Parece que agora o ano de 2017 começou verdadeiramente
por estas terras. Acabou o
carnaval. Então nada melhor do que uma boa e velha bússola
pra gente encontrar o
NORTE. Publicamos aqui mais uma análise de conjuntura de
Emílio Gennari, que segue
com eu olho de lince acompanhado os movimentos da conjuntura
e seus atores, nos
mostrando como estarão os mares por onde navegaremos. Ele tem uma boa e uma má
notícia. Contamos primeiro a má:
Tempos sombrios esperam nossa boa e velha classe
trabalhadora: a boa: “O Trump pode se “trumbicar”.
1. Sobre a política de aumentar
os impostos para os produtos
importados pelos EUA:
“Além de poder
aumentar os impostos sobre os importados dos EUA, para
muitos produtos, é
razoavelmente fácil encontrar fornecedores alternativos.
Não por acaso, no final de janeiro, ao responder a uma
declaração de Trump, os
jornais chineses anunciaram que o país poderia deixar
de comprar soja
estadunidense e trocar as encomendas de aviões da Boeing pelos
da Airbus. A
imediata mudança de postura em relação a Pequim se deve a dois
fatores: 1.
Estudos apontam que 179 mil vagas da cadeia produtiva da Boeing
dependem
das encomendas de aviões efetuadas pela China; 2. A compra de
soja de outros
países cortaria 10% dos postos no agronegócio estadunidense, sem
contar o
desgaste político oriundo das reclamações dos fazendeiros...” (Emílio Gennari)
2. Perspectivas para o futuro: teria
como base os gastos elevados do Estado.
De acordo com estimativas do
Birô “O futuro é sombrio e as incertezas que se avolumam em seu horizonte não
deixam margem a ilusões. A situação em que a classe trabalhadora se encontra
não oferece chances reais de virar o jogo em curto prazo. Apesar disso, as
primeiras respostas de resistência e rebeldia às quais assistimos nos EUA
mostram que o silêncio dos de baixo não será parceiro de quem aposta no medo e
na omissão para fazer vingar os projetos de cima. ” ( Emílio Gennari).
3. Perspectivas para o futuro:
“O futuro é sombrio e as incertezas que se avolumam em seu horizonte não
deixam margem a ilusões. A situação em que a classe trabalhadora se encontra
não oferece chances reais de virar o jogo em curto prazo. Apesar disso, as
primeiras respostas de resistência e rebeldia às quais assistimos nos EUA
mostram que o silêncio dos de baixo não será parceiro de quem aposta no medo e
na omissão para fazer vingar os projetos de cima. ” ( Emílio Gennari).
Boa Leitur
![]() |
Emilio Gennari – Educador Popular
E-mail: epcursos@gmail.com
|
A Economia Mundial na Confusão da Política Estadunidense
Passados 40 dias da posse de Donald Trump como presidente dos Estados
Unidos, as incertezas que pairam sobre a economia mundial estão longe de se
dissipar. Declarações contraditórias no campo das relações internacionais,
conflitos com o poder judiciário, manifestações de descontentamento em várias
frentes, posturas autoritárias e promessas no lugar de planos de governo semeiam
dúvidas num cenário que anseia por respostas. O desejo de “Fazer a América
grande” passa, necessariamente, pelo acerto de contas entre a realidade da
economia e a ação política que busca alterar os seus rumos. Mas é justamente
aqui que começam os problemas.
