segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A PRODUÇÃO DA ARTE COMO CAPITAL: ACERCAMENTO A PARTIR DA CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA[1]



        


Nós do Coletivo IDE temos a grande satisfação de divulgar o artigo de autoria de Marília Carbonari sobre a arte na sociedade capitalista, e nada melhor do que as palavras da própria autora para demonstrar a importância fundamental de sua obra para o proletariado na luta pela Emancipação:

 

 

"Assim, diante da produção de capital, não apenas o trabalho artístico e suas obras se apresentam como espectros na forma mercadoria, mas os próprios produtores, artistas, são espectros. E o são pois o trabalho produtivo de capital, embora seja mediado pela produção de mercadorias, é o único trabalho capaz de alienar e acumular uma quantidade de “trabalho social” nova adicional na forma de mais-valia. Desse modo, as trabalhadoras e trabalhadores da arte que, como vendedores de força de trabalho, se inserem no modo capitalista de produção são, nessa relação específica, proletários. Diante deles, se encontra o capitalista que, de posse de dinheiro transformado em capital, detém a condição social de proprietário privado dos meios de produção e, por isso mesmo, “ditador” da condição de sobrevivência da outra parte da humanidade que não os possui."  (Marilia Carbonari)[2]

  

Resumo

O encontro entre a arte e a economia política pode parecer estranho em um primeiro momento. A arte é considerada, muitas vezes, uma atividade humana “especial” em relação às demais. O artigo oferece uma análise da produção da arte como capital. Tal análise é baseada nas categorias teóricas desenvolvidas por Karl Marx em O Capital e no método por ele exposto na mesma obra: o método da crítica da economia política.

Palavras-chave: Produção da arte, Capital, Karl Marx, O Capital, Método da crítica da economia política.

LA PRODUCIÓN DEL ARTE COMO CAPITAL: ACERCAMIENTO DESDE LA CRÍTICA DE LA ECONOMÍA POLÍTICA

 

Resumen

El encuentro entre el arte y la economía política puede parecer inusual al principio. A menudo, se considera al arte como una actividad humana 'especial' en comparación con otras. Este artículo ofrece un análisis de la producción artística como capital. Este análisis se basa en las categorías teóricas desarrolladas por Karl Marx en El Capital y el método que expuso en la misma obra: el método de la crítica de la economía política.

Palabras claves: Producción del arte, Capital, Karl Marx, El Capital, Método de la crítica de la economía política.

THE PRODUCTION OF ART AS CAPITAL: APPROACHING FROM THE CRITIQUE OF THE POLITICAL ECONOMY

 

Abstract

The encounter between art and political economy may seem unusual at first. Art is often considered a “special” human activity in relation to others. This article offers an analysis of the production of art as capital. This analysis is based on the theoretical categories developed by Karl Marx in The Capital and on the method he exposed in the same work: the method of the critique of political economy.

Keywords: Production of art, Capital, Karl Marx, Capital, Method of the critique of political economy.

 

  

Introdução 

 

Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além.

Paulo Leminski

 

À primeira vista, a aproximação entre arte e economia política pode parecer estranha. Frequentemente, a arte é vista como uma atividade humana separada das demais realizadas na sociedade. Este artigo, porém, parte da abordagem da crítica da economia política desenvolvida por Marx em O Capital, que apresenta um método de análise no qual a explicação e a aparência dos fenômenos não possuem nenhum pressuposto de coincidência. Para Marx, o único pressuposto científico é que: “toda ciência seria supérflua se a forma de manifestação e a realidade das coisas coincidissem imediatamente” (Marx, 1986, p. 271). Nesse sentido, ao estudarmos a arte como uma produção social humana, juntamente com todas as outras formas de produção, percebemos que o estranhamento se desloca da relação entre arte e economia política para a investigação científica da relação social de produção específica da qual determinado “produto artístico” se originou.

Sob a ótica do sistema capitalista, o produto do trabalho artístico, como qualquer outro resultado da atividade humana, pode assumir diferentes formas de valor. Seja valor-de-uso, valor-de-troca ou capital[3], todas essas formas são determinadas historicamente pelo modo de produção global do capital.

Se entendemos que, ao produzirmos nossa existência, nos confrontamos com relações produtivas que determinam a forma dessa produção e que, como parte do conjunto da produção social, determinam a arte e os artistas dentro dessas relações, a produção e a transmissão de uma teoria que nos ajude a saber “quem”, “como” e “o que” somos e produzimos na atual sociedade capitalista são um procedimento tático imprescindível para uma estratégia que vislumbre a transformação através de uma ação consciente (Luxemburgo, 1999) em relação ao movimento social específico do real. Diante disso, nos concentramos exclusivamente na obra O Capital (Livro 1) de Marx, por considerarmos essa produção teórica a contribuição mais avançada e completa como ponto de partida a fim de apreender a produção da arte como capital.

  

Arte como mercadoria e capital: campo de debate

 

Embora pareça abrangente, a seara do debate entre a arte e as categorias da produção capitalista expostas por Marx em O Capital não é tão extensa. Desta forma, este artigo reconhece um campo de interlocução através de alguns trabalhos sólidos que tratam a produção da arte especificamente através de tais categorias.

O artigo do artista e professor da Pós-Graduação em Artes Plásticas da ECA- USP Luiz Renato Martins, no Brasil, intitulado A arte entre o trabalho e o valor (Martins, 2005), analisa o desenvolvimento histórico da arte como mercadoria e os impactos das mudanças nas relações de produção artística na natureza do produto da arte.

