domingo, 13 de novembro de 2022

Itália: os neofascistas chegam ao governo. 1

 



"A floresta ia encolhendo, mas as árvores seguiam votando

no machado que, por causa do seu cabo de madeira,

conseguiu convencê-las de que era uma delas".

Provérbio da Turquia.


As eleições de 25 de setembro viram o partido neofascista Irmãos da Itália (IdI) pular de 4% para 26% das preferências dos eleitores. Como agremiação mais votada, foi encarregada de formar um governo cuja maioria conta com os deputados e senadores eleitos em coalizão com outros dois partidos de direita, a Liga Norte e Força Itália.

            Longe de ser um resultado inesperado, a ascensão dos neofascistas se deve a um trabalho meticuloso e paciente que iniciou na primeira metade dos anos 90. Nesta fase, os integrantes do Movimento Social Italiano (MSI), criado em 1946 para manter vivo o legado de Benito Mussolini, começaram a abrandar os tons típicos de uma oposição de extrema direita e a participar de alguns governos conservadores. Com movimentos ainda incertos e sem nenhum diálogo com a base da pirâmide social, as lideranças do partido buscavam vencer o caráter pejorativo que o termo “fascista” inspirava na população.

            Em 2012, os Irmãos da Itália assumiram a herança política do MSI (a cuja organização juvenil pertencia a sua líder, Giorgia Meloni) e seguiram a trajetória de participação/oposição aos governos com a qual aprenderam a dialogar com os anseios e os temores do povo. A possibilidade de vencer as eleições deste ano levou a eliminar as posições mais polêmicas, a disciplinar os setores mais radicais do partido e a equilibrar a mescla de propostas e sentimentos identitários capaz de atrair as atenções de quem perdeu o interesse pela política, se opõe a qualquer noção de igualdade e vota em quem promete responder a seus anseios imediatos.

            A floresta que, desde meados dos anos 80, viu cair os direitos conquistados pelas lutas operárias nunca reagiu à altura de um empresariado que eliminou dos locais de trabalho quem tinha experiência de luta, naturalizou a precarização, usou a redução dos impostos como chantagem para não fechar as empresas sediadas no território nacional e dirigiu o Estado rumo à eliminação progressiva da gratuidade dos serviços públicos. As agruras do desemprego, o crescente peso das cobranças que incidiam sobre os atendimentos básicos e a falta de respostas de um movimento sindical esvaziado pelo processo de reestruturação produtiva e pela perda de qualquer identidade de classe  aplanaram o caminho pelo qual a direita foi transformando o individualismo e a adaptação às demandas do capital nos únicos meios para enfrentar as adversidades.

            Pouco a pouco, estes elementos criaram um círculo vicioso que os neofascistas pretendem manter. Para conter as queixas da população, os governos de centro-direita reduziram os impostos. A diminuição dos recursos arrecadados forçou uma ulterior precarização dos serviços públicos. Diante da dificuldade de serem atendidas, as pessoas aumentaram a procura pelo setor privado e, devido ao peso destes gastos no orçamento familiar, reivindicaram uma ulterior redução dos tributos que, ao ser viabilizada, levava a um novo aumento da precarização, dos valores pagos pelos atendimentos e do contingente que procurava a iniciativa privada para driblar a demora e a má qualidade dos serviços. Enquanto o povo sofria, os empresários viam seus lucros decolarem.

            No momento em que escrevemos, a brisa que percorre as áreas desmatadas é recebida pelo que resta da floresta como um sinal de alívio e não como o anúncio das tempestades de quem, ao prometer estar "pronto para reerguer a Itália", capturou a sua confiança e reduziu as possibilidades de uma leitura crítica dos acontecimentos. Ignaras das intenções do machado que nunca escondeu a sua lâmina afiada, muitas árvores depositaram nele as esperanças de conseguir alguma melhora. Nas próximas páginas, vamos resgatar os elementos que levaram a um resultado eleitoral que a esquerda lamenta, que deixa parte do centro sem saber o que fazer, mas que anima as esperanças de uma direita rumo à realização dos seus anseios de poder.

 

            1. Uma maioria parlamentar conquistada com a minoria dos votos e sem esconder as próprias origens.

            O resultado oficial da apuração entrega à coalizão de direita, formada pelos partidos Irmãos da Itália, Força Itália e Liga Norte, nada menos do que 237 das 400 vagas da Câmara dos Deputados e 115 dos 200 assentos do Senado. Como foi possível chegar a esta maioria tendo recebido 46% dos votos, seis pontos percentuais a menos em relação à soma das preferências do centro e da esquerda parlamentar?3 A resposta está na forma como o processo eleitoral é organizado.

De acordo com a legislação italiana, a escolha dos parlamentares ocorre em três tipos de seções. A primeira delas é formada pelos colégios que se encontram no exterior e que elegem 8 deputados e 4 senadores com base na maioria dos votos recebidos.

            A segunda é integrada pelas seções nas quais os partidos, ou as coalizões, apresentam um único candidato. Nestes colégios, onde se escolhem 147 deputados e 74 senadores, ganha quem consegue o maior número de votos. Desta forma, pode ocorrer que, por exemplo, o candidato da coalizão de direita consiga 45 votos, enquanto o do Partido Democrático (PD) e o do Movimento 5 Estrelas, ambos integrantes do governo anterior, obtenham 44 votos cada um. Por um único voto de diferença, o parlamentar conservador ganha a vaga atribuída a esta seção.

            O terceiro grupo é composto pelos colégios multinominais, onde os eleitores escolhem 245 deputados e 122 senadores. Em cada uma destas seções, os partidos e as coalizões apresentam uma lista de nomes e a distribuição das vagas é feita com base na proporção dos votos recebidos por cada lista.

            Basta isso para percebermos que uma coalizão aumenta as possibilidades de eleger seus candidatos à medida que reúne as preferências dos eleitores que optariam por cada uma das legendas que a compõem. Por outro lado, quando um partido disputa sozinho as vagas disponíveis, só pode contar com suas próprias bases eleitorais e corre maiores riscos de seus representantes sofrerem uma derrota. Ou seja, a direita usou de forma muito inteligente as possibilidades oferecidas pela lei eleitoral, enquanto os atritos, divisões e brigas de egos que levaram à queda do governo anterior inviabilizaram de antemão qualquer possibilidade de o centro-esquerda apresentar uma coligação capaz de transformar seus 52% dos votos válidos numa base parlamentar majoritária.

            Esta primeira colocação explica o cálculo aparentemente contraditório pelo qual a direita conquistou a maioria parlamentar com a minoria das preferências dos eleitores, mas não dá pistas em relação ao discurso utilizado para convencê-los.

            O primeiro elemento que salta aos olhos é a grande apatia com a qual a maioria dos italianos acompanhou a campanha eleitoral. A extrema direita enfrentou este distanciamento da política com a garra de quem acredita na mudança, dialogou com os sentimentos e as preocupações reais das pessoas sem abrir mão dos seus símbolos históricos. Vejam como isso ocorreu comparando o logotipo do Movimento Social Italiano, do seu herdeiro Irmãos da Itália (Fratelli d'Italia, em italiano) e do que, nestas eleições, incluía o nome da sua candidata ao governo:

 


            A princípio, qualquer italiano sabe (ou deveria saber) que, desde 1946, a chama com as três cores da bandeira italiana é usada para estabelecer uma analogia entre o fogo que arde sobre o túmulo de Benito Mussolini, o criador e o maior representante do fascismo italiano, e a continuidade que o partido daria à sua política após o fim da Segunda Guerra Mundial. A chama tricolor se manteve nos três símbolos, sendo que, no emblema oficial dos Irmãos da Itália, constam também as iniciais do Movimento Social Italiano que lhe deu origem, apagadas apenas no logotipo da principal liderança do partido nestas eleições.

