Imagino a sua
perplexidade diante do título. Como é possível que alguma coisa seja simples e
complexa ao mesmo tempo?
Respondemos com um
exemplo da natureza. Certamente, você já viu alguma fotografia das “catedrais
de calcário” construídas pelo gotejar da água no interior das cavernas. O
resultado da simples persistência das gotas através dos séculos criou obras
complexas que entrelaçam colunas e criam imagens de uma beleza única.
Mas...o que aconteceria
se, diante da sua insignificância e da indiferença dos humanos, estas
minúsculas quantidades de água se recusassem a mergulhar em direção ao solo? O
que seria destas catedrais se, na ausência de resultados imediatos, estes pingos
miúdos adiassem indefinidamente a queda que dará vida ao extraordinário? A resposta
é simples: sem a persistência da água, as formações de calcário não teriam como
existir.
Com a esperança ocorre
algo semelhante. Ao materializar a indignação, a simplicidade de um gesto faz
com que ter esperança não seja sinônimo de aguardar algo que ninguém sabe dizer
o que é, quem deve fazer e quando virá. É “o pouco” que, ao acontecer, encoraja
“outros poucos” a sacudirem a paralisia do medo e questionarem a indiferença dos
demais. Passo a passo, entre erros e acertos, o cotidiano concretizar-se da
esperança abre caminhos que moldam as engrenagens de uma engenharia complexa e
imprevisível. Mais um exemplo nos ajuda a expressar o que as palavras têm
dificuldade de dizer.
Após os bombardeios
perpetrados por Israel e pelos Estados Unidos, um vídeo gravado nas ruas de
Teerã, capital do Irã, mostrava uma idosa que, se apoiando numa bengala, caminhava
com dificuldade rumo aos manifestantes que, naqueles dias, começavam a repudiar
a agressão militar. Intrigado com a sua presença, um jovem repórter foi
conversar com ela. Perguntada em relação ao que estava fazendo aí, a mulher, simplesmente,
respondeu: “Vim para não deixar o campo
de batalha vazio. O inimigo tem medo
de nós, ele tem medo do povo do Irã”.
Diante do jornalista que
questionava as razões pelas quais exércitos armados até os dentes deveriam temer
uma idosa que mal se segurava em pé, ela retrucou sem titubear: “Não tenho forças, mas consigo cerrar os
meus punhos”. Em seguida, ao erguê-los como uma guerreira experiente,
acrescentou: “Eu luto com os meus punhos”.[1]
Os poderosos que
movimentam os arsenais da guerra usam a força das armas para dominar os povos
com o medo da morte. Mas estes “inimigos
do Irã” temem quem consegue tirar forças da esperança que se materializa em
atos de resistência. Para a idosa de Teerã, transformar sofrimentos em resposta
que nega a submissão começa com o “não
deixar o campo de batalha vazio”. Ninguém lhe garante que dê certo.
Contudo, sem a simplicidade desta presença, a guerreira sabe que será
impossível contagiar milhares de outros com a mesma rebeldia e, menos ainda, criar
as engrenagens da engenharia de uma esperança que une forças contra o agressor.
De Teerã, vamos agora
para a Faixa de Gaza onde um povo extremado por três anos de genocídio mostra
como a esperança ganha corpo e alma para caminhar mundo afora.
Gaza: a construção de uma luz que as
trevas não apagam
Há muitas maneiras de
esboçar as feições de um genocídio e nenhuma delas consegue traduzir os dramas
humanos sofridos pelas vítimas. Fotos e vídeos oferecem uma visão da
catástrofe. O cômputo dos mortos, feridos e desaparecidos transforma pessoas em
números. A frieza dos dados que traçam as dimensões da destruição não mostra
que a fome, a piora das condições de vida e o deslocamento forçado impedem de
ver além da sobrevivência imediata, aniquilam sonhos e negam qualquer
possibilidade de paz.
Os massacres perpetrados
na Faixa de Gaza fazem com que o “olho por olho, dente por dente” seja uma
postura absurdamente desejável. Basta pensar que, para cada um dos 1.139
israelenses mortos no ataque da resistência palestina em outubro de 2023, o
exército de Israel matou 66 moradores da Faixa de Gaza, a maior parte dos quais
são mulheres e crianças.[2] Um saldo que dá novas
razões à continuidade da resistência.
a. Gaza: o inferno é aqui.
No imaginário religioso,
o inferno é um lugar de sofrimentos onde as almas pagam eternamente o castigo pelos
pecados cometidos em vida. Seja ele de labaredas de fogo, de mármores gelados
ou de trevas impenetráveis, estamos falando de um ambiente no qual a justiça
divina encerra quem promoveu o mal.
Longe das discussões teológicas,
a Faixa de Gaza é uma parte da Palestina histórica cuja população é condenada a
sofrer em vida os mais diferentes castigos coletivos devido à sua luta pelo
direito de existir como povo. Ter uma Pátria para chamar de sua, viver numa
terra onde sua identidade, sua cultura, sua história e as mais diferentes
atividades marcam os passos da vida cotidiana é o pecado que, em tempos e
formas diferentes, Israel pune impondo condições de vida que forcem os
palestinos a deixarem a sua terra.
A objetividade dos
números nos aproxima do que significa fazer com que Gaza seja o inferno
destinado a produzir a limpeza étnica. De acordo com o Escritório das Nações
Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA, pela sigla em
inglês), em pouco mais de dois anos e meio de bombardeios, 371.888 unidades
habitacionais foram destruídas ou danificadas. Bairros inteiros estão
intransitáveis em função dos escombros embaixo dos quais jazem os restos
mortais de 10.000 pessoas. Além das implicações que a decomposição dos corpos
oferece à saúde dos vivos, a retirada dos cadáveres expõe os palestinos tanto
ao perigo das bombas e dos projéteis não detonados, como dos seguidos ataques israelenses.[3]
Os sistemas de água,
saneamento básico e gestão de resíduos foram gravemente danificados. Quando é
possível, o lixo é usado como combustível para preparar as refeições e o acúmulo
dos outros rejeitos contribui para a proliferação de ratos e doenças. O que já
é particularmente difícil se torna desesperador quando Israel trava a ajuda que
ameniza esta situação.
No dia 18 de abril deste
ano, por exemplo, as forças armadas de Tel Aviv mataram dois motoristas dos
caminhões-pipa que distribuíam água potável à população, forçando a UNICEF a
suspender este serviço até que fossem restabelecidas condições mínimas de
segurança. Trocado em miúdos, se ter acesso a uma quantidade já insuficiente
deste precioso líquido era um desafio diário, cortar os pontos de abastecimento
aos quais estes trabalhadores das Nações Unidas se dirigiam seguindo as rotas definidas
pelo próprio exército israelense é tornar a falta d’água fatal para milhares de
famílias dos campos de deslocados.[4]
Desde outubro de 2023, os
bombardeios incessantes destruíram completamente 22 hospitais e levaram ao
fechamento de 58 dos 103 centros de atenção primária à saúde em operação antes
da guerra. As 16 instalações hospitalares que continuam atendendo foram danificadas
pelas explosões e funcionam apenas parcialmente. Em muitos casos, a escassez de
remédios faz com que os pacientes não recebam o que precisam, mas apenas o que
está disponível.[5]
Esta situação se agrava
quando os mísseis atingem os depósitos dos centros de saúde que restam. Algo
que ocorreu, por exemplo, no dia 1º de agosto de 2026, quando Israel bombardeou
dois dos quatros armazéns do Hospital Mártires de Al-Aqsa, no centro de Gaza,
onde eram guardados suprimentos médicos vitais e materiais de consumo
destinados aos pacientes e aos feridos que procuram ajuda.[6]
A realidade das crianças não encontra palavras
capazes de descrever tamanho sofrimento. A ONU tem denunciado que 728.000 delas
estão sem aula há mais de dois anos devido à destruição total ou parcial de
93,0% dos prédios escolares; que 58.000 menores perderam um ou ambos os pais;
que cerca de 1500 sofreram amputações; e que, praticamente todas elas estão
traumatizadas pelos bombardeios.[7]
Em 23 de junho deste ano,
a investigação das Nações Unidas concluiu que o exército israelense alveja
deliberadamente crianças palestinas em Gaza. Segundo o relatório final, o
levantamento dos ferimentos, dos traumas sofridos e a morte de 20.179 crianças nos
dois anos transcorridos a partir de 7 de outubro de 2023 aponta claramente que
assassiná-las é “parte da estratégia para
destruir a continuidade biológica e a existência futura do grupo palestino em
Gaza”. Em outras palavras, “ao atacar
as crianças Israel está atacando a própria capacidade de o povo palestino
existir e determinar o seu futuro”. [8]
Os ataques militares, os deslocamentos
forçados, a fome, as restrições impostas a qualquer tipo de auxilio e a
progressiva degradação das condições higiênicas fazem com que levar a gravidez
a bom termo dependa mais da sorte do que dos cuidados que uma gestação requer.
O número de abortos espontâneos vem crescendo desde o início da invasão
israelense e, em 2026, atingiu níveis alarmantes. Os dados disponíveis mostram
que, durante o segundo semestre de 2025, foram registrados 64 abortos espontâneos
para cada 1000 bebês nascidos vivos. Entre janeiro e junho de 2026, esta proporção
subiu para 208,5, um aumento de quase 326,0%.[9]
O ataque à sobrevivência
amplia seu alcance com a destruição dos setores econômicos que poderiam
proporcionar algum alívio aos 67,0% da população de Gaza que sofrem de
insegurança alimentar severa.[10] Segundo a Organização das
Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a pesca representa hoje
menos de 10,0% do que era antes da guerra. A destruição de barcos, oficinas de
reparo, portos de desembarque e instalações de armazenamento se somou às
restrições draconianas impostas aos pescadores pelo bloqueio naval israelense,
impossibilitando que esta histórica fonte de proteínas amenize a fome da
população.[11]
Na agricultura, a situação é ainda pior. De fato, a destruição produzida pela
guerra fez com que os poucos cultivos possíveis ocorram em apenas 2,3% da terra
onde os camponeses plantavam alimentos até outubro de 2023.[12]
Estes números permitem
entender a afirmação do relatório da ONU, divulgado na segunda metade de abril
deste ano, segundo o qual a ocupação militar israelense impôs à Faixa de Gaza
um retrocesso de 77 anos em termos de desenvolvimento humano.[13] Entre abril e setembro, a
situação só piorou. De fato, a base de dados que serviu para formular suas
conclusões ainda não incluía nem a revogação da licença de 37 organizações
internacionais de ajuda humanitária de atuar no enclave costeiro, nem a falta
de financiamento dos países que contribuem para o atendimento da ONU aos deslocados.[14]
Para termos uma ideia do
que isso significa, basta pensar que a organização internacional Médicos Sem
Fronteiras (MSF) foi forçada a interromper suas atividades na Faixa de Gaza a
partir de 28 de fevereiro deste ano. A entidade apoiava seis hospitais públicos,
administrava dois hospitais de campanha e, só em 2025, havia tratado de 100.000
ferimentos graves, realizado 22.700 cirurgias e 800.000 consultas, além de
acompanhar 10.000 partos e oferecer dezenas de milhares de sessões de apoio
psicológico.[15]
Em junho de 2026, a
UNOCHA alertou que os financiamentos destinados à ajuda humanitária somavam
apenas 15,0% dos 4 bilhões e 100 milhões de dólares necessários para manter uma
intervenção que já era considerada inferior às necessidades. Concretamente, a
redução das operações pela falta de verbas ameaça a distribuição de água por
caminhões-pipa para mais de 330.000 pessoas e força a reduzir as refeições
diariamente distribuídas de um milhão e 500 mil, em março deste ano, para não
mais do que 678.000. Se esta previsão se confirmar, estaremos diante de um
golpe devastador para centenas de milhares de famílias que, sem emprego e sem
recursos, dependem desta ajuda para comer uma vez por dia.[16]
A matança lenta e
silenciosa provocada pela fome, pelas doenças e pela precariedade dos campos de
refugiados acelera o seu passo à medida que o ulterior estrangulamento das
condições de vida combina três elementos fundamentais. O primeiro deles é a redução
sistemática da ajuda humanitária pactuada no acordo de cessar-fogo, assinado em
9 de outubro de 2025. Na ocasião, Israel se comprometeu a deixar entrar
diariamente na Faixa de Gaza 600 caminhões com alimentos, remédios, materiais
hospitalares, tendas e combustíveis para os centros de saúde. Durante algumas
semanas, Tel Aviv cumpriu o combinado. Em seguida, reduziu a quantidade de
veículos e o tipo de carga que deixaria passar. No dia 6 de agosto, o Gabinete
de Imprensa do Governo de Gaza, denunciou que, dos 180.000 caminhões previstos
nos primeiros 300 dias de vigência do acordo, apenas 63.094 tiveram sua
passagem liberada, o que corresponde a 35,0% do total.[17]
A insegurança promovida
por Israel para criar condições favoráveis à limpeza étnica conta com mais dois
elementos essenciais: os bombardeios do que resta da infraestrutura civil e a
progressiva ocupação militar do enclave costeiro. É o que aconteceu, por
exemplo, em 24 de agosto, quando os ataques aéreos israelenses destruíram a
usina de dessalinização de água no perímetro da Cidade de Gaza, uma das poucas
ainda em funcionamento.[18]
A intenção de fazer
minguar progressivamente as possibilidades de vida conta também com a ampliação
da faixa de terra ocupada pelas tropas de Tel Aviv. Pelo acordo de cessar-fogo,
o exército israelense está autorizado a manter o controle militar em 53,0% do
enclave costeiro, algo que foi respeitado até março deste ano. Um mês e meio
depois, a porcentagem subia a 60,0% e, no dia 28 de maio, o Primeiro-Ministro
Benjamin Netanyahu ordenou que as tropas ocupassem 70,0% do território.[19]
Além dos problemas que o
confinamento num espaço cada vez menor traz à sobrevivência dos palestinos, a
sensação de desamparo se fortalece com a ordem expressa de atirar em qualquer
pessoa que se aproxime da área ocupada pelo exército. À medida que a linha
divisória entre o território destinado aos campos de deslocados e o que é
controlado pelo exército vai mudando de posição ao longo do tempo, em muitos
casos, é materialmente impossível identificar corretamente a demarcação desta
fronteira. Isso faz com que muitos moradores da Faixa de Gaza se aproximem dela
inadvertidamente, o que, por sua vez, oferece a Israel a justificativa para assassiná-los.[20] A isso se deve parte
considerável das 1.254 mortes de palestinos e do ferimento de outros 4.121
durante os primeiro 300 dias de cessar-fogo.[21]
Entre os motivos que
completam as 4.091 violações do acordo registradas no mesmo período,
encontramos a forte redução do contingente de habitantes autorizados a sair da
Faixa de Gaza para obter atendimento médico especializado. No momento em que
escrevemos, apenas 10.703 palestinos de um total de 27.400 programados puderam
sair do enclave costeiro.[22] Estamos falando de doentes
oncológicos, de pessoas que precisam de hemodiálise, de adultos e crianças que
necessitam urgentemente de tratamentos que os hospitais de Gaza não têm
condições de oferecer. Manter estas pessoas no enclave aumenta a angústia das
famílias e as pressões para que o seu alívio seja atrelado ao abandono
definitivo do território.[23]
Terceira, mas igualmente
importante, é a condição dos presos palestinos nos presídios de Israel. De
acordo com o relatório divulgado pelo grupo israelense de direitos humanos
B’tselem, as prisões do seu país funcionam como uma “rede de campos de tortura” onde os abusos contra milhares de
detidos da Faixa de Gaza se tornaram política de Estado.
