Atacar o Irã com as forças armadas dos EUA era o desejo do governo de Israel desde que Teerã se tornou o polo irradiador dos recursos para a resistência armada dos grupos palestinos e do Hezbollah no sul do Líbano. Eliminar quem sustentava estes obstáculos ao projeto de expansão territorial de Tel Aviv era o objetivo em volta do qual os governos de plantão vinham trabalhando incansavelmente.[1]
Em diferentes momentos conjunturais e com base em supostas ameaças à existência de país, Israel apresentou a ideia de bombardear o Irã a Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama e Joe Biden. Todos eles rejeitaram os argumentos apresentados e escolheram o caminho da diplomacia e das sanções econômicas para frear os planos de Teerã.[2]
Donald Trump foi o único que aceitou atacar o território iraniano e fez isso em duas ocasiões. A primeira, em junho de 2025, contra o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. A segunda, iniciada em 28 de fevereiro deste ano, aproveitaria da aparente fragilidade de Teerã após os protestos da primeira quinzena de janeiro para empossar uma oposição dócil às demandas de Israel e dos EUA.[3] Nenhuma das duas investidas atingiu os objetivos previstos.
No lugar do sucesso que fortaleceria sua imagem diante dos eleitores, Trump viu aumentar seus índices de desaprovação, criou atritos no setor mais conservador do Partido Republicano e já não sabe ao que apelar para mostrar que os Estados Unidos ganharam a guerra. Em Israel, o cálculo pelo qual a esperada vitória somaria apoios à coalizão de governo nas eleições do próximo mês de outubro se transformou na desconfiança de que os prejuízos amargados podem levar a um resultado desfavorável.
Na incerteza diante dos desdobramentos do conflito, as nossas reflexões buscam entender aquilo que, popularmente, é chamado de “o tamanho da encrenca”. Faremos isso resgatando o verdadeiro problema do acordo nuclear assinado pelo Presidente dos EUA, Barack Obama; passaremos a uma análise das armas utilizadas pelo Irã; ponderaremos as contradições e perplexidades nas quais mergulharam os países do Golfo e o papel do Eixo da Resistência nesta conjuntura; listaremos os efeitos colaterais indesejados da agressão militar; e buscaremos entender por que Estados Unidos e Israel não esperam que um acordo de cessar-fogo imediato traga uma saída vantajosa para a guerra que iniciaram.
1. O acordo nuclear de Obama e os interesses de Israel.
Reunidos em Viena, capital da Áustria, os representantes de Estados Unidos, China, Rússia, Irã, Reino Unido, França e Alemanha, saudavam o 14 de julho de 2015 como um dia histórico. Após 23 meses de negociações, as restrições ao enriquecimento de urânio do Irã e a certeza de que o país não teria condições de construir uma bomba atômica eram garantidas por um processo permanente de inspeção das instalações nucleares pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Em troca, as sanções impostas ao país começariam a ser levantadas a partir de 2016, sendo que o embargo à comercialização de armas seria estendido por mais cinco anos e as sanções relativas à fabricação de mísseis permaneceriam até 2023. As proibições referentes à aviação do país, ao Exército, ao Banco Central e a algumas empresas estatais do Irã seriam canceladas somente após 30 anos de vigência do acordo, enquanto a liberação do dinheiro oriundo da venda do petróleo, e guardado nos bancos estrangeiros, seria iniciada após a AIEA confirmar que Teerã estava respeitando o que havia pactuado em Viena.
As reações positivas percorreram o mundo apontando o acordo como um avanço histórico destinado a fortalecer a segurança internacional. O próprio Presidente dos EUA, Barack Obama, apresentava o resultado das negociações dizendo com todas as letras: “Todos os caminhos em direção a uma arma nuclear estão cortados”.
Israel foi a única voz destoante. O país que, desde 1969, foi dispensado pelo governo dos EUA da obrigação de integrar o Programa de Não-Proliferação de Armas Nucleares[4] e que, em 2015, contava com 80 ogivas nucleares, criticou duramente o acordo.[5] Para a vice-ministra de Relações Exteriores, Tzipi Hotovely, o pacto era "uma capitulação de proporções históricas perante o eixo do mal dirigido pelo Irã".
Para Benjamin Netanyahu, graças aos compromissos assinados na Áustria, o Irã teria caminho livre para desenvolver armas nucleares. No mesmo comunicado, o Primeiro-Ministro de Israel deixava claras as razões de sua oposição: "Fizeram grandes concessões em todos os temas que deviam impedir que o Irã conseguisse armas nucleares. Adicionalmente, o Irã receberá bilhões de dólares para alimentar sua máquina terrorista e sua agressividade e expansão pelo Oriente Médio".[6]
Trocado em miúdos, a maior preocupação de Israel deitava raízes no fato de que, com a liberação dos ativos retidos nos bancos internacionais e a progressiva eliminação das sanções sobre a venda de petróleo, Teerã iria dispor de bem mais recursos para ampliar o armamento convencional do país, para sustentar os grupos da resistência e para alimentar a oposição no interior dos países árabes.
Apesar de, na época, o Irã ter atingido um grau de enriquecimento do urânio não superior a 20,0% (cerca de um quinto do necessário para produzir uma bomba atômica) e das garantias pelas quais seria vetado um aumento desta porcentagem, a retórica do perigo nuclear iraniano guardava uma relação direta com um aspecto fundamental da estratégia de Tel Aviv: a necessidade de usar o tema mais sensível à opinião pública estadunidense e europeia para viabilizar os interesses do Israel.
Passados menos de três anos da vigência do acordo, Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do grupo de países signatários. Sem apresentar nenhuma prova, em 8 de maio de 2018, o Presidente dos EUA acusou Teerã de estar a uma passo de adquirir “as armas mais perigosas do mundo” e de ser o “principal patrocinador do terrorismo”. Ao restabelecer duras sanções comerciais, Washington afirmava que o acordo havia conseguido limitar as atividades nucleares do Irã somente por um breve período de tempo e que a liberação dos cerca de 100 bilhões de dólares presos nos bancos internacionais havia sido usada como “um fundo para armas, terror e opressão” no Oriente Médio. Em seguida, entre as “falhas desastrosas” a serem corrigidas, a fala presidencial apontava a ausência de restrições à produção e ao desenvolvimento de mísseis iranianos de longo alcance.
