terça-feira, 6 de outubro de 2026

A Complexa Simplicidade da Engenharia da Esperança



Lições para as Lutas de Nosso Tempo

 

Imagino a sua perplexidade diante do título. Como é possível que alguma coisa seja simples e complexa ao mesmo tempo?

Respondemos com um exemplo da natureza. Certamente, você já viu alguma fotografia das “catedrais de calcário” construídas pelo gotejar da água no interior das cavernas. O resultado da simples persistência das gotas através dos séculos criou obras complexas que entrelaçam colunas e criam imagens de uma beleza única.

Mas...o que aconteceria se, diante da sua insignificância e da indiferença dos humanos, estas minúsculas quantidades de água se recusassem a mergulhar em direção ao solo? O que seria destas catedrais se, na ausência de resultados imediatos, estes pingos miúdos adiassem indefinidamente a queda que dará vida ao extraordinário? A resposta é simples: sem a persistência da água, as formações de calcário não teriam como existir.

Com a esperança ocorre algo semelhante. Ao materializar a indignação, a simplicidade de um gesto faz com que ter esperança não seja sinônimo de aguardar algo que ninguém sabe dizer o que é, quem deve fazer e quando virá. É “o pouco” que, ao acontecer, encoraja “outros poucos” a sacudirem a paralisia do medo e questionarem a indiferença dos demais. Passo a passo, entre erros e acertos, o cotidiano concretizar-se da esperança abre caminhos que moldam as engrenagens de uma engenharia complexa e imprevisível. Mais um exemplo nos ajuda a expressar o que as palavras têm dificuldade de dizer.

Após os bombardeios perpetrados por Israel e pelos Estados Unidos, um vídeo gravado nas ruas de Teerã, capital do Irã, mostrava uma idosa que, se apoiando numa bengala, caminhava com dificuldade rumo aos manifestantes que, naqueles dias, começavam a repudiar a agressão militar. Intrigado com a sua presença, um jovem repórter foi conversar com ela. Perguntada em relação ao que estava fazendo aí, a mulher, simplesmente, respondeu: “Vim para não deixar o campo de batalha vazio. O inimigo tem medo de nós, ele tem medo do povo do Irã”.

Diante do jornalista que questionava as razões pelas quais exércitos armados até os dentes deveriam temer uma idosa que mal se segurava em pé, ela retrucou sem titubear: “Não tenho forças, mas consigo cerrar os meus punhos”. Em seguida, ao erguê-los como uma guerreira experiente, acrescentou: “Eu luto com os meus punhos”.[1]

Os poderosos que movimentam os arsenais da guerra usam a força das armas para dominar os povos com o medo da morte. Mas estes “inimigos do Irã” temem quem consegue tirar forças da esperança que se materializa em atos de resistência. Para a idosa de Teerã, transformar sofrimentos em resposta que nega a submissão começa com o “não deixar o campo de batalha vazio”. Ninguém lhe garante que dê certo. Contudo, sem a simplicidade desta presença, a guerreira sabe que será impossível contagiar milhares de outros com a mesma rebeldia e, menos ainda, criar as engrenagens da engenharia de uma esperança que une forças contra o agressor.

De Teerã, vamos agora para a Faixa de Gaza onde um povo extremado por três anos de genocídio mostra como a esperança ganha corpo e alma para caminhar mundo afora.

 

Gaza: a construção de uma luz que as trevas não apagam

Há muitas maneiras de esboçar as feições de um genocídio e nenhuma delas consegue traduzir os dramas humanos sofridos pelas vítimas. Fotos e vídeos oferecem uma visão da catástrofe. O cômputo dos mortos, feridos e desaparecidos transforma pessoas em números. A frieza dos dados que traçam as dimensões da destruição não mostra que a fome, a piora das condições de vida e o deslocamento forçado impedem de ver além da sobrevivência imediata, aniquilam sonhos e negam qualquer possibilidade de paz.

Os massacres perpetrados na Faixa de Gaza fazem com que o “olho por olho, dente por dente” seja uma postura absurdamente desejável. Basta pensar que, para cada um dos 1.139 israelenses mortos no ataque da resistência palestina em outubro de 2023, o exército de Israel matou 66 moradores da Faixa de Gaza, a maior parte dos quais são mulheres e crianças.[2] Um saldo que dá novas razões à continuidade da resistência.

 

a. Gaza: o inferno é aqui.

No imaginário religioso, o inferno é um lugar de sofrimentos onde as almas pagam eternamente o castigo pelos pecados cometidos em vida. Seja ele de labaredas de fogo, de mármores gelados ou de trevas impenetráveis, estamos falando de um ambiente no qual a justiça divina encerra quem promoveu o mal.

Longe das discussões teológicas, a Faixa de Gaza é uma parte da Palestina histórica cuja população é condenada a sofrer em vida os mais diferentes castigos coletivos devido à sua luta pelo direito de existir como povo. Ter uma Pátria para chamar de sua, viver numa terra onde sua identidade, sua cultura, sua história e as mais diferentes atividades marcam os passos da vida cotidiana é o pecado que, em tempos e formas diferentes, Israel pune impondo condições de vida que forcem os palestinos a deixarem a sua terra.

A objetividade dos números nos aproxima do que significa fazer com que Gaza seja o inferno destinado a produzir a limpeza étnica. De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA, pela sigla em inglês), em pouco mais de dois anos e meio de bombardeios, 371.888 unidades habitacionais foram destruídas ou danificadas. Bairros inteiros estão intransitáveis em função dos escombros embaixo dos quais jazem os restos mortais de 10.000 pessoas. Além das implicações que a decomposição dos corpos oferece à saúde dos vivos, a retirada dos cadáveres expõe os palestinos tanto ao perigo das bombas e dos projéteis não detonados, como dos seguidos ataques israelenses.[3]

Os sistemas de água, saneamento básico e gestão de resíduos foram gravemente danificados. Quando é possível, o lixo é usado como combustível para preparar as refeições e o acúmulo dos outros rejeitos contribui para a proliferação de ratos e doenças. O que já é particularmente difícil se torna desesperador quando Israel trava a ajuda que ameniza esta situação.

No dia 18 de abril deste ano, por exemplo, as forças armadas de Tel Aviv mataram dois motoristas dos caminhões-pipa que distribuíam água potável à população, forçando a UNICEF a suspender este serviço até que fossem restabelecidas condições mínimas de segurança. Trocado em miúdos, se ter acesso a uma quantidade já insuficiente deste precioso líquido era um desafio diário, cortar os pontos de abastecimento aos quais estes trabalhadores das Nações Unidas se dirigiam seguindo as rotas definidas pelo próprio exército israelense é tornar a falta d’água fatal para milhares de famílias dos campos de deslocados.[4]

Desde outubro de 2023, os bombardeios incessantes destruíram completamente 22 hospitais e levaram ao fechamento de 58 dos 103 centros de atenção primária à saúde em operação antes da guerra. As 16 instalações hospitalares que continuam atendendo foram danificadas pelas explosões e funcionam apenas parcialmente. Em muitos casos, a escassez de remédios faz com que os pacientes não recebam o que precisam, mas apenas o que está disponível.[5]

Esta situação se agrava quando os mísseis atingem os depósitos dos centros de saúde que restam. Algo que ocorreu, por exemplo, no dia 1º de agosto de 2026, quando Israel bombardeou dois dos quatros armazéns do Hospital Mártires de Al-Aqsa, no centro de Gaza, onde eram guardados suprimentos médicos vitais e materiais de consumo destinados aos pacientes e aos feridos que procuram ajuda.[6]

 A realidade das crianças não encontra palavras capazes de descrever tamanho sofrimento. A ONU tem denunciado que 728.000 delas estão sem aula há mais de dois anos devido à destruição total ou parcial de 93,0% dos prédios escolares; que 58.000 menores perderam um ou ambos os pais; que cerca de 1500 sofreram amputações; e que, praticamente todas elas estão traumatizadas pelos bombardeios.[7]

Em 23 de junho deste ano, a investigação das Nações Unidas concluiu que o exército israelense alveja deliberadamente crianças palestinas em Gaza. Segundo o relatório final, o levantamento dos ferimentos, dos traumas sofridos e a morte de 20.179 crianças nos dois anos transcorridos a partir de 7 de outubro de 2023 aponta claramente que assassiná-las é “parte da estratégia para destruir a continuidade biológica e a existência futura do grupo palestino em Gaza”. Em outras palavras, “ao atacar as crianças Israel está atacando a própria capacidade de o povo palestino existir e determinar o seu futuro”. [8]  

Os ataques militares, os deslocamentos forçados, a fome, as restrições impostas a qualquer tipo de auxilio e a progressiva degradação das condições higiênicas fazem com que levar a gravidez a bom termo dependa mais da sorte do que dos cuidados que uma gestação requer. O número de abortos espontâneos vem crescendo desde o início da invasão israelense e, em 2026, atingiu níveis alarmantes. Os dados disponíveis mostram que, durante o segundo semestre de 2025, foram registrados 64 abortos espontâneos para cada 1000 bebês nascidos vivos. Entre janeiro e junho de 2026, esta proporção subiu para 208,5, um aumento de quase 326,0%.[9]

O ataque à sobrevivência amplia seu alcance com a destruição dos setores econômicos que poderiam proporcionar algum alívio aos 67,0% da população de Gaza que sofrem de insegurança alimentar severa.[10] Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a pesca representa hoje menos de 10,0% do que era antes da guerra. A destruição de barcos, oficinas de reparo, portos de desembarque e instalações de armazenamento se somou às restrições draconianas impostas aos pescadores pelo bloqueio naval israelense, impossibilitando que esta histórica fonte de proteínas amenize a fome da população.[11] Na agricultura, a situação é ainda pior. De fato, a destruição produzida pela guerra fez com que os poucos cultivos possíveis ocorram em apenas 2,3% da terra onde os camponeses plantavam alimentos até outubro de 2023.[12]

Estes números permitem entender a afirmação do relatório da ONU, divulgado na segunda metade de abril deste ano, segundo o qual a ocupação militar israelense impôs à Faixa de Gaza um retrocesso de 77 anos em termos de desenvolvimento humano.[13] Entre abril e setembro, a situação só piorou. De fato, a base de dados que serviu para formular suas conclusões ainda não incluía nem a revogação da licença de 37 organizações internacionais de ajuda humanitária de atuar no enclave costeiro, nem a falta de financiamento dos países que contribuem para o atendimento da ONU aos deslocados.[14]

Para termos uma ideia do que isso significa, basta pensar que a organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi forçada a interromper suas atividades na Faixa de Gaza a partir de 28 de fevereiro deste ano. A entidade apoiava seis hospitais públicos, administrava dois hospitais de campanha e, só em 2025, havia tratado de 100.000 ferimentos graves, realizado 22.700 cirurgias e 800.000 consultas, além de acompanhar 10.000 partos e oferecer dezenas de milhares de sessões de apoio psicológico.[15]