            Se isso não bastasse, em várias ocasiões, a própria Giorgia Meloni declarou ser uma admiradora de Benito Mussolini ao mesmo tempo em que procurou se distanciar do Partido Fascista de 1922 numa gradação de tonalidades definida pelas relações com Força Itália e Liga Norte, pelo esforço de reduzir a rejeição do eleitorado e pela necessidade de dialogar e unificar os diferentes grupos que constituem as bases do IdI. Ou seja, o machado tinha campo aberto e experiência acumulada para, sem negar o DNA da sua lâmina, mostrar à floresta que havia uma identidade comum. Veremos como isso se deu no próximo capítulo.

           

            2. Da oposição à vitória eleitoral.

            Durante os 18 meses em que o economista Mario Draghi foi primeiro ministro da coalizão de centro-esquerda, Giorgia Meloni fez uma oposição sistemática às medidas do seu governo. Suas críticas aumentaram os desgastes oriundos da pandemia, da forte elevação dos combustíveis, das contas de energia e das metas de ajuste econômico sem as quais a UE não liberará as novas parcelas do financiamento de 200 bilhões de euros de que o país precisa. Desta forma, a agremiação neofascista não teve dificuldades em aumentar a própria projeção nacional com um discurso que condenava o impacto da inflação no poder de compra dos salários e em se credenciar como capaz de viabilizar propostas que melhorariam a vida de todos.

            Durante a campanha eleitoral, a busca de uma identidade com a população caminhou simultaneamente em várias linhas paralelas. A primeira delas apelava a medidas que dialogavam com suas preocupações imediatas, como a necessidade de pressionar a UE a estabelecer um teto aos preços do gás e da energia elétrica a fim de reduzir o custo de vida. Ainda no campo da economia, a preocupação com o desemprego andava de mãos dadas com a proposta de socorrer a indústria nacional com um pacote de 30 bilhões de euros para evitar o fechamento de mais unidades produtivas e salvar o maior número possível de empregos. Ou seja, por trás de um discurso que aparentava beneficiar o povo, o país elevaria ainda mais o seu endividamento para auxiliar quem sempre usou e abusou dos incentivos e das isenções fiscais do governo sem oferecer nenhuma garantia de emprego e de permanência das instalações no território nacional.

            Além disso, apesar de saber que não havia disponibilidade de caixa, a coalizão de direita não titubeou em alardear a redução das alíquotas do imposto de renda das pessoas físicas para 15%. Esta proposta que faz os olhos de muitos trabalhadores brilharem de alegria, na verdade, beneficia muitos mais aqueles que possuem grandes fortunas, como é o caso, por exemplo, do magnata Sílvio Berlusconi que é um dos principais líderes do partido Força Itália, coligado com a Meloni.

            Outra proposta que agradou muito diz respeito à necessidade de fazer uma reforma do sistema previdenciário para evitar que, a partir de janeiro de 2023, volte a vigorar a idade mínima de 67 anos para solicitar a aposentadoria. Neste caso, precisamos lembrar que, em função da pandemia, o direito ao benefício foi antecipado em dois anos a fim de assegurar uma fonte de renda a muitas pessoas que perderam o emprego e que, em função da idade avançada, dificilmente encontrariam uma nova ocupação.

            A questão dos imigrantes merece um detalhamento sem o qual é impossível entender o que está acontecendo. Em primeiro lugar, devemos lembrar que a quase totalidade dos trabalhos com os quais os chamados "extracomunitários" ganham a vida é de profissões e tarefas que nenhum italiano se dispõe a fazer. De vender flores nos restaurantes a limpar banheiros públicos, passando por serviços de pedreiro, encanador, servente, cuidador de idosos, padeiro, eletricista, pintor e uma miríade de atividades manuais na agricultura, na pecuária e no setor de serviços, temos uma longa lista de trabalhos temporários, sazonais, pesados e informais que, se não fossem os imigrantes, o país não teria quem dá conta deles.

            Além disso, é sabido que o sistema previdenciário italiano se sustenta graças às contribuições da parcela destas pessoas que consegue um trabalho fixo e que, em função do possível retorno ao país de origem antes de atingir a idade mínima para a aposentadoria, não receberá o benefício para o qual contribuiu durante os anos de permanência na Itália. Ou seja, a primeira coisa que precisa ficar clara é que o país precisa dos imigrantes tanto para a produção de um volume expressivo de riquezas, como para garantir os recursos com os quais paga os benefícios aos aposentados italianos.

            Do mesmo modo, o fato de ter nascido fora da Itália é motivo suficiente para que os imigrantes sejam responsabilizados pelos principais problemas do país. Ninguém nega o envolvimento com o tráfico e a prostituição de uma pequena parte deles. Contudo, enquanto africanos, asiáticos, latino-americanos e oriundos do leste europeu são constantemente colocados sob suspeita pelo simples fato de serem imigrantes, não há nenhuma ação contundente para combater a máfia italiana que os escraviza em trabalhos sub-humanos ou se aproveita deles para fazer do crime e da prostituição uma fonte de lucros milionários.

            Por outro lado, os extracomunitários são apontados também como responsáveis pela sobrecarga e a má qualidade dos serviços públicos. Em relação a este aspecto, é interessante reparar que a população não relaciona a piora do atendimento com a sonegação e a isenção fiscal e nem mesmo que a grande maioria dos imigrantes é composta por adultos que chegam sem as respectivas famílias, razão pela qual o país assimila uma força de trabalho pronta a ser esfolada sem gastar um centavo com o que seria necessário para a sua formação, do nascimento ao ingresso no mercado de trabalho.

            Estes esclarecimentos se fazem necessários à medida que os neofascistas fazem coro com os demais partidos da coalizão quanto à necessidade de impedir a chegada das embarcações nas quais os imigrantes atravessam o Mar Mediterrâneo rumo à Itália e dos navios com os quais as Organizações Não-Governamentais levam em terra firme aqueles que naufragaram ou correm o risco de sofrer um naufrágio.

            Ou seja, a ideia de bloquear o acesso aos portos italianos visa criar fatos que ganham o aplauso da população sem que isso afete o excedente de pessoas das quais as atividades econômicas precisam para gerar a riqueza nacional e arrochar os salários. Desta forma, em nome de uma ação apresentada como necessária para proteger as fronteiras nacionais, deixam-se morrer no meio do mar milhares de seres humanos cuja chegada aumentaria esta “sobra” populacional indesejada.

            Mas isso não é tudo. Aos olhos dos italianos, a crueldade criminosa e covarde que transforma o Mediterrâneo no maior cemitério do mundo ganha, as feições de um ato de coragem à medida que o governo apela à defesa da soberania, à segurança dos cidadãos e à preservação da identidade cultural do país para violar as normas da União Européia em matéria de imigração.4 Por este caminho, os neofascistas mostram que não têm medo de enfrentar as leis comunitárias e as críticas de quem, independentemente de sua autoridade, adota posições que contrariam as percepções de uma população cujo bem-estar depende cada vez mais das pessoas que rejeita.

            Últimas, mas não menos importantes, são as questões identitárias amplamente usadas por Giorgia Meloni durante a campanha eleitoral. Em praticamente todos os comícios, a líder neofascista fazia questão de se apresentar como mulher, mãe e cristã. Num discurso abertamente conservador, a líder neofascista afirmava seguidamente que, como alicerce da sociedade, a família é um "bem sagrado a ser protegido, e não uma instituição velha e ultrapassada a ser destruída". Neste sentido, a Meloni se posicionou contra a legislação que legaliza o aborto até o terceiro mês de gravidez, apresentou propostas para o aumento da natalidade, afirmou seu compromisso de combater os grupos de pressão LGBTQIA+ e as teorias de gênero, temas caros à igreja católica e a um número significativo de pessoas que cresceram à sombra de suas orientações.

            É interessante reparar que, em seus discursos, o esforço do governo para elevar os nascimentos era sinônimo de investir no futuro do país. O ponto de encontro entre uma Pátria cuja população tem uma das maiores médias etárias do mundo e um projeto de família tradicional seria atingido através de uma redução dos impostos e tarifas proporcional ao número de filhos do casal; do pagamento de um bônus por cada filho/a com valor superior ao atual e a ser recebido até completar os 18 anos de idade; do corte dos tributos que incidem sobre fraudas, mamadeiras, leites em pó, etc.; da criação de creches cujos horários se adaptam à jornada de trabalho dos pais; de uma política de sensibilização do empresariado para ampliar os direitos da maternidade; e do aumento da isenção fiscal sobre os salários das pessoas contratadas para cuidar das crianças no ambiente doméstico. Ou seja, a Meloni não tratou apenas de defender verbalmente um ideal de família e sim de envolver o Estado e os valores cristãos para que, de um lado, a família tradicional ganhe solidez e, de outro, seja possível justificar que os programas de ajuda governamental se restrinjam ao atendimento de quem se encaixa neste modelo familiar.