Partindo da contribuição de Martins, surgem duas novas publicações em 2015 e 2017, respectivamente, A infância da arte: valor sem trabalho/trabalho sem valor? de Guilherme Leite Cunha e Gustavo Motta (Cunha e Motta, 2015), e O caráter “especial” da mercadoria arte (Pallamin, 2018) da professora aposentada da Faculdade de Arquitetura da USP, Vera Pallamin, que aprofundam o debate sobre a arte e o trabalho artístico com referência direta ao texto do autor. Os três trabalhos questionam a forma que o valor adquire na mercadoria arte. Essa produção é historicizada a partir do surgimento do capitalismo, período conhecido como Arte Moderna na história das artes visuais. Ao dialogarem, os três textos, filiam-se teoricamente com a produção de Marx em O Capital e explicam que a arte como mercadoria só pode ser pensada a partir da mudança no caráter de propriedade do trabalho artístico, localizando a produção da arte no período histórico específico e, portanto, dentro da tradição dos críticos marxistas que “circunscrevem concretamente cada obra de arte numa formação histórica precisa” (Martins, 2005, p.124).

nos Estados Unidos, selecionamos o artigo do professor da Universidade de Chicago, Nicholas Brown, The Work of art in the age of its real subsumption under capital (Brown, 2012). O autor desenvolve, neste texto, um cotejamento direto do modo de exposição de Marx em O Capital e sua análise sobre a produção artística, sobretudo literária, no período posterior à Revolução Industrial[4].

Destacamos, porém, os achados do professor espanhol de História da Cultura na Hochschule für Musik Hanns Eisler em Berlim, José Maria Durán, em três de seus artigos publicados pela Revista Eptic - respectivamente em 2011, 2012 e 2014 -, intitulados: Elementos para una Crítica de la Economía Política del Arte (Durán, 2011), El valor de las obras de arte desde una perspectiva marxista (Durán, 2012) e Às voltas com a categoria de valor na produção da arte (Durán, 2014). Nos textos mencionados, o autor apresenta a forma mercantil e capitalista de produção da arte e discute a produção teórica do campo marxista sobre esse tema. O autor concentra-se em seguir o caminho de Marx em O Capital, analisando o produto do trabalho e sua relação com a teoria do valor de Marx. Optamos por não seguir o mesmo caminho em nossa análise, mas consideramos a produção do professor uma excelente possibilidade de interlocução direta para o debate apresentado neste artigo[5].

Finalmente, vale lembrar que, na tradição marxista ocidental que temos conhecimento, a temática da arte na produção capitalista industrial tem na obra de Adorno e Horkheimer, precisamente no artigo Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas (parte do livro Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer, 1985, p. 99), talvez a mais empregada referência desse campo de debate. Apesar de considerarmos que os autores alemães não utilizam as categorias analíticas em O Capital como base teórica direta, o ensaio mencionado apresenta claras referências aos conceitos de Marx, principalmente ao analisar a produção industrial da cultura. Para evitar injustiças, optamos por não usar o termo "indústria cultural" ao nos referirmos à produção artística no capitalismo. Essa escolha não se baseia na busca por um termo mais adequado, mas na compreensão de que a análise da "indústria cultural" feita pelos autores alemães se concentra no plano do fenômeno aparente, ou seja, na manifestação dos produtos culturais como valores-de-uso. Essa abordagem, em nossa visão, difere do método de Marx em O Capital. Por não podermos aprofundar essa discussão neste momento, preferimos nomear nosso objeto de estudo de forma distinta, reconhecendo a relevância do trabalho desses autores no campo teórico.

O também alemão Walter Benjamin, antes de Adorno e Horkheimer, aborda o tema da produção da arte como mercadoria quando escreve seus ensaios O autor como produtor e A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (Benjamin, 1994, p.120-136 e p.165-196). Ambos os textos, bastante conhecidos entre os marxistas de nosso campo de debate, são expressamente referenciados nas obras de Marx e apontam de forma mais explícita uma compreensão da determinação do valor-de-uso “arte” pela sua forma mercadoria desde as primeiras relações mercantis. Além disso, Benjamin também apresenta a conexão entre as formas produtivas e os produtos do trabalho artístico-intelectual dentro de suas relações de produção específicas.

Nesse sentido, reconhecemos e dialogamos com as contribuições teóricas desses pensadores, observamos seus impulsos por realizar uma análise dos fenômenos que presenciaram, através das mudanças geradas nos processos de trabalho da arte, em sua época. Assim, citamos também a relevância da produção teórica de Mario Pedrosa em Mundo, Homem, Arte em crise (Pedrosa, 2007), Trotsky em Literatura e Revolução (Trotsky, 2007), Terry Eagleton em Marxismo e crítica literária (Eagleton, 2001) e Vygotsky em Psicologia da arte (Vygotsky, 1999), entre outros pensadores, que através de suas obras contribuíram para a continuidade da investigação marxista na área da arte e da cultura.

 

O método da crítica da economia política e a produção social da arte

 

A determinação histórica dos produtos do trabalho humano, assim como a própria natureza do trabalho, não se pela projeção ideal que os produtores possam ter da sua atividade ou de sua função na sociedade em que se inserem. Na realidade, a forma adequada de apreensão da determinação histórica de algo é através da verificação científica sobre este objeto. É certo, também, que o próprio método científico de análise da história é, por sua vez, produto determinado pela própria história. Sendo assim, ciência (conhecimento e método de apreensão) e objeto são, como produtos da atividade humana, determinados pela natureza específica desta atividade, seu desenvolvimento histórico e, portanto, sua transitoriedade.

A realização do método do materialismo histórico como método da crítica da economia política no estudo do objeto, determinado e determinante, da produção de uma sociedade humana singular, a sociedade capitalista, é desenvolvida por Marx em O Capital (Marx, 1989). A obra é a própria realização do método (Tumolo, 2021), sendo, igualmente, método e obra, instrumentos científicos válidos para a investigação de qualquer produção humana no contexto dessa forma específica de sociedade[6].

A investigação da arte como capital, através do método da crítica da economia política (Marx, 2001), lança sobre toda uma tradição um desafio: estranhar o que os olhos veem. A obra de arte é, aqui, produto de uma relação de trabalho determinada, e é esse o olhar minucioso dessa relação que evidenciará a produção social da arte. Na forma capitalista de produção, os produtos que se identificam como arte, cultura ou entretenimento, “devem ser analisados em suas relações específicas, relações de produção que permitam, ao produzir a arte na forma mercadoria, produzir um valor excedente, a mais-valia” (Carbonari, 2019, p.111).

Constitui, portanto, marco teórico e histórico inicial desse trabalho a hipótese de que as relações de produção da arte na nossa forma social do capital devem ser entendidas numa totalidade de determinações, que condicionam e são condicionadas pela constituição histórica do direito à propriedade privada do trabalho alheio, ou seja, pela “expropriação do trabalhador” da arte (Marx, 1989, p. 894). 

