No presente texto Emilio Gennari analisa os impactos da Inteligência Artificial sobre a nossa atualidade e as consequências que se apresentam no horizonte próximo.
Indicamos após a leitura nosso texto "Mudaram as Estações Nada Mudou, Mas Eu Sei Que Alguma Coisa Aconteceu", que trata dos impactos dos avanços tecnológicos.
Boa leitura!
Ao longo dos últimos anos, a mídia têm apresentado fatos, comentários e análises que mesclam os temores e as promessas da Inteligência Artificial (IA). A montanha russa dos problemas e das possibilidades relatadas pelos noticiários mergulha as pessoas num turbilhão de sensações contrastantes.
O espanto causado pelo urso de pelúcia que respondia à curiosidade das crianças com conselhos sexuais e dicas sobre onde encontrar objetos perigosos,[1] a perplexidade pela interrupção da linha ferroviária no noroeste da Inglaterra em função de uma imagem, criada pela IA, que mostrava uma ponte parcialmente destruída por um terremoto de baixa magnitude,[2] a indignação pela discriminação das mulheres constatada nas análises das solicitações de emprego[3] e o desconcerto pela resposta do ChatGPT que sugeria o suicídio como saída a quem, em depressão e sem dinheiro para consultar um especialista, pediu ajuda aos seus algoritmos[4] são exemplos que permitem visualizar os problemas de um recurso inovador.
Por outro lado, ninguém duvida que a mesma Inteligência Artificial proporciona certo encantamento. Estamos nos referindo, por exemplo, às promessas de diagnósticos médicos de doenças raras, à criação de imagens e vídeos colocada ao alcance de todos, à capacidade de realizar pesquisas em tempo recorde, de auxiliar alunos com dificuldade de aprendizagem a partir de uma avaliação individualizada de suas lacunas cognitivas e até mesmo de criar parceiros e parceiras virtuais, cujo grau de realismo e afinidade transforma avatares em companheiros ideais para todas as horas.[5]
Um encantamento que cresce à medida que a IA permite replicar personalidades humanas com 85% de precisão e traz alívio às famílias enlutadas com a possibilidade de ver e conversar com entes queridos que partiram deste mundo graças à reprodução de padrões de imagem, fala e personalidade dos mesmos extraídos dos registros disponibilizados pelos próprios familiares.
Nenhuma destas “maravilhas” foi criada e desenvolvida sem fins lucrativos. Ter “gêmeos digitais” de pessoas vivas permite antecipar possíveis respostas ao lançamento de novos produtos, analisar as reações a eventos sociais significativos ou avaliar o impacto das políticas públicas na aprovação popular sem gastar dinheiro e energias em pesquisas de campo. No caso dos robôs que permitem conversar com os mortos, o volume de dados que define o grau de realismo está diretamente vinculado ao tipo de plano que as famílias pagam para a manutenção deste serviço.[6]
Sem que percebamos, a IA se apresenta como algo “mágico” e leva multidões a não desconfiar que o aprimoramento dos seus algoritmos guarda uma relação direta com a evolução da ordem desejada pelos grupos de poder que detêm o seu controle. Nem os erros e os problemas da IA, nem o enorme contingente de trabalhadores precarizados que alimentam os bancos de dados,[7] nem o medo de que os algoritmos irão demitir seus próprios desenvolvedores,[8] nem as propostas de emprego do setor de alta tecnologia que demandam uma dedicação de 12 horas diárias durante 6 dias por semana[9] e nem mesmo as dificuldades que a demanda de recursos naturais dos grandes centros de dados promete semear no cotidiano dos moradores onde serão instalados[10] parecem ofuscar o brilho desta mágica.
Mais raramente ainda, percebemos o potencial destruidor da aplicação da Inteligência Artificial aos cenários de guerra[11] e à possibilidade de manipular os sentimentos das pessoas comuns a fim de obter sua adesão ativa a projetos desumanos e devastadores. Sendo assim, duas perguntas esboçam o caminho das nossas reflexões: o que as grandes empresas de IA precisam conquistar para que os interesses das minorias privilegiadas promovam a servidão ativa de contingentes significativos da população? Que caminhos a manipulação de suas percepções da realidade devem percorrer para que estes entreguem a seus algozes a realização dos seus sonhos e esperanças de futuro?