Isso explica por que, em várias ocasiões, a líder neofascista alternava este anúncio à necessidade de cortar programas sociais a grupos necessitados, entre os quais estão os imigrantes que, na maioria das vezes, não têm uma família que segue os mandamentos do cristianismo. Enquanto as pessoas fixavam o olhar numa proposta que, dificilmente, vai convencer os jovens casais a ter filhos, a direita lançava as bases para justificar cortes de gastos que devem atingir a parte da população que aderiu a outros modelos de família.

            Numa síntese que resume bem a sua postura durante a campanha eleitoral, podemos dizer que a líder dos Irmãos da Itália agiu como um camaleão que, ao captar os sinais do ambiente circunstante, adaptou o seu discurso ao perfil das pessoas que estavam à sua frente. Aos tons conciliadores que tranquilizavam os investidores podiam seguir palavras inflamadas que seduziam os que estavam fartos da política atual, apelos à tradição e à identidade cristã que dialogavam com os que nutrem uma visão nostálgica do passado ou promessas de agir com rigor no cumprimento da lei e no combate à criminalidade para convencer os moderados e os indecisos a entrarem no seu barco.

 

            3. Problemas imediatos e estratégias de longo prazo.

            Como sempre acontece numa campanha eleitoral, o custo das promessas supera abundantemente a possibilidade de realizá-las. Na hora de acertar as contas com a arrecadação, a aritmética é muito cruel com qualquer líder que prometeu mundos e fundos, mas é forçado a recuar por falta de recursos.

            Será que os neofascistas não têm medo de frustrar as expectativas populares? Ou será que o descontentamento nascido delas pode oferecer à extrema direita a chance de se consolidar como defensora dos interesses da população? A seguir vamos resgatar alguns fatos que ajudam a esboçar as primeiras respostas.

            Giorgia Meloni assume a condução de um país que, não fossem os empréstimos concedidos pelo Banco Central Europeu (BCE), estaria em bancarrota. De fato, a Itália está desmoronando sob o peso de uma dívida interna correspondente a 150% do seu Produto Interno Bruto (PIB) e um déficit nas contas públicas equivalente a 6% da produção anual da riqueza. A crise econômica desencadeada pela pandemia levou o BCE a suspender as regras pelas quais os países da Zona Euro, como é o caso da Itália, podem ter, no máximo, um déficit de 3% do Produto Interno Bruto e devem viabilizar políticas que limitem a dívida pública a 60% do PIB.

No momento em que escrevemos, Bruxelas se dispõe a flexibilizar estas regras para não criar impactos recessivos que piorariam ainda mais a situação econômica das nações que adotaram a moeda única, mas isso não significa que o BCE vai abrir mão dos compromissos já negociados com cada governo para a continuidade dos financiamentos. Rejeitar estes compromissos para viabilizar as promessas de campanha significa não receber o dinheiro novo e estrangular o país sob o peso de uma dívida que é a segunda maior da União Européia. Cumpri-los implica em adiar indefinidamente as propostas da coalizão que demandam um volume maior de recursos. Sendo assim, podemos concluir que o governo de Giorgia Meloni tem uma margem de manobra bastante estreita, o que aumenta os riscos de o descontentamento popular vir a corroer o capital político que o seu partido conseguiu acumular. Isso significa que os neofascistas estão num beco sem saída? Tudo indica que não.

            É fato que reduzir a idade da aposentadoria, bloquear os imigrantes que procuram desembarcar no país e viabilizar algumas das medidas para aumentar a natalidade não demandam grandes custos imediatos, ainda mais que parte desses dispêndios seria compensada pelos cortes em outros programas sociais do governo. Ou seja, a coalizão de direita pode mostrar serviço com algo razoavelmente barato e que pode ser alardeado como um passo para ir de encontro às demandas da população, enquanto a Primeira Ministra busca negociar com o Banco Central Europeu um abrandamento das condições para a liberação das próximas parcelas dos financiamentos.

            Romper com a União Européia é uma possibilidade com a qual Giorgia Meloni já sonhou, mas que descartou ao perceber que 71% da população aprovam a permanência do país no bloco e a manutenção do Euro como moeda nacional. Por outro lado, é impossível esquecer que 51% das exportações italianas se destinam aos países da UE que, por sua vez, fornecem 58% do que a Itália precisa. Ou seja, sair da UE seria como dar um tiro no próprio pé. O jeito, então, é caminhar em três direções complementares: 1. Driblar algumas obrigações do bloco com posições que evidenciem quanto Bruxelas se distancia da vontade dos italianos; 2. Mostrar que os neofascistas estão fazendo o possível para defendê-los; 3. Somar forças com os demais governos de extrema direita européia para ampliar os espaços de atuação nos fóruns comunitários e nos 27 países do bloco. Vejamos alguns exemplos que mostram como isso pode se concretizar.

            O primeiro deles diz respeito à determinação de impedir que barcos carregados de imigrantes e navios de ONGs que recolhem estas pessoas em mar aberto entrem nos portos italianos. No dia 3 de novembro, durante o primeiro encontro entre Giorgia Meloni e a Presidente de turno da União Européia, Ursula Von Der Leyen, a líder neofascista deixou claro que a proteção das fronteiras é um aspecto tão importante quanto o resgate dos imigrantes e que são os países aos quais pertencem os barcos de salvamento que devem se responsabilizar pelos passageiros que transportam. Desta forma, a Itália aceitará que mulheres grávidas, crianças e doentes que se encontram nestas embarcações desembarquem em seus portos, ao passo que os demais extracomunitários só poderão fazer isso se já tiverem outro país como destino final de sua viagem. Ao opor um dever ao outro e ao afirmar que a responsabilidade pelos imigrantes é das nações cuja bandeira está hasteada no mastro dos navios de salvamento, a Primeira Ministra italiana busca ganhar o aplauso dos eleitores enquanto acusa os demais países da UE e as ONGs que atuam sob suas bandeiras de assumirem responsabilidades que descarregam nas costas dos italianos.5

             Outro exemplo interessante é a defesa que Giorgia Meloni faz do Made in Italy do ponto de vista da produção e do consumo. Aparentemente, esta orientação parece indicar apenas o desejo de reerguer a economia do país com base no trabalho de sua gente e na valorização do que ela produz. O problema é que esta diretriz está na contramão da condição pela qual a Itália deve se abrir ainda mais à concorrência das nações da União Europeia se quiser continuar recebendo os financiamentos do bloco. Sendo assim, não é difícil perceber que um apelo nacionalista como este coloca a UE no papel de inimiga da recuperação econômica que o governo deseja promover e, de quebra, do bem-estar da população que acabaria não tendo acesso à geração de emprego e renda proporcionada pelos incentivos às atividades locais. Nesta rota de colisão com Bruxelas, a líder neofascista busca se afirmar como defensora dos verdadeiros interesses populares em oposição às determinações aceitas pelo governo anterior.

            No plano das relações internacionais, a invasão russa da Ucrânia é outro ponto de atrito com Bruxelas. Não é segredo para ninguém que Sílvio Berlusconi, líder de Força Itália, senador e integrante da coalizão de governo, é um grande amigo de Vladimir Putin, apoia a invasão da Ucrânia e critica abertamente as sanções impostas à Rússia. Mas Berlusconi não é o único a cortejar Putin, cuja proximidade com a extrema direita russa segue rumos identitários que o aproximam do pensamento mais conservador e nacionalista da Europa.