 

A arte produzida como mercadoria

 

A arte, enquanto mercadoria, representa uma unidade de valor-de-uso e valor, resultado de sua produção em relações mercantis particulares. Além disso, como produto dessas relações, ela é determinada pela natureza da riqueza que essas interações proporcionam, adquirindo, assim, um valor-de-troca. A determinação da forma-mercadoria no produto do trabalho artístico, assim como no produto de qualquer trabalho nas relações mercantis, resulta da produção de trabalho humano abstrato. Dessa forma, o valor-de-uso que chamamos de arte - satisfazendo uma necessidade humana específica, também historicamente determinada - é submetido às leis que regem sua forma-valor, ou seja, à lei da produção de mercadorias.

Diante dessa forma singular de existência que os produtos de seus trabalhos precisam adquirir para serem permanentemente produzidos em nossa sociedade, os artistas, produtores de arte, tornam-se também, como o produto do seu trabalho, sujeitos sociais específicos na relação produtiva. Igualam-se, portanto, quando produzem arte como mercadoria, a todos os demais produtores de mercadorias. Essa relação social de igualdade que adquirem seus produtos na forma mercadoria, também a adquirem seus produtores quando se encontram mediados pela relação mercantil de troca do produto de seus trabalhos.

Assim, mesmo que existam produtos artísticos que sejam produzidos como valor-de-uso e consumidos como valor-de-uso sem a mediação da forma-mercadoria, a determinação da forma de produção da vida humana através da troca de produtos do trabalho na forma mercadoria condiciona a aquisição dos meios de subsistência do artista à troca de alguma mercadoria, mesmo que não seja sua arte (Carbonari, 2021, p. 124).

 

Este condicionamento, na prática, tende a converter a produção de valores-de-uso em mercadorias, pois, seja através da produção da capacidade humana de trabalho (força de trabalho), seja através de valores-de-uso que servem de matérias- primas ou instrumentos para a produção de mercadorias, a participação direta ou indireta de um ou outro produto específico (valor-de-uso) do trabalho humano na produção social se mostra irrelevante diante da relação determinante de produção da vida desse mesmo artista. Isso se dá, em um primeiro momento, por ser a forma- mercadoria a forma mais avançada de realização do trabalho socialmente necessário para a produção da vida.

Porém, como sabemos, as relações de produção mercantis, ao progredirem, devem se desenvolver a partir da lei imanente dessa forma social específica, a lei do valor, gerando um desenvolvimento também específico da força produtiva do trabalho. Esta nova forma de força produtiva, baseada na modificação contínua dos processos de trabalho na produção de mercadorias visando diminuir a quantidade socialmente necessária de trabalho por “unidade” do produto deste e, assim, aumentar a produtividade –, gera condições de produção mercantis de uma maneira radicalmente diferente; o modo capitalista de produção de mercadorias.

Para analisar a arte como capital, seria necessária uma exposição mais aprofundada da produção de mercadorias, suas condicionantes e consequências para o produto do trabalho artístico. Porém, neste artigo, daremos um “salto” e nos debruçaremos diretamente sobre a forma capitalista de produção da arte. 

 

A arte produzida como capital 

 

Diante da forma privada da propriedade dos produtos do trabalho e sua relação compulsória de existência na forma-valor, a produção da arte como mercadoria acaba, pela própria lei do valor (Marx, 1989, p. 46-47), privando os trabalhadores da arte dos meios para aumentarem a produtividade de seus trabalhos e continuarem sendo produtores de mercadorias. Desprovidos destes meios, os antes possuidores da mercadoria arte se veem possuidores de apenas uma última mercadoria que lhes resta: a capacidade de trabalhar. Assim, vão ao mercado, e felizmente encontram possuidores da mercadoria dinheiro (empresários/donos de produtoras do ramo da cultura e arte) que precisam da mercadoria força de trabalho específica para produzirem mercadorias em uma nova forma de relação de produção.

Diante da forma capitalista de produção, os produtos que se identificam como arte, cultura ou entretenimento devem ser forjados, agora, em relações de produção que permitam, ao produzir a arte como mercadoria, produzir um valor excedente: a mais-valia.

Se tomarmos como exemplo uma diretora de teatro, que antes era produtora de mercadorias com seu grupo, mas que, a partir desse momento, já não consegue, assim como os demais integrantes do grupo (atores, atrizes, cenógrafa, figurinista, sonoplasta), adquirir os meios de produção necessários para produzir peças de teatro por meio de relações “exclusivamente” mercantis. Ela não consegue, sobretudo, por dois possíveis motivos: primeiro porque, diante da circulação simples de mercadorias, a demanda do mercado para a mercadoria singular que o grupo produz de forma coletiva é menor do que a oferta de peças de teatro. Segundo porque, diante do valor apresentado das outras peças de teatro no mercado, o trabalho socialmente necessário para produzir as peças de seu grupo (constituído da soma do valor das forças de trabalho e do valor dos meios de produção exigidos) é mais elevado do que de outras produções, fazendo com que sua peça na forma mercadoria seja menos competitiva que as demais nesse mercado. Assim, mesmo que continue trabalhando com seu grupo de teatro, a diretora deve, para produzir sua existência, vender a maior parte de sua força de trabalho como mercadoria para ter acesso aos meios de subsistência que, apenas com a venda das apresentações da peça de teatro de seu grupo, não consegue adquirir.

Vai a diretora de teatro, diante dessa condição, ao mercado vender sua força de trabalho específica. Com sorte, encontra um capitalista (ou seja, um possuidor de dinheiro suficiente para comprar forças de trabalho e meios de produção em escala ampliada), que deseja comprar sua força de trabalho por tempo determinado. Realizam a troca que será concretizada, porém, posteriormente, quando a diretora tiver sua força de trabalho consumida como valor-de-uso pelo capitalista - nesse exemplo, digamos, o capitalista assume a representação social de “dono de uma produtora de teatro e material audiovisual para TV, Internet, publicidade ou cinema” -, na produção de uma mercadoria específica: uma peça teatral. Por ser o “produtor” dono dos meios de produção da peça e da força de trabalho durante o tempo em que a comprou e possuiu, é ele também dono do produto do trabalho incorporado na nova mercadoria criada, dono da nova peça de teatro.

