sexta-feira, 13 de julho de 2018

Mostrar para esconder - o papel da mídia na construção do conformismo.





Você acredita que a mídia "faz a cabeça" do povo?  Você pensa que ela manipula as pessoas do jeito que é mais conveniente para ela e para quem está no poder? Será que a mídia é uma espécie de poder contra o qual não há nada que se possa fazer? Sendo assim teríamos apenas que torcer para que alguma força exercesse o controle sobre ela? Ou ainda só nos restariam as denúncias nas redes sociais e os protestos nas ruas contra suas manipulações?

Nestes tempos nos quais a mídia é acusada de manipuladora e golpista e ao mesmo tempo de educadora e defensora das liberdades de expressão e pensamento vale apena conhecer e estudar este excelente estudo de Emílio Gennari publicado pela primeira vez em 2012: Mostrar para esconder - o papel da mídia na construção do conformismoEste estudo lança luz sobre a relação da mídia com o homem do povo, com as grandes massas e com os formadores de opinião e aponta os caminhos da construção do conformismo realizado pela mídia e ao mesmo tempo indica as possibilidades da rebeldia e da resistência dos que anseiam por um mundo sem fronteiras, sem guerras, sem trapaças...



Recomendamos calma e paciência e olhos bem abertos


Boa leitura









Emilio  Gennari













 

 

 

 

Mostrar para esconder - o papel da mídia na construção do conformismo.






Ao reproduzir, cite a fonte.














“A arma mais poderosa nas mãos do


opressor é a mente do oprimido”.


Steve Biko.


          Índice:




Apresentação                                                                                                                                    04




Introdução                                                                                                                                        05




1. Mídia: imparcialidade e anestesia do pensamento                                                                       06




2. Do espetáculo à invisibilidade                                                                                                     14




3. O pensamento único e a lógica das emoções                                                                               21




4. A aparência que transforma o ter em ser                                                                                      29




5. A mágica das palavras                                                                                                                  38




6. A preciosa capacidade de recomeçar                                                                                            45




Bibliografia                                                                                                              55



        
















Apresentação.


Por que o povo não reage? Por que não enxerga o que passa diariamente sob seus olhos? Por que a exploração não aumenta sua indignação e tudo parece tão rotineiro a ponto de ser considerado normal? Por que, numa época em que é facilitado o acesso à informação, as pessoas revelam-se incapazes de entender o que está ocorrendo? Que elementos conseguem levar os marginalizados a condenarem os que lutam em seu meio? Perguntas como estas nascem espontaneamente diante da crescente falta de envolvimento dos que, por sua situação, deveriam ser os primeiros a se engajarem nos movimentos que buscam derrotar a exploração.
Seria ótimo se o estudo que segue pudesse apresentar um diagnóstico completo e os antídotos às investidas da elite que cimentam o conformismo e o consenso em volta de suas idéias e valores, mas nossas reflexões são mais modestas. Elas se focam nos aspectos que anestesiam a indignação e desativam a capacidade de pensar, esta atividade subversiva que pode transformar pacatos cidadãos em pessoas que questionam a ordem e se recusam a servi-la.
Não são poucos os autores que se debruçaram sobre isso e ofereceram pistas de reflexão, respostas inquietantes e, obviamente, novas perguntas. A título de exemplo, queremos lembrar aqui de um artigo de George Orwell, publicado no jornal A Tribuna, em janeiro de 1946.
Numa época em que o capitalismo europeu ensaiava os primeiros passos para se reerguer das ruínas da segunda guerra mundial em luta aberta contra a influência do socialismo na Europa Ocidental, Orwell percebe que o rádio tem um novo papel na sociedade. Agora, escreve ele, em muitíssimos lares ingleses, o rádio está literalmente sempre ligado, ainda que seja manipulado de vez em quando para se ter certeza de que só vai transmitir música ligeira. Conheço pessoas que deixam o rádio a tocar durante as refeições e continuam ao mesmo tempo a conversar suficientemente alto para que as vozes e a música se anulem reciprocamente.
Isto obedece a um objetivo bem definido. A música impede que a conversa se torne séria ou sequer coerente, enquanto o barulho das vozes afasta qualquer possibilidade de ouvir atentamente a música e, assim, não dá ensejo a que surja aquela coisa aterradora, o pensamento. Ao subjugar as pessoas na audição das mesmas futilidades, o rádio proporciona as condições para moldá-las com facilidade, o que faz o escritor concluir que muito daquilo a que hoje chamam de prazer é simplesmente um esforço para destruir a consciência.[1]
Não sabemos o que Orwell diria diante dos atuais programas televisivos, da internet ou dos milhões de pessoas que, ao saírem de casa, colocam um fone de ouvidos a fim de que suas músicas favoritas as acompanhem, em aberta disputa com os ruídos da cidade. Com certeza, reafirmaria o quanto isso impede a conversa, o diálogo, o contato com os demais, a capacidade de ouvir a cidade e de prestar atenção à vida que encerra, com suas contradições e mudanças em andamento. Talvez, iria menear a cabeça diante das pesquisas que comprovam quanto esses autômatos humanos ligados a um fone de ouvidos percorrem ruas e avenidas, literalmente, sem ver o que está a seu lado e, portanto, com uma redução drástica de sua capacidade de perceber o ambiente em que se movimentam.
Mas, provavelmente, ele também ficaria intrigado com uma questão: como é possível que as imagens de um acontecimento sejam capazes de esconder a realidade que o produziu? Em outras palavras, quais são os mecanismos que permitem ao indivíduo se considerar uma pessoa informada ao mesmo tempo em que é desativada sua capacidade de reflexão?
Reconhecemos humildemente que não temos o talento de George Orwell para ajudar na empreitada que aqui se inicia. Por isso, não dispensamos a intervenção da coruja Nádia para fazer com que nossas reflexões se tornem acessíveis à classe trabalhadora e, sobretudo, aos homens e mulheres que, em seu meio, se mantêm firmes na luta para fazer com que haja tudo para todos.

         Brasil, agosto de 2012.

Introdução.


         Noite de garoa. Um vento frio faz a umidade penetrar no que encontra pelo caminho. Nas calçadas, os pedestres apressam o passo cansado de quem volta do trabalho. Uma após a outra, as casas recebem moradores cujo corpo anseia por um abrigo seguro. Um bom banho, uma janta quentinha e um pouco de televisão são programa obrigatório para esquecer as amarguras do dia, rir da própria situação e torcer para que o amanhã traga o que o presente teima em negar.
         No aconchego do sofá, um homem corpulento não tira os olhos da televisão. A sequência ininterrupta de imagens, sons e comentários captura sua atenção e lhe proporciona um visível sentimento de satisfação. Da economia ao futebol, tudo é recebido sem reservas, como se as mensagens captadas pelos sentidos fossem suficientes para compreender acontecimentos próximos e distantes, grávidos de consequências ou banais.
A sensação de estar informado cresce com o passar dos minutos e, com ela, a certeza de que, no dia seguinte, será possível fazer valer a própria razão nas conversas com os conhecidos. O simples fato de que “passou na TV”, bastará para comprovar que se trata de algo que “só pode ser assim mesmo”.
         Silenciosa, uma pequena coruja deixa a cozinha e pousa suave na almofada ao lado do homem que, entre a estranheza e a provocação, a recebe com um “Que milagre, Nádia! Você veio assistir TV hoje?!?”, capaz de infundir constrangimento em qualquer mortal.
         Sem se deixar intimidar, a ave pisca os olhos e acompanha atentamente a reportagem em andamento. O silêncio entre os dois seres só é rompido pela fala dos jornalistas e pelos últimos ruídos que antecedem o mergulhar da cidade no sono da noite.
         Na hora dos comerciais, o homem expressa com a cabeça sua aprovação aos comentários enquanto os lábios soltam satisfeitos um “É isso mesmo!” que confirma pomposamente o que havia sido antecipado pelos gestos.
- “Pois eu nunca vi tanta bobagem em pouco tempo!”, afirma decidida Nádia ao fitar o seu ouvinte.
- “Então, fique sabendo que eles estão certos sim. Eu já ouvi a mesma coisa no rádio e em outro canal de TV, o que faz com que só possa ser verdade!”.
- “O que os bilhões de neurônio de sua cabeça humana não o ajudam a entender – responde a coruja ao apontar a asa para a testa do seu interlocutor – é que uma tolice repetida por um milhão de pessoas, estampada em todos os jornais e multiplicada sem fim pelas ondas do rádio e da televisão continua sendo uma tolice. Ainda que muitos se convençam estar diante de algo profundo e valioso pelo fato de que há mais gente reafirmando a importância da tolice, não significa que esta ajude a iluminar a realidade e menos ainda, a desvendar a teia de relações que cada acontecimento encerra”.
- “Mas, Nádia, você mesma viu as imagens que meus olhos viram. Como pode negar algo tão evidente?”, insinua o homem com vitorioso ar de superioridade.
- “O problema, querido secretário, é que para você basta ver para crer e, sobretudo, para parar de pensar. O que passa na tela da TV reflete apenas momentos da realidade cuidadosamente escolhidos entre muitos outros. Por isso, o que é mostrado pode ser justamente o que esconde a compreensão do real e impede que enxergue além das aparências.
As imagens que se impõem como verdade indiscutível aos seus olhos podem não passar de jogos de luzes que cegam sua reflexão na exata medida em que você tem a sensação de acompanhar e entender o que está ocorrendo”.
- “Confesso que agora fiquei confuso...”, admite o humano ao coçar a cabeça.
- “Não é fácil, mas posso explicar”, convida a ave ao voar para a mesa e sinalizar com a cabeça para os papéis de rascunho desordenadamente amontoados ao lado do telefone.
- “Só me faltava essa: ser convencido por um bicho de que estou cego justo quando vejo as coisas acontecerem”, resmunga o secretário ao deixar vagarosamente o sofá.
         A coruja sorri, limpa a garganta e, sem titubear, ordena:
- “Escreva! Capítulo primeiro...”


         1. Mídia: imparcialidade e anestesia do pensamento


“Se você é neutro em situações de injustiça,
você escolheu o lado do opressor”.
Desmond Tutu.