Com base numa criteriosa
coleta de dados e depoimentos, B’tselem denuncia a utilização corriqueira de
choques elétricos e de espancamentos, de gás lacrimogêneo e de granadas de
efeito moral, de queimaduras provocadas por cigarros apagados sobre seus corpos
ou por líquidos ferventes despejados sobre eles, do desnudamento, dos estupros
e da penetração anal forçada com diversos objetos, da privação do sono e de uma
dieta alimentar muito abaixo do mínimo necessário. Ainda segundo o mesmo grupo
de direitos humanos, a violência perpetrada nos presídios causou ferimentos
graves, perda da consciência, fraturas ósseas, hemorragias internas e uma série
de complicações agravadas pela recusa de prestar cuidados médicos que, de
outubro de 2023 ao início de janeiro de 2026, fez com que 84 palestinos morressem
sob custódia israelense.[24]
Diante da ininterrupta sequência
de horrores, é impossível não lembrar as perguntas que a jornalista Shaimaa Eid
lança ao mundo após 1000 dias de genocídio. Com 54 membros da sua família
assassinados pelos bombardeios e com a autoridade moral de quem, apesar dos
enormes sofrimentos, continuou documentando o genocídio por acreditar que
testemunhar o que está acontecendo é um dever tão importante quanto cuidar da
própria sobrevivência, Shaimaa interroga a nossa indiferença: “quanto sofrimento um ser humano pode
suportar? E quantas tragédias o mundo pode testemunhar antes de concluir que o
que aconteceu ultrapassou todos os limites possíveis?”.[25]
Ao nos lembrar de que a
resiliência de Gaza não é uma história romântica, nem uma escolha fácil, mas
sim o resultado de pessoas que lutam com unhas e dentes pelo direito de
existir, que é o mais básico dos direitos humanos, esta jornalista nos introduz
à engenharia da esperança. Uma engenharia para a qual, durante o dia, a
reconstrução de um simples fragmento de vida coletiva se mescla à necessidade
de enfrentar riscos enormes para procurar água, encontrar pão, tentar obter
remédios; e, à noite, ganha as feições do abraço que enfrenta a missão
impossível de acalmar os filhos quando a fome, o som das explosões e o zumbido
dos drones faz o medo da morte entrar em todas as tendas.
b. Gaza: moldando a esperança com as
próprias mãos
Quanto mais o sofrimento
aumenta, mais a espera derrete a vontade de reagir de quem não vê a hora de que
tudo passe. Adiar o momento em que as ações transformam a dor em força é perder
de vista o que a realidade oferece para construir as primeiras engrenagens da
engenharia da esperança. Como as gotas que iniciam o trabalho secular das
catedrais de calcário, é preciso se arriscar sem saber ao certo se e quando os
primeiros resultados mostrarão que valeu a pena tentar.
Por incrível que pareça, a
primeira oportunidade de materializar a esperança nasceu quando Israel proibiu
que os jornalistas estrangeiros entrassem no enclave costeiro para fazer a
cobertura da guerra. Desta vez, seriam os repórteres palestinos a serem a voz e
os olhos de Gaza. As notícias dos horrores viriam de quem tem sua família e sua
própria vida ameaçadas pelos bombardeios e, justamente por isso, não titubearia
em mostrar o rosto mais perverso do sionismo.
A carta com a qual o
jornalista palestino Hossam Shabat, de 23 anos, assassinado no final de março
de 2025, se despede de Gaza é um exemplo do que é ser uma engrenagem da engenharia
da esperança: “Se
você está lendo isso, significa que fui morto — provavelmente, perseguido —
pelas forças de ocupação israelenses. Quando tudo isso começou, eu tinha apenas
21 anos — um estudante universitário com sonhos como os de qualquer pessoa. Nos últimos 18 meses,
dediquei cada momento da minha vida ao meu povo. Documentei os horrores no
norte de Gaza minuto a minuto, determinado a mostrar ao mundo a verdade que
eles tentaram enterrar. Dormi em calçadas, em escolas, em barracas, qualquer
lugar onde eu pudesse. Cada dia foi uma batalha pela sobrevivência. Suportei a
fome durante meses, mas nunca deixei de lado o meu povo.
Por
Deus, cumpri meu dever como jornalista. Arrisquei tudo para relatar a verdade,
e agora, finalmente descansei — o que não pude fazer durante os últimos 18
meses. Fiz tudo isso porque acredito na causa palestina. Acredito que esta
terra é nossa, e foi a maior honra da minha vida morrer em sua defesa e a
serviço de seu povo.
Peço
a vocês agora: não parem de falar sobre Gaza. Não deixem o mundo desviar os
olhos. Continuem lutando, continuem contando nossas histórias — até que a
Palestina seja livre. Pela última vez, Hossam Shabat, do Norte de Gaza”.[26]
Longe de recuar diante da morte dos colegas, Ibrahim
Abu Mussa é um dos repórteres palestinos que ergue a bandeira ensanguentada da
esperança que estava nas mãos do colega caído, dizendo: “A ocupação afirma
que, ao matar os jornalistas, a verdade será silenciada e seus crimes não serão
expostos. Mas eu digo à ocupação que seus bombardeios contra nós aumentam nossa
determinação e resolução em transmitir a voz do sofrimento do nosso povo em Gaza,
e nós mostramos seus crimes contra o povo palestino na Faixa de Gaza”.[27]
A multiplicação desta
engrenagem nos relatos, desenhos, fotografias, vídeos, filmes, documentários, murais,
músicas, mensagens escritas nos escombros, nas traduções para as mais diversas
línguas e em linguagem de sinais ocorre graças ao envolvimento de um incontável
número de homens, mulheres e crianças que usam as redes sociais para que o
mundo veja e ouça o que Israel procura ocultar e silenciar. A indignação diante
das mais diferentes feições dos massacres levou centenas de milhares de pessoas
dos mais diferentes países a elevarem sua voz contra Israel e a cumplicidade de
seus governos, fazendo com que a Palestina se tornasse um assunto que incomoda,
interroga e exige respostas.
A engenharia da esperança
também cresceu e se fortaleceu com o compromisso de médicos, enfermeiros,
atendentes, socorristas, membros da defesa civil e voluntários que seguem
atuando em condições de trabalho estafantes. Do recuperar rapidamente os
espaços hospitalares ainda utilizáveis após os bombardeios ao atender as
pessoas que lotam os Prontos Socorros com o escasso material disponível e com o
cuidado possível, estes profissionais enviam aos palestinos e ao mundo o
testemunho de uma humanidade que se nega a baixar a cabeça diante dos
agressores.
Cada um dos mais de 1.700
profissionais de saúde assassinados desde outubro de 2023 pagou com a vida o
compromisso de manter viva a esperança. Entre os que ainda permanecem vivos,
queremos lembrar duas figuras igualmente importantes. A primeira é a do Doutor
Abu Safiya que, mesmo podendo fazê-lo, se recusou a abandonar o seu posto de
líder no Hospital Kamal Adwan quando as forças israelenses avançavam sobre as
instalações sobrecarregadas de feridos e deslocados.
No dia 27 de dezembro de
2024, numa tentativa de negociar uma saída que preservasse a vida de todos, o
médico saiu do hospital e caminhou entre os escombros em direção aos blindados
que avançavam. Sozinho, desarmado e tendo como única proteção o seu jaleco
branco, Abu Safiya era a imagem da Gaza que, ao salvar vidas, enfrenta de
cabeça erguida o inimigo que a destrói. Preso e sumariamente condenado como “combatente
ilegal”, o médico enfrenta desde então sessões degradantes de tortura, uma das quais
quebrou várias de suas costelas, colocando a sua vida em risco.[28]
A segunda figura, menos
conhecida, mas tão importante quanto a anterior, representa o trabalho dos
profissionais de saúde entre as tendas dos campos de deslocados. Fayza Shreim é
enfermeira e parteira. Aos 65 anos de idade, vai de um ponto a outro da Faixa
de Gaza para ajudar as mães a fazer com que o primeiro choro dos recém-nascidos
testemunhe que a vida vencerá as armas da morte.
Aposentada, Fayza não
parou de atender aos chamados desde o início da guerra. Carregando uma maleta
desgastada, faz seu trabalho de parteira em tendas, quartos semidestruídos,
salas de aulas que abrigam deslocados e onde quer que uma nova vida esteja
pedindo para nascer. Os ataques aéreos mataram dois de seus filhos, seus netos,
uma filha grávida de sete meses, seus genros e forçaram a sua família a se
deslocar treze vezes pelo enclave costeiro. Mas, apesar das feridas que a
guerra abriu na sua alma, ela arrisca sua própria vida convencida de que deixar
as mulheres sozinhas durante o parto seria “um
crime contra a humanidade”.[29] Mulher que viveu na pele o
sofrimento de inúmeras agressões israelenses, Fayza sabe que, sejam grandes ou
pequenas, as peças que movimentam a engenharia da esperança demandam uma
miríade de pequenos atos como os dela.
Entre a minúscula fração destas
peças que resgatamos em nossas reflexões está também o retorno dos que
conseguiram sair da Faixa de Gaza nos primeiros meses da ocupação militar
israelense. Ao regressar à terra natal, todos eles encontrarão condições de
vida bem piores em relação às que tinham no Egito e em outros países do Oriente
Médio. Alguns depoimentos publicados pelo jornal El País ajudam a entender como
este retorno, previsto pelo acordo de cessar-fogo, é um tapa na cara da
política de limpeza étnica promovida por Tel Aviv.
Após 21 meses no Egito
para que o marido pudesse receber atendimento médico especializado, Amal Omran,
uma mulher de 55 anos, mãe de nove filhos, passa descalça pela travessia de
fronteira da cidade de Rafah, sul da Faixa de Gaza para cumprir a promessa de
sentir sob os pés a terra que tanto almejara durante a sua permanência no país
vizinho. “Eu
queria sentir o solo de Gaza, depois do desespero que me dominou durante todos
esses meses, quando não pude estar aqui”, diz enquanto sorri ao
cumprimentar vizinhos e amigos que vieram parabeniza-la pelo retorno. E, chorando
de alegria acrescenta: “Embora eu
soubesse que teria que morar em uma tenda porque as bombas israelenses
destruíram a minha casa, eu estava desesperada para voltar. Uma tenda ou uma sepultura na minha
terra natal é melhor do que um palácio em qualquer outro lugar. Este é o meu
país, a minha terra, o lugar onde nasci. Não tenho intenção de partir. Prefiro
morrer a viver como refugiada”.
