“As aparências Enganam.” Este ditado, fruto da sabedoria popular, nunca foi tão verdadeiro como
na conjuntura atual. O boicote ao Qatar, porquê Justo o Qatar, as bravatas do
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e de King Jong-um Presidente da Coréia
do Norte, são o melhor exemplo do que dissemos: eles podem ao mesmo tempo permanecer
neste jogo perigoso até serem postos para fora dos cargos que ocupam neste
momento ou enveredar pelas “vias de fato” e envolver o planeta em mais uma
guerra suicida.
Temos que estudar e permanecer de olhos bem abertos
e colados na conjuntura. É o que nos recomenda e revela o excelente artigo de Emilio
Gennari, Os Labirintos de Donald Trump,
que o NORTE publica no www.conselhoda.blogspot.com. O texto é longo, mas seja
paciente e siga até o fim. Mesmo que pare a leitura para um copo d´água ou café, e depois
voltar a leitura. Pense pelo lado bom, ele já fez um excelente levantamento dos
acontecimentos, basta seguir acompanhando as novidades.
"Prove este aperitivo”:
“ ... Entre janeiro e
julho deste ano, a Coreia do Norte surpreendeu o mundo ao realizar 14 testes de
lançamentos de mísseis e King Jong-um, líder político do país, não perdeu a
chance de ameaçar os EUA com um ataque devastador, apesar de saber que um único
míssil balístico estadunidense de ogivas múltiplas seria suficiente para
aniquilar com sobras as 8 cidades norte-coreanas
que, segundo os cálculos militares, têm tamanho suficiente para comportar a destruição
provocada por um artefato nuclear. Sendo assim, por que esta pequena península
compra briga com um país que dispõe de um arsenal gigantesco? Por que China e
Rússia se unem para evitar uma guerra que não envolve diretamente seus
territórios? Que interesses se escondem à sombra das ações norte-coreanas?
Um pouco de história
vai ajudar a desenhar o ambiente em que se movimenta a conjuntura da região. Em
primeiro lugar, o ódio norte-coreano em relação aos Estados Unidos tem como
origem a destruição do país provocada pela guerra da Coreia de 1950 a 1953. Em
três anos de conflito, os EUA lançaram nada menos do que 635 mil toneladas de
bombas, ante 503 mil toneladas em toda a área do Pacífico durante toda a
segunda guerra mundial. A força aérea estadunidense reconheceu na época que a
destruição provocada na Coreia do Norte foi pior que a do Japão, castigado com
duas bombas atômicas ...” (Gennari. p. 15)
Boa leitura.
Os Labirintos de Donald Trump
Por
Emilio Gennari[1]
(E-mail: epcursos@gmail.com )
Ninguém espera que, em pouco mais de seis meses, um
presidente da república consolide num programa de governo todas as propostas
que conquistaram seus eleitores. Mas, no caso de Donald Trump, a sensação de
que sobram palavras e faltam medidas viáveis coloca um ponto de interrogação na
possibilidade de isso vir a acontecer.
A distância entre as afirmações e os fatos levanta
questões intrigantes: Até que ponto o mandatário estadunidense tem noção das
possibilidades de realizar o que promete e das tensões que suas falas
desencadeiam nos EUA e no exterior? Suas declarações, às vezes bombásticas e
contraditórias, são parte de uma estratégia para viabilizá-las ou não passam de
recursos midiáticos para manter a popularidade?
Os acontecimentos revelam que Trump está criando
labirintos perigosos. Entrar neles é fácil e desafiador, atrai as atenções,
permite esbanjar ousadia e determinação, mas sair sem impor doses generosas de
destruição parece impossível. Num primeiro balanço do seu mandato, salta aos
olhos que o presidente dos EUA ainda não tenha concretizado nada do que havia
prometido como viável e imediato na campanha eleitoral. Num rápido resumo de
suas propostas para fazer a economia estadunidense gerar empregos e crescer a
uma média de 4% ao ano constavam:
1.
Reduzir
o déficit da balança comercial elevando fortemente os impostos sobre os
produtos importados, estimulando os investimentos e renegociando os acordos
comerciais;
2.
Revitalizar
setores da economia, oferecer subsídios para os empresários não migrarem em
direção a outros países e investir pesado em infraestrutura;
3.
Promover
uma reforma tributária capaz de atrair os capitais que as corporações mantêm no
exterior e que estimule a economia sem elevar o déficit público.
Estas eram as promessas com as quais a direita
estadunidense respondia aos anseios de parte da população que, ao experimentar
na pele as contradições do sistema capitalista, buscava respostas para um
futuro sem perspectivas promissoras. Seis meses depois é natural que todos se
perguntem em que pé estão as coisas. Vejamos:
1.
Em
termos de relações comerciais com os demais países, o governo Trump retirou os
Estados Unidos da Parceria Trans Pacífico (viabilizada por Obama a fim de
isolar a China), a renegociação do tratado comercial com México e Canadá
(NAFTA) anda em marcha lenta e não há perspectivas de fechar acordos bilaterais
significativos, nem mesmo com aliados históricos, como o Reino Unido.
Fundamentalmente, as negociações com a China, em
relação à qual os EUA têm um enorme déficit comercial, levaram Pequim a
importar carne de gado estadunidense, gás liquefeito de petróleo e a permitir
que empresas do setor financeiro ofereçam crédito a clientes chineses. Em
troca, a China pode exportar frango cozido para os EUA, ganha o compromisso das
autoridades estadunidenses de não discriminar os bancos chineses e de iniciar
gestões para que empresas de pagamento eletrônico com capital 100%
estadunidense possam operar na China usando a moeda local. Ou seja, nada que
altere substancialmente a balança comercial entre os dois países sendo que, no
caso do gás, o acordo vai de encontro ao desejo de Pequim de diversificar suas
fontes de abastecimento e reduzir a dependência do carvão.
Além disso, durante a campanha eleitoral, Trump
disse que aplicaria um imposto de 35% a 40% às importações de carros fabricados
no México. Nada disso aconteceu e, no final do primeiro semestre deste ano, as
montadoras do país vizinho venderam 13,5% mais carros aos EUA em relação ao
mesmo período de 2016, num cenário de encolhimento do mercado consumidor local.
E não é para menos. Segundo a empresa de
consultoria Price Waterhouse Cooper, montar veículos no México é até 20% mais
barato do que fazê-lo em qualquer lugar dos EUA. Esta é uma situação que ocorre
também nos demais setores da indústria de transformação, à medida que, com os
U$ 14 do custo médio da hora trabalhada nos Estados Unidos é possível contratar
3 operários mexicanos e 4 chineses. Em função disso, a própria Ford transferiu
para a China a produção dos modelos inicialmente previstos para uma nova planta
mexicana e cujo destino final é o seu país de origem. O resultado também pode
ser visto nas estimativas da Comissão de Orçamento do Congresso norte americano
que, para 2017, projeta um déficit comercial de U$ 570 bilhões, U$ 64 bilhões a
mais que em 2016.
