domingo, 1 de março de 2026

A América Latina diante das ameaças dos EUA


O sequestro do presidente da Venezuela por tropas de elite do exército estadunidense jogou a última pá de cal no direito internacional e mostrou que, de agora em diante, as ameaças de Trump devem ser levadas a sério. Ao dizer com os fatos “quem discordar venha me impedir”, os EUA ampliam a lista de violações perpetradas ao longo da sua história e fazem do medo a arma com a qual reorganizam a América Latina e Caribenha de acordo com seus interesses.

Diante do revólver apontado para o governo de Caracas, não podemos esperar reações heroicas dos seus integrantes. A ameaça de uma nova intervenção é real e a única forma de evitá-la demanda a conformação ativa às ordens do império. Contudo, quanto mais os joelhos dos venezuelanos se dobram diante dos EUA, mais a imagem do poder de Washington se agiganta e lança advertências tenebrosas às próximas vítimas.

Sendo assim, o momento demanda que mapeemos os acordos que vários governos assinaram com os EUA em 2025 e 2026 como condição para entender as mudanças que marcam o avanço da política de Washington entre os mandatários do nosso continente. Por isso, arme-se de paciência para acompanhar os movimentos da realidade que as nossas reflexões conseguiram identificar e não se esqueça de usar sua própria lupa para melhor identificar as pegadas que nossos olhos não conseguiram ver.

 

1.     Venezuela: traços de um passado que iluminam o presente

Ao noticiar a ação militar estadunidense, a maior parte da mídia fez questão de sublinhar o caráter autoritário do governo de Nicolás Maduro e a crise econômica e humanitária por ele provocada num país que detém a maior reserva de petróleo do mundo. Crise atribuída à incompetência e à corrupção de governos que, ao nacionalizar a extração de hidrocarbonetos, afastaram os investidores estrangeiros e sucatearam a capacidade de extração da companhia petrolífera do país.

A impressão do senso comum diante das narrativas correntes pode ser resumida numa frase bem simples: “o que aconteceu na Venezuela é ruim, mas tem tudo para fazer a vida do povo melhorar”. Ruim por ter sido através de uma intervenção militar que desperta o medo de ações semelhantes ocorrerem em outros países. Bom porque os EUA, ao abrirem alas à liberdade, criaram as condições de uma retomada do crescimento econômico. Neste cenário que retira da história os elementos incômodos à lógica do capital, o primeiro passo é, justamente no sentido de resgatar o que permite colocar as coisas em seu devido lugar. Vamos começar pela evolução do Produto Interno Bruto da Venezuela.

De acordo com os dados disponíveis, desde a posse de Hugo Chávez, em 2 de fevereiro de 1998, ao seu falecimento em 5 de março de 2013, o valor da riqueza anualmente produzida pelo país passou de 91 bilhões e 836 milhões de dólares, em 2013, para 372 bilhões e 592 milhões de dólares, em 2012, o maior patamar dos 35 anos da série histórica à qual tivemos acesso. Sabendo que a nacionalização definitiva da companhia de petróleo venezuelana (a PDVSA) ocorreu em 1º de maio de 2007, ano em que o PIB somou 232 bilhões e 857 milhões de dólares, não é possível dizer que este acontecimento teve um caráter devastador ou que, por si só, seja suficiente para explicar a crise que faria o país encerrar 2024 com um volume de riqueza correspondente a 119 bilhões e 803 milhões de dólares, menos de um terço do patamar alcançado em 2012.[1]

Para averiguar o que levou a Venezuela a um tombo tão assustador precisamos lembrar que cerca de 90% da sua economia guarda uma relação direta com o preço do petróleo no mercado mundial. Por isso, quanto maior a cotação do barril, maior é o lucro da PDVSA e mais dólares entram na economia através de suas exportações, uma situação que permite importar o que o país não produz, sustentar os programas sociais do governo e manter certo equilíbrio das contas públicas.[2] O inverso acontece quando o preço despenca. Neste caso, devemos lembrar que aumentar a extração é um tiro no pé na medida em que contribui para uma ulterior queda do seu preço, uma situação na qual a PDVSA aumentaria os custos numa proporção que comprimiria os lucros e reduziria proporcionalmente a sua capacidade de gerar benefícios para o país.

Em 1998, o preço médio do barril tipo Brent[3] era de US$ 12,8, a cotação mais baixa desde 1980.[4] Com o carro chefe da economia venezuelana sendo vendido a preço de banana, não é difícil entender a falta de dinheiro para pagar os juros da dívida externa e o avolumar-se de uma crise econômica de sérias proporções. Neste cenário, o então Presidente da República, Carlos Andrés Pérez, lançou um programa de ajuste das contas governamentais vinculado aos empréstimos obtidos junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI). As consequências da liberalização do setor petrolífero e o aumento generalizado dos preços, previstos pelo pacote, levaram a uma ulterior concentração da renda nas mãos da elite venezuelana e provocaram uma forte queda do poder de compra dos salários. Para entendermos o tamanho da revolta popular, basta lembrar que a repressão dos protestos nascidos deste arrocho deixou um saldo de 286 mortos.[5]

A eleição de Hugo Chávez ocorreu neste clima de descontentamento. As coisas começaram a mudar com a viabilização dos programas sociais destinados a melhorar a vida dos mais necessitados, uma medida que ampliou seu alcance com a nacionalização do setor petrolífero por ele realizada em 2007 e a utilização de toda a renda dos hidrocarbonetos para este fim.