Porém, para que haja real produção de capital, é necessário que um grande número de trabalhadores seja empregado em uma mesma atividade. Digamos então que o “dono da produtora” tenha comprado, para a “sua” nova peça teatral, uma soma de mais de 200 forças de trabalho específicas, de diretores de arte, atores, bailarinos, camareiras, musicistas, regentes, faxineiros, produtores executivos, operadores de som e luz, dramaturgas, marceneiros, montadores, responsáveis de palco e elenco, contadores, profissionais de RH, advogadas, etc. Além das forças de trabalho, o produtor também teve que comprar os meios de produção (aluguel de escritório e teatro, material de cena, energia elétrica, instrumentos de trabalho dos mais variados), para que cada força de trabalho realize seu processo de trabalho em condições sociais médias de produção e, assim, incorporem, através do trabalho combinado, o valor total utilizado dos meios de produção na nova mercadoria.

O objetivo do capitalista, porém, como sabemos, não é produzir peças de teatro como mercadorias por amor à arte. Pode ele, pessoalmente, amar de fato a produção artística, mas, como capitalista, o faz com o único objetivo de produzir capital. E como o faz? O capitalista produz capital fazendo com que a força de trabalho comprada produza um valor além do seu valor equivalente como mercadoria (Marx, 1989, p. 218, 242).

De forma resumida, somente para exemplificar, na relação de compra e venda da força de trabalho como mercadoria, digamos que a diretora de teatro vende sua força de trabalho, como qualquer mercadoria, pelo seu valor, ou seja, pelo tempo socialmente necessário de produção dos meios de subsistência que reproduzem sua força de trabalho específica. Assim, se a quantidade de tempo socialmente necessária para produzir os meios de subsistência diários da força de trabalho da diretora é de 4 horas, ela deve trabalhar 4 horas para produzir um valor equivalente ao valor de sua força de trabalho para o capitalista que a comprou incorporando-a à nova mercadoria, peça de teatro. Desta forma, ao trabalhar 4 horas, a diretora faz a troca equivalente de sua força de trabalho diária. Porém, como podemos perceber, dessa troca não se produz nada além da nova mercadoria, valor. Precisa, então, o capitalista consumir mais tempo da força de trabalho que comprou para que o processo de produção de um novo valor adicional se inicie. Esse processo, que chamamos de produção de mais-valia, também pode ser definido como processo de valorização do valor.

Nessa relação, a diretora trabalhará mais 4 horas na empresa, “produtora cultural”, e consumirá a parte de meios de produção necessárias para esse período que será incorporada à nova mercadoria na forma de valor dos meios de produção através de seu trabalho concreto. Porém, as 4 horas a mais que irá trabalhar não serão, para a diretora, restituídas em nenhum tipo de equivalente. Isso ocorre pois, para o capitalista, seu direito de consumo da mercadoria que comprou, força de trabalho, se refere ao valor do tempo diário dos meios de subsistência que a reproduzem, ou seja, 24 horas. Deduzidos o tempo de alimentação, transporte e descanso (exclusivos da natureza da mercadoria força de trabalho), todo o restante, do ponto de vista do capitalista, lhe pertence (Marx, 1989, p. 217).

O prolongamento da jornada de trabalho além do tempo necessário, para a produção do valor equivalente à força de trabalho, é resultado de um conflito social entre as forças envolvidas. Essa dinâmica pode não ser facilmente perceptível quando analisada isoladamente.

Do ponto de vista da produção de valor mercadorias -, vejamos, o que ocorre é uma produção de um valor valorizado, um valor acrescido de tempo de trabalho excedente. A mercadoria produzida nessa forma, a nova peça de teatro, por exemplo, quando realizar sua circulação na forma de mercadoria, valor-de-troca, através da venda de sua audiência na forma “ingresso” das apresentações, realizará, para o capitalista, uma verdadeira mágica: restituirá o valor empregado em meios de produção e forças de trabalho e um valor excedente, um valor valorizado: a mais-valia. Este valor “à mais”, se aplicado continuamente à reprodução das condições de produção especificamente capitalistas, irá continuar se valorizando e se transformará em capital, ou seja, em direito “adquirido” à propriedade de mais meios de produção imprescindíveis para a reprodução das forças de trabalho de cada vez mais trabalhadores. Estes, por sua vez, por esse mesmo movimento produtivo, se tornarão um número cada vez maior de despossuídos de meios de produção próprios.

As trabalhadoras e trabalhadores da arte, mesmo na forma de produtores de mercadorias, não terão como produzir mercadorias com um valor excedente em relação ao valor equivalente da mercadoria, na mesma proporção que o capitalista consegue extrair de seu “pequeno exército” de força de trabalho. Neste contexto, o motivo que levou a diretora a ter que vender sua força de trabalho para o produtor é o mesmo que levará cada vez mais diretores de teatro a serem forçados a fazer o mesmo. Isso tende a ocorrer com todos os demais trabalhadores de qualquer área e setor em todas as partes do mundo, uma vez que não há como limitar o desenvolvimento do modo de produção capitalista como modo de produção mundial em si mesmo.

Todas as forças de trabalho e todos os meios de produção se relacionam, nessa totalidade produtiva, de maneira orgânica com a produção social sob a lógica do capital. Segundo Marx,

 

 

(...) não importa ao processo de criação da mais-valia que o trabalho de que se apossa o capitalista seja trabalho simples, trabalho social médio, ou trabalho mais complexo, de peso específico superior. Confrontado com o trabalho social médio, o trabalho que se considera superior, mais complexo, é dispêndio de força de trabalho formada com custos mais altos, que requer mais tempo de trabalho para ser produzida, tendo, por isso, valor mais elevado que a força de trabalho simples. Quando o valor da força de trabalho é mais elevado, emprega-se ela em trabalho superior e materializa-se, no mesmo espaço de tempo, em valores proporcionalmente mais elevados. Qualquer que seja a diferença fundamental entre o trabalho do fiandeiro ou do ourives, a parte do trabalho deste artífice com a qual apenas cobre o valor da própria força de trabalho não se distingue qualitativamente da parte adicional com que produz mais-valia. A mais-valia se origina de um excedente quantitativo de trabalho, da duração prolongada do mesmo processo de trabalho, tanto no processo de produção de fios, quanto no processo de produção de artigos de ourivesaria.

