“Decifra-me
ou Devoro-te” (Esfinge)
Leitura obrigatória: O blog NORTE publica este mapa do
caminho para os tempos de Michel Temer no comando do governo brasileiro montado
por Emílio Gennari. Como uma bússola ele nos indica o norte, cabe a nós
ficarmos de olhos bem abertos: “Só se surpreende quem de História não
entende”.
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Emilio Gennari – Educador PopularE-mail: epcursos@gmail.com |
Governo Temer: o que devemos temer?
À medida que o afastamento da
presidente Dilma Rousseff ganha contornos de um acontecimento inevitável, é
importante que comecemos a visualizar o ambiente em que atuará o governo Temer,
sabendo que não há nenhuma saída sem dor no horizonte do Brasil.
Entre os elementos que preocupam,
destacamos:
1.
O corte de gastos se apresenta com a força de
uma palavra de ordem do próximo governo. Isso implica em encolher ainda mais os
investimentos, elevar alguns impostos e reduzir as verbas de cada ministério a
fim de conter o déficit público. Com certeza, as medidas a serem adotadas
aprofundarão a recessão e o desemprego, afastando a retomada do crescimento. Diante
desta perspectiva, algumas reflexões se fazem necessárias:
ü Qual será o tamanho
dos cortes e das mudanças num Brasil que, no primeiro trimestre deste ano,
apresenta uma situação mais deteriorada em relação ao mesmo período de 2015? De
fato, pelos dados do IBGE, o número de empregadores caiu 8,6%; o mercado de
trabalho formal já fechou 319.150 vagas; a massa de rendimento médio real (tudo
o que é pago em salários do setor público, privado e dos trabalhadores
informais) caiu 4,7%; e os investimentos do governo federal tiveram uma redução
de 12,5% quando comparados ao mesmo período do ano passado. Vale lembrar que cortes
de gastos, juros altos e eventuais aumentos de impostos irão encolher ainda
mais o consumo, os investimentos e a arrecadação, o que, por sua vez, adia o
equilíbrio das contas públicas e dificulta o crescimento.
Esta
armadilha ganha dimensões perigosas à medida que a arrecadação do governo
federal, no primeiro trimestre de 2016, caiu 8,19% em relação ao mesmo período
de 2015, depois de descontada a inflação; o déficit, antes de pagar os juros,
encerra o período na marca dos R$ 18,22 bilhões; e a indústria brasileira encerra
o mês de abril utilizando, em média, apenas 67,9% da capacidade de produção
instalada, quase 12 pontos percentuais abaixo dos 79,8% do mesmo período de
2015.
Os
economistas reconhecem que uma ociosidade acima de 30% desencoraja os
investimentos, constatação que entra como uma luva nos planos da elite. De um
lado, proporciona a ela a desculpa plausível para adiar novamente esta tarefa
indispensável que tornaria competitivas as mercadorias aqui produzidas e
impulsionaria o crescimento econômico. De outro, pressiona em direção a
reajustes salariais que elevam as perdas com a inflação acumulada e, ao elevar
o desemprego e o descontentamento social, coloca uma faca no pescoço do novo
governo caso tente reduzir as benesses que os empresários acumularam durante os
governos petistas.
Ao
que tudo indica, a perspectiva de uma elevação do PIB ficará entre o final de
2017 e o início de 2018. De imediato, o problema é saber quando iremos tocar o
fundo do poço e quanto esta queda significa em termos de aumento das
dificuldades para recolocar o país na rota do crescimento.
ü A ideia de que
Henrique Meireles seja o próximo ministro da fazenda tem algumas vantagens adicionais
em relação aos demais candidatos. Além de ser uma figura bem aceita pelo
mercado, o fato de ter ocupado o mesmo posto no primeiro mandato do presidente
Lula, funciona como uma espécie de barreira às críticas do PT após o afastamento
da presidente. Afinal, como criticar a competência e as escolhas de alguém que
o próprio PT colocou no mesmo posto e cujas medidas, apesar de duras, ajudaram
a colocar em dia as contas públicas?
ü Último, mas
não menos importante, não podemos esquecer que o momento atual é favorável a
medidas que golpeiem o funcionalismo público no sentido de desgastar os
direitos com os quais ainda pode contar e reduzir os reajustes salariais da
maioria dos seus servidores. Não faltam projetos de lei que se encarregam desta
tarefa. Resta definir apenas quais deles se tornarão prioritários diante das
necessidades orçamentárias e dos processos de privatização dos serviços
públicos que vem se ampliando ao longo do tempo.