         Com o queixo apoiado na ponta da asa esquerda, Nádia permanece pensativa. Os leves movimentos das plumas que cobrem o seu rosto revelam o esforço de ordenar os elementos que permitirão compreender como a mídia consegue o que, aparentemente, não passa de um paradoxo: mostrar para esconder. Finalmente... Um rápido piscar de olhos... Um longo suspiro... E, com uma expressão de satisfação que ilumina o rosto, diz:
- “Boa parte das pessoas que criticam os meios de comunicação está convencida de que, por trás de cada matéria, reportagem, programa de rádio ou televisão há especialistas que passam horas a fio tramando como enganar o povo com planos maquiavélicos que permitirão à elite fazer a cabeça Das pessoas. Na verdade, ainda que a mídia não dispense o trabalho de profissionais gabaritados nas mais diversas áreas do conhecimento, os mecanismos que proporcionam sua penetração em corações e mentes continuam sendo razoavelmente simples.
         A peça-chave desta façanha é conseguir ganhar a confiança do público ao qual se destinam as mensagens de um determinado meio de comunicação. O ser humano, de fato, só aprende daqueles aos quais dá o direito de lhe ensinar e, justamente por isso, a confiança no interlocutor é o primeiro passo para abrir o diálogo com ouvintes, leitores e telespectadores. Mas a confiabilidade da mídia não se baseia apenas em jornalistas, apresentadores ou atores competentes e convincentes. A capacidade de provocar reações que construam um vínculo de confiança com o público depende fundamentalmente do saber lidar com o senso comum, ou seja, de entrar em sintonia com esse conjunto de explicações acerca da vida, da história e do cotidiano que resulta da percepção imediata da realidade conforme esta surge aos olhos dos diferentes setores sociais.
         É a partir das aparências, e não do pensamento crítico, que as pessoas vão forjando sua maneira de enxergar o dia-a-dia de forma contraditória e, não poucas vezes, bizarra. Por parecerem verdades que nascem e se aplicam espontaneamente à realidade, as idéias que moldam e fazem avançar o senso comum são acessíveis à consciência da maioria que se contenta com seu conteúdo pelo simples fato de que este é facilmente constatado pelos sentidos.
Por este caminho, cada agrupamento humano forja sua maneira de ver e interpretar o mundo, o tempo, o espaço e as relações sociais do seu meio sem perceber o emaranhado de interesses e forças que dá origem aos acontecimentos e move a história pela bússola do lucro. Com base neste mecanismo elementar, a elite consolida e aprimora tanto seu poder real, alicerçado nas relações de propriedade e acumulação, como simbólico, a maneira pela qual deseja que as pessoas leiam o dia-a-dia da sociedade e passem a orientar o seu cotidiano. Assim, seus valores, idéias, comportamentos e formas de interpretar a vida são universalizados em atitudes e pensamentos simples que acabam sendo assimilados e reproduzidos pela própria população.
É o caso, por exemplo, dos provérbios que, ao serem vistos por gerações diferentes como algo que dá sentido à vida, emana respeito e ajuda as pessoas a se conformarem com a felicidade possível, ganharam status de sabedoria popular ao mesmo tempo em que ocultam sua origem nos interesses da elite. Não é verdade que, sobretudo em momentos de crise econômica, ouvimos repetir à exaustão que é melhor pingar do que secar? De que é melhor ter um pássaro na mão do que dois voando? Que o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada? Que Deus ajuda quem cedo madruga, que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco e assim por diante? Quantas vezes não acreditamos se tratar de algo que nasceu no meio do povo exatamente por passar de pai pra filho ou por vir como conselho de colegas, amigos, familiares, chefes, ou simples conhecidos? Nunca paramos pra pensar que a grande maioria deles convida à resignação, a abrir mão de direitos, a se contentar com pouco na vaga esperança de que amanhã será melhor; enfim, a assumir atitudes que negam a luta e proporcionam a paz social, este elemento tão importante para que a exploração possa ser aprofundada sem reações significativas de suas vítimas. É esta falsa sabedoria que encontramos diluída ou disfarçada no conteúdo de entrevistas e reportagens como postura sábia e oportuna diante das dificuldades do momento ou como convite a contornar com o velho, paciente e inesgotável jeitinho o que deveria ser denunciado e rejeitado. Reafirmada pela mídia em várias formas e contextos, raramente conseguimos perceber que a trilha apontada pela quase totalidade dos provérbios é a melhor e mais eficiente de convencer a não enfrentar coletivamente as injustiças e se conformar com a resignação de quem se depara com um destino contra o qual não adianta teimar, mas só esperar que o tempo se encarregue de levar embora.
A elite dialoga com o senso comum com a simplicidade e o candor de um conselho materno, oferecido com a melhor das intenções. Assim ela vai moldando aos poucos a compreensão do mundo que deseja ver consolidada na população sem provocar rejeições significativas e sem levantar suspeitas. Ao reafirmar e fazer avançar na classe trabalhadora suas idéias, valores, comportamentos e critérios de interpretação da vida em sociedade, a minoria que tem tudo constrói um vínculo de confiança na medida em que não contradiz e dá continuidade ao que parece natural e justo aos olhos do povo simples, devidamente adestrado nas diretrizes das gerações anteriores. Quando a realidade exige mudanças, a elite, então, direciona, imperceptível e constantemente, uma determinada forma de ler os fenômenos sociais para que esta seja percebida e assimilada como algo necessário para entender o cotidiano e preparar o futuro.
O segredo, se é que algo tão evidente pode ser chamado com este nome, está em fazer com que, através de seus tradutores na mídia, a linguagem da minoria se sintonize e ecoe entre as pessoas cuja forma de compreender a realidade se vê parcial ou totalmente espelhada nas mensagens recebidas. Para concretizar esta identidade dinâmica não é necessário ultrapassar o nível das aparências que serve de base à elaboração e consolidação do senso comum. Basta incorporar parte das suas idéias e fazê-las avançar lentamente com um comentário discreto, uma legenda que orienta a leitura de uma foto ou uma fala que leve a interpretar as imagens no sentido desejado pelo meio de comunicação.
Desta forma, o homem-massa não se sente menosprezado e criticado na simplicidade de sua visão de mundo, mas é inicialmente valorizado e confirmado no que seus próprios sentidos já constataram. Isso estimula sua confiança, sua admiração e sua entrega acrítica às mensagens recebidas. Como um peixe se projeta em direção à minhoca sem ver o anzol que a sustenta, o senso comum dificilmente distingue o que é comida do que virou isca para que engula o que não quer e seja levado onde, em suas convicções atuais, não desejaria ir.
Ganha este preciosa sensação do público, e sem forçar a interpretação das aparências além  do que sugere a realidade visível, não é difícil comprovar a suposta imparcialidade, objetividade e neutralidade diante dos acontecimentos. As aparências sempre dão razão às aparências, por isso não há nada melhor do que privilegiar a descrição dos fatos com base em aspectos que suscitam o consenso e o apoio da maioria. Para que um meio de comunicação se constitua como portador da verdade, então, basta que ele tenha uma atuação baseada na busca da sintonia com o senso comum e seja suficientemente convincente para que o público ao qual se dirige possa ver em suas mensagens a melhor perspectiva na apresentação dos acontecimentos, um serviço que ajuda as pessoas a se manterem atualizadas, a se divertirem, emocionarem e compadecerem no âmbito do que é conhecido por opinião pública.
Como as relações que moldam o cotidiano não são visíveis, mas demandam uma reflexão crítica demorada, raramente o indivíduo percebe estar diante de um anzol, ou seja, de uma interpretação da realidade que interessa aos grupos no poder. A sintonia com o senso comum do qual é portador, e que foi historicamente formatada pelas próprias elites, fixa em sua memória idéias e imagens capazes de produzir a sensação de estar diante da verdade, de que a mídia não mente, ainda que algum apresentador ou comentarista aumente um tantinho as coisas.
Nesta altura, já podemos vislumbrar que, numa sociedade capitalista como a nossa, o uso das aparências supostamente incontestáveis para comprovar a imparcialidade de um meio de comunicação equivale a assumir disfarçadamente o lado do opressor e não a oferecer elementos para que o indivíduo chegue a uma compreensão crítica dos acontecimentos. O que se apresenta como a verdade oculta o fato de que se trata de uma verdade, a do proprietário da mídia em questão. Como membro da elite formadora de opinião, sua ação destina-se a disfarçar o anzol ocultando os vínculos de classe sob o manto das expressões de senso comum cuja sintonia alimenta a confiança e a receptividade. E, caso seus intermediários com o público (jornalistas, atores, apresentadores, conferencistas, entrevistados, etc.) não dêem conta do recado, basta censurá-los ou abrir espaços de liberdade vigiada para que a expressão limitada das discordâncias seja um meio para provar a seriedade da mídia, sem que suas mensagens centrais sofram desgastes.
Ninguém melhor do que um jornalista como Cláudio Abramo, responsável por mudanças de estilo, formatação e conteúdo dos dois maiores jornais paulistas (O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, da qual foi chefe de redação) para escancarar esta realidade e colocar sob suspeita a própria idéia de liberdade de imprensa, graças à qual seria possível fazer um jornalismo sério e sem amarras. Ele que sempre fez questão de frisar que compreendia e trabalhava de acordo com a natureza do capitalismo, escreve: às vezes me perguntam se sou censurado na Folha. Em minha coluna não sou, mas no resto fui censurado ultimamente, apesar de ter dirigido o jornal durante anos. Tudo bem, é uma empresa particular que não quer que certas coisas sejam ditas; é um direito dela. Ao longo de minha experiência de chefe de redação deixei de publicar coisas dos outros. É um direito lícito do dono. Devo ter suprimido milhares de matérias ao longo de trinta anos. Não podia publicar porque era contra a linha editorial do jornal. Daí não existir liberdade de imprensa para o jornalista; ela existe apenas para o dono. [2]
A impressão de estarmos diante de algo objetivo, imparcial e parte da opinião pública, ou seja, da expressão do pensamento da maioria, não passa de uma percepção enganadora. Sua origem está justamente na sintonia entre o senso comum das pessoas e os interesses de classe que orientaram sua formação no passado e direcionam a leitura do presente para consolidar o poder real e simbólico dos que têm tudo. Ao esconder os vínculos que fazem da opinião pública nada mais do que uma opinião que se publica e que universaliza entre a população a visão particular de uma classe sobre a sociedade, o senso comum se mantém na direção desejada pelas elites e reafirma para si próprio a impressão de objetividade e confiabilidade na mídia de sua preferência”.
- “O que ainda não consigo entender – admite o secretário perplexo – é a maneira pela qual é possível enganar muita gente sem que ninguém se dê conta...”.
- “Isso é muito fácil!”, continua a coruja sem pestanejar. “Há dois aspectos do senso comum que os meios de comunicação dificilmente esquecem. O primeiro, como vimos acima, é o de se colocar em sintonia com a visão de mundo presente no meio popular como condição para dialogar e dirigir a compreensão das massas na perspectiva desejada pela elite ou pelos setores que são proprietários da mídia em questão. Ninguém deste grupo costuma bater de frente nas idéias do senso comum não só por serem produto de uma ordem que, até o momento, foi capaz de fazer com que a classe trabalhadora raciocinasse, majoritariamente, com a cabeça das minorias no poder, mas, sobretudo, porque uma crítica aberta contra elas seria tão eficiente quanto um murro em ponta de faca. As pessoas se sentiriam menosprezadas e se fechariam em sua compreensão como um ouriço que, para se defender, se recolhe em sua proteção de espinhos.
         O segundo aspecto deita raízes no fato de que o consenso da maioria em torno de algo tido como importante por um determinado grupo humano é visto como critério de verdade em relação a uma determinada maneira de enxergar o mundo, a história e os acontecimentos do dia-a-dia. Não por acaso, tanto as pessoas simples, como a mídia, repetem à exaustão que a voz do povo é a voz de Deus. Vimos acima que esse Deus nada mais é a não ser a expressão de uma minoria que é aceita como verdade absoluta, apesar de estar alicerçada em precisos interesses de classe. Portanto, a tal voz do povo, na ampla maioria das situações, não passa da compreensão dos fatos que os grupos no poder conseguiram socializar entre a população e que ainda pode ser trabalhada pelos proprietários dos veículos de comunicação. Isso faz com que duas equações se tornem critério de verdade na formação do consenso social. A primeira sustenta que se todos dizem ou acreditam em alguma coisa, então é verdade. Quem discorda é bem provável que esteja por fora ou, apesar de vir com um papo convincente, queira achar chifre em cabeça de cavalo. A segunda, fruto da era da comunicação visual, aprimora o teor da anterior ao subentender que tudo o que é visível é real, e tudo o que é real é verdadeiro. Ou seja, como não dá pra negar o que todos vêem, logo, trata-se de algo verdadeiro e merecedor de confiança. Por sua vez, o que não é visível não é real ou, quando não aparece, é porque não é importante, logo, não vale a pena se dar ao trabalho de ir atrás dele”.
- “O que você acaba de afirmar só me confunde. Pois, como posso dizer que o que vejo com meus próprios olhos não existe? Como posso desconfiar de que os documentários, as fotografias e reportagens não estão retratando a verdade?”, questiona desconcertado o homem.
         A coruja vira o corpo, cruza a ponta das asas atrás das costas e começa a andar de um lado pra outro da mesa com um indisfarçável sorriso no rosto.
- “Eu sabia que você iria me fazer esta observação”, comenta a ave sem interromper seus passos. “O que sua avantajada cabeça humana não consegue entender é que, como já disse, as aparências sempre dão razão às aparências. Portanto, a depender dos aspectos trazidos à luz, as imagens que você vê não passam de um reflexo que esconde a realidade enquanto a mostra”.
- “Daria para ser um pouco mais clara...?”, pedem os lábios ao expressar a incapacidade de compreender o que está sendo dito.
- “Na década de 80, informar não era apenas proporcionar uma descrição precisa de um acontecimento, mas também fornecer um conjunto de parâmetros que permitissem uma compreensão mais contextualizada do que estava sendo relatado. Além de transmitir quem fez o que, com que meios, onde, como e porque algo aconteceu, havia certa preocupação de delinear o contexto, as causas, as consequências ou os possíveis desdobramentos do que estava sendo relatado. Por limitada que fosse, esta preocupação do trabalho jornalístico de trazer à tona o que não era visível no presente da história contribuía positivamente para a possibilidade de o leitor ou ouvinte não se contentar com as aparências e pensar melhor no que era apresentado.
         Na medida em que a televisão passa a ocupar o espaço dominante entre os meios de comunicação e a usar amplamente a transmissão em tempo real de qualquer lugar do mundo, informar tornou-se sinônimo de fazer-nos assistir ao acontecimento em curso. A imagem começa a ocupar um lugar privilegiado como critério de verdade. Pouco a pouco, a satisfação dos telespectadores não está em entender os fatos em seu ambiente, com suas causas e consequências, mas sim em ver os acontecimentos conforme as imagens os reproduzem para os seus olhos. O que poderia ser um complemento importante no resgate do passado que produziu o presente e prepara o futuro, torna-se algo sem história, sem passado e, portanto, sem futuro, como se cada fragmento da realidade existisse por si só e fosse obra exclusiva de um acaso incontrolável.
Neste processo, ganha corpo a ilusão de que ver é compreender e a aparência ganha status de evidência inquestionável. A percepção imediata passa a ser vista como verdade absoluta e é assumida como tal. O que parece simples e inegável faz-nos esquecer da advertência dos pensadores renascentistas de sempre desconfiar dos próprios olhos e dos próprios sentidos. E não é pra menos. Quando filmamos, por exemplo, o percurso que o sol traça no céu e o reproduzimos em velocidade acelerada, as imagens mostram que o astro rei gira em torno da terra e não o contrário. Do mesmo modo, a foto panorâmica tirada do prédio mais alto da cidade revelará um horizonte plano, ainda que a terra seja redonda. Isso que no passado foi objeto de grandes disputas, discussões e complexas demonstrações científicas, portanto, de um pensamento crítico destinado a derrubar o caráter enganoso das aparências, hoje é mais que comprovado com fotos da terra tiradas do espaço. Ainda assim, ao permanecermos ancorados ao que vemos diariamente, continuaremos tendo a impressão, confirmada por nossos próprios olhos, de que o sol gira em torno da terra e não o contrário. Ou seja, no nível das aparências, a realidade continua escondida pelas imagens imediatas que pretendem revelá-la”.
- “Será que daria para mostrar isso com um acontecimento da nossa realidade?”, pede o secretário ao apoiar o queixo na palma da mão.
- “É pra já!”, atende prontamente a ave ao apontar as asas para as folhas do relato. “Em 22 de janeiro de 2012, um domingo, o país assistiu à desocupação da área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos, São Paulo, por cerca de 2000 homens da tropa de choque encarregados de fazer cumprir um mandato de reintegração de posse ordenado pela justiça. As imagens mostravam as chamas produzidas pelas bombas molotov atiradas pelos manifestantes que resistiam, de rosto coberto e pedaços de madeira na mão, à desocupação que levaria à destruição de suas casas. O conflito do qual a polícia participava com cassetetes, balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, ocupava o centro da notícia. Os comentários, por sua vez, sublinhavam a ação violenta dos manifestantes diante de uma força que buscava fazer cumprir a lei. Imagens e falas transformavam, automaticamente, os cerca de 7000 moradores instalados no local em fora da lei, recém-nascidos e crianças de colo inclusas.