A primeira
impressão é a de que o país deixado por Obama não é o mesmo que Trump diz ter
herdado. Em breves palavras, no apagar das luzes de 2016, os EUA apresentam:
ü Sete
anos de crescimento econômico com a criação de 11 milhões e 300 mil postos de
trabalho, marca que fez o desemprego recuar a 4,7% da população economicamente
ativa;
ü Ainda
que a grande maioria das novas vagas seja de trabalhos com baixa ou nenhuma
qualificação, em 2016, o salário médio fechou com um aumento real de 2,9%;
ü Uma
indústria que anda bem das pernas em termos de competitividade e inovação sem
perder a chance de elevar os lucros corporativos ao instalar unidades em
paraísos fiscais, ambientais e de baixo custo da força de trabalho;
ü Um
déficit fiscal que, graças ao crescimento da arrecadação, caiu de 9,8% no
primeiro ano do seu mandato para 3,2%, em dezembro de 2016;
ü O mais
baixo contingente de pessoas sem seguro saúde da história;
ü Uma
redução média de 13% no número de assassinatos e de 6% no de todos os outros crimes,
ainda que, em algumas cidades, os índices de violência tenham aumentado.
Pelos números acima, não há elementos que confirmem a visão
de um país em situação catastrófica, conforme apontado por Trump. De um lado,
isso explica porque Obama encerra o mandato com uma aprovação de 62%, mas, de outro,
torna necessário entender que expectativas alimentam os setores que apostaram
em Trump.
De
acordo com as pesquisas, a maioria dos votos no novo presidente veio de:
ü
Brancos,
sem estudos, maiores de 30 anos, evangélicos, conservadores da classe alta,
moradores das cidades mais atingidas pela desindustrialização e das áreas
rurais;
ü
67% dos seus eleitores acreditam que o
desemprego aumentou com Obama;
ü
53% afirmam que os crimes cresceram em número
e gravidade;
ü
Somente 17% dos que se identificam como “republicanos”
sabem que o contingente de pessoas sem seguro saúde é o mais baixo da história.
Entre os setores
econômicos que apoiam o novo presidente, destacamos:
ü
Fazendeiros que apostaram na redução dos impostos
e na ampliação dos empréstimos para conseguir financiamentos mais baratos;
ü
Pequenas e médias empresas que viram seus
negócios encolherem devido à migração das grandes indústrias além de organizações
de lojistas, restaurantes e franquias para as quais as promessas de empregos
com altos salários são sinônimo de aumento do faturamento. Este conjunto de
forças proporcionou a capilaridade da penetração nos distritos eleitorais que o
discurso de Trump precisava;
ü O complexo industrial-militar que adorou
as perspectivas de aumento dos gastos bélicos, as declarações que apontavam
para uma nova corrida nuclear e a postura de enfrentamento com Rússia, China, Coréia
do Norte e Irã;
ü Os setores do petróleo, gás e carvão
que passaram por maus momentos em função dos preços baixos e das restrições
ambientais que haviam limitado suas atividades;
ü As instituições financeiras que
desejam a desregulamentação do setor para ampliar as operações de crédito e a
especulação;
ü As construtoras que arregalaram os
olhos diante da proposta de investir U$ 1 trilhão em infraestrutura durante os
próximos quatro anos;
ü O setor farmacêutico ao qual Trump prometeu
não controlar os preços, oferecer incentivos fiscais e acelerar a liberação de
novos medicamentos.
Bastam estas breves linhas para percebermos a
carga de expectativa que cerca a Casa Branca. No momento em que escrevemos, porém,
há mais discursos e declarações intempestivas do que definições concretas em relação
à política econômica e às diretrizes internacionais a serem adotadas. Por isso,
o primeiro passo é separar o que Trump diz ter intenção de fazer do que ele realmente
tem feito. O segundo trata de analisar o que os discursos anunciam e com que
limites econômicos vão se deparar caso cumpram o que prometem.
Entre os primeiros atos do governo Trump,
consta a assinatura de um decreto que retira os Estados Unidos da mesa de
negociações do Tratado Trans Pacífico. Viabilizado na administração Obama com a
intenção de conter a expansão econômica da China, era considerado o pilar da
política estadunidense para a região. À medida que o acordo reduziria os ganhos
de Pequim no comércio exterior, a China contaria com menos recursos para
sustentar o seu crescimento econômico e o aparato militar de que dispõe.