Longe de se preocupar com a defesa do “Made in USA”,
o capital está interessado em ampliar os lucros, razão pela qual se instala
onde as condições de produção permitem uma exploração mais intensa da classe
trabalhadora e a possibilidade de prolongar a vida útil de equipamentos que o
primeiro mundo descarta por serem ultrapassados.
2. Dentro e fora do país, Trump não
perde uma chance de elogiar a sua atuação como criadora de mais empregos. O
problema está em distinguir o que é real e o que não passa de oportunismo
político. Três exemplos ilustram o que acabamos de afirmar.
O primeiro deles guarda relação com a extração de
carvão. Além dos problemas ambientais que levaram a uma progressiva
substituição desta fonte de energia, os empregos deste setor começaram a cair
bem antes da época em que a preocupação com o efeito estufa fosse um tema
recorrente. Apesar do forte aumento anual da produção carbonífera, nada menos
do que 66 em cada 100 empregos foram eliminados entre 1948 e 1970 (ano em que
foi fundada a Agência Estadunidense de Proteção Ambiental). Os velhos métodos
baseados em túneis subterrâneos, tendo a pá, a picareta e o martelete
pneumático como principais ferramentas, vinham sendo substituídos por processos
de extração a céu aberto onde a remoção total do que impedia o acesso aos veios
de carvão demandava o uso intensivo de máquinas pesadas operadas por um número
reduzido de trabalhadores. Além disso, no momento, não há nenhum projeto
consistente que aposte na utilização desta fonte de energia e as centrais
termoelétricas a carvão estão sendo substituídas no mundo inteiro por outras a
gás, igualmente eficientes e menos poluidoras.[2]
O segundo exemplo diz respeito às afirmações que
alardeiam as transferências das empresas estadunidenses para outros países como
responsáveis pelo fim dos empregos bem pagos em território nacional. Neste
caso, Trump e seus apoiadores preferem desconsiderar as pesquisas e esquecer
que, no sistema capitalista, os investimentos empresariais buscam produzir mais
com menos trabalhadores, reduzindo assim o valor de cada mercadoria para elevar
sua capacidade de competir frente às demais. Entre os economistas, há um
consenso quanto ao fato de que, nas três últimas décadas, cerca de 80% da perda
de empregos na indústria de transformação ocorreu num processo de modernização
das instalações e desativação das unidades menos produtivas, o que deixa os
tratados comerciais e as transferências de fábricas ao exterior num distante
segundo lugar em termos de causa do desemprego. Ao focar o período de 1990 a
2007, em que este processo se intensificou nos EUA, em média, a introdução de
robôs levou à eliminação de 400 mil postos de trabalho ao ano, muitos dos quais
eram empregos de renda média em setores como o da indústria automobilística, da
produção de plásticos e de medicamentos.[3]
O último exemplo, mas não menos importante, a
expulsão de imigrantes passa longe de levar a população local a ocupar esses
postos onde se trabalha muito e se ganha pouco. A escassez de trabalhadores
desocupados que ela provoca, somada às restrições impostas aos vistos de
ingresso no país, está levando a um aumento dos custos na agricultura e em alguns
setores da indústria. Além disso, a política migratória de Trump faz cair o
número de imigrantes que procuram os EUA como destino para abrir novas empresas
e, obviamente, novos postos de trabalho.
3. Entre as medidas para atrair
investimentos e elevar o consumo, a reforma tributária apresentada por Trump
prevê a queda temporária de 35% para 15% dos impostos sobre os lucros
empresariais, a redução do imposto de renda das pessoas físicas e a isenção
para casais que ganhem até U$ 24.000 ao ano, quase o dobro em relação aos
atuais U$ 12.600.
No caso das empresas, há dois
fatores que apontam para o mesmo impasse. O primeiro deles diz respeito à
possibilidade de repatriar capitais que as corporações estadunidenses mantêm em
paraísos fiscais e que, de acordo com as estimativas somam cerca de U$ 2
trilhões. O segundo vem da constatação do próprio Donald Trump de que, ao longo
do primeiro semestre deste ano, as corporações sediadas nos EUA viram seus
lucros crescerem em ritmo de dois dígitos em relação ao mesmo período de 2016 e
devem encerrar 2017 com um aumento médio dos lucros na casa dos 11,5%. De um
lado, esses dados enfraquecem o argumento pelo qual a redução dos impostos
corporativos é uma necessidade inadiável para tornar as companhias mais
saudáveis e competitivas. De outro, transformar lucros em mais investimentos
não depende apenas das quantias disponíveis, e sim da chance de ganhar mais
dinheiro ao apostar na produção os recursos que hoje alimentam as aplicações
financeiras.
Contrariando esta perspectiva, encontramos a cautela
do banco central em aumentar a taxa de juros. Apesar das elevações que a
colocaram em 1,25% ao ano, vale lembrar que, diante da expectativa de uma
inflação por volta de 2%, esta é ainda uma taxa de juros que sequer repõe o
aumento dos preços. Ninguém nega que os Estados Unidos estejam crescendo, mas a
cautela no Banco Central indica que este processo não é tão sólido quanto
parece.
Se isso não bastasse, a proposta de orçamento
apresentada pela equipe econômica revela problemas que negam as declarações
pelas quais não haveria crescimento do déficit público. A soma de isenções
fiscais (em U$ 620 bilhões ao ano), aumento do PIB abaixo dos 3% previstos na
proposta, cortes nas áreas de educação e de saúde para pessoas de baixa renda,
elevação dos gastos militares e em obras de infraestrutura resultaria num
aumento da dívida pública da ordem de U$ 720 bilhões ao ano, além de aprofundar
as desigualdades sociais.
As inconsistências entre o discurso e a prática
dividem o próprio Partido Republicano que tem maioria na Câmara dos Deputados e
no Senado. Até meados de julho, apenas 23% das 216 indicações de Trump para
ocupar cargos em agências e órgãos governamentais haviam sido confirmadas, ao
passo que, no primeiro semestre do seu segundo mandato, Obama já havia
conseguido emplacar 69% das suas 454 indicações, o que revela as dificuldades
de negociação política do governo Trump.
Por outro lado, a crescente percepção de que a
política econômica não leva ao horizonte projetado pelas promessas eleitorais
fez a popularidade de Trump cair para 36%, o nível mais baixo para um
presidente nos primeiros seis meses de mandato ao longo dos últimos 70 anos.
Este labirinto marcado pelos assuntos domésticos
abre a perigosa possibilidade de criar outros, à medida que, para melhorar a
própria imagem, Trump se mostra disposto a brigar com grandes potências e a
ameaçar intervenções militares em qualquer lugar do planeta. Colocar o dedo no
gatilho é apostar num jogo arriscado, ainda mais quando há chefes de Estado que
não querem, ou não podem baixar a cabeça em função de seu futuro no poder.
As consequências do
ataque aéreo contra a Síria.
Durante a campanha eleitoral, Trump havia sido
enfático ao afirmar: “Esqueçam a Síria, os Estados Unidos em primeiro lugar”.