Em vários momentos desde o início da guerra, Matteo Salvini, líder da Liga Norte (partido que também integra a coalizão de governo), propôs retirar as sanções contra a Rússia afirmando que estas não eram capazes de deter a guerra. Mantendo uma distância prudente em relação a Berlusconi, Salvini e o seu partido sempre aprovaram a ajuda militar e humanitária que o país ofereceu à Ucrânia, mas ele sempre fez questão de sublinhar que nem o preço das sanções, nem a conta das ajudas enviadas a Kiev podiam ser pagos pelos trabalhadores italianos.

            Giorgia Meloni seguiria uma linha próxima aos colegas de coalizão, não fosse pelo fato de que, neste momento, seria imperdoável para a Itália comprar briga, ao mesmo tempo, com a União Européia e com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Apesar disso, não faltam aos três líderes posições comuns que permitem descarregar na UE a responsabilidade pelo encarecimento das contas de energia e pela falta de gás que ameaça tanto o bom funcionamento da economia, como a capacidade de as famílias enfrentarem os rigores do inverno. Ou seja, ainda que os fatos recomendem prudência, a coalizão de direita afina as posições que apontam a Itália como vítima das diretrizes de Bruxelas e o seu governo como fiel protetor dos interesses dos trabalhadores.

            O caso da Hungria é, sem dúvida, o exemplo mais significativo do processo com o qual a extrema direita do velho continente procura somar forças para minar por dentro os estatutos da UE. Vejamos o que aconteceu recentemente. Em meados de setembro deste ano, por 433 votos a favor, 123 contra e 28 abstenções, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução onde se afirma que o Estado de direito na Hungria foi degradado a ponto de o país se tornar "um regime híbrido de autocracia eleitoral", ou seja, a Hungria já não pode ser considerada uma democracia plena.

Motivos para isso não faltam. Basta pensar que, desde a sua eleição em 2010, o Primeiro Ministro, Viktor Orban, trocou centenas de juízes das cortes húngaras a fim de instalar pessoas que fossem suas aliadas, alterou a lei eleitoral para beneficiar o seu partido, transformou centenas de jornais independentes em máquinas de propaganda do seu governo e chegou a proibir livros didáticos de história que não estavam em linha com a leitura do passado desejada pelo seu partido.

            A resolução aprovada pelo Parlamento Europeu tem consequências econômicas imediatas, à medida que, pelos estatutos da UE, somente as democracias plenas podem integrar o bloco e, de consequência, ter direito aos fundos que Bruxelas coloca à disposição dos países membros. Desta forma, a Hungria só voltaria a receber novos financiamentos depois que a Comissão Européia verificar que o respeito ao Estado Democrático de Direito foi restabelecido.

            O problema é que, de 2014 em diante, os fundos da UE representaram, em média, 60% dos investimentos públicos da Hungria e, neste momento, o seu governo precisa muito de dinheiro novo para fazer frente ao desemprego criado pela pandemia, aos problemas de uma inflação anual de 18,6%, de uma desaceleração econômica alimentada por uma taxa de juros de 11,75% e de um déficit público superior aos 11% do PIB.6

            Aliada de Orban, Giorgia Meloni criticou abertamente a votação do Parlamento Europeu, alegando que a instituição não estava respeitando a soberania húngara e que o cancelamento dos financiamentos punia as decisões de um representante legitimamente eleito pela população. Ou seja, os estatutos da União Européia, para os quais o compromisso com a democracia plena é a condição sem a qual uma nação não é admitida no bloco, deveriam ser rasgados em nome de escolhas que negam a base fundamental dos acordos comunitários que, por sinal, foram aprovados pelo Parlamento húngaro.

            O objetivo desta inversão (partilhada pelo governo da Polônia, pelo partido da extrema direita espanhola Vox, pela Hungria e, ao que tudo indica, pelos representantes do setor mais conservador da direita sueca que ganhou as últimas eleições7) não é o de fazer justiça à vontade soberana do povo, até porque, no caso de Budapeste, a expressão desta vontade já foi devidamente moldada e impedida de se manifestar livremente pelas mudanças introduzidas por Orban. Ao apresentar a Hungria como vítima de um abuso do Parlamento Europeu, Giorgia Meloni visa legitimar a ruptura dos estatutos comunitários para que a extrema direita tenha o espaço de ação do qual precisa para construir governos autocráticos ao mesmo tempo em que, veja só, acusa Bruxelas de adotar uma postura antidemocrática.

            Esta lógica de ação busca aumentar as rachaduras que já existem na União Européia para transformá-la numa espécie de federação de Estados nacionais com um número extremamente reduzido de obrigações comunitárias. Com esta mudança, cada país seria totalmente soberano e independente para tomar as decisões que dizem respeitos à política interna, às restrições dos direitos sociais que considera necessárias e às medidas que, em nome da preservação da sua identidade cultural, restringem as liberdades coletivas.

            A senda que leva ao autoritarismo se disfarça também em apelos identitários que confundem as pessoas simples. Veja o que aconteceu, por exemplo, no dia 10 de outubro diante das cerca de 10.000 pessoas presentes na festa anual do Vox, partido da extrema direita espanhola. Em seu discurso, o líder polonês ultraconservador, Mateusz Morawiecki, defendeu as tradições de cada país diante "dos burocratas de Bruxelas que acreditam serem eles que estão formando a Europa" quando, na verdade, estão criando "um monstro transnacional sem valores". Para Morawiecki, nada deveria impedir que ministros e presidentes fizessem escolhas guiadas pelos valores da civilização cristã dos quais seus povos são herdeiros.

Ao defender esse direito com o manto de uma suposta sacralidade que percorre os séculos, as palavras do líder polonês escondem que o governo por ele dirigido é um dos mais fiéis seguidores das pegadas que Orban semeou na UE e que ele próprio já foi repreendido por Bruxelas por estar a um passo da autocracia e por negar os direitos civis aprovados pelas normas do bloco. Ou seja, enquanto o discurso soa a democracia, os fatos apontam em sentido diametralmente oposto.  

Neste mesmo encontro, Giorgia Meloni, que já havia assumido a tarefa de formar o próximo governo, enviou uma mensagem de apoio a Vox na qual costura inteligentemente apelos a temas sensíveis à população e posições que traduzem seu plano de governo com questões identitárias que respaldam sutilmente o discurso de Morawiecki. Em vídeo conferência diante da plenária do encontro, a líder neofascista disse defender uma “Europa pragmática que persegue a transição ambiental sem destruir o tecido produtivo e sem se entregar à China; que acolhe quem chega legalmente de outros países para trabalhar e protege as fronteiras externas contra a imigração ilegal; que investe na natalidade e defende a liberdade na educação e o papel social da família”. Para bom entendedor, meia palavra basta...

            A esperteza do machado em convencer as árvores de sua identidade com elas ganhou novas adesões na Itália e promete ampliar a porcentagem da floresta que confia em suas promessas. No momento em que escrevemos, 17% do eleitorado europeu (um em cada seis votos válidos depositados nas urnas) escolheu uma opção ultraconservadora nas últimas eleições do seu país.

            Muitos desses votantes são trabalhadores, desempregados, gente que sofre na pele as consequência do neoliberalismo, árvores que se agarram ao pouco que têm e que, diante das agruras cotidianas, acreditam no novo alardeado pelo machado. Árvores que buscam respostas aos seus anseios, querem oportunidades para realizar seus interesses imediatos e às quais nossos convites a se unirem para que nenhuma delas seja derrubada, infelizmente, não dizem nada.

 

            Emilio Gennari, Brasil, 07 de novembro de 2022.

