Reunidos em Potsdam entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, os representantes de EUA, Rússia e Inglaterra decidiam o futuro da Alemanha após o fim da Segunda Guerra Mundial. O resultado da Conferência pode ser assim resumido: controlar militarmente o país para impedir a rearticulação do nazismo e do seu poder bélico.
As tensões com a União Soviética no interior da Guerra Fria levaram a um progressivo relaxamento dos obstáculos à reorganização do exército alemão. No final dos anos de 1960, mais de meio milhão dos seus soldados compunha os batalhões da OTAN. Pouco mais de três décadas depois, o colapso da URSS tornava desnecessário este aparato militar. A forte presença da Aliança Atlântica na Europa e os elevados custos da reunificação alemã, iniciada em 1990, apontavam como absurdo que o governo gastasse em armas o que devia ser destinado a necessidades bem mais urgentes.
Ano após ano, os acontecimentos internacionais levaram alguns setores do Exército da Alemanha a contar com uma maior disponibilidade de equipamentos. É o caso, por exemplo, do treinamento de tropas iraquianas após a derrubada de Saddam Hussein, da participação nas missões de paz da ONU e da implantação de uma brigada blindada na Lituânia. Mas foi só após a invasão da Ucrânia que o rearmamento do país caminhou a passos rápidos, passando dos 56 bilhões de dólares, em 2021, para 109 bilhões de dólares, em 2025. No ano passado, a aprovação da emenda à Constituição pela qual o país eliminava as restrições ao endividamento do Estado para prover recursos às forças armadas permitiu que, em 2026, Berlim invista 185 bilhões de dólares em defesa, quase 70,0% a mais de um ano para outro.
Para conseguir a aceitação popular, esta escolha exige uma mudança significativa nas prioridades do Estado e na forma como elas moldam o senso comum. As reflexões que seguem tratam de reconstruir como o medo da guerra forja o desejo de segurança da população europeia, o impacto dos investimentos bélico na indústria alemã, os obstáculos que dificultam a obtenção de um consenso à altura dos sacrifícios que estão sendo impostos e a forma como a ultradireita alemã se aproveita do descontentamento reinante para se apresentar como uma força efetivamente comprometida com as demandas do povo.[1]
1. O cenário das mudanças.
O medo de uma retaliação da Rússia contra os países europeus que apoiaram a Ucrânia nos campos de batalha vai além dos discursos das autoridades. Em fevereiro deste ano, o Tratado New Start perdeu a validade. O descaso de Washington com as negociações de um novo acordo de limitação de armas nucleares fez com que Moscou declarasse o desenvolvimento destas armas como a prioridade absoluta do próximo período.[2]
Menos de três meses depois, Putin mostrava com os fatos que não estava blefando. Entre os principais acontecimentos, o exército russo testou com sucesso o míssil balístico intercontinental RS-28 Sarmat. Com uma autonomia de 35.000 km, este artefato pode transportar mais de dez ogivas nucleares numa trajetória e velocidade capazes de driblar as atuais defesas antiaéreas. Ao ser produzido em massa, o Sarmat aumentará significativamente o poder de fogo da Rússia.[3]
Na Europa Ocidental, este evento se soma ao sucesso dos mísseis ultrassónicos testados nos bombardeios contra as cidades ucranianas, à produção em massa de drones de ataque e à recuperação das bases militares na região do Ártico para aumentar o fantasma da guerra. Um fantasma cuja presença é relembrada sempre que os radares registram a presença de drones não identificados nos céus das capitais europeias mais próximas da Rússia, nos danos causados por alguns deles em áreas dos seus territórios a um passo da divisa com a Ucrânia, no temor de que navios russos cortem cabos submarinos destinados à comunicação internacional e diante de eventos que, mesmo sem sinais comprobatórios do envolvimento de Moscou alimentam o medo das pessoas. A construção do apoio popular ao rearmamento demanda que a maioria identifique nestes eventos a veracidade da advertência de Mark Rutte, Secretário-geral da OTAN: “Somos o próximo alvo da Rússia. (...) O conflito está à nossa porta. A Rússia trouxe a guerra de volta à Europa. E nós precisamos estar preparados”.[4]
A necessidade de investir na defesa aumenta diante da intenção dos EUA de reduzir as verbas para a OTAN. Atualmente, Washington mantém em território europeu 31 bases, 19 instalações militares e cerca de 70.000 soldados, concentrados, sobretudo, na Alemanha, na Itália e no Reino Unido. A redução do financiamento estadunidense deve ocorrer à medida que os contratos existentes forem vencendo, o que proporciona tempo suficiente para o Velho Continente compensar esta retirada com maiores investimentos bélicos dos seus governos.