Mas, poucos dias após a notícia de um ataque com gás sarin atribuído às forças
do presidente Bashar Assad, no dia 4 de abril, o mundo foi surpreendido por um
bombardeio, justificado como vital para os interesses da segurança nacional dos
EUA e uma clara advertência contra o uso de armas químicas mortais. Seis em
cada dez estadunidenses apoiaram a ação e a popularidade de Trump subiu. Mas
esta explicação aparentemente coerente diante de uma ação desumana não resiste
a um punhado de perguntas intrigantes. Vejamos:
1.
Por
que Bashar Assad, que estava ganhando a batalha contra os rebeldes, lançaria
mão de armas químicas cuja utilização atrairia a condenação dos organismos
internacionais?
2.
Várias
fotos do suposto ataque mostravam que os cadáveres e os feridos não tinham os
sinais de intoxicação próprios do gás sarin e que muitos socorristas sequer
usavam a proteção necessária para evitar sua própria contaminação ao mexer com
os corpos das vítimas. Diante dos questionamentos apresentados por peritos
internacionais, por que a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW,
pela sigla em inglês) rejeitou a proposta de uma comissão de investigação
independente?
3.
Aceitar
que foi o presidente sírio a usar armas químicas contra a cidade de Khan
Shaykhun, é dizer que os russos, encarregados de eliminá-las durante a gestão
Obama, não trabalharam a contento ou foram coniventes na realização do ataque.
Será que o verdadeiro destinatário do “recado” enviado pelos mísseis
estadunidenses ao invés de Assad não seria o presidente da Rússia, Vladimir
Puttin?
4.
Se
o gás sarin efetivamente foi utilizado e não pertencia nem ao arsenal sírio,
nem ao russo, então, de onde vinha?
No final de abril, algumas redes internacionais de
comunicação resgataram a entrevista com Seymour Hersh, realizada no dia 5 de
fevereiro de 2016, na qual afirmava que Hillary Clinton, quando secretária de
Estado, havia aprovado o envio de gás sarin aos rebeldes sírios e que a
administração Obama procurava acusar Assad de realizar ataques com armas químicas
como desculpa para fortalecer a presença militar dos EUA na Síria. A CIA e o
serviço secreto britânico M16 teriam assumido a missão de transferir estas
armas dos arsenais da Líbia para as mãos dos rebeldes. A denúncia nunca foi
desmentida e, até hoje, tudo aconselha a não esquecê-la, à medida que os fatos
não descartam a possibilidade de uma ação plantada pelas forças que se opõem a
Bashar Assad e contam com o apoio de Washington.
O ataque estadunidense soou como um ultimato para a
Rússia: ou o país se alinha aos Estados Unidos ou aceita as consequências. Esta
atitude tipicamente imperialista elevou a tensão entre as duas potências, à
medida que a presença russa na Síria guarda relação com objetivos bem mais
importantes do que o apoio militar ao seu presidente.
Depois das sanções impostas por Estados Unidos e
União Europeia pela anexação da Crimeia e o conflito na Ucrânia, a Rússia
caminhava para ser uma espécie de Estado-pária da geopolítica mundial. A
intervenção militar na Síria permitiu a Puttin sair desta situação e mostrar-se
como líder que combate o extremismo islâmico e resiste às imposições dos
Estados Unidos. Nesse contexto, a última coisa que Moscou quer ver é a queda do
governo sírio ou que mudanças políticas em seu interior sejam impulsionadas
pelo ocidente, daí as medidas militares adotadas depois do ataque. Além de
continuar fornecendo armamentos, treinamento e assessoria a Bashar Assad e
proporcionar cobertura aérea a partir da base militar síria de Khmeimim,
arrendada por 49 anos, a Rússia deslocou o porta-aviões Kuznetrov (com 51
aviões de combate e equipado com modernos sistemas de foguetes terra-terra,
terra-ar e antissubmarinos) e outros navios de guerra do Mar Cáspio para o
Mediterrâneo, colocando-os entre o território sírio e a esquadra estadunidense
a fim de possibilitar a interceptação de suas ações, além de instalar um dos
mais modernos sistemas de defesa antiaérea cuja raio de ação abrange quase todo
o território de Israel, a faixa do Mediterrâneo até a ilha de Chipre e parte da
Jordânia.
Sob a pressão dos acontecimentos, os Estados Unidos
aceitaram fechar um acordo de cessar-fogo com Rússia e Jordânia numa região de
conflito situada no sudoeste da Síria e assessores de Trump anunciaram a
suspensão do programa secreto da CIA de equipar e treinar grupos rebeldes que
visam desestabilizar Bashar Assad.
Ainda pairam várias dúvidas em relação a este último
aspecto, à medida que algumas semanas depois, Washington anunciou a decisão de
armar a milícia síria curda do YPG para retomar a cidade síria de Raqqa, nas
mãos do Estado Islâmico. Além de levantar suspeitas, esta decisão revoltou o
governo da Turquia, integrante da OTAN, que considera estas milícias como uma
extensão do PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, banido pelo governo
turco por liderar um movimento insurgente que visava criar um estado curdo na
área de fronteira entre Turquia, Irã e Iraque. As tensões cresceram nos últimos
vinte dias com disparos de foguetes e fogo de artilharia entre o exército turco
e os combatentes da YPG nas cidades de Tal Rifaat e Minnigh, que estão nas mãos
da própria YPG e de forças aliadas dos EUA.
A lição deste labirinto pode ser descrita como um
tiro que saiu pela culatra. Ao disparar contra um alvo para se colocar em
evidência, Trump aplanou caminhos para a Rússia emergir como protagonista. Uma
situação que vai se repetir em outros cenários como se evidencia na sequência.
Coreia do Norte: a
porta de acesso ao labirinto da região Ásia-Pacífico
Entre janeiro e julho deste ano, a Coreia do
Norte surpreendeu o mundo ao realizar 14 testes de lançamentos de mísseis e
King Jong-um, líder político do país, não perdeu a chance de ameaçar os EUA com
um ataque devastador, apesar de saber que um único míssil balístico
estadunidense de ogivas múltiplas seria suficiente para aniquilar com sobras as
8 cidades norte-coreanas que, segundo os cálculos militares, têm tamanho
suficiente para comportar a destruição provocada por um artefato nuclear. Sendo
assim, por que esta pequena península compra briga com um país que dispõe de um
arsenal gigantesco? Por que China e Rússia se unem para evitar uma guerra que
não envolve diretamente seus territórios? Que interesses se escondem à sombra
das ações norte-coreanas?
Um pouco de história vai ajudar a desenhar o
ambiente em que se movimenta a conjuntura da região. Em primeiro lugar, o ódio
norte-coreano em relação aos Estados Unidos tem como origem a destruição do
país provocada pela guerra da Coreia de 1950 a 1953. Em três anos de conflito, os EUA
lançaram nada menos do que 635 mil toneladas de bombas, ante 503 mil toneladas
em toda a área do Pacífico durante toda a segunda guerra mundial. A força aérea
estadunidense reconheceu na época que a destruição provocada na Coreia do Norte
foi pior que a do Japão, castigado com duas bombas atômicas. Apelar para esta
realidade que ainda marca a memória coletiva é um passo essencial para que King
Jong-um use a questão militar como forma de controlar as tensões oriundas das
dificuldades econômicas e se manter no poder.