1. O que faz a alma dos simples vibrar de paixão – lições do passado
O que leva uma mãe a sentir-se orgulhosa de oferecer um dos seus filhos às guerras do Führer sabendo da possibilidade de ele morrer nos campos de batalha? Por que uma multidão de pessoas de todas as idades marcava presença nos eventos da Alemanha hitlerista e expressava o seu apoio ao líder máximo do país com um envolvimento que beirava o delírio? Por que esta devoção se manteve em graus elevados mesmo quando tudo indicava que a derrota do Terceiro Reich era iminente? Como é possível que as famílias dos garotos de 16 anos de idade recrutados para as frentes de batalha não conseguissem ver que os fatos apontavam na direção oposta à da propaganda nazista? Gente insana atrás de líderes igualmente insanos?
Em 1947, o livro do Dr. Douglas Kelly, psiquiatra do exército dos EUA que acompanhou os 22 presos do alto escalão nazista durante a detenção no presídio de Nuremberg traz conclusões desconcertantes.[12] Segundo a sua avaliação, “A insanidade não explica os nazistas. Eles eram simplesmente criaturas do seu ambiente, como todos os humanos são; e eles também eram, em maior grau do que a maioria dos humanos, os criadores do seu ambiente”. O segredo do sucesso, no fundo, não era nenhum segredo: não é o raciocínio lógico sobre dados econômicos, acontecimentos históricos e avaliações das políticas de governo a movimentar as multidões, mas, sim, o fazer vibrar nelas sentimentos e paixões capazes de silenciar qualquer traço crítico da razão, de dominar o comportamento das pessoas a ponto de elas não terem receio de agredir os supostos inimigos da nação. Dito de outra forma, quanto mais os alemães falavam a partir de seus preconceitos, frustrações, motivos de orgulho e de tudo o que abrange a seara dos sentimentos, mais facilmente podiam ser manipulados, dirigidos, orientados a pensarem suas vidas tendo Hitler como mentor e realizador de um futuro promissor.
Ainda segundo o Dr. Kelly, o Führer e seus principais colaboradores não partiram do nada. A cúpula nazista usou o que já estava presente no ambiente cultural do país para dialogar com a frustração e o sentimento de humilhação que grassava na Alemanha após a derrota na Primeira Guerra Mundial. De acordo com as observações do psiquiatra de Nuremberg, “É evidente que os nazistas sozinhos não reverteram o fluxo da cultura alemã; o culto à barbárie ainda tinha raízes vivas lá em 1923.
Nem Hitler e Rosenberg inventaram o mito da super-raça alemã. Aqui está a evidência na mesma sequência: «Somos o sal da terra... Deus nos criou para que civilizássemos o mundo.» (Kaiser Guilherme II, em seu discurso em Tânger, 1905.). «Os alemães são o povo escolhido da terra. Eles cumprirão seu destino, que é dirigir o mundo e governar outras nações para o bem da humanidade.» (Professor von Seyden, Frankfurter Zeitung, 1914).
«O Governo decidiu estender a ordem alemã ao mundo inteiro. O mundo terá que lidar com a economia alemã, com os soldados alemães e com os canhões.» (Dr. Goebbels, em um discurso em 23 de março de 1936.)
E quanto à política de trabalho escravo da Alemanha nazista? A seguinte declaração de Ernst Haase, professor da Universidade de Leipzig e presidente da Liga Pangermânica, data de 1905 e antecipa os crimes de Frank, Rosenberg e Sauckel. «Quem no futuro fará o trabalho pesado e sujo que toda comunidade nacional baseada no trabalho sempre precisará?... Será que caberá a alguma parte do nosso povo alemão ocupar tais posições de escravos? A solução consiste em condenarmos os estrangeiros europeus, os poloneses, tchecos, judeus, italianos e assim por diante... a essas ocupações de escravos.»
Estes são apenas alguns, nem um centésimo do todo, dos incitamentos específicos com os quais o povo alemão foi bombardeado durante o último meio século. Pode-se acrescentar a eles quase duzentos anos de generalizações filosóficas no mesmo tom como os escritos de Herder, Schlegel, Schelling, Hegel, Mueller, List, Gobineau, Wagner e Chamberlain. Foram as teorias raciais de Richard Wagner e seu genro inglês, Houston Stewart Chamberlain, que despertaram o antissemitismo na Alemanha do século XIX e prepararam o povo para os terríveis pogroms dos nazistas.