Concretamente, se, de um lado, é verdade que o processo de diminuição dos recursos pode levar anos, de outro, é também verdade que a projeção pela qual a Rússia estaria pronta para desferir um ataque contra a Europa até o final de 2029 faz com que seja temerário não agir para compensar a diminuição anunciada.[5] O exemplo de alguns países contribui para entendermos as direções em que esta compensação está sendo realizada e como elas alimentam o clima de apreensão existente.
Ter 1.340 km de fronteira com a Rússia faz com que a Finlândia se considere o primeiro alvo de uma possível investida de Moscou contra a Europa. Com uma população de 5 milhões e meio de habitantes, o país nórdico tem 900.000 reservistas, vem intensificando os treinamentos de combate em temperaturas que podem chegar a 18 graus negativos e conta com 50.000 abrigos antiaéreos equipados com abastecimento de água potável e estocagem de alimentos, parte significativa dos quais em condições de resistir a um ataque nuclear.
O esforço governamental de levar a população a incorporar a lógica da guerra ganhou um novo aporte no dia 5 de março deste ano, com o anúncio da suspensão da Lei de Energia Nuclear, de 1987, que veta a importação, fabricação, posse e detonação de armas atômicas no território nacional. O crescimento do apoio popular a este processo é confirmado pelo aumento do número de jovens que se alistam voluntariamente nas fileiras do exército, apesar de o serviço militar ser obrigatório.[6]
A Polônia é outra vizinha da Rússia cuja preparação para a guerra anda a passos rápidos. Fornecedor de armas e suprimentos militares para a Ucrânia desde o início da invasão russa, o governo de Varsóvia corre contra o tempo para fazer frente a uma possível retaliação de Moscou. O Ministério da Defesa planeja aumentar as tropas regulares dos atuais 216.000 soldados para quase 290.000 até 2036 e deve capacitar 400.000 civis com noções essenciais de sobrevivência, primeiros socorros e aulas de segurança cibernética em caso de bombardeios. Aliada fiel dos EUA, a Polônia já investe 4,8% do seu PIB em gastos bélicos, a maior porcentagem entre os membros da OTAN.[7]
No início de março deste ano, a França anunciou um programa para aumentar o poder de dissuasão da Europa. Sob o lema "Quem quer ser livre deve ser temido. Quem quer ser temido deve ser forte", o Presidente Emmanuel Macron prometeu acrescentar um número não especificado de ogivas nucleares às 290 existentes em território francês, construir o quinto submarino com capacidade de lançar estas armas e a criação de um plano para que Alemanha, Reino Unido, Polônia, Holanda, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca hospedem parte destas ogivas atômicas e seus lançadores a fim de dificultar as possibilidades de a Rússia neutralizar um ataque nuclear vindo da Europa.[8]
Mais do que o número de artefatos atômicos que a França pode produzir (cujo total promete ser limitado quando comparado às 5.459 ogivas da Rússia, às 5.177 dos EUA e às 600 que a China já possui), o teor do anúncio explora o medo da população para reafirmar a urgência de se preparar para o pior. De acordo com uma pesquisa da Eurobarometer realizada no início de 2026, 68 em cada 100 europeus sentem-se sob ameaça no país em que vivem.[9] Aumentar esta porcentagem facilita o esforço de levar a população a aceitar que o atendimento de suas necessidades básicas será prejudicado pelo rearmamento.
Em níveis e intensidades diferentes, os 27 integrantes da União Europeia tratam de mostrar que construir a segurança do continente é uma tarefa imediata e urgente. Quanto maior a proximidade da fronteira com a Rússia, maior a preocupação e a pressa que cada país deve ter para reforçar suas defesas. Contudo, os fatos mostram que o esforço de guerra ainda passa longe de uma integração do Bloco que eleve o atual potencial ofensivo e defensivo em caso de conflito.[10] A postura da Alemanha espelha a razão de ser desta dificuldade.