 

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(1) Os dados que serviram de base à elaboração das nossas reflexões e parte dos elementos para aprofundá-las foram divulgados em:

- https://elpais.com/opinion/2022-07-22/draghi-dimite-europa-se-debilita.html#?rel=mas

- https://elpais.com/opinion/2022-08-26/italia-ante-los-ultras.html

- https://elpais.com/internacional/2022-09-17/matteo-salvini-si-gobernamos-los-barcos-de-las-ong-no-entraran-en-italia.html

- https://elpais.com/internacional/2022-09-23/una-nueva-derecha-italiana-con-los-votantes-que-encumbraron-a-berlusconi.html

- https://elpais.com/internacional/2022-09-23/guia-visual-de-las-elecciones-en-italia-y-la-formacion-de-gobierno.html

- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/09/23/ascensao-de-meloni-na-italia-preocupa-membros-da-uniao-europeia.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias

- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/09/25/italia-vai-as-urnas-para-escolher-novo-governo-veja-desafios.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias

- https://elpais.com/internacional/2022-09-25/elecciones-en-italia-ultima-hora-de-partidos-candidatos-y-votaciones.html

- https://elpais.com/internacional/2022-09-25/la-ultraderecha-gana-las-elecciones-por-primera-vez-en-italia-segun-los-sondeos.html

- https://elpais.com/opinion/2022-09-25/seismo-en-italia.html

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-63029976

- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/09/26/italia-partido-pos-fascista-de-georgia-meloni-vence-eleicoes-legislativas-com-direita-pura-e-dura.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias

- https://g1.globo.com/mundo/blog/sandra-cohen/post/2022/09/24/giorgia-meloni-a-face-da-extrema-direita-prestes-a-assumir-o-governo-na-italia.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias

- https://elpais.com/internacional/2022-09-26/la-ultraderecha-gana-las-elecciones-por-primera-vez-en-italia.html

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-63090118

- https://elpais.com/internacional/2022-09-26/elecciones-en-italia-ultima-hora-de-partidos-candidatos-y-resultados-en-directo.html

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-63029974

- https://elpais.com/internacional/2022-09-26/resultados-de-las-elecciones-en-italia-voto-por-regiones-en-la-camara-y-en-el-senado.html

- https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2022/09/27/discurso-xenofobo-e-fortemente-nacionalista-como-giorgia-meloni-chegou-ao-poder-na-italia.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias

- https://www.bbc.com/portuguese/internacional-63045625

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-63038679

- https://elpais.com/internacional/2022-09-27/draghi-y-meloni-buscan-una-transicion-rapida-en-italia-para-cumplir-con-la-ue.html

- https://elpais.com/espana/2022-10-08/el-festival-de-vox-una-historia-de-espana-sin-picasso-lorca-o-machado.html#?rel=mas

- https://elpais.com/internacional/2022-10-13/las-dificultades-de-meloni-para-encontrar-a-su-ministro-de-economia.html

- https://tg24.sky.it/politica/2022/10/13/nuovo-parlamento-composizione

- https://elpais.com/internacional/2022-10-18/berlusconi-he-vuelto-a-relacionarme-con-putin-para-el-soy-el-primero-de-sus-cinco-verdaderos-amigos.html

- https://elpais.com/internacional/2022-10-13/berlusconi-echa-un-pulso-a-meloni-y-rompe-la-unidad-de-la-coalicion-liderada-por-la-ultraderecha.html#?rel=mas

- https://european-union.europa.eu/principles-countries-history/country-profiles/italy_pt

- https://www.altalex.com/documents/news/2022/09/20/elezioni-politiche-2022-come-funziona-sistema-elettorale-come-si-vota

- https://tg24.sky.it/politica/2022/10/25/ministero-merito-sovranita-alimentare-significato#10

- https://tg24.sky.it/politica/approfondimenti/rosatellum-come-funziona-legge-elettorale

- https://elpais.com/opinion/2022-10-26/la-doble-cara-de-meloni.html

- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/09/15/hungria-e-uma-autocracia-eleitoral-afirma-parlamento-europeu.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias

- https://pt.euronews.com/2022/10/09/extrema-direita-internacional-apoia-o-vox?utm_source=microsoft&utm_campaign=feeds_news&utm_medium=referral

Todos os acessos foram realizados entre os dias 25 de agosto e 31 de outubro de 2022.

 

(2) Analisamos alguns aspectos desse processo em nosso estudo Gestão empresarial do Estado e pandemia - o caso da Itália, disponível em: https://drive.google.com/file/d/1Jt6VBx5__t17LmIStrv7uc8-QHjHP7Mg/view?usp=drivesdk

(3) Os dois pontos percentuais restantes pertencem a pequenos partidos que vão da extrema direita à extrema esquerda.

(4) É importante lembrar que, como em muitos outros casos, as normas da União Européia em matéria de imigração estão acima da legislação nacional. Contudo, devemos levar em consideração que, na última década, foram se multiplicando os casos em que as diretrizes do governo de um país-membro desprezaram esta primazia. No caso da imigração, por exemplo, Orban foi o primeiro a descumprir frontalmente a legislação comunitária, bloqueando o acesso dos refugiados sírios que fugiam da guerra em direção ao seu território.

(5) Em: http://elpais.com/internacional/2022-11-03/meloni-choca-con-alemania-por-la-llegada-de-barcos-con-migrantes-a-las-costas-italianas.html Acesso em 04/11/2022.

(6) Vale lembrar que a Hungria não pertence à Zona Euro. Por esta razão, sua taxa de juros e o déficit nas contas públicas não são regulados pelas normas comunitárias e pelo BCE.

 

(7) O partido de ultradireita, Democratas da Suécia, foi o mais votado nas eleições deste ano e ganhou o direito de formar o próximo governo do país. Os Democratas foram muito hábeis em capitalizar o descontentamento de uma população que via o Estado de bem-estar social entregar o que esperavam dele, enquanto a desigualdade e a criminalidade aumentavam consideravelmente, e ao atribuir à imigração as mudanças negativas ocorridas no país. Além disso, em várias ocasiões, a extrema direita lançou mão de questões identitárias às quais as pessoas são particularmente sensíveis. Para eles, as nações devem estar alicerçadas em uma raça e em uma cultura homogênea a fim de preservar os valores próprios de cada uma delas. Neste sentido, ser sueco é ser branco, é ser portador de uma herança comum transmitida pelo passado, de uma cultura cujos traços urbanos e rurais são incompatíveis com os dos imigrantes cuja história, identidade e formação trilharam outros caminhos. Daí a necessidade de ter a menor quantidade possível deles para fortalecer as bases comuns da sociedade sueca.

Estas e maiores informações estão disponíveis em:

- https://elpais.com/internacional/2022-09-08/el-discurso-antinmigracion-arrastra-a-la-socialdemocracia-sueca.html

- https://elpais.com/internacional/2022-09-14/la-primera-ministra-sueca-anuncia-su-dimision-tras-la-confirmacion-de-la-victoria-del-bloque-de-la-derecha.html

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-62996390

Acessos realizados em 15/10/2022.

 


terça-feira, 25 de outubro de 2022

Brasil: realidades e desafios do “Datapovo - Notas de Conjuntura

 

      

                                         

     

O resultado das eleições realizadas no dia 2 de outubro surpreendeu os institutos de pesquisa, deixou perplexos os setores progressistas e mostrou que a ultradireita brasileira conta com um apoio que nem ela esperava ter.

Como é possível que a população tenha elegido com uma votação tão expressiva figuras que se destacaram por atuarem na contramão do que seria esperado pelos Ministérios que ocupavam? 

Será que o povo já esqueceu a política criminosa levada adiante pelo Presidente da República durante a pandemia e a forte expansão da pobreza que marcou o seu mandato? (Emilio Gennari)





Brasil: realidades e desafios do “Datapovo”1

 

 

            

O resultado das eleições realizadas no dia 2 de outubro surpreendeu os institutos de pesquisa, deixou perplexos os setores progressistas e mostrou que a ultradireita brasileira conta com um apoio que nem ela esperava ter.

 

Como é possível que a população tenha elegido com uma votação tão expressiva figuras que se destacaram por atuarem na contramão do que seria esperado pelos Ministérios que ocupavam? Será que o povo já esqueceu a política criminosa levada adiante pelo Presidente da República durante a pandemia e a forte expansão da pobreza que marcou o seu mandato?

 

O primeiro indício de que havia algo intrigante na leitura que o povo faz da realidade estava na distância entre o peso que as pessoas davam a determinados problemas sociais e as prioridades com as quais os setores progressistas disputavam o pleito. Desmatar, devastar terras e comunidades indígenas, ficar sem casa, ganhar salários baixos, trabalhar na informalidade, passar necessidade e ser submetido à brutalidade das ações policiais nunca ocuparam um lugar de destaque entre as principais preocupações da população.