O acordo seria assinado entre 12
países[1] cujas economias representam cerca de 40% do Produto Interno Bruto
mundial e, no primeiro ano de funcionamento, permitiria elevar o PIB
estadunidense em meio ponto percentual. A saída de Washington das negociações
do Tratado colocou em jogo a seriedade das promessas estadunidenses para a
região e provocou comemorações na China que busca ocupar o vazio de liderança
deixado pelos EUA. O mesmo espaço está sendo disputado também pela União
Europeia que, ao temer uma retaliação estadunidense às suas exportações, trata
de ampliar mercados para desovar a produção.
No mesmo período, foram assinados outros
decretos que ordenam a construção de um muro ao longo da fronteira com o México,
suspendem por 120 dias o acesso de refugiados e imigrantes vindos de países com
maioria muçulmana[2] e
permitem que qualquer imigrante, entrado ilegalmente no país nos últimos dois
anos, possa ser detido e deportado por motivos banais. Some a isso o fato de os
decretos mais recentes preverem que as polícias locais se envolvam no cumprimento
da legislação migratória, que agentes de fronteira e até ajudantes de xerifes possam
deter indiscriminadamente quem eles consideram um risco para a segurança e
perceberá que as normas de Trump abrem caminhos a todo tipo de abuso e violação
dos direitos humanos.
Os decretos sobre a imigração têm
fortalecido a oposição dentro e fora do país. Após 8 dias de mandato, as
pesquisas de opinião apontavam que a desaprovação a um ato do governo atingia
52% da população. Um verdadeiro recorde quando pensamos que Bush filho demorou
1205 dias, Obama 936 e Clinton 573. Contudo, o repúdio popular, que vê reunidas
forças progressistas outrora distantes, ainda passa longe de causar danos aos
planos do novo presidente que faz do medo e do anseio de grandeza estadunidense
as peças-chave da sua intervenção.
Os problemas maiores que estão sobre a
mesa de Trump vêm da base econômica, cujo peso foi determinante no rol de
pressões que levaram o judiciário a suspender os decretos referentes aos
refugiados e aos imigrantes dos estados com maioria muçulmana e que prepara
novas investidas. Por isso, o melhor a fazer é montarmos o quebra-cabeça da relação
imigrantes-lucratividade dos negócios cujas perdas são um motivo que convence
bem mais os capitalistas atingidos do que o respeito dos direitos humanos e das
normas constitucionais. Vamos por partes:
ü A ideia de
bloquear a imigração ilegal na fronteira com o México
não é uma novidade. Algum tipo de barreira (muro na fronteira entre Tijuana e San Diego,
seções de muro no Arizona, Novo México e Texas, alambrado, iluminação de alta intensidade,
câmaras de vigilância com visão noturna, detectores de movimento, vigilância armada de policiais, helicópteros, etc.) já existe em 1046 dos 3200 km da fronteira que
separa os dois países. Os trabalhos começaram com Clinton, em 1994, e
continuaram nas administrações posteriores. Além disso, o próprio Obama
expulsou 2 milhões e 800 mil clandestinos durante os seus dois mandatos. O projeto de Trump, portanto, não
representa algo novo, ainda que, para ele, impedir o ingresso de imigrantes e
caçar os clandestinos permitiria retirar muita gente do território
estadunidense, assegurar um nível maior de segurança pública, reduzir os
prejuízos do Estado em função dos gastos sociais que sua presença acarreta e
deixar para os estadunidenses as vagas que antes eram dos estrangeiros.[3]
ü No que diz
respeito à suspensão da entrada de refugiados e imigrantes vindos de Irã, Somália, Síria, Iraque, Líbia, Iêmen e Sudão, as preocupações
com o terrorismo caminham lado a lado com uma suspeita geral contra muçulmanos
e originários desses países que nunca foram responsáveis por atos terroristas
nos EUA. A Arábia Saudita, pátria dos autores dos atentados de 11 de setembro
está fora da lista pelo que representa em termos geopolíticos o fato de estar
umbilicalmente ligada a Washington e não pelo que alguns de seus cidadãos,
integrantes de grupos terroristas, já fizeram em território estadunidense.