2. O rearmamento da Alemanha...e os interesses em jogo.
Como todos os europeus, os alemães querem se sentir protegidos. Até 2024, o papel de proporcionar esta sensação era entregue aos EUA que, por sua vez, vendiam a Berlim parte essencial do arsenal com o qual equipava o seu exército. No mesmo ano, a pesquisa realizada pelo Pew Research Center mostrava que 74 em cada 100 alemães confiavam na estabilidade da relação entre o seu país e os Estados Unidos. Mas, em 2025, a política de Donald Trump fez este contingente despencar para 27,0%.[11]
Diante das incertezas da geopolítica mundial, o chanceler Friedrich Merz começou a reduzir a dependência dos EUA no fornecimento das munições enquanto o fim das restrições aos gastos com a defesa levava várias empresas locais a incorporarem a produção militar como um foco importante dos seus negócios. Os poucos dados disponíveis mostram que, por exemplo, as encomendas de vários milhares de drones estão transformando a região sul da Baviera num polo de defesa da Alemanha focado em Inteligência Artificial para a produção das versões bélicas mais modernas destes equipamentos e de outros componentes do setor aeroespacial. [12]
Sediada em Düsseldorf, a Rheinmetall está deixando de ser uma fabricante tradicional de tanques e munições para se tornar a fornecedora de um amplo espetro de armamentos. Inicialmente beneficiado pelas encomendas da Ucrânia, este gigante industrial viu sua receita passar de pouco menos de 6 bilhões de dólares, em 2021, para 11 bilhões e 250 milhões de dólares, em 2024. Este ano, graças às encomendas do governo alemão, a Rheinmetall prevê um aumento de 25,0% da sua receita e o dobro dela até 2030.
A expansão dos seus negócios anda de mãos dadas com a parceria e a aquisição de outras empresas. No momento em que escrevemos, a Rheinmetall já se aliou ao grupo italiano Leonardo que atua no setor de tanques, à Anduril, uma startup estadunidense de drones, à Lockheed Martin para a fabricação dos caças F-35 e à OHB para competir com a Airbus no maior projeto de satélites para as forças armadas locais. Graças às perspectivas de crescimento das encomendas, a Rheinmetall acaba de inaugurar uma nova fábrica de munições na Baixa Saxônia e de comprar o grupo de estaleiros Naval Vessels Lürssen com o qual pretende criar um enorme centro para navios de guerra, submarinos e demais sistemas de armas marítimas.[13] Contudo, seguindo a orientação do governo, a preocupação central da empresa está em se preparar para abastecer as defesas da Alemanha em caso de conflito e não em ceder espaço a uma cooperação militar com outros países que leve a produção bélica além das fronteiras da nação.
No primeiro semestre deste ano, por exemplo, as tensões entre Alemanha e França no projeto do “tanque do futuro” cresceram a ponto de colocar em dúvida a sua continuidade. A Rheinmetall quer usar o seu modelo de tanque como base do protótipo a ser desenvolvido para assegurar que suas instalações produzirão os novos blindados. Esta postura enfrenta a oposição da francesa KNDS que reivindica a mesma primazia, interessada que está em fazer da demanda deste artefato bélico um elixir do seu faturamento.[14]
Em outra frente, as infindáveis disputas com a francesa Dassault sobre quem seria responsável pelo desenvolvimento e a produção de um avião de combate de sexta geração, no dia 8 junho deste ano, levaram Berlim a abandonar o projeto avaliado em 118 bilhões de dólares. Ao que tudo indica, o consórcio do governo alemão com a Airbus (que já fabrica o Eurofighter, um caça de quarta geração) vai desenvolver o projeto da nova aeronave de combate de forma independente, beneficiando significativamente a indústria da Alemanha. No momento em que escrevemos, os atrasos que acompanharão a produção do protótipo desta aeronave não afetam a capacidade de defesa aérea de Berlim que acaba de receber 35 unidades do avião de combate estadunidense F-35, um caça de quinta geração produzido pela Lockheed Martin, que não é detectado pelos radares.[15]
No fundo, nem a Alemanha, nem a França, nem qualquer outro país da União Europeia quer que o seu orçamento bélico beneficie outras economias. Aos poucos, cria-se uma situação que, além de fragilizar a integração da defesa europeia, favorece a expansão do poder militar das nações economicamente mais fortes e, obviamente, de sua capacidade de influir nas decisões estratégicas que serão tomadas no campo da defesa europeia.