A redução da extração do petróleo mundo afora favoreceu este processo ao elevar o preço médio do barril aos US$ 111,63, em 2012. Com mais recursos em caixa, as políticas públicas ampliavam o esforço de reduzir a pobreza extrema e o analfabetismo, de aumentar a atenção primária à saúde e de construir moradias populares que, até o falecimento de Chávez, somaram mais de 5 milhões de unidades.[6] Foi graças a esta intervenção do Estado em benefício dos mais necessitados que, entre a posse e o fim do seu governo, a pobreza caiu de 70,0% para 7,0%.[7] Porém, apesar dos resultados incontestáveis dos programas sociais nos 15 anos do governo Chávez, o país não conseguiu reduzir a dependência do petróleo com a diversificação da produção de outros setores da economia.

Nicolás Maduro iniciou o seu primeiro mandato num cenário de queda dos preços do barril de petróleo. Em 2016, o preço médio do Brent fechou em US$ 43,67, pouco mais de um terço da cotação de 2012. Com a forte redução da receita, o governo perdeu cada vez mais reservas internacionais, elevou o déficit público para sustentar os programas sociais e viu a inflação atingir patamares anuais cada vez mais elevados.

Em 2017, as dificuldades aumentaram ainda mais quando Trump impôs uma série de restrições financeiras que incluíam a redução do acesso aos financiamentos externos. No ano seguinte, o mandatário estadunidense congelou os ativos venezuelanos e da PDVSA nos EUA e proibiu as importações dos hidrocarbonetos da Venezuela.[8] Neste período, além de ampliar a escassez de dólares nos cofres do governo, as sanções estadunidenses inviabilizavam a própria compra de peças essenciais à manutenção das plataformas da PDVSA, levando a um desgaste progressivo de suas instalações.

A elevação dos preços do barril para US$ 71,34, em 2018, trouxe bem pouco alívio à economia venezuelana que, no início do ano seguinte, mergulhou num novo pesadelo depois que o candidato da oposição, Juan Guaidó, se declarou ganhador do pleito para a Presidência do país. Ao reconhecer a sua vitória, Washington congelou as contas da Venezuela, levando ao fechamento de vários bancos. A União Europeia aplicou sanções parecidas. O resultado deste bloqueio dificultou tanto o recebimento dos valores referentes às exportações de petróleo, quanto o pagamento das importações venezuelanas.

Ainda em 2019, o déficit público crescente, a inflação galopante e a forte desvalorização da moeda local (o bolívar) levaram o Banco Central da Venezuela a solicitar ao Banco da Inglaterra que devolvesse as 31 toneladas do ouro do país por ele custodiadas. Os ingleses se recusaram a realizar a operação alegando a ilegitimidade do governo Maduro, o que contribuiu para aprofundar a crise econômica.[9]

No ano seguinte, a epidemia de Covid piorou o que já estava bem ruim. Com a economia mundial em recessão, o preço médio do petróleo despencou para US$ 41,96 o barril e o PIB que vinha numa trajetória de queda desde 2014, sofreu um tombo de 30,0% em relação a 2019. Além da inflação galopante, da desvalorização do bolívar e do desemprego, o governo de Caracas teve que enfrentar a escassez de produtos nos mercados, inúmeras situações em que as famílias abastadas acumulavam estoques privados de alimentos que agravavam a falta de gêneros de primeira necessidade, a sabotagem e o contrabando de produtos subsidiados.

As ameaças vinham de todos os lados. Das sanções dos EUA ao desgaste provocado pela oposição, o governo de Nicolás Maduro se manteve no controle da máquina pública aumentando a repressão num clima de crescente descontentamento. Em 2022, a promessa de realizar eleições presidenciais que garantissem liberdade à oposição pôs fim a uma parte das sanções dos EUA. Com mais dólares em caixa, a escassez nos supermercados diminuiu e, em 2024, o PIB voltou ao patamar anterior à pandemia.[10] Contudo, as dúvidas alimentadas pela falta de transparência na apuração dos votos, trouxeram de volta parte substancial das sanções que haviam sido levantadas.

O breve resgate histórico que apresentamos não tem o objetivo de desculpar os governos Chaves e Maduro dos erros cometidos na condução do país. Em 27 anos de governo, os dois presidentes não reduziram a dependência do petróleo e nem proporcionaram uma geração de energia elétrica suficiente para abastecer os domicílios e atrair investimentos produtivos.

Do mesmo modo, não negamos o crescente autoritarismo de Nicolás Maduro, o seu possível envolvimento em situações de corrupção e a repressão utilizada para calar as oposições, mas seria um erro esquecer o peso das sanções nas decisões governamentais e em que medida os desgastes produzidos na economia do país visavam restabelecer o patamar de acumulação anterior à eleição de Hugo Chávez.

Mas há algo mais neste esforço de relembrar o passado, costumeiramente menosprezado pela mídia. A evolução dos acontecimentos mostra que os EUA estão transitando do papel de carrasco para o de libertador.

À medida que as corporações petrolíferas estadunidenses trazem o dinheiro de seus investimentos, que o fim das sanções econômicas reduz o estrangulamento do país e que a retomada dos voos das companhias aéreas internacionais alimenta o fluxo de turistas, devemos assistir a uma melhora do ambiente econômico. Some a isso a soltura dos presos políticos e verá que, até o final de 2026, o sequestro de Nicolás Maduro pode assumir um caráter libertador. A prisão do “tirano” que empobreceu a Venezuela e violou liberdades fundamentais soltou as amarras que impediam o exercício da democracia e o desenvolvimento econômico...ainda que a política estadunidense seja a maior culpada destas desgraças.