Desde a queda das Torres Gêmeas, os autores de atos com mortes violentas foram
indivíduos nascidos nos Estados Unidos, ainda que, em suas ações, invocassem
relações com o estado Islâmico.
ü Mas é na economia
onde encontramos os maiores problemas. Vejamos.
·
As pesquisas da Universidade da Califórnia estimam que 70%
dos trabalhadores agrícolas do estado são imigrantes ilegais cujos salários
médios estão em U$11 por hora, menos da metade da média estadunidense.
·
Nos anos 70, as empregadas domésticas eram quase todas afrodescendentes
nascidas nos EUA. Hoje, metade delas é de imigrantes, sendo que, desse total,
23% ganham menos de um salário mínimo (U$ 7,25 a hora), apesar de viverem legalmente
no país.
·
Mas os imigrantes não ocupam apenas os postos que os estadunidenses
rejeitam. No Vale do Silício, sede das grandes empresas de tecnologia, 37,4%
dos residentes são imigrantes, sendo que, entre os empregados de 25 a 40 anos a
porcentagem deles sobe a 49,8%. Nesta mesma faixa etária, nas áreas de
computação e matemática, 3 em cada 4 trabalhadores é oriunda de outros países.
Ou seja, a produção e a pesquisa contam com pessoas talentosas que são uma
componente estrutural, e não apenas casual ou sazonal, da força de trabalho que
alimenta a economia dos EUA.
Os exemplos acima levantam
perguntas incômodas. Quantos estadunidenses “legítimos” se disporiam a ocupar
estas vagas pelos salários que hoje são pagos aos imigrantes? Quantos
fazendeiros, empresas de pequeno porte e famílias aceitariam de bom grado
níveis salariais que minam seus lucros ou consomem um volume maior de suas
rendas? Ainda mais sabendo que sua base de sustentação econômica está alicerçada
num trabalhador cuja precariedade é a peça-chave da aceitação dos baixos
salários atualmente pagos? Não é por acaso que uma centena de grandes empresas
(como Microsoft, Apple, Google, Facebook e Amazon) se juntaram para repudiar o
decreto de Trump contra refugiados e imigrantes de sete países muçulmanos,
alegando que “infligia um dano significativo aos negócios, à inovação e ao
crescimento dos Estados Unidos”.
Durante
a campanha eleitoral, os discursos de Trump apresentavam 4 pontos essenciais
para dobrar o índice de crescimento médio da economia estadunidense:
1. Taxar os produtos
importados a fim de desestimular a compra e forçar uma renegociação dos acordos
comerciais com base nos interesses estadunidenses;
2. Atrair os investimentos
disponíveis com políticas de isenções fiscais e subsídios para evitar a
transferência de empresas para o exterior;
3. Desonerar a produção
local a fim de elevar a competitividade e expandir as exportações;
4. Elevar os salários
e criar mais empregos.
Apesar
de ainda não termos nada concreto, vale a pena esboçar algumas consequências
que seriam produzidas a partir da implantação de medidas que rumam nesta
direção.
Diante
do déficit da balança comercial com China, México, União Europeia, Japão e
outros países, Trump acha oportuno reduzir os impostos que pesam sobre a
produção local e taxar os importados para melhorar a competitividade das
mercadorias estadunidenses e reduzir as compras do exterior. Na campanha
eleitoral, chegou a falar de um imposto entre 35% e 40% sobre os carros
produzidos fora do país, sem dar maiores detalhes. Neste momento, vozes de
bastidores afirmam que estaria se orientando para um imposto geral em torno de
20% sobre as importações. Além de reduzir o déficit comercial, as medidas
atrairiam investimentos para os Estados Unidos, penalizando países que, graças
aos acordos assinados ou a uma concorrência desleal, teriam subtraído à
economia cerca de 3,5 milhões de empregos nos últimos 15 anos.