No percurso oficialmente traçado para que a Alemanha assuma a responsabilidade da própria segurança outras medidas se destacam. Uma delas diz respeito ao aumento de soldados da ativa, dos atuais 185.000 para 260.000 e à organização de um contingente de 200.000 reservistas até 2035. Para atingir esta meta, o exército vai trabalhar com o preenchimento de quotas anuais com base em duas formas de alistamento: voluntário (incentivado com o pagamento de um soldo de 2.600 euros mensais) e, em caso de não preenchimento das vagas, a lei recém-aprovada prevê o alistamento obrigatório de jovens com base nas aptidões por eles declaradas nas unidades militares ao completar os 18 anos de idade. Além disso, a mesma norma prevê que todos os homens com idades entre os 17 e os 45 anos solicitem uma autorização prévia para permanecer fora do país durante um período superior aos 90 dias.[16]
Último, mas não menos importante, no início de dezembro de 2025, o Ministério da Defesa iniciou a primeira etapa da instalação do sistema de interceptação Arrow 3 no aeródromo militar de Holzdorf, a sul de Berlim. Negociada com Israel no final de setembro de 2023, a aquisição dos equipamentos com o pacote de manutenção e suporte para garantir a sua operação custou 3 bilhões e 300 milhões de dólares e foi apresentada como a resposta mais consistente à ameaça dos mísseis balísticos da Rússia. De fato, os interceptores do Arrow 3 alcançam altitudes capazes de atingir estes mísseis durante a trajetória que antecede a reentrada na atmosfera, quando a elevada velocidade de descida dificulta a sua destruição. Holzdorf cumpre a função de um teste de pessoal e procedimentos, antes que a instalação deste escudo protetor ocorra também na Baviera e em Schleswig-Holstein.[17]
Graças a estes passos, Berlim caminha para fazer com que o poder de fogo convencional de suas forças armadas venha a ser o mais forte da Europa.
3. O descontentamento que faz a população olhar para a ultradireita
Apesar dos esforços da mídia, a assimilação da necessidade do rearmamento por parte da população não acompanha o passo dos sacrifícios que estão sendo demandados pelo governo. De um lado, o fato de a guerra voltar a ocupar o imaginário dos alemães já elevou em 300,0% a venda de Bunkers às famílias (das 50-70 unidades mensais, em 2021, para as 200 atuais) e, no primeiro trimestre deste ano, fez com que as forças armadas registrassem um aumento de 20,0% no número dos candidatos à carreira militar em relação aos que se alistaram voluntariamente no mesmo período de 2025.[18] Mas, de outro, as famílias vem percebendo que o crescimento da indústria bélica está na contramão da almejada recuperação do padrão de vida anterior à invasão da Ucrânia.
A primeira constatação desta realidade guarda uma relação direta com a queda da aprovação popular do chanceler Friedrich Merz. Ao passar de 47,0%, em 2025, para os atuais 26,0%, o político da União Democrata Cristã (CDU, pela sigla em alemão) parece não conseguir se sustentar no governo até as eleições de 2029. A reprovação de 71,0% dos entrevistados nas pesquisas se baseia no descumprimento das suas promessas de campanha, mais concretamente, na ausência de uma ação incisiva contra os imigrantes e na aprovação de reformas econômicas que devolvam o bem-estar anterior a fevereiro de 2022.[19]
Em função do boicote ao gás russo, a elevação imediata dos preços da energia sofrida naquela época atingiu o bolso dos consumidores e o nível de atividade das empresas. A redução dos lucros encolheu os investimentos e ameaçou os empregos enquanto o aumento dos custos elevou os preços ao consumidor e se somou ao encarecimento das contas de energia e calefação para deteriorar o poder de compra dos salários. Por muito que os gastos de guerra gerem possibilidades de emprego e renda, o presente continua negando as perspectivas de a Alemanha experimentar a bonança econômica anterior à invasão da Ucrânia.