Amal chegou de mãos vazias, pois todos os presentes que havia
trazido foram confiscados pelos soldados israelenses na passagem da fronteira.
Debilitado e anêmico, Adel, o marido dela, escolheu voltar apesar de saber que
não encontrará em Gaza o que precisa para dar continuidade ao seu tratamento. A
explicação para esta escolha é simples e direta: “Eu não conseguia ficar longe da minha terra natal por mais tempo, com
saudades dos meus filhos e netos. Sinto-me melhor só de vê-los. Você pode não acreditar,
mas dormi melhor nesta tenda hoje do que durante os meses em que estive fora".[30]
Huda Abu Abed, viúva, de 57 anos de idade, deixou a Faixa de
Gaza em março de 2025 para tratar de um problema cardíaco que precisava de
atendimento especializado urgente. Ao desembarcar do veículo que a levou de
Rafah ao Hospital Nasser, em Khan Younis, fez questão de gritar “Não ao deslocamento!” para violar a
ordem do soldado israelense que a interrogou na fronteira e a instruiu a dizer
a seus amigos e vizinhos: “Façam as malas
e saiam de Gaza!”. Ao se despedir dos jornalistas que registraram este
momento, Huda acrescentou: "Temos
terra, mesmo que seja só entulho. O importante é estar com o nosso povo. A
felicidade não está nas paredes, mas nas pessoas, mesmo que você more numa
tenda. Se estou com a minha família, aquela tenda é um palácio”.
Ao todo, estima-se que mais de 100.000 palestinos tenham
conseguido sair pela fronteira com o Egito desde outubro de 2023. Difícil saber
quantos deles poderão ou conseguirão voltar. Com a alegria do retorno mostrando
o fracasso do esforço de limpeza étnica israelense, o exército de Tel Aviv
inferniza os que ingressam na Faixa de Gaza e faz o impossível para que o seu
número seja o menor possível.
Os métodos testemunhados pelos palestinos que atravessaram a
fronteira de Rafah incluem interrogatórios de várias horas, o confisco de
pertences pessoais (incluindo alimentos, itens de higiene, medicamentos,
telefones celulares, documentos de identidade, diplomas, dinheiro) e até os
brinquedos das crianças. Várias mulheres afirmam terem sido vendadas com as
mãos amarradas antes de serem submetidas a interrogatórios sobre filiações
políticas, relações familiares e eventos relacionados ao 7 de outubro.
Insultos, toques nas partes íntimas, a obrigação de se despir diante de
soldados que gravam a vistoria, ameaças, situações de assédio e a separação dos
filhos que efetuam com elas a passagem da fronteira integram a tortura
psicológica com o qual Israel desencoraja o retorno a Gaza.[31]
Mas nada disso parece diminuir a esperança que se faz ação.
Diante das ruínas do prédio de quatro andares onde a sua família morava,
Dwahreh, pai de sete filhos, soluçando, diz: “Eles nos destruíram, destruíram nossa pátria, nossas vidas, nossos
lares, nosso passado e nosso futuro”. E acrescenta: “Para nós essas ruínas fazem parte da pátria à qual não renunciaremos;
voltaremos a viver aqui para reafirmar nosso direito de estar aqui. Deus nos
basta, Deus nos basta”.[32]
A última frase de Dwahreh é a que está na boca e no coração dos palestinos. Por
isso, acreditamos que vale a pena entendermos melhor o seu alcance.
Na Faixa de Gaza, a religião não oferece atalhos para fugir
das dores do presente, mas, sim, a força que permite lutar quando tudo desencoraja
qualquer tentativa de fazê-lo. O genocídio desestruturou a vida cotidiana, mas
não as crenças e o espírito comunitário. Quando as instituições entram em
colapso e não há uma única mesquita onde as pessoas possam se reunir para orar,
a fé estrutura o tempo, celebra o ter sobrevivido como base para seguir
resistindo e lutando, transforma as tendas em espaços sagrados de encontro com
Deus e os demais. Nelas, as celebrações do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos,
não têm a rica variedade dos anos anteriores aos bombardeios, mas mantêm o
brilho de uma esperança que, no meio das ruínas, devolve às crianças e às suas
famílias momentos de alegria.
Para Hani Dahman, decorar algumas tendas e o que resta de
algumas casas, na que é uma atividade típica do Ramadã, é enviar ao mundo a
mensagem de que Gaza busca a vida. Uma vida que faz os vizinhos dos campos de
deslocados compartilharem chás e refeições simples para além do círculo
familiar antes das orações da madrugada, na que Maha Fathi, uma deslocada da
Cidade de Gaza, descreve como uma realidade na qual “As pessoas voltaram a se solidarizar umas com as outras”. O
genocídio que arrasou casas, destruiu infraestruturas e aniquilou instituições
remodelou os laços sociais fazendo com que as famílias que antes celebravam o
Ramadã com o grupo dos parentes próximos agora se reúnem para partilhar o pouco
que têm com pessoas alheias ao vínculos de consanguinidade, fazendo com que a
fé e seus momentos deixem de ser algo privado para fortalecer a capacidade coletiva
de resistir em meio a perdas imensuráveis.[33]
O esforço para manter a
vida palestina na Faixa de Gaza passa também pelos professores e professoras
que lutam diariamente para preencher o vazio deixado pela devastação do sistema
escolar. Com poucos recursos, atuando nas tendas ou ao ar livre, a escola
Al-Karama, na Cidade de Gaza, é um dos exemplos desse esforço ao acolher cerca
de 200 alunos que assistem às aulas sentados no chão, sem cadernos, carteiras e
quadro negro. Em meio à devastação, iniciativas como estas buscam conter as
perdas do aprendizado causado pela falta de aulas regulares que dura há quase
três anos.[34]
Outras atividades visam aliviar os traumas provocados pelos
bombardeios. É o caso, por exemplo, do resgate do “espírito” das bibliotecas
que, desde a sua fundação em 2008, permitiu que muitas crianças encontrassem
nelas uma janela através da qual podiam conhecer o mundo e levar a ele suas
histórias de vida, seus medos e sonhos. Convencida de que esse espírito
sobrevive à destruição graças à conexão humana e ao conhecimento que proporciona,
Abla, bibliotecária de Beit Hanoun, utiliza histórias das quais se lembra,
diálogos com as crianças, atividades criativas e exercícios psicossociais
simples para oferecer momentos de alívio aos pequenos que vivenciaram circunstâncias
inimagináveis. Sabendo que a liberação emocional é tão vital para a
sobrevivência quanto a comida e a água, Abla transforma o chão da tenda em
ambiente de leitura e refúgio onde as crianças liberam suas emoções por meio de
desenhos e conversas sobre o que sentem e sofrem diariamente.
Em Rafah, Mahmoud, bibliotecário da cidade, realiza algo
semelhante. Sessões em que se contam histórias são intercaladas com atividades
artísticas, jogos, canções tradicionais e programas de apoio psicossocial nos
quais trata de organizar espaços de amizade, criatividade, segurança e
pertencimento. Neles, meninos e meninas têm a impressão de estar numa espécie
de segundo lar que acolhe, oferece conhecimento, cria vínculos e permite que
possam recordar e lamentar a perda dos amigos mortos nos bombardeios. Para Abla
e Mahmoud, cujas famílias sofreram perdas significativas e passaram por vários
deslocamentos forçados, manter vivo o espírito das bibliotecas é dar vida a uma
esperança de futuro, cuja dura reconstrução ainda está longe de começar.[35]
Procurando algo que envolvesse as crianças, o diretor de
teatro Naim Nasr ensaiou a peça de William Shakespeare Sonhos de uma noite de verão a fim de apresenta-la nos campos de
deslocados. Naim percorreu os becos entre as tendas destes campos e esteve nas
filas de água e da comida em busca dos atores mirins aos quais distribuir os
papeis desenhados pelo dramaturgo inglês. Num ambiente onde é materialmente
impossível ter um palco de teatro, equipamentos de iluminação e assentos para o
público, o esforço para reunir os materiais necessários à encenação envolveu
pessoas de todas as idades. “Por
necessidade e imaginação, um pedaço de tecido cinza se transformou em cortina
de palco. Caixas de papelão desgastadas, que antes continham suprimentos de
ajuda humanitária, foram transformadas em máscaras coloridas e cheias de vida.
Galhos secos, coletados para cozinhar alimentos, tornaram-se árvores imponentes
na floresta encantada de Shakespeare”.
Aos poucos, o que havia
iniciado como uma simples brincadeira “tornou-se
um ritual sagrado, entrelaçado no cotidiano das crianças. Elas memorizavam suas
falas com a mesma fidelidade com que memorizavam o nome de suas mães.
Praticavam canções e movimentos com entusiasmo contagiante, rindo de coração
sempre que alguém esquecia uma fala ou perdia uma deixa. Pela primeira vez em
muito tempo, o acampamento parecia ter um encontro genuíno com a felicidade. A
peça não era apenas uma forma de passar o tempo. Era um ato de resgate — uma
tentativa determinada de recuperar um fragmento da infância que a guerra havia
roubado. Cada ensaio se tornava uma declaração silenciosa de que a vida ainda
possuía o poder de florescer em meio aos escombros e às cinzas”.
Infelizmente, uma ordem
de evacuação do exército israelense inviabilizou a apresentação e obrigou
aquelas crianças e suas famílias a reunirem rapidamente o pouco que tinham, a
desmontarem as tendas e saírem, novamente, rumo à incerteza. Os atores mirins
que, durante dois meses, haviam criado momentos de alegria a partir de quase
nada foram novamente forçados a dominar a arte da sobrevivência. Todos ficaram
tristes. Mas, na percepção de quem conheceu este trabalho, a peça saiu do
acampamento nos corações e nas mentes das crianças que, graças a ela, alimentaram
a teimosia dos sonhos que se recusam a morrer.[36]
Em um dos campos de deslocados de Nuseirat, dezenas de
crianças se reúnem diariamente numa tenda onde, em meio a sons e gargalhadas,
Tio Majood organiza atividades recreativas nas quais ensina habilidades
circenses. Ele próprio deslocado pela guerra, este jovem de 20 anos se vale da
sua experiência para criar os “Círculos da alegria”. Ao enfatizar que os
pequenos de Gaza merecem vivenciar a infância como qualquer outra criança do
mundo, Tio Majood usa as ferramentas retiradas dos escombros da escola onde
eram guardadas para oferecer a elas “um
vislumbre de esperança e uma mensagem de que há vida esperando por elas além da
destruição e da guerra”.[37]
Numa estreita faixa de praia a oeste da Cidade de Gaza, a
pintora Farah Ajjour usa a arte para que as crianças processem os traumas
sofridos. Sentada de pernas cruzadas e com uma folha de papel sobre os joelhos,
Farah oferece às meninas a oportunidade de liberar o que guardam em si através
do desenho. De frente para o mar e com cenários de destruição atrás de seus
ombros, a praia é a sala de aula onde, munidas de papel e com as poucas cores
disponíveis, as garotas usam a arte para fazer ouvir a sua voz, falar dos
próprios traumas e imaginar o amanhã.[38]
Antes de perder o pé esquerdo num bombardeio em maio de 2024,
Mohammed Jawad, de 41 anos, fazia da sua paixão pela tradicional dança
folclórica “dabkeb” o seu sustento e uma forma de manter viva a identidade
palestina. Executada em linha ou semicírculo, com os dançarinos entrelaçados e
produzindo passos sonoros, a dança marca presença em casamentos, festas e
outras celebrações populares. O próprio Mohammed expressa o profundo sentido
desta dança ao dizer: “Quando subimos ao palco e
executamos os mesmos passos no mesmo ritmo, sentimos um grande poder e uma
conexão indescritível. O dabkeh é a voz da terra em que vivemos e a alegria que
carregamos apesar de todas as circunstâncias”. Sem poder
subir aos palcos e com o envolvimento dos demais membros do grupo, há mais de
dois anos ele ensina dabkeh nos campos de deslocados e faz da prática desta
dança uma forma de encontrar forças na adversidade.[39]
Em meio à devastação e
às restrições impostas pelas seguidas violações do cessar-fogo, um grupo de
mulheres entre os 15 e os 24 anos de idade que perderam um dos membros
inferiores encontram no esporte uma forma de desafiar os sofrimentos da guerra
que carregam em seus corpos. Apoiadas em muletas, treinam para realizar o sonho
de representar a Palestina na Copa do Mundo Feminina de Futebol para Amputadas
que será realizada em 2027. Como elas, outras equipes juvenis e infantis de
pessoas na mesma condição física encontram neste esporte um meio de soprar nas
brasas da esperança. Não ter um lugar adequado para treinar, não contar com
meios apropriados para a reabilitação, não saber se conseguirão se classificar
e nem mesmo se, realizada esta façanha, poderão sair da Faixa de Gaza para
competir não são motivo de desanimo para quem vive coletivamente a volta do
sonho em suas vidas.[40]
Mas, será que é
possível criar partes da engenharia da esperança nas prisões onde os palestinos
são diariamente massacrados? O testemunho de Kameel Abu Hanish, membro do
Bureau Político da Frente Popular para a Libertação da Palestina libertado após
22 anos de reclusão, oferece pistas que permitem responder a esta pergunta. Quando
tudo trata de reduzir o preso a um número silencioso e a um corpo suspenso fora
da vida cotidiana, quando o isolamento coloca à dura prova as ideias, despoja
até os ossos as convicções que animavam os passos da luta e a dor atua como a ponta
de uma lança que instala no coração o ódio contra tudo e contra todos, parece
impossível haver lugar para a esperança.