Aparentemente,
o raciocínio parece brilhante e sem efeitos colaterais indesejados. O problema
é que isso é “só” aparentemente. Vejamos:
1. Quem paga impostos sobre os importados não é a empresa ou o país
exportador, e sim a população que gasta mais por produtos que eram baratos. Pagar
mais caro, além de desagradável, reduz o consumo pessoal e aumenta a inflação.
Em janeiro deste ano, os índices de preços já sentiram os efeitos da alta dos
combustíveis no mundo inteiro e alguns estudos apontam uma tendência dos
consumidores em reduzir seus gastos. Isso ocorre pela ação de dois fatores. De
um lado, com os preços subindo, os salários compram menos. De outro, as
famílias estadunidenses têm o mesmo patamar de endividamento médio do período
anterior à crise, o que dificulta a manutenção dos níveis de consumo. Sabendo
que os gastos pessoais representam 70% do PIB dos EUA, a possibilidade de uma
desaceleração da economia é algo real e ganha força em função da elevação da
taxa de juros que o Banco Central iria praticar para controlar a inflação.
2. È fato que México,
China, União Europeia e Japão não se limitam a vender para os EUA, mas também
compram deles. O caso mexicano é sem dúvida o mais emblemático, à medida que 73%
de suas exportações se destinam ao vizinho do norte do qual também compra
grande parte do que é utilizado na produção das mercadorias a serem vendidas no
exterior e produtos essenciais para o consumo da população. No caso dos
automóveis, por exemplo, a porcentagem de componentes adquiridos dos EUA e
montados nos carros que, em seguida, serão vendidos neste mercado é de 54%. Desta
compra dependem cerca de 1,9 milhões de empregos das indústrias estadunidenses.
Quanto à China, estima-se que um
imposto de 20% sobre suas exportações encolheria o crescimento anual do PIB do
país a não mais do que 3,5%, a metade do atual. Efeitos semelhantes ocorreriam
também com Japão e União Europeia. Com a economia em marcha ré, não haveria
porque estes países manterem o mesmo nível de importações dos EUA. Ou seja, os
impostos criados para dificultar a entrada de produtos estrangeiros acabariam
prejudicando também as exportações que Washington busca ampliar.
3. Qualquer tratado
comercial entre países prevê cláusulas que definem qual será o procedimento a
ser seguido em caso de desistência de um dos membros ou de barreiras que alterem
as condições acordadas. Ainda que, por exemplo, Trump decida sair do NAFTA[4],
o país continuaria submetido às normas da Organização Mundial do Comércio que
preveem a possibilidade de um membro elevar a taxa média de imposto sobre as
importações em, no máximo, 3%. Desrespeitar este limite abre a possibilidade de
os países atingidos aplicarem retaliações contra as exportações de quem elevou
os tributos alfandegários, situação que desencadearia uma guerra comercial que
colocaria a economia mundial à beira de uma nova crise.
4. Além de poder aumentar
os impostos sobre os importados dos EUA, para muitos produtos, é razoavelmente
fácil encontrar fornecedores alternativos. Não por acaso, no final de janeiro, ao
responder a uma declaração de Trump, os jornais chineses anunciaram que o país
poderia deixar de comprar soja estadunidense e trocar as encomendas de aviões
da Boeing pelos da Airbus. A imediata mudança de postura em relação a Pequim se
deve a dois fatores: 1. Estudos apontam que 179 mil vagas da cadeia produtiva da
Boeing dependem das encomendas de aviões efetuadas pela China; 2. A compra de
soja de outros países cortaria 10% dos postos no agronegócio estadunidense, sem
contar o desgaste político oriundo das reclamações dos fazendeiros...