E não é para menos. Recentemente, a necessidade de diminuir o déficit público na área da saúde para garantir que o Estado possa gastar mais com a defesa fez com que o governo aumentasse em 3,0% a contribuição obrigatória média dos usuários do sistema público nacional. Para termos uma ideia de quão irritantes são as medidas adotadas, basta pensar que o alemão comum terá que pagar um tíquete que varia de 7 euros e cinquenta centavos a 15 euros por receita médica quando antes desembolsava entre 5 e 10 euros pelo mesmo serviço. Além disso, a partir de 2028, o cônjuge sem renda própria perderá a gratuidade da cobertura de saúde e passará a desembolsar uma taxa fixa de 3,5% da renda do parceiro.[20] Ou seja, na melhor das hipóteses, a população alemã vai pagar mais pelo mesmo serviço em função do esforço de guerra.
Esta situação tende a se agravar com a proposta apresentada por Alemanha e Holanda de encolher o financiamento agrícola e regional da União Europeia para aumentar os gastos do bloco com a defesa no período entre 2028 e 2034.[21] Caso seja aprovada, não só os 27 governos contarão com uma parcela menor de investimentos em obras públicas para a população, como enfrentarão preços mais elevados dos produtos agrícolas. De fato, o encolhimento dos plantios em função da redução das verbas numa realidade em que o agravamento dos problemas climáticos tende a produzir situações problemáticas para a agricultura aumentará as possibilidades de uma redução da oferta de comida que pesará no bolso dos consumidores.
Neste cenário, enquanto CDU, Verdes e Sociais-democratas (SPD) vem assistindo a uma progressiva redução das preferências dos eleitores, a ultradireita, representada pela Alternativa para a Alemanha (AfD), segue em franco crescimento graças às propostas com as quais o partido afirma priorizar a população autóctone.[22] A indefinição desta posição permite que o agrupamento adapte seu discurso às mais variadas circunstâncias.
Por exemplo, entre os jovens que desejam um país onde seja possível viver sem medo, o discurso anti-imigração da AfD ganha o sentido de um controle rígido das fronteiras e da criminalidade na qual o protagonismo de alguns imigrantes acabou servindo de justificativa para atitudes discriminatórias e xenófobas contra todos eles. Daí a manifestar o receio pelo qual a “raça alemã” estaria sendo ameaçada por uma comunidade cujas trajetórias culturais e religiosas não a levarão a assimilar os valores e as vivências dos autóctones é um passo que já está em andamento. Some isso à ideia pela qual as deportações em massa para os países de origem farão com que só os cidadãos e as pessoas que têm direito de asilo na Alemanha usarão os serviços públicos do Estado, garantindo assim uma melhora do atendimento a custos menores, e terá uma ideia do por que mais gente começa a ouvir a ultradireita.[23]
Ao longo dos seus 13 anos de existência a AfD ganhou destaque em volta de questões que a colocaram ao centro de polêmicas acirradas. Lembramos, por exemplo, da releitura histórica pela qual Hitler teria sido um “comunista”; da necessidade de a Alemanha sair da União Europeia; da constatação que o boicote ao gás russo levou ao fim do milagre econômico alemão, razão pela qual a proposta de voltar a comprar os hidrocarbonetos vendidos por Moscou se somou à defesa de prolongar a utilização das térmicas a carvão, de reconectar as usinas nucleares existentes e de construir outras para baratear os preços da energia; da ideia pela qual as posturas do Ocidente provocaram a invasão da Ucrânia pela Rússia, daí a urgência de a Alemanha sair da OTAN a fim de reconstruir com Moscou relações de confiança capazes de exorcizar qualquer ameaça de expansão do conflito para o seu território; do propósito de encerrar todos os estudos relativos às questões de gênero e de expulsar os docentes que os promoveram para que os recursos empregados nesta área sejam direcionados ao que é essencial para toda a população; e do fim dos financiamentos a juros próximos do zero para países da União Europeia em dificuldades financeira que acabam sendo custeados com o aumento dos impostos pagos pelos alemães.[24]
Em 2025, o resultado deste dialogo da AfD com o povo simples levou a situações preocupantes. Na cidade de Görlitz, situada na fronteira com a Polônia, um em cada dois habitantes afirmava ter votado nos candidatos da ultradireita por um motivo muito simples: “Só eles lidam com os problemas do povo”.[25] Em abril de 2026, a pesquisa de opinião do Instituto ILSA mostrou que, no país inteiro, a AfD havia alcançado 28,0% da preferência dos eleitores enquanto a CDU vinha em segundo lugar com 24,0%, o SPD, parceiro da atual coalizão de governo, contava com 14,0%, os Verdes com 12,0% e o partido A Esquerda com 11,0%.[26] Ainda que, no momento, nenhuma destas forças políticas se mostre propensa a costurar uma aliança de governo que envolva a ultradireita, é inegável que, hoje, a AfD conta com respaldo suficiente para se apresentar como o partido politicamente mais forte.