Retórica à parte, as sugestões de Trump para um novo acordo nuclear não apresentavam diferenças substanciais em relação às que constavam do que havia sido assinado por Obama. Se isso não bastasse, a AIEA afirmava com todas as letras que, nas 11 inspeções realizadas a partir de 2016, encontrou sinais claros de que o Irã estava cumprindo rigorosamente os termos do acordo e que a fiscalização das instalações havia ocorrido sem nenhum tipo de resistência por parte das autoridades.[7]
Diante do fato consumado, Teerã afirmava sua disposição a continuar respeitando o acordo se os seus interesses fossem garantidos. O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, pedia que os demais países cumprissem o acordado. O Presidente da França, Emmanuel Macron, lamentou a decisão dos EUA, mas, na mesma mensagem, fazia coro à postura de Trump ao afirmar que França, Alemanha e Reino Unido trabalhariam “coletivamente em uma estrutura mais ampla, abrangendo a atividade nuclear, a atividade balística e a estabilidade no Oriente Médio". A Rússia manifestou abertamente sua decepção e qualificou a decisão de Trump de uma violação à legislação internacional. A China pediu a manutenção do acordo e lamentou a decisão dos EUA. A Arábia Saudita alimentou a grita contra a produção de mísseis iranianos e o fortalecimento dos grupos da resistência como atividades que desestabilizavam o Oriente Médio. Israel aplaudiu de pé a decisão de Donald Trump.[8]
Sem a manutenção internacional dos direitos garantidos pelo acordo de Viena, o Irã voltou a enriquecer urânio bem acima do necessário para a utilização civil e sem qualquer fiscalização. A saída do acordo pelos EUA criou uma situação bem mais perigosa e complexa em relação à que estava presente durante as negociações que levaram ao pacto de 2015. Mas, longe de ser um problema, o agravamento desta situação desenhava o cenário no qual a guerra contra o Irã seria, de fato, o único caminho possível para matar vários coelhos com uma pancada só: destruir o programa nuclear e os estoques de mísseis, mudar o regime e cortar os recursos da resistência em outros países. Marcar a data dos bombardeios era apenas uma questão de tempo.
O sinal de que, em fevereiro de 2026, estava tudo pronto para o segundo ataque contra o Irã mescla dois elementos que falam por si só. O primeiro deles é que, no último encontro antes do início da agressão militar, os negociadores iranianos haviam feito concessões sem precedentes. Teerã se comprometeu a não acumular nenhuma quantidade de urânio enriquecido, a limitar o enriquecimento a 3,67%, a diluir o máximo possível o material com um enriquecimento de 60% e a permitir uma verificação abrangente da AIEA. Enquanto o otimismo em relação à possibilidade de um acordo estava no rosto dos negociadores, no dia 22 de fevereiro, o enviado do Presidente dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff, anunciava que o Irã poderia estar a uma semana de produzir material para a fabricação industrial de bombas nucleares, informação que só no dia 3 de março foi desmentida pelo chefe da AIEA, Rafael Grossi.[9]
Um sinal claro de que Teerã não estava escondendo o jogo veio em meados de março. Ao entregar seu pedido de demissão, o diretor do Centro Nacional de Antiterrorismo dos EUA, Joe Kent, afirmava que “o Irã não representava nenhuma ameaça iminente”. Em outro trecho, acrescentava: “É evidente que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby americano. Altos funcionários israelenses e membros influentes da mídia americana lançaram uma campanha de desinformação que minou completamente sua plataforma 'América Primeiro' e semeou sentimentos pró-guerra”. Ao descrever a justificativa para a guerra, o ex-diretor é de uma clareza insofismável: “Isso foi uma mentira e é a mesma tática que os israelenses usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque”.[10]
Mas, como em todos os conflitos, nem sempre a superioridade dos armamentos constatada nos planos de guerra proporciona a vitória almejada. Tudo depende de como o inimigo vai se defender.
2. As armas do Irã.
A resposta do Irã à agressão militar de Israel e dos Estados Unidos seguiu uma estratégia inesperada: fazer com que a guerra se tornasse insustentavelmente cara para os adversários. Para realizar esta façanha, o país se valeu, fundamentalmente de três armas: os drones Shahed, as lanchas rápidas com as quais patrulhou o estreito de Ormuz e o impacto do fechamento seletivo deste centro nevrálgico da economia mundial nos preços dos hidrocarbonetos.
Apelidados nos meios militares de “AK47 dos céus” em referência ao fuzil de assalto letal e confiável da era soviética, os drones da série Shahed são baratos, de fácil produção e têm um alcance de até 2.000 km. Vejamos o que isso significa em termos práticos. Em relação aos custos, por exemplo, o fato de muitas de suas peças serem produzidas com uma impressora 3D, faz com que cada um destes equipamentos custe entre 20 mil e 50 mil dólares, a depender das caraterísticas do modelo. Por sua vez, o míssil de defesa aérea mais barato utilizado para intercepta-lo custa um milhão e 300 mil dólares. Concretamente, o Irã consegue construir 26 drones da versão mais incrementada do Shahed com o valor que os inimigos gastam em um artefato para derrubá-lo. Quando lembramos que, nas duas primeiras semanas do conflito Teerã lançou mais de mil drones, não é difícil calcular quanto custou interceptá-los.
Mas isso não é tudo. O fato de as coordenadas do alvo e o trajeto rumo ao destino serem inseridos no aparelho antes do seu lançamento (ações que podem ocorrer num espaço extremamente reduzido) dispensa a necessidade de ter equipamentos e pessoal na supervisão da rota e faz com que as interferências eletrônicas externas para desviá-lo sejam inofensivas. A possibilidade de lançar quase simultaneamente um verdadeiro enxame de drones, de um lado, amplia as chances de atingir os alvos pré-determinados e, de outro, sobrecarrega as defesas aéreas inimigas melhorando a possibilidade de os mísseis com maior poder de destruição não serem interceptados.
Sabendo que a produção média diária destes drones gira em torno das 400 unidades não é de estranhar que, apesar de sua ampla utilização nos ataques à esquadra estadunidense, aos países do Golfo Pérsico e ao território israelense, o estoque de Shahed pareça inesgotável. Ainda que seja impossível ganhar a guerra usando exclusivamente esse equipamento, o desgaste imposto aos recursos do inimigo fez com que, por exemplo, Israel se visse obrigado a racionar o uso de seus interceptores em função da escassez com a qual se deparou.[11]
Armadas, rápidas e de custos operacionais reduzidos, as lanchas ampliavam as ações destinadas a garantir o bloqueio do Estreito de Ormuz aos navios que pertenciam a países inimigos do Irã ou aos aliados destes.[12] Ao coordenar suas intervenções com o lançamento de drones e com o fogo de artilharia, Teerã manteve sob controle a esquadra da marinha de guerra estadunidense posicionada no Golfo de Omã, atingiu os petroleiros que tentaram forçar o bloqueio e introduziu regras de acesso aos portos do Golfo Pérsico.