 

Um segundo elemento guarda uma relação direta com o fato de as pesquisas qualitativas raramente trazem explicações abrangentes quanto aos critérios que levam os indivíduos a optarem por um determinado candidato. A possibilidade de retratar este universo demanda uma sensibilidade apurada para entender o que o povo realmente pensa e uma abertura capaz de captar os sentimentos que não se traduzem em palavras, tarefas que só podem ser desempenhadas com uma inserção que vai muito além dos contatos esporádicos dos entrevistadores e de alguns militantes dos movimentos com as periferias.

Mas, afinal, o que é que os setores progressistas não viram na hora de traçar as estratégias de campanha e projetar os resultados que esperavam alcançar?

Começaremos a responder a esta pergunta partilhando o conjunto de anotações e reflexões oriundas do diálogo direto com as pessoas, das entrevistas divulgadas pela mídia e dos estudos que se colocaram nossas mesmas indagações.

 

Trata-se de ensaiar alguns passos que ajudem a entender a complexidade do momento e a buscar os antídotos para o veneno que o bolsonarismo distribui sem cessar.

 

            1. O que a direita viu e usou sem pudores.

 

Numa análise divulgada em setembro de 2018, constatávamos que, para a maioria do povo simples, a crise vivida pela sociedade não deitava raízes no campo da economia, e sim na deturpação dos valores morais. As entrevistas e pesquisas disponíveis na época não revelavam sinais de que as pessoas viam algum nexo tanto entre as relações de poder e a formação dos modelos históricos de família, como entre as dificuldades econômicas e os problemas que levam à desintegração do núcleo familiar.2

Concretamente, a matar a família eram os casamentos homoafetivos, as diferentes identidades sexuais e a negação dos valores tradicionais pelas novas gerações que, com a sua falta de disciplina e de respeito, geravam uma infinidade de tensões desagregadoras. Por outro lado, o desemprego, a fome, a falta de moradia, os baixos salários, a insegurança de quem precisa ganhar hoje o que gasta amanhã não passavam de problemas sempre presentes e que poderiam ser resolvidos com a união do núcleo familiar, com a força da fé e a prática dos valores tradicionais. Daí que, se todos tivessem Deus no coração, recebessem uma educação no estilo antigo, se afastassem dos vícios, do crime e do que pode levar a família tradicional à sua desagregação, as crises deixariam de marcar os passos da vida coletiva. 

Quatro anos depois, não só constatamos que esta continua sendo a base a partir da qual um número crescente de pessoas interpreta os problemas sociais, como identificamos em vários setores uma repulsa ainda maior em relação a qualquer violação da chamada "ordem natural das coisas". O crescimento das igrejas evangélicas pentecostais e a ampliação das bases do catolicismo tradicional explicam parte desta evolução. Contudo, nenhuma pregação teria tanto efeito se ela não se alimentasse das experiências pessoais dos fiéis, criando assim um círculo pelo qual as vivências de cada um comprovam a pregação de padres e pastores na mesma proporção em que estas fortalecem e confirmam a importância dos valores tradicionais para as mudanças que ocorreram em suas vidas.

Concretamente, é inegável que muitos fiéis encontraram nas igrejas a ajuda de que precisavam para pôr fim à violência doméstica, para sair das drogas, abandonar o alcoolismo, o jogo e o crime, e isso levou a uma melhora das condições de vida, das perspectivas de futuro e das relações com os demais. A igreja transformou seu dia-a-dia, deu sentido e esperança diante das agruras do cotidiano e, por isso mesmo, estas pessoas têm o vivido como prova material de que a recuperação do indivíduo e o papel da família neste processo são capazes de vencer as dificuldades econômicas e de construir um mundo melhor

 

A solidez desta convicção é comprovada por um dado da pesquisa Datafolha, publicado no jornal El País, em 25 de setembro deste ano. Para 60% dos fiéis das igrejas evangélicas e dos setores do catolicismo tradicional é preferível votar em um candidato que coloca Deus acima de tudo e defende os valores da família tradicional a outros que apresentam boas propostas econômicas. E tem mais. O fato de Bolsonaro se definir cristão, ser duro contra o crime, condenar as drogas e o aborto consegue a proeza de fazer com que muitas pessoas que perderam parentes pelo coronavírus perdoem as atitudes nefastas por ele assumidas durante a pandemia. Basta isso para entendermos a importância crucial da tradição e do elemento religioso na visão de mundo de uma parcela importante da população.

 

Presente no senso comum das pessoas simples, esta ordem de prioridades foi incorporada e absolutizada pelos grupos de poder da nossa sociedade. O conservadorismo traduzido pelo lema "Deus, Pátria e Família" consegue matar dois coelhos com uma paulada só. De um lado, se constitui como apelo a valores que a ampla maioria dos indivíduos não tem a menor condição de questionar. De outro, trata-se de algo tão genérico e adaptável às conveniências do momento que não faltam possibilidades de entrar em sintonia com o papel que a fé dos simples desempenha na orientação de sua rotina diária. Desta forma, ao manter os olhos de muitos voltados ora para o céu, ora para os motivos que colocam em segundo plano a condução da economia e das relações sociais, a direita multiplica as possibilidades de aprofundar a exploração do trabalho e a devastação dos recursos naturais sem reações significativas por parte da população.

 

Mas será possível que ninguém percebe a contradição gigantesca entre um Bolsonaro que coloca Deus acima de todos e a sua defesa da tortura, da pena de morte, das execuções sumárias nas favelas e os discursos cheios de ódio contra quem não pensa e age como ele?

 

Infelizmente, não só é possível, como tem uma explicação que guarda uma relação direta com o cotidiano das pessoas. A seguir vamos esboçar alguns elementos que permitem visualizar tanto a possibilidade de ocultar as contradições entre o dizer e agir do Presidente da República, como calar os questionamentos que a sua incoerência pode gerar.

 

O primeiro deles deita raízes no que significa para o senso comum a necessidade de "eliminar o mal pela raiz". Longe de entender que o esforço deve se concentrar na destruição das contradições que sustentam a marginalização social e geram o caldo de cultura que favorece o crime organizado, para o povo simples, eliminar o mal implica em eliminar quem o pratica. Afirmada por quem se diz cristão, a ideia pela qual bandido bom é bandido morto é simplesmente absurda. A explicação demanda um pouco de paciência, mas ajuda a perceber as dificuldades que encontramos na disputa das ideias com o bolsonarismo e com o próprio povo.

 

Os evangelhos mostram claramente que Jesus condena o pecado, mas ama o pecador. Diante da mulher adúltera, o filho de Deus não diz "atirem pedras à vontade, pois esta mulher, além de pecadora, é uma destruidora de lares e Moisés tinha toda razão em dizer que gente dessa laia não merece compaixão". Ao contrário, Jesus salva a sua vida do apedrejamento, perdoa a adúltera e recomenda que ela não volte a pecar. Situações semelhantes ocorrem em outras passagens, mostrando que o cristão deve agir para que o pecador tenha as condições de se redimir e fazer o bem. Neste sentido, agir para eliminar alguém, quem quer que seja, pode ser tudo, menos cristão.

 

Ao falar para o mundo grego, os escritos do Apóstolo Paulo traduzem isso de forma ainda mais explícita quando afirmam que o corpo de qualquer ser humano é parte do corpo de Cristo. De consequência, matar, torturar, perseguir, impor qualquer sofrimento a um ser humano é matar, torturar, perseguir, fazer sofrer o próprio Cristo. Por isso, os cristãos defendem a vida, em qualquer momento, em qualquer situação, o tempo todo.

 

Parece claro que bastaria pensar nisso para perceber que atribuir a Deus a missão de matar, torturar, excluir e eliminar pessoas que, pelas convicções do Presidente da República e os interesses da ultradireita, não merecem misericórdia e compaixão, é transformar o ódio em virtude, a marginalização em mérito, a destruição do pecador e do diferente em dever ditado por Deus. Este passo faz com que o Bolsonaro e seus apoiadores encarnem a suprema manifestação do mal, claro, do ponto de vista do cristianismo.