2.
Qual é o verdadeiro tamanho do déficit que se
projeta para 2016? Até o momento, fala-se em quase R$ 100 bi antes de pagar os
juros da dívida, mas este número ainda pode aumentar. De fato:
ü As finanças de
vários Estados entraram em colapso em função da recessão, da queda dos royalties
do petróleo e de um crescimento médio de 8% acima da inflação dos gastos
realizados entre 2009 e 2015. Caso vinguem as liminares que garantem o
pagamento de juros simples, os governadores passarão à União a diferença em
relação aos juros compostos com os quais o governo federal obtém os empréstimos
a serem repassados aos Estados e dos quais é o fiador. Somente no mês de abril,
esta conta representou uma perda de receitas do governo federal de R$ 2,5 bi. De
acordo com estudos preliminares, a mudança na forma de calcular o financiamento
da dívida dos Estados traria aos cofres do governo federal um prejuízo de R$
402,3 bi. Diante da inviabilidade de assumir este rombo, os governadores já
estão pensando em outras formas de renegociar as dívidas, mas o resultado final
implica sempre em repassar à União parte dos custos que eram dos Estados.
ü No cenário que
vai se desenhando a partir dos dados levantados, é difícil acreditar que as
contas dos municípios possam gerar os superávits esperados para 2016. De fato,
além de ajustarem seus balanços à realidade do país, 60% das 5.568 prefeituras
dependem dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios. E aqui também
não faltam problemas. No primeiro trimestre deste ano, os recursos entregues
aos municípios tiveram uma queda real de 14% sobre o mesmo período do ano
passado e os restos a pagar, de acordo com a Confederação Nacional dos
Municípios, encerraram o mês de março em R$ 43 bi, um aumento de quase 23% em
relação a dezembro de 2015.
ü Excluindo os
aportes previstos pela lei, a diferença entre a arrecadação e os gastos da
previdência no primeiro trimestre de 2016 apresenta um déficit de R$ 28,96 bi,
um aumento de 60,5% em relação ao mesmo período de 2015. Além da queda da
arrecadação (em função do aumento do desemprego) e dos gastos adicionais proporcionados
pela fórmula que permite driblar o fator previdenciário, o resultado negativo do
período se deve ao aumento de 74,8% dos dispêndios com o abono salarial e o
seguro desemprego. Aproveitando das ameaças que representaria para os cofres
públicos um déficit anual da previdência na casa dos R$ 134 bi, ante os R$
85,82 bi em 2015, a elite e a mídia constroem o consenso quanto à urgência de impor
uma idade mínima para ter acesso à aposentadoria usando como pretexto o aumento
da esperança de vida da população. E, aqui, a primeira questão que levantamos é
justamente sobre a renda e as condições reais de vida que permitiriam ao “brasileiro
médio” atingir os patamares apontados pelo IBGE. De fato, com uma classe
trabalhadora que começa a trabalhar cedo, em condições desgastantes e com um
nível de renda que flutua muito durante os anos em que está na ativa,
acreditamos que a elevação da idade mínima para solicitar a aposentadoria venha
a sanar parte do déficit da previdência pela impossibilidade de muitos que
contribuíram sobreviverem quanto basta para se beneficiar dela. As estatísticas
não levantam dados que relacionem a renda média real auferida com o trabalho e
a esperança de vida das pessoas que a receberam. Uma omissão que vai custar caro
à maioria dos trabalhadores e trabalhadoras.
3.
No campo fiscal, não está descartado um
possível aumento de impostos ou uma redução das desonerações que, em 2016, devem
retirar da arrecadação cerca de R$ 385 bi.
Deste total, cerca de R$ 115 bi destina-se ao pagamento de cestas
básicas, vale alimentação, transporte, descontos e isenções para creches. Mas
os R$ 270 bi restantes ficam com o setor privado em termos de incentivos e
desonerações e funcionam como uma espécie de Bolsa Empresário que visa
assegurar lucros compensatórios sem nenhum compromisso em termos de garantia de
emprego e inovação tecnológica. Este montante equivale a quase dez vezes o que
é gasto com o Bolsa Família (R$ 28 bi) e representa quase três vezes o déficit
primário estimado pelo governo federal (R$ 97 bi). Em que medida os poderosos
interesses que se beneficiaram da renúncia fiscal praticada até agora aceitarão
uma diminuição destas benesses, muitas das quais foram concedidas pelos governos
petistas ou, até mesmo, uma elevação dos impostos tão veementemente combatida
desde o início do 2º mandato do governo Dilma? E, caso aceitem, o que vão
querer como forma de compensação?