O que acontecerá com a Alemanha, caso um número maior de pessoas se sinta abandonado pelos partidos tradicionais? Em que medida o avanço da ultradireita pode viabilizar uma guinada em relação à Rússia, à OTAN e à própria União Europeia? Em um país que se prepara para ter o exército mais forte da Europa, até que ponto o radicalismo da AfD ajudará os alemães a colocar em dúvida as verdadeiras intenções e interesses deste agrupamento? Ou será que, em nome de algum benefício imediato, muitos irão aderir a um viés autoritário capaz de deteriorar as bases da democracia alemã?
No momento em que escrevemos não temos respostas para estas perguntas. Tememos que o diálogo com os sentimentos que está sendo tecido pela AfD neutralize os alertas de uma razão que reflete criticamente sobre os acontecimentos. A escalada militar que deteriora com perigosas sementes de guerra os fundamentos políticos e econômicos de uma paz que percorreu mais de oito décadas abre possibilidades de alterações incontroláveis na correlação de forças no interior da Alemanha. Em nome da necessidade de levar a sério as demandas do povo, os grupos de poder que sustentam a ultradireita trabalham para que as próximas eleições marquem o momento em que podem sair dos seus esconderijos para ir à forra.
Emilio Gennari, Brasil, 12 de junho de 2026.
[1] Você pode encontrar as informações apresentadas na introdução e outros detalhes sobre as mesmas em:
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Confer%C3%AAncia_de_Potsdam
- https://brasilescola.uol.com.br/historiag/conferencia-de-potsdam.htm
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza%C3%A7%C3%A3o_do_Tratado_do_Atl%C3%A2ntico_Norte
- https://www.bundeswehr.de/en/operations
- https://www.deutschland.de/pt-br/topic/politica/alemanha-apoia-missoes-de-paz
- https://www.bbc.com/mundo/articles/c070190m338o
Acesso realizado em 30.05.2026.
[2] Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/23/desenvolver-forcas-nucleares-da-russia-e-prioridade-absoluta-diz-putin.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acesso realizado em 25.02.2026.
[3] Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/05/12/russia-testa-missil-balistico-intercontinental-e-diz-que-vai-lanca-lo-ate-o-fim-do-ano.ghtml?mrfhud=true&utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias
Acesso realizado em 15.05.2026.
[4] Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/12/11/otan-precisa-se-preparar-guerra-escala-que-nossos-avos-enfrentaram.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias
Acesso realizado em 14.12.2025.
[5] Em: https://g1.globo.com/mundo/blog/sandra-cohen/post/2026/01/19/em-um-ano-na-casa-branca-trump-escancarou-a-fragilidade-da-europa.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias e em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/20/pentagono-planeja-reduzir-participacao-dos-eua-na-otan-diz-jornal.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acesso realizado em 21.01.2026.
[6] Você pode ter encontrar estas e outras informações sobre o tema em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2025/12/28/abrigos-antiaereos-e-treinamento-em-frio-intenso-finlandia-reforca-preparo-militar-diante-de-tensao-com-a-russia.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias e em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/06/russia-finlandia-tensoes-armas-nucleares.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acessos realizados, respectivamente, em 30.12.2025 e 08.03.2026.