As emissoras de rádio e os jornais faziam eco a que era apresentada como uma evidente manifestação de violência dos moradores, acusados, inclusive, de espalharem atos de vandalismo pela cidade. Se isso não bastasse, o Diário do Comércio e da Indústria de São Paulo, em sua edição do dia 24, fazia pairar sobre os líderes do movimento a suspeita de terem relações com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), um grupo guerrilheiro que age naquele país desde a década de 60 e teria supostamente treinado moradores locais em táticas de guerrilha urbana. Inúmeras as reportagens que sublinhavam as compras de gasolina pelos invasores da área nos postos de combustível da região, induzindo leitores, ouvintes e telespectadores a crer que qualquer carro das famílias do Pinheirinho encostado num posto de combustível não estaria apenas abastecendo o veículo, e sim armando com gasolina a resistência violenta orquestrada na moita.
A intenção clara das reportagens era mostrar a resistência à desocupação como um ato violento, armado, capaz de detonar um clima de guerra na cidade e, obviamente, ponto de partida para espalhar o medo e alimentar a rejeição em relação aos moradores do Pinheirinho. E, como as aparências só confirmam as aparências, homens, mulheres, crianças e anciãos daquela área não passariam de uma massa de seres violentos, agressivos, sem escrúpulos, à margem da lei, que ameaçam as pessoas de bem, não respeitam a propriedade alheia e cujo único propósito seria o de defender o que havia sido apropriado ilegalmente. Os excessos indisfarçáveis da polícia eram minorados pelo clima de guerra mostrado pelas imagens e entendidos como parte de uma resposta legítima do Estado às agressões dos habitantes em resistência. Na semana de tensão que segue à desocupação o diálogo direto com os moradores desalojados se daria apenas na hora da entrega das cestas básicas pela prefeitura num sinal pelo qual o Estado que faz cumprir a lei com rigor é o mesmo que socorre os necessitados.
As vozes discordantes vinham de boletins, documentários e entrevistas produzidas e divulgadas pela internet por movimentos sociais, partidos políticos e sindicatos. Mas, diante das imagens das grandes redes de televisão, quem se atreveria a dar razão a algo tão pequeno e insignificante que tinha a petulância de afirmar outra verdade? Como contrariar imagens tão claras, ao vivo e em cores, dos acontecimentos que demonstravam com sobras de detalhes o fato de que o visível é o que pode ser considerado real e verdadeiro?
O que permitiria o entendimento daquele acontecimento são respostas a perguntas que as aparências vistas como inquestionáveis impedem sejam formuladas: Que mecanismos econômicos, políticos e sociais levaram famílias de trabalhadores a se verem obrigadas a ocupar uma área privada, com os riscos que isso implica, para ter um teto em cima da cabeça? Onde estava o Estado na hora de garantir aos marginalizados pela ordem social vigente o sagrado direito à moradia? Por que a área do Pinheirinho, que pertence ao empresário Naji Nahas, condenado por ações fraudulentas na Bolsa de Valores de São Paulo e que há 40 anos não pagava o IPTU do terreno, não foi desapropriada depois de cinco anos de inadimplência, conforme mandam as normas municipais? Por que, apesar desta dívida passar dos 15 milhões de Reais, esta área nunca havia sido indicada para desapropriação e futura construção de moradias populares destinadas a regularizar a situação dos moradores? Por que os poderes locais se recusaram por anos a fio a viabilizar as soluções pacíficas apresentadas pelos ocupantes? Por que, no passado, a prefeitura chegou a negar cestas básicas e  vagas nas creches às famílias do Pinheirinho como forma de forçar sua saída da região?
Nestas condições, que opção restava aos moradores diante do arsenal que procurava um desalojamento seguido da imediata destruição das moradias erguidas com o sacrifício de anos de trabalho? Deveriam agradecer ou entregar flores a quem estava prestes a tirar deles o pouco que chamavam de lar? Ou teriam como última cartada a de fazer ouvir com sua defesa possível o grito de sofrimento por mais uma injustiça que iria se somar às muitas amargadas durante anos? O pressuposto pelo qual a grande maioria da população e da mídia se diz contra qualquer forma de violência não estaria sendo usado justamente para desqualificar a resposta dos moradores? Ao mesmo tempo, esta mesma postura não se prestaria a ocultar e até, disfarçada ou inconscientemente, defender o lado do opressor, cuja violência, tão contínua e cotidiana, não faz notícia e até parece não existir? A aparente confiabilidade e imparcialidade das imagens não estaria sendo usada para colocar as vítimas no banco dos réus e premiar, mais uma vez, seus algozes?
E, ainda, se o direito à moradia é negado até mesmo em situações como esta em que havia normas legais para garanti-lo, então, quais são os direitos que a elite e seus servidores na burocracia do Estado permitem que sejam exercidos de fato? Que direitos, apesar de constarem no papel, são e continuarão sendo criminalizados? Que estranha democracia é esta que tem uma justiça capaz de violar normas legais para que a propriedade de um fraudador inadimplente da elite seja colocada acima do direito a um teto de 1700 famílias?
Diante da desocupação do Pinheirinho, muitas outras perguntas poderiam ser formuladas no sentido de desvendar as causas que estão na origem da desocupação da área e de usar o fato como lição para os demais movimentos sociais. Mas acredito que as que pincelamos acima bastam para desconfiar das aparências supostamente convincentes que desfilam debaixo dos nossos olhos”.
- “Sendo assim, como você explica que milhões de pessoas se deixam iludir pelo que vêem?”, questiona o homem entre a curiosidade e a provocação.
- “Vários processos contribuem para construir uma situação na qual a capacidade de parar para pensar é anestesiada ou, até mesmo, desativada”, responde Nádia com a satisfação de quem acredita estar sendo compreendido. “Retomando brevemente o que foi exposto, a primeira predisposição a anestesiar o pensamento crítico vem da concepção do senso comum pela qual a veracidade da informação está no fato de que vários meios de comunicação repetem as mesmas afirmações e confirmam com imagens e palavras o sentido dos acontecimentos. Ao se deixarem guiar pelas aparências, as pessoas não fazem perguntas a respeito de que critérios objetivos, verificáveis e verificados em suas fontes serviram de base à elaboração do que é apresentado, mas, simplesmente, acreditam estar assistindo à reprodução fiel da realidade. O simples fato de falas e imagens reafirmarem, em vários meios de comunicação, o teor e o conteúdo da mensagem que dirige a leitura do acontecimento em questão, basta para que a notícia seja assimilada como verdadeira.
         Entre os casos internacionais mais famosos, encontramos, sem dúvida, a afirmação de que Saddam Hussein dispunha de armas de destruição em massa prontas para serem usadas. Em 2003, o mundo inteiro viu nas mãos do então Secretário de Estado e general da reserva estadunidense, Colin Powell, as fotos de caminhões-baú tiradas por satélites militares em órbita nos céus do Iraque. Apresentadas na Assembléia Geral das Nações Unidas como prova de que o país dispunha de laboratórios móveis para suprir o exército com armas químicas, as imagens destinavam-se a convencer o senso comum de que o ditador iraquiano possuía mesmo armamentos letais proibidos e, portanto, um ataque preventivo contra suas forças militares era necessário e urgente. Após anos de guerra e centenas de milhares de mortos, depois de vasculhar palmo a palmo o território do país, não foi encontrada nenhuma arma de destruição em massa e os tais caminhões, bom, eram apenas caminhões-baú que qualquer satélite militar poderia fotografar do espaço em qualquer país do mundo. Mas, para o senso comum da maioria silenciosa, o fato de a maior parte dos meios de comunicação falar ou mostrar ditas fotografias e de governantes como Tony Blair considerarem as imagens como provas convincentes bastava para que as fotos mostradas por Powell na ONU levantassem a sensação de uma ameaça real e transformassem sua falta de ação em apoio implícito à guerra.
         Do consenso das maiorias como critério de verdade não escapam os livros, os cinemas, o teatro e própria música. As listas de best-seller, recorde de bilheteria ou venda de CD confirmam o mercado como instância legítima capaz de apontar com seus indicadores o que vale a pena ser lido, visto e ouvido. Ninguém coloca sob suspeita as razões do sucesso comercial de uma obra, as idéias que procura reafirmar ou resgatar, as atitudes sobre a vida em sociedade que suas mensagens fortalecem e os valores éticos que orientam estas mensagens. É assim que os livros de auto-ajuda ou de busca do sucesso pessoal vendem como pão quente apesar de não resistirem ao menor teste de cientificidade; que filmes e seriados transformam as várias faces da violência urbana em caso de polícia e ajudam a ocultar que são o fruto venenoso da sociedade que construímos; ou, ainda, que músicas e danças transformem em cachorras, popozudas e preparadas as mulheres cuja luta contra a violência doméstica sofreu seguidos recuos depois que nos mais diversos ambientes se começou a cantar e dançar que um tapinha não dói ou a valorizar sua figura como objeto de desejo sexual capaz de se insinuar atrás de um simples aí se eu te pego. Mas, para o senso comum, quando todos fazem, vêem, acreditam e se divertem da mesma maneira, então não há como ser diferente. A crítica aberta ao comportamento coletivo, ou ao que está sendo apreciado pela maioria, passa a ser vista como posição típica de quem procura pêlo em ovo.
         Desta forma, idéias e interpretações do cotidiano, supostamente inócuas, ganham consistência, moldam e autorizam comportamentos, levam a entendimentos que nos distanciam da realidade amarga que se esconde nas aparências e, obviamente, criam obstáculos à reflexão crítica. Na medida em que a mensagem veiculada e reafirmada pelos meios se comunicação é recebida como merecedora de confiança, ela passa a ser incorporada ao senso comum e reproduzida em falas e comportamentos de pessoas simples que acabam naturalizando o que, por sua própria situação, deveriam rejeitar.
A anestesia produzida neste processo chega a desativar a capacidade de pensar não porque o cérebro deixa de funcionar, mas sim porque o pensar a realidade é justamente o esforço de ir além das aparências, de não aceitar pura e simplesmente o que todos dizem ou fazem por se tratar de algo comum e corriqueiro. O pensar do indivíduo, ou de um coletivo, exige um inventário da origem, dos valores, limites, interesses, possibilidades e consequências do que lhe é proposto em termos de sentido do cotidiano e da história, num esforço constante para desmontar o que se apresenta como natural ou impossível de ser mudado”.
- “Como primeiro aspecto, é bastante cabeludo...”, murmura o homem em tirar os olhos do papel.
- “Um segundo elemento – emenda Nádia sem ligar para o comentário do ajudante – vem da escolha do que é, ou não, considerado relevante. Isso diz respeito, por exemplo, tanto a um tema a ser tratado numa série de reportagens televisivas, da imprensa ou do rádio, como de um acontecimento que está sendo apresentado. Pelos mecanismos que esboçamos nas páginas anteriores, não só as descrições tendem a se reduzir ao que é captado no instante da gravação, como na grande maioria da população começa a se instalar a idéia de que se algo não apareceu na TV, em jornais ou revistas é porque não aconteceu ou é de pouca conta. Do mesmo modo, quando é trazido à tona pela mídia é porque, de fato, se trata de um elemento importante nos aspectos que são trabalhados.
Assim, um movimento pode realizar uma passeata com milhares de pessoas ou ocupar durante meses algum espaço público para proporcionar a visibilidade do seu protesto e o diálogo com a população, mas se nada disso for retratado pela mídia, então, para o senso comum, é porque não existiu ou não tem importância. Por outro lado, os meios de comunicação podem se focar só nos aspectos da ocupação que interessam aos grupos econômicos por eles representados para desqualificar a ação empreendida, cooptar os líderes ou justificar a repressão. Tudo isso lançando mão, inclusive, de uma cuidadosa seleção de entrevistas com transeuntes, membros do movimento, autoridades e representantes da sociedade civil organizada que confirmam o sentido dado ao fragmento de realidade que é objeto de descrição. Como espelho do real, não é de estranhar que as imagens refletidas pela mídia, apesar de se apresentarem como reprodução fiel dos fatos, sejam invertidas para possibilitar a compreensão desejada.
Mas isso não é tudo. Na medida em que jornais e emissoras pautam o que é relevante, a mídia fabrica e consolida uma representação do acontecimento que, ao reafirmar as expressões do senso comum, tende a se generalizar e a formatar pré-julgamentos do que guarda certa semelhança com o que vem sendo comentado, passando assim a orientar possíveis respostas ou posturas dos diferentes setores da sociedade. Em outras palavras, o poder da comunicação de massa de construir símbolos e sentidos para o dia-a-dia, de fazer ver e crer em aspectos escolhidos a dedo, de confirmar e transformar a visão do senso comum passa a orientar e dirigir a ação sobre o mundo e, portanto o próprio mundo. A notícia deixa de ser o mero relato de um fato para, ao cristalizar uma determinada leitura dos acontecimentos, se transformar em poderoso instrumento de construção da realidade de acordo com os interesses dos grupos no poder. Neste processo em que o consenso geral da mídia, mais uma vez, poderá legitimar a veracidade da comunicação, o disfarce da imparcialidade e da neutralidade será a fantasia indispensável para que a elite possa fazer desfilar seus valores, idéias, formas de comportamento e critérios de interpretação da realidade na passarela da vida tendo o próprio povo simples como vítima e ator principal da festa.
Um terceiro aspecto – emenda a ave ao cortar sem cerimônias o evidente desejo de uma pausa que o secretário expressa sem cessar – pode ser resumido na convicção de estarem bem informadas que as pessoas têm ao assistirem os noticiários da TV ou ao ouvirem os canais de rádio que transmitem notícias 24 horas por dia. Pelo que vimos, a idéia de se informar sem esforço não passa de uma ilusão na medida em que o material jornalístico é veiculado mais para distrair do que, propriamente, para que o cidadão comum tenha uma compreensão objetiva do que está ocorrendo. Se isso não bastasse, a sucessão rápida de notícias breves e fragmentadas produz o efeito de desinformar ao superinformar.
         A desinformação ocorre no sentido de que o acesso à superfície dos acontecimentos em nada ajuda a entendê-los e produz os efeitos descritos no tópico anterior. E a superinformação proporcionada pela sequência ininterrupta de imagens, comentários, entrevistas, anúncios e notícias curtas, fornece uma quantidade de dados bem maior do que o nosso cérebro consegue processar. A falta de foco que acompanha o pular de um tema a outro prejudica comprovadamente a memória e, de conseqüência, o potencial de reflexão pessoal sobre o que está sendo veiculado. Via de regra, após assistir um noticiário na TV ou ouvi-lo num canal de rádio, o que permanece nas lembranças por curtos espaços de tempo são apenas fragmentos de notícias ou imagens que atingiram nossas emoções e nada mais. Isso, pelo menos, até que a dramaticidade ou os aspectos sensacionais de novos eventos desalojem paulatinamente as sobras de memória anteriores. A história processada a quente nas telas da TV ou nas ondas do rádio não dá trégua e, dificilmente, o público se dá conta de quanto os próprios acontecimentos contradizem os comentários ouvidos de jornalistas e locutores. O novo turbilhão de manchetes que passa a atrair as atenções se encarrega de restabelecer a confusão necessária para que tudo continue sendo visto como a sucessão frenética de um acaso incontrolável da própria história.
         Para que o homem-massa se sintonize naquele canal ou leia esta revista ou jornal, proporcionando assim a audiência ou a venda desejada, cada meio de comunicação faz propaganda de si mesmo, distribui prêmios aos seus profissionais ou cria bordões e slogans que marcam sua confiabilidade junto ao público alvo. A Rádio CBN, por exemplo, se anuncia como a rádio que toca notícias ao passo que a rede Globo declara que a gente se liga em você para sublinhar que a emissora conhece o que seu telespectador pede e precisa por estar ligada nele, como se grande parte das demandas do homem massa não tivessem sido estimuladas pela ação da própria emissora. Que o sofá e não o esforço de refletir criticamente sobre a realidade, é o melhor lugar para se manter informado é sublinhado também pela rede CNN na pergunta Onde você vai estar da próxima vez que a história acontecer? E cuja resposta correta é Diante da TV, vendo a CNN, já que é na TV que a história acontece e se reproduz e, no momento, é ela que, com suas imagens, detém a primeira e última palavra sobre os acontecimentos”, conclui Nádia ao respirar profundamente.
- “Ainda bem que é só isso”, comemora o homem em tom de alívio. “No início, temia tramóias e questões bem mais complexas, mas se ficar assim está de bom tamanho”, emendam seus lábios ao alimentar a esperança de que o trabalho esteja próximo do fim.
         A coruja pisca os olhos, sacode a cabeça em sinal de desaprovação e, ao desenhar círculos no ar com a ponta da asa, diz:
- “O problema, querido secretário, é que os outros mecanismos pelos quais o pensamento é anestesiado, ou momentaneamente desligado, merecem um tratamento mais cuidadoso e não podem ser delineados em resumos que fazem a felicidade dos preguiçosos e não ajudam na tarefa de desvendar a realidade. Portanto, trate de se recompor e se prepare porque é no segundo capítulo que vamos tratar como a mídia passa...”