ü A aprovação
imediata do fim das restrições à terceirização?
ü Uma reforma
trabalhista que flexibilize os direitos previstos pela legislação de acordo com
as necessidades das empresas a serem impostas nas negociações entre patrões e
trabalhadores numa realidade em que o desemprego se alastra e faz os sindicatos
perderem o pouco poder de barganha de que ainda dispõem?
ü O fim das
indexações de salários e benefícios? Mão de ferro em relação aos movimentos e a
mágica dos juros altos para repor no mercado financeiro os lucros empresariais corroídos
pela redução das vendas?
ü Isso será
suficiente para contrabalançar os efeitos negativos dos cortes ou, em nome da
competitividade do país, será inevitável produzir um duro arrocho salarial e uma
taxa oficial de desemprego entre 15 e 18%?
4.
A quebra
dos vínculos orçamentários, previstos pela Constituição, a fim de ajustar a
política fiscal à necessidade de sanar o déficit tende a piorar sensivelmente
as ações governamentais nas áreas da saúde, educação, moradia e transporte. Ao
se sobrepor aos gastos sociais, o rigor fiscal para pagar os juros, sem que
haja sequer uma auditoria da dívida, conseguirá se legitimar como eixo central
para tirar o Brasil do sufoco? O PT, agora na oposição, trabalhará para mostrar
esta contradição ou se omitirá até mesmo diante da necessidade de uma auditoria
da forma bem pouco transparente pela qual a dívida interna vem sendo
renegociada?
5.
De quanto dinheiro a mais Temer pode dispor
para tecer a sua política econômica? Ao que tudo indica, há uma agenda de
privatizações a ser colocada em ato a partir do segundo semestre deste ano e
que, no total, pode angariar recursos da ordem dos R$ 31,2 bi. O processo de
concessão dos trechos de rodovias, portos e aeroportos ao qual se refere esta
rodada de privatizações já foi aprovado em várias instâncias da estrutura do
Estado e falta pouco para que possa ser colocado em prática. Os recursos
obtidos com as vendas não iriam satisfazer apenas os capitais sedentos de investimentos
baratos e lucrativos, como seriam uma espécie de teste de confiança do mercado
em relação ao governo Temer. Do mesmo modo, é possível que algumas parcerias
público-privadas saiam do papel a depender das condições oferecidas pelo
Estado. O caso da Ferrogrão é um dos projetos que deverá fazer parte desta
discussão. Esta ferrovia que vai ligar Mato Grosso aos portos do Norte do país,
envolve cerca de R$ 10 bi em investimentos e está na mira das grandes empresas
de grãos que são as maiores interessadas no empreendimento. Sabemos que isso não
basta para resolver os problemas do novo governo, mas ajudará a apresentar
algum resultado que não seja apenas mais recessão, desemprego e arrocho.
6.
No campo da economia, a “boa” notícia diz
respeito ao superávit da balança comercial que, entre janeiro e abril deste
ano, acumula um saldo positivo de U$ 13,25 bi e alimenta as possibilidades de
atingir entre U$ 43 bi e U$ 50 bi até o final do ano. Mas basta um olhar mais
atento para perceber que nem tudo o que brilha é ouro. De fato, o superávit não
está sendo obtido graças ao crescimento das exportações, mas tão somente
através de uma redução dos produtos vendidos ao exterior bem inferior ao
encolhimento dos importados. Pelos dados disponíveis, no primeiro quadrimestre,
as exportações tiveram uma retração média de 3,4% em relação ao mesmo período
de 2015, ao passo que as importações encolheram nada menos do que 32,2%, o que
denota o agravamento da crise econômica em curso.
7.