Outras ideias alemãs que os nazistas utilizaram foram as do Princípio do Führer, do Herói Popular (Hitler) e da Classe de Elite (o Partido). O que Hitler fez foi se apropriar desses conceitos alemães estabelecidos e simplificá-los, tornando-os mais primitivos. Eles já faziam parte emocionalmente do povo; e quando Hitler os reafirmou, ele mobilizou todo o conteúdo emocional do povo para o seu Reich.
Hitler encontrou um povo previamente condicionado a várias ideologias explosivas, frustrado, frustrado pela derrota, faminto, cansado pela inflação e homogêneo. Ele conquistou a atenção deles prometendo soluções para os problemas mais urgentes: comida e abrigo, e as indignidades da derrota. Em seguida, ele capturou o controle emocional deles apelando para suas crenças e conceitos condicionais: antissemitismo, os costumes tribais de uma nação guerreira e assim por diante. A partir daí, ele fez com eles o que quis.”
Para o Dr. Kelly, o ensaio definitivo que validaria a possibilidade de ascensão do nazismo em âmbito nacional ocorreu em janeiro de 1933, durante as eleições locais no Estado de Lippe-Detmond. Por ser um dos menores Estados do país, “Normalmente, ninguém fora de Lippe-Detmold teria interesse vital nessa eleição. Mas Hitler decidiu fazer dela um caso de teste. Todos os oradores e agitadores mais brilhantes e incansáveis do Partido invadiram aquele pequeno estado. Hitler discursava três ou quatro vezes por dia, até mesmo nas menores aldeias e para plateias de não mais de cinquenta pessoas. O mesmo fizeram os outros. A população suscetível de Lippe-Detmold foi conquistada por toda a atenção, pelas promessas dadas livremente, pelos apelos emocionais. Como resultado, o Nacional-Socialismo obteve uma vitória esmagadora.
Então Goebbels entrou em ação. Com argumentos que lembravam «Como vai o Maine», a imprensa do Partido anunciou a eleição como sintomática da vontade de toda a nação alemã. O governo ficou impressionado; Von Papen pressionou os altos escalões; ele conversou com Schleicher, que renunciou à Chancelaria, e Hitler foi nomeado Chanceler do Reich em 30 de janeiro de 1933.”
No ambiente do pós-guerra (onde o nazismo era visto como uma experiência absurda, irracional, fruto de pessoas insanas e que as forças democráticas da América certamente seriam capazes de derrotar em seu nascedouro) Kelly chocou a opinião pública estadunidense, dizendo: “Somos, então, tão diferentes daquelas pessoas sobre as quais o totalitarismo foi dolorosa e brutalmente imposto? A resposta é que, até onde posso determinar, não há diferença real entre o alemão e o americano, exceto pela crença mais ardente do alemão em suas ideologias. É verdade que a nação alemã tem uma cultura mais homogênea. Ela tem uma fala comum, uma filosofia comum, talvez, por um período muito mais longo do que nós como nação. Consequentemente, a Alemanha seria mais facilmente influenciada por uma propaganda habilidosa. Mas, além de nossa falta de homogeneidade e tudo o que isso implica em origens variadas, um sistema bipartidário e garantias legais «no papel» dos direitos das minorias, estou convencido de que, hoje, há pouco na América que poderia impedir o estabelecimento de um estado semelhante ao nazista.”
E, após analisar alguns personagens que marcavam as crônicas da política local, concluiu: “Eles fazem isso da mesma forma que Hitler e seus companheiros. Eles usam o racismo como método para obter poder pessoal, engrandecimento político ou riqueza individual. Estamos permitindo que o racismo seja usado aqui para esses fins. Estou convencido de que o uso contínuo desses mitos neste país nos levará a nos juntar aos criminosos nazistas no esgoto da civilização.”
Resumindo, para Kelly, a capacidade de ler o sentimento popular deu ao nazismo a chave com a qual os grupos de poder colocaram a ampla maioria dos alemães a serviço dos seus interesses. Suprimir a capacidade de pensar criticamente foi a consequência imediata de um esforço de propaganda que dirigia ao coração das pessoas as ideias que se destinavam à cabeça para que as sensações por elas despertadas inebriassem a população a ponto de ela contribuir animadamente para o extermínio de milhões de seres humanos, em nome de um sistema cujas bases eram vistas como justas.
Será que a Inteligência Artificial pode proporcionar esta mesma sintonia? É o que analisaremos nas reflexões que seguem.