Em junho de 2026, a UNOCHA alertou que os financiamentos destinados à ajuda humanitária somavam apenas 15,0% dos 4 bilhões e 100 milhões de dólares necessários para manter uma intervenção que já era considerada inferior às necessidades. Concretamente, a redução das operações pela falta de verbas ameaça a distribuição de água por caminhões-pipa para mais de 330.000 pessoas e força a reduzir as refeições diariamente distribuídas de um milhão e 500 mil, em março deste ano, para não mais do que 678.000. Se esta previsão se confirmar, estaremos diante de um golpe devastador para centenas de milhares de famílias que, sem emprego e sem recursos, dependem desta ajuda para comer uma vez por dia.[16]

A matança lenta e silenciosa provocada pela fome, pelas doenças e pela precariedade dos campos de refugiados acelera o seu passo à medida que o ulterior estrangulamento das condições de vida combina três elementos fundamentais. O primeiro deles é a redução sistemática da ajuda humanitária pactuada no acordo de cessar-fogo, assinado em 9 de outubro de 2025. Na ocasião, Israel se comprometeu a deixar entrar diariamente na Faixa de Gaza 600 caminhões com alimentos, remédios, materiais hospitalares, tendas e combustíveis para os centros de saúde. Durante algumas semanas, Tel Aviv cumpriu o combinado. Em seguida, reduziu a quantidade de veículos e o tipo de carga que deixaria passar. No dia 6 de agosto, o Gabinete de Imprensa do Governo de Gaza, denunciou que, dos 180.000 caminhões previstos nos primeiros 300 dias de vigência do acordo, apenas 63.094 tiveram sua passagem liberada, o que corresponde a 35,0% do total.[17]

A insegurança promovida por Israel para criar condições favoráveis à limpeza étnica conta com mais dois elementos essenciais: os bombardeios do que resta da infraestrutura civil e a progressiva ocupação militar do enclave costeiro. É o que aconteceu, por exemplo, em 24 de agosto, quando os ataques aéreos israelenses destruíram a usina de dessalinização de água no perímetro da Cidade de Gaza, uma das poucas ainda em funcionamento.[18]

A intenção de fazer minguar progressivamente as possibilidades de vida conta também com a ampliação da faixa de terra ocupada pelas tropas de Tel Aviv. Pelo acordo de cessar-fogo, o exército israelense está autorizado a manter o controle militar em 53,0% do enclave costeiro, algo que foi respeitado até março deste ano. Um mês e meio depois, a porcentagem subia a 60,0% e, no dia 28 de maio, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu ordenou que as tropas ocupassem 70,0% do território.[19]

Além dos problemas que o confinamento num espaço cada vez menor traz à sobrevivência dos palestinos, a sensação de desamparo se fortalece com a ordem expressa de atirar em qualquer pessoa que se aproxime da área ocupada pelo exército. À medida que a linha divisória entre o território destinado aos campos de deslocados e o que é controlado pelo exército vai mudando de posição ao longo do tempo, em muitos casos, é materialmente impossível identificar corretamente a demarcação desta fronteira. Isso faz com que muitos moradores da Faixa de Gaza se aproximem dela inadvertidamente, o que, por sua vez, oferece a Israel a justificativa para assassiná-los.[20] A isso se deve parte considerável das 1.254 mortes de palestinos e do ferimento de outros 4.121 durante os primeiro 300 dias de cessar-fogo.[21]

Entre os motivos que completam as 4.091 violações do acordo registradas no mesmo período, encontramos a forte redução do contingente de habitantes autorizados a sair da Faixa de Gaza para obter atendimento médico especializado. No momento em que escrevemos, apenas 10.703 palestinos de um total de 27.400 programados puderam sair do enclave costeiro.[22] Estamos falando de doentes oncológicos, de pessoas que precisam de hemodiálise, de adultos e crianças que necessitam urgentemente de tratamentos que os hospitais de Gaza não têm condições de oferecer. Manter estas pessoas no enclave aumenta a angústia das famílias e as pressões para que o seu alívio seja atrelado ao abandono definitivo do território.[23]

Terceira, mas igualmente importante, é a condição dos presos palestinos nos presídios de Israel. De acordo com o relatório divulgado pelo grupo israelense de direitos humanos B’tselem, as prisões do seu país funcionam como uma “rede de campos de tortura” onde os abusos contra milhares de detidos da Faixa de Gaza se tornaram política de Estado.

Com base numa criteriosa coleta de dados e depoimentos, B’tselem denuncia a utilização corriqueira de choques elétricos e de espancamentos, de gás lacrimogêneo e de granadas de efeito moral, de queimaduras provocadas por cigarros apagados sobre seus corpos ou por líquidos ferventes despejados sobre eles, do desnudamento, dos estupros e da penetração anal forçada com diversos objetos, da privação do sono e de uma dieta alimentar muito abaixo do mínimo necessário. Ainda segundo o mesmo grupo de direitos humanos, a violência perpetrada nos presídios causou ferimentos graves, perda da consciência, fraturas ósseas, hemorragias internas e uma série de complicações agravadas pela recusa de prestar cuidados médicos que, de outubro de 2023 ao início de janeiro de 2026, fez com que 84 palestinos morressem sob custódia israelense.[24]

Diante da ininterrupta sequência de horrores, é impossível não lembrar as perguntas que a jornalista Shaimaa Eid lança ao mundo após 1000 dias de genocídio. Com 54 membros da sua família assassinados pelos bombardeios e com a autoridade moral de quem, apesar dos enormes sofrimentos, continuou documentando o genocídio por acreditar que testemunhar o que está acontecendo é um dever tão importante quanto cuidar da própria sobrevivência, Shaimaa interroga a nossa indiferença: “quanto sofrimento um ser humano pode suportar? E quantas tragédias o mundo pode testemunhar antes de concluir que o que aconteceu ultrapassou todos os limites possíveis?”.[25]

Ao nos lembrar de que a resiliência de Gaza não é uma história romântica, nem uma escolha fácil, mas sim o resultado de pessoas que lutam com unhas e dentes pelo direito de existir, que é o mais básico dos direitos humanos, esta jornalista nos introduz à engenharia da esperança. Uma engenharia para a qual, durante o dia, a reconstrução de um simples fragmento de vida coletiva se mescla à necessidade de enfrentar riscos enormes para procurar água, encontrar pão, tentar obter remédios; e, à noite, ganha as feições do abraço que enfrenta a missão impossível de acalmar os filhos quando a fome, o som das explosões e o zumbido dos drones faz o medo da morte entrar em todas as tendas.

 

b. Gaza: moldando a esperança com as próprias mãos

Quanto mais o sofrimento aumenta, mais a espera derrete a vontade de reagir de quem não vê a hora de que tudo passe. Adiar o momento em que as ações transformam a dor em força é perder de vista o que a realidade oferece para construir as primeiras engrenagens da engenharia da esperança. Como as gotas que iniciam o trabalho secular das catedrais de calcário, é preciso se arriscar sem saber ao certo se e quando os primeiros resultados mostrarão que valeu a pena tentar.

Por incrível que pareça, a primeira oportunidade de materializar a esperança nasceu quando Israel proibiu que os jornalistas estrangeiros entrassem no enclave costeiro para fazer a cobertura da guerra. Desta vez, seriam os repórteres palestinos a serem a voz e os olhos de Gaza. As notícias dos horrores viriam de quem tem sua família e sua própria vida ameaçadas pelos bombardeios e, justamente por isso, não titubearia em mostrar o rosto mais perverso do sionismo.

A carta com a qual o jornalista palestino Hossam Shabat, de 23 anos, assassinado no final de março de 2025, se despede de Gaza é um exemplo do que é ser uma engrenagem da engenharia da esperança: “Se você está lendo isso, significa que fui morto — provavelmente, perseguido — pelas forças de ocupação israelenses. Quando tudo isso começou, eu tinha apenas 21 anos — um estudante universitário com sonhos como os de qualquer pessoa. Nos últimos 18 meses, dediquei cada momento da minha vida ao meu povo. Documentei os horrores no norte de Gaza minuto a minuto, determinado a mostrar ao mundo a verdade que eles tentaram enterrar. Dormi em calçadas, em escolas, em barracas, qualquer lugar onde eu pudesse. Cada dia foi uma batalha pela sobrevivência. Suportei a fome durante meses, mas nunca deixei de lado o meu povo.

Por Deus, cumpri meu dever como jornalista. Arrisquei tudo para relatar a verdade, e agora, finalmente descansei — o que não pude fazer durante os últimos 18 meses. Fiz tudo isso porque acredito na causa palestina. Acredito que esta terra é nossa, e foi a maior honra da minha vida morrer em sua defesa e a serviço de seu povo.

Peço a vocês agora: não parem de falar sobre Gaza. Não deixem o mundo desviar os olhos. Continuem lutando, continuem contando nossas histórias — até que a Palestina seja livre. Pela última vez, Hossam Shabat, do Norte de Gaza”.[26]

Longe de recuar diante da morte dos colegas, Ibrahim Abu Mussa é um dos repórteres palestinos que ergue a bandeira ensanguentada da esperança que estava nas mãos do colega caído, dizendo: “A ocupação afirma que, ao matar os jornalistas, a verdade será silenciada e seus crimes não serão expostos. Mas eu digo à ocupação que seus bombardeios contra nós aumentam nossa determinação e resolução em transmitir a voz do sofrimento do nosso povo em Gaza, e nós mostramos seus crimes contra o povo palestino na Faixa de Gaza”.[27]

A multiplicação desta engrenagem nos relatos, desenhos, fotografias, vídeos, filmes, documentários, murais, músicas, mensagens escritas nos escombros, nas traduções para as mais diversas línguas e em linguagem de sinais ocorre graças ao envolvimento de um incontável número de homens, mulheres e crianças que usam as redes sociais para que o mundo veja e ouça o que Israel procura ocultar e silenciar. A indignação diante das mais diferentes feições dos massacres levou centenas de milhares de pessoas dos mais diferentes países a elevarem sua voz contra Israel e a cumplicidade de seus governos, fazendo com que a Palestina se tornasse um assunto que incomoda, interroga e exige respostas.

A engenharia da esperança também cresceu e se fortaleceu com o compromisso de médicos, enfermeiros, atendentes, socorristas, membros da defesa civil e voluntários que seguem atuando em condições de trabalho estafantes. Do recuperar rapidamente os espaços hospitalares ainda utilizáveis após os bombardeios ao atender as pessoas que lotam os Prontos Socorros com o escasso material disponível e com o cuidado possível, estes profissionais enviam aos palestinos e ao mundo o testemunho de uma humanidade que se nega a baixar a cabeça diante dos agressores.