 

Por que, então, há um verdadeiro abismo entre a fé que as pessoas afirmam professar e as ações que deveriam ser o espelho dos valores nos quais acreditam?

 

Além da “fragilidade da natureza humana” a nosso ver, uma das peças-chave está nos limites que as pessoas colocam às suas crenças religiosas. Concretamente, cada um quer um Deus que está ao seu lado, que conforta na angústia, protege do mal, dá uma forcinha para conseguir o sucesso almejado, mas não um Deus que mexe com o que foi conquistado, com os negócios dos quais nasce o bem-estar, ainda que manchados por uma série de injustiças, violências e abusos.

 

Não podemos esquecer que a ampla maioria das pessoas adapta Deus ao seu universo moral, às próprias necessidades, desejos de sucesso e projetos de vida a ponto de colocá-lo na obrigação de fazer o que lhe pede em troca de alguma oferenda. Ou seja, ao escolher uma determinada igreja, o fiel não busca uma orientação de vida que coloque em cheque o mundo de pensamentos e ações que faz seu dia-a-dia “render”, e sim que confirme e dê solidez às convicções que guiam os seus planos e as ações em andamento.

 

Basta escavar um pouco a camada superficial das afirmações dos que se autodenominam “bons cristãos” para descobrir o que elas, de fato, procuram ocultar com esse Deus customizado à imagem e semelhança das próprias demandas. À medida que erradicar o mal é sinônimo de bandido bom é bandido morto, ninguém estranha que esta “solução definitiva” seja aplicada a qualquer caso, independentemente da sua gravidade. Mas, quando ponderamos a relação entre os valores materiais e o preceito cristão de defender a vida incondicionalmente, percebemos que o diabo mora nos detalhes. Ninguém duvida, por exemplo, que roubar o celular de uma pessoa coloca o criminoso do lado do mal. Contudo, se furtar o aparelho é fazer algo errado, mas matar para recuperá-lo é aceitável, significa que a vida cedeu o lugar à propriedade como aspecto mais sagrado do universo de convicções pessoais ao qual Deus precisa se adaptar.

 

Esta convicção tão comum entre a população ganha tons bem mais perversos quando os grupos de poder afirmam que todos devem andar armados para defender a si próprios, suas famílias e as propriedades que possuem de qualquer pessoa que venha ameaçá-las. Obviamente, ninguém questiona a que preço esta acumulação aconteceu, quantos país e mães de família foram explorados e depauperados para que poucos se apropriassem das riquezas que não produziram e nem mesmo como a marginalização dos empobrecidos alimentou a violência e o crime diante da impossibilidade de conseguir por outros meios os recursos de que precisavam para sobreviver. Grandes e pequenos proprietários, ricos e pés-rapados que se vangloriam de suas merrecas, cristãos de qualquer denominação e igreja, fazem questão de ocupar seu lugar nas fileiras do contingente que defende a pena de morte, deseja se armar para proteger o que tem, mas não move um dedo para eliminar as injustiças que degradam e violentam a vida de milhões de seres humanos.

Ou seja, a defesa da vida vale apena em situações restritas que não afetam a propriedade, como no caso do aborto. Para todas as outras, não faltam armas, balas, matadores de aluguel, ameaças e execuções tanto daqueles que roubam, como daqueles que denunciam quanto a vida da coletividade é devastada pelos interesses de poucos. Claro que, para colocar o coração em paz, sobram bênçãos, terços, orações, cultos e rituais que transformam a prosperidade em benção de Deus e apontam os problemas sociais como fruto da ação de um demônio que, por sinal, costuma agir muito entre os pobres, mas nunca entre os grupos de poder.

 

Fizemos esse longo trajeto para mostrar, de um lado, a dificuldade de compreender o universo do povo por parte de quem pede, inocentemente, ao Lula de convencer os evangélicos a votarem no PT. E, de outro, a ingenuidade de uma militância que acredita conquistar corações e mentes graças a um simples encadeamento lógico de pensamentos e princípios alheios à realidade da qual se alimentam as convicções populares.

 

Contudo, esta é apenas uma parte do arcabouço que o bolsonarismo vem montando desde as eleições de 2018 e que, nos últimos quatro anos, foi capaz de envolver milhões de pessoas que estão na base da pirâmide social e sem cujos votos a ultradireita não teria chegado aonde chegou. No próximo capítulo, vamos esboçar as linhas mestras da estrutura que possibilitou a consolidação do bolsonarismo no meio popular.

 

            2. O mundo paralelo que oculta o Brasil real.

 

Ao que tudo indica, as medidas econômicas com as quais Bolsonaro procurou aumentar a aprovação do seu governo, por si só, não seriam suficientes para levá-lo ao segundo turno das eleições com a votação expressiva que ele teve. Do mesmo modo, está claro que os apelos a Deus e aos valores tradicionais dialogam com um setor específico da população, mas não têm o mesmo peso entre as pessoas que não frequentam nenhuma igreja, que construíram famílias que em nada se assemelham às tradicionais ou que, apesar de serem vítimas do racismo, da homofobia, do machismo e da violência doméstica votam para reelegê-lo.

Então, como explicar o apoio que ele recebeu de setores contra os quais seus discursos e ações sempre se posicionaram?

 

Olhando a trajetória construída pelo bolsonarismo, temos a clara impressão de que o conjunto de elementos utilizados para ganhar as eleições de 2018 construiu as bases sobre as quais o atual Presidente da República, os ministros do seu governo e os grupos que servem de caixa de ressonância de seus atos e palavras teceram a trama de um mundo paralelo ao Brasil real.

 

Imagens, mensagens, entrevistas, movimentos de rua, frases a efeito, soluções salvadoras e ameaças que alimentavam o medo de um futuro mais difícil bombardearam a razão, reduziram a ciência a uma opinião qualquer e transformaram suposições em fatos. A enxurrada de meios com os quais o bolsonarismo deturpou a realidade e criou polêmicas sem fim levou um contingente expressivo de pessoas a embarcar numa realidade que não conta com nenhuma base material comprovável.

 

Quanto mais Bolsonaro e seus seguidores conseguiram calar os gritos do Brasil real, mais emplacaram o mundo paralelo no qual, sem a menor necessidade de coerência, se definiam o certo e o errado, os inimigos e os aliados, quem era do bem e aqueles que queriam o mal para o país. Ao alimentar esta falsa realidade, os bolsonaristas criaram o caos, mantiveram as adesões dos mais fervorosos, apontaram o judiciário e os limites da legislação como obstáculos a serem removidos e convocaram todos a participar de uma cruzada destinada a romper as amarras que impedem o exercício da liberdade individual em todos os seus aspectos e independentemente das consequências que produzem.

 

No meio popular, a incorporação dos elementos deste mundo ocorria à medida que as pessoas encontravam neles as explicações e os sentidos dos acontecimentos que estavam em sintonia com suas próprias crenças e percepções e viam nas ações presidenciais as expressões fervorosas que traduziam parte dos seus próprios valores. Quanto mais esse processo dava novos passos, mais os indivíduos perdiam o contato com o mundo real, se sentiam confortáveis em sua omissão diante dos problemas sociais e abandonavam qualquer reflexão crítica que pudesse devolvê-los à realidade material.

 

A nosso ver, isso se deve, fundamentalmente, a ação simultânea de dois fatores. O primeiro deles foi introduzido desde o início de 2019, quando o Presidente da República e os ministros do seu governo deram vida a uma sequência ininterrupta de polêmicas em relação a uma grande quantidade de temas. A velocidade com a qual uma questão se sobrepunha à anterior comprometia a capacidade de reação dos parlamentares, das instituições e dos movimentos organizados da sociedade civil. Quando as respostas destes atores começavam a aparecer, a polêmica já era outra e os novos assuntos simplesmente enterravam os velhos na vala comum do esquecimento, deixando-os sem resposta.