2. A Inteligência Artificial a serviço dos grupos de poder.
Não é de hoje que a vida de bilhões de pessoas é exposta nas vitrines das redes sociais. Amizades, passeios, sensações, reações a determinados acontecimentos, emoções, traços do que gostamos ou detestamos, eventos que despertam a nossa indignação, situações diante das quais permanecemos indiferentes, os filtros com os quais damos um toque de individualidade aos modismos dominantes e todo o mais que permite mapear o nosso comportamento podem ser encontrados nos perfis, likes e comentários que semeamos nas redes.
Facilmente classificáveis quando se trata de um grupo reduzido, os elementos que permitem entrar em sintonia com a alma da maioria da população demandam um trabalho de sistematização que só pode ser executado pelos algoritmos da Inteligência Artificial. Estamos falando de trilhões de dados onde angústias, alegrias e vontades dispersas se mesclam a caprichos nascidos no microcosmo do indivíduo, a sonhos, a convicções cuja força pode criar um mundo paralelo ao real num processo que define a cada instante o que é importante para determinados grupos humanos. Por vivermos numa sociedade bem mais diversificada, complexa e mutante em relação à que conheceu a ascensão do nazismo, a necessidade de fazer vibrar a alma humana apresenta desafios mais complexos.
Encontrar caminhos que, ao dialogar com emoções e sentimentos, desativam o senso crítico das pessoas passa necessariamente pela capacidade de fazer com que a maioria não interprete as vibrações produzidas pelas mensagens veiculadas como o resultado de algo que vem de fora, mas sim como a ressonância das próprias crenças e percepções. Ao sentirem que o diálogo materializa o que sempre consideraram como próprio de sua individualidade, sujeitos e grupos enveredam num processo de autopersuasão que anula a possibilidade de perceber a manipulação que está sendo orquestrada na exata medida em que rejeita críticas e alertas vindos de pessoas próximas. Algo que, entre os mais simples, pode se expressar através de um “como pode não ser verdade se é exatamente o que penso e sinto?”.
Aberta esta porta, o esforço de convencimento dos grupos de poder é potencializado por um fator comum a todos os seres humanos: o viés da confirmação. Trata-se de um mecanismo pelo qual, com base na própria experiência de vida e no sentido atribuído à mesma, as pessoas buscam o que confirma suas convicções e erguem barreiras ao que, com base na materialidade dos fatos, prova que estão no caminho errado.
Quanto mais amplo se torna este processo, mais os indivíduos tendem a acreditar que a sua interpretação da realidade é a realidade e a rejeitar ou ignorar o que contradiz suas posições. É assim que a maioria transita do colocar sob suspeita as vozes discordantes a se tornar imune aos alertas emitidos pelos próprios acontecimentos. Cega diante do real, a maioria vê como ameaças as tentativas de leva-la a mudar de ideia e adere a quem a empurra a agir de forma irracional.[13]
Por isso, para os grupos de poder, a sintonia fina com os sentimentos e as emoções do povo simples é muito mais do que um “acessório importante” da comunicação. Encontra-la possibilita uma conformidade ativa das pessoas às demandas da ordem social que está sendo construída e naturaliza como justa e oportuna a punição de quem pensa e age fora dos novos padrões que integram as mudanças do senso comum.
Através da IA, as elites não buscam apenas a capacidade de atrelar a vida e os projetos dos de baixos às exigências dos de cima, mas sim o poder de fazer com que os simples vibrem de paixão pelas metas que estabelecem. Assim como, num violão afinado, o som produzido por uma corda na posição que emite a nota da que se encontra abaixo dela faz com que esta última vibre sem que os dedos a toquem, aumentando assim a propagação do som, a sintonia obtida com a aplicação da IA ao comportamento humano deve produzir uma ressonância capaz de suscitar no povo a lealdade desejada pelos grupos de poder sem que estes se esforcem para consegui-la.
Para termos uma ideia do que isso significa, vamos voltar a janeiro de 2016. No período anterior às primárias do Partido Republicano para a escolha do candidato à Presidência dos EUA, Donald Trump surpreendeu todos ao afirmar: “Tenho os eleitores mais leais. Alguma vez vocês viram algo assim? Eu poderia parar na metade da Quinta Avenida, disparar contra as pessoas e não perderia eleitores”.[14] Sua capacidade de ler, dialogar e fazer vibrar o sentimento popular fez com que, naquele ano, ele fosse eleito para o seu primeiro mandato presidencial com um programa de governo que se opunha aos interesses de uma porcentagem considerável de quem votou nele.