Cada um dos mais de 1.700 profissionais de saúde assassinados desde outubro de 2023 pagou com a vida o compromisso de manter viva a esperança. Entre os que ainda permanecem vivos, queremos lembrar duas figuras igualmente importantes. A primeira é a do Doutor Abu Safiya que, mesmo podendo fazê-lo, se recusou a abandonar o seu posto de líder no Hospital Kamal Adwan quando as forças israelenses avançavam sobre as instalações sobrecarregadas de feridos e deslocados.

No dia 27 de dezembro de 2024, numa tentativa de negociar uma saída que preservasse a vida de todos, o médico saiu do hospital e caminhou entre os escombros em direção aos blindados que avançavam. Sozinho, desarmado e tendo como única proteção o seu jaleco branco, Abu Safiya era a imagem da Gaza que, ao salvar vidas, enfrenta de cabeça erguida o inimigo que a destrói. Preso e sumariamente condenado como “combatente ilegal”, o médico enfrenta desde então sessões degradantes de tortura, uma das quais quebrou várias de suas costelas, colocando a sua vida em risco.[28]

A segunda figura, menos conhecida, mas tão importante quanto a anterior, representa o trabalho dos profissionais de saúde entre as tendas dos campos de deslocados. Fayza Shreim é enfermeira e parteira. Aos 65 anos de idade, vai de um ponto a outro da Faixa de Gaza para ajudar as mães a fazer com que o primeiro choro dos recém-nascidos testemunhe que a vida vencerá as armas da morte.

Aposentada, Fayza não parou de atender aos chamados desde o início da guerra. Carregando uma maleta desgastada, faz seu trabalho de parteira em tendas, quartos semidestruídos, salas de aulas que abrigam deslocados e onde quer que uma nova vida esteja pedindo para nascer. Os ataques aéreos mataram dois de seus filhos, seus netos, uma filha grávida de sete meses, seus genros e forçaram a sua família a se deslocar treze vezes pelo enclave costeiro. Mas, apesar das feridas que a guerra abriu na sua alma, ela arrisca sua própria vida convencida de que deixar as mulheres sozinhas durante o parto seria “um crime contra a humanidade”.[29] Mulher que viveu na pele o sofrimento de inúmeras agressões israelenses, Fayza sabe que, sejam grandes ou pequenas, as peças que movimentam a engenharia da esperança demandam uma miríade de pequenos atos como os dela.

Entre a minúscula fração destas peças que resgatamos em nossas reflexões está também o retorno dos que conseguiram sair da Faixa de Gaza nos primeiros meses da ocupação militar israelense. Ao regressar à terra natal, todos eles encontrarão condições de vida bem piores em relação às que tinham no Egito e em outros países do Oriente Médio. Alguns depoimentos publicados pelo jornal El País ajudam a entender como este retorno, previsto pelo acordo de cessar-fogo, é um tapa na cara da política de limpeza étnica promovida por Tel Aviv.

Após 21 meses no Egito para que o marido pudesse receber atendimento médico especializado, Amal Omran, uma mulher de 55 anos, mãe de nove filhos, passa descalça pela travessia de fronteira da cidade de Rafah, sul da Faixa de Gaza para cumprir a promessa de sentir sob os pés a terra que tanto almejara durante a sua permanência no país vizinho. “Eu queria sentir o solo de Gaza, depois do desespero que me dominou durante todos esses meses, quando não pude estar aqui”, diz enquanto sorri ao cumprimentar vizinhos e amigos que vieram parabeniza-la pelo retorno. E, chorando de alegria acrescenta: “Embora eu soubesse que teria que morar em uma tenda porque as bombas israelenses destruíram a minha casa, eu estava desesperada para voltar. Uma tenda ou uma sepultura na minha terra natal é melhor do que um palácio em qualquer outro lugar. Este é o meu país, a minha terra, o lugar onde nasci. Não tenho intenção de partir. Prefiro morrer a viver como refugiada”.

Amal chegou de mãos vazias, pois todos os presentes que havia trazido foram confiscados pelos soldados israelenses na passagem da fronteira. Debilitado e anêmico, Adel, o marido dela, escolheu voltar apesar de saber que não encontrará em Gaza o que precisa para dar continuidade ao seu tratamento. A explicação para esta escolha é simples e direta: “Eu não conseguia ficar longe da minha terra natal por mais tempo, com saudades dos meus filhos e netos. Sinto-me melhor só de vê-los. Você pode não acreditar, mas dormi melhor nesta tenda hoje do que durante os meses em que estive fora".[30]

Huda Abu Abed, viúva, de 57 anos de idade, deixou a Faixa de Gaza em março de 2025 para tratar de um problema cardíaco que precisava de atendimento especializado urgente. Ao desembarcar do veículo que a levou de Rafah ao Hospital Nasser, em Khan Younis, fez questão de gritar “Não ao deslocamento!” para violar a ordem do soldado israelense que a interrogou na fronteira e a instruiu a dizer a seus amigos e vizinhos: “Façam as malas e saiam de Gaza!”. Ao se despedir dos jornalistas que registraram este momento, Huda acrescentou: "Temos terra, mesmo que seja só entulho. O importante é estar com o nosso povo. A felicidade não está nas paredes, mas nas pessoas, mesmo que você more numa tenda. Se estou com a minha família, aquela tenda é um palácio”.

Ao todo, estima-se que mais de 100.000 palestinos tenham conseguido sair pela fronteira com o Egito desde outubro de 2023. Difícil saber quantos deles poderão ou conseguirão voltar. Com a alegria do retorno mostrando o fracasso do esforço de limpeza étnica israelense, o exército de Tel Aviv inferniza os que ingressam na Faixa de Gaza e faz o impossível para que o seu número seja o menor possível.

Os métodos testemunhados pelos palestinos que atravessaram a fronteira de Rafah incluem interrogatórios de várias horas, o confisco de pertences pessoais (incluindo alimentos, itens de higiene, medicamentos, telefones celulares, documentos de identidade, diplomas, dinheiro) e até os brinquedos das crianças. Várias mulheres afirmam terem sido vendadas com as mãos amarradas antes de serem submetidas a interrogatórios sobre filiações políticas, relações familiares e eventos relacionados ao 7 de outubro. Insultos, toques nas partes íntimas, a obrigação de se despir diante de soldados que gravam a vistoria, ameaças, situações de assédio e a separação dos filhos que efetuam com elas a passagem da fronteira integram a tortura psicológica com o qual Israel desencoraja o retorno a Gaza.[31]

Mas nada disso parece diminuir a esperança que se faz ação. Diante das ruínas do prédio de quatro andares onde a sua família morava, Dwahreh, pai de sete filhos, soluçando, diz: “Eles nos destruíram, destruíram nossa pátria, nossas vidas, nossos lares, nosso passado e nosso futuro”. E acrescenta: “Para nós essas ruínas fazem parte da pátria à qual não renunciaremos; voltaremos a viver aqui para reafirmar nosso direito de estar aqui. Deus nos basta, Deus nos basta”.[32] A última frase de Dwahreh é a que está na boca e no coração dos palestinos. Por isso, acreditamos que vale a pena entendermos melhor o seu alcance.

Na Faixa de Gaza, a religião não oferece atalhos para fugir das dores do presente, mas, sim, a força que permite lutar quando tudo desencoraja qualquer tentativa de fazê-lo. O genocídio desestruturou a vida cotidiana, mas não as crenças e o espírito comunitário. Quando as instituições entram em colapso e não há uma única mesquita onde as pessoas possam se reunir para orar, a fé estrutura o tempo, celebra o ter sobrevivido como base para seguir resistindo e lutando, transforma as tendas em espaços sagrados de encontro com Deus e os demais. Nelas, as celebrações do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos, não têm a rica variedade dos anos anteriores aos bombardeios, mas mantêm o brilho de uma esperança que, no meio das ruínas, devolve às crianças e às suas famílias momentos de alegria.

Para Hani Dahman, decorar algumas tendas e o que resta de algumas casas, na que é uma atividade típica do Ramadã, é enviar ao mundo a mensagem de que Gaza busca a vida. Uma vida que faz os vizinhos dos campos de deslocados compartilharem chás e refeições simples para além do círculo familiar antes das orações da madrugada, na que Maha Fathi, uma deslocada da Cidade de Gaza, descreve como uma realidade na qual “As pessoas voltaram a se solidarizar umas com as outras”. O genocídio que arrasou casas, destruiu infraestruturas e aniquilou instituições remodelou os laços sociais fazendo com que as famílias que antes celebravam o Ramadã com o grupo dos parentes próximos agora se reúnem para partilhar o pouco que têm com pessoas alheias ao vínculos de consanguinidade, fazendo com que a fé e seus momentos deixem de ser algo privado para fortalecer a capacidade coletiva de resistir em meio a perdas imensuráveis.[33]

O esforço para manter a vida palestina na Faixa de Gaza passa também pelos professores e professoras que lutam diariamente para preencher o vazio deixado pela devastação do sistema escolar. Com poucos recursos, atuando nas tendas ou ao ar livre, a escola Al-Karama, na Cidade de Gaza, é um dos exemplos desse esforço ao acolher cerca de 200 alunos que assistem às aulas sentados no chão, sem cadernos, carteiras e quadro negro. Em meio à devastação, iniciativas como estas buscam conter as perdas do aprendizado causado pela falta de aulas regulares que dura há quase três anos.[34]

Outras atividades visam aliviar os traumas provocados pelos bombardeios. É o caso, por exemplo, do resgate do “espírito” das bibliotecas que, desde a sua fundação em 2008, permitiu que muitas crianças encontrassem nelas uma janela através da qual podiam conhecer o mundo e levar a ele suas histórias de vida, seus medos e sonhos. Convencida de que esse espírito sobrevive à destruição graças à conexão humana e ao conhecimento que proporciona, Abla, bibliotecária de Beit Hanoun, utiliza histórias das quais se lembra, diálogos com as crianças, atividades criativas e exercícios psicossociais simples para oferecer momentos de alívio aos pequenos que vivenciaram circunstâncias inimagináveis. Sabendo que a liberação emocional é tão vital para a sobrevivência quanto a comida e a água, Abla transforma o chão da tenda em ambiente de leitura e refúgio onde as crianças liberam suas emoções por meio de desenhos e conversas sobre o que sentem e sofrem diariamente.