Este processo já foi introduzido em 31 de janeiro com o anúncio da Lei de Anistia Geral aos presos políticos e o fechamento do edifício Helicoide, sede do Serviço Bolivariano de Inteligência, popularmente conhecido como o maior centro de tortura da Venezuela. Ao veicular a notícia na sua rede social, Trump não perdeu a chance de comentar os acontecimentos dizendo: “Espero que esses presos se lembrem da sorte que tiveram com a intervenção dos Estados Unidos, que fizeram o que precisava ser feito”.[11]

A necessidade de acompanharmos os passos deste processo passa por duas perguntas essenciais: por que, após o sequestro de Maduro, os EUA optaram por manter o chavismo na condução do país? Quais são as principais mudanças produzidas pelo controle que os EUA exercem sobre a economia venezuelana a partir das exportações de petróleo?

É o que vamos responder a seguir.

 

2.     Delcy Rodrigues no incômodo espaço entre o prego e o martelo.

Matar, sequestrar ou forçar o exílio de um governante é o primeiro e mais fácil ato de um processo que leva uma grande potência a eliminar uma administração incômoda. Encontrar quem mantenha a paz social enquanto viabiliza os seus interesses é, sem dúvida, a parte mais difícil da reorganização política e econômica do país em questão.

Na realidade da Venezuela, uma confluência de fatores fez com que membros do governo de Nicolás Maduro fossem escolhidos para pilotar a transição forçada rumo à que os EUA chamam, pomposamente, de “reinserção do país no mercado global”. Concretamente, diante das fragilidades da oposição no quesito controle das forças sociais, nada melhor do que alguém do meio para dialogar com o exército, acalmar os setores populares, frear as facções mais radicais e garantir o equilíbrio possível entre a obrigação de oferecer o que os EUA pedem e a necessidade de não perder a legitimidade do mandato institucional.

Passados quase dois meses da posse de Delcy Rodriguez, a mandatária interina definiu a estabilidade do país como uma grande vitória do povo venezuelano.[12] E não para menos, à medida que a paz social aplana o caminho da conformação às exigências dos EUA, a chegada de investimentos que reanimem o crescimento do PIB e reduzam a inflação proporcionará aos setores moderados do chavismo a chance de manter uma representação honrosa nas próximas eleições gerais.[13]

No momento em que escrevemos, as relações entre Caracas e Washington foram definidas como “extraordinárias” pelo próprio Donald Trump. Por outro lado, a necessidade de dar tempo ao tempo para acomodar os conflitos internos foi expressa no recado enviado por Delcy durante um discurso no estado de Anzoátegui: “Chega de ordens de Washington sobre os políticos na Venezuela. Deixemos que a política venezuelana resolva nossas diferenças e conflitos internos”.[14]

Das expressões verbais à realidade material, quais foram as principais mudanças?

À medida que Trump vê nas reservas de petróleo do país um potencial significativo para baratear os preços dos combustíveis vendidos nos EUA e para o futuro do seu abastecimento, o controle da extração e da comercialização de hidrocarbonetos assume um papel de primeira ordem. De um lado, isso demanda que todo o dinheiro obtido com a venda do petróleo seja depositado em contas bancárias dos EUA e que Caracas use estes recursos para importar produtos agrícolas, medicamentos, equipamentos médicos e componentes para a manutenção da infraestrutura produzidos em território estadunidense.[15] Com estas medidas, Trump avisou o mundo que Washington assumiu o controle econômico da Venezuela e que, a partir do sequestro de Maduro, são os Estados Unidos a decidirem a quem, quanto e a que preço exportarão o petróleo venezuelano. O primeiro impacto nas relações internacionais já está sob os olhos de todos.

Ao longo dos mandatos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, a Venezuela estreitou os laços com a China que se tornou o seu maior parceiro comercial e um símbolo da presença marcante do gigante asiático na América Latina. Como maior financiador de Caracas, Pequim aceitou trocar empréstimos em dólares por petróleo que recebia com um desconto de até US$ 20 o barril, num acordo pelo qual os valores do hidrocarboneto exportado pela Venezuela eram usados para amortizar a dívida do país e pagar os juros correspondentes. Desta forma, a China não pagava em dinheiro pelos barris recebidos que, desde as sanções impostas por Washington em 2019, correspondiam a cerca de 68,0% das exportações de petróleo venezuelanas. O recado de Trump para o gigante asiático veio no dia 9 de janeiro. A partir desta data, a China poderia comprar da Venezuela todo o petróleo que quisesse, mas não com base nos convênios anteriores. A partir de agora, Pequim teria que negociar o preço com os Estados Unidos e pagar em dólares, uma imposição que buscava também avaliar até onde chegaria a parceria de Pequim.[16]

Grande produtora de hidrocarbonetos, a Rússia nunca precisou do petróleo venezuelano. De acordo com a agência de notícias Reuters, entre 2006 e 2025, Moscou concedeu aos governos de Caracas cerca de 17 bilhões de dólares em empréstimos e linhas de crédito para comprar aviões de combate, radares, lançadores de foguetes e demais equipamentos bélicos com os quais os russos faziam da Venezuela um de seus aliados mais firmes. Vale lembrar que Nicolás Maduro foi um dos poucos líderes mundiais a reconhecer a Crimeia como parte do território da Rússia e a apoiar a invasão da Ucrânia. A ineficácia dos aparatos bélicos vendidos por Moscou na noite da agressão militar estadunidense, assim como a inércia das forças armadas locais continuam sendo objeto de especulações à espera de uma apuração que, provavelmente, nunca será realizada.[17] Seja como for, Trump deixou claro desde o início que Caracas não pode manter relações de qualquer tipo com Rússia, Irã, Coréia do Norte e Cuba.[18]