         2. Do espetáculo à invisibilidade.


“Tudo aquilo que engana parece liberar um encanto”.
Platão.       


         Após longa e gostosa espreguiçada, o secretário arruma as folhas do relato e se prepara vagarosamente para retomar o trabalho. Impaciente, Nádia cruza as asas na altura do peito enquanto marca com o bater da pata o nervoso passar dos segundos.
         O duelo silencioso que se instala entre os dois seres usa olhares, gestos e caretas como espadas afiadas da luta entre a urgência de desvendar a realidade e o sossego de quem, ao nadar no fluxo da correnteza, resiste a qualquer mudança. Ciente das dificuldades do embate, em que dúvidas e novas perguntas precisam cutucar o senso comum, a coruja se aproxima do ajudante e sinaliza o desejo de sussurrar algo ao pé do ouvido:
- “Bem-vindo ao espetáculo!”, murmura o bico protegido pela asa em forma de concha.
- “Espetáculo... de que...?!?”, indaga o homem ao estranhar a atitude e as palavras.
- “Ora, querido humano de óculos, estou me referindo a tudo aquilo que ajuda a vender mais jornais, livros, revistas, CDs ou a garantir os índices de audiência. Chamo de espetáculo aquilo que, insólito ou corriqueiro, pode ser separado dos seus elementos constitutivos e transformado em show de vida ou de morte”, arremata a coruja ao virar as costas em tom de provocação.
- “O que você quer dizer com isso?”, pede o secretário ao cair na armadilha.
- “Se, de um lado, o cardápio da imprensa sensacionalista sempre foi à base de notícias de variedades, fofocas de famosos, violência, sangue, sexo ou dramas humanos, temperados com certo ar de mistério, de outro, não há meio de comunicação que, apesar de manter a respeitabilidade, esqueça que são esses pratos a elevar as vendas e a aumentar a audiência. O inusitado, insólito ou inesperado dá cor à rotina cinzenta do dia-a-dia, provoca emoções, gera empatia, atrai as atenções e cutuca a curiosidade.
Como critério de seleção, a importância do acontecimento em termos de compreensão das causas e consequências para a vida coletiva cede o lugar à busca do sensacional e do espetacular presentes em fatos que interessam às grandes maiorias, não envolvem disputas, não provocam divisões, geram uma comoção capaz de despertar uma multiplicidade de reações, mas não uma atitude que leve o cidadão comum a se envolver na mudança do que serviu de caldo de cultura à produção da realidade. Imagens e comentários não se distanciam do que atrai, do que integra o consenso social existente ou pode ser facilmente assimilado como tal ao mesmo tempo em que põem em cena a gravidade, o caráter dramático, trágico ou cômico de um fato. Ao exagerar a importância desses aspectos, a mídia cria símbolos, fantasias, medos, fobias ou, simplesmente, representações falsas da realidade na medida em que, a exemplo do prestidigitador, atrai a atenção para algo que distrai o público e o impede de ver o essencial, no nosso caso, as razões profundas que gestaram os acontecimentos.
Na busca incessante pelo furo de reportagem, pelo que rompe com o cotidiano, até a morte se transforma em show a ser explorado. Este processo não só banaliza a violência como introduz princípios de análise que servem de lentes pelas quais as pessoas passam a ver e interpretar o mundo. Atraído pelo espetáculo e tornado cego pelas evidências que, supostamente, deveriam possibilitar uma visão mais ampla da sociedade, o público incorpora e reproduz a leitura enviesada dos acontecimentos e desconsidera as relações cotidianas, rotineiras, e aparentemente banais nas quais estão as explicações para os eventos espetaculares que marcam o tempo da mídia”.
- “A teoria parece boa. O problema é entendê-la na prática!”, afirma o homem ao interromper bruscamente o relato da coruja.
- “Se é de exemplos que você precisa, aí vão eles! Vamos começar pelas chuvas de verão que transformam São Pedro em carrasco dos mais pobres. Via de regra, imagens e comentários retratam o que o repórter enviado ao local pôde constatar no curto período de tempo em que aí permaneceu. Vídeos de casas inundadas ou derrubadas pela correnteza, de ruas e avenidas transformadas em corredeiras ou de desmoronamentos filmados em tempo real se alternam aos de grupos de socorro, aos de manifestações de solidariedade e às falas dos moradores que costumam reproduzir o que ouviram nos noticiários.
         Numa aparente investigação objetiva da realidade, são ouvidos especialistas, prefeitos, governadores e testemunhas oculares das tragédias descritas. Quando a sorte ajuda, há um vídeo amador ou uma foto de celular que retrata o momento mais dramático, a situação mais inusitada, enfim, o que se destina a chamar a atenção do público e proporcionar a audiência almejada. Na apuração das responsabilidades costumamos encontrar três grandes linhas de investigação: o nível de chuvas acima do esperado, que caracteriza o acontecimento como catástrofe natural; a estrutura geológica do terreno, em relação à qual pouco ou nada pode ser feito; e, finalmente, o fato de a população carente estar ocupando áreas de risco, apontado como principal responsável pela tragédia ao lado de um Estado que alega não ter condições de controlar a ocupação desordenada do solo e está fazendo o possível para providenciar abrigo aos desabrigados.
         O que não aparece, ou é diluído a ponto de passar desapercebido aos olhos do público, é o cotidiano das vítimas feito de trabalho precário e mal remunerado, exploração, pobreza, menor escolaridade, maior dificuldade de acesso a oportunidades de novos empregos, desemprego de longa duração, angústia e insegurança diariamente vivenciadas por quem se vê, literalmente, sem alternativas. Isso sem contar a especulação imobiliária, a ausência do Estado no cumprimento de seu papel de garantidor dos direitos essenciais e a sua negligência em obras e ações efetivas na prevenção de catástrofes, tão regulares quanto o ritmo das estações. Na medida em que as luzes do show da vida ocultam a rotina que não faz notícia, produz-se uma anestesia do pensamento capaz de levar as pessoas a não perceberem o óbvio: ninguém mora em áreas de risco porque quer, por teimosia, por falta de consciência ou irresponsabilidade, mas porque sua situação não oferece outra possibilidade.
         Num passe de mágica, chuvas acima da média não fazem boiar em suas águas as contradições do dia-a-dia que permanecem invisíveis, pois não há nada espetacular no sofrimento dos pobres e marginalizados, mas inocentam o sistema econômico ao apontar as vítimas como principais responsáveis pela própria desgraça. Desta forma, nenhum meio de comunicação precisa mentir para que a anestesia do pensamento seja revigorada com as informações divulgadas. Basta distrair o público com a notícia-espetáculo, tão verdadeira quanto o coelho que sai da cartola do mágico e profética quanto basta para que a próxima chuva abundante demonstre a veracidade das constatações divulgadas no passado.
         Do mesmo modo, a realidade das periferias das grandes cidades só vira manchete quando um crime hediondo, uma ação arrojada dos traficantes, a ocupação dos morros pelas forças policiais ou algo com forte cheiro de violência, sexo e sangue é levado ao conhecimento do público. Como nos casos das chuvas de verão, a lógica do espetáculo consegue desinformar ao informar. Os corpos das vítimas, as marcas dos tiros, a reconstrução dos acontecimentos através da animação gráfica ou de um mapa, as imagens da operação policial, algumas entrevistas cuidadosamente selecionadas e a confirmação implícita de que a periferia é um lugar sinistro, violento, sem lei, onde a fronteira entre um morador honesto e um delinquente é sempre tênue e porosa, o que transforma o ambiente em algo instável e aterrorizante. Logo, sempre que alguém falar em favela, morro ou citar bairros tristemente famosos, a imagem recorrente será a de um menino armado a serviço do tráfico, da droga vendida como laranjas na feira, das armas que circulam indiscriminadamente, enfim, de um estado de guerra latente onde tudo pode acontecer de uma hora pra outra.
         Ninguém duvida de que, por exemplo, o complexo de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro, seja um lugar difícil não só para viver, mas também de descrever e de pensar por parte da mídia. A complexidade das situações vividas pelos moradores impede que imagens simplistas e unilaterais representem a amplitude e a variedade de vivências que se dão em seu meio e permitam uma compreensão profunda dos acontecimentos. O problema é que o caldo de cultura capaz de explicar o porquê das coisas não tem existência visível nos meios de comunicação a não ser quando algo fora do comum se torna objeto de interesse de algum deles. O tratamento jornalístico destinado ao acontecimento deforma a realidade pelas lentes do espetáculo, do que é digno de virar manchete, mas não permite um trabalho de reconstrução da realidade na medida em que o cotidiano é ocultado pela melhor imagem, pela tomada mais expressiva e emocionante, pelas cenas de ação que fortalecem e reafirmam as visões estereotipadas das periferias e, portanto, o processo pelo qual os que mais sofrem se tornam invisíveis”.
- “Você falou em estereótipos e invisibilidade...?!?”, indaga o homem ao tentar disfarçar a confusão em que se encontra.
- “Exatamente!”, responde a coruja com semblante sério e compenetrado. “Sempre que uma pessoa ou um grupo humano são representados através de um estereótipo, um estigma ou um preconceito, o resultado final é sempre o de anular as pessoas ao fazer desaparecer o que lhe é singular. Quem está na frente do repórter não é a Maria, o José, a Francisca ou o Severino, mas sim a favelada, o negro, a garota perdida, o moleque perigoso e assim por diante. Tudo aquilo que ajuda a entender e a distinguir uma pessoa simplesmente desaparece sob os traços estereotipados que a lógica do espetáculo reforça ao estimular, ou justificar implicitamente, a adoção de atitudes preventivas que marginalizam e condenam as próprias vítimas.
         A história de vida, desejos, sentimentos, ambições, qualidades, defeitos, a capacidade de resistir ao sofrimento, as injustiças sofridas, enfim, tudo desaparece sob o manto cinzento do estereótipo. E quando some a realidade material que ajudou a construir o que cada sujeito é, faz, acredita e deseja, a elite mata dois coelhos com uma cajadada só. De um lado, o retrato produzido pela mídia inocenta de antemão ouvintes, leitores e telespectadores de suas responsabilidades na injustiça social. Os cidadãos comuns acreditam piamente que nada têm a ver com a existência das favelas, do racismo, da marginalização, da pobreza, da violência e das escabrosas realidades que marcam a vida em sociedade. Todos se sentem inocentes porque acreditam que as coisas são assim e não adianta teimar, que no mundo há uma luta encarniçada entre o bem e o mal, que ninguém mandou essa gente morar em favelas ou em ambientes degradados, mas que este foi seu destino, ora por ignorância, ora porque fizeram por merecer.
         Ao apagar a história individual e coletiva, a lógica do espetáculo focaliza o reflexo que cega a capacidade de ver a injustiça presente nas relações de propriedade, de trabalho e de poder, e que se manifesta na particularidade da história de cada um e na vivência coletiva de grandes grupos humanos. Mais uma vez, a história é reafirmada como obra do acaso e não como produto de estruturas que ganham vida na atuação e na omissão de cada um enquanto membro de uma classe social. É por acaso que as favelas nascem e crescem em número e tamanho incomodando com sua presença as pessoas de bem. É por acaso, ou por um capricho da própria vontade, que o aviãozinho da droga busca a vida onde só pode encontrar a morte. É por acaso, preguiça, incompetência ou por acomodação que há gente sem trabalho, subempregada, sem casa ou vivendo do lixo. E, neste último caso, as distorções são ainda mais gritante na medida em que o espetáculo dos lixões a céu aberto leva muita gente a acreditar que só há catador porque os moradores da cidade se desfazem de coisas que ainda servem ou poderiam ser reaproveitadas e não porque uma realidade social injusta transforma seres humanos no último elo da economia antes do chorume.
         Para quem está, ou se sente, um degrau acima dos desqualificados, a invisibilidade proporcionada pela lógica do espetáculo não é sinônimo de não perceber a presença física do outro, mas de ignorá-lo ou de decretar que, enquanto desqualificado, este outro não tem nenhuma relevância social. A idéia pela qual cada um deve saber o seu lugar e aceitar humildemente o que lhe é oferecido é parte da cotidiana relação de classes que marca as diferenças e os critérios pelos quais se define quem é ou não importante, quem tem direito ou não de incomodar os demais. Que o catador peça papelão, latinhas, vidros, plásticos ou metais com aquele jeito submisso e cordial, próprio dos humilhados, é algo que todos aceitam e prezam. Mas que esse sujeito incômodo, mal-cheiroso e potencialmente perigoso por morar no submundo da rua peça água, comida, dinheiro ou transforme a calçada em depósito momentâneo para arrumar a carga do carrinho, isso já é demais. E caso ele esbarre em alguma coisa ou em alguém, a sua pequena distração abrirá o caminho de mais uma humilhação, vinda do cidadão de bem que se sente acima de sua condição social”.
- “E o segundo coelho?!?”, pede o homem ao mostrar que não perdeu o fio da meada.
- “O segundo efeito da invisibilidade pela lógica do espetáculo é que os marginalizados se convencem de que eles não têm direito a ter direitos. Ao interpretarem a própria situação como fracasso individual no estudo, na busca do sucesso, no trabalho e no aproveitamento das chances de subir na vida, as vítimas do estereótipo partilham a necessidade imprescindível de se manterem afastadas dos últimos lugares da fila dos derrotados com os quais convivem. É comum que estas pessoas se deparem frequentemente com a escolha entre o caminho do tráfico, do crime e da violência e o do trabalho desqualificado que, apesar de não oferecer chances concretas de ascensão social, proporciona o conforto moral de não estar entre os drogados, os traficantes, os bandidos ou quem se prostitui para viver. A carteira de trabalho assinada ou o ser conhecido como trabalhador honesto é tido como sinal de distinção em relação à delinquência e motivo de orgulho.
Se o lugar de moradia, a cor da pele, a situação de marginalidade ou as injustiças sofridas colocam as vítimas a um passo de atravessar a fronteira do crime, provar que não se é nem vagabundo, nem bandido, apesar da vida de privação, torna-se caminho obrigatório para reafirmar a própria dignidade. Motivo de felicidade e disposição para enfrentar a vida, a luta para não descer mais um degrau na hierarquia social pode não afugentar a pobreza, mas proporciona a alegria resignada ao pouco que se tem. Quem se sacrifica para se afastar dos últimos lugares, ou não depender da caridade alheia, tende bem mais a se confortar com os casos de quem está pior do que a lutar para fazer valer o direito a ter direitos.
         Fora do seu ambiente, o desafio de manter a dignidade passa por negar a origem social, mentir em relação ao local de moradia e evitar situações que possam repercutir em novas derrotas e humilhações. Via de regra, as vítimas dos estereótipos sociais preferem não ser vistas, não aparecer, não serem identificadas por sentir que sua situação não oferece chances reais de reconhecimento. Sempre à espera de novas humilhações, preferem perder por não escalar o time do que amargar uma goleada. Ao aceitar espontaneamente, e por antecipação, os limites da posição social que ocupam, os oprimidos contribuem involuntariamente com a própria opressão na medida em que se calam, ficam vermelhos de vergonha, baixam o olhar, diminuem o tom de voz, sentem-se desconfortáveis ao interagir com seus superiores no trabalho ou com alguém de uma classe social acima da própria. O ditado pelo qual manda quem pode, obedece quem tem juízo, transforma em sabedoria o agüentar passiva e resignadamente situações de humilhação, incompreensão, negação dos próprios direitos por parte de quem é visto como superior. O jeito assumido como certo, então, é fazer de tudo para se reservar, se preservar e sumir do olhar alheio.
         Viver o fato de que não se tem direito a ter direitos tende a fazer com que as próprias vítimas se distanciem do que cheira a envolvimento na ação política de movimentos e representem como metidos à besta, abusados ou desaforados aqueles que, em seu meio, resistem a aceitar esta situação ou se rebelam. Ora por identificá-la como caminho para a desonestidade e a corrupção, ora porque, na situação de humilhado, se vê incapacitado de atuar no que define o próprio futuro e o dos familiares, o oprimido só consegue se imaginar no âmbito da política pela lógica do espetáculo: alguém dotado de superpoderes e de uma vontade capaz de resolver num estalar de dedos a situação dos pobres. No fundo, é isso que ele espera dos governantes, mas o problema está justamente aqui: não age e, no máximo, torce para que outros façam por ele por serem aqueles que têm escolaridade, conhecimento, dinheiro e poder.
Longe de ser vista como espaço de disputa dos interesses de classe e caminho para a construção coletiva de um direito, a política é algo que está fora do seu alcance. O que resta é pedir a Deus para que apareçam melhores oportunidades de trabalho, para que ninguém da família fique desempregado ou doente, para que haja sempre horas extras ou até pinte um segundo emprego. É isso que possibilita comprar mais, adquirir aquela tv, geladeira ou celular dos sonhos, sinônimo de mais dignidade, de um degrau acima dos níveis mais baixos da escada social, enfim, de um afastamento mais claro da incômoda fronteira com o crime.
- “Ao mesmo tempo, não dá pra negar que nem todos agem assim...”, indaga o ajudante em tom de contestação.
- “As exceções mais confirmam do que negam a regra”, rebate Nádia ao riscar o ar com um rápido movimento da asa. “O que precisamos deixar claro é que os efeitos produzidos pelas imagens da mídia nas classes sociais não podem ser divididos com precisão cirúrgica entre os membros destes grupos. Estou me referindo, por exemplo, à outra face da invisibilidade: a arma como passaporte para sair do esquecimento e pela qual quem passava sem ligar para o marginalizado, agora lhe obedece.
Enquanto os estereótipos reafirmam entre a maioria dos dominados que não têm direito a ter direitos e fortalecem sua invisibilidade, a arma permite percorrer o caminho inverso, da sombra que fazia o humilhado desaparecer ao medo que o torna visível. Ao empunhar um revólver, um fuzil ou uma faca, o esquecido recupera sua visibilidade, exige ser tratado como sujeito e repassa pelo caminho da violência a fatura da dívida social da qual todos falam.
         Como passaporte para a visibilidade, a arma é um grito de socorro, um pedido de reconhecimento e valorização, mas, ao mesmo tempo, o pior caminho possível na medida em que esse tipo de reconquista da visibilidade trilha as sendas do crime e faz com que o sujeito vista a carapuça que o preconceito lhe preparara. Sua afirmação não proporciona o reconhecimento sonhado e sim o pacote completo de maldições que o medo faz ressoar na alma do assaltado e a conseqüente comprovação dos estereótipos divulgados. Ao optar pelo crime, o invisível de ontem se desarma das condições que poderiam proporcionar a denúncia das injustiças, a busca de apoios e aliados, a criação de fatos que marquem a saída da resignação rumo à construção do direito a ter direitos. Por sua vez, diante da arma, a vítima sente medo e ódio, tende a afasta-se abruptamente de tudo o que poderia levá-la a se solidarizar com o ambiente no qual nasceu o seu agressor e reafirma como verdadeiras e dignas de fé as leituras do real que a mídia vinha trabalhando.
         O pedido de socorro se transforma, assim, em fonte de nova e mais pesada condenação alimentando o ciclo que reproduz a marginalização e a invisibilidade. O dinheiro do assalto e do tráfico proporciona instantes fugazes de respeito e visibilidade, a admiração do grupo, a satisfação de desejos de consumo estimulados pela propaganda e negados pela realidade social, mas, ao mesmo tempo, legitima o estigma, o estereótipo, a invisibilidade, a humilhação e a renúncia à luta para ter direitos própria das maiorias marginalizadas”.
- “Mas de que forma isso contribui para anestesiar o pensamento de ouvintes, leitores ou telespectadores?”, pede o homem ao deitar suavemente a caneta nas folhas do relato.
         Feliz com a preocupação do secretário, a ave permanece silenciosa por alguns instantes. Os gestos produzidos pelos movimentos das asas antecipam o teor das palavras. Um rápido piscar de olhos... Um movimento brusco que parece cortar o véu das aparências e...
- “Além das corujas falantes, os representantes pensantes da sua espécie estão sempre em busca de um sentido para o que fazem, pensam ou vêem. Trata-se de um processo incessante alimentado pelas contradições com as quais nos deparamos e pela própria dinâmica dos acontecimentos que transforma fatos e respectivos sentidos em amantes que se encontram por instantes, se entregam, se afastam e renovam seguidamente a procura recíproca.
A necessidade de ir além das aparências é algo que inquieta, demanda o esforço constante de questionar as próprias percepções e, obviamente, não se contenta com os primeiros resultados. A sensação de satisfação não está no significado imediato que foi encontrado, mas sim em ser parte ativa de uma busca que mantém em alerta, faz duvidar das aparências, nunca encontra a plenitude e só permite breves momentos de descanso.
         Por outro lado, para que possam consolidar uma determinada maneira de ver a vida, a anestesia e a desativação do pensamento precisam se focar nas aparências, cristalizar sentidos e percepções que não dependem do sujeito, mas de idéias, valores, símbolos e sentidos capazes de paralisar o significado que este atribui às relações sociais fazendo com que percam seu caráter histórico e contingente aos olhos das grandes maiorias.
         Esta dinâmica, que marca a formação e a evolução do senso comum, transforma o que o telespectador vê na tela em algo cuja projeção de sentido ele já vinha demandando pela sintonia entre sua busca particular, típica de qualquer ser humano, e o conjunto de valores e crenças com base nas quais ele realiza a própria busca e que, via de regra, não se distanciam fundamentalmente dos moldes preparados pela elite. O que interessa ao cidadão comum não é encontrar algo que o force a percorrer o tortuoso caminho que conduz à superação das aparências e sim um simples atalho que lhe permita se deparar com um sentido imediato, capaz de proporcionar a satisfação desejada. Estamos falando de algo pequeno, rápido, profundo quanto basta para não dar trabalho e apontar o que está certo ou errado. Assim, cada imagem e comentário que produzam a coincidência entre fatos e sentidos proporcionam ao ouvinte, leitor ou telespectador a certeza de ter achado o que procurava. Trata-se de uma sensação de gozo, diante do qual o pensamento cessa. O encontro com um significado, de fato, proporciona sempre um relaxamento da tensão que alimenta o pensamento e produz um prazer que desativa instantaneamente a capacidade de refletir criticamente sobre o que foi percebido como uma representação satisfatória e, temporariamente, convincente do presente.
É claro que se trata de um relaxamento provisório, pois a realidade não pára e exige do pensamento a procura de novos significados, mas, para isso, a sequência de imagens, notícias, comentários produzida na lógica do espetáculo, gera elementos suficientes para tornar desnecessário o trabalho de pensar no que havia sido visto, lido ou ouvido. Quanto mais esse fluxo ininterrupto ocupa espaço em nossa vida diária, mais aumentam as possibilidades de obter uma conexão estável entre acontecimento, significado e sensação de prazer e menos o pensamento é convocado a entrar em ação para questionar o que parece líquido e certo. Se aos vários tipos de noticiários acrescentamos o bombardeio das novelas, seriados, programas de auditório e demais enlatados, não vai ser difícil perceber que a chance de o homem comum parar pra pensar diante da tv passa a ser algo extremamente reduzido e limitado no tempo, pelo menos enquanto ele transferir à mídia a sua busca de sentido”.
- “Mas isso é um perigo!”, afirma o ajudante sem levantar os olhos do papel.
- “Exatamente!”, confirma Nádia ao menear a cabeça. “Na medida em que a própria morte vira espetáculo e o espetáculo produz significados que desativam o pensamento, os membros de sua espécie começam a se acostumar com imagens e realidades que, anos atrás, os fariam sair da sala, mudar de canal ou desligar a tv. O que está em jogo é algo sério e preocupante. De um lado, temos a banalização do mal, que leva à incapacidade de se indignar diante do que deveria ser abertamente condenado, e, de outro, o convite implícito a repetir sem remorso o que acaba de ganhar as cores da normalidade.
         Onde o pensamento não opera, ou passa por longos períodos de anestesia, não temos apenas um ficar calejado, um acostumar-se progressivo à situação de violência e injustiça, como o imaginário do sujeito o incita a agir da mesma forma sem que haja uma reflexão pessoal que bloqueie ou obstaculize este processo. Quando o aparelho de som, a televisão ou o rádio transmitem a música pela qual um tapinha não dói sem que isso seja acompanhado por uma rejeição social à altura da situação ou de uma denúncia que trave o processo de divulgação, ou seja, sem que o senso comum se depare com algo que marca e reafirma como intolerável semelhante atitude, há um forte aumento da tendência a que um número maior de pessoas passem a realizar este ato sem reservas. Na medida em que o pensamento se encontra desativado pelos mecanismos que apresentamos e se produz um consenso tácito em volta do que é repetido, tocado e dançado sem limites e nas mais variadas situações, a publicidade do gesto tende a se tornar um incentivo à sua realização. No inconsciente das pessoas, a idéia de permissão, autorizada pelo silêncio da falta de condenação, transforma-se em estímulo à realização do ato, em voz que repete Vai lá e faça! Além de impedir a indignação, a banalização do mal tende a ampliar o próprio mal e a fazer com que os humanos reproduzam atos condenáveis sem sentimentos de culpa.
         Neste sentido, vale a pena se perguntar quantas cenas de violência, veiculadas na lógica do espetáculo, um adolescente viu até completar os 18 anos; quantos crimes virtuais ele cometeu em jogos eletrônicos ou quantos adversários eliminou a tiros experimentando a satisfação de sair vencedor por multiplicar as mortes. Será que isso tudo serve apenas para dar vazão aos instintos sem maiores consequências? Ou não é o caso de se perguntar até a que ponto contribui para legitimar algo bem mais profundo e complexo que, ao entrelaçar-se com os mecanismos descritos, transformará o pôr fogo em um morador de rua numa brincadeira que proporciona uma prazerosa descarga de adrenalina sem maiores consequências? Em que medida o vazio de pensamento seguidamente produzido torna-se condição suficiente para banalizar a própria condição humana? E o problema aqui não é apenas a crescente crueldade dos maus, mas, sobretudo, a indiferença e o silêncio em que mergulham as pessoas que se definem como sendo do bem.
         Ao dar sua contribuição essencial na tarefa de desativar o pensamento e tornar invisível a realidade que produz os acontecimentos, a lógica do espetáculo faz com que as notícias mais chocantes e os fatos mais escandalosos possam até provocar uma comoção social momentânea, mas, produzem simultaneamente a sensação de que não há o que fazer porque a vida é assim. A impotência que vai ganhando corpo se propaga na medida em que o conjunto da obra não revela que estamos num mundo em construção, onde situações e possibilidades dependem da intervenção e da omissão de indivíduos, grupos, classes ou setores sociais, mas sim de um acaso incontrolável do qual sempre podemos esperar todo tipo de surpresas.
         Neste contexto, desativar o pensamento é também desativar nas grandes massas da população a capacidade de visualizar de que há sim alternativas, de que não há nada definitivamente perdido no campo da organização social, de que as chances de mudanças são reais, de que há espaço para dar vida a algo que contraria os valores, as idéias, as representações, os sentidos, os símbolos que, até o momento, marcaram o cotidiano viver em sociedade. Em outras palavras, a lógica do espetáculo imobiliza e anula o ato de pensar como condição para dar início a algo que não existe, a um movimento, a uma formação social ou a uma representação da vida que ainda não está presente, contribuindo assim para que tudo pareça natural e imutável. E quando nas maiorias se instala a convicção pela qual não tem jeito, qualquer meio que tente negar esta percepção é visto como um exercício inútil de busca do impossível. Por isso, arranhar o consenso que sustenta a ordem de exploração torna-se algo cada vez mais complexo e menosprezado até mesmo entre os que mais sofrem o peso da injustiça e que, não por acaso, são os principais alvos da mídia.
         Aos poucos, o cotidiano começa a se tornar o lugar onde não se pensa, o âmbito em que quase tudo vem mastigado, pronto para ser engolido e processado mecanicamente, onde o que importa são as emoções e os instantes de prazer ou afirmação que proporcionam. Próximos deste patamar, a simples possibilidade de pensamento crítico é condenada como subversiva pelas elites, desqualificada como fora da realidade pelas maiorias e taxada de inconsistente pela classe média. Ferir o consenso que torna plausíveis as interpretações correntes do cotidiano e trazer à tona o que não se quer ver gera dúvida e insegurança, arrasa símbolos, faz precipitar os castelos no ar pacientemente construídos para que os olhos dos de baixo não vejam o chão onde se pisa”.
- “Então, isso quer dizer que...”, sussurra o secretário desconcertado.
- “Isso quer dizer que, para as grandes maiorias, o comum é repetir o pensamento das elites como se fosse o próprio pensamento e o único capaz de explicar a realidade. Em diferentes graus de complexidade, a maneira dominante de ver e interpretar o cotidiano da história oferece formulações que se credenciam como a maneira certa de ver as coisas e proporcionam a sensação de ter encontrado o rumo pelo simples fato de que há multidões caminhando na mesma direção e com o mesmo propósito.
Mas, para dominar, não basta desativar a capacidade de pensar criticamente. Faz-se necessário viabilizar uma visão de mundo no interior da qual as pessoas possam dar sua adesão ativa, se emocionar, propor e atuar sem sair do molde preparado e seguidamente adaptado pelos grupos no poder. Por isso, vamos tratar agora de dois elementos que os meios de comunicação não poupam esforços para consolidar:...”


