5. É sempre bom
lembrar que parte significativa dos produtos exportados para os EUA é produzida
por corporações daquele país que instalaram unidades no exterior a fim de
aproveitar uma legislação trabalhista e ambiental permissiva, acesso fácil a
matérias-primas e energia, financiamentos estatais favoráveis, incentivos e
isenções de impostos, estruturas de transporte à altura das necessidades,
facilitações na hora de remeter lucros ao exterior e salários bem inferiores
aos que seriam pagos no país de origem. Esta simples constatação abre algumas
questões que depõem contra as expectativas de Trump:
a. Frear as
exportações para os EUA atingiria os lucros das empresas norte-americanas que
instalaram unidades no exterior e vendem a partir delas para o país de origem.
b. Qual seria o preço de uma
mercadoria se ela voltasse a ser inteiramente produzida nos EUA? O caso das
montadoras estadunidenses que instalaram unidades no México ajuda a visualizar
o alcance desta questão. Em território mexicano, elas montam veículos com uma
força de trabalho cujo salário médio é de U$ 9,75 por hora (bem inferior aos U$
29 por hora pagos nos EUA), sem contar as diferenças em termos de direitos e
condições de trabalho. Qual seria o preço de um carro desses modelos se fosse
produzido inteiramente nos Estados Unidos?
Para
reduzir os custos, seria necessário lançar mão de uma ampla automação dos
processos de trabalho. Os empregos criados na produção de robôs seriam
suficientes para repor as perdas sofridas com os cortes nas linhas de produção?
Até onde o Estado poderia bancar eventuais contrapartidas que os empresários
considerassem necessárias para gerar lucros satisfatórios em unidades mantidas
nos EUA? São perguntas para as quais Trump e sua equipe não apresentam
respostas.
A ideia de atrair os investimentos que
estão fora do país não provocaria apenas efeitos positivos para o crescimento
econômico e a geração de empregos, mas representaria uma ameaça às perspectivas
de médio prazo da economia estadunidense. De fato, ao migrarem para os EUA,
estes capitais, que hoje tem seu valor expresso nas moedas dos países que
hospedam seus investimentos, deveriam ser convertidos em dólares. A elevada demanda
desta moeda valorizaria o dólar no mercado mundial num processo que amplia os
efeitos positivos do crescimento econômico estadunidense que empurram a moeda nesta
mesma direção.
O dólar em alta aumentaria o poder de
compra dos moradores dos Estados Unidos em relação aos importados e, a depender
do patamar atingido frente às demais moedas, poderia até anular os efeitos dos
impostos sobre os produtos comprados de outros países. Por outro lado, as
exportações dos EUA ficariam mais caras, à medida que os compradores seriam
obrigados a gastar quantias maiores de suas moedas locais para adquirir o que
antes era mais acessível.
Mas isso não é tudo. As empresas que
produzem a partir de insumos importados seriam favorecidas por poderem comprar
quantidades maiores pela mesma quantia de dinheiro, mas aquelas que exportam a
partir da produção local perderiam terreno. Difícil estimar de quanto seriam as
perdas totais, mas é certo que haveria um impacto negativo sobre as receitas
vindas das exportações que, por exemplo, para as empresas do índice S&P 500
da bolsa de valores, gira em torno de 45% do faturamento. Elevar a eficiência
com mais automação é a saída mais provável para baratear as mercadorias
produzidas, mas, como vimos acima, isso também tem efeitos colaterais
indesejados.
Moeda valorizada e taxa de juros em
alta para conter a inflação elevariam também a dívida interna dos EUA e os
gastos do governo com os serviços da própria dívida, encolhendo as verbas para investir
em infraestrutura, produção de armamentos e outros bens dos quais o Estado é o
principal comprador. A falta de dinheiro e o aumento da dívida complicariam
ainda mais as contas públicas se, de acordo com os discursos de Trump, a
redução dos impostos for uma das peças-chave para estimular gastos e investimentos.
Sabemos que o equilíbrio entre receitas e despesas nunca foi uma preocupação
dos presidentes republicanos e pode ser parcialmente compensado com cortes em
outras áreas do governo. Mas o patamar em que se encontra a dívida estadunidense
não oferece margens capazes de realizar as promessas de campanha.
Último, mas não menos importante, a
taxa de juros abaixo de 1% desde a crise de 2008 fez com que muito dinheiro
saísse dos EUA rumo aos mercados emergentes onde os rendimentos eram maiores.