Último, mas certamente, mais importante, a República Islâmica usou o impacto das hostilidades na economia mundial como arma de guerra. Além de fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo consumido pelo mundo, drones e mísseis iranianos atingiram instalações de petróleo e gás no Qatar, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, o que fez os preços dos hidrocarbonetos dispararem.
A elevação média de 35,0% nos valores dos postos de combustíveis ao longo do mês de março,[13] fez com que a aprovação de Trump caísse de 42,0% para 36,0% dos entrevistados nas pesquisas que, por sua vez, sinalizavam um forte aumento da rejeição à guerra devido à alta do custo de vida por ela produzido nos EUA.[14] Sob o impacto deste recado dos eleitores, o Presidente dos EUA suspendeu temporariamente as sanções impostas ao petróleo do Irã e da Rússia na tentativa de conter os preços do barril de petróleo.[15]
A medida deixou Teerã, Moscou e Pequim com um sorriso de orelha a orelha. O Irã, que já contava com uma receita engordada com a elevação de mais de 50,0% no preço do barril de petróleo, viu a possibilidade de aumentar ainda mais as vendas que, até meados de março, superavam em 100 mil barris diários a média dos 2 milhões de barris embarcados no período anterior à guerra.[16]
Putin, mal acreditou no que estava vendo. As sanções contra os hidrocarbonetos da Rússia que visavam cortar os recursos para sustentar a guerra na Ucrânia eram fortemente reduzidas num cenário em que a alta do preço do gás e do petróleo havia aumentado as receitas do país em cerca de 6 bilhões e 800 milhões de dólares até o dia 12 de março. Agora, com uma simples canetada, Trump havia aumentando em mais de 5 bilhões de dólares os ganhos esperados até o final de março com a alta do barril de petróleo.[17]
A China, que recebeu regularmente as encomendas dos hidrocarbonetos iranianos até meados de abril e tem reservas que permitem suportar o desabastecimento total destes produtos por 4 meses, agradeceu silenciosamente Donald Trump por conter os gastos com esta fonte de energia enquanto as atitudes erráticas de Washington permitiam que Pequim se apresentasse aos governos do Golfo como parceiro mais estável e confiável para futuros negócios.[18]
Além do impacto nos preços dos combustíveis, o fechamento do Estreito de Ormuz afetou uma série de produtos das redes globais de abastecimento. Não podemos esquecer, por exemplo, que, segundo a ONU, cerca de um terço dos fertilizantes mundialmente utilizados na produção de alimentos passa por este caminho e que os envios de ureia, potássio, amônia e fosfatos entraram em colapso desde o seu fechamento.
O enxofre é outro elemento cuja escassez promete dar bastante dor de cabeça. Subproduto do processamento do petróleo bruto e do gás natural, este elemento químico é produzido em larga escala na região do Golfo e metade das entregas mundiais por navio passa pelo Estreito de Ormuz. Além do seu uso como fertilizante agrícola e na extração do lítio, o enxofre entra na produção de ácido sulfúrico e no beneficiamento do cobre, do cobalto e do níquel, metais que são utilizados numa grande variedade de produtos.
Por sua vez, as indústrias de semicondutores, equipamentos médicos e os centros de armazenamento de dados estão preocupados com a disponibilidade mundial do gás hélio. Oriundo da produção de gás natural, o hélio é utilizado nas lâminas de material semicondutor na qual são montados os microchips, no resfriamento dos imãs instalados nos equipamentos de ressonância magnética e dos computadores dos centros de armazenamento de dados. Acontece que a gigantesca usina do Qatar da qual o produto seguia para o mercado mundial sofreu um ataque iranianos e o governo local prevê um período de 3 a 5 anos para que as instalações voltem ao desempenho anterior à guerra.
Do mesmo modo, é pelo estreito de Ormuz que passam 6,0% dos derivados petroquímicos essenciais que entram na produção de analgésicos, antibióticos, vacinas e outros medicamentos. Parte desta carga pode ser transportada por via aérea ou terrestre, mas não há dúvidas quanto à perspectiva de encarecimento oriunda da mudança dos meios de sua distribuição mundo afora.[19]
À medida que a incerteza em relação aos desdobramentos do conflito alimenta as especulações relativas à disponibilidade mundial destas commodities e mantêm elevados os preços de mercado, é impossível estimar com precisão o impacto no crescimento econômico e na inflação global. Mas, uma coisa é certa: quando a geografia é uma aliada de primeira ordem, vencer uma guerra demanda que o inimigo arque com custos bem acima do esperado. E, no caso do Irã, esta aliança tem sido fundamental para derrotar as miragens de uma vitória rápida e fácil promovidas por Israel e compradas pelos EUA.
3. Os países árabes e o Eixo da Resistência diante da guerra.
À medida que os ataques ao território iraniano atingiam estruturas militares e civis, Teerã cumpria a promessa reafirmada desde o fim da Guerra dos 12 dias, em junho de 2025, de estender o conflito aos países do Oriente Médio. Desde os primeiros dias da agressão, os drones e mísseis do Irã atingiram bases militares estadunidenses no Qatar, Emirados Árabes Unidos, Barein, Omã, Arábia Saudita, Kuwait, Jordânia e Iraque.
Um clima de medo e insegurança tomou conta destes países na exata medida em que, ao destruir estruturas críticas de defesa, os iranianos mostravam os limites dos equipamentos bélicos estadunidenses aos quais as monarquias do Golfo haviam entregado a proteção de seus territórios. Em seguida, foi a vez de aeroportos, hotéis, refinarias e outras estruturas civis numa retaliação ao estilo “olho por olho, dente por dente”. Ou seja, à medida que Israel e EUA destruíam algum tipo de instalação civil no Irã, Teerã atingia alvos semelhantes nos países árabes.
Da noite para o dia, as nações do Golfo que haviam se alinhado à estratégia militar dos Estados Unidos para a região e, em graus diferentes, buscavam normalizar as relações com Israel em nome da paz, da estabilidade e da segurança regional mergulhavam num conflito desencadeado em nome da primazia dos interesses destas duas nações. Sob o estrondo das explosões, os governos árabes descobriam que a ordem vigente na região não havia sido construída visando a defesa da sua soberania, mas em volta da supremacia de Israel e dos lucros dos EUA.[20] Desta forma, as elites se deparavam com a dura realidade: seus governos não integravam uma aliança entre iguais, ao contrário, eram engrenagens subordinadas a uma ordem moldada fora dos seus territórios.