 

Somente quando os absurdos levavam a momentos de forte rejeição (como no caso dos protestos de maio de 2019 e dos que foram organizados após as ameaças de golpe em maio-junho de 2020), o governo recuava quanto bastava para que o silêncio deixasse as manifestações de descontentamento falando sozinhas. Por outro lado, à medida que os protestos nunca atingiram os interesses econômicos dos grupos de poder, que o Congresso nunca pautaria o impeachment do Presidente e que os militares não criticavam suas ações, não havia nenhuma razão para se preocupar excessivamente com eles.

 

O segundo elemento crescia à sombra do primeiro e o alimentava com os resultados que produzia. A identidade com o bolsonarismo, e o consequente acesso ao mundo paralelo, não tinham como base nenhum programa econômico ou político-partidário em volta do qual se discutiam o projeto de país e quem pagaria a conta das medidas que estavam sendo adotadas. Ao contrário, esta construção era cuidadosamente levantada através do dialogo com os sentimentos da papulação, da manipulação de suas emoções e, sobretudo, do medo. Pouco a pouco, as pessoas aceitavam como única verdade a que fazia seus corações pulsarem na mesma frequência ditada pela identidade com o bolsonarismo.

Podemos verificar a eficácia deste conjunto de elementos na dedicação com a qual os moradores do mundo paralelo partilhavam as "descobertas" veiculadas pelas notícias falsas com o círculo de amigos e conhecidos mais próximos. Quanto mais tenebroso e assustador era o fantasma que tomava conta dos seus pensamentos, mais as pessoas sentiam que estavam participando de uma missão que levaria mais gente a conhecer a “verdade verdadeira”, a descobrir interesses ocultos, a desmascarar supostas conspirações e a não se deixar enganar pelos acontecimentos do mundo real. Neste contexto, duvidar da realidade paralela ou aceitar qualquer crítica vinda de fora era tido como sinônimo de conivência com o que destrói a liberdade de expressão, a Pátria, a família e a religião.

 

A impermeabilidade dos seguidores do bolsonarismo leva a crer que não são poucos os que estão no limiar do fanatismo. E, aqui, o problema mais sério está no fato de que não é possível convencer um fanático de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências, mas tão somente nos elementos do seu mundo e nas expressões com as quais se identifica. Basta olhar, por exemplo, o que está ocorrendo em várias igrejas do país.

 

Na tentativa de forçar a votar no Bolsonaro os 4 em cada 10 evangélicos que se recusam a fazê-lo e os cristãos das igrejas mais tradicionais que criticam o bolsonarismo, os líderes religiosos destas instituições não se limitam a ameaçá-los individualmente com os castigos divinos, mas chegam a puni-los com a exposição a situações constrangedoras no interior das celebrações e com a expulsão dos seus templos. Ou seja, em nome da fé, da família, da liberdade de culto e dos valores cristãos, os próprios padres e pastores se encarregam de realizar hoje as perseguições contra os fiéis que atribuem a uma eventual vitória do Lula no segundo turno das eleições.3 E isso com a convicção de estar contribuindo com a missão de deter o comunismo e o império do mal da qual o atual Presidente teria sido encarregado por Deus. Se isso não é fanatismo...então é loucura...

 

A única chance de esvaziar a bolha do mundo paralelo no qual muitos vivem e pensam o cotidiano se apresenta quando a realidade atinge diretamente as suas próprias vidas, submetendo suas crenças a uma verdadeira prova de fogo. Ainda assim, temos a impressão de que a resistência a voltar ao mundo real, que costuma ser cruel com qualquer devaneio, tende a se manter até que o mundo paralelo no qual acreditam desaba sob o peso da sua própria inconsistência. Contudo, este momento traumático, por si só, não garante que tomem consciência dos enganos nos quais incorreram e que optem por uma nova escala de valores.

 

Ou seja, estamos diante de uma situação que, ao envolver indivíduos das diferentes classes sociais, credos religiosos, gêneros e etnias, promete dar muitas dores de cabeça, mesmo que Bolsonaro não seja reeleito. Por isso, para vencer a ultradireita não basta condená-la como fascista (algo que as pessoas comuns não fazem a menor ideia do que seja), mostrar suas mazelas e nem apenas virar os votos que hoje buscam reeleger o Bolsonaro. É preciso entender os estragos que o mundo paralelo produziu na leitura que as pessoas fazem da realidade e como estes mesmos estragos seguirão alimentando a oposição ao governo Lula, caso vença e consiga assumir a Presidência da República.

 

O bolsonarismo, que é muito maior do que o Bolsonaro, entrou nos poros da sociedade, permeia a forma pela qual muitas pessoas interpretam o mundo e continuará se espalhando, independentemente dos resultados do segundo turno. As eleições de 2 de outubro mostraram apenas que, para muita gente, o pensamento da ultradireita significa muito mais do que nós gostaríamos.

 

Para combatê-lo, é necessário que os setores progressistas entendam as razões da raiva, da frustração, do medo e os anseios das pessoas que criaram as condições para que o bolsonarismo se enraizasse no senso comum e se mantivesse vivo, apesar da destruição com a qual Bolsonaro construiu um país para poucos. Entender como e por que nascem estes sentimentos, mapear os aspectos das relações econômicas, políticas e sociais que estão envolvidos em sua produção e a mescla de angústias e esperanças que abriram alas para a extrema direita fazer o seu jogo é um passo tão urgente quanto imprescindível.

 

Mergulhar no meio popular para ouvir e entender “o sentir do povo” diante da realidade vai demandar tempo, desprendimento, energias e paciência, mas é o único caminho que pode nos fornecer os elementos sem os quais não conseguiremos encontrar um antídoto para o veneno de gosto doce e efeitos amargos que a ultradireita distribui gratuita e generosamente no país inteiro.

 

            Emilio Gennari, 18 de outubro de 2022.

 

 

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(1) Para escrever este texto, além das reflexões e anotações recolhidas ao longo dos últimos 6 meses, lançamos mão da leitura do livro de Giuliano da Empoli, Engenheiros do caos, Ed Vestígio, São Paulo, 2019 e de:

- https://elpais.com/ideas/2022-09-25/evangelicos-el-codiciado-voto-que-puede-decantar-las-elecciones-en-brasil.html

- https://elpais.com/internacional/2022-09-25/leandro-vieira-a-un-proyecto-equivocado-de-brasil-le-interesa-transformar-la-cultura-en-algo-banal.html

- https://elpais.com/internacional/2022-09-24/lula-y-la-izquierda-brasilena-suenan-con-una-victoria-en-primera-vuelta.html

- https://elpais.com/internacional/2022-09-26/ultimos-rezos-por-la-victoria-de-bolsonaro-oh-senor-deten-la-avalancha-del-mal.html

- https://elpais.com/internacional/2022-10-03/las-elecciones-en-brasil-en-seis-claves.html

- https://elpais.com/internacional/2022-10-03/el-bolsonarismo-exhibe-su-fortaleza-y-el-congreso-de-brasil-seguira-con-mayoria-conservadora.html

- https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63111639

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-63126278

- https://elpais.com/internacional/2022-10-03/vencer-al-bolsonarismo-va-a-ser-mucho-mas-dificil-de-lo-que-imaginabamos.html

- https://elpais.com/internacional/2022-10-04/las-urnas-dan-a-bolsonaro-un-enorme-poder-en-el-congreso-y-los-estados-pese-a-la-victoria-de-lula.html

- https://elpais.com/opinion/2022-10-04/brasil-no-resuelve.html

- https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63142103

- https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniao-e-sociedade/2022/08/33-tiveram-comida-insuficiente-em-casa.shtml

- https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62668831

- https://elpais.com/internacional/2022-10-09/el-rincon-de-brasil-donde-mas-triunfa-bolsonaro.html

Acessos realizados entre 01 de julho e 06 de outubro de 2022.

 

(2) Estamos nos referindo ao texto "O que o povo vê em Bolsonaro", disponível em: https://drive.google.com/file/d/1KzIfaGIrVvI1LzRbJqH0_WYn_NJ2uGGB/view?usp=drivesdk

 

(3) A reportagem completa sobre este tema encontra-se em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63285936 Acesso em 18/10/2022.