Em Rafah, Mahmoud, bibliotecário da cidade, realiza algo semelhante. Sessões em que se contam histórias são intercaladas com atividades artísticas, jogos, canções tradicionais e programas de apoio psicossocial nos quais trata de organizar espaços de amizade, criatividade, segurança e pertencimento. Neles, meninos e meninas têm a impressão de estar numa espécie de segundo lar que acolhe, oferece conhecimento, cria vínculos e permite que possam recordar e lamentar a perda dos amigos mortos nos bombardeios. Para Abla e Mahmoud, cujas famílias sofreram perdas significativas e passaram por vários deslocamentos forçados, manter vivo o espírito das bibliotecas é dar vida a uma esperança de futuro, cuja dura reconstrução ainda está longe de começar.[35]

Procurando algo que envolvesse as crianças, o diretor de teatro Naim Nasr ensaiou a peça de William Shakespeare Sonhos de uma noite de verão a fim de apresenta-la nos campos de deslocados. Naim percorreu os becos entre as tendas destes campos e esteve nas filas de água e da comida em busca dos atores mirins aos quais distribuir os papeis desenhados pelo dramaturgo inglês. Num ambiente onde é materialmente impossível ter um palco de teatro, equipamentos de iluminação e assentos para o público, o esforço para reunir os materiais necessários à encenação envolveu pessoas de todas as idades. “Por necessidade e imaginação, um pedaço de tecido cinza se transformou em cortina de palco. Caixas de papelão desgastadas, que antes continham suprimentos de ajuda humanitária, foram transformadas em máscaras coloridas e cheias de vida. Galhos secos, coletados para cozinhar alimentos, tornaram-se árvores imponentes na floresta encantada de Shakespeare”.

Aos poucos, o que havia iniciado como uma simples brincadeira “tornou-se um ritual sagrado, entrelaçado no cotidiano das crianças. Elas memorizavam suas falas com a mesma fidelidade com que memorizavam o nome de suas mães. Praticavam canções e movimentos com entusiasmo contagiante, rindo de coração sempre que alguém esquecia uma fala ou perdia uma deixa. Pela primeira vez em muito tempo, o acampamento parecia ter um encontro genuíno com a felicidade. A peça não era apenas uma forma de passar o tempo. Era um ato de resgate — uma tentativa determinada de recuperar um fragmento da infância que a guerra havia roubado. Cada ensaio se tornava uma declaração silenciosa de que a vida ainda possuía o poder de florescer em meio aos escombros e às cinzas”.

Infelizmente, uma ordem de evacuação do exército israelense inviabilizou a apresentação e obrigou aquelas crianças e suas famílias a reunirem rapidamente o pouco que tinham, a desmontarem as tendas e saírem, novamente, rumo à incerteza. Os atores mirins que, durante dois meses, haviam criado momentos de alegria a partir de quase nada foram novamente forçados a dominar a arte da sobrevivência. Todos ficaram tristes. Mas, na percepção de quem conheceu este trabalho, a peça saiu do acampamento nos corações e nas mentes das crianças que, graças a ela, alimentaram a teimosia dos sonhos que se recusam a morrer.[36]

Em um dos campos de deslocados de Nuseirat, dezenas de crianças se reúnem diariamente numa tenda onde, em meio a sons e gargalhadas, Tio Majood organiza atividades recreativas nas quais ensina habilidades circenses. Ele próprio deslocado pela guerra, este jovem de 20 anos se vale da sua experiência para criar os “Círculos da alegria”. Ao enfatizar que os pequenos de Gaza merecem vivenciar a infância como qualquer outra criança do mundo, Tio Majood usa as ferramentas retiradas dos escombros da escola onde eram guardadas para oferecer a elas “um vislumbre de esperança e uma mensagem de que há vida esperando por elas além da destruição e da guerra”.[37]

Numa estreita faixa de praia a oeste da Cidade de Gaza, a pintora Farah Ajjour usa a arte para que as crianças processem os traumas sofridos. Sentada de pernas cruzadas e com uma folha de papel sobre os joelhos, Farah oferece às meninas a oportunidade de liberar o que guardam em si através do desenho. De frente para o mar e com cenários de destruição atrás de seus ombros, a praia é a sala de aula onde, munidas de papel e com as poucas cores disponíveis, as garotas usam a arte para fazer ouvir a sua voz, falar dos próprios traumas e imaginar o amanhã.[38]

Antes de perder o pé esquerdo num bombardeio em maio de 2024, Mohammed Jawad, de 41 anos, fazia da sua paixão pela tradicional dança folclórica “dabkeb” o seu sustento e uma forma de manter viva a identidade palestina. Executada em linha ou semicírculo, com os dançarinos entrelaçados e produzindo passos sonoros, a dança marca presença em casamentos, festas e outras celebrações populares. O próprio Mohammed expressa o profundo sentido desta dança ao dizer: “Quando subimos ao palco e executamos os mesmos passos no mesmo ritmo, sentimos um grande poder e uma conexão indescritível. O dabkeh é a voz da terra em que vivemos e a alegria que carregamos apesar de todas as circunstâncias”. Sem poder subir aos palcos e com o envolvimento dos demais membros do grupo, há mais de dois anos ele ensina dabkeh nos campos de deslocados e faz da prática desta dança uma forma de encontrar forças na adversidade.[39]

Em meio à devastação e às restrições impostas pelas seguidas violações do cessar-fogo, um grupo de mulheres entre os 15 e os 24 anos de idade que perderam um dos membros inferiores encontram no esporte uma forma de desafiar os sofrimentos da guerra que carregam em seus corpos. Apoiadas em muletas, treinam para realizar o sonho de representar a Palestina na Copa do Mundo Feminina de Futebol para Amputadas que será realizada em 2027. Como elas, outras equipes juvenis e infantis de pessoas na mesma condição física encontram neste esporte um meio de soprar nas brasas da esperança. Não ter um lugar adequado para treinar, não contar com meios apropriados para a reabilitação, não saber se conseguirão se classificar e nem mesmo se, realizada esta façanha, poderão sair da Faixa de Gaza para competir não são motivo de desanimo para quem vive coletivamente a volta do sonho em suas vidas.[40]

Mas, será que é possível criar partes da engenharia da esperança nas prisões onde os palestinos são diariamente massacrados? O testemunho de Kameel Abu Hanish, membro do Bureau Político da Frente Popular para a Libertação da Palestina libertado após 22 anos de reclusão, oferece pistas que permitem responder a esta pergunta. Quando tudo trata de reduzir o preso a um número silencioso e a um corpo suspenso fora da vida cotidiana, quando o isolamento coloca à dura prova as ideias, despoja até os ossos as convicções que animavam os passos da luta e a dor atua como a ponta de uma lança que instala no coração o ódio contra tudo e contra todos, parece impossível haver lugar para a esperança.

No espaço da prisão, concebido para ser palco permanente de violência e de quebra da vontade individual, a primeira regra que os presos recém-internados aprendem na escola dos mais experientes é que os conflitos entre eles não se resolvem com a força física, mas sim por meio do diálogo e da paciência. A consciência coletiva que se desenvolve em volta desta regra protege os palestinos de sucumbir às investidas de seus carcereiros. Dialogar torna-se, assim, sinônimo de agir com dignidade, de preservar a coesão interna diante da dureza do ambiente, de fazer a razão avançar para que a consciência de cada um possa se afirmar como o espaço onde o indivíduo, atacado e despojado de tudo, se mantém no controle de suas ações e é capaz de desenvolver relações positivas com os demais.

Fazer isso acontecer é derrotar o esforço dos carcereiros de desintegrar o preso por dentro, de corroer a sua consciência, de impedir que a afirmação do autocontrole seja uma prática de liberdade capaz de romper as correntes de uma dor diante da qual nada parece fazer sentido. Além disso, o diálogo permite fortalecer um sentimento de responsabilidade coletiva, faz emergir gestos de generosidade nos momentos de maior necessidade e desenvolve a coragem de assumir um compromisso ético com os demais.

Passo a passo, os presos formam uma comunidade coesa, unida pelo mesmo ideal, fortalecida por valores e atitudes que impedem de sucumbir à dor, à fragmentação e às torturas sofridas. Após a libertação, a experiência de cada um integrará a narrativa coletiva da resistência. Transmitidas de geração em geração, as histórias do avô, do filho e do neto que foram presos se afirmam como testemunhos de resiliência e pertencimento que romperam as amarras da dor, como um fio que une famílias inteiras à terra e à luta pela liberdade da Palestina, conferindo a elas um senso de continuidade apesar das perdas.[41]

Separada do todo, cada uma destas peças parece absolutamente insignificante. Contudo, como parte do esforço para que a esperança deixe de ser uma palavra vazia para se encarnar em ações cotidianas, o mais simples dos gestos cria laços de coletividade, impede que as necessidades mais urgentes degradem as relações e se torna grito de justiça de um povo cujos direitos são pisoteados há décadas. O eco de cada uma das intervenções que descrevemos se espalha pelo mundo e, hoje, pode ser ouvido onde menos se espera.

 

c. A engenharia da esperança semeia indignação mundo afora.

Em outubro de 2025, Donald Trump assinou o acordo de cessar-fogo que criou o Conselho da Paz. A solenidade do momento, o apoio dos representantes de 22 países, a adesão do governo israelense e da resistência palestina levaram muita gente a acreditar que o genocídio chegaria ao fim. Porém, conforme costuma acontecer, Israel se compromete com uma coisa e faz outra que nega os compromissos assumidos. Menos de duas semanas após a assinatura do cessar-fogo, as violações do acordo sinalizavam que Tel Aviv não abriria mão do controle militar da Faixa de Gaza. Quase um ano depois, as agressões diárias contra os campos de deslocados e a forte restrição à ajuda humanitária mantêm vivas as chamas do inferno do qual falávamos no início das nossas reflexões.

Enquanto o sonho da paz ainda ofusca os olhos do mundo, a engenharia da esperança mantém a capacidade de desmascarar a hipocrisia dos governantes com ações que visualizam a sua cumplicidade com a política israelense para a Faixa de Gaza. Sem esquecer o apoio que milhões de pessoas ofereceram aos palestinos na fase anterior, vamos centrar nossas atenções numa pequena parte dos fatos que provam quanto o drama por eles vivido segue no coração de muitos entre janeiro e setembro deste ano.

Reino Unido, 14 de janeiro de 2026. Os ativistas presos do Palestine Action em greve de fome encerram seu protesto após obterem uma importante vitória política. Graças às ações desenvolvidas e à solidariedade proporcionada pela indignação popular diante da cumplicidade de Londres com a ocupação militar israelense na Faixa de Gaza, o Ministério da Defesa britânico se recusa a assinar um contrato de 2 bilhões de libras com a Elbit Systems, a maior fabricante de armas de Israel.