         3. O pensamento único e a lógica das emoções.


De todas as ilusões,

a mais perigosa consiste em pensar
que não existe mais que uma realidade.
Paul Watzlawick.

- “Quando analisamos o papel da mídia ao longo da história – diz a coruja ao andar de um lado pro outro da mesa – podemos distinguir quatro grandes vertentes. A primeira defende o capitalismo de maneira conservadora. Temerosa em relação ao novo, aponta o velho como caminho seguro, fortalece uma compreensão da sociedade que naturaliza a submissão à ordem vigente, concentra suas atenções em responder às críticas ao sistema e torna acessível o discurso de seus intelectuais às pessoas simples. Ao se posicionar perante o cotidiano da história, ordena a visão de mundo dominante definindo o que aceita como justo e correto, molda as demandas que vêm da base da pirâmide social para sintonizá-las com seus interesses e busca legitimar o uso da repressão sempre e quando as reações populares ultrapassam os limites estabelecidos pelos grupos no poder.
         Além de lidar com as preocupações da primeira, a segunda vertente visa apontar novos caminhos de ação, destaca acontecimentos que revelam a urgência de uma correção de rota na condução das relações sociais e, sem se opor aos interesses históricos da elite, enfatiza formas de sensibilizar e integrar setores mais amplos da população às mudanças propostas. Entre as ações conhecidas, encontramos a campanha contra a fome do sociólogo Herbert de Souza (o Betinho), os programas de responsabilidade sócio-ambiental das empresas e os mais diferentes incentivos ao trabalho voluntário em projetos dirigidos pela classe média-alta. Sob a abrangente bandeira do pare de se queixar e comece a fazer a diferença, seus promotores escondem a responsabilidade da elite na destruição do meio-ambiente, na produção da pobreza e do desemprego e fazem do cada um dar um pouco do que tem a peça-chave da socialização dos prejuízos.
         Sem esboçar uma oposição clara às duas primeiras linhas de ação, a terceira aponta suas baterias às possibilidades do viver melhor sob o capitalismo. Aparentemente igual à segunda, se distingue pelas propostas arrojadas, pela radicalidade dos termos empregados e por criticar estruturas de poder consideradas obstáculo à modernidade.
         A última, bem pequena, mas nem por isso menos importante, ainda que dificilmente consiga se fazer entender pelas grandes massas, assinala a urgência de construir uma nova ordem social da qual seja banida a exploração do homem pelo homem e atenda às necessidade de todos colocando o ser humano, e não o lucro, no centro das preocupações da vida em sociedade.
         O embate das idéias entre as vertentes revela parte da luta de classes na formação do senso comum e na consciência da realidade pelas pessoas dos mais variados setores sociais. É claro que, quanto maiores os recursos disponíveis e a capacidade de dialogar com a visão de mundo das maiorias, esta tarefa ficará mais fácil, ganhará consistência, aproximará possíveis aliados e poderá se tornar o centro a partir do qual irradiar a mudança almejada.
         Mas há um porém. Desde a queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, o debate sobre as alternativas à ordem existente é progressivamente substituído pelo pensamento que, em meio à própria esquerda, afirma o capitalismo como o único sistema capaz de criar o melhor dos mundos possíveis e, portanto, de organizar as relações humanas do presente e do futuro”.
- “Como é que um evento distante cria um divisor de águas tão importante?”, pergunta o secretário ao interromper sem cerimônias o relato da coruja.
- “O problema – responde a ave sem alterar o tom de voz compenetrado – não está no fato de ter vindo abaixo a parede que simbolizava a divisão entre o chamado socialismo real e as nações capitalistas da Europa Ocidental. As mudanças que iniciam a partir deste momento apagam os debates sobre a igualdade, a justiça social, a distribuição da riqueza, as dificuldades na construção do socialismo e a reorganização do Estado para a superação das contradições geradas pelo próprio capitalismo. Na medida em que a esquerda opta, em larga maioria, por uma adequação aos novos tempos (que a direita elogiará com o apelido de esquerda madura) o centro das atenções deixa de ser a mudança da ordem dominante para o que é pragmaticamente possível nos apertados espaços das leis de mercado. É neles que as vertentes da mídia vão definir o que está certo ou errado numa democratura onde os grandes grupos econômicos votam todos os dias, chantageiam governos e definem os rumos das nações. Enquanto isso, os cidadãos comuns, após realizar seu dever eleitoral em tempos pré-estabelecidos, são alijados das decisões que delinearão seu futuro e o destino da riqueza produzida pelo trabalho.
         Ao vencer as resistências e desqualificar quem teima em pôr o dedo nas feridas, a quase totalidade dos meios de comunicação passa a descrever as maravilhas da globalização com as possibilidades de investimento e empreendedorismo estimuladas pelas modernas relações de trabalho. Graças a estas mudanças, o indivíduo seria levado a apostar plenamente em si mesmo, não haveria mais espaço para a acomodação do estar empregado e as novas tecnologias dariam origem a uma dinâmica positiva que levaria o sujeito a aprimorar conhecimentos, aperfeiçoar habilidades, aplicar criativamente o próprio saber, enfim, a se tornar único responsável pelo próprio sucesso.
         Nesta ilha da fantasia, as luzes da mídia chamam de informalidade o que tem sua origem no descumprimento sistemático da legislação trabalhista pelos empresários; enaltecem o espírito empreendedor daqueles aos quais não sobrou outra possibilidade a não ser a de vender pipocas e cachorro-quente; e pressionam pela redução dos custos do trabalho como se, para diminuir o desemprego, bastasse ter profissionais baratos, sem direitos e passíveis de serem demitidos com uma mão na frente e outra atrás. Quando não esquecidas, as situações mais aviltantes e desumanas são condenadas em notas marginais como exceção à regra, efeito colateral indesejado, mas passível de correção nos futuros passos da modernidade.
É assim que o encolhimento dos salários até em períodos de crescimento econômico, o avanço do desemprego e da desigualdade, a redução dos direitos trabalhistas como condição para os investimentos, a destruição dos recursos locais de sobrevivência e das identidades culturais que eram fontes de resistência para grupos e indivíduos constituem as feições ocultas da aldeia global de cujas maravilhas todos falam, mas poucos têm reais condições de aproveitar. Paralelamente a isso, o Estado do bem-estar social, que colocava limites ao lucro e à exploração, é desenhado como um polvo gigantesco que tudo sufoca e apontado como fonte de atraso, ineficiência, corrupção, enfim como entrave ao progresso da nação.
         Passo a passo, a mídia em poder da elite define as características que descreve como a forma certa de pensar a realidade e os paradigmas em volta dos quais molda o debate que faz evoluir sua visão de mundo, como se nada disso guardasse relação com a estrutura política e com os interesses de classe que lhes são próprios. As mudanças em curso são apresentadas como naturais, inevitáveis, necessárias para que a humanidade faça do aperfeiçoamento do sistema a via de acesso à felicidade e tão inquestionáveis quanto a gravidade que mantém nossos pés colados no chão”.
- “Pelo visto, lá vem mais uma anestesia...”, murmura o homem ao coçar a cabeça.
- “Na mosca!”, confirma Nádia em tom nada animador. “Ao assimilar um determinado paradigma como forma correta e racional de interpretar a realidade, as pessoas aceitam como verdadeira a visão dominante sem perceber e, portanto, sem poder criticar, os fundamentos sobre os quais se sustenta o próprio paradigma e a compreensão à qual dá acesso. Em outras palavras, o olhar de leitores, ouvintes e telespectadores é estruturado de maneira a reconhecer só um determinado grupo de acontecimentos e de relações que neles se expressam. O que não condiz ou destoa desse âmbito passa desapercebido ou é entendido como elemento marginal e sem importância. Some o fato de que uma resposta criticamente pensada costuma dar trabalho e que, em geral, os paradigmas deitam raízes em elementos de senso comum vistos como verdades coletivamente reconhecidas, e não terá dificuldades em perceber porque as pessoas tendem a assimilar estes critérios de análise de forma bastante natural.
         Na medida em que o paradigma se torna o filtro pelo qual o indivíduo entra em contato com o mundo e dirige suas interpretações, o cotidiano parece ganhar uma clareza inquestionável. O que passa desapercebido ao sujeito é que o paradigma pensa por ele e faz com que encontre em suas formulações as respostas que o colocam em sintonia com os demais. Ao restringir as possibilidades de dúvida, o esquema mental oferecido leva a descartar como descabidas as críticas que lhe são dirigidas e a simples hipótese de pensar de outro modo passa a ser vista como contrária à ordem das coisas. Assim, o real já vem pensado e mastigado quanto basta para que seus fundamentos não sejam questionados e haja certo consenso em relação à sua interpretação.
Além de aniquilar o espírito crítico, a assimilação dos paradigmas como critério de verdade impede de ver as nuances e o movimento molecular da história. Estou me referindo àquele andar imperceptível a quem se mantém no papel de espectador e que, em tempos e períodos diferentes, conduzirá à superação do presente. O aprimoramento da ordem levará a elite a formular idéias, valores, símbolos, formas de comportamento e critérios de interpretação da realidade que darão vida a mudanças ou à criação de novos paradigmas. Mais uma vez, as maiorias não serão convidadas a pensar, mas sim a perceber o real de maneira automática à luz do que veio para substituir a leitura do passado e é apontado como a nova forma correta de ler a sociedade.
Aos poucos, o capitalismo deixa de ser condenável pelas contradições às quais dá origem e se transforma em algo leve, volátil, inofensivo que, sem levantar suspeitas, penetra em nós como o ar que respiramos. Em nossos pulmões, as relações do sistema oxigenam a corrente sanguínea e fornecem vida e alento de acordo com as necessidades que impõem. Quanto mais este processo ocorre de forma natural, mais as pessoas se tornam dependentes e acreditam não poder viver sem este ar ainda que, às vezes, sejam sufocadas por suas pesadas moléculas em forma de cifrão”.
- “Até que um exemplo cairia bem...”, sugere o secretário ao expressar a dificuldade de visualizar o que em teoria parece fazer sentido.
- “Desde o início da década de 90 – emenda a ave ao concordar com o ajudante –, assistimos ao crescimento do consenso pelo qual o Estado deveria passar por reformas que reduzissem seu tamanho e agilizassem sua administração, tornando-o mais eficiente em proporcionar um melhor atendimento à população. Algo aparentemente desejável, mas que os cortes implementados, por si só, se encarregariam sistematicamente de negar dando origem à percepção de que o Estado, como espaço do público, realmente, não tem jeito. Aos poucos, o consenso que ganha consistência em nosso país pode ser resumido a uma equação simples e clara: Estado = ineficiência + corrupção. Ao trabalhar esta idéia em todas as suas expressões, a mídia sustenta o paradigma que traz a solução do problema: Mercado = eficiência + virtude.
         Não há espaço aqui para avaliarmos a atuação dos governos neoliberais, os processos de privatização, as formas pelas quais o Estado continua sendo peça-chave para garantir a acumulação dos patrões e assim por diante. Em termos de análise do paradigma, ressaltamos que o elogio do mercado virtuoso convida o cidadão comum a se identificar efetivamente com ele. A pessoa de bem, honrada, que gosta de bom atendimento e se preocupa em fazer tudo direitinho, gastando o menos possível para obter o melhor resultado, só pode nutrir certo apreço pelas forças do mercado que cobram do Estado a concretização destas mesmas virtudes. Assim, o mal é sempre incorporado pelo politiqueiro de plantão, incrustado na administração pública, que atua prejudicando o povo e cujo envolvimento nos escândalos noticiados só comprova o que a mídia vinha anunciando.
         Portadora do senso comum, a pessoa de bem quer distância do que cheira a falcatrua. O pacato cidadão acredita que nada tem a ver com isso e confia em quanto o absolve de sua omissão perante os acontecimentos. É assim que, cegado pelas aparências, sequer percebe o jogo de interesses e pressões dos empresários (as chamadas forças vivas do mercado) em, praticamente, todas as decisões de investimento e de gasto do Estado. Pressões e intervenções que não se dão apenas através da mídia, mas, sobretudo, na ocupação de cargos de assessoria ministerial, nas maracutaias das licitações e, como não poderia deixar de ser, nas propinas em dinheiro vivo. A força da idéia que o mercado é paradigma de eficiência e virtude se revela no fato de que, apesar dos acontecimentos provarem o contrário, o senso comum continua atribuindo a responsabilidade pelos males noticiados a quem se deixou corromper e não ao mercado corruptor. E, mesmo nos casos mais escandalosamente evidentes, a mídia se limita a condenar a pessoa que corrompeu, mas não a identificará como integrante das tais forças vivas do mercado.
         Esta proeza pode ser constatada no mundo inteiro ao observarmos que a crise econômica de 2008 mostrou com todas as letras e números a falsidade da oposição entre Estado e Mercado sem retirar o peso que esta tem para o senso comum. Que os bancos estadunidenses tenham maquiado balanços e alimentado expectativas no setor imobiliário numa fraude de proporções planetárias não é visto como elemento que questiona as supostas virtudes do mercado, mas, prioritariamente, como falta de controles eficazes por parte do Estado. Do mesmo modo, o fato de o Estado se endividar para salvar os capitalistas da falência e socializar os prejuízos entre a classe trabalhadora não consegue ferir o paradigma do mercado como fonte de eficiência e virtude. Haja vista que, contrariando todas as evidências empíricas, a mídia atribui o déficit público assim produzido ao excesso de gastos do Estado sem dizer, obviamente, que suas causas devem ser procuradas nas medidas para salvar os agentes do mercado. Se da elite não podemos esperar outra coisa, o que surpreende é que sejam poucas as vozes críticas que denunciam esta realidade e que a maioria das pessoas que participam dos protestos ainda acredite nas virtudes do mercado para sair do atoleiro, sanar as finanças públicas e proporcionar um futuro melhor para todos”.
- “O que intriga é ver que a realidade conta pouco na forma pela qual o indivíduo a percebe e analisa”, admite o homem ao balançar a cabeça. “Sendo assim, quais são as principais idéias que a mídia alimenta na visão do senso comum quando se trata de explicar o sucesso ou fracasso do próprio indivíduo? Que critérios ela sugere para ler e interpretar um cotidiano perante o qual não se pode deixar de assumir as próprias responsabilidades?”.
         Ouvidas as perguntas, Nádia pára, apóia o queixo na asa e, após um longo suspiro, diz:
- “Quando verificamos as linhas mestras dos livros de auto-ajuda, das matérias publicadas pela imprensa e das entrevistas que circulam pela comunicação eletrônica, percebemos que sucesso e fracasso teriam como origem atitudes individuais ligadas à auto-estima do indivíduo. As condições materiais de pobreza, miséria e embrutecimento são apresentadas apenas como o pano de fundo frente ao qual as relações presentes na família, na escola, no bairro ou no trabalho podem ter falhado na hora de desenvolver no sujeito posturas positivas em relação ao presente e ao futuro. Neste processo, a injustiça social é progressivamente colocada em segundo plano pela crença de que querer é poder e acaba desaparecendo do olhar que as pessoas revelam ter sobre a realidade.
         O resultado pode ser resumido numa única frase: Você não tem culpa de ter nascido pobre, mas sim de permanecer na pobreza, pois, para sair dela, basta se esforçar, pensar positivo, acreditar nos seus sonhos, sair do marasmo, querer com tanta força que o universo acaba conspirando a seu favor. A realidade, portanto, não cria empecilhos a serem mudados com uma luta coletiva, mas é apenas um elemento com o qual se deve conviver pacificamente a fim de construir metas individuais que possibilitem afirmação, reconhecimento e visibilidade social. Por sua vez,  a auto-estima é apontada como resultado natural de uma representação positiva de si mesmo,  recompensa pelo esforço de acreditar nas próprias capacidades, sensação de vitória típica de quem supera obstáculos e adversários, mas quase nunca como algo que contempla o outro em termos de justiça, respeito, atenção desinteressada às suas necessidades ou envolvimento numa causa coletiva que ultrapasse os limites traçados pelos grupos no poder”.
- “E como isso é possível?”, pergunta o homem ao estender os braços como quem pede ajuda.
- “Quando observamos atentamente as publicações, os depoimentos veiculados nos programas do rádio, da tv ou pelos sites da internet, percebemos que a definição de modelos e critérios gira em torno de três peças-chave: os símbolos de sucesso, a lógica do mérito e a reafirmação de que não há nada mais pessoal do que a forma pela qual o sujeito vê e interpreta a realidade em que vive.
Em primeiro lugar, trata-se de definir o que pode ser visto como exemplo de sucesso ou de fracasso. Para que modelos e símbolos cumpram esta função através da mídia, é necessário que o indivíduo também lhes atribua este significado por ver neles uma espécie de conduta superior, que vale a pena imitar e à luz da qual seus objetivos ganham legitimidade diante do mundo externo e da própria consciência.
No passado, isso só seria possível em relação a pessoas cujas vidas, opções, idéias e valores passaram pelo crivo da história, resistiam à prova do tempo e cuja notoriedade não se devia a uma exposição pública momentânea, e sim a fatos que evidenciavam posturas éticas em relação aos demais. Falaríamos, sobretudo, de gente no campo da política, da ciência, da medicina, da arte ou de movimentos sociais que marcaram a história.
O problema é que esse tipo de personalidade não só anda escasso nos tempos que correm, como representa um perigo para uma elite que vê a atuação de qualquer grupo fora do seu controle como ameaça e trata de administrar o cotidiano das relações sociais envolvendo as pessoas no manto de um conformismo servil. Sendo assim, não é de estranhar que os meios de comunicação não apostem em personalidades de autoridade moral elevada ou cuja prática questiona as linhas mestras da ordem atual. Se, de um lado, a fugacidade do espetáculo não espera que a história reconheça a trajetória dos que podem ser apontados como exemplo de vida, de outro, ela prefere algo passageiro, firme quanto basta para dialogar com o senso comum e descartável o suficiente para que possa ser retirado da mídia caso o modelo escolhido enfie o pé na jaca.
A autoridade moral historicamente construída cede o lugar às celebridades da música, do espetáculo, do esporte, da moda ou de alguma expressão cultural em volta da qual já há seguidores, fãs, imitadores e aduladores que revelam algum grau de reconhecimento social. Sem uma história prenhe de sentido e questionamentos para a sociedade, a celebridade midiática prima pela falta de originalidade e pela junção pura e simples de sucesso fugaz e visibilidade, o que faz do seu potencial para entreter, emocionar e satisfazer a curiosidade do público o elemento central de sua fama. Entrevistadas sobre as razões do sucesso, suas respostas trilham um caminho bastante previsível e podem ser resumidas ao começar de baixo, ralar para conseguir, seguir o coração, confiar na intuição, ter fé, deixar fluir a emoção, não se intimidar diante dos outros, correr atrás dos próprios sonhos, acreditar em si mesmo, trabalhar na certeza de alcançar os objetivos desejados e manter o alto astral. Nada diferente do que todos sabem, mas precisam voltar a ouvir para acreditar no que a realidade lhes nega incessantemente.
No que diz respeito ao mérito, o senso comum é portador de uma crença bastante enraizada pela qual aqui se faz, aqui se paga. Fruto de uma suposta ordem sobrenatural que castiga ou premia segundo as ações do indivíduo, as pessoas acreditam que o sujeito tem o que merece e merece o que tem. Ainda que a troca de bom comportamento por futuro sem sofrimento venha a ser recebida como fonte de injustiça pelo eu não merecia isso pronunciado por quem se depara com o inesperado, a idéia de que a vítima é sempre culpada pelo seu destino não costuma levar as pessoas à solidariedade ou a avaliar as razões objetivas daquela situação, mas sim à inércia, ao afastamento ao não somar forças em volta do que, muitas vezes, é comum à maioria.
Sobre esta percepção popular, o espelho da mídia projeta uma imagem do mérito que naturaliza a desigualdade com base no esforço de cada um sem qualquer relação com a realidade da classe social a que pertence. Isto é possível porque há um pano de fundo consensual pelo qual o valor dos seres humanos depende do que fazem e de sua força de vontade para melhorar o próprio desempenho, mas não por serem, simplesmente, seres humanos. Por esta lógica, a escada, em cujas extremidades estão o sucesso e o fracasso, tem cada degrau definido pela soma de salário, status e prestígio como concretização do mérito individual. Quanto mais embaixo estiverem os degraus, menos encontramos razões de merecimento e respeito.
Desta forma, a classe social e a situação em que os indivíduos cresceram são eliminadas da relação com o sucesso alcançado. Sem avaliar estes elementos como estímulo ou freio ao desenvolvimento pessoal, a vontade do sujeito ganha poderes soberanos e faz o mérito legitimar a desigualdade. Afinal, parece sempre líquido e certo que só quem se esforça de verdade consegue alguma coisa, independentemente de ter iniciado a corrida da vida contando com equipamentos de última geração ou com as correntes da pobreza nos tornozelos.
O que a mídia esconde é que não há talento inato ou característica individual que, na quase totalidade dos casos, independam de ter nascido numa família estruturada onde certas habilidades foram transmitidas por mecanismos de identificação afetiva e exemplos diários. Quanto mais abastada a família (ou seja, quanto mais sua riqueza vier da exploração do trabalho alheio) melhores condições ela reunirá para fazer com que filhos e filhas incorporem a disciplina, a capacidade de concentração e o pensamento prospectivo que possibilitam o sucesso escolar, antes, e a afirmação no mercado de trabalho, depois.
Na medida em que as maiorias se convencem de que alguém que ocupa o topo da escada merece ganhar um salário 50 vezes maior graças aos esforços despendidos no passado, a dominação tem no mérito individual um forte aliado para sua legitimação. Esta façanha é possível porque, apesar de pobreza e miséria estarem diariamente sob nossos olhos, as causas e as condições materiais que as produzem e asseguram sua continuidade não são igualmente visíveis. Por isso, para o senso comum, basta que um em mil tenha conseguido sair da classe trabalhadora para acreditar piamente na viabilidade desta possibilidade para os 999 restantes.
Esta visão nos leva a entender melhor os propósitos irrealistas baseados no otimismo do desejo, na confiança de que o simples acreditar pode trazer sorte no futuro e na fé de quem entrega tudo nas mãos de Deus. Ao contrário do que se costuma pensar, estas não são meras expressões de uma ilusão irracional, mas sim formas de lidar com as discrepâncias entre as expectativas subjetivas em relação ao amanhã e a baixa probabilidade de obter o sucesso almejado. Sonhos e anseios irrealistas funcionam como uma espécie de defesa psíquica, como forma de auto-engano para que o marginalizado possa continuar se sentindo vivo, acreditar que basta seu esforço para sair do atoleiro e não sucumbir ao desespero dos que se vêem sem futuro. Fantasiar não é só uma forma de fugir do sofrimento trazido pelo presente, mas a busca do caminho mágico da emoção para substituir o que é negado pela razão. Patrocinada pela percepção de que o mérito faz recair sobre o sujeito a responsabilidade pela situação em que se encontra, a sensação de que passado e presente se apresentam fechados e sem chances é substituída pela expectativa em relação ao futuro, visto como aberto a todas as possibilidades e terreno fértil para confiar até no impossível.
Ao emocionar, a mídia dialoga com o pensamento mágico do senso comum e confirma que suas chances futuras de fazer para vir a merecer permanecem intactas. É assim que as pessoas são tomadas por uma certeza tão íntima e arrebatadora que só pode ser verdadeira; tão forte e intensa a ponto de se tornar contagiante; tão transparente e cristalina que turva a visão e desativa a reflexão. E, como as reações emocionais sempre precedem a percepção consciente do pensamento, este último ganha doses de tranqüilizantes para continuar dormindo profundamente”.
- “E, quanto ao terceiro aspecto?”, pergunta o homem após um breve silêncio da coruja.
- “O último elemento pelo qual o campo da emoção dispensa a realidade e atribui ao indivíduo a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso está em relacionar as emoções a algo tão pessoal que parece não guardar relação com o mundo externo, mas só com a própria forma de ver a vida.
A base desta percepção está no fato inegável de que qualquer situação do cotidiano é assimilada e vivenciada de forma diferente pelos membros de uma mesma família ou de um grupo social. O que as pessoas raramente percebem é que até suas escolhas mais íntimas e recônditas, como preferência por carro, tipo de música, corte de cabelo, cor da roupa, escolha do parceiro sexual etc., são guiadas por fios invisíveis que as unem a interesses e práticas de determinados setores sociais cuja influência foi imperceptivelmente exercida ao longo do tempo. Ditos fios interligam e cimentam gostos, afinidades, simpatias, redes de solidariedade, antipatias, preconceitos e formas de identificação que viraram hábitos, maneiras de ser e de viver frente às quais já não é possível ver a origem de classe e que, por isso mesmo, as pessoas acreditam se tratar de algo que está nelas desde sempre. Quando tudo desaparece por trás do que chamamos de o meu jeito de ser, torna-se muito difícil fazer o inventário que permite tomar consciência de quanto a globalização, o mercado, as relações de trabalho e de propriedade influenciam nossas escolhas, ações, rotinas, regras, sonhos, ilusões e, obviamente, critérios de análise.
Dispensada a realidade material e convencido o indivíduo de que tudo depende do seu esforço, a gestão das emoções pelos meios de comunicação torna-se a maneira mais fácil de guiar o comportamento individual e coletivo. Agora, qualquer novela, propaganda, entrevista, etc., pode apontar novos hábitos, criticar preconceitos, introduzir mundos e gostos desconhecidos, manter ou fazer evoluir a realidade de acordo com as demandas do mercado num processo ininterrupto pelo qual o que hoje é chique e na moda, amanhã será visto como cafona e ultrapassado pela mesma mídia que o havia divulgado. O que importa é fazer as pessoas se sentirem no comando, com sua auto-estima elevada, centradas em si mesmas e na busca de uma maior visibilidade social”.
- “Sendo assim, não sei onde vamos parar...”, comenta o secretário perplexo.
- “Simples, querido humano de cabeça grande e neurônios preguiçosos. Quando indivíduos e grupos se convencem de que a solução dos problemas sociais está no esforço e na vontade de cada um, a injustiça social desaparece da visão sobre o cotidiano viver em sociedade. Sem ela, não há sentimentos de indignação e, de conseqüência, possibilidades de uma ação coletiva destinada a denunciar e destruir os mecanismos que a alimentam. As vítimas da miséria, do desemprego e da marginalização são sumariamente colocadas no banco dos réus por um indivíduo convencido que as chances de sucesso são iguais para todos e que se alguém é incapaz de sair do atoleiro, isso se deve à sua acomodação, incompetência ou falta de compromisso com a própria realização pessoal.
Some isso à convicção do senso comum de que os acontecimentos não são produzidos por forças sociais ativas e pela omissão dos demais, mas são frutos do acaso, e entenderá porque ninguém se sente responsável pelo que ocorre na sociedade. Sem a percepção da injustiça social, a omissão do sujeito na produção da convivência diária não tem condições de vir à tona. Diante dos problemas, o portador do senso comum busca incessantemente um culpado apenas como forma de se eximir de qualquer responsabilidade ou alega, pura e simplesmente, que não sabia de nada. Esta postura não altera a ordem das coisas, expressa distanciamento de qualquer ação que eleve a sensação de insegurança do sujeito e entrega à elite um cheque em branco para que ela continue moldando a percepção que o povo tem da realidade”.
- “E como é que isso pega?!?”, perguntam os lábios ao expressar a raiva que vai aflorando.
- “Quando falamos em emoção, auto-estima e atitudes positivas perante a vida como explicação do sucesso e do fracasso – diz Nádia ao desenhar círculos no ar – admitimos implicitamente que toda iniciativa do indivíduo destinada a melhorar sua sensação de bem-estar é aceita como naturalmente positiva. Assim, vai se fortalecendo a idéia de que o sujeito deve tornar-se paladino de si mesmo, evitar compromissos que o levem a descuidar de si, fazer com que sua felicidade dependa apenas de suas escolhas, agindo em relação aos demais com a atitude de um beija-flor que extrai vorazmente o que precisa e deixa involuntariamente um pouco de bem.
         Esta posição dialoga abertamente com uma das características centrais de qualquer ser humano: a expansão de si mesmo na construção de imagens que o façam sentir uma pessoa de valor diante do olhar alheio. Neste processo essencialmente individualista, o portador do senso comum se convence de que tudo o que é benéfico ao sujeito é benéfico à sociedade e projeta esta mesma visão nas relações sociais. Não por acaso, o aumento da riqueza, seja qual for o seu beneficiário, é tido como critério de bem comum; o lucro do empresário deixa de ser visto como fruto da exploração do trabalho para se tornar um elemento que confirma a saúde da empresa na convicção de que um país só é forte quando tem empresas fortes.
         Graças a este processo, a atuação da mídia permite que o capitalismo conquiste uma legitimidade sem precedentes. A harmonia que se estabelece entre o senso comum do indivíduo e a ordem social na qual ele vive é tamanha que só uma situação traumática pode sacudi-lo do torpor em que se encontra. Com o pensamento anestesiado e a lógica da auto-estima em sintonia com o desejo de realização individual, as pessoas simples chegam a justificar comportamentos antiéticos, a eliminar sentimentos de culpa ou vergonha oriundos de responsabilidades coletivas não-cumpridas e a naturalizar a visão pela qual o outro é mais um concorrente perigoso do que alguém com o qual somar esforços numa causa comum.
A relação com os demais passa a ser marcada pela indiferença e a desconfiança de que o outro pode decepcionar e os laços estabelecidos se tornam passageiros e descartáveis. Para se sentir bem e tentar ser aceito, basta que o sujeito partilhe momentaneamente sentimentos que criam um vínculo emotivo superficial, sem qualquer compromisso mais sério. A fragilidade deste vínculo produz tanto uma sensação de liberdade como de constante insegurança exatamente porque é possível falar com todos, mas não contar com ninguém. Quando esta atitude se torna rotineira, ela ultrapassa a fronteira das relações pessoais e invade o campo da política onde a conquista do coração do eleitor faz princípios e linhas de atuação caírem em segundo plano transformando o candidato em camaleão que muda de cor a depender do ambiente em que se encontra”.
- “Pára tudo! Você está querendo dizer que a emoção pode cegar nossos olhos a ponto de fazer-nos trocar vaga-lumes por faróis de milha?!?”, prorrompe o ajudante entre a surpresa e a indignação.
- “Ora, meu querido – diz a coruja em meio a um sorriso maroto – se prestar atenção às campanhas eleitorais, vai perceber o cuidado dos candidatos com a imagem veiculada pela mídia. Sabendo que 65% da comunicação acontece sem o uso das palavras, o negócio, então, é convencer o possível eleitor mostrando que os valores e as atitudes do político em questão coincidem com as suas. Abraços, beijos, apertos de mão, referências à família ou ao próprio passado, quando isso cativa o público alvo e dialoga com suas condições de vida, tudo vale para transmitir uma forte impressão de calor humano e carga emotiva.
No lugar de debates sobre projetos e idéias que mudarão o cotidiano das pessoas, o centro da campanha é ocupado pela empatia com o eleitor através de sentimentos, símbolos, gestos e situações que são parte do seu dia-a-dia e despertam a sensação de estar sendo entendido em suas angústias e vontades de mudança. O vínculo que se procura estabelecer passa fundamentalmente pela lógica da realização dos desejos, pois os eleitores não costumam votar no candidato que expõe idéias razoáveis para os problemas cotidianos, mas sim naquele cuja imagem, mote e campanha, ao cativar sentidos e emoções, fez experimentar uma confiante sintonia com suas vivências diárias.
Do mesmo modo em que, entre indivíduos, basta partilhar momentaneamente um sentimento para criar um vínculo, numa campanha eleitoral ocorre algo parecido. Onde não há envolvimento na luta social, o interesse pelo que as pessoas estão sentindo e a explicitação das emoções em jogo produzem sensações que levam o povo a considerar as expressões do candidato como indicador de um pensar iluminado e de compromisso implícito com o interesse coletivo. O que importa é o instante que proporciona a sintonia do discurso com o sentir do público-alvo e projeta os anseios populares a um passo de sua realização, ou seja, a um número a ser digitado na urna eletrônica.
Se alguém ainda estiver em dúvida, as pesquisas de intenção de voto se encarregarão de influenciar os indecisos ao lembrar-lhes o desejo da maioria, aspecto do senso comum pelo qual a voz do povo, como voz de Deus, expressa o que é correto e verdadeiro. O alinhamento com o pensamento da multidão ocorre na medida em que a sensação de isolamento leva o indivíduo a duvidar dos próprios sentimentos e da leitura que faz da realidade. Para quem não possui sólidos critérios de análise e uma opinião capaz de enfrentar as contrariedades, não se destacar e aceitar o pensar da maioria é fonte de alívio, segurança e conforto. E é justamente desta vontade de renunciar à própria independência, de trocar o testemunho e as reflexões pessoais pela sensação de estar em harmonia com os demais que se nutrem os demagogos.
Além da despolitização da escolha, o que dissemos explica também porque, realizada a posse, ou seja, encerrado o período do brincar com o imaginário popular, a maioria dos eleitores se decepciona com o candidato escolhido. O ter optado por alguém que fez saborear a realização de um desejo e não por um sujeito de ação política real leva a tamanha frustração que, frequentemente, o cidadão sequer assume ter votado naquele estrupício e, pesquisado pela mídia, prefere declarar que não lembra em quem votou”, conclui Nádia ao deixar que o silêncio ajude a encaixar os fragmentos de reflexão trazidos por suas palavras.
         Lentamente, o secretário termina de escrever a última frase. Dúvidas e inquietações ganham asas diante do paciente trabalho de desvendar o que se esconde por trás do biombo das aparências.
- “Vem mais surpresa por aí?!?”, perguntam os lábios ao sondarem o caminho a ser percorrido.
         Balançando afirmativamente a cabeça, a coruja pisca os olhos e com voz pausada sugere:
- “Até agora, pouco falamos do impacto da propaganda na formação do consenso social. A nossa intenção não é a de analisar os comerciais veiculados pela mídia e sim as mudanças que estes produzem no senso comum. Por isso, vamos nos concentrar na...”


















         4. A aparência que transforma o ter em ser.


A massa mantém a marca,
a marca mantém a mídia
e a mídia controla a massa.
George Orwell.