No momento em que escrevemos, é impossível projetar que tipo de mudanças nas relações entre os EUA, Israel e as nações do Oriente Médio marcarão os passos após o completo encerramento das hostilidades. Contudo, o descontentamento que marca presença nos países do Golfo após o 28 de fevereiro aponta para a necessidade de reestruturar os acordos de cooperação existentes.
E não é para menos. De fato, além das questões políticas às quais nos referimos, em menos de uma semana, nações mundialmente conhecidas como sinônimo de paz, riqueza, segurança e oportunidades de negócios viviam num pesadelo inesperado. Mísseis, drones e o fechamento do Estreito de Ormuz detonavam os negócios com a exportação de petróleo e derivados, afugentavam os turistas, questionavam o futuro dos investimentos, projetavam cenários de recessão, colocavam governos e população à mercê do desenrolar do conflito.
Sendo assim, por que as monarquias do Oriente Médio não revidaram militarmente os ataques iranianos?
A resposta é simples e direta: para evitar o risco de uma convulsão social. De fato, golpear o Irã seria sinônimo de lutar ao lado de Tel Aviv, algo inaceitável pela esmagadora maioria da população árabe que considera Israel como a maior ameaça à estabilidade regional. Esta percepção havia sido confirmada em fevereiro deste ano pelo relatório do Centro Árabe de Pesquisa e Estudos Políticos após entrevistar mais de 40.000 pessoas em 15 países. Segundo a pesquisa, 87 em cada 100 entrevistados se opunham ao reconhecimento de Israel e apenas 6% desejavam a normalização das relações dos seus governos com Tel Aviv.[21] Desta forma, havia uma altíssima possibilidade de as populações do Oriente Médio se revoltarem por considerarem um ataque contra o Irã como uma traição inaceitável.
No curso dos enfrentamentos, não faltaram ocasiões em que o regime de Teerã foi responsabilizado por atacar civis indefesos ou estruturas críticas a fim de indignar a população. A primeira delas ocorreu no dia 9 de março, na ilha de Sitra (que pertence ao Bahrein) onde um míssil feriu 32 pessoas, entre elas várias crianças. O Comando Central dos EUA se apressou a declarar que um artefato iraniano havia atingido a área residencial. As apurações subsequentes revelaram que o míssil em questão era um Patriot lançado pela defesa aérea do Bahrein operada pelos militares estadunidenses.[22]
No dia 30 de março, um edifício no interior da usina de dessalinização do Kwait foi atingido e, quatro dias depois, foi a embaixada dos EUA em Riad, na Arábia Saudita, a sofrer o mesmo destino. Instantes depois das ocorrências o clamor dos noticiários se voltou, obviamente, contra Teerã que, por sua vez, culpou Israel pelos atos que, segundo a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, se enquadravam perfeitamente na sua estratégia de incitar a revolta da população contra o país Persa.[23] Até o momento, não tivemos notícias das apurações destes acontecimentos e, caso se prove que Israel foi o autor dos dois atos, é quase impossível de que elas venham a público.
Segundo o The New York Times e a agência de notícias Associated Press, sabendo da elevada vulnerabilidade à qual ficariam expostas no caso de uma ação militar direta contra Teerã, as monarquias da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, do Kwait e do Bahrein estariam pressionando os EUA a manter os ataques contra o Irã.[24] Publicamente, os representantes destes países negaram que isso seja verdade. Contudo, o pedido da Casa Branca para que estas nações ajudem a pagar os custos da guerra deixa um número considerável de pulgas atrás da orelha pelo fato de ter sido veiculado logo após a divulgação das solicitações para a continuidade dos bombardeios.
No momento em que escrevemos, é impossível traçar as consequências da guerra contra o Irã no Eixo da Resistência. A resposta a esta indagação depende da destruição causada pela guerra e dos termos do acordo de paz. Entre os pontos levantados por Teerã como base deste acordo está o fim dos ataques contra o Líbano e os seus aliados regionais, algo que Israel e EUA consideram inaceitável. Vejamos alguns elementos da situação de momento.
Sob a um cessar-fogo que só ela respeita,[25] a resistência palestina na Faixa de Gaza trata de manter vivos os laços que permitem à população enfrentar as condições extremas às quais é submetida. A gravidade da situação foi resumida no atraso de 77 anos no desenvolvimento humano que o relatório da ONU, divulgado em 21 de abril deste ano, atribui à guerra genocida de Israel. Um atraso que tende a se agravar devido à entrega de uma ajuda humanitária semanal que flutua entre 25,0% e 70,0% dos 4.200 caminhões que constam do acordo de cessar-fogo assinado em 11 de outubro de 2025 e dos ataques israelense que, neste mesmo período, mataram 809 palestinos e feriram outros 2.267, elevando, respectivamente, a 72.585 e a 172.370 o número total de mortos e feridos desde 7 de outubro de 2023.[26]
Abusos de todos os tipos se tornaram parte estruturante da política de Estado com a qual Israel lida com a questão palestina. Da aprovação da pena de morte para os presos condenados por matar um israelense, à matança de rebanhos e destruição de casas pelos colonos judeus, passando pela aceleração das ações de confisco de moradias e terras para ampliar a construção ilegal de assentamentos na Cisjordânia, a aliança de governo capitaneada por Benjamin Netanyahu trata de mandar ao mundo um recado curto e grosso: não há futuro para um Estado palestino.[27] No momento em que escrevemos, e sob o peso das ações que visam promover uma limpeza étnica na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, a resistência coletiva tecida em décadas de enfrentamentos responde a esta afirmação com uma postura igualmente desafiadora: nunca abandonaremos a nossa terra!
Da Palestina, passamos agora para o Líbano. Após o início dos bombardeios do território iraniano em 28 de fevereiro, o Hezbollah voltou a atacar o norte de Israel. A decisão do grupo de partir para a ofensiva pode ser comparada à de uma família que os médicos convocam para escolher entre a realização de uma cirurgia arriscada e a morte do ente querido. De um lado, encontramos a percepção clara de que, depois de 15.400 violações do exército israelense ao cessar-fogo assinado em 27 de novembro de 2024[28], a soberania e o futuro do país estavam na berlinda. De outro, com o Irã sob ataque, a não utilização dos recursos bélicos disponíveis acabaria fragilizando ainda mais a possibilidade de manter vivo o Eixo da Resistência.