No momento em que escrevemos, a possibilidade de a IA ler, prever e influenciar os comportamentos humanos deu passos consideráveis em relação à época em que Trump pronunciou a frase que a mídia mundial repercutiu com os mais diferentes comentários. Alguns exemplos ajudam a ver os avanços promovidos pelos grandes conglomerados empresariais que apostam na sintonia a ser encontrada pela IA.
Em março deste ano, cientistas e psicólogos expressaram suas preocupações em relação à padronização da forma em que os adeptos dos Chatbots de Inteligência Artificial pensam, escrevem e falam. Quanto mais cresce o número de pessoas que usam a IA para realizar suas tarefas, menor é a diversidade de pensamentos e percepções que estão na base da interpretação do real.
Mantida esta condição, devemos esperar que, em breve, os algoritmos terão socializado entre as pessoas de todas as classes sociais o que pode ser entendido como um discurso confiável, a perspectiva correta de interpretar um determinado acontecimento e até mesmo o que podemos chamar de uma “boa” forma de raciocinar. À medida que este processo avança, os não usuários dos Chatbots se sentirão pressionados a um progressivo alinhamento com o pensamento dominante, ainda mais no Brasil que é um dos maiores usuários mundiais destas ferramentas.[15]
O que parece estranho num mundo onde as subjetividades são enaltecidas ganha sentido quando nos deparamos com os resultados de duas pesquisas. Os primeiros constam de um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, e mostram que os usuários das ferramentas de IA tendem a apresentar um desempenho bem inferior nos níveis neural, linguístico e comportamental quando comparados aos que não são adeptos dos Chatboths.
O impacto nas habilidades de aprendizagem constatado pelos pesquisadores se manifestou na menor capacidade de responder perguntas sobre o próprio trabalho instantes após sua finalização e no fato de que 83,0% dos usuários de IA não conseguiu recitar de cabeça uma única frase do próprio texto ante 11.0% das pessoas que usaram apenas um buscador de conteúdo na sua elaboração. Concretamente, a extrema fragilidade da bagagem cultural pelo uso da IA impede de reunir elementos mínimos capazes de fazer com que seus usuários critiquem o pensamento dominante, um passo essencial para que a manipulação atinja novos estágios.[16]
A segunda pesquisa mostra que, a partir dos dados coletados, a IA conseguiu prever as decisões de um grupo humano em até 64,0% dos testes realizados.[17] Se, de um lado, esta “habilidade” do algoritmo é uma mão na roda no caso do lançamento de um novo produto no mercado consumidor, de outro, o grau de acerto em outros campos da vida em sociedade oferece certo grau de segurança na hora de provocar determinadas reações dos eleitores. Concretamente, a Inteligência Artificial pode plantar estímulos que geram indignação, revolta social e insatisfação com os governos de plantão mesmo quando os dados positivos da economia deveriam sugerir posturas opostas.
De acordo com Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia e Administração da USP, um dos motivos pelos quais o desemprego caiu, a renda média cresceu acima da inflação, os endividados contam com planos para recuperarem suas finanças, mas para um contingente expressivo da população a economia vai mal, está na capacidade de as redes sociais levarem as pessoas a almejarem níveis de consumo muito superiores ao crescimento da renda. Se, em 2003, ter uma geladeira nova, comprar a primeira máquina de lavar roupa ou trocar o fogão ocupavam um lugar de destaque nos sonhos de consumo da população e, uma vez adquiridos, estes bens eram a prova material de que a economia caminhava no rumo certo, em 2026, as redes projetam o padrão de consumo dos ricos como termo de comparação para a percepção econômica das pessoas.
À diferença do que ocorreu duas décadas atrás, os desejos da maioria deixaram de ser representados pelos bens que os moradores mais afortunados do bairro tinham em suas casas para ter como parâmetro o luxo que os influencers ostentam em suas apresentações ou o padrão de vida de uma família da classe média-alta. Concretamente, estamos nos referindo a algo ao qual só é possível ter acesso se os ganhos derem um salto muito superior ao que o crescimento econômico e a queda do desemprego podem proporcionar à renda obtida com o trabalho. Se isso não bastasse, quanto mais os algoritmos estimulam o endividamento para saborear alguma migalha do paraíso dos ricos e ajudam a aumentar a frustração oriunda do descompasso entre o desejo e a realidade, mais fortes se tornam as críticas à política econômica vigente.[18]
As reflexões que traçamos até o momento esboçam apenas o resultado dos passos conhecidos de uma Inteligência Artificial cujas maiores possibilidades de proporcionar o controle aprimorado das emoções são guardadas a sete chaves pelas grandes corporações. Deter a exclusividade da capacidade de fazer vibrar os sentimentos da maioria possibilita definir o momento, os objetivos, os rumos e contra quem serão direcionadas as mensagens veiculadas para este fim. Desta forma, a capacidade de manipular as emoções nos setores essenciais da convivência social, pode levar a maioria a assimilar como justas e necessárias medidas destrutivas dos seus direitos e a aprovar posturas e sistemas autoritários.