Ademais, em todo processo de produzir valor, o trabalho superior tem de ser reduzido a trabalho social médio, por exemplo, um dia de trabalho superior a x dias de trabalho simples. Evita-se uma operação supérflua e facilita a análise, admitindo-se que o trabalhador empregado pelo capital executa trabalho simples, ao mesmo tempo trabalho social médio (Marx, 1989, p. 222).

 

Diante disso, mesmo que o trabalho do artista seja considerado um trabalho superior - ao ser consumido o valor-de-uso de sua força de trabalho particular superior (de uma desenhista, cantora, ator, ilustrador, cinegrafista, sonoplasta, ou qualquer outro artista que tenha vendido sua força de trabalho) na forma de um trabalho específico também superior, a partir da produção de mercadorias que terão valores mais elevados, utilizando meios de produção de um capitalista (aparece com o nome que for, produtor, empresário, dono da fábrica, etc.) também de valores elevados - qualquer que seja a quantidade de tempo de trabalho prolongado a partir do tempo de trabalho equivalente ao valor de sua força de trabalho (trabalho necessário), será ele produção de mais-valia.

Com isso vemos como todos esses produtos (peça de teatro, show musical, partitura, quadro, escultura, espetáculo de circo ou dança), nessa relação de produção, assim como o linho ou a joia do ourives, se igualam na relação social de produção de mercadorias acrescidas de mais valor: “capital”.

 

Produção industrial da arte

  

A produção de riqueza na forma de capital exige um aumento constante da produtividade do trabalho. Isto significa que a quantidade de bens produzidos deve aumentar em relação aos meios de produção e à força de trabalho empregada no processo produtivo. Somente desta forma poderá garantir uma diminuição permanente do valor individual dessa mercadoria e, portanto, uma maior chance de sucesso de troca no mercado, realizando a “restituição” da mais-valia ao capitalista e contribuindo para o processo de valorização do valor, garantindo a permanente conversão de mais-valia em capital. Este nível de produtividade pode ser alcançado em grande escala através do desenvolvimento dos dois elementos constitutivos do processo do trabalho: meios de produção e força de trabalho. O aumento da produtividade dos meios de produção tem na mediação do desenvolvimento da maquinaria, ou aplicação tecnológica da ciência, seu ponto de inflexão. Tal salto qualitativo dá aos processos de trabalho o alcance de produção industrial capitalista.

 

No caso da produção artística, o aprimoramento tecnológico aparece nos diversos campos de produção em momentos diferentes da história. De forma geral, sabemos o impacto determinante da energia elétrica, da máquina fotográfica, da ampliação sonora, e, depois, da capacidade de reprodução tecnológica dos produtos artísticos na transformação qualitativa da produção artesanal para a produção industrial da arte (Carbonari, 2021, p. 131).

 

Atualmente, verificamos a constante transformação dos meios de produção na indústria da arte que, ao incidirem na alteração dos processos de trabalho, alteram, como todas as demais mercadorias, o conteúdo dos valores-de-uso por eles produzidos.

Retomemos o exemplo da peça de teatro: o aprimoramento tecnológico dos teatros atuais, unidos com o desenvolvimento técnico da logística dos ingressos, marketing e mobilidade de público, alteraram substancialmente a forma como eram produzidas as peças teatrais 50 anos. Da mesma forma, outros elementos técnicos diferem as peças de 50 anos atrás das de 100 anos. Se estivéssemos vivendo em um mundo determinado pelo valor-de-uso, provavelmente essas mudanças se dariam em outra velocidade e forma. Mas, como vimos, a produção permanente da existência de algo “entre o céu e a terra” em nossa sociedade e momento histórico parece ser determinada segundo uma só filosofia: a produção incessante de capital. Tomemos, então, alguns exemplos atuais da produção da arte como ramo da indústria capitalista global.

A música produzida na forma mercadoria deve datar das primeiras trocas de apresentações musicais por um equivalente, trocas realizadas em feiras urbanas ou encontros de grupos humanos distintos. A composição musical e o desenvolvimento da linguagem da escrita musical lançaram a produção da música a uma escala maior de reprodução podendo, por exemplo, um mesmo compositor vender suas partituras em mercados distintos e obter, através do aumento da produtividade de seu trabalho (maior número de mercadorias), um valor equivalente em relação ao tempo de trabalho gasto que possibilitou ao compositor poder viver exclusivamente de seu trabalho como artista. Com o surgimento da imprensa, o mesmo compositor podia, através da reprodução em maior escala de suas partituras, despender menor tempo de trabalho em cada cópia em relação ao tempo global de trabalho para a composição musical.

Podemos verificar, assim, que o avanço tecnológico de um setor tende a expandir-se e impactar a produção social da existência como um todo. O salto, porém, da produção artesanal da música para a produção capitalista se dá quando o compositor, não possuindo mais os meios de produção necessários para realizar composições musicais, é forçado a vender sua força de trabalho para um estúdio de música ou, como mais conhecido, uma gravadora. As empresas capitalistas do setor musical, no entanto, para continuar existindo como capitalistas devem aumentar a produtividade aumentando a forma de reprodução massiva das mercadorias que produz: músicas ou o direito à audição das mesmas.

Independentemente de se um compositor singular tenha vendido sua música como mercadoria para uma produtora (e não sua força de trabalho), o conjunto da produção de músicas dessa produtora/gravadora deve ser realizado a partir de relações de compra e consumo da força de trabalho na produção das mesmas, seja dos músicos que executam as partituras para gravação ou dos cantores que as cantam. Compradas e utilizadas as forças de trabalhos destes artistas na gravação de músicas específicas (valores-de-uso), os donos de gravadoras devem conseguir os meios tecnológicos que permitam reproduzir da forma mais massiva possível as músicas produzidas através de relações mercantis, tornando sua audição por cada pessoa uma mercadoria em si. Tivemos, da reprodução em mídia (LP e CD) para a reprodução de músicas em MP3, um salto tecnológico que modificou os processos de trabalho da indústria da música por completo. Hoje a nova tecnologia do Streaming[7], através de aplicativos de reprodução em tempo real, supera as “antigas” formas de reprodução de músicas em número absoluto de acesso à essa forma de arte em específico. Entretanto, todo esse avanço dos meios de produção através do aprimoramento tecnológico da maquinaria industrial deve ser compreendido na sua relação determinante dentro da produção de capital: a relação entre o tempo de trabalho necessário e o tempo de trabalho excedente.