A resposta de Tel Aviv iniciou no dia 2 de março. A rapidez na mobilização de suas forças deixava claro que Israel estava materializando um plano de ataque que já estava pronto. O cardápio da agressão incluía os bombardeios dos bairros de Beirute na tentativa de levar a população a se revoltar contra os lançamentos de foguetes do Hezbollah; a destruição das pontes sobre o Rio Litani que ligavam a capital ao sul do Líbano a fim de impedir que o grupo armado recebesse qualquer tipo de apoio; e a ocupação da faixa do território libanês entre a fronteira com Israel e este mesmo rio para desmantelar a resistência.
O passar dos dias mostrava que a situação no terreno dava razão à decisão do Hezbollah de atacar Israel. Vejamos por que. Em primeiro lugar, não passou inobservado o fato de haver certa coordenação entre o lançamento de foguetes a partir do sul do Líbano e os ataques de drones e mísseis iranianos, o que ajudou a sobrecarregar o sistema de interceptação israelense. Do mesmo modo, a capacidade do grupo de frear a invasão terrestre surpreendeu Tel Aviv com uma elevada quantidade de seus tanques impossibilitados de continuar as operações militares às quais se destinavam e de ataques contra as tropas que seguiam atrás deles. Estas ações não só impossibilitaram os soldados israelenses de chegar ao rio Litani, como os forçaram a se entrincheirar numa reduzida faixa de terra na região sul do território libanês.
No que diz respeito à devastação provocada pela aviação de guerra israelense, as manifestações populares na capital do Líbano em apoio ao Hezbollah pressionaram o governo local a não aceitar os planos de desmilitarização da resistência na exata medida em que crescia a percepção de que seus combatentes eram a única força capaz de deter a invasão do exército inimigo. Ganha relevância o fato de esta postura ter se afirmado com força em meio ao sofrimento causado pelos bombardeios e não, por exemplo, durante os debates parlamentares anteriores. Para termos uma ideia do que isso significa, basta pensar que, em 45 dias de hostilidades, os ataques aéreos de Israel destruíram mais de 37.000 edifícios, causando a morte de 2.294 pessoas, ferindo outras 7.500 e forçando o deslocamento de um milhão e 200 mil libaneses.[29]
Concretamente, o que ganhou Israel com o seu plano de ataque? No momento em que escrevemos, a tentativa de traduzir domínio aéreo em controle territorial sustentado ocorrida entre 2 de março e 15 de abril, produziu a destruição total ou parcial de 39 centros habitados do sul do Líbano.[30] Ainda em curso, a política de terra arrasada molda o ambiente das operações militares para facilitar os movimentos das tropas e reduzir fortemente a presença de civis numa área que estava sob controle do Hezbollah. Apesar de não impedir que os foguetes da resistência alcancem o território israelense, a intenção de se apropriar desta parte do Líbano visa proporcionar uma espécie de “botim de guerra” que Benjamin Netanyahu pretende mostrar ao país para justificar as perdas de soldados e os custos financeiros da invasão. Contudo, esta intenção ainda precisa acertar as contas com a resistência libanesa que mantêm seus ataques contra as tropas de Tel Aviv entrincheiradas neste território e contra o norte de Israel.[31]
Último país do Eixo da Resistência em relação ao qual teceremos algumas considerações, o Iêmen entrou em cena somente no dia 29 de março com o lançamento de alguns mísseis direcionados contra alvos em território israelense. O “atraso” dos Houthis não se deve a algum tipo de fragilidade, escassez de armamento e, menos ainda, ao receio de retaliações contra o seu território. As mensagens que acompanharam os lançamentos tiveram seu alcance perfeitamente entendido pelos Estados Unidos: a arma da economia, já utilizada com o fechamento do Estreito de Ormuz, terá seu poder destruidor majorado caso o grupo ataque as embarcações que passam pelo estreito de Bab El-Mandeb. Vale lembrar que os rebeldes do Iêmen já fizeram isso em apoio à resistência palestina durante a invasão israelense da Faixa de Gaza. Naquela ocasião, seus mísseis e drones afundaram dois navios e danificaram mais de 100 embarcações.
Com seus 32 quilômetros de largura, este trecho de mar que liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho é a passagem obrigatória de todos os navios que atravessam o Canal de Suez. Em suas águas, trafegam 12% do comércio global, algo que se aproxima de um trilhão de dólares anuais. A sua obstrução foi apontada como o segundo grande pesadelo da economia mundial, à medida que, por questões de segurança, os navios seriam obrigados a contornar a África para chegar aos seus destinos. Ao acrescentar cerca de dez dias ao tempo de navegação, o bloqueio de Bab El-Mandeb elevaria fortemente os preços dos fretes, já duramente afetados pela alta do petróleo.[32] Os Houthis deixaram claro que estão com os dedos no gatilho... e o mundo sabe que não estão blefando.
4. Quando o conflito atesta a derrota dos planos dos agressores.
No momento em que escrevemos, os acontecimentos mostram que a intervenção militar dos EUA e de Israel agravou os problemas que pretendia resolver e criou outros que estão servindo de moeda de troca ao governo iraniano. Vejamos os principais.
Em primeiro lugar, precisamos dizer que, hoje como nunca, o Irã tem motivos de sobra para querer armas nucleares a fim de elevar o seu poder de dissuasão. Sabendo que não é possível confiar em Trump, Netanyahu e na capacidade de a ONU fazer valer o direito internacional, ter ogivas atômicas imporia o medo de sua utilização aos eventuais futuros agressores. Mas, enquanto esta possibilidade está longe de se tornar real para o Irã, dentro e fora do Oriente Médio, as incertezas levantadas pelo conflito fortalecem as vozes que defendem a posse de bombas atômicas como barreira diante dos inimigos.[33]
Em segundo lugar, a morte e a destruição causadas pelos bombardeios não minaram o regime de Teerã. Ao contrário, a população compareceu em massa aos funerais dos lideres que pereceram nos bombardeios; atendeu aos apelos governamentais para formar correntes humanas em defesa da estrutura energética do país; encheu as ruas em apoio ao governo e aos militares no último dia do ultimato com o qual Trump prometia devolver o Irã à idade da pedra.[34]
Um terceiro elemento nada desprezível diz respeito ao fato de Tel Aviv e Washington desconhecerem o potencial ofensivo de Teerã. Ninguém sabe qual é o volume de mísseis e drones armazenados nas galerias subterrâneas e a localização destas, assim como se desconhece até que ponto Rússia e China podem contribuir para recompor o poder aéreo do Irã. Usar a marinha de guerra estadunidense para bloquear a entrada do Estreito de Ormuz dificulta o abastecimento de alimentos do Irã e trava sua exportação de petróleo, mas não impede que o país receba ajuda e suprimentos da Rússia e da China através das linhas férreas nas quais trafega parte do comércio com as duas nações.