Detidos em novembro de 2024 sob a acusação de invadir e vandalizar as instalações desta empresa em Bristol, os integrantes do Palestine Action vinham lutando para que o governo fechasse as 16 instalações da Elbit no Reino Unido. Ainda que dois meses de greve de fome pareçam um preço alto demais para uma conquista que passa longe do atendimento de suas demandas, é um passo que atesta a eficácia da ação dos grupos pró-Palestina.  Eficácia que nasce do fato de as pessoas comuns entenderem através dela que o verdadeiro crime não é tentar interromper a cadeia de suprimentos com a qual a Elbit abastece o exército de Tel Aviv, mas sim manter constante o fluxo de recursos que garante o massacre dos palestinos.[42]

Berlim, 16 de fevereiro de 2026, Festival Internacional de Cinema pela Paz. O filme A voz de Hind Rajab (nome da menina que sobreviveu à primeira rajada de metralhadora que matou a sua família durante o deslocamento de carro por uma rota definida como segura pelo exército de Tel Aviv) recebe o prêmio de Filme Mais Valioso. A plateia onde marcam presença figuras ilustre como Hillary Clinton e o ator, diretor, roteirista e produtor Kevin Spacey se prepara para a costumeira entrega da estatueta e os discursos de praxe. Ninguém espera que o tapete vermelho do evento esteja preste se transformar no corredor de um palanque do qual a cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, produtora do filme, vai criticar a hipocrisia do evento.

Firme diante dos ilustres convidados, Kaouther lê o seu discurso: “Esta noite, sinto mais responsabilidade do que gratidão. A Voz de Hind Rajab não se resume apenas a uma criança. Trata-se do sistema que tornou possível o assassinato dela. O que aconteceu com Hind Rajab não é uma exceção. É parte de um genocídio. E, esta noite, em Berlim, há pessoas que deram cobertura política a esse genocídio reformulando o massacre de civis como legítima defesa, como [fruto de] circunstâncias complexas e desqualificando aqueles que protestam.

Mas, como vocês devem saber, a paz não é um perfume borrifado sobre a violência para que o poder pareça refinado e se sinta confortável. E o cinema não é uma forma de lavar imagens. Quando falamos de paz, devemos falar de justiça. Justiça significa responsabilidade. Sem responsabilização não há paz. O exército israelense matou Hind Rajab, matou sua família, matou os dois paramédicos que vieram salvá-la com a cumplicidade de governos e instituições mais poderosos do mundo. Recuso-me a deixar que as mortes deles se tornem pano de fundo para um discurso polido sobre a paz. Não enquanto a estrutura que as possibilitou permanecer intacta. Portanto, esta noite não levarei este prêmio para casa. Deixo isso, aqui, como um lembrete. E, quando a paz for buscada como uma obrigação legal e moral enraizada na responsabilização pelo genocídio, então eu voltarei e o aceitarei com alegria. Muito obrigada”.[43]

A decisão de deixar a estatueta havia sido amadurecida diante da estrutura do evento que homenageou o general israelense aposentado Noam Tibon por sua participação num documentário que narrava o resgate de seus familiares durante a incursão de 7 de outubro de 2023. Kaouther já havia alertado que a justaposição dos dois trabalhos criava uma simetria moral a uma violência radicalmente desigual, movimento graças ao qual, sob o pretexto da reconciliação, as responsabilidades do exército israelense seriam apagadas. Sendo assim, rejeitar a estatueta era sinônimo de rejeitar a forma como a questão da paz em Gaza estava sendo moldada pelo festival.[44]

No mundo inteiro, as salas de cinemas onde o filme A Voz de Hind Rajab foi exibido receberam um público que assistiu emocionado à apresentação da história desta garotinha que representava o massacre das crianças em Gaza. Muitos ficaram indignados diante das imagens reais que mostravam a ambulância enviada para resgatá-la totalmente destroçada e o carro onde Hind foi assassinada com as marcas de 355 perfurações de bala. Parte deste contingente se perguntou quanto dos impostos pagos aos seus governos financiou o massacre de crianças, cujos nomes nunca conheceram.

Mar Mediterrâneo, abril de 2026. A “Missão Primavera 2026” da Global Sumud Flotilha reúne 90 barcos saídos de diferentes lugares com o objetivo de romper o bloqueio israelense à Faixa de Gaza. Os moradores das cidades portuárias de onde zarpa a esperança se reúnem nas proximidades das embarcações cuja tripulação, mais uma vez, enfrentará os perigos da interceptação em mar aberto, as condições degradantes dos interrogatórios realizados pelas autoridades de Tel Aviv e os processos de deportação.

Os organizadores da Flotilha sabem que a ajuda humanitária a ser entregue anda de mãos dadas com a necessidade de acordar a consciência adormecida do mundo para o massacre em curso. Por isso, cada barco representa um grupo de vítimas da guerra através das imagens que retratam os sacrifícios de mulheres, crianças, jornalistas, médicos, socorristas, docentes, trabalhadores humanitários e presos.

Como esperado, a Flotilha é interceptada em águas internacionais, o que, por si só, viola o direito internacional. Os soldados israelenses não encontram nada que permita negar o caráter humanitário da expedição. Na volta aos países de origem, os depoimentos dos tripulantes narram as torturas sofridas e aumentam a indignação incialmente suscitada pelos vídeos que mostram os ativistas amarrados, ajoelhados e submetidos a uma série de abusos.

O verdadeiro rosto do sionismo está sob os olhos de todos, mas só os governos de Irlanda, França, Espanha, Indonésia e Itália criticam o tratamento dado aos ativistas pelo fato de alguns deles serem seus cidadãos. Numa clara amostra de como Israel domina a narrativa oficial da grande mídia, o Primeiro-Ministro, Benjamin Netanyahu, ganha o espaço necessário para reconhecer que dito tratamento não seguiu os valores e as normas do país, criticar a divulgação dos vídeos como uma forma de deturpar a posição de Tel Aviv e, ao focar na necessidade de os grupos terroristas não receberem ajuda externa, acusa os organizadores da Flotilha de atuarem a favor de Hamas.[45]

Mas, como é impossível calar quem não desiste de denunciar os massacres, no dia 5 de setembro, é anunciada a preparação de uma nova missão marítima internacional cujos navios devem chegar a Gaza em outubro. Ao comentar a decisão de desafiar o bloqueio israelense, Edward Digilio, um engenheiro de Maryland que integra o grupo organizador, traduz em breves palavras o sentido de mais esta tentativa: “Sabemos que navegar em direção a Gaza acarreta sérios riscos. Mas o silêncio e a inação têm um custo muito maior para os palestinos e para o mundo”.[46]

França, Espanha, Grécia, Itália, Turquia e Marrocos, 06 de junho de 2026, uma greve une as reivindicações dos portuários destes países aos palestinos. As faixas que abrem as passeatas e fecham o acesso aos locais de trabalho ondulam com as bandeiras da Palestina trazendo um recado simples e direto: “Os portuários não trabalham para a guerra”.

Na Itália, a greve impede que três navios da companhia israelense Zim entrem nos portos de Livorno, Veneza e Genova e força a Eagle 3, da MSC, que se dirigia a Israel, a mudar de rota para evitar o porto de Ravenna. Manifestações que envolvem estivadores e cidadãos comuns ocorrem também nas cidades portuárias de Ancona, Trieste, Civitavecchia, Cagliari, Salerno, Bari, Palermo e Crotone com a intenção de pressionar o governo italiano a decretar tanto o embargo total de armas e equipamentos militares, como o trânsito para reabastecimento de embarcações que navegam rumo aos portos israelenses.[47]

As ações do dia 6 de junho são o resultado de um processo que iniciou em 2024 com os boicotes isolados dos estivadores ao carregamento de armas para Israel e se fortaleceu no ano seguinte com uma sequência de ações nas quais os portuários declaravam abertamente que não seriam cúmplices do genocídio. Sobre esta base, em setembro do mesmo ano, eram lançados os alicerces de uma coordenação europeia para forçar os governos do bloco a assumirem o embargo total à movimentação de equipamentos bélicos de e para Israel, conforme já havia sido decretado pelos governos de Eslovênia e Espanha. Passo a passo, a solidariedade que nasceu da escuta do drama palestino foi criando e ampliando “as engrenagens portuárias” da engenharia da esperança.[48]

Roma, junho de 2026, os organizadores da parada LGBTQIA+ mantêm a exigência de uma ruptura definitiva com as políticas de ocupação, apartheid e extermínio do Estado de Israel na Faixa de Gaza e na Cisjordânia como condição para participar do evento. Com esta decisão, a Keshet Itália, a única organização judaica LGBTQIA+ presente no país tem o carro alegórico proibido de entrar no desfile por ser a única a não endossar o manifesto político do “Rome Pride”.

As acusações de antissemitismo não demoram a aparecer, mas, diante dos fatos por demais conhecidos, os organizadores não têm dificuldades em mostrar que a verdadeira questão não guarda nenhuma relação com o preconceito em relação aos judeus, mas, sim, com a responsabilização pelos massacres. Todos lembram que o Orgulho Gay nasceu como um ato radical de resistência contra a opressão de gênero e que não há orgulho nenhum no genocídio que pode ter como um dos seus atores os israelenses LGBTQIA+ que atuam no exército de Tel Aviv. Desconhecer isso faria com que o custo humano produzido pela continuidade da violência na Palestina histórica tornasse insuportável a hipocrisia de quem empunha a bandeira do arco-íris em Roma, mas segue matando palestinos LGBTQIA+ ou não em Gaza e na Cisjordânia.[49]

Estados Unidos, Copa do Mundo de Futebol, julho de 2026. Zebra estreante da competição, a seleção do Egito surpreende o mundo ao vencer a Austrália nos pênaltis. O Egito inteiro vibra com os jogadores que acabam de levar o time para a próxima fase da competição. Sozinho num canto do gramado, o técnico Hossam Hassan segura a bandeira da Palestina, olha para a câmara que filma a cena e, com voz embargada, diz: “Que Deus lhes conceda a vitória. Que Deus tenha misericórdia de seus mártires. Digo-lhes: dedico esta vitória ao povo egípcio e ao povo palestino, a esses povos bondosos e honrados. Meu coração e minha alma estão com eles. Eles estão muito felizes por nós e por mim. Depois do povo egípcio, dedico esta vitória aos palestinos”.

As reações contra o técnico são fortes e rápidas. Comentaristas de destaque se unem ao coro da mídia israelense para condenar o seu gesto e pedir à FIFA que abra um processo disciplinar por Hossam ter violado a proibição de manifestações políticas que consta nas regras do torneio. Três dias depois, na coletiva de imprensa, o técnico egípcio sobe o tom das suas declarações: “Se existe alguém que não sentiu o sofrimento do povo palestino, então essa pessoa não tem humanidade. Quem não se compadece do povo palestino não merece ser chamado de humano”.

Em seguida, com a mesma serena firmeza presente em suas palavras iniciais, Hossam critica duramente a comunidade internacional. Ao se referir a crise humanitária na Faixa de Gaza, afirma: “Gostaria de dizer que isso é uma vergonha para nós. Uma vergonha para o mundo inteiro...uma vergonha para todos, e uma vergonha, antes de tudo, para os tomadores de decisão que abandonam seres humanos”. E, ao se dirigir diretamente aos jornalistas e aos atletas, acrescenta: “Eu peço a todos vocês, à mídia, a todos os atletas do mundo, independentemente de suas identidades, que talvez possamos transmitir uma mensagem coletiva que é a seguinte: deixem o povo palestino em paz, deixem-no existir, deixem-no viver a sua própria vida”. [50]

Ricocheteando nas redes sociais, suas palavras dão a volta ao mundo. Bandeiras egípcias e palestinas são hasteadas juntas nas comemorações pelos feitos da seleção por ele dirigida. A engenharia da esperança materializada na solidariedade expressa pelo técnico faz o coração dos que denunciam os massacres se encherem de emoção. Sem condições de reverter este cenário, a FIFA recusa-se a aplicar qualquer tipo de multa ou suspensão.