- “Não é de hoje – diz Nádia ao levantar a asa esquerda – que a publicidade veiculada pelos meios de comunicação é um recurso indispensável para ampliar as vendas e assegurar o escoamento das mercadorias. O que nos interessa, porém, não é reafirmar que a propaganda é a alma do negócio, e sim desvendar as bases sobre as quais se apóiam as técnicas de aliciamento dos compradores e os aspectos que moldam o consenso social. Junto a celulares, carros, roupas, cervejas, cosméticos, cartões de crédito, etc., a publicidade vende sonhos, valores, idéias e atitudes. E o faz mostrando seus produtos como a chave para um ideal de realização pessoal, algo a ser desejado tanto em termos de bem-estar, como de elevação da auto-estima.
Neste processo, nada é casual. Apuradas pesquisas de marketing fornecem à criatividade dos publicitários os símbolos e meios mais eficientes para lidar com os desejos ocultos do inconsciente, mobilizando aspectos que a maioria das pessoas teria certo receio em expressá-los publicamente. Em seguida, os profissionais desenvolvem um roteiro de palavras, sons e imagens que, ao apresentar o objeto anunciado como fonte de satisfação e prazer, faz o inconsciente trabalhar para o lucro do capital. O sucesso de um comercial está em vincular um ideal de felicidade à posse de mercadorias capazes de atender as demandas do inconsciente e, portanto, ao que o indivíduo tem de mais íntimo.
Quanto mais natural parecer este vínculo, mais aumenta o impulso para consumir e melhores são as chances de sustentar o desejo num processo que se auto-alimenta. De fato, não há mercadoria que, por si só, seja capaz de trazer a felicidade. Prova disso, é que bastam alguns aperfeiçoamentos ao que já existe para semear a insatisfação com necessidades antes desconhecidas e estimular a ida às compras para preencher a lacuna entre a renovada sensação de falta e a plenitude proposta pela publicidade. O consumismo da nossa sociedade não se sustentaria por muito tempo sem esta base que leva as pessoas a redefinir o que promete momentos felizes por caminhos rápidos e acessíveis.
Por isso, a propaganda não se limita a veicular as características de uma mercadoria, mas dialoga com a fantasia e a emoção dos possíveis compradores, busca os pontos sensíveis do inconsciente, transforma o desejo em necessidade e apresenta o todo como tendência de mercado para que o senso comum não duvide de sua importância. É esta dinâmica que, ao elevar o retorno dos empresários, garante o faturamento da mídia, expande suas chances de crescimento e permite ampliar o controle sobre a massa.
Longe de se basear em verdades filosóficas, os mecanismos que descrevemos reafirmam a visibilidade como caminho para a felicidade. Ao manipular o emocional das pessoas, os comerciais participam diretamente da gestação, manutenção e reprodução de um indivíduo cuja busca solitária de realização não se limita a ter o que lhe é útil, alivia sua fadiga diária ou é carregado de valor afetivo, mas procura incessantemente algo que promete destacá-lo na massa.
A mercadoria consumida expande sua importância imediata diante do inconsciente ao fazer o indivíduo perceber que pode se servir dela para subir algum degrau da escada para o sucesso. Desta forma, o produto não proporciona apenas momentos de prazer, mas agrega valor social ao seu portador. Para quem está na base da pirâmide social, a compra vira sinônimo de dignidade e passa a ocupar o lugar antes destinado a posturas éticas e valores. Para os do topo, serve como prova de distinção social, de crachá que identifica quem venceu na vida e merece o que tem.
Do que compõe a aparência pessoal (como tênis, roupas, brincos, anéis, cosméticos, cortes de cabelo, etc.) a carros importados, viagens ao exterior e mansões luxuosas, nos deparamos com uma enorme variedade de mercadorias que prometem níveis diferentes de bem-estar, elevação da auto-estima e reconhecimento num mundo onde a grife atesta a valorização do indivíduo e o eleva sobre a massa. O objeto do desejo não é o sapato que permite caminhar sem machucar os pés, mas a marca, o logotipo, o símbolo pelo qual o sujeito, na pior das hipóteses, sente poder se afastar da marginalização em que se encontra e, na melhor, recebe as boas-vindas ao seleto grupo dos que alcançaram o sucesso”.
- “O que eu continuo sem entender é o pressuposto pelo qual o consumo, como caminho para a felicidade, ganha uma dimensão tão grande e inquestionável a ponto de fazer com que tudo pareça imprescindível...”, comenta o homem ao balançar a cabeça.
- “Como vimos no capítulo anterior, o ponto sobre o qual se apóia a estratégia da mídia já está em cada ser humano como parte das características da espécie: a expansão de si mesmo diante do olhar do outro. É no espaço público que o outro nos vê; pode nos apreciar ou detestar; costura relações de classes e de poder que integram e marginalizam em diferentes graus; elogia ou condena nossas atitudes, idéias e valores; permite que saíamos da insignificância de ser apenas mais um na multidão ou nos relega a ela com o seu silêncio. Obviamente, quando falo do OUTRO não aponto alguém em particular, mas a variedade de sujeitos, coletivos, grupos, organizações e redes sociais com as quais cada um tece vínculos dentro e fora do ambiente familiar.
Trata-se, portanto, de um olhar que é, ao mesmo tempo, individual e coletivo; julgador, solidário ou marginalizador; enaltecedor ou humilhante. Mas é ao apresentar a própria imagem no espaço público que o ser humano sente que existe, procura um sentido para a própria vida e constata se esta faz alguma diferença perante os demais. Para isso, não basta exibir uma aparência agradável, pois as relações de poder não se estabelecem nem se desestabilizam com belas imagens, mas exige-se do sujeito que não se furte a pôr as mãos na massa. O exercício do poder no espaço público pode até prescindir da visibilidade imediata, mas demanda uma atuação constante na manutenção ou alteração das relações sociais, um intervir na vida diária cujos efeitos se produzem na conjunção de discurso e ação.
É fácil perceber a veracidade do que acabamos de dizer quando observamos a figura de um parlamentar de destaque, de um líder que dirige um movimento ou representa os interesses de algum setor da sociedade, de um profissional gabaritado, enfim de alguém que faz a diferença, é capaz de virar o jogo ou alterar o rumo dos acontecimentos. Mas isso é para poucos. A questão que o portador do senso comum coloca a si mesmo diz respeito a que ações lhe são acessíveis para que sua existência se insira no campo do OUTRO e o salve do anonimato. O pacato cidadão que vive em grandes cidades, sem uma identidade cultural definida e num formigueiro humano onde ninguém conhece ninguém, se pergunta angustiado que tipo de expansão pode realizar neste ambiente. Ciente de que o salário limita os recursos disponíveis e de que sua visão de mundo o aconselha a se manter inerte diante dos fatos, como alguém que deixa e espera acontecer, o desafio é justamente o de realizar o máximo com o mínimo esforço.
Para muitos, seguir um líder costuma ser o atalho para sair da condição de Zé Ninguém. É no líder que o indivíduo projeta desejos e sonhos por identificar nas idéias, valores ou atitudes do modelo escolhido a expressão de seu anseio de visibilidade. Pouco importa que se trate de um ídolo da música, do mundo do espetáculo, do esporte, da política ou de qualquer outro âmbito da vida em sociedade. O importante é que imitar o ídolo por um meio qualquer seja sinônimo de assumir uma identidade pública e se destacar na multidão. Alguns optarão por um corte de cabelo que desperte como apelido amigável o nome do imitado, outros por uma foto na camiseta, um broche, enfim, pelo que pode fazer com que o sujeito não é apenas mais um na massa.
Esta postura ganha novas possibilidades na medida em que a mídia aponta modelos para todos os gostos, idades e bolsos. A sensação de realização torna-se tão palpável quanto maior for a divulgação da figura de destaque, a importância que as pessoas depositam nela e as chances de se apropriar de traços da sua identidade. Esta dinâmica produz uma vertigem positiva e um entusiasmo que fazem abdicar de qualquer espírito crítico em nome da própria visibilidade”.
- “E... qual é a relação disso tudo com a publicidade?”, pergunta o homem intrigado.
         A ave sorri e, ao se aproximar do ajudante, responde:
- “Se analisar as propagandas, vai perceber que seu objetivo é justamente o de estimular uma idéia de realização pelo caminho das aparências pessoais. Meio para a visibilidade e passo em direção ao reconhecimento, a compra do que leva à felicidade almejada depende apenas do abrir a carteira. Se realmente você deseja ser visto e sair do anonimato, então, largue de ser mão-de-vaca, passe o cartão de crédito na maquininha e realize o desejo com o qual pretende atrair o olhar alheio. Tudo em seis ou até doze vezes sem juros. O que assanha e satisfaz o anseio das multidões é saber que a felicidade não depende do SER, ou seja, de um longo e difícil percurso a ser trilhado por um portador de valores éticos que fala e age com coerência e sem excluir os demais do âmbito de suas preocupações. Há uma felicidade imediata, acessível e progressiva que pode ser alcançada pelo TER, ou seja, por um caminho rápido, descomprometido e viável até para quem só pode comprar a prestação ou se contenta com imitações convincentes.
         Na medida em que o processo começa no ato do consumo e o importante é aparecer, dar um show entre os conhecidos é algo que dispensa a preocupação com o OUTRO enquanto sujeito, colega, membro da mesma classe social e vítima de injustiças comuns. Ser visto não depende mais de atitudes que enfrentam as contradições e mudam pra melhor a vida coletiva, nem da imitação de figuras de destaque que exigem compromisso. Basta estar por dentro do que é considerado na moda, renovar seguidamente a própria imagem, adequar o gosto ao que é visto como de bom gosto, ainda que isso signifique lutar de chapinha na mão contra a natureza dos próprios cabelos. Bom... isso... até que um punhado de famosos afirme que bonito mesmo não é o liso e sim o caracolado...
A identificação com os modelos da mídia é simplificada pela posse de uma mercadoria ou de símbolos que, ao diferenciar os seguidores como um uniforme, sejam sinais de distinção. E isso não com base em valores ou virtudes e sim em seu contrário. Afinal, um pouco de egoísmo, de luxúria, cobiça, inveja, preguiça, gula ou ostentação não faz mal a ninguém, diz e repete a mídia em suas propagandas. Mais uma vez, não se trata de inventar nada, mas apenas de fazer aflorar os instintos presentes em cada um e manipulá-los cuidadosamente para que sirvam de estímulo ao consumo sem ofender a sensibilidade que provocaria a rejeição do senso comum.
Para o ciclo da mercadoria se completar envolvendo multidões, a imagem  diante do olhar alheio ganha um lugar de destaque. Para conquistá-lo, vale absolutamente tudo: se endividar, abrir mão dos próprios gostos, apagar a singularidade ética que nos distingue, disfarçar as diferenças étnicas e vestir o uniforme da moda”.
- “Parece impossível que tamanha superficialidade ganhe a força que suas palavras apontam...”, comenta o secretário ao fixar o olhar no rosto da coruja.
- “O que suas grossas lentes ainda não permitem enxergar é que a mídia consegue esta proeza ao transformar a banalidade em espetáculo. Na medida em que os seres da sua espécie fazem do consumo o caminho rápido para a felicidade, a vida se banaliza, as relações se tornam superficiais e o que gera um sofrimento previsível é rejeitado de antemão. Neste contexto, a busca de sentido para a própria existência precisa ver transformar em espetacular o que é fútil e rotineiro. E é justamente a necessidade de valorizar o que é vazio e não dá sentido à vida que sustenta o sucesso dos Reality Shows. Apresentados como shows da vida, interpretados ora por artistas decadentes, ora por pessoas que refletem em seu corpo e atitudes o que é ditado pelo mercado e é parte do senso comum, estes programas proporcionam um salto de qualidade na aceitação da banalização como algo natural e próprio dos seres humanos.
         Presos num ambiente onde há tudo o que alguém pode desejar, seus participantes se entregam a uma convivência vazia, animada por uma concorrência feroz e cujas provas, gincanas, festas e demais intervenções dos organizadores comprovam que as pessoas podem sempre se rebaixar um pouco mais em termos de perda da dignidade. Num ambiente requintado que representa o ideal de milhões de telespectadores, a vida do grupo se passa entre fofocas, insinuações, mexericos, tédio, rivalidades escusas, traições, momentos de prazer, diversões, cuidados com o corpo, situações destinadas a ganhar a simpatia do público e a projetar a própria imagem.
         Repetida à exaustão, esta dinâmica cumpre um duplo papel. De um lado, faz com que a falta de ética em nome do prêmio em dinheiro reforce a convicção de que todo homem tem seu preço, tão cara à elite que precisa dela para justificar suas práticas ilícitas, e consagra a imagem do indivíduo focado em si mesmo, para o qual as pessoas são mais objeto do que sujeito. De outro, estes programas transformam em espetáculo os desejos inconfessáveis e as mesquinharias costumeiramente reprimidas pelas normas de decoro e bom comportamento, vendem como natural a imagem da selva em que a concorrência transforma as relações humanas e fazem com que uma vivência esvaziada de sentido seja alçada a modelo digno de projeção nacional por meses a fio.
Perdida a importância do intervir para mudar a ordem social, o espetáculo que consagra a banalização da vida como caminho para a felicidade desperta emoções, levanta torcidas, traz para a tela um homem-massa que se orgulha da experiência de perder sua dignidade. Quando vale tudo para aparecer, participar das próximas edições torna-se objeto do desejo de multidões, prontas a se submeterem a esta lógica perversa e a fazerem dela motivo de reconhecimento e auto-estima.
- “Quer dizer que, de corpos esculturais a baixarias, o propósito é o de cativar o olhar e nos deixar felizes ao ver que aspectos insignificantes ou condenáveis do dia-a-dia viram espetáculo?”, indagam os lábios ainda incrédulos.
- “Sim, mas este é só o começo!”, alerta Nádia ao cobrir a mão do ajudante com o calor da asa. “Na medida em que a imagem dos participantes é usada pela mídia como prova de sua visibilidade, o corpo é reafirmado como meio privilegiado para conquistar as atenções. A imagem corporal estimula o portador do senso comum a apostar nela como passo acessível e necessário para atrair os olhares. Elevado a espetáculo, o desejo de visibilidade alimenta a aposta em academias, dietas, alimentos especiais, intervenções cirúrgicas e bioquímicas que transformam em filão de negócio o que ontem viria de forma controlada como recomendação médica.
Neste processo dirigido pelo mercado, o corpo se torna um fim em si mesmo e a preocupação com a exterioridade um aspecto essencial do cotidiano. Ao transformar o indivíduo em escravo do espelho, a produção de um físico malhado, sarado ou siliconado dá origem a um círculo vicioso do qual não é fácil escapar, pois há sempre algo a retocar em função do estresse, do envelhecimento, dos padrões de beleza ou dos resultados prometidos pela propaganda dos novos cosméticos. Ao brigar com a própria imagem, o sujeito mergulha numa insatisfação permanente que o leva sempre a procurar algo novo, capaz de atrair olhares e elevar a auto-estima com base em elementos perigosamente superficiais e passageiros.
Aliado aos mecanismos descritos nas páginas anteriores, o egocentrismo assim desenvolvido faz com que o dar a própria adesão a uma causa que demande desprendimento seja algo raro e improvável. Mesmo quando o indivíduo é vítima da injustiça, a relação com o OUTRO não desperta sentimentos de proximidade por se tratar de algo que pende como ameaça sobre as cabeças de todos e precisa da união e do companheirismo como bases essenciais da ação coletiva. Esta relação ganha alguma relevância apenas quando aparece como promessa de satisfação do próprio EU. O compromisso com os demais deixa de se vincular à busca de direitos coletivos numa luta comum, despertada pela indignação e sustentada por uma idéia de justiça, para se diluir no frio cálculo de ganhos e perdas individuais. O cotidiano é pródigo em mostrar que se envolver num movimento como caminho mais rápido para os próprios sonhos não rompe o individualismo, não questiona a visão do sujeito como paladino de si mesmo, mas tende a reafirmar o indivíduo como centro inquestionável das atenções e das decisões a serem tomadas, ponto de partida e fim da ação coletiva. Prova disso é que a dúvida antes de cada simples gesto de solidariedade é sempre a mesma: Será que ajudar os outros pode me prejudicar?
Este processo impede que as contradições do dia-a-dia sirvam de questionamento e estímulo à reação e faz com que se integrem com naturalidade à lógica do espetáculo que já descrevemos. Se aprender a dizer NÃO às injustiças aliando o próprio repúdio ao dos demais é algo que exige compromisso, desprendimento e pode ser fonte de sofrimento, o jeito, então, é torcer para que as mesmas injustiças sejam objeto de reportagens, denúncias, entrevistas ou desabafos em algum meio de comunicação. Com o tempo, a mídia torna-se porta-voz de uma massa crescente de indivíduos que, no papel de espectadores instalados nas poltronas das respectivas salas, são incapazes de transformar em ação o desejo de mudança. Ao fortalecerem-se como mediadores confiáveis de sua situação, os meios de comunicação ampliam sua influência e aparente neutralidade diante do senso comum, apesar dos interesses de classe por eles representados”.
- “O que você diz é assustador. Agora, será que a lógica do ter para ser entrou também nos ambientes de trabalho?”, pede o homem perplexo.
- “Para responder à sua indagação, precisamos antes resgatar as orientações gerais que a literatura empresarial aponta na hora de envolver os empregados em projetos da empresa, estimular sua motivação e trabalhar o sentido atribuído ao cotidiano em passos que levem o sujeito a sintonizar seus valores com os entendimentos desejados pela gerência.
Em primeiro lugar, vale a pena sublinhar que nenhum texto esconde a ampliação do lucro como objetivo fundamental de qualquer política de recursos humanos. As preocupações giram em torno do como justificar o porquê é necessário obtê-lo, dos argumentos para rebater eventuais críticas dos subordinados e desfazer suas dúvidas, das razões que levam a incorporar as metas empresariais num processo que legitima a hierarquia e proporciona a lealdade dos funcionários. O exercício do poder no local de trabalho deixa de ter o autoritarismo como núcleo de suas práticas para privilegiar o convencimento e a adesão ativa dos empregados às demandas da empresa.
Obviamente, o caminho para a produtividade não dispensa formas paternalistas e disfarçadas de coerção, mas aposta no dialogo com os projetos individuais dos empregados para ganhar seu compromisso e dedicação. Trata-se de mostrar como os planos de cada um não deitam raízes em interesses opostos aos da empresa, mas, ao contrário, ganham fôlego ao se vincular às metas e à missão desta. Longe de ser um inferno a ser suportado em nome da sobrevivência, o local de trabalho é proposto como espaço que mobiliza idéias, vontades e energias para que o empregado se sinta valorizado, eleve sua auto-estima e saboreie o gostinho da auto-realização ao direcionar seus esforços às demandas da empresa. Neste ambiente, o rumo traçado pela gerência não é percebido como uma imposição que desperta temores, mas sim como algo natural, afinal, para o senso comum, só quem sabe e demonstra entender os subordinados merece crédito e confiança.