O quarto elemento diz respeito ao forte desgaste do mito pelo qual qualquer guerra contra Israel levaria o inimigo a uma derrota líquida e certa. Antes dos bombardeios contra o Irã e apesar da efetiva superioridade bélica, Tel Aviv não conseguiu debelar a resistência na Faixa de Gaza para forçar a sua população ao exílio, nem desarmar as forças do Hezbollah no sul do Líbano. Diante das respostas do Irã, o mito da invencibilidade de Israel sofreu mais um duro golpe. Se é verdade que as guerras são mais facilmente vencidas quando o medo se apossa do imaginário das populações agredidas, os acontecimentos dos três últimos anos mostram que esta arma perdeu a eficácia que tinha nas décadas anteriores.[35]
O quinto elemento seria cômico se não fosse trágico. Antes da agressão de 28 de fevereiro, o trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz era livre e gratuito a qualquer embarcação que entrasse e saísse do Golfo Pérsico. Neste momento, o Irã está cobrando um pedágio seletivo de dois milhões de dólares às embarcações que atravessam este braço de mar. Teerã já adiantou que este dinheiro será usado para reconstruir o país, razão pela qual pretende manter o pedágio após o fim das hostilidades. Ou seja, a futura abertura do tráfego pelo estreito pode conhecer um encarecimento dos fretes por um fator que não existia antes de 28 de fevereiro.[36]
Mas, porque é tão difícil construir uma saída para esta guerra que já durou bem mais do previsto?
A resposta guarda uma relação direta com os elementos que resgatávamos no primeiro capítulo das nossas reflexões. Ao contrário do que o Presidente dos Estados Unidos procura alardear, a atual posição do Irã nega a possibilidade de um acordo cujas obrigações e limites seriam mais abrangentes em relação ao que havia sido assinado por Barack Obama em 2015.[37] Aceitar algo inferior levaria Trump à situação ridícula de ter gasto dezenas de bilhões de dólares por nada, o que daria ao Partido Democrata a possibilidade de recuperar parte do espaço perdido nas eleições de 2024.[38]
Sendo assim, parece claro que a derrota do Irã pode acontecer em dois cenários: 1. O corte de todas as linhas de abastecimento do país a fim de sufocar a sua economia; 2. Um grau de destruição que transformaria as principais cidades iranianas em montanhas de escombros. Ambas as possibilidades demandam elevar os gastos envolvidos neste conflito e aceitar que, por um período prolongado, o preço do petróleo se mantenha bem acima do patamar de fevereiro deste ano.[39]
Além das questões orçamentárias, é fato que, nos EUA, esta guerra é cada vez mais impopular. Segundo as pesquisas de opinião às quais tivemos acesso, entre 59,0% e 66,0% dos entrevistados se opõem à continuidade do conflito. Estes índices não guardam uma relação com os sofrimentos impostos à população iraniana, mas, sim, com o aumento dos gastos familiares atrelados à alta dos combustíveis.[40] Logo, quanto mais Trump demorar a criar uma situação que devolva a sensação de bem-estar, mais ele coloca em risco o desempenho do Partido Republicano nas eleições de novembro. Daí a pressa em mostrar ao eleitorado estadunidense algum resultado consistente.
A desconfiança dos israelenses em relação às guerras ordenadas pelo governo sugere um clima favorável ao aumento do descontentamento. Segundo uma pesquisa divulgada pela agência de notícias KAN em 28 de abril, 57,0% dos habitantes acredita que o país não conseguiu alcançar a vitória em nenhum dos enfrentamentos desde 7 de outubro de 2023. Apenas 16% dos entrevistados acreditam que Israel obteve sucesso em Gaza e no Irã, enquanto 17% disseram o mesmo sobre a Síria. Em relação ao Líbano, a porcentagem caiu para 14%, chegou a 12% no que diz respeito ao Iêmen e a apenas 11% em relação à Cisjordânia. Se nada alterar este cenário até as eleições de outubro, Netanyahu e as forças que compõem o seu governo não terão vida fácil para conseguir um desempenho satisfatório.[41]
Quando tentamos inserir os eventos do segundo mandato de Donald Trump no que podemos chamar de um balanço estratégico do primeiro ano de governo, a pergunta que vem à cabeça é simples e direta: Pra que tudo isso?
Ao encerrarmos nossas reflexões queremos arriscar uma hipótese sugerida por uma série de fatores que marcaram a conjuntura estadunidense desde a posse do Presidente dos EUA, em janeiro de 2025. Diante das medidas do seu governo e da postura nefasta com os aliados do país, a resistência institucional à política por ele viabilizada deixou muito a desejar. Trump, literalmente, deitou e rolou em suas tentativas de forçar os limites do cargo a fim de ampliar o seu poder nas decisões que traçam o futuro do país.
Com poucas exceções, as lideranças dos Republicanos estão totalmente alinhadas com ele ou optaram pela omissão. As vozes institucionais discordantes são pontuais, limitam suas críticas a elementos superficiais, chegam muito atrasadas em relação ao ritmo dos acontecimentos ou preferem deixar acontecer para evitar os custos políticos da dissidência recaiam sobre seus integrantes. No âmbito da oposição Democrata, os ataques à conduta e à retórica de Trump não abrangeram questões-chave, cederam a acordos baseados na conveniência do momento ou se restringiram a posições táticas que favoreceram o partido nos processos eleitorais em algumas localidades do país.
Para nós, estas constatações apontam para algo bem mais complexo e perigoso do que a mídia tem mostrado ao sublinhar o caráter errático da política de Donald Trump. Pelo que podemos ver, Fazer a América Grande não é apenas um slogan de campanha eleitoral, mas, sim, o primeiro estágio da construção de uma nova ordem mundial na qual os EUA precisam se afirmar, desde já, como carro-chefe das mudanças.
Aprimorar o controle dos mercados e das vias navegáveis; ampliar a ocupação de espaços geopolíticos relevantes; corroer a estabilidade da ordem atual ao desmantelar as alianças e os acordos internacionais existentes; amplificar os conflitos no lugar de gerenciá-los; usar o caos para desestabilizar o que dificulta as mudanças; abrir rachaduras que forçam os governos de vários países a mudarem os rumos de suas políticas internacionais; e criar abalos na capacidade de controlar as forças que agem em seu interior são peças do processo de desestabilização sem o qual a nova ordem mundial não dará os primeiros passos.