No espaço da prisão,
concebido para ser palco permanente de violência e de quebra da vontade
individual, a primeira regra que os presos recém-internados aprendem na escola
dos mais experientes é que os conflitos entre eles não se resolvem com a força
física, mas sim por meio do diálogo e da paciência. A consciência coletiva que
se desenvolve em volta desta regra protege os palestinos de sucumbir às
investidas de seus carcereiros. Dialogar torna-se, assim, sinônimo de agir com
dignidade, de preservar a coesão interna diante da dureza do ambiente, de fazer
a razão avançar para que a consciência de cada um possa se afirmar como o
espaço onde o indivíduo, atacado e despojado de tudo, se mantém no controle de
suas ações e é capaz de desenvolver relações positivas com os demais.
Fazer isso acontecer é
derrotar o esforço dos carcereiros de desintegrar o preso por dentro, de
corroer a sua consciência, de impedir que a afirmação do autocontrole seja uma
prática de liberdade capaz de romper as correntes de uma dor diante da qual nada
parece fazer sentido. Além disso, o diálogo permite fortalecer um sentimento de
responsabilidade coletiva, faz emergir gestos de generosidade nos momentos de
maior necessidade e desenvolve a coragem de assumir um compromisso ético com os
demais.
Passo a passo, os
presos formam uma comunidade coesa, unida pelo mesmo ideal, fortalecida por
valores e atitudes que impedem de sucumbir à dor, à fragmentação e às torturas
sofridas. Após a libertação, a experiência de cada um integrará a narrativa
coletiva da resistência. Transmitidas de geração em geração, as histórias do
avô, do filho e do neto que foram presos se afirmam como testemunhos de
resiliência e pertencimento que romperam as amarras da dor, como um fio que une
famílias inteiras à terra e à luta pela liberdade da Palestina, conferindo a
elas um senso de continuidade apesar das perdas.[41]
Separada do todo, cada
uma destas peças parece absolutamente insignificante. Contudo, como parte do
esforço para que a esperança deixe de ser uma palavra vazia para se encarnar em
ações cotidianas, o mais simples dos gestos cria laços de coletividade, impede
que as necessidades mais urgentes degradem as relações e se torna grito de
justiça de um povo cujos direitos são pisoteados há décadas. O eco de cada uma
das intervenções que descrevemos se espalha pelo mundo e, hoje, pode ser ouvido
onde menos se espera.
c. A engenharia da esperança semeia
indignação mundo afora.
Em outubro de 2025,
Donald Trump assinou o acordo de cessar-fogo que criou o Conselho da Paz. A
solenidade do momento, o apoio dos representantes de 22 países, a adesão do
governo israelense e da resistência palestina levaram muita gente a acreditar
que o genocídio chegaria ao fim. Porém, conforme costuma acontecer, Israel se
compromete com uma coisa e faz outra que nega os compromissos assumidos. Menos
de duas semanas após a assinatura do cessar-fogo, as violações do acordo sinalizavam
que Tel Aviv não abriria mão do controle militar da Faixa de Gaza. Quase um ano
depois, as agressões diárias contra os campos de deslocados e a forte restrição
à ajuda humanitária mantêm vivas as chamas do inferno do qual falávamos no
início das nossas reflexões.
Enquanto o sonho da paz
ainda ofusca os olhos do mundo, a engenharia da esperança mantém a capacidade
de desmascarar a hipocrisia dos governantes com ações que visualizam a sua cumplicidade
com a política israelense para a Faixa de Gaza. Sem esquecer o apoio que
milhões de pessoas ofereceram aos palestinos na fase anterior, vamos centrar
nossas atenções numa pequena parte dos fatos que provam quanto o drama por eles
vivido segue no coração de muitos entre janeiro e setembro deste ano.
Reino Unido, 14 de janeiro
de 2026. Os ativistas presos do Palestine Action em greve de fome encerram seu
protesto após obterem uma importante vitória política. Graças às ações desenvolvidas
e à solidariedade proporcionada pela indignação popular diante da cumplicidade
de Londres com a ocupação militar israelense na Faixa de Gaza, o Ministério da
Defesa britânico se recusa a assinar um contrato de 2 bilhões de libras com a
Elbit Systems, a maior fabricante de armas de Israel.
Detidos em novembro de
2024 sob a acusação de invadir e vandalizar as instalações desta empresa em
Bristol, os integrantes do Palestine Action vinham lutando para que o governo
fechasse as 16 instalações da Elbit no Reino Unido. Ainda que dois meses de
greve de fome pareçam um preço alto demais para uma conquista que passa longe
do atendimento de suas demandas, é um passo que atesta a eficácia da ação dos
grupos pró-Palestina. Eficácia que nasce
do fato de as pessoas comuns entenderem através dela que o verdadeiro crime não
é tentar interromper a cadeia de suprimentos com a qual a Elbit abastece o
exército de Tel Aviv, mas sim manter constante o fluxo de recursos que garante
o massacre dos palestinos.[42]
Berlim, 16 de fevereiro
de 2026, Festival Internacional de Cinema pela Paz. O filme A voz de Hind Rajab (nome da menina que
sobreviveu à primeira rajada de metralhadora que matou a sua família durante o
deslocamento de carro por uma rota definida como segura pelo exército de Tel
Aviv) recebe o prêmio de Filme Mais Valioso. A plateia onde marcam presença
figuras ilustre como Hillary Clinton e o ator, diretor, roteirista e produtor
Kevin Spacey se prepara para a costumeira entrega da estatueta e os discursos
de praxe. Ninguém espera que o tapete vermelho do evento esteja preste se
transformar no corredor de um palanque do qual a cineasta tunisiana Kaouther
Ben Hania, produtora do filme, vai criticar a hipocrisia do evento.
Firme diante dos ilustres
convidados, Kaouther lê o seu discurso: “Esta
noite, sinto mais responsabilidade do que gratidão. A Voz de Hind Rajab não se
resume apenas a uma criança. Trata-se do sistema que tornou possível o
assassinato dela. O que aconteceu com Hind Rajab não é uma exceção. É parte de
um genocídio. E, esta noite, em Berlim, há pessoas que deram cobertura política
a esse genocídio reformulando o massacre de civis como legítima defesa, como [fruto
de] circunstâncias complexas e
desqualificando aqueles que protestam.
Mas,
como vocês devem saber, a paz não é um perfume borrifado sobre a violência para
que o poder pareça refinado e se sinta confortável. E o cinema não é uma forma
de lavar imagens. Quando falamos de paz, devemos falar de justiça. Justiça
significa responsabilidade. Sem responsabilização não há paz. O exército
israelense matou Hind Rajab, matou sua família, matou os dois paramédicos que
vieram salvá-la com a cumplicidade de governos e instituições mais poderosos do
mundo. Recuso-me a deixar que as mortes deles se tornem pano de fundo para um
discurso polido sobre a paz. Não enquanto a estrutura que as possibilitou
permanecer intacta. Portanto, esta noite não levarei este prêmio para casa.
Deixo isso, aqui, como um lembrete. E, quando a paz for buscada como uma
obrigação legal e moral enraizada na responsabilização pelo genocídio, então eu
voltarei e o aceitarei com alegria. Muito obrigada”.[43]
A decisão de deixar a
estatueta havia sido amadurecida diante da estrutura do evento que homenageou o
general israelense aposentado Noam Tibon por sua participação num documentário
que narrava o resgate de seus familiares durante a incursão de 7 de outubro de
2023. Kaouther já havia alertado que a justaposição dos dois trabalhos criava
uma simetria moral a uma violência radicalmente desigual, movimento graças ao
qual, sob o pretexto da reconciliação, as responsabilidades do exército
israelense seriam apagadas. Sendo assim, rejeitar a estatueta era sinônimo de
rejeitar a forma como a questão da paz em Gaza estava sendo moldada pelo
festival.[44]
No mundo inteiro, as
salas de cinemas onde o filme A Voz de Hind Rajab foi exibido receberam um
público que assistiu emocionado à apresentação da história desta garotinha que
representava o massacre das crianças em Gaza. Muitos ficaram indignados diante
das imagens reais que mostravam a ambulância enviada para resgatá-la totalmente
destroçada e o carro onde Hind foi assassinada com as marcas de 355 perfurações
de bala. Parte deste contingente se perguntou quanto dos impostos pagos aos
seus governos financiou o massacre de crianças, cujos nomes nunca conheceram.
Mar Mediterrâneo, abril
de 2026. A “Missão Primavera 2026” da
Global Sumud Flotilha reúne 90 barcos saídos de diferentes lugares com o
objetivo de romper o bloqueio israelense à Faixa de Gaza. Os moradores das
cidades portuárias de onde zarpa a esperança se reúnem nas proximidades das
embarcações cuja tripulação, mais uma vez, enfrentará os perigos da
interceptação em mar aberto, as condições degradantes dos interrogatórios
realizados pelas autoridades de Tel Aviv e os processos de deportação.
Os organizadores da
Flotilha sabem que a ajuda humanitária a ser entregue anda de mãos dadas com a
necessidade de acordar a consciência adormecida do mundo para o massacre em
curso. Por isso, cada barco representa um grupo de vítimas da guerra através
das imagens que retratam os sacrifícios de mulheres, crianças, jornalistas,
médicos, socorristas, docentes, trabalhadores humanitários e presos.
Como esperado, a
Flotilha é interceptada em águas internacionais, o que, por si só, viola o
direito internacional. Os soldados israelenses não encontram nada que permita
negar o caráter humanitário da expedição. Na volta aos países de origem, os
depoimentos dos tripulantes narram as torturas sofridas e aumentam a indignação
incialmente suscitada pelos vídeos que mostram os ativistas amarrados,
ajoelhados e submetidos a uma série de abusos.
O verdadeiro rosto do
sionismo está sob os olhos de todos, mas só os governos de Irlanda, França,
Espanha, Indonésia e Itália criticam o tratamento dado aos ativistas pelo fato
de alguns deles serem seus cidadãos. Numa clara amostra de como Israel domina a
narrativa oficial da grande mídia, o Primeiro-Ministro, Benjamin Netanyahu, ganha
o espaço necessário para reconhecer que dito tratamento não seguiu os valores e
as normas do país, criticar a divulgação dos vídeos como uma forma de deturpar
a posição de Tel Aviv e, ao focar na necessidade de os grupos terroristas não
receberem ajuda externa, acusa os organizadores da Flotilha de atuarem a favor
de Hamas.[45]
Mas, como é impossível
calar quem não desiste de denunciar os massacres, no dia 5 de setembro, é
anunciada a preparação de uma nova missão marítima internacional cujos navios devem
chegar a Gaza em outubro. Ao comentar a decisão de desafiar o bloqueio
israelense, Edward Digilio, um engenheiro de Maryland que integra o grupo
organizador, traduz em breves palavras o sentido de mais esta tentativa: “Sabemos que navegar em direção a Gaza
acarreta sérios riscos. Mas o silêncio e a inação têm um custo muito maior para
os palestinos e para o mundo”.[46]
França, Espanha,
Grécia, Itália, Turquia e Marrocos, 06 de junho de 2026, uma greve une as
reivindicações dos portuários destes países aos palestinos. As faixas que abrem
as passeatas e fecham o acesso aos locais de trabalho ondulam com as bandeiras
da Palestina trazendo um recado simples e direto: “Os portuários não trabalham para a guerra”.