[7] Estas e outras informações sobre o tema estão disponíveis em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/06/polonia-anuncia-treinamento-de-militar-de-400-mil-pessoas-em-2026.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias e em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/05/21/eua-anunciam-envio-de-5-mil-soldados-a-polonia.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias
Acessos realizados, respectivamente, em 07.11.2025 e em 23.05.2026.
[8] Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/02/franca-anuncia-aumento-de-arsenal-nuclear-para-proteger-europa-em-meio-a-guerras-na-ucrania-e-no-ira.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias
Acesso realizado em 03.03.2026.
[9] Em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwy8jz7yygno Acesso realizado em 22.02.2026.
[10] Em: https://elpais.com/opinion/2026-05-02/el-grave-error-del-actual-rearme-europeo.html Acesso realizado em 03.05.2026.
[11] Em: https://www.bbc.com/mundo/articles/c070190m338o Acesso realizado em 30.05.2026.
[12] Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/16/chefes-militares-do-reino-unido-e-alemanha-defendem-rearmamento-europeu-contra-a-russia.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias e em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwy8jz7yygno Acessos realizados em 22.02.2026.
[13] Em: https://elpais.com/economia/negocios/2026-03-02/el-rearme-europeo-da-alas-al-gigante-armamentistico-rheinmetall.html Acesso realizado em 04.03.2026.
[14] Em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/01/24/europa-el-bano-de-realidad-de-meloni-a-los-lideres-sobre-una-confrontacion-con-trump-se-forma-un-nuevo-eje-de-poder-dentro-de-la-ue/ e em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/05/07/alemania-el-nuevo-documento-estrategico-de-las-fuerzas-armadas-alemanas-prepara-al-pais-para-una-gran-guerra-en-europa-del-este/ Acessos realizados, respectivamente, em 27.01.2026 e em 09.05.2026.
[15] Em: https://cincodias.elpais.com/companias/2026-06-08/alemania-y-francia-cancelan-el-desarrollo-conjunto-del-futuro-avion-de-combate-europeo-por-100000-millones.html Acesso realizado em 09.06.2026.
[16] Você pode ter acesso a estas e outras informações sobre o assunto em:
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/c33lrvzv23po
Acessos realizados em 04.05.2026.
[17] Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/12/03/alemanha-mobiliza-escudo-antimisseis-falha-defesa-aerea-otan.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acesso realizado em 05.12.2025
[18] Você pode encontrar estas e outras informações em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/06/09/febre-dos-bunkers-abrigos-antibomba-viram-negocio-em-alta-na-alemanha.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias e em: https://www.dw.com/pt-br/alemanha-registra-alta-de-20-em-interessados-em-seguir-carreira-militar/a-76834598 Acessos realizados em 09.06.2026.
[19] Em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/05/28/alemania-insinuan-la-salida-del-lider-de-la-principal-potencia-europea/ Acesso realizado em 30.05.2026.
[20] Estas e outras informações foram publicadas em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/04/19/alemania-envia-millones-en-armamento-a-israel-mientras-impone-recortes-masivos-en-sanidad/ Acesso realizado em 21.04.2026.
[21] Em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/04/26/europa-alemania-y-paises-bajos-exigen-recortes-en-agricultura-y-regiones-para-priorizar-el-rearme/ Acesso realizado em 28.04.2026.
[22] Para ter uma ideia da evolução eleitoral da AfD, você pode consultar os links que seguem:
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cg4ky0r709go
Acessos realizados em 15.02.2025.
[23] Em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/clyeqnpyz50o Acesso realizado em 13.02.2025.
[24] Estas e outras informações podem ser encontradas em:
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cg4ky0r709go
- https://www.bbc.com/mundo/articles/c62kww5zrw5o Acessos realizados em 01.03.2025.
[25] Em: https://elpais.com/internacional/2025-02-25/gorlitz-donde-uno-de-cada-dos-alemanes-vota-a-la-ultraderecha-solo-ellos-se-ocupan-de-los-problemas-de-la-gente.html Acesso realizado em 28.02.2025.
[26] Em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/04/26/alemania-lider-opositora-alemana-reacciona-a-indice-record-de-afd-en-sondeos/ Acesso realizado em 28.04.2026.

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