Corações e mentes da maioria da população já aceitam que o mérito justifique a eliminação dos direitos trabalhistas e das formas elementares de proteção social, apostam num futuro onde o progresso demanda a condenação dos direitos humanos e a violação sistemática do direito internacional, assimilam como verdade científica a negação da ciência, se engajam em “batalhas virtuais” que, apelando à “sua” liberdade de expressão pintam projetos autoritários com as cores de um futuro promissor.
Sim, eu sei que, para os grupos de poder avançarem com seus planos, eles precisam de um grau de servidão voluntária que só pode ser obtido quando a maioria se torna incapaz de pensar fora dos paradigmas estabelecidos. A má notícia é de que isso já é constatado em vários campos do agir humano.
Em entrevista à BBC, a jornalista Karen Hao, autora do livro O império da IA, diz: “Se você pensar nas formas como a IA já nos impactou, [verá que] ela está mudando a forma como trabalhamos e os nossos relacionamentos. Até nas gerações mais novas, você vê que elas não conseguem manter uma conversa sem consultar o ChatGPT, devido a quanto se tornaram dependentes e permitiram que essa tecnologia se incorporasse em suas vidas. Essas são formas óbvias de como a indústria de tecnologia já exerce esse tipo de influência controladora sobre pensamento crítico, educação, até mesmo nossa visão de futuro, porque se você não consegue sequer pensar independentemente da tecnologia, então a empresa consegue pintar a visão de futuro para você através da imposição de seus valores e sistemas de pensamento à medida que você se torna cada vez mais viciado na tecnologia”.[19]
O que acontecerá com os próximos aperfeiçoamentos da IA? Quais serão as capacidades destrutivas que colocarão em movimento? Será que, em formas e modalidades diferentes, pais e mães se sentirão orgulhosos de entregar um filho aos novos “Führer” que farão vibrar suas almas ao dialogar com seus sentimentos e emoções?
Divulgada no primeiro dia de julho deste ano, a resposta curta e grossa de John Ratcliff, diretor da Agência Central de Inteligência dos EUA, aponta uma possibilidade apavorante. Ao reiterar que as tecnologias emergentes são sua prioridade máxima, John se refere aos modelos mais avançados de IA, dizendo: “Não seria um absurdo, como já mencionamos, comparar suas capacidades com as de armas nucleares digitais”.[20]
Para bom entendedor...meia palavra basta.
Emilio Gennari, Brasil, 21 de julho de 2026.
[1] Em: https://g1.globo.com/inovacao/noticia/2025/11/20/venda-de-urso-de-pelucia-com-ia-e-suspensa-apos-brinquedo-dar-conselhos-sexuais.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias
Acesso realizado em 22.11.2025.
[2] Em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/czj0md239l9o Acesso realizado em 09.12.2025.
[3] Em: https://g1.globo.com/bemestar/blog/longevidade-modo-de-usar/post/2025/11/11/estudo-revela-vies-da-inteligencia-artificial-contra-as-mulheres.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias
Acesso realizado em 14.11.2026
[4] Em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2025/11/15/eu-queria-que-o-chatgpt-me-ajudasse-por-que-ele-me-aconselhou-sobre-como-me-matar.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias
Acesso realizado em 18.11.2025
[5] Para entendermos a profundidade deste processo e as preocupações que desperta, basta pensar que, na China, o governo se viu forçado a criar normas que limitam a possibilidade destes avatares agradarem os usuários de forma a criar dependência emocional ou vício ou, ainda, a prejudicarem as relações interpessoais reais em função do encantamento por eles produzido. Estas medidas foram recebidas com tristeza e perplexidade pelos usuários, particularmente por aqueles que viam em seus parceiros/as virtuais um caminho para conseguir o afeto e o amor aos quais não tinham acesso. Maiores informações sobre o tema podem ser encontradas em:
[6] Você pode encontrar estas e outras informações sobre os mesmos assuntos em:
Acesso realizados entre 14.11.2025 e 03.12.2025.