Na arte, também se apresenta a questão da reprodutibilidade técnica como uma transição necessária da produção manufatureira para a indústria moderna, mediada pela maquinaria[8]. Deste ponto de vista, a vida ou morte de um valor-de-uso singular, seja ele peça de teatro, obra de arte visual ou música, assim como do trabalho concreto (trabalho da atriz, escultor ou compositora) que o produz, está radicalmente vinculada à determinação social da vida da forma-mercadoria desse produto, uma condição de existência de qualquer produto social humano. Ou seja, diante da vida da mercadoria e, principalmente, do capital, os trabalhos específicos, produtores de valores-de-uso quaisquer que sejam, são apenas transportes, meios necessários para forjar a única singularidade determinante: a reprodução social do capital.

Nesse caso, pensemos em um exemplo como o da cantora, que Marx utiliza em suas Teorias da mais-valia (Marx, 1980, p.396). Digamos que nossa cantora atual, independentemente do tipo de música que canta, assinou um contrato de trabalho, ou seja, uma relação de venda de sua força de trabalho, com uma gravadora para a produção de um novo disco. Essa gravadora também é produtora de shows da cantora. Na produção da reprodução digital da música “da” cantora, assim como dos shows, muitas outras forças de trabalho são compradas pela dona da gravadora. Sendo então o valor de um ingresso para o show ou da audiência de uma música, via streaming, uma parte, entre milhares, da soma do valor que deve conter o trabalho socialmente necessário total para a produção da mercadoria música e sua reprodução independente do meio utilizado (streaming, CD ou show), ou seja, o total das forças de trabalho consumidas e o total do valor dos meios de produção utilizados na produção da mercadoria.

Como vimos, o valor dos meios de produção utilizados reaparece como valor na nova mercadoria através da ação específica do trabalho concreto realizado no processo de trabalho de produção de valores-de-uso. Da mesma forma, o valor do conjunto das forças de trabalho consumidas durante o processo de trabalho também reaparece no valor da nova mercadoria. Porém, quando a utilização da força de trabalho se prolonga para além do tempo de trabalho necessário, ela produz o trabalho excedente também em forma de tempo social de trabalho incorporado, desta vez na forma de mais-valia na nova mercadoria, junto com o consumo proporcional dos meios de produção.

Em nosso exemplo da gravadora, os meios de produção utilizados para a gravação e reprodução da música da cantora também são compartilhados para músicas de outros cantores e compositores - desde estúdios de gravação e serviços de escritório, como assessoria jurídica, produção executiva, etc. Todos estes meios, ao serem compartilhados, reduzem o valor total dos meios de produção incorporados em cada mercadoria unitária. Da mesma forma, a transação de compra e venda permanente da força de trabalho da cantora resulta, ao longo do tempo, no efeito que a própria mais-valia extraída do consumo prolongado de sua força de trabalho se aplique no aumento da produtividade do trabalho através de mais e melhores meios de produção. Assim, ao realizar a circulação da mercadoria, a produção de mais-valia se transforma em capital.

Já o capital, para continuar se reproduzindo, precisa ser convertido permanentemente em meios de produção e compra de força de trabalho nas condições de produção de mais-valia. Com o acúmulo de capital nas mãos da dona da gravadora ocorre, também, a condição de expansão e renovação de suas mercadorias. Assim, a cantora e todos os demais trabalhadores, ao produzir mais-valia, produziram também as condições de expansão do capital da empresa e são, através da mesma empresa na competição capitalista, impelidos a aumentar a produtividade de seus trabalhos na forma de força de trabalho como mercadoria, a fim de produzir mercadorias com menor quantidade de trabalho socialmente necessário, menor valor, e competirem no mercado. Este sistema produtivo gera, como vemos, um acirramento das contradições de sua própria produção.

O que ocorre, sendo visível inclusive no plano da empiria, é um aumento em escala mundial da produção e reprodução de produtos artísticos e uma redução do número de artistas proporcionalmente envolvidos nessas produções. Em outras palavras, o aumento do “mercado da arte” não reflete um aumento proporcional do “mercado de trabalho da arte” (Carbonari, 2021).

Teremos, como é o caso de outros ramos como a produção esportiva, por exemplo, a apropriação da mais-valia de alguns grandes artistas que conseguem - por terem produtos relacionados com sua imagem, como os serviços de marketing, publicidade e propaganda resultados de outras forças de trabalho -, produzir ingressos para shows ou audiência em streaming para a empresa capitalista na qual trabalham em quantidades cada vez maiores, aumentando assim a diferença entre o trabalho necessário para a produção de cada mercadoria e o trabalhado excedente. Isso ocorre independente de se o valor da força de trabalho dos artistas e demais trabalhadores seja elevada em sua expressão na forma monetária de salário, em comparação com a média dos salários na sociedade. A dimensão da mais-valia (taxa de exploração do trabalho) não tem nenhuma relação com o que, no plano da empiria, chamamos “custo da produção” e “custo do trabalhador”.

De forma geral, o que temos na indústria da arte é uma crescente concentração dos meios de produção artísticos através, inclusive, de fusões e compras de pequenos capitais por capitais maiores (tendência da própria produção capitalista como um todo). Especificamente, o que chamamos “grandes produtoras”[9] ou “grandes estúdios” hoje são as “fábricas” de arte e cultura que centralizam, na forma de comando sobre o trabalho e meios de produção, a produção de uma gama ampla de mercadorias artísticas e culturais. Temos, por exemplo, produtoras que disponibilizam, em seu “cardápio”, produtos e serviços que vão desde peças de teatro a shows de cantores, eventos esportivos, artigos de roupa e acessórios[10].