Por outro lado, seria ingênuo imaginar que o
desejo de vingança é suficiente na hora de provocar um gigante que tem tudo
para aniquilar o país sem muito esforço. E não é para menos. O que poucos sabem
é que um acordo militar entre a Coreia do Norte e a China, que expira em 2021,
prevê que, em caso de agressão por um país estrangeiro, Pequim use suas forças
armadas para defender Pyongyang, a capital e maior cidade norte coreana. Um
ataque militar estadunidense contra a Coreia do Norte poderia levar a China a
entrar no conflito, dando à guerra dimensões imprevisíveis. Esta realidade que
assusta todos os atores, Pequim incluído, é a que permite a King King-um
afirmar que continuará a desenvolver o armamento atômico e ampliar os espaços
de negociação diplomática no atual momento crítico a que chegaram as tensões na região.
No que diz respeito, especificamente, ao avanço
nuclear de Pyongyang, vale lembrar que, em 1994, Bill Clinton fez concessões
diplomáticas e econômicas em troca do fechamento da planta nuclear de Yongbyon
e de inspeções permanentes. Se isso não tivesse ocorrido, hoje, a Coreia do
Norte teria mais de uma centena de ogivas nucleares. A
implantação do acordo avançou lentamente, mas os dois países se comprometeram a
evitar relações hostis. A estratégia de Clinton era a de frear o avanço nuclear
norte-coreano enquanto a diplomacia faria avançar a política de boa vizinhança
com a Coreia do Sul através de investimentos, trocas comerciais e facilitações
na passagem de fronteira de ambos os lados. Ainda que com algum
sobressalto produzido pelos temores da China de assistir à unificação das
Coreias, o que elevaria fortemente a influência dos EUA na região, as coisas
caminharam sem grandes problemas.
Tudo mudou em 2002, quando Jorge W. Bush colocou a
Coreia do Norte no “eixo do mal”, junto a Irã e Iraque, e voltou a impor
sanções econômicas. A planta nuclear norte-coreana foi reaberta e, apesar dos
esforços de Pequim de convencer EUA, Rússia, Japão e as duas Coreias a negociar
um novo acordo, os diálogos não avançaram e, em 2007, Pyongyang transformou o
seu programa nuclear em questão inegociável. Isso explica porque a China, que
nunca quis uma Coreia do Norte com armas atômicas, responde às acusações dos
EUA dizendo que não foi Pequim a fazer avançar a pesquisa e a produção nuclear
de Pyongyang.
Trump joga lenha na fogueira ao declarar que todas
as opções estão sobre a mesa, ao elevar o tom das agressões verbais e ao
promover exercícios militares com as forças sul-coreanas que incluem simulações
de lançamento de bombas atômicas. Sabendo que Pyongyang sempre criticou
fortemente esses treinamentos, a provocação que se materializa através deles
pode dificultar ainda mais a complexa tarefa de encontrar saídas diplomáticas para
a crise.
Mas as declarações que focam King Jong-um como o
problema principal ocultam que os Estados Unidos precisam desta postura para
justificar a ampliação de sua presença militar na Coreia do Sul a fim de
dissuadir a China em suas pretensões geopolíticas. Além dos 28.000 militares
que Washington mantém no país, em abril deste ano, o governo Trump forçou Seul
a aceitar a instalação de um novo escudo antimíssil cujo alcance abrange o
vizinho do Norte bem como parte do território da China e da Rússia. Os
militares sul-coreanos sempre se opuseram a esta ideia por entenderem que as
defesas já instaladas eram suficientes para deter os mísseis de Pyongyang e que
o maior problema era a artilharia que o vizinho do norte mantém apontada contra
as cidades de fronteira. Instalar os novos equipamentos estadunidenses seria
uma provocação direta em relação à China, um adversário bem mais perigoso do
que a Coreia do Norte e, ao mesmo tempo, o principal parceiro comercial da
Coreia do Sul.
A resposta de Pequim não se fez esperar.
Buscou o apoio de Moscou para acusar os EUA de alterar o equilíbrio militar da
região e começou a boicotar a Coreia do Sul. O governo chinês impediu que as
agências de viagens locais enviassem grupos de turistas à Coreia do Sul fazendo
com que o número médio de visitantes vindos da China despencasse de 7.500 por
dia para cerca de 1000 e pressionou o setor automobilístico a não comprar
veículos sul-coreanos. Em junho, a sul-coreana Hyundai viu suas vendas
despencarem 64% ao passo que as da KIA Motors caíam 58% sobre o mesmo período
do ano passado. E isso enquanto o mercado de carros chinês crescia 4%.
A ideia de impor à Coreia do Norte sanções
econômicas mais pesadas agrada aos Estados Unidos, mas gera vários efeitos
colaterais indesejados. Vejamos. Moon Jae-in, o recém-eleito presidente da
Coreia do Sul, é partidário do diálogo com os vizinhos do Norte à medida que
uma década de duras sanções econômicas, apoiadas pelo governo anterior, cortou
todos os laços com os norte-coreanos sem impedir os avanços nos programas
bélicos e sem trazer nenhum benefício ao país. Agora, com o crescimento das
tensões com Pequim e Pyongyang, a Coreia do Sul faz coro com a China para
reivindicar a abertura de negociações com a Coreia do Norte.
Apesar de não desejar um país com armas nucleares,
Pequim precisa evitar o colapso do regime norte-coreano por dois motivos: 1. Um
pesado fluxo de migrantes procuraria atravessar as fronteiras com a China
elevando as tensões sociais; 2. No caso de uma guerra que provoque a queda de
King Jong-um, a unificação das duas Coreias criaria um estado poderoso, aliado
do Ocidente. Por isso, o Estado chinês sempre se encarregou de garantir 90% do
abastecimento de petróleo da Coreia do Norte, de comprar, em média, 42% das
suas exportações e vender 57% das mercadorias de que precisa.