O nível de risco envolvido neste processo em que os ataques do governo dos EUA abrangem múltiplas frentes impede, necessariamente, que a sua ação seja linear e, menos ainda, que esteja alicerçada em princípios morais e estratégicos coerentes. Por isso, a própria promoção da democracia mundo afora sumiu do cardápio de elementos ideológicos aos quais os Presidentes anteriores apelaram para justificar as agressões que promoveram. E, não é só isso. De fato, para as coisas andarem, a própria democracia estadunidense deve ser minada a ponto de só poder existir na exata medida em que a liberdade de expressão e ação que se ergue em nome dela justifica e faz avançar as mudanças que o governo dos EUA está ensaiando.
Sob esta ótica, Trump não é nem um lunático, nem um narcisista incapaz de enxergar além do seu umbigo. Do mesmo modo, temos a impressão de que tanto as insinuações de sua insanidade mental, como os comentários da mídia que justificam as atitudes do Presidente como “coisas do Trump”, mais ajudam a passar a boiada da política estadunidense do que a preparar medidas que bloqueiam os interesses em jogo.
Concretamente, nos Estados Unidos, quem e quantos se dispõem a enfrentar este processo de destruição da ordem mundial a ponto de inviabilizá-lo? Que forças sociais estão, de fato, comprometidas com a tarefa de barrar o que prepara o ambiente da futura valorização do capital? Quantos, apesar de ensaiar certo grau de resistência dobrarão os joelhos na tentativa de exorcizar as crescentes ameaças que povoarão o seu futuro imediato, caso se recusem a acatar as ordens de Donald Trump?
Diante do cenário que pode se desdobrar sob os nossos olhos ao constatar as ausências de uns e os silêncios ensurdecedores de outros, amaríamos admitir que a nossa hipótese não tem razão de ser. Até o momento, só podemos esperar que os passos deste processo tropecem em situações como as que o Irã colocou no caminho desta construção.
Emilio Gennari, Brasil, 02 de maio de 2026.
[1] Para ter uma ideia dos passos mais recentes deste processo, sugerimos a leitura das nossas reflexões, divulgadas em 27 de outubro de 2025, sob o título Oriente Médio: destruir a resistência para a opressão avançar. Disponível em: https://drive.google.com/drive/folders/1YoRRdUt1RVr31bNvhMPvIFt8pBwWYoJA?usp=sharing
[2] Você pode encontrar informações a este respeito em:
- https://www.bbc.com/news/articles/cx24d6ky5r7o
Acessos realizados em 17.04.2026.
[3] Você pode resgatar os protesto que ocorreram no Irã e os elementos essenciais da postura israelo-estadunidense diante dos mesmos em:
- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/10/iranianos-protestam-na-vespera-de-data-da-revolucao-islamica-e-cantam-em-varandas-morte-a-khamenei.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias
- https://www.palestinechronicle.com/the-coming-war-on-iran-what-has-really-been-happening-analysis/
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy59w4py45vo
- https://www.bbc.com/mundo/articles/cn9zy3rrz2wo
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cdxj5jez8lpo
Acessos realizados entre 29.12.2025 e 28.01.2026.
[4] Você pode encontrar maiores informações a este respeito em: https://share.google/dUiAKIvG79fwOX3fH
Acesso realizado em 18.04.2026.
[5] Os dados referentes ao número estimado de ogivas nucleares constam do anuário do Instituto Internacional de Pesquisas de Pesquisas pela Paz de Estocolmo, disponível em: https://www-sipri-org.translate.goog/yearbook/2013/06?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=sge Acesso realizado em 18.04.2026.
[6] Você pode encontrar mais dados sobre o acordo e a respeito das reações mundo afora em:
- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/07/reuniao-fecha-acordo-sobre-programa-nuclear-do-ira-dizem-agencias.html
Acessos realizados em 18.04.2026.
[7] Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/trump-anuncia-retirada-dos-eua-de-acordo-nuclear-com-o-ira.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acesso realizado em 18.04.2026
[8] Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/veja-a-repercussao-do-anuncio-dos-eua-de-deixar-o-acordo-nuclear-com-o-ira.ghtml
Acesso realizado em 18.04.2026.
[9] Estas e outras informações sobre o assunto podem ser encontradas em:
Acessos realizados em 18.03.2026.
[10] Em: https://www.palestinechronicle.com/the-explosion-inside-trumps-war-machine-joe-kent-resigns/ e em: https://www.palestinechronicle.com/a-war-manufactured-by-israel-us-counterterror-chief-joe-kent-resigns-in-shock-move/
Acessos realizados em 28.03.2026.
[11] Você pode encontrar estas e outras informações sobre o tema em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/04/01/barato-e-mortal-shahed-136-o-drone-iraniano-que-vem-revolucionado-a-guerra.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias e em: https://www.palestinechronicle.com/israel-rations-advanced-interceptors-as-iranian-barrages-strain-air-defenses-wsj/ Acessos realizados em 18.04.2026.
[12] Segundo cálculos da agência de notícias France Press com base em dados da Kpler, entre 1º de março e 3 de abril, 221 embarcações de transporte de petróleo, gás ou outros produtos cruzaram o Estreito de Ormuz tendo, majoritariamente, o Irã como origem ou destino. Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/04/03/guerra-do-ira-221-navios-estreito-de-ormuz.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acesso realizado em 05.04.2026
[13] Você pode encontrar informações mais detalhada sobre este tema em: https://elpais.com/economia/2026-03-31/el-precio-del-galon-de-gasolina-en-estados-unidos-supera-los-cuatro-dolares-por-primera-vez-desde-2022-y-desata-las-criticas-a-trump.html Acesso realizado em 02.04.2026.
[14] Estes e outros dados da pesquisa sobre o mesmo tema podem ser encontrados em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/24/guerra-ira-aprovacao-trump-pesquisa.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias e em: https://www.palestinechronicle.com/new-low-trump-approval-falls-to-36-as-iran-war-fuel-prices-bite/ Acessos realizados em 02.04.2026.
[15] Maiores informações sobre esta questão podem ser obtidas através dos links que seguem:
- https://www.bbc.com/mundo/articles/cjwz5vg2ypgo
Acessos realizados entre 18.03.2026 e 19.04.2026.
[16] Em: https://www.palestinechronicle.com/major-shock-irans-oil-exports-rise-since-start-of-us-israeli-war/
Acesso realizado em 15.03.2026.
[17] Estes e outros dados sobre o mesmo tema foram publicados em: https://www.bbc.com/mundo/articles/cjwz5vg2ypgo e em: https://www.bbc.com/mundo/articles/cvg45zedm2po Acessos realizados em 28.03.2026.