Parte dele foi para empresas que preferiram o endividamento externo por ser
mais barato em relação ao local e cujo montante hoje é estimado em U$ 4,5 tri.
Dólar valorizado, juros em alta e superávit comercial em queda podem elevar a
possibilidade de um calote por parte de nações ou empresas devedoras e colocar os
bancos credores em maus lençóis.
Apesar de, até o momento, termos
discursos de sobra e poucas medidas que permitem esboçar os cenários futuros,
as reflexões que traçamos são suficientes para percebermos que nenhum governo
consegue negar a realidade do mercado e reverter seu funcionamento sem
consequências que podem ser duras e de efeito prolongado. Intenções e vontade
política precisam acertar contas com a realidade e seus desdobramentos, razão
pela qual o que parece inicialmente favorável, em médio prazo, pode se
transformar em entrave.
Os eleitores de Trump podem ver suas
esperanças frustradas por mais estas razões:
ü Elevar o número de
indústrias não é sinônimo de trazer de volta os patamares salariais do passado.
De um lado, a automação reduz fortemente as vagas disponíveis e, mais ainda, as
que pagam “bons” salários. De outro, não podemos excluir a possibilidade de os
Estados Unidos repetirem o que conheceram nos anos 80, sob Ronald Reagan, quando
Toyota, Honda e Nissan instalaram unidades destinadas a produzirem carros de
luxo em regiões com baixa ou nenhuma atividade sindical. Esta opção permitiu
elevar a produtividade e oferecer salários de 20 a 25% inferiores aos que eram
pagos por Ford, Chrysler e General Motors. Além de verem sua fatia de mercado encolher
de 84% para 69% em menos de uma década, a automação e a redução dos efetivos
fez com que o número de sindicalizados em Detroit caísse de 1,6 milhão para
pouco menos de um milhão, fragilizando ainda mais a luta por melhores salários
e condições de trabalho.
ü Diante do desmonte
do seguro saúde criado por Obama, a Comissão de
Orçamento do Congresso estadunidense estima que 18 milhões de pessoas ficarão
sem cobertura em 2017, número que atingirá os 30 milhões em 2020.
ü Na educação, o futuro não é promissor. A multimilionária conservadora
Betsy DeVos, que está à frente desta secretaria é considerada pelos democratas
do Congresso como “inimiga da escola pública” por ser uma franca defensora da
ideia pela qual o governo deve entregar a educação das crianças ao ensino privado.
ü No campo dos direitos humanos se preparam dias difíceis. De um lado, o tratamento que
será dispensado aos imigrantes promete abusos de todos os tipos, incentivados
pelas imagens que pintam estas pessoas como más, pobres, violentas, perigosas e
como uma ameaça aos valores americanos. Trata-se de um discurso que semeia medo
e preconceitos entre a população ao mesmo tempo em que oculta de onde vem a
riqueza do país e as causas estruturais da migração. De outro, Trump já deu
várias declarações que apoiam e deixam a critério da CIA e do Departamento de
Defesa o uso da simulação de afogamento e das Técnicas Avançadas de
Interrogatório, denunciadas como tortura por parlamentares e grupos de direitos
humanos, e proibidas por Obama.
ü Varrer a criminalidade é o objetivo de todo governante. Mas quem são e
onde se escondem os verdadeiros articuladores do crime? Prender um traficante
que vende cocaína nos bairros é relativamente fácil. Mas como resolver os
problemas que levam mais gente a ingressarem nas fileiras do crime? Quem se
dispõe a acabar com os senhores do tráfico de armas e drogas, cujos negócios
anuais são estimados em U$ 650 bilhões, boa parte dos quais são lavados nas
bolsas de valores estadunidenses e sustentam os negócios que aí se realizam?
Como deixamos entrever acima, as
escolhas de Trump não limitam seus efeitos ao território nacional, mas aumentam
o grau de incerteza que permeia a economia mundial.
De acordo com os dados da ONU, 2016 se
encerrou com investimentos estrangeiros diretos pelo mundo da ordem de U$ 1,52
tri, 13% a menos em relação a 2015.