Sabendo disso, todos se perguntam até a que ponto a
China vai assumir as sanções econômicas contra a Coreia do Norte, aprovadas
pelo Conselho de Segurança da ONU no último dia 5 de agosto ou se, a depender
do andar da carruagem, irá esvaziá-las por outros meios. O que se sabe até o
momento, é que a China só aprovou as sanções após uma vitória diplomática na
campanha para atenuar a resistência dos países do sudeste asiático às suas reivindicações
marítimas no Mar do Sul levando-os a aceitarem seus pressupostos para futuras
negociações que envolvem as ilhas artificiais que os chineses criaram em águas
internacionais. Os EUA já disseram que irão vigiar o cumprimento das sanções
pela China, mas, todos sabem que não serão elas a impedir que a Coreia receba
fundos em dinheiro e outras formas de ajuda para fazer com que King Jong-um se
mantenha no controle do país.[4]
O labirinto criado por este jogo de interesses,
assim como no que se analisou anteriormente, faz com que a Rússia ganhe
projeção. De um lado, se une à China para dissuadir Trump de responder
militarmente às provocações da Coreia do Norte e aos protestos contra o escudo
antimíssil instalado na Coreia do Sul. De outro, Puttin busca marcar um
encontro oficial com o presidente sul-coreano ao qual oferece sua mediação para
resolver a questão nuclear da Coreia do Norte. Ao mesmo tempo, mantêm seus
vínculos com Pyongyang ao favorecer os setores de transporte marítimo,
ferroviário, de energia, além de repatriar os refugiados norte-coreanos. Este
processo de aproximação não é novo. Em 2014, por
exemplo, Moscou perdoou 90% da dívida de U$ 11 bilhões que a Coreia do Norte
tinha com a Rússia e permitiu que os 10% restantes sejam pagos em 20 anos sem
juros. Em contrapartida, Pyongyang aprovou pela primeira vez que executivos
russos recebam vistos de longo prazo para trabalhar no país. Um ano depois,
Moscou permitiu que cerca de 50.000 trabalhadores norte-coreanos atuassem em
seu território, possibilitando remeter anualmente cerca de U$ 170 milhões ao
país de origem.
Por último, mas não menos importante, o Japão
pretende se aproveitar das tensões criadas por Pyongyang para afrouxar as
limitações constitucionais que restringem o papel das forças armadas à estrita
autodefesa do país. As mudanças desejadas dariam alento à indústria bélica
local que, graças às compras do exército, se tornaria uma força propulsora da
economia japonesa. Por outro lado, a marinha e a
aviação de Tóquio teriam melhores condições de enfrentar as investidas de
Pequim no controle das rotas marítimas do Pacífico e das águas internacionais
que cercam o Japão, onde pode haver importantes jazidas de petróleo e gás. Nos
últimos quatro anos têm ocorrido tensões crescentes entre os dois países pela
disputa das ilhas Senkaku (Diaoyutai, para os chineses) em relação às quais os
EUA já declararam que seu compromisso de assegurar a ampla defesa militar do
Japão inclui esses territórios. Do mesmo modo, os atritos da China com
Estados Unidos, Filipinas, Malásia, Brunei, Vietnã e Indonésia se ampliaram
depois que o país criou cinco ilhas artificiais que, além de transformarem
águas internacionais em mares chineses, estão sendo preparadas para servir de
bases militares, protegidas por restrições à navegação marítima e aérea. O
interesse por este pedaço de mar, disputado com as demais nações do sudeste
asiático, guarda relação com o fato de ser uma área por onde passam rotas
essenciais do comércio mundial, cujo controle é fundamental para os planos de
Pequim.
Japão e EUA afirmam que a China deve se ater às
regras internacionais vigentes, mas para Pequim este apelo não passa de um
disfarce para que Washington mantenha sua hegemonia na região. Obviamente, a
China tem sua própria visão de segurança regional e busca atrair para o seu
campo os países que, de alguma maneira, vão se beneficiar com a sua liderança.
Este parece ser o sentido dos planos conhecidos como Nova Rota da Seda e
Cinturão de Investimentos, lançados em maio passado.[5]
Mas, para eles funcionarem a contento, os mares, o espaço aéreo e as vias
terrestres precisam ter novas regras, ainda que isso aumente o potencial para
uma escalada das tensões entre Pequim, Tóquio e Washington.
O labirinto está formado e sair dele não é tarefa
para amadores ou gestores empresariais metidos a chefes de Estado que, ao
resolver o imediato, costumam hipotecar o futuro.
As
confusões pelas bandas do Qatar
No dia 5 de junho, o mundo recebia perplexo à
notícia de que Arábia Saudita, Bahrein, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iêmen e
Líbia rompiam as relações diplomáticas com o Qatar. Ao acusar o governo de
apoiar o terrorismo, expulsavam seus representantes dos consulados e
embaixadas, fechavam as fronteiras e davam duas semanas para que os cidadãos do
Qatar em seus territórios voltassem à terra natal. Sem mais nem menos, este
país que depende das importações para satisfazer as necessidades básicas de
seus 2 milhões e 700 mil habitantes, via o abastecimento de alimentos cair pela
metade.Entre as principais exigências para restabelecer a normalidade estavam:
1.
Cortar
os vínculos com a Irmandade Muçulmana;
2.
Recusar
a naturalização de cidadãos expulsos pelos seis países e entregar às
autoridades os acusados de terrorismo que estivessem em seu território;
3.
Deixar
de financiar grupos extremistas designados como terroristas pelos Estados
Unidos;
4.
Fechar
a rede de notícias Al Jazeera, bem como os canais Arabi 21 e Midle East Eye;
5.
Manter
relações com o Irã no âmbito determinado pelos Estados Unidos;
6.
Aceitar
avaliações mensais durante o primeiro ano após a volta à normalidade e
submeter-se a um monitoramento anual durante dez anos.
Nos dias seguintes, o boicote recebeu o apoio do
presidente dos EUA e, com ele, se formou mais um labirinto do qual a diplomacia
ainda não conseguiu sair.
Três perguntas orientam o caminho para entender este
acontecimento: Por que o Qatar e não outro país? Qual é o sentido das
principais cobranças? De onde vem o respaldo para humilhá-lo, sabendo que os
promotores do boicote não têm autoridade moral para fazer exigências? As
respostas aparecem quando começamos a analisar os interesses em jogo. Vejamos:
1. A China é, sem dúvida,
um dos alvos. Em 2015, Pequim escolheu Doha, a capital do Qatar, como centro de
distribuição e troca de sua moeda. Atualmente, mais de uma centena de nações
usam o yuan chinês para pagar em todo ou em parte suas transações internacionais, diminuindo assim a
dependência do dólar. Além disso, escolher o Qatar como centro financeiro
permite usar o yuan na compra de gás, uma questão importante sabendo que o país
é o segundo maior fornecedor deste suprimento e satisfaz 20% do total das
necessidades chinesas de energia. Atingir o Qatar, portanto, é sinônimo de
criar dificuldades para a China.
2. A relação com a Rússia
como fator incômodo. À medida que o Qatar vinha percebendo que Moscou não
permitiria a passagem do seu gasoduto pela Síria, rumo à Europa, optou por se
aproximar do país pelo caminho dos investimentos. Em 2016, o seu governo gastou
U$ 2,7 bilhões na compra de uma fatia da estatal petrolífera russa Rosnet Oil. A aproximação com a Rússia,
forte aliada do Irã e da Síria, incomodou a Arábia Saudita por marcar mais um
passo do afastamento do Qatar em relação à sua política regional.[6]
Nas duas últimas décadas, os interesses de Doha predominaram em relação aos
acordos conseguidos no interior do Conselho de Cooperação do Golfo, liderado
pelo Kuwait. Isso ocorreu em relação ao Irã, a Israel e durante a “Primavera
Árabe” quando o Qatar apoiou grupos diferentes dos que eram preferidos pelos
demais países da região.[7]
Quanto às
condições para voltar à normalidade, alguns fatos chamam a atenção:
1. A justificativa para acusar o
Qatar de apoiar grupos terroristas teria como base suas relações com a
Irmandade Muçulmana e com Hamás que governa a Faixa de Gaza. Este apoio cria
dois problemas à Arábia Saudita: 1. Coloca Doha do lado oposto ao dos EUA, que
consideram Hamas uma organização terrorista, e ao das demais monarquias do
Golfo que preferem tratar com seu rival Fatah para representar os palestinos.