A realidade de Cuba é, sem dúvida, a que mais inspira preocupações após dita proibição e a determinação de Trump de impor tarifas de 25,0% sobre as exportações para os EUA dos países que vendessem petróleo ao governo de Havana. O fato de a ilha produzir apenas um quarto dos barris diários que o abastecimento de energia e combustíveis demanda apontava a clara intenção de os EUA provocarem uma crise humanitária de sérias proporções para forçar uma mudança do regime. O medo das retaliações estadunidenses estava limitando a ajuda internacional a leite em pó e fórmulas para crianças, alimentos não perecíveis em quantidades insuficientes para as necessidades de seus cerca de 9 milhões de habitantes, seringas e alguns equipamentos básicos para hospitais e centros de saúde.[19]

Contudo, durante a visita do Secretário de Estado dos EUA, Marcos Rúbio, aos países caribenhos, realizada em dia 25 de fevereiro, o governo Trump permitiu que empresas encarregadas de efetuar a comercialização do petróleo venezuelano podem vender hidrocarbonetos para Cuba com uma condição: o governo terá que pagar em dinheiro, e não através da prestação de serviços (conforme vinha acontecendo antes do sequestro de Maduro), pelos hidrocarbonetos que deseja adquirir. Difícil dizer se, quando e como a ilha conseguirá os dólares de que precisa para efetuar a compra. Mas, neste caso, a questão central parece outra.

De fato, ao permitir a venda de petróleo venezuelano, a medida transfere para Cuba a responsabilidade do que impede a normalização do abastecimento. Logo, a causa do aprofundamento da crise econômica e humanitária em que se encontra transita da política de Trump para a incapacidade de o governo de Havana pagar pelo que o país precisa. Sendo assim, enquanto servos obedientes de Washington, os mandatários caribenhos não seriam visto como cúmplices de um governo que optou por levar os cubanos ao pior dos mundos e sim como simples vira-latas cuja única opção é abanar o rabo para o dono a fim de não perder o pote de ração que lhes é concedido. Aparentemente insignificante, esta mudança de percepção foi apresentada a Rúbio como um passo necessário para reduzir as chances de as oposições organizarem protestos potencialmente desestabilizadores nestes mesmos países.[20]

De volta a Caracas, além da aprovação da Lei da Anistia que faz da libertação progressiva dos presos políticos uma maneira de promover a convivência pacífica com as demais forças sociais, a reforma relativa à exploração e administração do petróleo é, obviamente, o ato mais importante do governo de Delcy Rodriguez. A nova Lei dos Hidrocarbonetos Orgânicos permite que empresas privadas assumam a gestão técnica e operacional dos projetos e comercializem petróleo bruto, algo que antes era reservado à PDVSA. No caso de parcerias entre a estatal e as companhias petrolíferas privadas, a PDVSA continuará tendo uma participação de 50,0%, mas, agora, nada impede que um sócio minoritário assuma o controle do negócio. Além disso, a nova lei mantêm em 30,0% os royalties a serem pagos pelo acesso às reservas do país, mas cria a possibilidade de que esta porcentagem e o imposto de renda pago pelas empresas sejam reduzidos a depender da viabilidade dos poços e das condições do mercado.

Do mesmo modo, foram revogadas as normas que obrigavam as empresas privadas parceiras a pagar uma contribuição especial ao tesouro do país sempre que o preço do barril atingia níveis extraordinários e a contribuir com tributos destinados a setores como ciência e tecnologia, esportes, previdência e combate às drogas. Entre as mudanças relevantes, encontramos também a introdução da possibilidade de uma arbitragem independente para resolver conflitos em torno dos contratos de exploração e venda dos hidrocarbonetos, algo que deverá ser especificado quando da assinatura de cada contrato.[21]

A resposta dos EUA veio no dia 10 de fevereiro, confirmando a disposição de um investimento total de 100 bilhões de dólares, mas deixando claro que a materialização desta possibilidade depende de os contratos conterem garantias que, no fundo, fecham as brechas da reforma recém-aprovada. Ao autorizar o envio de bens, tecnologia, softwares e serviços estadunidenses para a exploração, o desenvolvimento e a produção de petróleo e gás, o Departamento do Tesouro dos EUA encarregado do assunto criou 4 condições:

1. A necessidade de autorização dos Estados Unidos para que as empresas do setor usem equipamentos especializados e importem plataformas destinadas a ampliar a produção de hidrocarbonetos;

2. Os contratos assinados com o governo venezuelano ou com a PDVSA devem seguir as leis dos Estados Unidos, sendo que eventuais conflitos oriundos da aplicação dos mesmos também devem ser arbitrados pelos EUA;

3. Os pagamentos das sanções que venham a ser impostas a algumas empresas devem ser depositados em um fundo supervisionado pelos Estados Unidos;

4. A licença de operação na Venezuela não permite a formação de joint ventures[22] ou de outras formas de associação para explorar ou produzir petróleo e gás no país que criem brechas ao rígido controle estadunidense.

Sendo assim, o recado curto e grosso é este: dinheiro tem, mas só vai ser investido nas condições que nós controlamos e não pode ser usado para que empresas de países adversários se beneficiem da abertura gerada pela reforma.[23] Concretamente, a partir de 29 de janeiro, as mudanças nas leis dos hidrocarbonetos fazem com que a Venezuela legalize o fato de que deixou de ser dona do seu petróleo. Caracas continua mantendo a propriedade nominal desta enorme riqueza presentes no seu subsolo, mas perde completamente o controle sobre quem o extrai, como o extrai, a que preço e para quem o vende, além de não saber ao certo quanto dos valores obtidos pelas petrolíferas do setor privado entrarão no cofre do país. A partir do conteúdo da lei e das “correções” impostas pelo Tesouro dos EUA, nada impede que a Venezuela viva uma situação inusitada: a possibilidade de aumentar a extração e a venda de petróleo sem que o orçamento do país conheça um aumento correspondente da sua receita, podendo, inclusive, chegar a valores inferiores dos atuais quando as condições de extração e de mercado não permitem alcançar os lucros esperados.