A peça-chave para o sucesso de uma política de recursos humanos desenhada nestes moldes está em criar espaços reais de participação que produzem certa identidade entre aspirações individuais e demandas empresariais. Para que a adequação do quadro de funcionários possa ocorrer de forma eficiente, é imprescindível que a gerência tenha um espírito de liderança que contagia e alimenta a motivação, a vontade de acertar no desempenho das tarefas, o orgulho de acatar e atingir metas desafiadoras. Tudo sem imposições descaradamente visíveis, mas sempre dialogando com aspirações, desejos, valores, sensibilidades individuais e necessidades de reconhecimento. O pressuposto desta prática está em jamais esquecer que as intenções do indivíduo estão ligadas à sua expectativa de realização pessoal. Quanto mais os estímulos estiverem em sintonia com aspectos por ele valorizados, mais se motivará a adotar o que é sugerido pela empresa e a adequar seus valores e vivências às demandas desta.
O que nenhum gerente costuma esquecer é que todo subordinado confrontado com o novo avalia alternativas de comportamento seguindo três orientações básicas:
1.     Sua capacidade de desempenhar o que é solicitado;
2.     Sua crença de que o esforço com o qual se prepara a agir levará aos resultados desejados pela empresa e, através deles, à conquista de seus próprios objetivos;
3.     A percepção de que o resultado esperado e a recompensa têm um valor relativo superior às alternativas avaliadas antes de se dispor a agir.
Por submisso e resignado que seja, qualquer empregado vai refletir a partir desses três pontos antes de acatar o que lhe é pedido. Trata-se de um momento delicado da disputa de corações e mentes por parte da empresa na medida em que o funcionário pode até dar sua adesão verbal ao que é proposto, sem que isso garanta sua vontade de vestir a camisa com o melhor de si. Em geral, os aspectos que tornam possível a passagem da aceitação resignada à adesão ativa podem ser resumidos nos pontos que seguem:
1.     Fazer com que tanto as metas da empresa como as recompensas oferecidas tenham valor e sentido para os funcionários, sejam aceitas como justas por sua visão de equidade nas relações de trabalho e sirvam de estímulo ao esforço adicional solicitado;
2.     Para que os objetivos empresariais motivem os subordinados, é necessário que incorporem parte dos interesses individuais no projeto da organização a ponto de o empregado perceber que não adere por medo ou obrigação, mas sim por algo no qual se identifica. Consolidado este patamar, o próprio funcionário se encarregará de fazer a propaganda do projeto patronal no trabalhador coletivo;
3.     Criar expectativa em relação ao futuro. Trata-se de estimular o indivíduo a almejar algo mais, a elevar suas aspirações pessoais diante do que havia até o momento. É de se esperar que, além de estabelecer metas e expectativas coletivas, a gestão de recursos humanos transforme e adapte o seu discurso para que possa fazer sentido em nível individual. De fato, não há definição geral de tarefas e condições operacionais que, por si só, possa estimular um conjunto de pessoas tão diferentes quanto o quadro de funcionários de uma média ou grande empresa;
4.     A capacidade de a hierarquia exercer a liderança, ou seja, de colocar-se a serviço do que eleva a motivação, a produtividade e faz os subordinados sentirem que as novas formas de gestão proporcionam um maior espaço de liberdade e responsabilidade. Longe do não ter limites, este âmbito permite desenvolver a criatividade e a experimentação de forma controlada e direcionada às necessidades da empresa. O reconhecimento, que traz o gostinho da auto-realização, tem como pressuposto um laço de interdependência que fortalece a dedicação ao trabalho como algo desejado pelo sujeito;
5.     Reconhecer abertamente o valor e a contribuição de cada um para que este saiba quanto seu esforço está sendo apreciado. Fazer com que o subordinado se sinta importante e honrado é, sem dúvida, um meio para manter elevado tanto o seu compromisso com a empresa quanto a sua confiança em relação a ela. O ponto de partida para este objetivo, bem diferente de um submisso sentimento de gratidão, é aceitar as pessoas como elas são. O não enquadrá-las em modelos pré-determinados estimula o conviver com os indivíduos para descobrir e valorizar em cada um as características que contribuem com as metas da empresa. Para isso, as gerências buscam relações próximas e permanentes já que os funcionários precisam sentir que não estão diante de alguém frio, superior ou inacessível, e sim de um líder que ouve, dialoga, trata de igual pra igual, não é indiferente às questões pessoais, procura a compreensão possível e evita atitudes que arranham a confiança recíproca;
6.     Uma comunicação que desenvolva um significado coletivo em torno dos valores, hábitos, crenças e símbolos próprios da filosofia empresarial ao mesmo tempo em que não se furta a responder perguntas incômodas. Isso estimula a interação que reafirma e aprimora o clima de confiança e deixa nas pessoas a clara impressão de que nada está sendo escondido;
7.     Fazer com que o novo não seja sinônimo de risco, mas sim de possibilidade que se abre para todos, de algo melhor preste a acontecer, de incentivo ao sonho e a aceitar com naturalidade os esforços adicionais que se farão necessários.
Apesar de todos estes cuidados, o caminho pelo qual o indivíduo vai sincronizando seus objetivos pessoais às metas empresariais é sempre caracterizado por uma mescla de expectativas e receios. Além de elevar a resistência à integração, este atrito pode gerar uma desconfiança capaz de manter em estado latente uma situação de conflito, pronta a explodir sempre e quando o trabalhador desconfiar que, talvez, não vale a pena se empenhar tanto. Daí a necessidade que as relações no trabalho sejam confirmadas pelo bombardeio diário da mídia como naturais, inevitáveis, caminho para o sucesso e a visibilidade”.
- “Só não consigo perceber o que tudo isso tem a ver com o que você vinha descrevendo”, afirma o ajudante ao interromper sem cerimônias a longa fala da coruja.
- “Um dos problemas dos humanos – rebate a ave ao apontar a asa para o seu interlocutor – é entender que precisam ter paciência e dedicação para refletir sobre a complexa trama de relações que molda sua rotina e não pressa de encontrar respostas fáceis.
         Se você prestou atenção ao que descrevemos, deve ter percebido que o sujeito à procura de emprego ou como membro do quadro de funcionários é alguém que costuma ser incapaz de se indignar e tem seu pensamento crítico desligado pela mídia. Provavelmente, a superficialidade da sua relação com os demais e o TER para SER como caminho do APARECER também são parte da sua visão de mundo e da rotina diária. Estamos, portanto, diante de alguém que, em graus diferentes, acredita no espetáculo que transforma a compra de mercadorias, a moda, os cuidados com o corpo, etc., num círculo vicioso e em sentido de uma vida na qual a experiência do vazio pode ser preenchida pelo cartão de crédito. Se assim for, é também bastante provável que o endividamento tenha se tornando a única saída possível para se sentir vivo neste meio. Ou seja, trata-se de alguém cujo rombo na conta corrente estimula de antemão a submissão às exigências do trabalho e da manutenção do emprego como elementos básicos para que a sua vida continue tendo algum sentido.
O problema, porém, é que isso não é suficiente para que ele dê sua adesão ativa à lógica empresarial, se comprometa com um crescimento constante da produtividade e identifique nela a chance de alçar vôos maiores. Para isso, é necessário que o projeto de vida e o sentido que este funcionário busca para ela se integrem à filosofia da empresa, sejam unha e carne em relação aos interesses e posturas por ela demandadas. De um lado, quanto mais sua visão de mundo incorporar as formas de reconhecimento apontadas pela mídia, mais fácil será sintonizar seus sonhos e necessidades com a visão e os objetivos da empresa. Do outro, quanto maiores as possibilidades de realizar os próprios desejos que o funcionário puder enxergar na adesão ativa às demandas do empregador, mais simples e rápida será sua integração ao que lhe é solicitado e menor a resistência a ser oposta ao que ainda parece ferir sua sensibilidade.
Apesar de apertado, este continua sendo o espaço onde o descontentamento pode gestar as condições que levam à consciência das contradições presentes no próprio ambiente de trabalho e a desatar várias formas de conflito. È para afastar esta última possibilidade que o próximo passo das práticas empresariais será o de alterar o sentido que os funcionários atribuem aos próprios valores para que se reduza ainda mais o âmbito no qual a percepção da injustiça leva à indignação e à resistência ativa”.
- “Teria como você dar um exemplo disso tudo?”, pede o homem em tom de súplica.
- “Nas páginas anteriores, vimos que sem a solidariedade as pessoas não conseguem construir laços de companheirismo e confiança capazes de dar vida a ações coletivas que detenham o avanço da exploração. Trata-se, portanto, de um dos aspectos essenciais à organização de base e a qualquer movimento reivindicatório que procure ganhar fôlego diante dos desafios da realidade.
Em si, um gesto de solidariedade, isolado e expressão de vínculos superficiais, não constitui perigo algum, ao contrário, pode ser de grande ajuda para orientar o senso comum a agir nos limites e formas desejadas pela elite. O problema é quando a solidariedade começa a ser vivenciada por um pequeno grupo que, consciente ou inconscientemente, amplia e aprofunda as relações, começa a não ter medo de falar das incertezas com os quais se depara e, sobretudo, das marcas de sofrimento deixadas pelo trabalho na vida pessoal, familiar e social de cada um dos seus membros. Neste momento, a solidariedade deixa de ser algo inócuo ou um estímulo a se conformar com a realidade para se tornar a base sobre a qual se instala a possibilidade de colocar em dúvida percepções e vivências que, até ontem, eram consagradas pelo senso comum. O que era desejado e benigno para que a exploração mantivesse a batida precisa de um relógio, ganha agora as feições de um câncer que, em tempos e ritmos desconhecidos, ameaça a saúde dos lucros.
         Sabendo disso, o processo para impedir que a solidariedade se torne um elemento perigoso a ser conscientemente construído pelo trabalhador coletivo, começa nos primeiros momentos vividos no interior da empresa. Enquanto os colegas não ajudam os novatos com seus apelidos, trotes, situações constrangedoras e com a dificuldade do quebrar o gelo da relação, os superiores hierárquicos procuram manter uma presença amiga que explica e orienta no que for necessário. Trata-se de ganhar desde cedo o coração e a mente dos que acabam de ingressar com uma espécie de boas-vindas à família do trabalho. Uma família meio estranha, é verdade, mas na qual o sujeito irá passar os melhores anos de sua vida e buscará recursos para realizar seus sonhos. A solidariedade, sinônimo de ensinar o serviço, fazer com que a pessoa não se sinta perdida e laço para a construção do companheirismo, tende a ganhar o sentido de a empresa está aqui para te ajudar, te orientar, te fazer sentir bem, quanto basta para você mostrar a que veio, fazer a sua parte e realizar a si mesmo ao dar conta do que lhe é pedido.
         Se a disputa de corações e mentes fosse um jogo de futebol, diria que o time dos patrões acaba de marcar o primeiro gol. Nas semanas seguintes, o trabalhador, devidamente orientado pelo senso comum, vai matutar sobre os acontecimentos, suas capacidades e a possibilidade concreta de realizar o futuro almejado graças ao posto que ocupa e à ascensão que a empresa oferece a quem vincula o próprio destino ao dela. Por sua vez, até o fim do período de experiência, a gestão de recursos humanos fará sua avaliação do candidato e das potencialidades que apresenta.
Confirmada sua permanência no emprego, inicia uma nova fase de conquista da confiança em que a solidariedade será pautada como compromisso com a própria equipe de trabalho para que esta, ao se destacar entre as demais, alcance o reconhecimento previsto ora como participação nos lucros e resultados, ora como momento de visibilidade diante dos demais. Vagaroso, mas constante, o dialogo com o senso comum constrói na cabeça do sujeito a seguinte equação: solidariedade para o sucesso do grupo = compromisso para cumprir as metas = PLR gorda = realização dos sonhos de consumo e visibilidade = sensação de garantia de emprego, realização pessoal e possibilidade de vôos maiores.
         Agora, pergunte a você mesmo: será que esta criatura, ao assumir como própria a reorientação de valores proporcionada pelas relações de trabalho, vai se dispor a ajudar uma equipe concorrente ou um colega com o qual disputa uma promoção? Que espaço da solidariedade desinteressada que leva ao companheirismo e à confiança recíproca tem chance de sobreviver num ambiente onde o mesmo valor ganha um sentido essencialmente utilitarista? Será que este funcionário, diante de um pedido de ajuda com o qual nada tem a ganhar não vai simplesmente recusar ou se colocar na defensiva? Ele não fará a si mesmo a fatídica pergunta do até a que ponto auxiliar alguém pode vir a prejudicá-lo? Ele até se solidarizaria com um conhecido de outra empresa, um familiar desempregado, com as vítimas de alguma catástrofe, enfim com alguém que não tem como perturbar seus projetos de futuro. Mas será que, antes de socorrer alguém do mesmo meio, não vai se perguntar se está correndo o risco de criar a cobra que pode vir a mordê-lo?
         Com isso, não quero dizer que a solidariedade desinteressada se torna impossível, e sim que seu espaço vai sendo reduzido na medida em que o sentido dela como base para a indignação e a construção da resistência coletiva, é substituído pela fria racionalidade de ganhos e perdas que se instala no sujeito. É fato que quanto mais o capital penetra e toma conta da essência do ser, mais o indivíduo se torna frio, impassível, imediatista, calculista, convencido de que as novas concepções são a chave para o sucesso pessoal, daí a necessidade de dar sua adesão ativa à vivência do que é absorvido nas relações de trabalho. E, como todos os que convivem com ele parecem trilhar o mesmo caminho, a atitude da maioria comprova o acerto da sua postura.
Sem perceber a distância entre as duas solidariedades e onde leva o caminho aberto pelo seu ser-no-trabalho, o sujeito não consegue tomar consciência de quanto a sua integração ativa à lógica da empresa pode destruí-lo como ser humano na exata medida em que acredita ter encontrado nela a certeza da felicidade pela satisfação dos sonhos de consumo. Com a reflexão crítica anestesiada pela mídia e os desejos acirrados pela propaganda, as chances de acordar deste torpor são menos consistentes na medida em que a servidão assumida como forma de fazer vingar os próprios anseios preenche todos os espaços vitais.
         Isolado dos demais, com uma convivência transformada em luta de todos contra todos, com o trabalho sugando as melhores energias e ocupando ininterruptamente os seus pensamentos, a primeira resposta do indivíduo ao avanço do sofrimento é a de provar a si mesmo que não se deixará vencer pelas dificuldades e que é capaz de resultados ainda mais elevados. Bom, pelo menos, até que uma doença profissional, um acidente, o mergulho na depressão ou algum distúrbio psíquico o coloque abruptamente no fim da linha, lugar da verdade, no qual não é mais possível se iludir, e que dissolve num mar de incertezas o que parecia sólido e inabalável. O que farão os colegas, igualmente treinados e domesticados? Ora, quase certamente o mesmo que ele no passado. Alimentarão as dúvidas em termos de solidariedade efetiva e, diante da baixa inesperada, talvez, chegarão a experimentar o gostinho de antecipar sua ascensão”.
- “Mas isso é maquiavélico!”.
- “Não, querido secretário de cabeça grande e pouco cérebro. Trata-se apenas da conseqüência mais provável diante da lógica pela qual a mídia define o que está certo e errado em cada âmbito da vida; aponta o ter como caminho para a felicidade; transforma em espetáculo o fútil e o banal; vende a ilusão de que o sentido para uma vida vazia pode ser comprado até a prestação; e aponta a busca da auto-estima que exclui o outro como trilha para a plena realização do individuo.
         A eficiência da mídia em produzir resultados tem como base sua capacidade de conhecer as necessidades do indivíduo e dialogar com elas para que este se dispa do que contraria a lógica dominante e do que o faz encontrar na luta coletiva as respostas para suas angústias e razões de sofrimento. Este processo sutil percorre o cotidiano das pessoas, busca ver o mundo com os olhos delas e trata de conhecer melhor o terreno em que pisa a fim de alicerçar o senso comum em aspectos que aparentam incorporar os anseios das maiorias.
Em cada etapa, a mídia não resgata apenas os sonhos do imaginário popular, mas também o que cria uma sensação de ausência, de insatisfação, de vazio a ser preenchido. Ao atrair a atenção do sujeito e oferecer chances palpáveis, os meios de comunicação despertam desejos, os transformam em necessidades e renovam a promessa pela qual o atendimento das mesmas vai preencher uma lacuna em direção à própria afirmação. Imagens, palavras, emoções, sensações e possibilidades de futuro tornam-se assim uma espécie de pedra filosofal que transforma em ouro puro o que é alcançado pelo seu toque delicado e penetrante. Como na sedução amorosa, a mídia leva o indivíduo a fazer o que a elite quer sem se dar conta de que está obedecendo à vontade de outros em cujas mãos está o controle da situação e que, por isso mesmo, podem instalar satisfação e insatisfação, tensão e harmonia, descontentamento consigo mesmo ou a percepção de que está abafando quando em conformidade com os padrões estabelecidos.
Esta dinâmica cativa a imaginação, sugere o que as pessoas querem ouvir e faz com que as saídas propostas sejam vistas como fonte de satisfação até que o fascínio exercido comece a dar sinais de desgaste. Mas aí é só apostar em algo novo que desperte a imaginação, estimule a curiosidade, acirre o desejo e mostre que, apesar de o presente oferecer poucas esperanças, o futuro continua grávido de promessas frente às quais nada se tem a perder e tudo a ganhar. Ao se concretizar, o envolvimento emocional obscurece a visão, expulsa a razão, impede de ver as coisas como são e leva as pessoas a perderem o controle sobre si mesmas a ponto de sentir que o vazio as obriga a acreditar em alguma resposta ao alcance da mão. A atmosfera criada em volta deste processo é propositadamente vaga, indefinida, típica da névoa de emoções que são levantadas ao sugerir um estilo de vida que promete muito, mas sem data para se concretizar.
         Dissimulados os verdadeiros objetivos, mirando ao coração e não à cabeça, com palavras e imagens que dialogam com a visão de mundo daquele meio e despertando os desejos mais íntimos, ganhar a atenção de ouvintes, leitores ou telespectadores torna-se tão fácil quanto tirar um doce de uma criança. Diante da aparente coincidência de valores, idéias, interesses, anseios e possibilidades de futuro, a percepção da realidade pelo indivíduo se esvazia sem que este se dê conta”.
- “Confesso que estou sem palavras...”, diz o homem ao deitar a caneta como quem joga a toalha.
         Provocada pelo desânimo do ajudante, Nádia ajeita as plumas do peito, pisca os olhos, e escolhe as palavras para alfinetar o humano que cobre o rosto com as palmas das mãos:
- “Se você acha que já viu tudo e quer dar o trabalho por encerrado com uma declaração barata de desânimo, pode tirar o cavalinho da chuva. Para que o nosso estímulo à reflexão seja de alguma ajuda, ainda temos dois capítulos pela frente. Então, trate de se sacudir destas atitudes inúteis, arranque da cara o olhar de peixe morto e se recomponha, pois está na hora de analisarmos...”




