Seguindo os critérios utilizados pelo
Banco Mundial, em 2014, o ritmo de crescimento do comércio internacional havia
aumentado 2,4% em relação ao ano anterior. Na comparação entre 2015 e 2014, o ritmo
da elevação caiu para 2%, número que encolheu para 1,09% na relação entre 2016
e 2015. Quanto maior o protecionismo, mais esta porcentagem tende a encolher,
freando o caminhar da economia mundial.
Paralelamente a isso, o encarecimento
dos combustíveis vem elevando os índices de inflação de 2017 nos EUA, União
Europeia e China, o que corrói o poder de compra dos salários e a possibilidade
de o consumo pessoal continuar estimulando a atividade econômica.
Para
desenhar com mais precisão as tendências de desenvolvimento da economia mundial
precisamos aguardar as medidas que Trump promete anunciar nas próximas semanas.
Só assim conseguiremos ponderar melhor as ondas de choque que criarão na
economia mundial e, sobretudo, seu potencial para empurrar o mundo rumo a uma
nova crise.
Em termos
de classe trabalhadora, o caminho das perdas como forma de elevar a
competitividade da produção está aberto faz tempo. As investidas de Trump e a
insegurança por elas alimentada apenas jogam gasolina no fogo da exploração.
Os
empresários alemães, por exemplo, apesar de contarem com elevados índices de
competitividade dentro e fora da Europa, solicitaram ao governo ações que
melhoram a infraestrutura do país, incentivos para aumentar a automação e a
integração das cadeias produtivas e um plano para reduzir os impostos sobre a
produção a fim de compensar as eventuais vantagens que as empresas
estadunidenses obteriam graças à redução dos impostos e à elevação das taxas
alfandegárias prometidas por Trump.
Por
outro lado, sugerem que sejam eliminados os incentivos para os pais ficarem em
casa para cuidar dos filhos e que o Estado proporcione às crianças um melhor
atendimento público para liberar a participação feminina no mercado de trabalho
através de contratos por tempo parcial. Longe de ser um estímulo à emancipação,
a preocupação dos patrões é a de criar uma realidade que aumente a força de
trabalho disponível a fim de fortalecer a precarização e reduzir os salários. Mais
uma vez, os trabalhadores arcariam com o peso da disputa capitalista cujos
efeitos tendem a ser ainda maiores nos países cujo parque industrial e déficits
públicos estiverem num grau bem mais problemático em relação à economia alemã.
O
futuro é sombrio e as incertezas que se avolumam em seu horizonte não deixam
margem a ilusões. A situação em que a classe trabalhadora se encontra não
oferece chances reais de virar o jogo em curto prazo. Apesar disso, as
primeiras respostas de resistência e rebeldia às quais assistimos nos EUA mostram
que o silêncio dos de baixo não será parceiro de quem aposta no medo e na
omissão para fazer vingar os projetos de cima.
Brasil. 03
de março de 2017.
[1] EUA, Chile, México, Peru, Canadá, Nova Zelândia, Malásia, Japão,
Vietnã, Austrália, Cingapura e Brunei.
[2] Irã, Somália, Síria,
Iraque, Líbia, Iêmen e Sudão.
[3] É importante ressaltar que pesquisas recentes apontam a falácia da ideia
pela qual a expulsão dos imigrantes teria como base os gastos elevados do Estado.
De acordo com estimativas do Birô Nacional de Pesquisas Econômicas, anualmente,
os cerca de 11 milhões de trabalhadores clandestinos produzem U$ 500 bilhões ao
passo que a soma dos custos federais, estaduais e municipais com eles
não passa de U$ 113 bilhões. Uma troca mais que vantajosa para a economia dos
EUA.
[4] NAFTA: Tratado Norte-Americano de Livre
Comércio (North American Free Trade Agreement, pela sigla em inglês), assinado entre
EUA, Canadá e México, começou a vigorar em 1º de janeiro de 1994.
Nenhum comentário:
Postar um comentário