E a economia doméstica como foi influenciada pelos acontecimentos do mês de janeiro?

A boa notícia fica por conta da estabilização dos preços no mercado negro, à medida que o valor do dólar paralelo tende a diminuir a sua diferença em relação ao oficial. A má notícia tem como base a desvalorização do bolívar em relação ao dólar. Fruto das incertezas nas quais a Venezuela mergulhou a partir do sequestro de Nicolás Maduro. As especulações em volta do futuro do país fizeram com que a moeda nacional se desvalorizasse 22,7% entre os dias 5 de janeiro e 5 de fevereiro, quase o dobro em relação aos 12,6% registrados pelo Banco Central do país no mesmo período de 2025.[24]

Sabendo que a Venezuela importa cerca de 60,0% dos alimentos consumidos pela população, tamanha perda de valor do bolívar aumenta ainda mais os preços do mercado interno. Trinta dias após a prisão de Maduro, café, massas, arroz, legumes e vegetais tiveram um reajuste entre 15,0% e 25,0%; a marca de farinha de milho mais tradicional do país (Harina P.A.N.) foi vendida por um preço 31,8% superior, enquanto a bandeja de ovos registrou um aumento de 34,61%. No mesmo espaço de tempo, remédios importados tiveram seus valores fortemente majorados. Os que se destinam ao tratamento diário da neuropatia diabética, por exemplo, só podiam ser comprados com um acréscimo de 210,2%...e tudo isso sem um único centavo de aumento dos salários ou dos subsídios.[25]

Difícil dizer até quando a esperança de uma melhora substancial das condições de vida no futuro próximo, que hoje marca o imaginário de 9 em cada 10 venezuelanos, [26] manterá a estabilidade elogiada por Dercy Rodriguez. Se nada mudar em prazos relativamente curtos, o descontentamento das famílias pela deterioração do poder de compra colocará em maus lençóis os malabarismos da Presidente interina para se manter no cargo.

 

3.     Os governos do continente diante das ameaças de Donald Trump.

Entre setembro de 2025 e fevereiro deste ano, a escalada das ameaças estadunidenses contra a Venezuela produziu diferentes respostas nos países da América Latina e Caribenha. Acompanhar estes movimentos moleculares da conjuntura permite identificar o processo de conformação pelo qual o governo Trump reorganiza as relações de força do continente. A seguir, apresentaremos as informações que conseguimos reunir.

Além das Ilhas Virgens Americanas, a República Dominicana, Granada, Aruba, Curaçao, Trindad e Tobago, a base estadunidense de Guantánamo em território cubano e Porto Rico forneceram o apoio logístico necessário ao bombardeio de embarcações supostamente carregadas de entorpecentes, à interceptação de navios carregados com o petróleo venezuelano e ao sequestro de Nicolás Maduro.[27]

Porto Rico teve um papel de destaque com a reabertura da base militar estadunidense de Roosevelt Roads na costa lesta da ilha, em setembro de 2025, lugar onde as forças especiais do exército dos EUA treinaram a ação do dia 3 de janeiro. Fechada em 2004, Roosevelt Roads teve a pista de pouso adaptada para receber tanto os aviões de combate furtivo F-35, como os gigantescos Boeing C-17 Globemaster (utilizados para o transporte rápido de tropas e equipamentos de grandes dimensões) e recebeu torres móveis para o controle do tráfego aéreo.

A reativação das suas instalações divide as opiniões da população. Uma parte dela torce para que a base volte a gerar os cerca de 3.000 empregos do início dos anos 2.000 e que suas atividades movimentem o comércio e a produção de Porto Rico. Por outro lado, um número igualmente significativo de pessoas lembra que, longe de diminuir a pobreza, o sonho de conseguir um emprego ou montar um negócio havia levado milhares de imigrantes a se instalarem na região. O crescimento do desemprego que acompanhou este deslocamento produziu uma redução dos salários a ponto de muitas famílias verem suas condições de vida melhorarem após o fechamento das instalações militares e o consequente êxodo de uma parte considerável dos habitantes.[28]

Ainda na América Central, Honduras e Costa Rica acabaram de eleger presidentes pró-Trump[29] e o Panamá acelerou o passo de sua submissão às exigências de Washington. As pressões estadunidenses para que o governo freasse a presença da China em volta do canal que liga o Oceano Pacífico ao Atlântico já haviam dado os primeiros resultados em 2025 quando o país anunciou a sua saída das iniciativas Cinturão e Nova Rota da Seda, promovidas por Pequim.[30] Mas foi só depois da ação militar na Venezuela que o Panamá deu o passo que faltava para uma ação decisiva contra a chinesa CK Hutchinson que opera os portos na entrada e na saída do Canal de Panamá.