Na Itália, a greve
impede que três navios da companhia israelense Zim entrem nos portos de
Livorno, Veneza e Genova e força a Eagle 3, da MSC, que se dirigia a Israel, a
mudar de rota para evitar o porto de Ravenna. Manifestações que envolvem estivadores
e cidadãos comuns ocorrem também nas cidades portuárias de Ancona, Trieste,
Civitavecchia, Cagliari, Salerno, Bari, Palermo e Crotone com a intenção de
pressionar o governo italiano a decretar tanto o embargo total de armas e
equipamentos militares, como o trânsito para reabastecimento de embarcações que
navegam rumo aos portos israelenses.[47]
As ações do dia 6 de
junho são o resultado de um processo que iniciou em 2024 com os boicotes
isolados dos estivadores ao carregamento de armas para Israel e se fortaleceu no
ano seguinte com uma sequência de ações nas quais os portuários declaravam abertamente
que não seriam cúmplices do genocídio. Sobre esta base, em setembro do mesmo
ano, eram lançados os alicerces de uma coordenação europeia para forçar os
governos do bloco a assumirem o embargo total à movimentação de equipamentos
bélicos de e para Israel, conforme já havia sido decretado pelos governos de
Eslovênia e Espanha. Passo a passo, a solidariedade que nasceu da escuta do
drama palestino foi criando e ampliando “as engrenagens portuárias” da
engenharia da esperança.[48]
Roma, junho de 2026, os
organizadores da parada LGBTQIA+ mantêm a exigência de uma ruptura definitiva
com as políticas de ocupação, apartheid e extermínio do Estado de Israel na
Faixa de Gaza e na Cisjordânia como condição para participar do evento. Com
esta decisão, a Keshet Itália, a única organização judaica LGBTQIA+ presente no
país tem o carro alegórico proibido de entrar no desfile por ser a única a não
endossar o manifesto político do “Rome Pride”.
As acusações de
antissemitismo não demoram a aparecer, mas, diante dos fatos por demais conhecidos,
os organizadores não têm dificuldades em mostrar que a verdadeira questão não guarda
nenhuma relação com o preconceito em relação aos judeus, mas, sim, com a responsabilização
pelos massacres. Todos lembram que o Orgulho Gay nasceu como um ato radical de
resistência contra a opressão de gênero e que não há orgulho nenhum no
genocídio que pode ter como um dos seus atores os israelenses LGBTQIA+ que atuam
no exército de Tel Aviv. Desconhecer isso faria com que o custo humano produzido
pela continuidade da violência na Palestina histórica tornasse insuportável a hipocrisia
de quem empunha a bandeira do arco-íris em Roma, mas segue matando palestinos
LGBTQIA+ ou não em Gaza e na Cisjordânia.[49]
Estados Unidos, Copa do
Mundo de Futebol, julho de 2026. Zebra estreante da competição, a seleção do
Egito surpreende o mundo ao vencer a Austrália nos pênaltis. O Egito inteiro
vibra com os jogadores que acabam de levar o time para a próxima fase da
competição. Sozinho num canto do gramado, o técnico Hossam Hassan segura a
bandeira da Palestina, olha para a câmara que filma a cena e, com voz embargada,
diz: “Que Deus lhes conceda a vitória.
Que Deus tenha misericórdia de seus mártires. Digo-lhes: dedico esta vitória ao
povo egípcio e ao povo palestino, a esses povos bondosos e honrados. Meu
coração e minha alma estão com eles. Eles estão muito felizes por nós e por
mim. Depois do povo egípcio, dedico esta vitória aos palestinos”.
As reações contra o
técnico são fortes e rápidas. Comentaristas de destaque se unem ao coro da
mídia israelense para condenar o seu gesto e pedir à FIFA que abra um processo disciplinar
por Hossam ter violado a proibição de manifestações políticas que consta nas
regras do torneio. Três dias depois, na coletiva de imprensa, o técnico egípcio
sobe o tom das suas declarações: “Se
existe alguém que não sentiu o sofrimento do povo palestino, então essa pessoa
não tem humanidade. Quem não se compadece do povo palestino não merece ser
chamado de humano”.
Em seguida, com a mesma
serena firmeza presente em suas palavras iniciais, Hossam critica duramente a
comunidade internacional. Ao se referir a crise humanitária na Faixa de Gaza,
afirma: “Gostaria de dizer que isso é uma
vergonha para nós. Uma vergonha para o mundo inteiro...uma vergonha para todos,
e uma vergonha, antes de tudo, para os tomadores de decisão que abandonam seres
humanos”. E, ao se dirigir diretamente aos jornalistas e aos atletas,
acrescenta: “Eu peço a todos vocês, à
mídia, a todos os atletas do mundo, independentemente de suas identidades, que
talvez possamos transmitir uma mensagem coletiva que é a seguinte: deixem o
povo palestino em paz, deixem-no existir, deixem-no viver a sua própria vida”. [50]
Ricocheteando nas redes
sociais, suas palavras dão a volta ao mundo. Bandeiras egípcias e palestinas
são hasteadas juntas nas comemorações pelos feitos da seleção por ele dirigida.
A engenharia da esperança materializada na solidariedade expressa pelo técnico
faz o coração dos que denunciam os massacres se encherem de emoção. Sem
condições de reverter este cenário, a FIFA recusa-se a aplicar qualquer tipo de
multa ou suspensão.
Itália, verão de 2026:
a hospitalidade que não dá espaço ao genocídio. Depois de perceber que parte
dos ganhos de hotéis, pousadas, lanchonetes, bares e restaurantes vinha de
turistas israelenses que defendiam as atrocidades da ocupação na Faixa de Gaza,
o Comitê Nacional Palestino do movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções
lança a campanha “Não há espaço para o genocídio”, integrada por mais de 500
estabelecimentos em várias regiões da Itália.
Os turistas que efetuam
suas reservas em hotéis e pousadas que aderem ao movimento recebem uma mensagem
de confirmação na qual se especifica que o estabelecimento apoia a campanha,
respeita a liberdade e os direitos humanos das comunidades que sofrem danos
racistas, étnicos e sociais, e acolhe calorosamente palestinos, refugiados e
todos aqueles que resistem pacificamente à opressão em busca de seus direitos
internacionalmente reconhecidos. Direcionada a todos os hóspedes
independentemente de sua nacionalidade e proveniência, estas mensagens têm
levado ao cancelamento das reservas, sobretudo, de viajantes israelenses que
passam pela Itália.
Não são poucos os casos
em que, ao cancelar sua reserva, as pessoas desatam uma verdadeira tempestade. No
verão deste ano, o caso do Hotel Decumani de Charme, na cidade de Nápoles, sul
da Itália, fez história à medida que, horas após o cancelamento de uma
israelense, o estabelecimento recebeu uma enxurrada de reservas falsas, mensagens
agressivas e avaliações negativas de pessoas que nunca foram seus hóspedes.
Longe de desistir, os
proprietários responderam esclarecendo que, em hipótese alguma, o texto é uma
forma de antissemitismo e mostraram que o direito internacional exige dos
Estados que cessem todas as formas de cumplicidade nos genocídios, nos crimes
de guerra e contra a humanidade. A consciência de não lucrar com quem é
cúmplice ou apoia os massacres perpetrados em Gaza alimenta mais esta
engrenagem da engenharia da esperança.[51]
Singapura, 29 de julho
de 2026, show da banda britânica Massive Attack. Em um gesto de solidariedade,
durante a apresentação do dia 29 de julho, um dos integrantes do grupo exibe
uma bandeira palestina enquanto outro grita “Palestina Livre”. Em resposta, grande
parte do público entoa a mesma palavra de ordem. A polícia local não perde
tempo e identifica os músicos Robert Del Naja e Grant Marshal como autores dos
atos. Após a apresentação, a banda é detida, tem seus membros isolados e
interrogados separadamente, sendo que alguns sofrem buscas nos quartos de hotel
que ocupam, têm seus passaportes retidos e são incluídos na lista de pessoas
que não podem voltar ao país.
Longe de se sentir
intimidada, quando ainda está em Singapura, a banda divulga uma nota que
reafirma com todas as letras a sua posição: “Da
nossa parte, não imaginávamos que simplesmente erguer a bandeira de um Estado
soberano reconhecido por 157 países (a Palestina) violaria qualquer lei.
Refletindo sobre o ocorrido, temos orgulho de ter feito essa manifestação
espontânea ao lado dos nossos fãs em Singapura, que claramente sentiram o
imperativo moral de demonstrar solidariedade ao povo palestino diante da
realidade contínua de ocupação ilegal, apartheid e genocídio. Saudamos a
coragem deles por terem feito isso. Em todo o mundo, a contínua inação da
chamada "comunidade internacional" está levando cidadãos a assumirem
riscos pessoais.
Esta
experiência surreal serviu para nos lembrar da importância de defender os
direitos humanos universais e a liberdade de expressão sempre que esses
direitos estiverem ameaçados, inclusive em nosso próprio país, o Reino Unido,
onde, de forma extraordinária, ainda vemos manifestantes pacíficos serem presos
sob leis antiterrorismo por exibirem cartazes escritos à mão em protesto contra
o genocídio — apesar dos apelos vindos de todos os lados do espectro político.
Somos
gratos ao povo de Singapura, que nos fez sentir tão bem-vindos, e esperamos que
o governo de Singapura decida ratificar o Pacto Internacional sobre Direitos
Civis e Políticos da ONU e permita que seus cidadãos expressem sua consciência
sem medo de perseguição por parte do Estado. Como estávamos dizendo...
Palestina Livre”. No dia 11 de agosto, em Melbourne, na
Austrália, Massive Attack repete a dose com a inclusão de dados sobre o genocídio
em Gaza em meio à ovação dos presentes em apoio à Palestina.[52]
Em 26 de setembro, o
alerta veiculado no comunicado da banda se realiza para um de seus integrantes.
O grupo britânico de defesa das liberdades civis (Lift the Ban) organiza uma
manifestação exigindo que o Reino Unido retire Palestine Action da lista de
organizações proibidas. Robert Del Naja está entre as cerca de 200 pessoas
reunidas diante da sede do Partido Trabalhista em Liverpool. O cartaz que ele
segura traz os dizeres: “Eu me oponho ao
genocídio. Eu apoio Ação Palestina”.
Ao se aproximarem dele,
os policiais dizem que ele está cometendo uma infração por apoiar uma
organização proibida. Em resposta, Robert diz: Não reconheço o crime porque, segundo a lei do Reino Unido, crime é
auxiliar ou instigar qualquer empresa ou indivíduo ou empresa privada a
instigar crimes de guerras genocidas”. Em seguida, o músico é levado para a
detenção. Por ironia ou sagacidade da história, em junho deste ano Robert
esteve no palanque com o Primeiro-Ministro Trabalhista, Andy Burnham, que o
elogiou pela clareza e liderança com a qual apoia o Tratado de Não-Proliferação
dos Combustíveis Fósseis. Três meses depois, a polícia que atua às ordens do
mesmo governante o prende sob a Lei Antiterrorismo por segurar um pedaço de
papel no qual defende a Palestina e quem procura acordar os britânicos diante
do genocídio em curso.[53] Mesmo
sob ataque, a engenharia da esperança segue caminhando pelo mundo alimentada
por esta rebeldia.
Atenas, 14 de agosto de
2026, porto de Pireu. Ao atracar no maior porto da Grécia, os turistas do navio
de cruzeiro israelense Crown Iris esperam desfrutar do melhor que o país pode
oferecer dadas as estreitas relações entre Israel e o governo grego. Mas, desde
as primeiras horas daquela sexta-feira, ativistas, sindicalistas da União Grega
dos Marinheiros e apoiadores da comunidade palestina estão perto do portão de
desembarque agitando bandeiras e carregando faixas que denunciam o genocídio de
Israel em Gaza. Cercados por forte esquema policial, os manifestantes mostram
sua indignação gritando: “Vocês são
indesejados em Pireu e em todo o nosso país”.
Não é a primeira vez
que isso acontece em terras gregas e outros turistas do mesmo navio enfrentaram
protestos semelhantes em junho deste ano e em 2025, na ilha de Syrios, onde uma
manifestação impediu o seu desembarque e forçou o Crown Iris a deixar o porto imediatamente.
No mesmo ano, a embarcação foi alvo de protestos também em Rodes, Creta e
Volos. Os organizadores da manifestação reafirmam que o turismo não pode ser
dissociado do genocídio. Apesar do estreitamento das relações entre os governos
de Tel Aviv e de Atenas, a solidariedade popular com os palestinos promete
continuar até que tenham uma pátria para chamar de sua.[54]
Israel, campanha
publicitária do programa Single Shoe da Adidas, setembro de 2026. Trata-se de uma iniciativa dirigida a
pessoas com amputações nos membros inferiores ou com grandes diferenças de
tamanho dos pés. As lojas da marca permitem que elas comprem apenas um sapato,
no lugar de pagar por um par. O ex-soldado israelense Shalev Biton é o
garoto-propaganda da peça publicitária.
Com a perna esquerda
amputada após ter sido gravemente ferido durante o ataque do exército de Tel
Aviv à Faixa de Gaza, em maio de 2021, Shalev aparece no vídeo experimentando
um tênis na loja da Adidas antes de correr ao ar livre. A peça promocional em
hebraico desperta imediatamente reações contrárias na exata medida em que seu
conteúdo é considerado uma afronta aos palestinos mortos ou que perderam um dos
membros nos bombardeios.