Em outro sentido, há “fábricas” de arte que se especializam em um setor específico do ramo da indústria artística e ampliam a produção de mercadorias através de uma diversificação do mesmo valor-de-troca. Podemos dar o exemplo dos grandes Circos, sobretudo de empresas de Circo que, através da compra de forças de trabalho de alto nível de produtividade, concentram uma elevada extração de mais-valia e, portanto, o comando sobre um trabalho específico e reprodução dos meios de produção para essa extração, ao ponto de conquistarem o lugar de monopólio no mercado mundial da mercadoria produzida[11].

A fim de dar conta da complexidade do fenômeno, Marx irá sintetizar o movimento de reprodução ampliada do capital e acumulação capitalista (Marx, 1989, p. 725). O autor desenha o funcionamento do metabolismo social do capital: da produção de mais-valia ao processo global de acumulação do capital.

Esse percurso evidencia que, a produção de uma ou outra mercadoria é apenas uma mediação para que se realize a verdadeira relação produtiva de capital, como podemos ver no caso da produção de aço:

 

A produção de aço é mero pretexto para a produção de mais-valia. Os fornos de fundição, as oficinas de laminação, as construções, a maquinaria, o ferro, o carvão. Não se transformam apenas em aço. Além disso, absorvem trabalho excedente, absorvendo, naturalmente mais em 24 horas do que em 12 horas. Na realidade, dão aos [...nome do dono da fábrica...] um direito líquido sobre o tempo de trabalho de certo número de trabalhadores, durante as 24 horas do dia, e perdem seu caráter de capital, [...] quando se interrompe sua função de absorver trabalho (Marx, 1989, p. 298).

 

Da mesma forma, a produção de arte, seja qual for, na relação de produção capitalista é um mero pretexto para a produção de mais-valia. Os estúdios, teatros, cinemas, escritórios de produção, galerias e ateliês, casas de espetáculos e lonas de circo, assim como todos os materiais utilizados não se transformam apenas em arte; são, na verdade, os meios que utilizam os “donos do negócio” para absorverem força de trabalho afim de que esta produza trabalho excedente. Por isso, a posse dos meios de produção é, na relação capitalista, a fonte da força do “direito” do comprador da força de trabalho sobre a jornada, o tempo de trabalho de certo número de trabalhadores, ou seja, a forma e conteúdo de seu comando sobre o trabalho.

Assim, a indústria da arte, da cultura ou a indústria criativa[12] são partes componentes da grande indústria capitalista de produção. A mesma totalidade de determinações que rege a produção global do capital rege cada um de seus ramos e a proporção que eles representam em sua totalidade sendo, como vimos, a valorização do valor determinante em relação ao valor e este em relação ao valor-de- uso. Da mesma forma, o trabalho produtivo de capital (o trabalho excedente) determina o trabalho abstrato e este determina o trabalho concreto. Esse aparente encadeamento, no entanto, nada revela como relação linear, pois a totalidade destas determinações se movimenta multidirecionalmente e se expande à medida que as contradições e complexidades da forma social do capital se ampliam e reproduzem.

  

Considerações Finais

 

A arte necessita de bem-estar e abundância.

Leon Trotsky

 

A arte, como riqueza específica, se produzida em uma forma social do valor- de-uso, poderia ser responsável por novas formas de relações sociais, interações verdadeiramente artísticas entre todos os seres humanos. Mas, como tudo, para ser o que potencialmente é, precisa poder ser, precisa de condições adequadas, de fluxo de energia vital humana: bem-estar e abundância. Não existe riqueza de qualquer natureza quando não existe abundância de riqueza igualmente compartilhada. A falta de distribuição e consumo da riqueza social produzida para o conjunto da humanidade é a nossa verdadeira doença, uma doença que nos degenera como organismo social, que subtrai humanidade de tantas formas que seria impossível descrever cada sintoma causado pelo roubo de nossa energia especificamente humana. A abundância e o bem-estar estão para a arte como a luz solar está para a vida. A falta ou privação de parte dessa energia causa uma deficiência em sua forma expressiva. Restituir à humanidade sua energia vital é condição para a existência da arte como riqueza social.

O percurso expositivo deste artigo se apresenta não somente como forma demonstrativa de uma hipótese, mas como um caminhar investigativo que vai desfazendo a cada passo uma densa cortina de fumaça que antes cobria a realidade. A interpelação entre condição de produção, processos produtivos e relações sociais de produção mostra, então, seu movimento analítico imprescindível para a realização do método histórico de compreensão das formas sociais de produção. Diante da riqueza social da arte, mostrou-se a forma-mercadoria dessa riqueza. Diante da forma-mercadoria, mostrou-se a forma-mercadoria acrescida de mais-valia.

A produção da arte como capital, condicionada pela forma de produção global da vida, comprova a relação de determinação real entre a mais-valia e o valor. Diferentemente de quando falávamos apenas da produção de mercadorias, na produção capitalista da arte, a característica útil que a faz satisfazer uma necessidade humana é apenas um pretexto dentro do processo produtivo. A mercadoria determinante na produção de capital é a força de trabalho; no caso da arte, a força de trabalho do artista e demais profissionais do ramo cultural. Ou seja, é a capacidade específica de trabalho artístico (valor-de-uso) na forma valor (mercadoria) que, subordinada a um processo de consumo específico, produz algo capaz de satisfazer uma necessidade específica, não humana, mas do capital: o mais valor. Essa relação de subordinação fica evidente em alguns fenômenos que presenciamos, inclusive na empiria, cotidianamente. Daí evidencia-se, inclusive, a “função social”, nesse caso, do produto do trabalho artístico: a arte.

Formulamos, então, a seguinte questão: como podemos explicar que uma obra de arte, de qualquer linguagem, não tenha “mercado” consumidor se, diante de si, há pessoas que querem e necessitam desfrutar de sua fruição? Se disséssemos simplesmente que a função social da arte é sua fruição, não haveria explicação para esse fenômeno.

A única explicação plausível reside na premissa de que é mentira o que os olhos veem. Não temos produto do trabalho artístico de um lado e “público”, audiência, consumidores, plateia, do outro. Temos mercadoria (acrescidas de mais-valor) e necessidade de circulação (compra e venda) das mesmas para realização do “lucro” (capital) do outro. Vemos que a atividade específica “trabalho artístico” e seu produto “arte” sequer aparecem na relação determinante explicativa do fenômeno. Exatamente porque a arte é, na forma social atual em sua realidade mais concreta, somente pretexto para produção de mercadoria/capital que podemos explicar porque há produtos artísticos não consumidos por todas as pessoas que assim o desejam.