No dia 29 de janeiro de 2026, a Suprema Corte do país declarou inconstitucionais as leis com base nas quais foi realizada a concessão destes portos. Sabendo que os contratos foram assinados em 1997, é impossível acreditar que o judiciário panamenho tenha demorado 29 anos para verificar a constitucionalidade dos atos do legislativo. Sim, sabemos que a justiça é lenta, mas, neste caso, é impossível enxergar no veredicto da Suprema Corte a preocupação com o respeito à Constituição do país na exata medida em que a sua decisão é fundamental para retirar um dos grandes obstáculos à redução das pressões estadunidenses desde o início de 2025. [31]

Rumo à América do Sul, verificamos que, em 26 de janeiro deste ano, o governo do Equador assinou um acordo com os EUA com base no qual fortalecerá a presença militar estadunidense no seu território. O pouco que se sabe a este respeito levanta a suspeita de que, em nome da segurança e do combate ao tráfico de drogas, Quito e Washington encontraram a forma de driblar a vitória do “não” à reativação das bases militares estadunidenses no referendo popular de novembro de 2025.[32] Se isso não bastasse, três dias após a assinatura do acordo, o Equador, sabendo dos atritos entre Trump e o Presidente da Colômbia, Gustavo Petro, quis dar aos EUA uma demonstração adicional de sua fidelidade. Sem nenhuma explicação convincente, o governo de Daniel Noboa impôs uma taxa alfandegária de 30% às exportações colombianas e elevou em 900,0% a tarifa para o transporte do seu petróleo pelo Sistema de Oleodutos Trans-Equatoriano.[33]

Em meados de janeiro deste ano, Peru e EUA assinaram um acordo de compra de equipamentos militares e assessoria técnica por um período de dez anos para modernizar as instalações da marinha militar em Callao. No momento em que escrevemos, alguns analistas não excluem a possibilidade de uma realocação da mesma. A saída de Callao permitiria a expansão do porto comercial que, localizado na mesma cidade, é um direto concorrente do megaporto de Chancay (75 km a norte de Lima), majoritariamente controlado pelo capital estatal chinês da COSCO Shipping Port, que controla 60,0% do empreendimento.

O governo Trump nunca escondeu a necessidade de controlar a carga movimentada pelos chineses através dos órgãos estatais que supervisionam as atividades portuárias. Mas, em 29 de janeiro deste ano, Washington acendeu os alertas em relação à confiabilidade deste processo diante da decisão do Primeiro Tribunal Constitucional de Lima que limitou os poderes do Órgão Supervisor de Investimentos em Infraestrutura de Transporte Público para supervisionar, regular, inspecionar e sancionar as operações do terminal.

Dias após o veredicto, Trump emitiu um alerta público indicando que a presença chinesa em Chancay poderia representar um golpe contra a soberania do Peru, deixando no ar a necessidade de as instituições do país tomarem medidas urgentes. Chama a atenção o fato de que, em 17 de fevereiro, o Congresso do Peru tenha destituído o Presidente da Republica José Enrique Jerí Oré tendo como um dos principais motivos a sua presença numa reunião informal com empresários chineses. Diante das pressões para frear a presença do gigante asiático no país e abrir espaço para o comércio e os investimentos dos EUA, a sequência dos eventos que levaram a nomeação do novo mandatário faz muitos analistas descartarem a possibilidade de que se trate de uma simples coincidência ou de uma forma de lutar contra a corrupção...até porque José Maria Balcázar Zelada tem 13 ações judiciais contra ele, uma das quais pelo roubo de fundos da associação de advogados da qual foi dirigente. [34]

Seguindo nosso caminho pelo continente, nos deparamos com a assinatura de um acordo de cooperação entre EUA e Paraguai, ocorrida em 15 de dezembro de 2025. Segundo as declarações da Secretaria de Estado dos EUA, o compromisso entre os dois países prevê a atuação de militares estadunidenses e de funcionários civis do Departamento de Guerra no vizinho do Brasil para facilitar “o treinamento bilateral e multinacional, a assistência humanitária, a resposta a desastres e outros interesses de segurança compartilhados”.[35] O teor do que se tornou público condiz com a estratégia da política externa estadunidense que busca “ajustar” a presença militar global dos EUA. Um ajuste que, em nome da necessidade de ajudar o governo de Assunção a enfrentar as ameaças aos seus interesses econômicos e de segurança nacional, abra as portas de locais considerados estratégicos ao Departamento de Guerra dos Estados Unidos.[36]

À espera das atitudes e das ações que serão assumidas pelo recém-eleito Presidente do Chile, José Antonio Kast, após a posse que ocorrerá em 11 de março, o governo de Gabriel Boric foi surpreendido por uma medida inesperada: o cancelamento do visto de ingresso nos Estados Unidos do Ministro do Transporte, do Subsecretário de Telecomunicações e do chefe de gabinete desta Secretaria. Alegando que os três integrantes do governo promovem um projeto de instalação de um cabo submarino que liga a região de Valparaíso (no centro do Chile) a Hong Kong, no dia 20 de fevereiro, Trump sancionou as autoridades chilenas pelo fato de suas ações contrariarem os interesses de Washington e, ao colocarem em risco a segurança dos dados que trafegam pelas redes de computadores, agirem em prejuízo da segurança regional.[37]

Na mensagem que acompanha a ordem executiva, os EUA expressaram a expectativa de partilhar as mesmas prioridades com o novo Presidente.  O lembrete levanta a suspeita de que Trump atingiu o governo Boric para mandar um recado a Kast: os EUA não querem novos negócios com a China e esperam de você uma guinada capaz de alinhar a política interna com o que Washington quer do hemisfério, caso contrário, o seu país sofrerá as consequências.

A bem da verdade, não é a primeira vez que o governo do Chile enfrenta a rejeição estadunidense à realização deste projeto. A primeira apresentação do empreendimento ocorreu em 2016, mas foi durante o segundo mandato de Sebastián Piñera (2018-2022) que houve avanços no memorando de entendimento e foram realizados estudos de viabilidade. Contudo, logo após a visita do Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, Piñera cedeu às pressões de Joe Biden e cancelou o projeto.