A indignação pelo fato
de um ex-soldado israelense ser colocado ao centro de uma campanha pelos
direitos das pessoas com deficiência, enquanto os cerca de 5.000 palestinos amputados
em função de ações do mesmo exército enfrentam escassez de cuidados médicos e
de próteses na Faixa de Gaza se espalha como um rastilho de pólvora. Grupos de
boicote aos produtos israelenses e às empresas que apoiam as ações de Tel Aviv
mundo afora levantam imediatamente a voz contra a Adidas. Diante das pressões,
no dia 7 de setembro, a gigante alemã de artigos esportivos pede publicamente
desculpas e tira de circulação o vídeo promocional.[55]
Esta não é a primeira
vez que a Adidas enfrenta campanhas de boicote relacionadas à Palestina e a
Israel. Contudo, o aspecto mais importante deste último acontecimento é a
rapidez e a espontaneidade com a qual pessoas de diferentes países manifestaram
seu repúdio e forçaram a empresa a recuar. Pode parecer pouco. Mas é o pouco
que faz a engenharia da esperança multiplicar as possibilidades de ganhar corpo
e forma.
Nova Iorque, 24 de setembro,
81ª Assembleia Geral da ONU. No momento em que Netanyahu se aproxima do pódio
para pronunciar o seu discurso, as delegações de 77 países se levantam e
abandonam a sala, deixando vazia a maior parte dos assentos. Entre permanecer
para ouvir e enfrentar possíveis retaliações dos EUA e de Israel por virar as
costas à desgastada narrativa de Tel Aviv, países da África, Ásia, Oriente
Médio e América Latina optam por mostrar com sua ausência o repúdio ao
genocídio dos palestinos.
Enfurecido, Netanyahu chama
de “covardes morais” os homens e mulheres que escolheram sair da plenária. A
raiva faz com que o Primeiro-Ministro enalteça o fato de que seu país manteve
abertas sete frentes de batalha nos últimos três anos. O fato de as guerras, e
não as saídas diplomáticas, serem glorificadas no púlpito da organização
moldada para poupar o mundo de guerras e massacres ganha as feições de uma
música que, em função de seu intérprete ser completamente desafinado, oferece
razões de sobra para muitos não desejarem ouvi-la.
Ninguém se surpreende
ao perceber que as delegações presentes sejam, justamente, aquelas que, direta
ou indiretamente, se tornaram cúmplices ou coniventes com a devastação da Faixa
de Gaza. Prontas a se omitir diante do principal perpetrador dos massacres, as
delegações de Itália, Finlândia, Guiné Bissau, Etiópia, Guiné, Estados Unidos,
Emirados Árabes Unidos, Sérvia, Marrocos, Reino Unido, Alemanha, França,
Canadá, Austrália, Japão, Ucrânia, Argentina, Paraguai, Bahrein, Índia, Coréia
do Sul, Filipinas e Tailândia, confirmaram com a sua presença o desejo de seguir
obtendo dividendos políticos, econômicos e militares à custa de novos massacres.[56] Por
incrível que pareça, permanecer e aplaudir é avalizar o fim do próprio espírito
que levou à criação das Nações Unidas. Do lado de fora da plenária, o ranger
das engrenagens da engenharia da esperança torce para que a resposta simbólica dos
que saíram se transforme em ação consistente contra o genocídio e a
expropriação de terras na Palestina histórica.
d.
Arrancando as máscaras da hipocrisia.
No final de julho deste
ano, em Dublin, Irlanda, os integrantes do amplo grupo de judeus que se opõem
ao genocídio, organizaram o Segundo Congresso Judaico Antissionista. Convidada
como expositora, a relatora especial da ONU, Francesca Albanese trouxe um
elemento da engenharia da esperança que não pode passar despercebido.
Para ela, as vozes da
Palestina geraram um despertar político sem precedentes. Passo a passo, as
mobilizações se encarregaram de jogar luz nas estruturas que sustentam as
políticas israelenses, nas escolhas de governos e instituições internacionais
que apontam em direções opostas às declarações oficiais dos mandatários de
plantão.[57] Alguns
exemplos ajudam a termos uma ideia deste processo.
Apesar de apoiar as declarações
condenatórias das cúpulas dos países da região, os Emirados Árabes Unidos (EAU)
nada fizeram para interromper os massacres. A principal explicação para esta
postura não deve ser procurada em motivações ideológicas ou religiosas, mas tão
somente em interesses comerciais e militares. Basta pensar que, em 2025, o
comércio bilateral entre Abu Dhabi a Tel Aviv superou em 21,0% o recorde
histórico registrado em 2024 (ano em que Israel começou a usar a fome como arma
de guerra na Faixa de Gaza), sendo a compra de armamento o principal destaque
das importações dos EAU.[58]
E, aqui, há um detalhe
que não pode ser menosprezado. O aumento de 29,7% nas exportações israelenses de
armas entre 2024 e 2025 representa bem mais do que um volume maior de recursos
que permitem aprimorar a indústria armamentista e sustentar a economia do
estado de Israel. De fato, os contratos militares com outros países envolvem
etapas de capacitação para o uso e a manutenção dos equipamentos adquiridos, o
que implica na necessidade de manter uma relação de longo prazo. Desta forma,
exportar artefatos bélicos reduz a disposição de os compradores condenarem as
políticas de Tel Aviv para o Oriente Médio devido ao temor de sofrerem boicotes
no fornecimento de peças de reposição e de assessoria técnica para a operação,
manutenção e atualização dos mesmos, o que, obviamente, fragilizaria os
sistemas defensivos instalados.[59]
Entre os países
europeus que adquiriram armas israelenses, se destacam: a Alemanha que, além de
mísseis antitanque Spike e drones Heron, comprou de Israel o sistema de
interceptação de mísseis Arrow 3 por 3 bilhões e 300 milhões de dólares, e, por
sua vez, entre 2023 e o primeiro semestre de 2026, vendeu a Tel Aviv armas que
somam um total de um bilhão e 678 milhões de dólares; a Romênia que adquiriu o
sistema de defesa aérea Spyder por 2 bilhões e 300 milhões de dólares e está
negociando a compra de equipamentos para montar uma versão local do Domo de
Ferro israelense; a Grécia que, após importar 36 sistemas de artilharia PULS
por 740 milhões de dólares, em 31 de agosto deste ano, assinou um contrato de compra
de armamentos no valor de 3 bilhões de dólares; e a Finlândia que renovou até
2034 o pacto militar com Israel que prevê a estrita colaboração com Tel Aviv na
pesquisa e desenvolvimento de artefatos bélicos.[60]
Um exemplo estritamente
econômico da contradição entre o dizer e o fazer vem da África do Sul. Apesar de
saber por experiência histórica que o boicote é uma arma poderosa, Pretória seguiu
vendendo a Israel carvão, diamantes e outras matérias-primas estratégicas. Se isso não bastasse, o governo local está
avaliando a proposta de aquisição de uma participação significativa pela
empresa de energia israelense Navitas Petroleum com a qual estabeleceria uma
parceria na exploração de hidrocarbonetos na costa oeste do país.[61] A
contradição entre a condenação pública de Israel e a manutenção das relações
comerciais não ganharia o destaque que teve se a engenharia da esperança não
levantasse os tapetes embaixo dos quais os políticos escondem que lucros e
interesses estratégicos vêm antes da ética e que estes reduzem o impacto dos
processos criminais nas Cortes Internacionais.
Desnudados diante de
suas respectivas populações, não é de estranhar que os grupos de poder decidam “dar
o troco” a quem incomodou o pacato fluir dos seus negócios. No Reino Unido, por
exemplo, 12 universidades pagaram uma empresa privada de inteligência para
monitorar estudantes, ativistas e acadêmicos que alimentavam a solidariedade com
as vítimas do massacre na Faixa de Gaza.[62]
Do outro lado do Atlântico, no início de setembro de 2026, a Câmara dos
Deputados dos EUA aprovou um projeto de lei que penaliza as instituições de
ensino que cortarem investimentos ou sancionarem empresas e universidades
israelenses com as quais mantêm acordos de cooperação e parceria. [63]
Em fevereiro deste ano,
a Alemanha impôs restrições às manifestações pró-Palestina e iniciou
investigações de ativistas e militantes com base em leis de incitação ao
terrorismo e perturbação da ordem pública.[64] Recentemente,
o Parlamento italiano retomou a análise de um Projeto de Lei que usa o combate
ao antissemitismo para obscurecer a diferença entre o ódio ao povo judeu e a
oposição política ao sionismo, à ocupação israelense e às suas ações contra os
palestinos como caminho para restringir severamente as críticas a Israel.[65]
Nem o procurador-chefe
do Tribunal Penal Internacional (TPI), Karim Khan, que, em novembro de 2024,
expediu os mandatos de prisão do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu e do
ex-Ministro da defesa Yoav Gallant por supostos crimes de guerra e contra a
humanidade, escapou das pressões políticas. Aliciados por Israel e pelos EUA,
num processo sem as devidas apurações, 82 dos 125 estados membros do tribunal
votaram pela destituição de Karim Khan alegando um relacionamento sexual
impróprio com uma funcionária. A decisão do TPI foi comemorada por Israel que
trata de questionar a legitimidade dos mandatos de prisão e de corroer a
credibilidade das instituições que compõem o sistema jurídico internacional a
fim de abrir caminhos à impunidade.[66]
A destituição é o
desfecho das ameaças que o advogado de defesa israelense, Nicholas Kaufman, fez
a Karim, em maio de 2025, ao propor que trocasse a sua continuidade no cargo e
a sobrevivência do Tribunal Penal Internacional pela retirada dos mandatos de
prisão contra as autoridades israelenses. Como o procurador se manteve firme em
suas posições, em julho deste ano, a chantagem de Tel Aviv foi levada a
cumprimento.[67]
O fato de muitos
estarem de olhos nos acontecimentos levou a uma piora significativa da imagem
de Israel mundo afora. O primeiro indício de que as coisas estavam
degringolando, veio em julho de 2025, quando um levantamento do Instituto
Gallup mostrou que apenas 32,0% dos estadunidenses apoiavam a ação militar em
Gaza, ante 50,0% em novembro de 2023.[68]
Em junho deste ano, o Pew Research Center apontava que, em média, nos 24 países
pesquisados entre 8 de fevereiro e 13 de maio de 2026, 62,0% dos entrevistados
tinham uma visão negativa de Israel e somente 29,0% ainda mantinha uma opinião
favorável ao país.[69]
Estes resultados
fizeram soar os alarmes de Tel Aviv a ponto de o Ministro das Relações
Exteriores, Gideon Sa’ar, afirmar que os gastos com a imagem de Israel deviam
ser tratados com a mesma importância dos “investimentos
em jatos, bombas e interceptores de mísseis”. Dos discursos para a prática,
basta pensar que, em 2026, nos Estados Unidos, o dinheiro gasto para povoar as
mentes das pessoas com as ideias que interessam a Israel já está em 730 milhões
de dólares, mais que o dobro da média anual investida para o mesmo fim entre
2023 e 2025.[70]
Além de manipular a
opinião pública, o lobby sionista trata de calar as vozes que se erguem em
defesa dos palestinos. Nos dias 4 e 5 de setembro, um acontecimento mostrou ao
mundo como isso funciona num país onde a liberdade de expressão sempre foi orgulhosamente
apontada como exemplo para o mundo. Após condenar o genocídio de Israel em Gaza
e pedir que a plateia entoasse “Palestina Livre” no estádio de Nova Jersey,
EUA, durante duas apresentações de abertura da turnê do cantor britânico Ed
Sheeran, o rapper Macklemore se deparou com o pedido do Conselho Israelense-Americano,
para que os organizadores da turnê o removessem dos eventos restantes.[71]
Demitido depois que os
donos dos estádios onde ocorreriam os próximos shows se negaram a aceitar a sua
presença, o rapper continuou sublinhando o seu apoio público à Palestina e reafirmando
que, para ele, como para milhões de pessoas no mundo inteiro, denunciar o
genocídio havia se tornado um dever. Um dever que, no final do comunicado,
mostrava a coerência com a qual é realizado: “Eu não precisava de 10 shows do Ed. Eu precisava de 2. Duas chances de
ficar diante de 90.000 pessoas e dizer as palavras que, de alguma forma, se
tornaram perigosas demais para serem ditas: Palestina Livre. Mas se essas
palavras me custaram o palco, ao mesmo tempo em que redirecionaram a conversa
para a Palestina, então foi a turnê de maior sucesso da qual já participei”.[72]
A resposta aos grupos
sionistas que agiam nas sombras conheceu mais um desdobramento em 16 de
setembro, quando todos os artistas de abertura dos shows deixaram
voluntariamente a turnê graças à qual poderiam mostrar suas performances a um
público muito maior do habitual. Ao comentar a decisão, o músico americano
Finneas escreveu: “Os artistas não devem
ser silenciados quando se manifestam em defesa dos oprimidos. Decidi cancelar a
minha participação no show de Ed Sheeran. Estou ao lado da Palestina e do seu
povo”.
O cantor irlandês Aaron
Rowe e a banda folk Beoga lembraram a história da Irlanda marcada pelo
colonialismo, pela fome e pela ocupação estrangeira para explicar as razões
pelas quais não podiam continuar participando da turnê. Aaron descreveu Sheeran
como um amigo que mudou a sua vida, mas ele não podia “ficar de braços cruzados e permitir que bilionários usassem sua
posição de poder para silenciar as vozes legítimas daqueles que se manifestam
contra o genocídio israelense e o assassinato brutal de crianças”. A banda
Rowe seguiu o mesmo tom dizendo: “Como
membros fundadores do movimento Artistas Irlandeses pela Palestina, somos
ativistas comprometidos com a justiça e continuaremos a sê-lo”.