Por outro lado, os sauditas consideram a Irmandade Muçulmana como o seu
principal rival na batalha pela liderança dos muçulmanos no mundo. Mas, ao
falar deste grupo, assim como da Al Qaeda e do Estado Islâmico, a própria
Arábia Saudita se destaca como promotora ativa do wahabismo, uma interpretação
radical do islã que inspirou esses e outros grupos extremistas.
Além disso, altos funcionários do governo saudita
admitiram em várias ocasiões que o reino financiou o extremismo islâmico nas
décadas de 1960 e 1980, ao apoiar a Al Qaeda no Afeganistão contra a ocupação
soviética. Em 2016, o país reconheceu que o seu sistema financeiro havia sido
utilizado para transferir recursos para a Al Qaeda, o Estado Islâmico e outras
facções extremistas. O corte dos financiamentos diretos teria levado estas
organizações a realizarem ataques terroristas no interior do país. Neste
sentido, acusar o Qatar de apoiar o terrorismo pode ser também uma forma de
desviar as atenções que estão sobre a Arábia Saudita e dificultam sua tentativa
de assumir a liderança em questões de segurança regional.
2. A rede de televisão Al
Jazeera tem programas em inglês e em árabe e é um dos canais de maior
audiência, o que faz dela uma referência de comunicação não controlada pelas grandes
redes ocidentais. Sua linha jornalística deu voz aos dissidentes de muitos
governos autoritários da região e foi apontada como uma das forças motrizes da
Primavera Árabe. Por esta razão, a emissora vem sendo acusada de realizar uma
cobertura tendenciosa das questões do Oriente Médio, de acirrar as disputas
internas e de proporcionar aos movimentos islâmicos radicais uma sólida
plataforma para veicular suas ideias.
3.
A
relação do Qatar com o Irã. Para entender o jogo de alianças e controvérsias
entre os dois países, devemos explicar rapidamente alguns fatores religiosos
que influem na organização dos Estados e estão atrelados a interesses
econômicos e geopolíticos bem precisos.
A população iraniana é majoritariamente xiita, ou
seja, pertence a um braço do islã criado após o assassinato do Califa Ali Abu
Talib, genro de Maomé, em 661. A hierarquia dos clérigos deste grupo pratica
uma interpretação independente e constantemente atualizada dos textos islâmicos
e está acima do governo eleito. Em que pesem suas divisões internas, os xiitas,
que representam cerca de 10% dos muçulmanos do mundo, são majoritários em Irã,
Iraque, Bahrein e Azerbaijão. Mas encontramos grandes comunidades deles em
Afeganistão, Índia, Kuwait, Líbano, Paquistão, Iêmen, Qatar, Síria, Turquia,
Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Em geral, nos países governados pelos
sunitas, os xiitas representam os setores menos favorecidos da população e veem
sua condição social sendo deteriorada pela discriminação de que são vítimas.
O braço sunita do islã se considera o setor ortodoxo
e tradicionalista da religião. Seus grupos reúnem 90% dos muçulmanos esparsos
pelo mundo e algumas doutrinas extremistas que se desenvolveram em seu interior
defendem o ódio aos xiitas e atacam com frequência seus fiéis e lugares de
culto. Líderes religiosos e professores sunitas atuam sob o controle direto do
Estado e, obviamente, dos governos que neles atuam. Neste contexto, as
reivindicações vindas de grupos xiitas são recebidas quase sempre como um
desafio aos regimes conservadores de plantão, sobretudo nos países do Golfo
Pérsico.
A população do Qatar é majoritariamente sunita e
convive com uma grande comunidade xiita. Mas, à diferença das demais nações do
Golfo, o governo não aceita que seja a Arábia Saudita a assumir a liderança dos
muçulmanos da região e a definir a política de relações exteriores. De fato, os
interesses econômicos que movimentam a economia do Qatar não dependem
estritamente dos EUA e têm como parceiros de primeira ordem a China, a Rússia e
o próprio Irã.
A rivalidade entre sunitas e xiitas é um elemento
fundamental para entender parte do jogo de forças que marca presença na guerra
civil da Síria. Iniciada no âmbito da Primavera Árabe, a revolta contra o
presidente Bashar Assad transformou o país num dos principais palcos das
rivalidades entre os dois braços do islã. Para a Arábia Saudita e o Qatar, a
Síria, país de maioria sunita, não pode continuar sendo governado por Assad, um
xiita da seita alauita, cuja política não cede às exigências dos países do
Golfo Pérsico. Mas, para o Irã, aliado de velha data do regime sírio, manter
Bashar Assad no poder é uma medida essencial para afastar as aspirações dos
dois países. Além disso, a Síria é o ponto de passagem de dois projetos de
gasodutos que deveriam sair, respectivamente do Qatar e do Irã rumo à Europa.
Para Teerã, garantir Assad no poder é assegurar o seu apoio e o patrocínio da
Rússia, que detém cerca de 40% dos investimentos na extração de hidrocarbonetos
em seu território, ao projeto do gasoduto iraniano.
Por outro lado, sabendo da fragilidade de sua
posição e da necessidade de ganhar espaço na geopolítica regional, o Qatar se
afasta tanto da Arábia Saudita, como do presidente dos EUA no que diz respeito
às sanções econômicas impostas ao Irã em função do seu programa de mísseis
balísticos. E não é para menos. Além de parceiro nos investimentos destinados à
extração de gás, Doha busca em Teerã um vizinho que deve favores e não um
adversário cujo apoio aos grupos xiitas pode criar tensões sociais em seu
território.
4.
Outro problema está no campo da cooperação militar entre Doha e
Washington. No final de maio, o Congresso estadunidense aprovou a venda de 36
aviões de combate F-15 à força aérea do Qatar, no valor de U$ 12 bilhões, e, há
anos, o país abriga a maior base militar estadunidense no Oriente Médio, em Al
Udeid, de onde partiram vários ataques aéreos dos EUA rumo ao Afeganistão e ao
Iraque e, mais recentemente, contra o Estado Islâmico e as posições de Bashar Assad na
Síria. De modo que o apoio dos EUA às sanções contra o Qatar cria problemas
bastante complexos para Trump administrar.