[7] Trouxemos alguns dados sobre este tema ao falar dos “operários de dados” no texto Inteligência Artificial – promessas e realidades, disponível em: https://drive.google.com/drive/folders/1YoRRdUt1RVr31bNvhMPvIFt8pBwWYoJA?usp=sharing
[8] Em março deste ano, a Meta, controladora do Whatsapp, do Facebook e do Instagram, anunciou que os investimentos em IA possibilitarão uma reestruturação das tarefas e competências do seu quadro de funcionários que levará à eliminação de 20,0% dos seus 79.000 empregados. No final de maio, após a consolidação dos sistemas de IA recém-implantados, a Oracle, uma gigante em computação em nuvem e produção de software, confirmou o corte de 21.000 postos de trabalho. Pouco depois, a Amazon, que domina o comércio eletrônico, em vários países, confirmou que os planos de investir 200 bilhões de dólares levarão à demissão de 30.000 trabalhadores e trabalhadoras em 2027. São apenas alguns exemplos de eliminação progressiva de uma parte considerável da força de trabalho contratada num processo que vem se desenvolvendo há anos e que está longe de acabar.
Em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/03/25/meta-vai-demitir-centenas-de-funcionarios.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias e em: https://www.bbc.com/mundo/articles/c14y701n3meo Acessos realizados em 28.06.2026.
[9] Em: https://www.bbc.com/mundo/articles/c5yk3115qpno Acesso realizado em 15.02.2026
[10] Para termos uma ideia do que isso significa, basta pensar que, em 2019, o data-center a ser construído pela Alphabet, controladora do Google, em Cerrillos (uma comunidade na periferia de Santiago do Chile, país com histórico de secas) demandaria 169 litros de água potável por segundo para esfriar seus servidores, quantidade mil vezes maior da que era consumida pelos 89.000 moradores. Em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2025/06/25/o-desgastante-trabalho-humano-por-tras-do-chatgpt-nao-e-tao-emocionante-quando-descobrimos-o-que-envolve.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acesso realizado em 27.06.2025
[11] É o caso, por exemplo, do Projeto Marven, desenvolvido pelos EUA, cujos algoritmos permitiram identificar e escolher alvos em espaços de tempo muitos mais reduzidos em relação aos prazos em que a escolha dependeria da análise “manual” das fotos de satélite pelos responsáveis militares envolvidos nesta tarefa. Neste caso, a IA não só conseguiu reduzir o tempo de definição dos alvos prioritários, como a efetividade da destruição que seria provocada.
Acesso realizado em 30.04.2026.
[12] Estamos nos referindo ao livro de sua autoria, 22 cells in Nuremberg. Todas as referências diretas e indiretas a esse texto foram extraídas da edição da MacFadden Book publicada em Nova Iorque em 1961.
[13] Resumimos aqui as principais conclusões sobre este aspecto do comportamento humano relatadas por Elliot Aronson e Joshua Aronson em seu livro O animal social, Ed. eLivros. outubro de 2017.
[14] Em: https://www.publico.pt/2016/01/24/mundo/noticia/donald-trump-diz-que-podia-dar-um-tiro-a-alguem-e-nao-perdia-eleitores-1721258 Acesso realizado em 12.07.2026.
[15] Em: https://g1.globo.com/bemestar/blog/longevidade-modo-de-usar/post/2026/03/24/como-a-inteligencia-artificial-padroniza-a-forma-como-as-pessoas-se-expressam-e-pensam.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acesso realizado em 27.03.2026.
[16] Em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2025/06/20/escrever-texto-com-chatgpt-faz-mal-ao-cerebro-sugere-estudo.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acesso realizado em 22.06.2025.
[17] Em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2025/07/15/como-a-ia-consegue-prever-decisoes-humanas.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acesso realizado em 18.07.2025.
[18] Em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cjdgzzj25nro Acesso realizado em 13.07.2026.
[19] Transcrevemos aqui a primeira parte da entrevista com a autora divulgada em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4gynpzzyldo#:~:text=n%C3%A3o%20conseguem%20nem-,conversar,-sem%20consultar%20o Acesso realizado em 14.07.2026.

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