Lukas Graham questionou
a capacidade de os ricos proprietários das casas de espetáculo determinar as
posições políticas que os artistas podem expressar no palco: “Dinheiro não dá o direito de monopolizar a
conversa. O saldo bancário de ninguém deve decidir quem pode falar ou qual
sofrimento podemos reconhecer”.[73]
Para quem achava que o
embate estava próximo do fim, no dia 24 de setembro, Macklemore anunciou que os
contatos com artistas que partilham da mesma visão sobre os acontecimentos na
Faixa de Gaza haviam possibilitado o agendamento das três primeiras apresentações
da Turnê Palestina Livre por ele pensada após a sua exclusão da turnê.
Apresentações que ao serem realizadas em Dublin (26 de outubro), Paris (29 de
outubro) e Londres (30 de outubro) terão toda a renda destinada às organizações
que apoiam o povo e o movimento palestino.
Ao comentar o desafio
assim lançado, o rapper escreve: “Ser
apolítico durante um genocídio não funciona mais. As pessoas estão pedindo aos
artistas que se manifestem, se eduquem e se conectem com a comunidade. Que usem
o palco para algo além do entretenimento. Que reajam quando o apelo por uma
Palestina Livre é recebido com tentativas de silenciá-lo”.[74]
No dia seguinte, Ed Sheeran, que havia optado pela neutralidade para se
distanciar dos massacres na Faixa de Gaza, recebe a notícia do cancelamento dos
dois shows no Gillette Stadium em Foxborough, Massachussets.[75]
Cinco dias depois, numa resposta da engenharia da esperança que surpreendeu os
artistas contatados, o público que deseja manifestar sua posição a favor dos
palestinos esgota as vendas dos ingressos dos três shows organizados por Macklemore.[76]
No momento em que escrevemos,
o fato de a população da Faixa de Gaza não se dobrar ao processo de limpeza
étnica promovido por Israel ameaça o desempenho de Netanyahu nas eleições
marcadas para 27 de outubro deste ano. Dois elementos distintos materializam o
NÃO aos planos de Tel Aviv. O primeiro deles é a sobrevivência de Hamas após
quase três anos de bombardeios e genocídio. Apesar de todos os esforços para
aniquilar a resistência palestina e colocar a população contra a sua
administração do território, a continuidade da organização e dos demais grupos
aliados e o fato de não fazerem concessões em relação ao seu desarmamento
mostram o fracasso da prometida vitória total em Gaza feita por Netanyahu antes
de iniciar a ocupação militar.[77]
A segunda situação que,
ao enfurecer o Primeiro-Ministro, mostrou a fragilidade de Netanyahu, foi
criada pela percepção de que o sonho de uma Palestina livre estava presente até
na brincadeira das crianças. Aproveitar o vento que sopra do Mediterrâneo para
empinar pipas sempre foi uma das diversões que alegram os pequenos da Faixa de
Gaza. Obviamente, o problema destes “artefatos voadores” não é seu poder de
fogo, mas o que eles representam. Feitas com papel que, muitas vezes, traz as
cores da Palestina, as pipas foram encontradas nas proximidades dos vilarejos à
margem da fronteira com a Faixa de Gaza, cujos moradores viram o ataque de 7 de
outubro ameaçar suas vidas.
A presença deste
brinquedo inocente é um lembrete de que não só o genocídio não matou a alegria
das crianças, como deixou intacta a luta por uma Palestina Livre, agora
incorporada na diversão dos pequenos. Israel recebeu o fato como uma afronta
que, caso não cessasse, seria paga com a intensificação dos bombardeios na
Faixa de Gaza. O primeiro da série que serviu de advertência para a seriedade da
ameaça atingiu um prédio em Az-Zawayda, matando três pessoas, entre as quais
estava Mohammad Abdel-Salam Taha, de quatro anos.[78] A
máquina de guerra israelense pode matar quem empina pipas e seus pais, mas não
as mensagens que carregavam e que, como engrenagem da complexa simplicidade da
engenharia da esperança, são mais perigosas do que os aviões de combate cujas
bombas nunca darão ao sionismo a capacidade de extrair alguma razão da
implacável destruição que provocam.
Parte importante do atual
processo eleitoral israelense, a escalada dos ataques militares na Faixa de
Gaza e o deslocamento forçado dos palestinos da Cisjordânia voltam a chamar as
atenções do mundo. Novamente, sobram discursos dos governantes e faltam ações
capazes de impedir o pior.
As mesmas autoridades
europeias que descrevem a expansão dos assentamentos israelenses como uma “ameaça existencial à solução dos dois
estados”, limitam-se a cortar o comércio com o que é produzido pelos
assentamentos da Cisjordânia, algo praticamente inócuo e que, na melhor das
hipóteses, demorará meses para ser viabilizado. Enquanto isso, o Ministro das
Finanças, Bezalel Smotrich, além de declarar “nulos e sem efeito” os Acordos de Oslo com base nos quais se
sustenta a solução dos dois estados à qual os europeus se referem, no dia 27 de
setembro, pedia que Israel atuasse na Cisjordânia usando os mesmos moldes que
produziram o genocídio na Faixa de Gaza.[79] Seis
dias depois, o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Bem Gvir, fazia coro a
estas palavras acrescentando que “Não há
diferença entre as Áreas A, B e C”, da Cisjordânia, à medida que “Toda a terra é nossa. Este é o nosso país”,
e, com a frieza de um gerente que calcula a eficiência da morte e das expulsões
a serem produzidas, defendia um uso mais amplos das armas de fogo nas incursões
dos soldados israelenses com base na constatação pela qual “quanto mais você permite que os soldados atirem e usem a força, menos
efetivos você precisa”.[80]
Na Faixa de Gaza, o
corte no fornecimento do combustível para os geradores de eletricidade que
mantêm em funcionamento os equipamentos hospitalares está a um passo de
provocar a completa paralização do atendimento da população.[81] Os
campos de deslocados são cada vez mais alvos dos drones, da artilharia e dos disparos
dos soldados israelenses.[82]
Além disso, o início do outono aumenta as preocupações dos palestinos na exata
medida em que são necessárias pelo menos 200.000 tendas para substituir as que
já não podem oferecer a menor proteção contra os rigores do clima.[83]
Diante das nuvens
cinzentas que pairam no futuro imediato, ecoam em nós as palavras do último
comunicado que o jornalista palestino Anas Al-Sharif transmitiu pouco antes de
ser assassinado, no dia 10 de agosto de 2025, a um passo da invasão em larga
escala da Faixa de Gaza: “Durante 22
meses a cidade sangrou sob bombardeios contínuos por terra, mar e ar. Dezenas
de milhares de pessoas foram mortas e centenas de milhares ficaram feridas. Se
essa loucura não parar, Gaza será reduzida a escombros, as vozes de seu povo
serão silenciadas, seus rostos apagados e a história lembrará de vocês como
testemunhas silenciosas de um genocídio que escolheram não impedir.
Por
favor, compartilhe esta mensagem e marque todos os que têm poder de impedir
este massacre. Silêncio é cumplicidade”.[84]
Mais do que nunca, a
engenharia da esperança precisa do que está ao nosso alcance para que suas
engrenagens continuem funcionando. Pense nisso.
Emilio Gennari, Brasil,
outubro de 2026.
[1] Em: https://www.palestinechronicle.com/i-can-clench-my-fist-the-old-woman-of-tehran-who-will-defeat-donald-trump/
Acesso realizado em 09.04.2026.
[2] A proporção foi calculada levando em
consideração número de mortos israelenses divulgado em: https://www.palestinechronicle.com/israels-october-7-hoax-propaganda-continues-after-two-years-of-genocide/
e o total de 74.016 vítimas dos bombardeios da Faixa de Gaza somada aos
843 corpos de palestinos resgatados dos escombros entre 08.10.2023 e
26.09.2026. Dados publicados em: https://www.palestinechronicle.com/israeli-drone-strike-kills-palestinian-in-nuseirat-as-gaza-death-toll-tops-74000/ Acessos realizados, respectivamente,
em 14.10.2025 e em 26.09.2026.
[3] Em: https://www.aljazeera.com/news/2026/7/23/rebuilding-gaza-to-cost-71bn-must-include-palestinians-report-finds
Acesso realizado em 03.08.2026.
[4] Em: https://www.palestinechronicle.com/outraged-unicef-says-israel-killed-water-workers-forcing-halt-to-vital-gaza-aid/
Acesso realizado em 03.08.2026.
[5] Estas e outras informações sobre o
mesmo tema podem ser encontradas em:
Acesso realizado em 02.08.2026.
[6]
Em: https://www.palestinechronicle.com/israel-kills-three-palestinians-bombs-hospital-drug-stores-despite-ceasefire-roadmap/ Acesso realizado em 02.08.2026.
[7] Estes e outras informações sobre o mesmo tema podem
ser encontradas em:
- https://www.bbc.com/mundo/articles/cn8pjnl3m0go
Acessos realizados em 03.08.2026.
[8] Em: https://www.palestinechronicle.com/genocide-continues-un-inquiry-reveals-logic-behind-israels-killing-of-gazas-children/ Acesso
realizado em 04.08.2026.
[9] Estas e outras informações podem ser encontradas em: https://www.palestinechronicle.com/miscarriage-crisis-in-gaza-rate-more-than-triples-in-first-half-of-2026/ Acesso
realizado em 12.08.2026.
[10] Em: https://www.palestinechronicle.com/1-4-million-palestinians-in-gaza-face-acute-food-insecurity-new-ipc-analysis/
Acesso realizado em 31.07.2026.
[11] Em: https://www.palestinechronicle.com/assault-on-survival-what-israels-destruction-of-gazas-fishing-industry-reveals/
Acesso realizado em 31.07.2026.
[12] Estas e outras informações podem ser encontradas em: https://www.palestinechronicle.com/fields-turn-to-kill-zones-how-israeli-fire-crushes-gaza-farming-report/ Acesso
realizado em 31.07.2026.
[13] Em: https://www.palestinechronicle.com/gaza-set-back-77-years-71-4-billion-needed-to-rebuild-after-genocide-un-eu-world-bank-report-finds/ Acesso
realizado em 23.04.2026.
[14] Em: https://www.palestinechronicle.com/strangling-gazas-survivors-criminalizing-humanity-the-banning-of-humanitarian-relief-in-palestine/ Acesso
realizado em 30.04.2026.
[15] Em: https://www.palestinechronicle.com/israel-orders-doctors-without-borders-to-halt-gaza-operations-by-february-28/
Acesso realizado em 03.02.2026.
[16] Em: https://www.palestinechronicle.com/its-hell-here-displaced-gazans-crowd-the-seaport-with-nowhere-else-to-go/
Acesso realizado em 10.06.2026.
[17] Em: https://www.palestinechronicle.com/israel-committed-over-4000-ceasefire-violations-in-300-days-gaza-media-office/
Acesso realizado em 06.08.2026.
[18] Em: https://www.palestinechronicle.com/israeli-strikes-kill-palestinians-destroy-gaza-desalination-plant-as-attacks-continue/
Acesso realizado em 24.08.2026.
[19] Estas e outras informações sobre o tema podem ser
obtidas em:
- https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/07/22/palestina-la-junta-de-la-paz-de-trump-ha-convertido-a-gaza-en-el-lugar-mas-peligroso-del-mundo-para-ser-nino/ Acessos
realizados entre 05.08.2026 e 23.09.2026.
[20] Estas e outras informações podem ser obtidas em: https://www.palestinechronicle.com/shoot-to-kill-israeli-soldiers-describe-shootings-along-gazas-yellow-line/ e em: https://elpais.com/planeta-futuro/2026-06-21/la-vida-al-limite-junto-a-la-linea-amarilla-de-gaza-cuando-se-acerca-el-atardecer-salir-es-una-sentencia-de-muerte.html Acessos
realizados em 22.06.2026.
[21] Em: https://www.palestinechronicle.com/israel-committed-over-4000-ceasefire-violations-in-300-days-gaza-media-office/
Acesso realizado em 06.08.2026.
[22] Idem.
[23] Em: https://www.palestinechronicle.com/netanyahu-orders-israeli-army-to-seize-70-of-gaza-despite-ceasefire-terms/
Acesso realizado em 25.06.2026.
[24] Estas e outras informações podem ser
encontradas em:
- https://www.palestinechronicle.com/license-to-torture-un-expert-says-israel-made-abuse-state-policy/
- https://www.palestinechronicle.com/israel-detains-95-palestinian-health-workers-some-missing-killed/
Acessos realizados entre 31.01.2026 e
11.08.2026.