Diante deste cenário, seria ingênuo pensar que os
países promotores do boicote estivessem agindo sem um respaldo internacional
capaz de dar consistência à sua posição. De um lado, o envolvimento saudita na
luta do Iêmen contra os rebeldes Houthis considerados uma ameaça para a
monarquia saudita, mostra a disposição de Riade em assumir a liderança regional
em matéria de segurança.[8]
De outro, a assinatura de 34 acordos comerciais nas áreas de defesa, petróleo e
transporte aéreo, por um valor total de U$ 380 bilhões durante a visita de
Trump ao país, em maio deste ano, foi interpretada como um apoio às aspirações
de Riade. Além dos compromissos sauditas de investir nos EUA, os U$ 110 bi em
vendas de armas ao país constituem a maior possibilidade de compra que os
sauditas já tiveram, com a agravante de que o presidente dos EUA se mostrou
disposto a fornecer equipamentos bélicos mais avançados que não estavam
disponíveis para venda na administração Obama.
Além disso, alguns analistas explicam o apoio
estadunidense ao boicote como uma forma de agradar os sauditas que, durante a
campanha eleitoral de Trump, foram apontados como financiadores dos ataques ao
World Trade Center. A monarquia local optou por passar por cima do ocorrido em
função de o novo presidente considerar que o Irã, inimigo jurado da Arábia,
ainda é uma ameaça importante para a segurança do Oriente Médio e agir no
sentido de dificultar o desenvolvimento econômico de Teerã.
Há também quem aponta o apoio a Riade como uma forma
de vingança pessoal do presidente dos EUA contra o Qatar pela sucessiva
frustração de alguns negócios de sua família. Em 2014 e dois anos mais tarde,
Donald Trump e a filha Ivanka buscaram financiamentos junto aos funcionários
dos escalões do governo encarregados de administrar os investimentos do país.
As negociações duraram meses sem chegar a nenhum dos objetivos almejados pelo
atual presidente dos EUA.
Tudo isso criou um forte mal-estar em Doha, à medida
que o governo se sentiu traído pelos EUA após duas décadas de colaboração
militar. Até o momento em que escrevemos, o secretário de Estado, Rex
Tillerson, havia conseguido botar panos quentes, mas não resolver o impasse
criado pela rejeição da Arábia Saudita em recuar de seus propósitos de mãos vazias.
O máximo que suas gestões vinham conseguindo era a redução das exigências para
o fim do boicote a alguns princípios gerais tidos como inegociáveis por seus
promotores: 1. Combater o terrorismo e o extremismo; 2. Negar financiamento e
proteção a grupos terroristas; 3. Frear a incitação ao ódio e à violência; 4.
Não interferir nos assuntos internos de outros países.
Além do esforço diplomático estadunidense, o recuo
ocorreu porque o feitiço se virou contra o feiticeiro. Contando com U$ 53
bilhões obtidos com as exportações de gás, o Qatar não teve dificuldades em
encontrar quem suprisse o desabastecimento provocado pelo boicote, além das
doações que vieram de vários países. Vejamos alguns exemplos:
1. O principado de Omã enviou navios
carregados de alimentos;
2. O Marrocos fez a mesma coisa e
atuou sutilmente para neutralizar as manifestações de protesto que se
desenvolviam em seu interior;
3. A Turquia que, a partir deste
ano, conta com uma base militar no Qatar, triplicou suas exportações para o
país;
4. O Irã chegou a enviar diariamente
1.100 toneladas de frutas e verduras, e abriu seu espaço aéreo à Qatar Airways,
impedida de voar nos céus dos países que aderiam às sanções;
5. A Rússia expressou imediatamente
o seu apoio a Doha, ofereceu-se como mediadora da crise e, sem citar a Arábia
Saudita, advertiu seus governantes a não intervir militarmente no país.O que se
anunciava como um grande feito se transformou numa bravata que aumenta os
problemas da política externa estadunidense.
A Europa repensa suas
relações.
As sanções recém-aprovadas pelo Congresso dos EUA
punem a Rússia e o Irã. A primeira por retaliar a presença diplomática
estadunidense no seu território e manter a sua posição em relação à Ucrânia e à
Crimeia. E o Irã por apoiar grupos que Washington considera terroristas, como o
Hezbolá libanês, e pelos testes com mísseis balísticos, apesar de cumprir o
acordo nuclear assinado na era Obama.[9]
Porém, ao que tudo indica, estas se parecem mais com desculpas plausíveis do
que com as disputas que emergem das relações internacionais. Três elementos
apontam nesta direção:
1.
O
fortalecimento das relações de Teerã com a China
que ampliou a demanda de hidrocarbonetos e os investimentos de Pequim no país.
2.
O
acordo assinado entre Irã e Iraque em meados de julho, pelo qual os dois países
se comprometem a intensificar a cooperação militar e a luta contra o
terrorismo, a realizar treinamentos conjuntos nas áreas de fronteira e a
viabilizar formas de apoio técnico, logístico e educacional. Os compromissos
assinados entre os dois países suscitaram preocupações em Washington que não vê
com bons olhos a crescente influência iraniana no Iraque (de maioria xiita), na
Síria e no Iêmen.
3.
Ao
proibir a cooperação com o Irã, os EUA fariam naufragar os esforços de empresas
e bancos europeus de investirem no país. Além de França e Rússia que,
historicamente, detêm a maior parte dos investimentos no setor petrolífero
local, outras nações europeias vinham fazendo gestões para participar deles.
Esta posição se fortaleceu depois da vitória eleitoral de Hassan Rouhani, de
linha moderada e favorável ao diálogo com o Ocidente, que acaba de ser
empossado em seu segundo mandato.
No caso da Rússia, se for realmente comprovado o seu
envolvimento na eleição de Donald Trump, devemos reconhecer que a estratégia de
Moscou vem produzindo resultados que tiram o país do isolamento em que havia
mergulhado, além de fazer com que Putin assista de camarote aos atritos que as
posições de Trump provocam entre os aliados dos Estados Unidos.
O primeiro sinal pelo qual este processo ia ganhar
corpo foi dado, no final de maio, pela chanceler alemã, Ângela Merkel, após a
visita de Trump à Europa. Numa declaração que correu o mundo, a representante
do Executivo dizia: “Os tempos em que podíamos contar plenamente com os outros,
até certo ponto, acabaram. “(...) nós, europeus,
precisamos tomar nosso destino em nossas mãos, em amizade com os EUA, é claro,
em amizade com o Reino Unido, com outros vizinhos sempre que possível e também
com a Rússia. Mas temos que estar cientes de que temos que lutar pelo nosso
futuro nós mesmos, como europeus, pelo nosso destino”.
De lá para cá, as sanções contra Moscou, aprovadas
pelo Congresso estadunidense, levaram este processo a dar novos passos. Ao
impor ulteriores restrições a pessoas e empresas russas, as medidas punem
algumas companhias que participam da construção do gasoduto que sai da Rússia,
atravessa o Mar Báltico e entra na Europa pela Alemanha. Uma vez terminada a
obra, o novo gasoduto será o principal alimentador desta fonte de energia para
toda a Europa Ocidental, substituindo em parte a rede que hoje passa pela
Ucrânia. Alemanha e Áustria criticaram imediatamente as sanções como uma
interferência estadunidense no mercado europeu de energia, à medida que, sem o
gás russo, as exportações norte-americanas deste suprimento para o velho
continente seriam fortemente beneficiadas.