Itália, verão de 2026: a hospitalidade que não dá espaço ao genocídio. Depois de perceber que parte dos ganhos de hotéis, pousadas, lanchonetes, bares e restaurantes vinha de turistas israelenses que defendiam as atrocidades da ocupação na Faixa de Gaza, o Comitê Nacional Palestino do movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções lança a campanha “Não há espaço para o genocídio”, integrada por mais de 500 estabelecimentos em várias regiões da Itália.

Os turistas que efetuam suas reservas em hotéis e pousadas que aderem ao movimento recebem uma mensagem de confirmação na qual se especifica que o estabelecimento apoia a campanha, respeita a liberdade e os direitos humanos das comunidades que sofrem danos racistas, étnicos e sociais, e acolhe calorosamente palestinos, refugiados e todos aqueles que resistem pacificamente à opressão em busca de seus direitos internacionalmente reconhecidos. Direcionada a todos os hóspedes independentemente de sua nacionalidade e proveniência, estas mensagens têm levado ao cancelamento das reservas, sobretudo, de viajantes israelenses que passam pela Itália.

Não são poucos os casos em que, ao cancelar sua reserva, as pessoas desatam uma verdadeira tempestade. No verão deste ano, o caso do Hotel Decumani de Charme, na cidade de Nápoles, sul da Itália, fez história à medida que, horas após o cancelamento de uma israelense, o estabelecimento recebeu uma enxurrada de reservas falsas, mensagens agressivas e avaliações negativas de pessoas que nunca foram seus hóspedes.

Longe de desistir, os proprietários responderam esclarecendo que, em hipótese alguma, o texto é uma forma de antissemitismo e mostraram que o direito internacional exige dos Estados que cessem todas as formas de cumplicidade nos genocídios, nos crimes de guerra e contra a humanidade. A consciência de não lucrar com quem é cúmplice ou apoia os massacres perpetrados em Gaza alimenta mais esta engrenagem da engenharia da esperança.[51]

Singapura, 29 de julho de 2026, show da banda britânica Massive Attack. Em um gesto de solidariedade, durante a apresentação do dia 29 de julho, um dos integrantes do grupo exibe uma bandeira palestina enquanto outro grita “Palestina Livre”. Em resposta, grande parte do público entoa a mesma palavra de ordem. A polícia local não perde tempo e identifica os músicos Robert Del Naja e Grant Marshal como autores dos atos. Após a apresentação, a banda é detida, tem seus membros isolados e interrogados separadamente, sendo que alguns sofrem buscas nos quartos de hotel que ocupam, têm seus passaportes retidos e são incluídos na lista de pessoas que não podem voltar ao país.

Longe de se sentir intimidada, quando ainda está em Singapura, a banda divulga uma nota que reafirma com todas as letras a sua posição: “Da nossa parte, não imaginávamos que simplesmente erguer a bandeira de um Estado soberano reconhecido por 157 países (a Palestina) violaria qualquer lei. Refletindo sobre o ocorrido, temos orgulho de ter feito essa manifestação espontânea ao lado dos nossos fãs em Singapura, que claramente sentiram o imperativo moral de demonstrar solidariedade ao povo palestino diante da realidade contínua de ocupação ilegal, apartheid e genocídio. Saudamos a coragem deles por terem feito isso. Em todo o mundo, a contínua inação da chamada "comunidade internacional" está levando cidadãos a assumirem riscos pessoais.

Esta experiência surreal serviu para nos lembrar da importância de defender os direitos humanos universais e a liberdade de expressão sempre que esses direitos estiverem ameaçados, inclusive em nosso próprio país, o Reino Unido, onde, de forma extraordinária, ainda vemos manifestantes pacíficos serem presos sob leis antiterrorismo por exibirem cartazes escritos à mão em protesto contra o genocídio — apesar dos apelos vindos de todos os lados do espectro político.

Somos gratos ao povo de Singapura, que nos fez sentir tão bem-vindos, e esperamos que o governo de Singapura decida ratificar o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos da ONU e permita que seus cidadãos expressem sua consciência sem medo de perseguição por parte do Estado. Como estávamos dizendo... Palestina Livre”. No dia 11 de agosto, em Melbourne, na Austrália, Massive Attack repete a dose com a inclusão de dados sobre o genocídio em Gaza em meio à ovação dos presentes em apoio à Palestina.[52]

Em 26 de setembro, o alerta veiculado no comunicado da banda se realiza para um de seus integrantes. O grupo britânico de defesa das liberdades civis (Lift the Ban) organiza uma manifestação exigindo que o Reino Unido retire Palestine Action da lista de organizações proibidas. Robert Del Naja está entre as cerca de 200 pessoas reunidas diante da sede do Partido Trabalhista em Liverpool. O cartaz que ele segura traz os dizeres: “Eu me oponho ao genocídio. Eu apoio Ação Palestina”.

Ao se aproximarem dele, os policiais dizem que ele está cometendo uma infração por apoiar uma organização proibida. Em resposta, Robert diz: Não reconheço o crime porque, segundo a lei do Reino Unido, crime é auxiliar ou instigar qualquer empresa ou indivíduo ou empresa privada a instigar crimes de guerras genocidas”. Em seguida, o músico é levado para a detenção. Por ironia ou sagacidade da história, em junho deste ano Robert esteve no palanque com o Primeiro-Ministro Trabalhista, Andy Burnham, que o elogiou pela clareza e liderança com a qual apoia o Tratado de Não-Proliferação dos Combustíveis Fósseis. Três meses depois, a polícia que atua às ordens do mesmo governante o prende sob a Lei Antiterrorismo por segurar um pedaço de papel no qual defende a Palestina e quem procura acordar os britânicos diante do genocídio em curso.[53] Mesmo sob ataque, a engenharia da esperança segue caminhando pelo mundo alimentada por esta rebeldia.

Atenas, 14 de agosto de 2026, porto de Pireu. Ao atracar no maior porto da Grécia, os turistas do navio de cruzeiro israelense Crown Iris esperam desfrutar do melhor que o país pode oferecer dadas as estreitas relações entre Israel e o governo grego. Mas, desde as primeiras horas daquela sexta-feira, ativistas, sindicalistas da União Grega dos Marinheiros e apoiadores da comunidade palestina estão perto do portão de desembarque agitando bandeiras e carregando faixas que denunciam o genocídio de Israel em Gaza. Cercados por forte esquema policial, os manifestantes mostram sua indignação gritando: “Vocês são indesejados em Pireu e em todo o nosso país”.

Não é a primeira vez que isso acontece em terras gregas e outros turistas do mesmo navio enfrentaram protestos semelhantes em junho deste ano e em 2025, na ilha de Syrios, onde uma manifestação impediu o seu desembarque e forçou o Crown Iris a deixar o porto imediatamente. No mesmo ano, a embarcação foi alvo de protestos também em Rodes, Creta e Volos. Os organizadores da manifestação reafirmam que o turismo não pode ser dissociado do genocídio. Apesar do estreitamento das relações entre os governos de Tel Aviv e de Atenas, a solidariedade popular com os palestinos promete continuar até que tenham uma pátria para chamar de sua.[54]

Israel, campanha publicitária do programa Single Shoe da Adidas, setembro de  2026. Trata-se de uma iniciativa dirigida a pessoas com amputações nos membros inferiores ou com grandes diferenças de tamanho dos pés. As lojas da marca permitem que elas comprem apenas um sapato, no lugar de pagar por um par. O ex-soldado israelense Shalev Biton é o garoto-propaganda da peça publicitária.

Com a perna esquerda amputada após ter sido gravemente ferido durante o ataque do exército de Tel Aviv à Faixa de Gaza, em maio de 2021, Shalev aparece no vídeo experimentando um tênis na loja da Adidas antes de correr ao ar livre. A peça promocional em hebraico desperta imediatamente reações contrárias na exata medida em que seu conteúdo é considerado uma afronta aos palestinos mortos ou que perderam um dos membros nos bombardeios.

A indignação pelo fato de um ex-soldado israelense ser colocado ao centro de uma campanha pelos direitos das pessoas com deficiência, enquanto os cerca de 5.000 palestinos amputados em função de ações do mesmo exército enfrentam escassez de cuidados médicos e de próteses na Faixa de Gaza se espalha como um rastilho de pólvora. Grupos de boicote aos produtos israelenses e às empresas que apoiam as ações de Tel Aviv mundo afora levantam imediatamente a voz contra a Adidas. Diante das pressões, no dia 7 de setembro, a gigante alemã de artigos esportivos pede publicamente desculpas e tira de circulação o vídeo promocional.[55]

Esta não é a primeira vez que a Adidas enfrenta campanhas de boicote relacionadas à Palestina e a Israel. Contudo, o aspecto mais importante deste último acontecimento é a rapidez e a espontaneidade com a qual pessoas de diferentes países manifestaram seu repúdio e forçaram a empresa a recuar. Pode parecer pouco. Mas é o pouco que faz a engenharia da esperança multiplicar as possibilidades de ganhar corpo e forma.

Nova Iorque, 24 de setembro, 81ª Assembleia Geral da ONU. No momento em que Netanyahu se aproxima do pódio para pronunciar o seu discurso, as delegações de 77 países se levantam e abandonam a sala, deixando vazia a maior parte dos assentos. Entre permanecer para ouvir e enfrentar possíveis retaliações dos EUA e de Israel por virar as costas à desgastada narrativa de Tel Aviv, países da África, Ásia, Oriente Médio e América Latina optam por mostrar com sua ausência o repúdio ao genocídio dos palestinos.

Enfurecido, Netanyahu chama de “covardes morais” os homens e mulheres que escolheram sair da plenária. A raiva faz com que o Primeiro-Ministro enalteça o fato de que seu país manteve abertas sete frentes de batalha nos últimos três anos. O fato de as guerras, e não as saídas diplomáticas, serem glorificadas no púlpito da organização moldada para poupar o mundo de guerras e massacres ganha as feições de uma música que, em função de seu intérprete ser completamente desafinado, oferece razões de sobra para muitos não desejarem ouvi-la.