[25] Em: https://www.palestinechronicle.com/one-thousand-days-of-genocide-gazas-story-beyond-the-numbers/
Acesso realizado em 19.07.2026.
[26] Em: https://www.intercept.com.br/2025/03/27/israel-assassinato-jornalista-gaza-ultimas-palavras/
Acesso realizado em
31.07.2026.
[27] Em: https://www.instagram.com/reel/DNODdr-KqrT/
Acesso realizado em 31.07.2026.
Vale lembrar que, do início da
ocupação ao dia 26 de setembro de 2026, o exército israelense matou 262 jornalistas
(entre os quais estavam 26 mulheres), feriu outros 433 e prendeu 50 entre
jornalistas e profissionais de mídia. Em: https://www.palestinechronicle.com/palestinian-journalist-death-toll-reaches-262-as-gaza-marks-international-solidarity-day/
Acesso realizado em 26.09.2026.
[28] Estas e outras informações podem ser obtidas em:
Acesso realizado em 06.04.2026.
Acesso realizado em
05.08.2026.
[29] Em: https://www.palestinechronicle.com/the-midwife-of-gaza-where-newborn-cries-drown-out-the-bombs/
Acesso realizado em 20.01.2026.
[30] Em: https://elpais.com/planeta-futuro/2026-02-08/volver-a-una-gaza-en-ruinas-una-tienda-de-campana-o-una-tumba-en-mi-tierra-son-mejores-que-un-palacio-fuera-de-ella.html Acesso
realizado em 10.02.2026.
[31] Você pode ter acesso a estas e outras informações em:
- https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/05/19/palestina-gaza-pertenece-a-israel-un-vistazo-al-brutal-viaje-desde-el-cruce-de-rafah-hasta-gaza/ Acessos realizados
entre 04.02.2026 e 14.08.2026.
[32] Em: https://elpais.com/planeta-futuro/2025-10-12/los-escombros-son-parte-de-la-patria-a-la-que-no-renunciaremos-regreso-a-ninguna-parte-en-gaza.html#?rel=mas Acesso
realizado em 13.10.2025.
[33] Em: https://www.palestinechronicle.com/ramadan-mubarak-from-the-gaza-genocide-ordinary-people-teach-the-world-a-lesson-in-sumud/
Outras informações sobre o Ramadã de 2026 na Faixa de
Gaza podem ser obtidas em:
Acessos realizados em 02.04.2026.
[34] Em: https://www.dropsitenews.com/p/gaza-community-educational-schools-trauma-remote Acesso
realizado em 19.08.2026.
[35] Você pode ter acesso a estas e outras informações
sobre esta experiência em: https://www.palestinechronicle.com/gazas-libraries-were-destroyed-how-children-refused-to-let-them-die/ Acesso
realizado em 18.06.2026.
[36] Em: https://www.palestinechronicle.com/shakespeare-in-the-displacement-camps-the-story-the-war-could-not-cancel/
Acesso realizado em 23.06.2026.
[37] Em: https://www.palestinechronicle.com/a-circus-tent-amid-the-rubble-a-safe-space-for-gazas-war-weary-children/
Acesso realizado em
16.07.2026.
Você também pode conhecer
o relato de outra atividade circense em: circo https://elpais.com/internacional/2026-09-03/un-circo-ambulante-para-el-horror-de-gaza.html Acesso
realizado em 04.09.2026.
[38] Em: https://www.palestinechronicle.com/portraits-from-gaza-a-painter-a-father-a-runner/ Acesso realizado em 17.02.2026
[39] Em: https://elpais.com/planeta-futuro/2025-11-01/israel-nos-privo-a-la-fuerza-de-la-alegria-la-danza-dabkeh-de-los-escenarios-a-los-escombros-de-gaza.html Acesso
realizado em 03.11.2025.
[40] Em: https://elpais.com/planeta-futuro/2026-07-27/con-una-pierna-amputada-y-un-sueno-intacto-las-mujeres-de-gaza-desafian-la-guerra-a-traves-del-futbol.html Acesso
realizado em 29.07.2026.
[41] Em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/01/24/palestina-como-transformo-kameel-abu-hanish-la-prision-en-una-escuela-de-libertad/ Acesso
realizado em 26.01.2026.
[42] Em: https://www.palestinechronicle.com/victory-at-starvations-edge-palestine-action-hunger-strikers-shame-the-uk/
Acesso realizado em
18.01.2026.
[43] Em: https://youtube.com/shorts/vZ5OkEVLczw?is=MViK5gEzZZVDEUvb
Acesso realizado em 18.08.2026.
[44] Em: https://www.palestinechronicle.com/justice-means-accountability-hind-rajab-director-rejects-berlin-award-with-a-powerful-speech/ Acesso
realizado em 18.02.2026.
[45] Você pode ter acesso a estas e parte das principais
informações em:
Acessos realizados entre
abril e maio de 2026.
[46] Em: https://www.palestinechronicle.com/new-gaza-flotilla-mission-is-underway-all-you-need-to-know/
Acesso realizado em 05.09.2026.
[47] Em: https://ilmanifesto.it/i-portuali-non-lavorano-per-la-guerra-ampia-adesione-allo-sciopero-globale
Acesso realizado em
20.08.2026.
[48] Você pode conhecer alguns dos passos principais deste
processo em:
- https://www.genovatoday.it/politica/portuali-contro-nave-armi-manifestazione-davanti-comune.html
- https://www.ilfattoquotidiano.it/2025/09/22/sciopero-porto-genova-gaza-manifestazioni-oggi/8134894/
Acessos realizados em
20.08.2026.
[49] Em: https://www.palestinechronicle.com/there-is-no-pride-in-genocide-rome-pride-rejects-pinkwashing-as-israels-slaughter-continues/ Acesso
realizado em 14.06.2026.
[50] Em: https://www.palestinechronicle.com/a-mural-amid-the-rubble-how-hossam-hassan-became-gazas-world-cup-hero/
Acesso realizado em
11.07.2026.
[51] Estas e outras informações sobre o
assunto estão disponíveis em:
Acessos realizados em 08.08.2026.
[52] Você pode encontrar estas e outras informações sobre o
ocorrido em:
- https://youtube.com/shorts/MXGftyiEf18?is=69zvU5n6K8lKK6Kx
Acessos realizados em
18.08.2026.
[53] Você pode encontrar estas e outras
informações sobre o caso em: https://www.palestinechronicle.com/breaking-massive-attacks-robert-del-naja-arrested-over-pro-palestine-sign/
Acesso realizado em 27.09.2026.
[54] Em: https://www.palestinechronicle.com/unwanted-in-our-country-protesters-confront-israeli-cruise-ship-in-greece/
Acesso realizado em
16.08.2026.
[55] Estas e outras informações mais detalhadas estão
disponíveis em: https://www.palestinechronicle.com/adidas-faces-boycott-over-israeli-soldier-amid-gaza-amputation-crisis/ Acesso
realizado em 08.09.2026.
[56] Estas e outras informações sobre o mesmo tema estão
disponíveis em: https://www.palestinechronicle.com/moral-cowards-netanyahu-rages-as-delegates-abandon-his-un-speech/ e em: https://www.palestinechronicle.com/netanyahus-speech-drama-at-unga81-who-left-and-who-stayed/ Acessos
realizados em 25.09.2026.
[57] Em: https://www.palestinechronicle.com/gaza-has-ignited-a-revolution-albanese-addresses-anti-zionist-jewish-congress/
Acesso realizado em 30.06.2026.
[58] Em: https://www.palestinechronicle.com/exposed-how-the-uae-became-central-to-gazas-concentration-camp-plot/
Acessos realizados
respectivamente em 28.01.2026 e em 03.08.2026..
[59] Em: https://www.palestinechronicle.com/how-israels-booming-arms-industry-expands-its-global-influence-despite-gaza-criticism/
Acesso realizado em
03.07.2026.
[60] Você pode encontrar estas e outras informações sobre o
mesmo tema em:
Acessos realizados entre
05.12.2025 e 04.09.2026.
[61] Em: https://www.palestinechronicle.com/south-africas-coal-exports-to-israel-when-profit-trumps-principle/ Acesso
realizado em 27.01.2026 e em: https://www.palestinechronicle.com/can-south-africa-champion-justice-while-expanding-energy-ties-with-israel/ Acesso realizado
em 12.07.2026.
[62] Em: https://www.palestinechronicle.com/state-of-terror-uk-universities-paid-intelligence-firm-to-monitor-pro-palestine-students/ Acesso
realizado em 24.04.2026.
[63] Em: https://www.palestinechronicle.com/us-house-passes-bill-to-penalize-universities-over-boycotts-of-israel/
Acesso realizado em 04.09.2026.
[64] Em: https://www.palestinechronicle.com/france-charges-five-in-hamas-financing-case-as-pressure-mounts-on-solidarity-networks/ Acesso
realizado em 23.02.2026.
[65] Em: https://www.palestinechronicle.com/italys-antisemitism-bill-raises-fears-of-crackdown-on-palestine-solidarity/
Acesso realizado em
06.09.2026.
[66] Estas e outras informações podem ser encontradas em:
- https://elpais.com/internacional/2026-07-24/el-tribunal-penal-internacional-destituye-a-su-fiscal-jefe-por-conducta-sexual-inapropiada.html Acessos
realizados em 29.07.2026.
[67] Em: https://www.palestinechronicle.com/karim-khan-and-the-targeted-assassination-of-the-icc/ Acesso
realizado em 31.07.2026.
[68] Em: https://news-gallup-com.translate.goog/poll/692948/u.s.-back-israel-military-action-gaza-new-low.aspx?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc Acesso
realizado em 09.06.2026.
[69] Em: https://www-pewresearch-org.translate.goog/short-reads/2025/06/03/most-people-across-24-surveyed-countries-have-negative-views-of-israel-and-netanyahu/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc Acesso
realizado em 09.06.2026.
[70] Em: https://www.palestinechronicle.com/the-eighth-front-how-israel-plans-to-occupy-the-american-mind/
Acesso realizado em
20.08.2026.
[71] Em: https://www.palestinechronicle.com/i-found-my-family-sarandon-macklemore-defy-palestine-backlash/
Você pode ter acesso à apresentação de Macklemore em Nova Jersey e aos
vídeos das duas músicas Hind’s Hall sobre o genocídio em Gaza em:
- https://youtu.be/Jpr76iaJrdM?is=6BScNORjOCX7h-rm
- https://youtu.be/fgDQyFeBBIo?is=rYHMQRti70VmWcTW
- https://youtu.be/qRRoTR9HGFU?is=1451JmTAX7tQmsIH
Acessos realizados em 07.09.2026.
[72] Em: https://www.palestinechronicle.com/stage-is-resistance-macklemore-dropped-from-ed-sheeran-tour-over-palestine/
Acesso realizado em 14.09.2026.
[73] Você pode ter acesso a estas e outras informações
sobre o assunto em:
- https://elpais.com/cultura/2026-09-16/el-apoyo-a-palestina-desata-una-crisis-en-la-gira-de-ed-sheeran-con-el-abandono-de-varios-musicos.html Acessos
realizados em 16.09.2026.
[74] Em: https://www.palestinechronicle.com/so-were-going-on-tour-macklemore-launches-free-palestine-tour/
Acesso realizado em 24.09.2026.
[75] Em: https://www.palestinechronicle.com/ed-sheerans-gillette-stadium-concerts-canceled-after-weeks-of-tour-turmoil/
Acesso realizado em 25.09.2026.
[76] Em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2026/09/30/macklemore-esgota-ingressos-para-shows-pro-palestina-apos-expulsao-da-turne-de-ed-sheeran.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias Acesso
realizado em 01.10.2026.
[77] Em: https://elpais.com/internacional/2026-08-16/la-supervivencia-de-hamas-complica-la-reeleccion-a-netanyahu.html
Acesso realizado em 17.08.2026.
[78] Em: https://www.palestinechronicle.com/netanyahu-threatens-new-gaza-attacks-displacement-over-childrens-kites/
Acessos realizados em
25.08.2026.
[79] Você pode encontrar estas e outras informações em:
- https://www.palestinechronicle.com/sanctions-without-an-arms-embargo-is-europe-serious-about-israel/
Acessos realizados entre 22.08.2026 e
27.09.2026.
[80] Em: https://www.palestinechronicle.com/the-entire-land-is-ours-ben-gvir-threatens-displacement-freer-gunfire/
Acesso realizado em 03.10.2026.
[81] Em: https://www.palestinechronicle.com/gaza-hospital-runs-out-of-fuel-as-al-hayya-calls-for-entry-of-heavy-machinery/
e em: https://www.palestinechronicle.com/gaza-hospitals-cut-services-as-fuel-runs-out-patients-blocked-from-leaving/
Acessos realizados em 21.09.2026.
[82] Você pode ter uma ideia do que está
acontecendo em:
Acessos realizados entre
23.09.2026 e 05.10.2026.
[83] Em: https://www.palestinechronicle.com/no-safe-shelter-in-gaza-200000-tents-needed-before-winter/
Acesso realizado em 21.09.2026