Ao que tudo indica, quatro dias antes da posse, Kast enfrentará um dilema diplomático durante o encontro com Donald Trump nos Estado Unidos. A base sobre qual assenta a delicado equilíbrio da relação entre Pequim, Santiago do Chile e Washington é a mesma: os chineses são os principais parceiros comerciais da nação sul-americana, mas os estadunidenses são seus maiores investidores estrangeiros. Vamos aguardar qual será o malabarismo com o qual o ultradireitista Kast buscará evitar que os conflitos entre esses dois elementos fundamentais prejudiquem a economia do país.[38]

A Argentina de Javier Milei é, sem dúvida, a nação que mostra um dos maiores níveis de subserviência aos interesses de Washington. Ainda em abril de 2024, o país conseguiu a anuência de Joe Biden para a compra de 24 aviões de combate F-16 com três décadas de uso que a Dinamarca havia colocado à venda. O prêmio por comprar esta sucata no lugar de aviões de combate novos oferecidos pela China e pela Índia veio seis meses depois através de um contrato no valor de 941 milhões de dólares no qual os EUA se comprometiam a fornecer mísseis, bombas e alguns equipamentos para a modernização da frota, além de instrutores de voo e mecânicos de manutenção, aumentando assim a presença militar estadunidense no país.[39]

No bojo da crise financeira gerada pela escassez de dólares, em setembro de 2025, Milei autorizou a presença de tropas dos EUA em território argentino como contrapartida aos empréstimos obtidos junto ao Tesouro estadunidense.[40] E, no dia 5 de fevereiro deste ano, Washington e Buenos Aires assinaram um Acordo de Comércio e Investimentos com o qual os EUA ampliam em 80 mil toneladas a compra de carne argentina a fim de reduzir os preços do produto no mercado estadunidense, com o compromisso de, no prazo de um ano, a Argentina abrir o acesso de aves e produtos avícolas dos EUA ao mercado local e de simplificar os procedimentos burocráticos para os exportadores estadunidenses de carnes bovina, suína e seus derivados venderem seus produtos ao país. O Acordo também prevê que Buenos Aires zere ou reduza a, no máximo, 2,0% as tarifas aduaneiras em milhares de produtos dos Estados Unidos, enquanto Trump se comprometeu a ampliar em 10 mil veículos a cota exportada pela indústria automobilística argentina, a eliminar as tarifas sobre os produtos agrícolas dela importados e a limitar eventuais sobretaxas a um teto de 10,0%.[41] Difícil dizer, até que ponto esta ulterior abertura do mercado argentino contribuirá para o fechamento de mais uma parte do parque produtivo do país, à medida que, no caso de produtos industrializados, a competitividade das mercadorias Made in USA supera em preço e qualidade à dos manufaturados locais.

A pressa de Trump em formar um estoque estratégico de terras raras correspondente a um montante de 12 bilhões de dólares a fim de reduzir a dependência da China[42] demanda acelerar os tempos da relação dos EUA com o Brasil. A redução das taxas de importação dos produtos que encareciam o consumo das famílias estadunidense, acertada nas negociações de novembro de 2025, embutia a esperança de um rápido avanço na questão do acesso às terras raras e minerais críticos (dos quais o Brasil detém a segunda maior reserva do mundo) e cujas regras para os investimentos em sua extração e beneficiamento foram definidas pelo Ministério de Minas e Energia dez dias antes do encerramento das negociações sobre as tarifas.[43]

Nos três últimos meses, os contatos entre Trump e Lula ajudaram a consolidar a ideia de um encontro dos dois chefes de Estado em Washington em março deste ano, mas não a bater o martelo em relação à parceria para um amplo acesso a estas riquezas que, ao que tudo indica, deve ser o tema central deste encontro.[44] Contudo, os EUA não deixaram de dar passos rumo à organização da cadeia produtiva destes minerais em parceria com empresas locais. Na primeira semana de fevereiro, a Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (mais conhecida pela sigla DFC) anunciou a assinatura de um contrato de financiamento de 565 milhões de dólares com a mineradora brasileira de terras raras Serra Verde sediada em Minaçu, no Estado de Goiás.

Criada e mantida por fundos de investimentos privados, a Serra Verde é de propriedade dos grupos Denham Capital, Energy and Minerals Group e Vision Blue, e tem como meta inicial extrair 6.500 toneladas anuais de terras raras das minas locais. Neste contexto, além de refinanciar linhas de crédito e expandir a produção, o contrato prevê a possibilidade de a DFC adquirir uma participação acionária da empresa, aumentando assim a possibilidade de interferir nas suas decisões estratégicas.[45] Diante da resistência do Lula em rifar o acesso às riquezas minerais do país, os EUA já estão comendo pelas beiradas, mas, dificilmente, os “pedacinhos” arrancados diminuirão a voracidade com a qual olham para elas.

Se tivéssemos que resumir em breves palavras a postura do governo Trump para a América Latina e Caribenha, diríamos que ela se assemelha à de um senhor de escravos que não hesita em usar a chibata para garantir o cumprimento de sua vontade e amedrontar possíveis rebeldes. Para evitar os sofrimentos, a receita que distribui ao mundo é simples: sejam “bons escravos”...ainda que a submissão adotada não garanta a ausência de tapas e puxões de orelha para lembrar que ela deve ser mantida a qualquer preço.

Por outro lado, o escravo rebelde, além de ser tratado a ferro e fogo, é publicamente culpado de desobedecer às ordens do dono e de integrar grupos que ameaçam a Casa Grande. Neste caso, qualquer punição é apresentada como um castigo merecido, como um evento que guarda relação com o legítimo poder de mando de quem, na posição de Senhor, dita as normas e decide o que deve ser feito.