Em termos de base governista, seria uma
ingenuidade acreditar que os 367 deputados que votaram a favor da abertura do
processo de impeachment da presidente Dilma constituem uma base confiável para
o Temer aprovar as duras medidas que se farão necessárias. O fisiologismo
continua vivo e forte e já fez o próprio Temer recuar da ideia de reduzir
drasticamente o número de ministérios. O esforço do novo governo é no sentido
de proporcionar uma maioria numericamente suficiente para aprovar logo o que
for solicitado enquanto é possível descarregar nos erros do governo Dilma a
responsabilidade dos estragos que serão produzidos pelo Temer. Trata-se de uma
tarefa mais difícil do que aparenta ser à medida que o risco de o desgaste
político recair sobre a base de apoio do governo é diretamente proporcional à
demora em apresentar algum resultado positivo que as medidas do novo governo
deveriam produzir.
Do
mesmo modo, apesar dos esforços de incluir representantes do PSDB e Democratas
que agradem aos principais grupos dos dois partidos, ainda não está claro até a
que ponto as duas agremiações ajudarão o novo governo. A nosso ver, ambas tendem
a manter o apoio a Temer na corda bamba e a desembarcar do seu governo assim
que as saídas para tirar o país do atoleiro não atingirem os resultados
esperados nos prazos desejados. Além disso, chegar a 2018 sob o comando do
Temer é correr o risco de ficar numa posição bastante incômoda. Se os dois
partidos ajudarem o governo a sanar as finanças públicas e a ensaiar um início
de crescimento da economia, quem se beneficiará desta façanha será o Temer e
não os principais candidatos que vêm disputando as indicações para a próxima corrida
presidencial. O fato de as ideias-chave de PSDB e Democratas constarem do
projeto do PMDB, conhecido como “Uma ponte para o futuro” e do partido ter
elaborado um plano de transição rumo à sua concretização, não implica em manter
um apoio incondicional. O ideal seria deixar ao Temer o ônus das maldades até a
economia tocar o fundo do poço, para, em seguida, lançar os próprios candidatos
como a “solução para fazer o país crescer”. O problema é que, se assim for, a
base de sustentação do governo Temer irá se desfazer bem antes de 2018, à
medida que os partidos que a integram não terão nada positivo a apresentar a
seus eleitores. Consideradas as forças em jogo, temos a impressão de que, para
acalmar os ânimos, não basta nem o compromisso do Temer de não se candidatar
nas próximas eleições, nem os ministérios que estão sendo distribuídos para
acalmar a sede do fisiologismo. Enfim, engana-se quem acredita que a posse do
novo governo deixará para trás os tempos da incerteza política.
8.
Os próximos passos da Lava Jato e suas
derivações devem aprofundar as investigações em relação ao Lula e ao PT. Neste
sentido, a recente publicação de uma pesquisa de intenções de voto que colocava
o ex-presidente como vencedor do primeiro turno numa disputa com Marina Silva,
Aécio Neves e Geraldo Alckmin não foi um mero exercício de projeção de futuro e
sim um aviso à elite de que a “jararaca” (para usar o termo que o próprio Lula
atribuiu a si mesmo) não está morta e constitui um perigo real em 2018. Ainda
mais quando o cenário mais provável será o de um país fustigado pela recessão e
de um povo que dificilmente vai esquecer o bem-estar vivenciado em 2010, último
ano do mandato de Lula, quando o Brasil cresceu 7,5%. Chegar ao próximo pleito
presidencial com um PT destruído pelas acusações de corrupção e um Lula impossibilitado
de se candidatar é a receita confiável para evitar que a elite corra riscos desnecessários.
O cenário que esboçamos é bem pouco
encorajador. Mas, ainda que dê tudo certo, será mesmo que o Brasil vai
conseguir voltar a crescer entre o final de 2017 e o início de 2018?
A resposta não depende apenas do que
será feito aqui, mas, também, da economia mundial não entrar num novo ciclo
recessivo a partir do segundo semestre de 2017. Sinais preocupantes não faltam
e, infelizmente, parecem confirmar as perspectivas que traçamos em nossa
análise anterior. Vejamos:
- No
primeiro trimestre de 2016, os dados relativos à indústria automobilística
mundial revelam um aumento da ociosidade média de suas instalações. Se, em
2010, 20,5% da capacidade produtiva não era utilizada, em março deste ano,
esta porcentagem atingia os 27,4%. Enquanto as montadoras do Canadá,
Estados Unidos e México operam, em média, com 91% da capacidade instalada
e as da Europa estão na marca dos 84%, o parque automotivo brasileiro
registra uma utilização de 52%, o da Índia de 60%, na Rússia é de 53% e na
China de 65%.