Assim, diante da produção de capital, não apenas o trabalho artístico e suas obras se apresentam como espectros na forma mercadoria, mas os próprios produtores, artistas, são espectros. E o são pois o trabalho produtivo de capital, embora seja mediado pela produção de mercadorias, é o único trabalho capaz de alienar e acumular uma quantidade de “trabalho social” nova adicional na forma de mais-valia.

Desse modo, as trabalhadoras e trabalhadores da arte que, como vendedores de força de trabalho, se inserem no modo capitalista de produção são, nessa relação específica, proletários. Diante deles, se encontra o capitalista que, de posse de dinheiro transformado em capital, detém a condição social de proprietário privado dos meios de produção e, por isso mesmo, “ditador” da condição de sobrevivência da outra parte da humanidade que não os possui.

Entre os conjuntos de capitalistas e proletários, encontra-se a classe do produtores de mercadorias (artistas que ainda têm condições de adquirir meios individuais de trabalho e produzir sua arte como valor-de-troca) que têm, tanto no produto de seu trabalho quanto nas formas sociais de propriedade dele derivadas, formas reminiscentes de uma sociedade que, se não foram ainda totalmente extintas, tendem a permanecer cada vez mais irrelevantes na produção global de arte, como também é o caso da produção exclusiva de valor-de-uso.

Da relação de produção específica do capital, se forja uma relação inédita dos sujeitos sociais na história. Pela primeira vez, a fonte da riqueza é também a fonte de destruição de seu movimento criador. Tanto do ponto de vista dos capitalistas quanto dos proletários.

Nessa relação específica, os vendedores de força de trabalho, produtores de mais-valia, são indispensáveis na produção de capital pois são, de fato, a única fonte de combustível, o alimento (ou como quisermos chamar) desse organismo específico. É certo que, como humanidade, existe uma reserva considerável de força de trabalho para ser explorada e destruída. Porém, como antagonismo pulsante deste modo de produção, a classe proletária busca sua sobrevivência e se coloca em movimento em determinados momentos da história.

Desse movimento necessário para a incessante produção capitalista decorrem batalhas internas em cada uma das classes envolvidas na produção. Na produção da arte como capital esse campo não poderia ser diferente, à essa compreensão se destina a presente contribuição, esperamos prosseguir esse debate em uma oportunidade próxima.

 

 

Referências

 

 

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[1] Artigo recebido em 10/03/2025. Primeira Avaliação em 24/05/2025. Segunda Avaliação em 13/05/2025. Terceira Avaliação em 11/11/2024. Aprovado em 21/11/2025. Publicado em 03/12/2025. DOI: https://doi.org/10.22409/tn.v23i52.66863

 

[2] Doutora em Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Professora adjunta do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Email:    professora.marilia.carbonari@gmail.com.       Lattes:    http://lattes.cnpq.br/4277571730225424. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8357-6002.

 

[3] Todas essas categorias serão melhor abordadas adiante, porém, para aprofundamento sugerimos a leitura completa do O Capital - Livro 1 (Marx, 1989) ou, para o campo da arte, do livro A produção da arte na forma social do capital (Carbonari, 2021).

 

[4] Também tivemos conhecimento, porém não pudemos acessar a obra, do autor inglês Dave Beech e seu livro Art and Value, onde, segundo a resenha acessada, trata da questão do valor da obra de arte segundo as categorias de Marx em O Capital (Beech, 2015).

 

[5] Além do material acessado, tivemos conhecimento do livro Hacia una crítica de la economía política del arte, em que o autor parece apresentar um profundo estudo sobre a produção da arte como mercadoria e como capital a partir de um estudo dedicado de Marx em O Capital (Durán, 2013).

[6] Para melhor discussão sobre o método de Marx, ver: Tumolo, 2021.

 

[7] O streaming é uma tecnologia que envia informações multimídia, através da transferência de dados, utilizando redes de computadores, especialmente a Internet, e foi criada para tornar as conexões mais rápidas. Os exemplos mais conhecidos são Youtube, Netflix, Prime e os aplicativos de música como Spotify. Também, na sua forma mais avançada, o live streaming, significa a transmissão “ao vivo” de multimídia. O emprego dessa tecnologia na indústria fonográfica é tratado no seguinte artigo: https://www.eca.usp.br/acervo/producao-academica/002735674.pdf. Acesso em: 08 mar 2025.

 

[8] Todo esse avanço dos meios de produção, através do aprimoramento tecnológico da maquinaria industrial, entretanto, deve ser entendido na sua relação determinante para a produção de capital, a relação entre o tempo de trabalho necessário e o tempo de trabalho excedente. Para isso teríamos que explicar a forma da produção da mais valia relativa, que não faremos neste trabalho (ver Marx, 1989, p. 224).

 

[9] Aumento            da           concorrência        e              mercado de           shows    no           Brasil: https://www.valor.com.br/cultura/5405177/concorrencia-de-produtoras-cresce-com-aquecimento-no- mercado-de-shows. Acesso em: 08 mar 2025.

 

[10] No Brasil, podemos citar a produtora Time 4 fun como uma das maiores do ramo. Seu “cardápio” pode ser acessado no site: https://ri.t4f.com.br. Acesso em: 08 mar 2025;

 

[11] O exemplo mais bem sucedido pode ser considerado do Cirque du Soleil. A companhia tem cerca de 4 mil funcionários, 1,3 mil deles artistas. Com um plano de negócios em crescimento considerável, a empresa, que agora está em plena expansão no mercado chinês, promete uma taxa de 20% ao ano, artigo completo: https://epocanegocios.globo.com/Revista/noticia/2017/12/arte-de-gerir-um-circo.html. Acesso em 08 de março de 2025.

 

[12] Ver discussão sobre o termo Indústria Criativa em Bendassolli, 2009.

 O artigo se encontra em: 

https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&opi=89978449&url=https://periodicos.uff.br/trabalhonecessario/article/download/66893/40496/253297&ved=2ahUKEwjn_Lu7wc2SAxXMjpUCHYwUNIYQFnoECBgQAQ&usg=AOvVaw1pNw_qpFVbn087DS6AgXac