Logo, para Trump, é mais do que justo que Cuba e Venezuela sejam punidas pelo mau exemplo que deram ao mundo durante décadas ao organizar a vida em sociedade com base em orientações que se afastam dos ditames do capital e dos senhores que são seus mais fiéis servidores. Por isso, o “manda quem pode, obedece quem tem juízo” é suficiente para mostrar aos “paisinhos” que passam longe de serem grandes potências que seus governos são os verdadeiros culpados pelas dores que a população enfrenta ou enfrentará. Desta forma, a rebeldia deixa de ser a primeira expressão do direito à resistência diante dos abusos sofridos pela exploração imposta, para se tornar algo ilegítimo, condenável e merecedor das ações repressivas por violar o que há de mais sagrado: a ordem que o capital deseja para aprimorar o seu controle das relações mundiais.

Infelizmente, uma parte expressiva da classe trabalhadora comprou esta visão e, no Brasil, 34,0% dos entrevistados numa pesquisa realizada em novembro de 2025, concordava com a ideia pela qual as políticas de Trump são boas para o mundo.[46] Ainda que minoritária, esta parcela da população representa o terceiro maior contingente dos que aprovam as atitudes do senhor de escravos e esboça um cenário preocupante nos que serão os desdobramentos das ações estadunidenses em volta das eleições de outubro deste ano.

Emilio Gennari, Brasil, 28 de fevereiro de 2026.



[1] Os dados da série histórica à qual estamos nos referindo foram publicados em: https://www.worldometers.info/pt/pib/venezuela-pib/   Acesso realizado em 10/02/2026.

[3] Usamos a cotação do petróleo tipo Brent por ser referência mundial de preços do barril. Entre 2010 e 2025, o petróleo venezuelano tem sido vendido entre US$ 5 e US$ 15 abaixo do Brent.

Em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8xyjglwjyno  Acesso realizado em 13/02/2026.

[4] Todas as cotações médias anuais do petróleo tipo Brent que usaremos foram divulgadas através do site: https://www.statista.com/statistics/262860/uk-brent-crude-oil-price-changes-since-1976/   Acesso realizado em 13/02/2026.

[8] Você pode encontrar dados mais completos sobre as sanções estadunidenses em: Lucas Edgardo Pordeus Leon e Pedro Henrique de Moraes Cícero, Embargo econômico enquanto instrumento de política externa estadunidense: o caso da Venezuela contemporânea, publicado em: Conjuntura Internacional, Vol. 19, Nº 2, pg. 74-81, Belo Horizonte, julho de 2022.

[9] Maiores informações sobre o assunto podem ser encontradas em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgm4yw9kw7wo

  Acesso realizado em 29/01/2026.

[10] O cálculo da porcentagem teve como base os dados do PIB divulgados em: https://www.worldometers.info/pt/pib/venezuela-pib/   Acesso realizado em 10/02/2026.

[11] Em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cly59204983o  Acesso realizado em 02/02/2026.

[13] A princípio, o mandato presidencial de Nicolás Maduro, do qual Dercy Rodrigues era vice, se encerraria em 10 de janeiro de 2031. De acordo com a Constituição do país, caso seja confirmada a vacância, a vice-Presidente deveria convocar novas eleições no período de alguns meses. Contudo, ao manter-se como substituta de alguém cujo retorno ao país continua sendo possível, ou seja, diante de uma vacância temporária, Dercy pode adiar a data do pleito. Garantir esta possibilidade depende, obviamente, de secundar os desejos dos EUA que, por sua vez, mantêm a oposição em rédeas curtas. Seja como for, em mais de uma ocasião, a Presidente interina já se comprometeu publicamente com a realização de eleições justas e livres.

Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/13/presidente-interina-da-venezuela-afirma-estar-comprometida-com-a-realizacao-de-eleicoes-justas-e-livres-no-pais.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias   Acesso realizado em 14/02/2026.

[17] Alguns indícios neste sentido podem ser encontrados em: https://elpais.com/america/2026-02-16/el-desgaste-en-la-cupula-militar-venezolana-crece-el-malestar-por-la-continuidad-de-padrino.html   Acesso realizado em 17/02/2026.

[22] Joint venture é uma aliança estratégica entre duas ou mais empresas que se unem para realizar um determinado projeto compartilhando custos, recursos, riscos e lucros sem que nenhuma delas perca sua independência jurídica. Reconhecer a possibilidade de manter esta autonomia na assinatura dos contratos com empresas estrangeiras reduziria o controle dos EUA sobre os novos investimentos no setor. Maiores detalhes sobre o que é uma joint ventures podem ser encontrados em: https://www.aurum.com.br/blog/joint-venture/   e em: https://portoecastelhano.com.br/noticias/empresas/joint-venture-o-que-e/  Acessos realizados em 16/02/2026.

[24] As variações foram calculadas pelo autor a partir dos valores registrados pelo Banco Central da Venezuela, publicados em https://www.exchange-rates.org/pt/historico/usd-ves-2026   Acesso realizado em 16/02/2026.

[27] Em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwyp9wjejevo  Acesso realizado em 11/12/2025.

[30] Apresentamos as primeiras ameaças de Trump contra o governo do Panamá na análise divulgada em 18 de fevereiro do ano passado sob o título: Trump 2.0: os interesses do império entre vira-latas e metidos a cachorro grande, disponível em: https://drive.google.com/drive/folders/1YoRRdUt1RVr31bNvhMPvIFt8pBwWYoJA?usp=sharing

[36] Idem.