- O
fracasso da reunião da OPEP no mês passado sobre a redução voluntária da
extração de petróleo pelos países membros coloca em cheque o futuro de
muitas empresas petrolíferas cujos balanços vêm sofrendo o impacto
negativo da alta do dólar e da queda dos preços do barril. Além dos prejuízos
bilionários, a gravidade desta situação pode ser percebida através de três
elementos:
- Em
abril, a oferta diária de petróleo superava a demanda mundial em 50
milhões de barris, um excedente expressivo para uma economia em
desaceleração;
- A
queda nos preços do petróleo tem reduzido em 40% os investimentos no setor
ao longo dos últimos trimestres e continua alimentando a possibilidade de
calote das empresas petrolíferas que contraíram empréstimos junto aos
bancos internacionais;
- O
agravamento do déficit público e da crise econômica nos países que têm nas
vendas de petróleo e gás a principal fonte de recursos para sustentar os
investimentos e as receitas do Estado, com particular atenção para
aqueles que, como a Venezuela, a Rússia e a Nigéria, têm uma diferença
entre os preços de extração e de venda bem inferior à dos países árabes.
- Apesar
da existência de excedentes, março e abril registraram um forte movimento
especulativo em relação às vendas de petróleo e minério de ferro a serem
entregues no terceiro trimestre. Nas bolsas de valores, os contratos
futuros elevaram o preço do minério de ferro em 46%, para U$ 65 a tonelada,
e, somente no mês de abril o petróleo tipo Brent subiu 22%, para U$ 48,13
o barril. Os volumes negociados são muito grandes e os efeitos destes
aumentos começam a se propagar nos setores de derivados e
semimanufaturados, elevando os custos das empresas e comprimindo suas
margens de lucro. Mas isso não é tudo. À medida que é difícil prever o
alcance destes movimentos especulativos, que têm nos investidores chineses
os principais protagonistas, alguns observadores apontam para a
possibilidade da formação de uma bolha capaz de gerar uma forte
instabilidade nos preços destas commodities, de impedir previsões
consistentes sobre a sua evolução real e de estourar de uma hora pra outra,
golpeando com suas perdas o frágil crescimento da economia mundial.
- Na
Europa, aumentam as preocupações com a deflação numa realidade em que a
taxa de juros é negativa, o Banco Central continua comprando títulos da
dívida dos 19 países da zona do Euro para irrigar os canais do crédito e o
forte endividamento dos Estados, aliado à queda na renda das famílias, projetam
nuvens escuras no horizonte econômico de 2017.
Vale
lembrar que, ao mesmo tempo em que deveriam estimular os investimentos e o consumo,
os juros negativos agem como uma espécie de imposto que os bancos não conseguem
repassar facilmente aos clientes. Na Suíça, por exemplo, as instituições
financeiras aumentaram os custos dos empréstimos para compensar as perdas com
os juros negativos, o que, obviamente, freia os investimentos que dependem
deste dinheiro. Neste país, a taxa de juros dos depósitos é negativa em 0,75%
ao ano, bem próxima do limite pelo qual os banqueiros suíços começam a temer
que os correntistas tirem o dinheiro das contas e compliquem a situação das
instituições financeiras que emprestaram recursos ao setor petrolífero ou a
empresas cujos balanços colocam dúvidas quanto à capacidade de pagar o que
devem. Uma realidade que, por sinal, atinge particularmente os bancos europeus,
estadunidenses e japoneses.
Para
completar o quadro, crescem os temores de um retorno da deflação. De acordo com
as projeções do Banco Central Europeu, a inflação na zona do Euro não deve
passar de 0,2% ao longo de 2016 ante um índice inicialmente projetado em 0,5%,
num claro sinal de que a política monetária atual não está produzindo os
efeitos desejados.
- Nos
Estados Unidos, o PIB do primeiro trimestre cresceu apenas 0,5%, menos da
metade do trimestre anterior, e as exportações caíram 2,6% em função da
valorização do dólar. Não é a primeira vez que a economia estadunidense
apresenta um PIB baixo ou negativo no primeiro trimestre (como ocorreu em
2014), mas, neste momento em que aumentam as incertezas globais, os
agentes econômicos não deixam de olhar para este resultado com certa
preocupação.
De
fato, entre janeiro e março deste ano, os investimentos caíram 5,9% sob o peso
da baixa recorde de 86% do setor de petróleo e gás que, nos últimos nove meses,
registrou prejuízos bilionários. Se isso não bastasse, sempre no primeiro
trimestre, houve uma diminuição da demanda de novas residências que, em março,
chegou a 1,5% e os gastos dos consumidores cresceram a um ritmo menor do que o
esperado.