Por outro lado, no final de julho, Alemanha, França,
Rússia e Ucrânia retomaram as negociações para pôr fim ao conflito no sudeste
da Ucrânia que já matou cerca de 10 mil pessoas. A ideia é a de avançar com
pequenos passos a fim de traçar uma espécie de Mapa do Caminho que servirá de
base para uma cúpula de chefes de Estado a ser realizada na Alemanha.
No que diz respeito à Coreia do Norte, no dia 11 de
agosto a chanceler alemã deixou claro que não havia solução militar para a
questão da Coreia do Norte e que “uma escalada da retórica seria uma resposta
errada”, postura que era seguida por outros líderes europeus em aberta oposição
ao presidente dos EUA.
Diante do cenário que esboçamos, algumas perguntas
permanecem sem respostas:
1. As mudanças de posição que marcam
as intervenções de Trump são as expressões de uma incoerência que permite aos
Estados Unidos calibrar a fórmula que melhor promove os interesses do país no
âmbito da geopolítica mundial?
2. São peças de uma estratégia que busca
ganhar respeito com base no medo?
3. Integram uma visão consistente e
de longo prazo ou são expressões pontuais vinculadas à manutenção da
popularidade do presidente?
A pose de dono do mundo pela qual “ou os países se
adaptam ao que queremos ou interviremos para criar a realidade que nos convém”
não é nova entre os mandatários dos Estados Unidos. A novidade é que ela
introduz a possibilidade de lançar mãos de meios militares que, até a
administração anterior, serviam apenas para efeito de dissuasão e não contavam
com uma chance de utilização efetiva. Esta postura é ainda mais perigosa diante
da tortuosa recuperação da economia mundial, apesar dos juros negativos
praticados nas principais economias. A redução do ritmo da China (que
representa 33% do crescimento do PIB mundial) somada à escassez de demanda e de
oportunidades lucrativas de investimento faz com que a perspectiva predominante
de 2018 em diante seja a de um período de estagnação econômica, cujas tensões
podem transformar a guerra num elemento a serviço dos interesses de vários
países.
As incertezas aumentam. A classe trabalhadora,
infelizmente, continua apoiando posições de uma direita cujas propostas parecem
responder aos seus maiores motivos de insegurança.
Neste cenário confuso e turbulento, não tirar os
olhos da conjuntura deixa de ser uma recomendação para se tornar uma
necessidade imperiosa.
Brasil. 20 de agosto de
2017.
[1] Emilo Gennari é Educador Popular desde o
início dos anos 1980. Foi membro da Equipe de Formação do NEP 13 de maio por mais de 20 anos e atuou por mais
de uma década no FNM 13 de Maio. É autor de vários livros sobre as lutas dos trabalhadores e suas
questões mais candentes de saúde, reivindicações e do Povo Brasileiro,
Palestino, Mexicano, entre tantos, bem como, de centenas de artigos sobre
conjuntura e organização dos trabalhadores, muitos dos quais você encontra em
nosso blog ou por meio do próprio autor (E-mail: epcursos@gmail.com )
[2] Basta pensar que uma
usina termoelétrica de alta eficiência movida a gás gera, proporcionalmente, a
mesma quantidade de energia que a usina movida a carvão, também de alta
eficiência, emitindo pouco menos da metade de dióxido de carbono.
[3] Os dados foram
publicados numa matéria de Laura Tyson, ex-presidente do Conselho de Assessores
econômicos do presidente dos EUA e professora da HAAS School of Business da
Universidade de Berkley, na Califórnia, publicada pelo jornal Valor Econômico,
em 10/06/2017.
[4] A
resolução do Conselho de Segurança da ONU proíbe as exportações de carvão,
ferro, minério de ferro, chumbo e frutos do mar da Coreia do Norte a fim de
reduzir a um terço a receita anuam de U$ 3 bi obtidos com as exportações. O
projeto também congela ativos do principal banco de câmbio norte-coreano,
proíbe investimentos em novas parcerias empresariais e nas que já existem.
[5] O Cinturão de Investimentos e a Nova Rota da Seda envolvem projetos
de infraestrutura marítima e terrestre dos quais participarão 68 países de três
continentes (África, Ásia e Europa) com um volume de recursos estimados em U$
900 bilhões. A China terá o papel de principal investidor, construtor e
fornecedor das tecnologias a serem empregadas neste esforço de criar corredores
econômicos nas que foram as antigas rotas comerciais. O projeto mais ambicioso
é, sem dúvida, o que envolve a construção de uma ferrovia que liga a China com
a cidade de Madri, na Espanha, cujo custo é estimado em U$ 242 bi.
[6] O processo que permitiu
ao Qatar ir se afastando da política saudita iniciou em 1995, quando o país
começou a explorar com o Irã o campo North Field, uma das maiores jazidas de
gás natural em mar aberto do mundo. O volume de recursos oriundo da venda deste
hidrocarboneto permitiu ao Qatar ter uma das maiores rendas per capita do
planeta e assegurar a seus governantes uma crescente margem de manobra na
condução das relações exteriores.
[7] A “Primavera Árabe”
designa a onda de protestos, manifestações, greve e enfrentamentos que, em
graus e ritmos diferentes, ocorreram no Oriente Médio e norte da África entre
dezembro de 2010 e junho de 2012. Sob o peso do desemprego, do elevado custo
dos alimentos, dos baixos salários, da falta de democracia e das precárias
condições de vida, em 18 de dezembro de 2010, a população da Tunísia iniciava
as mobilizações que, no mês seguinte, levariam à deposição do seu chefe de
Estado, Zine El Abine Ben Ali. Em seguida, os protestos atingiriam Egito,
Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Omã, Iêmen, Kuwait, Líbano,
Mauritânia, Marrocos, Sudão, Arábia Saudita e desatariam guerras civis na Líbia
e na Síria. Enquanto a Arábia Saudita mantinha uma postura que, com algumas
nuances, defendia o status quo e buscava manter os protestos longe do Golfo
Pérsico, o Qatar sustentava financeiramente forças islâmicas de oposição em
vários países, como é caso da Irmandade Muçulmana no Egito, na esperança de que
os futuros governantes se tornassem parceiros comerciais melhores e com
ideologias mais alinhadas às da sua casa reinante.
[8] As tensões no Iêmen se
acirraram em 2011, durante a Primavera Árabe, quando os Houthis, um movimento
político-religioso xiita apoiado pelo Irã, aproveitaram de um vácuo de poder
para ampliar o controle do território em algumas regiões do país e passaram a
reivindicar uma maior participação no governo.
[9] Assinado
em 2015, além do Irã, o acordo teve como países signatários: EUA, França, Reino
Unido, Alemanha, Rússia e China. À medida que o país comprovava, através de
fiscalizações internacionais, que estava mantendo seu programa nuclear apenas para
usos civis, haveria uma progressiva redução das sanções internacionais. Isso
permitiu restabelecer as vendas de petróleo e gás nos patamares anteriores à
aplicação das primeiras sanções e elevar os investimentos.
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