Ninguém se surpreende ao perceber que as delegações presentes sejam, justamente, aquelas que, direta ou indiretamente, se tornaram cúmplices ou coniventes com a devastação da Faixa de Gaza. Prontas a se omitir diante do principal perpetrador dos massacres, as delegações de Itália, Finlândia, Guiné Bissau, Etiópia, Guiné, Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Sérvia, Marrocos, Reino Unido, Alemanha, França, Canadá, Austrália, Japão, Ucrânia, Argentina, Paraguai, Bahrein, Índia, Coréia do Sul, Filipinas e Tailândia, confirmaram com a sua presença o desejo de seguir obtendo dividendos políticos, econômicos e militares à custa de novos massacres.[56] Por incrível que pareça, permanecer e aplaudir é avalizar o fim do próprio espírito que levou à criação das Nações Unidas. Do lado de fora da plenária, o ranger das engrenagens da engenharia da esperança torce para que a resposta simbólica dos que saíram se transforme em ação consistente contra o genocídio e a expropriação de terras na Palestina histórica.

d. Arrancando as máscaras da hipocrisia.

No final de julho deste ano, em Dublin, Irlanda, os integrantes do amplo grupo de judeus que se opõem ao genocídio, organizaram o Segundo Congresso Judaico Antissionista. Convidada como expositora, a relatora especial da ONU, Francesca Albanese trouxe um elemento da engenharia da esperança que não pode passar despercebido.

Para ela, as vozes da Palestina geraram um despertar político sem precedentes. Passo a passo, as mobilizações se encarregaram de jogar luz nas estruturas que sustentam as políticas israelenses, nas escolhas de governos e instituições internacionais que apontam em direções opostas às declarações oficiais dos mandatários de plantão.[57] Alguns exemplos ajudam a termos uma ideia deste processo.

Apesar de apoiar as declarações condenatórias das cúpulas dos países da região, os Emirados Árabes Unidos (EAU) nada fizeram para interromper os massacres. A principal explicação para esta postura não deve ser procurada em motivações ideológicas ou religiosas, mas tão somente em interesses comerciais e militares. Basta pensar que, em 2025, o comércio bilateral entre Abu Dhabi a Tel Aviv superou em 21,0% o recorde histórico registrado em 2024 (ano em que Israel começou a usar a fome como arma de guerra na Faixa de Gaza), sendo a compra de armamento o principal destaque das importações dos EAU.[58]

E, aqui, há um detalhe que não pode ser menosprezado. O aumento de 29,7% nas exportações israelenses de armas entre 2024 e 2025 representa bem mais do que um volume maior de recursos que permitem aprimorar a indústria armamentista e sustentar a economia do estado de Israel. De fato, os contratos militares com outros países envolvem etapas de capacitação para o uso e a manutenção dos equipamentos adquiridos, o que implica na necessidade de manter uma relação de longo prazo. Desta forma, exportar artefatos bélicos reduz a disposição de os compradores condenarem as políticas de Tel Aviv para o Oriente Médio devido ao temor de sofrerem boicotes no fornecimento de peças de reposição e de assessoria técnica para a operação, manutenção e atualização dos mesmos, o que, obviamente, fragilizaria os sistemas defensivos instalados.[59]

Entre os países europeus que adquiriram armas israelenses, se destacam: a Alemanha que, além de mísseis antitanque Spike e drones Heron, comprou de Israel o sistema de interceptação de mísseis Arrow 3 por 3 bilhões e 300 milhões de dólares, e, por sua vez, entre 2023 e o primeiro semestre de 2026, vendeu a Tel Aviv armas que somam um total de um bilhão e 678 milhões de dólares; a Romênia que adquiriu o sistema de defesa aérea Spyder por 2 bilhões e 300 milhões de dólares e está negociando a compra de equipamentos para montar uma versão local do Domo de Ferro israelense; a Grécia que, após importar 36 sistemas de artilharia PULS por 740 milhões de dólares, em 31 de agosto deste ano, assinou um contrato de compra de armamentos no valor de 3 bilhões de dólares; e a Finlândia que renovou até 2034 o pacto militar com Israel que prevê a estrita colaboração com Tel Aviv na pesquisa e desenvolvimento de artefatos bélicos.[60]

Um exemplo estritamente econômico da contradição entre o dizer e o fazer vem da África do Sul. Apesar de saber por experiência histórica que o boicote é uma arma poderosa, Pretória seguiu vendendo a Israel carvão, diamantes e outras matérias-primas estratégicas.  Se isso não bastasse, o governo local está avaliando a proposta de aquisição de uma participação significativa pela empresa de energia israelense Navitas Petroleum com a qual estabeleceria uma parceria na exploração de hidrocarbonetos na costa oeste do país.[61] A contradição entre a condenação pública de Israel e a manutenção das relações comerciais não ganharia o destaque que teve se a engenharia da esperança não levantasse os tapetes embaixo dos quais os políticos escondem que lucros e interesses estratégicos vêm antes da ética e que estes reduzem o impacto dos processos criminais nas Cortes Internacionais.

Desnudados diante de suas respectivas populações, não é de estranhar que os grupos de poder decidam “dar o troco” a quem incomodou o pacato fluir dos seus negócios. No Reino Unido, por exemplo, 12 universidades pagaram uma empresa privada de inteligência para monitorar estudantes, ativistas e acadêmicos que alimentavam a solidariedade com as vítimas do massacre na Faixa de Gaza.[62] Do outro lado do Atlântico, no início de setembro de 2026, a Câmara dos Deputados dos EUA aprovou um projeto de lei que penaliza as instituições de ensino que cortarem investimentos ou sancionarem empresas e universidades israelenses com as quais mantêm acordos de cooperação e parceria. [63]

Em fevereiro deste ano, a Alemanha impôs restrições às manifestações pró-Palestina e iniciou investigações de ativistas e militantes com base em leis de incitação ao terrorismo e perturbação da ordem pública.[64] Recentemente, o Parlamento italiano retomou a análise de um Projeto de Lei que usa o combate ao antissemitismo para obscurecer a diferença entre o ódio ao povo judeu e a oposição política ao sionismo, à ocupação israelense e às suas ações contra os palestinos como caminho para restringir severamente as críticas a Israel.[65]

Nem o procurador-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), Karim Khan, que, em novembro de 2024, expediu os mandatos de prisão do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu e do ex-Ministro da defesa Yoav Gallant por supostos crimes de guerra e contra a humanidade, escapou das pressões políticas. Aliciados por Israel e pelos EUA, num processo sem as devidas apurações, 82 dos 125 estados membros do tribunal votaram pela destituição de Karim Khan alegando um relacionamento sexual impróprio com uma funcionária. A decisão do TPI foi comemorada por Israel que trata de questionar a legitimidade dos mandatos de prisão e de corroer a credibilidade das instituições que compõem o sistema jurídico internacional a fim de abrir caminhos à impunidade.[66]

A destituição é o desfecho das ameaças que o advogado de defesa israelense, Nicholas Kaufman, fez a Karim, em maio de 2025, ao propor que trocasse a sua continuidade no cargo e a sobrevivência do Tribunal Penal Internacional pela retirada dos mandatos de prisão contra as autoridades israelenses. Como o procurador se manteve firme em suas posições, em julho deste ano, a chantagem de Tel Aviv foi levada a cumprimento.[67]

O fato de muitos estarem de olhos nos acontecimentos levou a uma piora significativa da imagem de Israel mundo afora. O primeiro indício de que as coisas estavam degringolando, veio em julho de 2025, quando um levantamento do Instituto Gallup mostrou que apenas 32,0% dos estadunidenses apoiavam a ação militar em Gaza, ante 50,0% em novembro de 2023.[68] Em junho deste ano, o Pew Research Center apontava que, em média, nos 24 países pesquisados entre 8 de fevereiro e 13 de maio de 2026, 62,0% dos entrevistados tinham uma visão negativa de Israel e somente 29,0% ainda mantinha uma opinião favorável ao país.[69]

Estes resultados fizeram soar os alarmes de Tel Aviv a ponto de o Ministro das Relações Exteriores, Gideon Sa’ar, afirmar que os gastos com a imagem de Israel deviam ser tratados com a mesma importância dos “investimentos em jatos, bombas e interceptores de mísseis”. Dos discursos para a prática, basta pensar que, em 2026, nos Estados Unidos, o dinheiro gasto para povoar as mentes das pessoas com as ideias que interessam a Israel já está em 730 milhões de dólares, mais que o dobro da média anual investida para o mesmo fim entre 2023 e 2025.[70]

Além de manipular a opinião pública, o lobby sionista trata de calar as vozes que se erguem em defesa dos palestinos. Nos dias 4 e 5 de setembro, um acontecimento mostrou ao mundo como isso funciona num país onde a liberdade de expressão sempre foi orgulhosamente apontada como exemplo para o mundo. Após condenar o genocídio de Israel em Gaza e pedir que a plateia entoasse “Palestina Livre” no estádio de Nova Jersey, EUA, durante duas apresentações de abertura da turnê do cantor britânico Ed Sheeran, o rapper Macklemore se deparou com o pedido do Conselho Israelense-Americano, para que os organizadores da turnê o removessem dos eventos restantes.[71]

Demitido depois que os donos dos estádios onde ocorreriam os próximos shows se negaram a aceitar a sua presença, o rapper continuou sublinhando o seu apoio público à Palestina e reafirmando que, para ele, como para milhões de pessoas no mundo inteiro, denunciar o genocídio havia se tornado um dever. Um dever que, no final do comunicado, mostrava a coerência com a qual é realizado: “Eu não precisava de 10 shows do Ed. Eu precisava de 2. Duas chances de ficar diante de 90.000 pessoas e dizer as palavras que, de alguma forma, se tornaram perigosas demais para serem ditas: Palestina Livre. Mas se essas palavras me custaram o palco, ao mesmo tempo em que redirecionaram a conversa para a Palestina, então foi a turnê de maior sucesso da qual já participei”.[72]

A resposta aos grupos sionistas que agiam nas sombras conheceu mais um desdobramento em 16 de setembro, quando todos os artistas de abertura dos shows deixaram voluntariamente a turnê graças à qual poderiam mostrar suas performances a um público muito maior do habitual. Ao comentar a decisão, o músico americano Finneas escreveu: “Os artistas não devem ser silenciados quando se manifestam em defesa dos oprimidos. Decidi cancelar a minha participação no show de Ed Sheeran. Estou ao lado da Palestina e do seu povo”.

O cantor irlandês Aaron Rowe e a banda folk Beoga lembraram a história da Irlanda marcada pelo colonialismo, pela fome e pela ocupação estrangeira para explicar as razões pelas quais não podiam continuar participando da turnê. Aaron descreveu Sheeran como um amigo que mudou a sua vida, mas ele não podia “ficar de braços cruzados e permitir que bilionários usassem sua posição de poder para silenciar as vozes legítimas daqueles que se manifestam contra o genocídio israelense e o assassinato brutal de crianças”. A banda Rowe seguiu o mesmo tom dizendo: “Como membros fundadores do movimento Artistas Irlandeses pela Palestina, somos ativistas comprometidos com a justiça e continuaremos a sê-lo”.