Para
completar a obra, os seis maiores bancos do país (JP Morgan Chase, Bank os
America, Citigroup, Goldman Sachs, Morgan Stanley e Wells Fargo) registraram uma
queda de 9% em suas receitas trimestrais, o maior recuo desde 2011. Os grandes
cortes nos custos destas instituições ao longo dos últimos trimestres não
conseguiram contrabalançar a diminuição das receitas, de modo que o lucro
líquido total dos seis bancos caiu 24% sobre o mesmo período de 2015.
Por
si só, nenhum destes dados indica o início iminente de um processo recessivo no
país, mas, em seu conjunto, encolhem o crescimento do PIB de 2016 em relação a
2015 e justificam o aumento das preocupações rumo a 2017.
- Sob
o olhar atento e desconfiado dos investidores, a China confirma as
tendências apontadas na nossa análise anterior. De acordo com os dados
oficiais, o primeiro trimestre se encerrou com um crescimento de 1,1%, o
menor índice de crescimento trimestral desde 2011, quando os cálculos do
PIB passaram a ser realizados pela fórmula atual. De acordo com
estatísticas não governamentais, em abril, a atividade da indústria, que
continua tendo nas exportações a sua força propulsora, encolheu pelo 14º
mês consecutivo em função estagnação do mercado interno e do 5º mês
seguido de redução das novas encomendas para as exportações. A
desaceleração comprime os preços, encolhe os lucros das companhias
chinesas e há sinais evidentes de que, em 2016, vai aumentar o número das
que estarão sem condições de honrar as dívidas contraídas. No momento, a
parcela das dívidas empresariais de liquidação duvidosa está em 14% do
total de créditos recebidos (U$ 1,3 tri), o triplo do que era em 2010.
O
governo de Pequim promete encorajar os bancos a concederem mais empréstimos às
empresas rentáveis e cuja produção se destina à exportação para que invistam na
compra de equipamentos de tecnologia avançada. Além disso, promete expandir o
seguro de crédito à exportação e, em 1º de maio deste ano, oficializou o
Imposto sobre Valor Agregado como peça-chave de sua reforma tributária. O novo
sistema reduz a carga de impostos para as empresas com uma desoneração estimada
em U$ 77 bi a fim de baratear os seus produtos, melhorar a competitividade e
recompor as margens de lucro. Para absorver as perdas imediatas de arrecadação
elevou de 2,3% a 3% do PIB o limite do déficit público e, em 2017, espera que o
novo sistema ajude a elevar a arrecadação de tributos bem acima dos atuais 45%
do total devido que hoje entra nos seus cofres.
O
fracasso desta medida faria crescer ainda mais a desconfiança dos investidores
globais que, em 2015, retiraram da China U$ 678 bi. Antes da reforma
tributária, era esperada uma saída de U$ 538 bi ao longo do ano em curso, 20,6%
menos em relação a 2015, mas, nem por isso, menos significativa em termos de
impacto nas reservas cambiais e na economia como um todo.
Ainda que os dados apresentados
reflitam apenas a situação de alguns aspectos da economia mundial, há uma
possibilidade real de que a desaceleração em andamento leve a uma maior
retração dos fluxos de capitais e a uma piora das expectativas futuras capaz de
encolher ainda mais os investimentos. Esta situação aumentaria o ceticismo em
relação aos efeitos reais das políticas econômicas baseadas em juros negativos
e crédito abundante como forma de promover o crescimento, à medida que, até o
momento, conseguiram apenas fazer flutuar o navio da economia mundial, mas sem
proporcionar um impulso que a fizesse navegar a todo vapor. Os dados dos
próximos meses dirão até a que ponto este processo continua se avolumando a
ponto de provocar um novo tropeço em 2017.
Para as esperanças brasileiras de
uma retomada do crescimento entre o final de 2017 e o início de 2018, estas
notícias são uma espécie de ducha de água fria. De fato, caso venham a se
confirmar as tendências atuais, há uma grande possibilidade de que haja uma
convergência entre o início de uma nova crise econômica mundial e o período em que
o Brasil começa a crescer, o que, a bem da verdade, os levaria a mergulhar em um
novo período recessivo.
Emilio Gennari, 07 de maio de 2016.
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