si”, o “afeto em si” ou a “humanidade em si”. Apesar de entender que a cada dia que se passa se faz mais difícil a elevação da qualidade de nossas relações interpessoais – as minha boas se limitam a muito poucos familiares e um punhado de amigos – ainda não tive meu espírito obliterado, então, não deixarei de lutar para construir um mundo em que possamos mudar esse status de coisas.

Imagina só, viver num mundão no qual o comitê central de administração do Real Madrid, quando convocar uma coletiva de imprensa, o fará para falar de futebol e de seu caráter agregador e emancipatório; no qual as organizações da indústria e do comércio, ao adotarem novas políticas de gestão de convivência ou novos padrões nos processos produtivos, o farão para tornar as relações interpessoais melhores e o trabalho menos degradante para a saúde física e mental dos trabalhadores; no qual uma mulher não precise se prender a um homem para não morrer de fome; em que o valor daqueles que conosco convivem e com os quais convivemos, esteja na inutilidade nossa de cada dia. A internet atribui a Kafka a seguinte frase: “tive vergonha de mim mesmo quando percebi que a vida é um baile de máscaras e eu participei com meu rosto verdadeiro”.

Não há nada que comprove que Kafka tenha escrito ou dito essa frase em algum momento; mas ela expressa bem a pegada de toda a sua obra; e ela me descreve bem, também. Sou um inábil humano dentro do mundo como ele é hoje. Imaginem poder viver num mundo onde possamos ficar sem máscaras, na maior parte do tempo. Iria ser do caralho, não?

No fim, não precisei recorrer ao Karnal.

Menos mal.

REFERÊNCIAS

DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo, Brasil: eBooksBrasil.com, 2003.

DECIFRA-ME ENQUANTO TE DEVORO. O amor na sociedade de classes. 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=YnjJELx_BKQ.

GHODSEE, Kristen. Por que as mulheres têm melhor sexo sob o socialismo e outros argumentos para a independência econômica, São Paulo: Autonomia Literária, 2021.

MACHADO, Gustavo. Marx e a Filosofia: o Capital como Crítica à Metafísica, Tomo I, São Paulo: Sundermann, 2025.

MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política, Livro I, São Paulo: Boitempo, 2013.

PADRE FÁBIO DE MELO. A Liturgia do Tempo. 2012. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NNBdJ7crU2M.

REDAÇÃO GE. “Grotesca” e “delirante”: jornais espanhóis não poupam críticas à coletiva do presidente do Real Madrid. 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-espanhol/noticia/2026/05/12/grotesca-e-delirante-jornais-espanhois-nao-poupam-criticas-a-coletiva-do-presidente-do-real-madrid.ghtml.

SARTRE, Jean-Paul. A Náusea, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.