Lukas Graham questionou a capacidade de os ricos proprietários das casas de espetáculo determinar as posições políticas que os artistas podem expressar no palco: “Dinheiro não dá o direito de monopolizar a conversa. O saldo bancário de ninguém deve decidir quem pode falar ou qual sofrimento podemos reconhecer”.[73]

Para quem achava que o embate estava próximo do fim, no dia 24 de setembro, Macklemore anunciou que os contatos com artistas que partilham da mesma visão sobre os acontecimentos na Faixa de Gaza haviam possibilitado o agendamento das três primeiras apresentações da Turnê Palestina Livre por ele pensada após a sua exclusão da turnê. Apresentações que ao serem realizadas em Dublin (26 de outubro), Paris (29 de outubro) e Londres (30 de outubro) terão toda a renda destinada às organizações que apoiam o povo e o movimento palestino.

Ao comentar o desafio assim lançado, o rapper escreve: “Ser apolítico durante um genocídio não funciona mais. As pessoas estão pedindo aos artistas que se manifestem, se eduquem e se conectem com a comunidade. Que usem o palco para algo além do entretenimento. Que reajam quando o apelo por uma Palestina Livre é recebido com tentativas de silenciá-lo”.[74] No dia seguinte, Ed Sheeran, que havia optado pela neutralidade para se distanciar dos massacres na Faixa de Gaza, recebe a notícia do cancelamento dos dois shows no Gillette Stadium em Foxborough, Massachussets.[75] Cinco dias depois, numa resposta da engenharia da esperança que surpreendeu os artistas contatados, o público que deseja manifestar sua posição a favor dos palestinos esgota as vendas dos ingressos dos três shows organizados por Macklemore.[76]

No momento em que escrevemos, o fato de a população da Faixa de Gaza não se dobrar ao processo de limpeza étnica promovido por Israel ameaça o desempenho de Netanyahu nas eleições marcadas para 27 de outubro deste ano. Dois elementos distintos materializam o NÃO aos planos de Tel Aviv. O primeiro deles é a sobrevivência de Hamas após quase três anos de bombardeios e genocídio. Apesar de todos os esforços para aniquilar a resistência palestina e colocar a população contra a sua administração do território, a continuidade da organização e dos demais grupos aliados e o fato de não fazerem concessões em relação ao seu desarmamento mostram o fracasso da prometida vitória total em Gaza feita por Netanyahu antes de iniciar a ocupação militar.[77]

A segunda situação que, ao enfurecer o Primeiro-Ministro, mostrou a fragilidade de Netanyahu, foi criada pela percepção de que o sonho de uma Palestina livre estava presente até na brincadeira das crianças. Aproveitar o vento que sopra do Mediterrâneo para empinar pipas sempre foi uma das diversões que alegram os pequenos da Faixa de Gaza. Obviamente, o problema destes “artefatos voadores” não é seu poder de fogo, mas o que eles representam. Feitas com papel que, muitas vezes, traz as cores da Palestina, as pipas foram encontradas nas proximidades dos vilarejos à margem da fronteira com a Faixa de Gaza, cujos moradores viram o ataque de 7 de outubro ameaçar suas vidas.

A presença deste brinquedo inocente é um lembrete de que não só o genocídio não matou a alegria das crianças, como deixou intacta a luta por uma Palestina Livre, agora incorporada na diversão dos pequenos. Israel recebeu o fato como uma afronta que, caso não cessasse, seria paga com a intensificação dos bombardeios na Faixa de Gaza. O primeiro da série que serviu de advertência para a seriedade da ameaça atingiu um prédio em Az-Zawayda, matando três pessoas, entre as quais estava Mohammad Abdel-Salam Taha, de quatro anos.[78] A máquina de guerra israelense pode matar quem empina pipas e seus pais, mas não as mensagens que carregavam e que, como engrenagem da complexa simplicidade da engenharia da esperança, são mais perigosas do que os aviões de combate cujas bombas nunca darão ao sionismo a capacidade de extrair alguma razão da implacável destruição que provocam.

Parte importante do atual processo eleitoral israelense, a escalada dos ataques militares na Faixa de Gaza e o deslocamento forçado dos palestinos da Cisjordânia voltam a chamar as atenções do mundo. Novamente, sobram discursos dos governantes e faltam ações capazes de impedir o pior.

As mesmas autoridades europeias que descrevem a expansão dos assentamentos israelenses como uma “ameaça existencial à solução dos dois estados”, limitam-se a cortar o comércio com o que é produzido pelos assentamentos da Cisjordânia, algo praticamente inócuo e que, na melhor das hipóteses, demorará meses para ser viabilizado. Enquanto isso, o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, além de declarar “nulos e sem efeito” os Acordos de Oslo com base nos quais se sustenta a solução dos dois estados à qual os europeus se referem, no dia 27 de setembro, pedia que Israel atuasse na Cisjordânia usando os mesmos moldes que produziram o genocídio na Faixa de Gaza.[79] Seis dias depois, o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Bem Gvir, fazia coro a estas palavras acrescentando que “Não há diferença entre as Áreas A, B e C”, da Cisjordânia, à medida que “Toda a terra é nossa. Este é o nosso país”, e, com a frieza de um gerente que calcula a eficiência da morte e das expulsões a serem produzidas, defendia um uso mais amplos das armas de fogo nas incursões dos soldados israelenses com base na constatação pela qual “quanto mais você permite que os soldados atirem e usem a força, menos efetivos você precisa”.[80]

Na Faixa de Gaza, o corte no fornecimento do combustível para os geradores de eletricidade que mantêm em funcionamento os equipamentos hospitalares está a um passo de provocar a completa paralização do atendimento da população.[81] Os campos de deslocados são cada vez mais alvos dos drones, da artilharia e dos disparos dos soldados israelenses.[82] Além disso, o início do outono aumenta as preocupações dos palestinos na exata medida em que são necessárias pelo menos 200.000 tendas para substituir as que já não podem oferecer a menor proteção contra os rigores do clima.[83]

Diante das nuvens cinzentas que pairam no futuro imediato, ecoam em nós as palavras do último comunicado que o jornalista palestino Anas Al-Sharif transmitiu pouco antes de ser assassinado, no dia 10 de agosto de 2025, a um passo da invasão em larga escala da Faixa de Gaza: “Durante 22 meses a cidade sangrou sob bombardeios contínuos por terra, mar e ar. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas e centenas de milhares ficaram feridas. Se essa loucura não parar, Gaza será reduzida a escombros, as vozes de seu povo serão silenciadas, seus rostos apagados e a história lembrará de vocês como testemunhas silenciosas de um genocídio que escolheram não impedir.

Por favor, compartilhe esta mensagem e marque todos os que têm poder de impedir este massacre. Silêncio é cumplicidade”.[84]

Mais do que nunca, a engenharia da esperança precisa do que está ao nosso alcance para que suas engrenagens continuem funcionando. Pense nisso.

 

Emilio Gennari, Brasil, outubro de 2026.

 



[2] A proporção foi calculada levando em consideração número de mortos israelenses divulgado em: https://www.palestinechronicle.com/israels-october-7-hoax-propaganda-continues-after-two-years-of-genocide/  e o total de 74.016 vítimas dos bombardeios da Faixa de Gaza somada aos 843 corpos de palestinos resgatados dos escombros entre 08.10.2023 e 26.09.2026. Dados publicados em: https://www.palestinechronicle.com/israeli-drone-strike-kills-palestinian-in-nuseirat-as-gaza-death-toll-tops-74000/ Acessos realizados, respectivamente, em 14.10.2025 e em 26.09.2026.

[9] Estas e outras informações podem ser encontradas em: https://www.palestinechronicle.com/miscarriage-crisis-in-gaza-rate-more-than-triples-in-first-half-of-2026/  Acesso realizado em 12.08.2026.

[12] Estas e outras informações podem ser encontradas em: https://www.palestinechronicle.com/fields-turn-to-kill-zones-how-israeli-fire-crushes-gaza-farming-report/  Acesso realizado em 31.07.2026.

[22] Idem.

[27] Em: https://www.instagram.com/reel/DNODdr-KqrT/   Acesso realizado em 31.07.2026.

Vale lembrar que, do início da ocupação ao dia 26 de setembro de 2026, o exército israelense matou 262 jornalistas (entre os quais estavam 26 mulheres), feriu outros 433 e prendeu 50 entre jornalistas e profissionais de mídia. Em: https://www.palestinechronicle.com/palestinian-journalist-death-toll-reaches-262-as-gaza-marks-international-solidarity-day/   Acesso realizado em 26.09.2026.

[35] Você pode ter acesso a estas e outras informações sobre esta experiência em: https://www.palestinechronicle.com/gazas-libraries-were-destroyed-how-children-refused-to-let-them-die/  Acesso realizado em 18.06.2026.

[37] Em: https://www.palestinechronicle.com/a-circus-tent-amid-the-rubble-a-safe-space-for-gazas-war-weary-children/

Acesso realizado em 16.07.2026.

Você também pode conhecer o relato de outra atividade circense em: circo https://elpais.com/internacional/2026-09-03/un-circo-ambulante-para-el-horror-de-gaza.html   Acesso realizado em 04.09.2026.

[43] Em: https://youtube.com/shorts/vZ5OkEVLczw?is=MViK5gEzZZVDEUvb   Acesso realizado em 18.08.2026.

[51] Estas e outras informações sobre o assunto estão disponíveis em:

- https://bdsitalia.org/ 

- https://bdsmovement.net/BNC 

- https://www.palestinechronicle.com/no-room-for-genocide-italian-hospitality-against-apartheid-and-israeli-crimes/

Acessos realizados em 08.08.2026.

[53] Você pode encontrar estas e outras informações sobre o caso em: https://www.palestinechronicle.com/breaking-massive-attacks-robert-del-naja-arrested-over-pro-palestine-sign/  Acesso realizado em 27.09.2026.

[55] Estas e outras informações mais detalhadas estão disponíveis em: https://www.palestinechronicle.com/adidas-faces-boycott-over-israeli-soldier-amid-gaza-amputation-crisis/  Acesso realizado em 08.09.2026.

[71] Em: https://www.palestinechronicle.com/i-found-my-family-sarandon-macklemore-defy-palestine-backlash/  Você pode ter acesso à apresentação de Macklemore em Nova Jersey e aos vídeos das duas músicas Hind’s Hall sobre o genocídio em Gaza em:

- https://youtu.be/Jpr76iaJrdM?is=6BScNORjOCX7h-rm 

- https://youtu.be/fgDQyFeBBIo?is=rYHMQRti70VmWcTW 

- https://youtu.be/qRRoTR9HGFU?is=1451JmTAX7tQmsIH 

Acessos realizados em 07.09.2026.

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