[18] Maiores informações a respeito dos temas citados podem ser encontradas em:
- https://www.palestinechronicle.com/major-shock-irans-oil-exports-rise-since-start-of-us-israeli-war/
- https://www.palestinechronicle.com/washingtons-war-on-iran-a-strategic-gift-to-russia-and-china/
- https://www.bbc.com/mundo/articles/c3w3e840x8qo
- https://www.bbc.com/mundo/articles/cgk282r1geno Acessos realizados em 18.04.2026.
[19] Em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwywe6k5qr1o Acesso realizado em 15.04.2026.
[20] Entre os exemplos mais recentes, lembramos o acordo sobre armas e tecnologia de ponta assinado em meados de maio de 2025 entre a Arábia Saudita e os EUA. Com um valor total estimado em 600 bilhões de dólares, o pacote buscava driblar os problemas da ausência de uma grande indústria de defesa nacional e proporcionar tecnologia de última geração para fortalecer a posição de Riad como potência militar regional. Maiores informações sobre o acordo militar assinado por Donald Trump foram publicadas em: https://www.bbc.com/mundo/articles/cn84gv806pno Acesso realizado em 18.05.2025.
[21] Em: https://www.palestinechronicle.com/the-people-have-spoken-what-global-polls-say-about-the-us-israeli-war-on-iran/
Acesso realizado em 13.04.2026.
[22] Em: https://www.palestinechronicle.com/false-flag-exposed-report-says-us-missile-caused-bahrain-blast/ e em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/22/explosao-no-bahrein-que-deixou-32-feridos-foi-causada-por-defesa-aerea-operada-pelos-eua-diz-agencia.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias
Acessos realizados em 03.04.2026.
[23] Em: https://www.palestinechronicle.com/israel-not-iran-bombed-kuwaiti-desalination-plan-military-spokesman/
Acessos realizados em 06.04.2026.
[24] Maiores informações sobre o assunto podem ser encontradas em:
Acessos realizados em 07.04.2026.
[25] Basta pensar que, entre a assinatura do cessar-fogo, em outubro de 2025 e o dia 19 de abril deste ano, Israel violou o acordo mais de 2.400 vezes. Em: http://www.palestinechronicle.com/full-withdrawal-hamas-demands-israeli-compliance-before-next-phase/
Acesso realizado em 20.04.2026
[26] Estas e outras informações podem ser encontradas em:
- https://news.un.org/pt/story/2026/04/1852908
Acessos realizados em 26.04.2026.
[27] Algumas matérias ajudam a descrever o processo cujos contornos acabamos de desenhar:
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp38q50e7vko
- https://www.bbc.com/mundo/articles/clyd2y068j3o
- https://www.palestinechronicle.com/license-to-torture-un-expert-says-israel-made-abuse-state-policy/
Acessos realizados em 21.04.2026.
[28] O número de violações do cessar-fogo consta do relatório divulgado em 26 de fevereiro deste ano pela Força de Paz das Nações Unidas que atua no Líbano (UNIFIL) e foi divulgado em: https://www.palestinechronicle.com/hezbollah-returns-it-didnt-start-a-war-it-is-ending-one-analysis/ Acesso realizado em 12.03.2026.
[29] Em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/04/18/libano-israel-ataco-129-centros-de-salud-en-el-libano-durante-45-dias-de-guerra/ Acesso realizado em 19.04.2026.
[30] Em: https://panoramareal.com.br/israel-realizou-destruicao-em-39-cidades-do-sul-do-libano-apos-o-cessar-fogo-crime-de-guerra-denuncia-deputado/ Acesso realizado em 22.04.2026.
[31] A maior parte das informações utilizadas e as que permitiram o acompanhamento diário dos conflitos no Líbano foram extraídas da página eletrônica do Palestine Chronical. Você pode ter acesso a todas as matérias que utilizamos através do link: https://www.palestinechronicle.com/?s=Hezbollah+
[32] Estas e outras informações sobre o tema podem ser encontradas em:
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx2699d17d3o
- https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/03/31/yemen-bab-el-mandeb-se-une-a-ormuz-como-pilares-del-poder-economico-global/ Acessos realizados entre 31.03.2026 e 21.04.2026.
[33] O caso da Coréia do Norte é, sem dúvida, o mais emblemático. Maiores informações sobre este caso e sobre o clima de abertura à necessidade de possuir armas nucleares podem ser encontradas em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/04/28/coreia-do-norte-aproveita-a-guerra-no-oriente-medio-para-reforcar-arsenal-nuclear.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias e em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c393r4znyeko
Acessos realizados em 28.04.2026.
[34] Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/04/07/iranianos-formam-corrente-humana-em-torno-de-usina-termoeletrica-apos-convocacao-do-regime-video.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias
e em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/04/14/iranianos-encheram-as-ruas-na-noite-em-que-trump-ameacou-fim-da-civilizacao-mostra-caco-barcellos.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias e em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/04/14/iran-estados-unidos-cometio-un-error-con-iran-y-pagara-por-ello-afirma-una-periodista-de-teheran/ Acessos realizados em 15.04.2026
[35] Você pode encontrar mais elementos desta reflexão em: https://www.palestinechronicle.com/israels-greatest-weapon-was-fear-and-it-is-now-failing/ Acesso realizado em 19.04.2026.
[36] Os cargueiros da Rússia, por exemplo, estão isentos desta cobrança. Você pode encontrar informações mais detalhadas sobre o pedágio no Estreito de Ormuz em:
- https://www.dw.com/pt-br/como-o-ir%C3%A3-est%C3%A1-instalando-um-ped%C3%A1gio-em-ormuz/a-76739274
Acessos realizados em 27.04.2026.
[37] Você pode resgatar os principais elementos das propostas negociadas até o momento em:
- https://www.bbc.com/mundo/articles/c98m3p99d17o
- https://elpais.com/internacional/2026-04-27/iran-propone-un-plan-para-la-paz-en-tres-etapas-que-deja-para-el-final-la-cuestion-nuclear.html Acessos realizados entre 21.04.2026 e 28.04.2026
[38] Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/04/25/trump-ja-gastou-mais-de-r-100-bilhoes-em-menos-de-2-meses-so-com-misseis-contra-o-ira-veja-modelos-e-valores.ghtml Acesso realizado em 27.04.2026.
[39] Em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/guerra-contra-ira-custa-aos-eua-mais-de-us-890-milhoes-por-dia/
Acesso realizado em 27.04.2026.
[40] Mais informações sobre as pesquisas de opinião realizadas até 1º de abril podem ser encontradas em: https://www.palestinechronicle.com/anti-war-sentiment-surges-in-us-ahead-of-trump-address-polls-show/
Acesso realizado em 03.04.2026.

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