5. A mágica das palavras.


Se  não tomar cuidado, os jornais farão
você odiar as pessoas que estão sendo
oprimidas, e amar as que oprimem.
Malcom X.


         Instigado pela coruja, o secretário se ajeita na mesa e esboça um sorriso amargo. Numa sensação de desconcerto, típica de quem descobre ter sido enganado, o homem coloca o instrumento de trabalho entre os dedos e, titubeante, pergunta:
- “Como é que simples palavras podem mostrar a realidade para escondê-la?”.
         Satisfeita com a retomada dos trabalhos, a ave limpa a garganta e, sem perder de vista as expressões que se desenham no rosto do seu interlocutor, diz:
- “O que para você não passam de simples palavras, para mim são um poderoso instrumento de comunicação capaz de dar vida a novos símbolos, traduzir vivências, alterar a visão da realidade e fazer avançar as relações sociais no rumo desejado pelo poder. Repetidas à exaustão, aplicadas a uma variedade enorme de situações, usadas para alterar o sentido da história, as palavras ganham vida, refletem novas percepções e marcam os limites da atuação do sujeito. Em volta delas, a mídia desenvolve um trabalho intenso e sistemático que afirma com naturalidade e consistência a razão de ser dos novos termos e oculta os interesses dominantes aos quais servem na medida em que tudo parece não passar de mais uma maneira de descrever a realidade.
O que está em jogo, portanto, não é uma simples forma de definir aspectos do cotidiano e sim de usar determinadas expressões para construir uma compreensão que permita adequar as estruturas mentais (através das quais a sociedade é pensada e conhecida pela maioria) às mudanças produzidas na base econômica e alterar a postura dos indivíduos diante das contradições sociais. Aos poucos, o que incomodava a elite é apagado por termos que aparentam identificar de forma mais clara e abrangente os fenômenos sociais e se instalam com naturalidade na linguagem do dia-a-dia até que os acontecimentos rompam o encanto e introduzam a necessidade de palavras em torno dos quais se moldam novos sentidos, símbolos e interpretações”.
- “E... como é que os humanos conseguem visualizar o que a sabedoria das corujas acaba de apresentar?”, pedem os lábios ao sugerir ironicamente a necessidade de passar da teoria às formas nas quais se concretiza.
         Imperturbável, Nádia sorri e, sem alterar o tom de voz, responde:
- “Entre os exemplos que podemos dar, escolhemos três que, em graus diferentes, já penetraram no senso comum, alteraram a percepção da realidade e produziram respostas que melhor se adequam ao que os grupos no poder precisam moldar para fortalecer a sua ordem.
         A primeira palavra a desaparecer das intervenções da mídia é a tristeza. Em nossos dias, ninguém mais se sente triste e sim deprimido.
         Quando analisamos esta mudança no campo da medicina, verificamos que há uma alteração nos parâmetros que definem a depressão. De acordo com o 3º Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, são nove os sintomas que apontam a sua presença:
1.     Humor deprimido;
2.     Diminuição do interesse ou do prazer nas atividades cotidianas;
3.     Ganho/perda de peso ou alterações no apetite;
4.     Insônia ou excesso de sono;
5.     Agitação ou retardamento psicomotores;
6.     Fadiga ou perda de energia;
7.     Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou descabida;
8.     Diminuição da capacidade de pensar ou de se concentrar, indecisão;
9.     Pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida ou tentativa de suicídio.
À exceção dos casos de luto, o manual considera deprimidas as pessoas que apresentam cinco dos nove sintomas por mais de duas semanas. O problema desta definição está no fato de que, salvo raras exceções, humor deprimido, perda de interesse nas atividades cotidianas, insônia, diminuição do apetite e incapacidade de concentração podem ocorrer na ausência de qualquer transtorno depressivo e em reação a um variado grupo de acontecimentos negativos. Basta pensar, por exemplo, na perda do emprego, no fim de um relacionamento duradouro, na descoberta de uma doença grave, na humilhação causada pela revelação de um comportamento vergonhoso ou na negação de uma promoção dada como certa.
Via de regra, a tristeza intensa produzida pela gravidade de uma destas experiências tende a ser superada quando o sujeito constrói ou encontra uma alternativa satisfatória: um novo emprego, um procedimento médico promissor, a adesão a um processo de profissionalização, uma pessoa atraente e assim por diante. Portanto, estamos falando de casos que, provavelmente, levarão mais de duas semanas e cujo desfecho costuma trilhar caminhos tortuosos e imprevisíveis.
Embora a depressão tenha sido observada desde os primeiros registros da história da medicina, a recente explosão de diagnósticos tem como base fundamental a orientação do Manual que, por sua vez, deixa cair em segundo plano a divisão clássica entre a tristeza com causa, fruto da experiência de perda ou de circunstâncias dolorosas, e a tristeza sem causa, quando os sintomas relatados aparecem e perduram sem que haja um evento desencadeador ou quando há uma desproporção entre os efeitos no sujeito e os acontecimentos reais.
Os próprios médicos reconhecem que, em grande medida, a onipresença da depressão se deve à confusão entre a tristeza normal, resultado de muitos fatores sociais, e a depressão, ou seja, a tristeza como doença. Ninguém nega que acontecimentos externos possam desencadear um transtorno depressivo que perdure mesmo quando os agentes causadores do estresse deixam de existir, mas isso requer uma análise pormenorizada e um acompanhamento prolongado dos profissionais da área para evitar que o paciente seja equivocadamente levado a se considerar doente e a se submeter a tratamentos desnecessários”.
- “Sendo assim, quem ganha e quem perde ao passar da tristeza à depressão?”.
- “Simples! Ao transformar estados de tristeza intensa em transtornos depressivos, o enfoque do Manual faz com que aumente fortemente o mercado potencial de antidepressivos. Não por acaso, as empresas farmacêuticas são as principais financiadoras das atividades de psiquiatria e dos grupos que defendem o benefício da medicação como tratamento de primeira linha dos sintomas que vão da tristeza comum aos transtornos depressivos. Esta postura não ganha apenas a legitimidade das orientações do manual como, em vários países, a medicalização do sofrimento psíquico é veiculada pela propaganda como caminho mais curto para diminuir a distância entre a situação do momento e a normalidade almejada.
Na medida em que os meios de comunicação reforçam a imagem de consumidores que desfrutam de estilos de vida desejáveis por usarem antidepressivos, as pessoas são levadas a ver no remédio a solução imediata para voltar ao alto astral, valorizado na sociedade contemporânea como elemento essencial para o sucesso. Por outro lado, ao definirem a si mesmas como vítimas de uma doença, muitos ganham uma explicação socialmente aceitável para seus problemas e uma justificativa que os livra da responsabilidade na produção da situação em que se encontram. O famoso me deixe em paz!, Não vê que estou doente?, procura escamotear qualquer cobrança e sustenta a busca de um culpado que oculte o papel do indivíduo no que desencadeou o transtorno depressivo. Estou me referindo, por exemplo, ao assédio moral, hoje muito comum nos locais de trabalho, e que só é possível quando o sujeito demonstra um elevado grau de submissão diante dos superiores. Neste âmbito, a medicalização da tristeza leva a não enfrentar a razão de ser da própria situação, mascara a realidade e não aumenta a capacidade de resistência das pessoas que passam por situações dolorosas”.
- “Também não dá pra negar que se, de um lado, o sujeito ganha uma boa desculpa, de outro, os conhecidos costumam se afastar dos deprimidos...”, questiona o ajudante ao coçar a cabeça.
- “Você tem razão. E, de fato, aqui está outro benefício que as elites extraem de uma mídia propensa a substituir tristeza por depressão na hora de descrever o humor de quem passou por um forte sofrimento. O psiquiatra australiano Aubrey Lewis foi o primeiro a propor que as reações apontadas pelo Manual como possíveis sintomas da depressão pudessem funcionar como uma espécie de pedido de socorro capaz de chamar à atenção dos que estão próximos e obter seu apóio no sentido de estimulá-los a trazer a pessoa de volta ao normal. Ou seja, a tristeza oriunda de acontecimentos estressantes convoca o coletivo a se transformar no âmbito onde o sofrimento pode ganhar a forma de um desabafo que ajuda o sujeito a ordenar e dar o justo valor aos aspectos do seu sofrer e em espaço no qual este mesmo sofrimento, ao ser pensado junto aos demais, ganha novos sentidos e estimula o portador a elevar sua capacidade de resistir às adversidades.
Um ouvido amigo que se coloca à disposição de maneira desinteressada ou alguém que oferece uma espécie de terceiro ombro para ajudar a vítima a suportar a carga que pesa sobre suas costas tendem a estimular posturas e ações que o grupo pode desenvolver desde que em seu meio haja um sentimento mínimo de coletividade. Por grande e doloroso que seja o evento que desencadeou a situação de tristeza profunda, a duração das reações por esta produzidas diminuirá à medida que o indivíduo receber a atenção do coletivo e este, por sua vez, ensejar ações que buscam responder ou ajudar a conviver mais serenamente com o drama vivenciado.
Ainda que nem sempre as pessoas se disponham a oferecer alguma ajuda, tenham preparo ou jeito para isso, é fato que a tristeza convoca a solidariedade. Mas, quando a depressão substitui a tristeza, temos exatamente o efeito contrário, pois o transtorno depressivo ainda costuma ser visto através das lentes do preconceito que envolve as doenças mentais. Este estigma leva à hostilidade, à rejeição, à perda do apoio social e, portanto, a uma reação mais demorada e sofrida diante da situação pela qual o sujeito está passando. Em seu isolamento, este tende a atribuir um significado mais negativo aos eventos que perturbaram sua normalidade e corre o risco de entrar num círculo vicioso que fortalece a impressão de estar num beco sem saída.
 Aplique quanto analisamos a uma empresa, onde é comum que os funcionários sejam submetidos a fatores estressantes, e não terá dificuldades em perceber porque, ao não diferenciar tristeza e depressão, cresce o isolamento em que cada indivíduo se vê projetado e as pessoas são incapazes de pensar saídas coletivas numa luta por mudanças. Longe de procurar as causas nas relações de trabalho e estimular o sentimento de coletividade, o que é vivido por um colega é visto como algo próprio, fruto de uma fragilidade pessoal ou da incapacidade de lidar com o sofrimento, mas também como elemento que contagia negativamente o grupo, causa baixo astral, paira como ameaça sobre cada um e, de conseqüência, precisa ser exorcizado com o esquecimento, com o abandono, com o deixar que o sujeito se vire sozinho apesar de sua evidente incapacidade de dar a volta por cima.
Na medida em que a depressão afasta o grupo com o qual se convive, enfrentar o problema pessoal como manifestação individual das pressões exercidas sobre o trabalhador coletivo é algo bem mais difícil de ocorrer. O fim das situações estressantes que estão na origem dos problemas passa a ser entregue à hierarquia da empresa que, por sua vez, atuará sempre e somente com a preocupação de preservar a imagem pública da organização e a produtividade dos funcionários. A busca da qualidade de vida no trabalho, como elemento cuja violação desperta indignação e desejo de mudança, cede o lugar à submissão, à aceitação das diretrizes que serão implementadas e à resignação pura e simples diante da lógica da empresa.
Se a origem deste processo não pode ser diretamente atribuída ao papel da mídia, é inegável que os efeitos sociais oriundos da utilização do termo depressão para descrever qualquer estado de tristeza é de grande ajuda aos grupos no poder, interessados em bloquear sentimentos de coletividade que introduzam uma crítica real a suas posturas e interesses”.
- “E a segunda?”, pede o homem ao sinalizar que entendeu o recado da coruja.
- “Se você prestar atenção à linguagem dos meios de comunicação, vai perceber que a palavra susto é substituída por trauma em um número crescente de situações. Eventos que, até ontem, eram assustadores, são descritos como traumatizantes até nas conversas informais das pessoas.
À diferença do exemplo anterior, onde encontramos uma construção social que transforma a tristeza em depressão, podemos dizer que a utilização das palavras trauma, traumatizante e traumatizado funciona como uma espécie de cereja num bolo que vem ganhando forma nas duas últimas décadas.
De um lado, a exposição à violência e a leitura que a mídia faz da mesma levam o indivíduo a ficar mais ansioso, desconfiado e inseguro. De outro, a reestruturação produtiva, o aumento da precarização do trabalho e a visão da empregabilidade como problema estritamente pessoal criaram nas pessoas a sensação de estar se deparando com forças poderosas, incontroláveis e invencíveis. Diante delas, parece não haver outra possibilidade a não ser a de elevar a própria capacidade de adaptação num ambiente onde a incerteza, a vulnerabilidade e a impotência crescem na mesma proporção em que o sujeito se vê sozinho e sem uma identidade coletiva que lhe sirva de rede de proteção.
Para piorar o que já é difícil, a própria relação doença-trabalho muda de figura. O prevalecer de acidentes e doenças típicas da profissão cede lugar à predominância de adoecimentos atípicos. Trocado em miúdos, podemos dizer que, atualmente, a saúde dos trabalhadores parece estar sendo consumida mais a partir do interior do próprio corpo do que pelos agentes químicos ou físicos que trinta anos atrás caracterizavam a maior parte dos afastamentos por doença. Os distúrbios psíquicos originados pelo trabalho fazem com que o desgaste pareça mais subjetivo, próprio de uma fragilidade pessoal e não a manifestação individual de um problema coletivo. A soma destes elementos produz no indivíduo a clara sensação de estar sempre na corda bamba e em constante situação de risco.
A tendência que se estabelece como dominante não é a de as pessoas se prepararem para correr um risco, ou seja, para fazerem escolhas que permitam nadar contra a correnteza, enfrentar com a espada o que o escudo das próprias formas de defesa não consegue conter. Neste caso, estaríamos diante de alguém que, com suas ações, busca relações que permitem mudar as circunstâncias e obter resultados positivos para si mesmo e os demais, apesar das incertezas que envolvem sua decisão. Longe disso, a sensação de estar permanentemente em situação de risco leva as pessoas a um papel passivo e dependente que só se torna ativo no sentido da defesa e da proteção de si mesmo, ou seja, de tudo o que, por solitário, isolado, paliativo, limitado e ilógico que seja, ajuda a diminuir a ansiedade, a insegurança e a percepção da própria vulnerabilidade.
Do auto-engano, fruto do pensamento mágico próprio do senso comum, ao famoso jeitinho, nada desfaz a sensação de impotência e passividade de quem se sente vítima das circunstâncias. Aos poucos, o sujeito que poderia agir sobre a realidade para mudá-la, transforma-se em objeto que sofre a ação desta sobre a própria vida. A sensação de vulnerabilidade leva o indivíduo a acreditar que tudo o que pode fazer é tentar se proteger quanto basta para não dar sopa ao azar”.
- “Minha Nossa! Mas será que estamos todos tão assustados assim?”, indaga o homem ao cortar sem cerimônias o relato da coruja.
- “O fato, meu caro secretário, é que a sensação de vulnerabilidade é subjetiva, assim como a percepção da gravidade do risco. Focado em si mesmo e vivenciando relações que excluem o outro do âmbito de suas preocupações, o indivíduo não vê que sua fragilidade cresce na medida em que está sempre sozinho na hora de enfrentar o que só pode ganhar uma resposta consistente num coletivo. Sem um diálogo com os demais para dar sentido ao sofrimento e alterar as expectativas negativas oriundas da sensação de impotência, a avaliação do risco pelo sujeito depende apenas do seu julgamento pessoal e do medo vivenciado no contato com as incertezas. A consciência do risco, no lugar de estimular e aprimorar os cuidados a serem tomados na luta para eliminá-lo, torna-se um elemento que paralisa o indivíduo na exata medida da percepção de sua vulnerabilidade.
O povo costuma justificar a inanição assim produzida com o ditado pelo qual a corda arrebenta sempre do lado mais fraco. Tido como sábio, este provérbio oculta a realidade ao mostrá-la. A fragilidade do indivíduo ganha relevância à medida que ele passa longe de uma ação ou identidade coletiva capaz de devolver-lhe o papel de protagonista, ou seja, a possibilidade de correr riscos ao construir as condições para mudar a história. Ao centrar-se sobre si mesmo, o sujeito vivencia os limites e a inviabilidade de sua ação. Como graveto separado dos demais, não percebe que só ganha força no feixe de sua classe e não na visibilidade individual proposta pelas elites”.
- “E, qual é a relação disso com a idéia de trauma?”.
- “Você deve estar lembrado que, ao introduzir a substituição de susto por trauma, dizia que servia como cereja no bolo. Quando a sensação de viver em constante situação de risco leva a assumir uma postura de passividade que deixa campo aberto aos interesses dominantes, receber eventos adversos como fonte de trauma não só aumenta a percepção da própria impotência como joga uma pá de cal na simples hipótese de enfrentar os riscos. Passar de assustado a traumatizado como termo que delata a vulnerabilidade experimentada nas adversidades traz em si a imagem de ser dominado por uma força que aniquila e impede de agir. E como as possibilidades de risco são infinitas, estão por toda parte, pairam no ar como um destino cruel, inevitável e traumatizante (a ponto de ser difícil imaginar um aspecto da vida coletiva que não seja potencialmente arriscado), a experiência do medo cresce na mesma proporção do encolhimento e da passividade das pessoas.
Quando a idéia de trauma atua sobre um sujeito acuado, é reproduzida nas relações informais e reafirmada pela mídia, alimenta-se no imaginário coletivo uma percepção fatalista e perturbadora da realidade que faz crescer a sensação de desamparo e amplifica o medo que dominava a experiência social do indivíduo. Viver como trauma as manifestações da que é percebida como situação de risco faz com que o portador do senso comum não teste os limites da realidade, mas apenas recue diante deles tornando-se avesso a mudanças ou atitudes que aumentem sua ansiedade e insegurança.
Aos poucos, a submissão e a servidão voluntária tornam-se o único caminho para evitar mais razões de sofrimento e possíveis traumas. O processo que não leva o indivíduo a enfrentar o medo é perigoso não só porque faz com que se encolha diante da realidade, mas, sobretudo, porque transforma a covardia em coragem ao apontar como façanha pessoal e motivo de auto-estima a capacidade de se sujeitar a situações que proporcionam a destruição do indivíduo enquanto ser humano. A porta para o trauma propriamente dito, ou seja, para a situação em que caem todas as máscaras e o sujeito descobre que chegou no fim da linha, é aberta pela convicção de que o indivíduo se valoriza até numa dinâmica que o destrói.
         Atingido este ponto, a idéia de ser autor da vida coletiva não tem a menor chance de se sustentar e, ao fugir da participação como o diabo da cruz, as pessoas buscam freneticamente expressões e situações que as absolvam das responsabilidades de sua omissão. O problema é que, ao fazer isso, as relações com os demais se desgastam, o isolamento cresce, a sensação de estar sozinho diante de um mundo perigoso ganha feições cada vez mais paralisantes. O medo torna-se chave de leitura e critério de interpretação do cotidiano a ponto de justificar qualquer dificuldade como possível fonte de trauma e, portanto, como razão que explica uma maior necessidade de adaptação, ausência de reação e resignação.
         Quem ganha com isso? Ora, a elite que assiste de camarote o excelente espetáculo de uma imensa maioria que se percebe como fraca, assustada, enfim, tão incapaz de resistir quanto o boi que dobra o pescoço diante da canga por não ter consciência da força que tem”.
- “Sendo assim, a marginalização e as contradições que emergem da realidade aumentam e podem transformar o boi manso em bravo...”, sugere o ajudante em tom esperançoso.
- “De fato, esta é uma possibilidade sempre aberta – admite a coruja ao acompanhar as palavras com um gesto da asa. O problema é que sua concretização depende justamente da leitura que o boi faz de sua situação e da capacidade do dono alimentar sua submissão. É assim, por exemplo, que a mágica da terceira palavra usada pela mídia para esconder o que mostra já é repetida à exaustão até pela quase totalidade das organizações sociais. Estou me referindo à exclusão social.
         Antes de seu aparecimento, o termo usado para descrever realidades de pobreza e injustiça era marginalização, ou seja, a situação de quem é colocado à margem da riqueza que produz, tem sérias dificuldades para atender necessidades básicas ou está numa posição tão desfavorável que não serve nem para ser explorado. Para reverter definitivamente as relações que criam esta situação, não basta nenhuma medida paliativa ou de suposta igualdade de tratamento, pois o simples fato de tratar de forma igual pessoas em situações econômica e socialmente diferentes não diminui e sim aumenta a desigualdade e a marginalização. E tem mais. O caminho que leva a pôr fim a este processo passa, necessariamente, pela construção de uma ordem na qual se pede a cada um de acordo com suas possibilidades e se retribui o esforço despendido conforme suas necessidades. Isso exige uma profunda mudança nas relações de propriedade, de produção e apropriação da riqueza, mas é o único que leva a humanidade a superar as contradições atuais.
         Como já deve ter percebido, o problema desta posição é que ela implica na destruição dos mecanismos que geram a riqueza de poucos e que, por sua vez, são os mesmos que produzem a miséria de muitos. De conseqüência, não é de estranhar que uma das preocupações centrais da elite seja a de impedir que isso aconteça. Daí a necessidade de justificar diariamente que a posição social alcançada é fruto do esforço pessoal, do saber aproveitar as oportunidades, da herança familiar e da sorte. Estes elementos levam as pessoas simples a considerarem as relações de produção como algo natural, que sempre existiu e sempre existirá, a se conformarem com a própria situação, a se culparem pelos fracassos e até mesmo a acreditarem que não teriam como sobreviver se os patrões não existissem.
         Nas duas últimas décadas, o sentido atribuído pela mídia à palavra exclusão tem sido ampliado e mudado para fechar o campo ao que soava como impedimento definitivo à própria justiça social e impossibilidade de o sistema capitalista vir a proporcionar o bem comum. No debate das idéias que se instala diante dos efeitos nefastos das políticas neoliberais, um pequeno grupo de intelectuais utiliza a exclusão como termo para colocar o dedo nas feridas incuráveis do capitalismo, ou seja, para apontar o fim das ilusões pelas quais as desigualdades seriam passageiras e passíveis de serem resolvidas graças às possibilidades oferecidas pela globalização e pela modernidade. Em outras palavras, para este pequeno grupo de autores, falar de exclusão é sinônimo de colocar o sistema no banco dos réus, desmascará-lo quanto às suas verdadeiras possibilidades de levar ao bem comum e condená-lo à pena capital no exato momento em que sua forma neoliberal prometia um futuro róseo para todos”,
- “Isso que é um golpe bem dado!”, comenta o ajudante em tom de comemoração.
- “Seria, mas o fato é que durou pouco demais – rebate a ave ao conter o entusiasmo fácil e devolver a palavra à razão. Tanto a intelectualidade a serviço da ordem, como a mídia que lhe faz de alto-falante, se apressam em redesenhar o sentido da exclusão a ponto de fazer desaparecer as relações de exploração de qualquer análise a ser veiculada e dirigir as atenções aos elementos que dependem apenas da atuação do indivíduo.
         Nesta passagem, os meios de comunicação não ignoram apenas as relações de exploração que estão na base da marginalização social, mas apontam como excluídas aquelas pessoas que não têm acesso às oportunidades oferecidas pelo sistema por sua origem familiar, não aplicação nos estudos, limites físicos ou intelectuais, tipo de emprego com o qual ganham a vida ou qualquer outro vínculo entre miséria e deficiência que sublinhe a responsabilidade individual. Sob esta ótica, sejam eles migrantes clandestinos, favelados, desempregados, catadores, meninos a serviço do tráfico, pobres, mendigos, moradores de rua, etc., os excluídos não seriam vítimas das relações sociais presentes no cotidiano da história. Sua situação teria como base a ausência de atitudes positivas no seio da família, da escola ou da comunidade, razão pela qual a auto-estima e a busca de auto-realização do indivíduo teriam sido fragilizadas a ponto de impossibilitar qualquer chance de vencer na vida. A exclusão como expressão do agravamento da marginalização e condenação irremediável dos excluídos pelo sistema é substituída por uma compreensão na qual desaparece a realidade material e a auto-estima do sujeito desempenha um papel determinante.
         Consolidada esta visão, a elite mata vários coelhos com uma paulada só. De um lado, a banalização da injustiça social ganha um forte aliado e impede que as pessoas se dêem conta de que as realidades assim produzidas são o fruto do coração pulsante da exploração e das leis de mercado. Este pilar permite sustentar generosas margens de lucro via precarização das relações de trabalho, algo que, no Brasil, de acordo com o Censo de 2010 realizado pelo IBGE, condena cerca metade dos 101,8 milhões de brasileiros e brasileiras que vivem do trabalho a se virarem com uma renda pessoal de até R$ 375,00, num ano em que o salário mínimo oficial era de R$ 510,00. De outro, ao atribuir aos excluídos uma permanente incapacidade de discernimento e atuação diante das oportunidades, a elite começa a projetar políticas que, mesmo não passando de soluções paliativas, aparentam colocar um ponto final à exclusão.
         Se você é um excluído que nunca teve acesso à informática e, justamente por isso, viu encolher as chances de um emprego melhor, nós, empresários, em organizações ou através do Estado, estamos prontos a oferecer um programa de inclusão digital capaz de abrir as portas que sua falta de sorte, de jeito, de atitude, enfim, de acreditar em você mesmo, fechou no passado. Ao focalizar nas características individuais a razão de ser da exclusão, a atuação da elite deixa de ser apontada como causa primordial desta situação para ser vista como resolvedora do problema.
Ao definir como e em que condições se dá a inclusão, o resultado final é o aumento da confiança dos excluídos nas possibilidades oferecidas pelo sistema, a disciplinarização dos mesmos na lógica e nas exigências do mercado, a redução das possibilidades de conflito social na medida em que os incluídos são mais propensos a se adequar ao funcionamento da ordem e a alardear esta possibilidade entre os pares. Tudo num contexto que permite manter e ampliar as desigualdades em clima de paz, harmonia, cooperação de classe e criminalização de quem questiona a ordem.
         Com os marginalizados enveredando por este caminho, torna-se mais difícil debater com a sociedade o caráter precário e enganoso da inclusão proporcionada pela elite. Acrescente o fato de que é neste sistema econômico que a distribuição de migalhas maiores da riqueza nacional e uma melhor administração da pobreza vêm possibilitando aos marginalizados de ontem uma lambida do lado mais cumprido da rapadura e não estranhará a ausência de reações significativas. E não só isso, pois, os excluídos recém-incluídos expressam sentimentos de gratidão e defendem as mesmas relações que, ao condená-los a uma situação de carência assistida, prometem novos estágios de inclusão a uma parcela reduzida de seu meio”.
- “E agora?!?”, pergunta o secretário entre a perplexidade e o desconcerto.
         Imperturbável, a coruja recosta o corpo na pilha de livros, suspira e diz:
- “Não há como negar que a elite brasileira esteja sendo hábil em dirigir o trabalho da mídia para mostrar o que a favorece e esconder o que a condena. Em momento algum, porém, o time que está perdendo pode apontar a competência do adversário como causa de suas derrotas.
O caminho a ser percorrido pela classe trabalhadora, portanto, começa por avaliar criteriosamente sua forma de se comunicar com os debaixo, os espaços que está deixando de ocupar no debate das idéias e os elementos que precisam ser incorporados em seu diálogo com as maiorias que apresentam características diferentes das encontrávamos no passado.
Aprender a se comunicar pode não ser tudo o que podemos fazer neste momento, mas é um passo essencial para começar a sair do atoleiro. Por isso, no lugar de uma conclusão destinada a resumir as linhas principais deste estudo, faremos do último capítulo um momento em que, ao repensar possibilidades de contato, procuramos renovar...”


          6. A preciosa capacidade de recomeçar.


A não ser que você incomode aqueles que estão à vontade
com a sua opressão, o caráter da opressão não mudará.
Martin Luther King.


- “Quando olhamos para a realidade dos movimentos sociais e, particularmente, dos sindicatos - diz Nádia ao desenhar círculos no ar -, é fácil constatar um aumento dos meios com os quais tentam se comunicar com suas bases. Cartazes, jornais, panfletos, informativos de todos os tipos unem-se a potentes carros de som no esforço de fazer ecoar a voz das direções. O problema é que todos esses recursos trazem resultados aquém do esperado. Na decepção que se instala, é comum assistir à busca de explicações fora da dinâmica dos próprios movimentos ou que condenam o povo por não ter consciência. Como a saída não é trocar de povo, nem responsabilizar a competência dos adversários, o jeito, então, é colocar o dedo nas nossas feridas.
         Em primeiro lugar, é bom resgatar que só há três casos em que os seres humanos não demonstram ter consciência: quando estão desmaiados, mortos ou em coma. Em todas as outras situações, apesar de simples, frágil, bizarra, contraditória e limitada, a visão de mundo das pessoas reflete a forma pela qual interpretam a vida, os acontecimentos e a história. Vimos nas páginas anteriores que é sobre esta base que se instala a atuação da mídia no sentido de incorporar idéias, valores, critérios de análise e formas de comportamento para que as elites dialoguem com as maiorias e as direcionem nos rumos desejados sem rejeições significativas. Como em qualquer diálogo digno deste nome, parte-se do conhecimento da realidade do interlocutor, de seus anseios, sofrimentos, desejos, paixões e esperanças de futuro. Isso supõe um ouvido aberto e um olhar capaz de perceber os sinais que delatam a falta de sintonia com a ordem dominante e, portanto, a necessidade de reestruturar as formas que moldam o conformismo”.
- “Espero que você não queira comparar os recursos e a facilidade da elite em fazer crescer as sementes plantadas por sua mídia com o desafio de separar o joio do trigo e denunciar as injustiças que é próprio dos movimentos...!”, afirma o ajudante desconfiado.
- “Para início de conversa, o que está em jogo não é a dificuldade da tarefa nem os meios disponíveis, mas a maneira com a qual sindicatos e organizações populares lidam com a visão de mundo das pessoas às quais se dirigem. Na quase totalidade dos casos, mais do que dialogar com as expressões do senso comum, as direções discursam para ele a partir de pressupostos, valores, idéias e critérios de análise que a realidade dos nossos tempos tornou incompreensíveis às maiorias. E isso não porque se usem palavras difíceis ou expressões rebuscadas, mas porque estamos transmitindo numa sintonia que não é a das pessoas comuns. Por isso, apesar de falarmos em lucro, exploração, luta de classes, socialismo, campanha salarial, categoria, denunciarmos acidentes e precárias condições de trabalho ou usarmos termos radicais para frisar de que lado estamos, a elite não se incomoda com o que dizemos porque nossas palavras não dialogam com o povo simples.
         Um sinal evidente desta falta de sintonia pode ser observado nas reações diante de quem discursa para o senso comum. O método popular para se livrar de um chato, pouco importa que seja dirigente sindical ou não, está em escutar quanto basta para dizer que concorda, mostrar adesão com acenos da cabeça, batendo palmas ou com palavras que confirmem minimamente o recebimento da mensagem. Ninguém contraria, critica, faz observações ou perguntas, pois isso acabaria provocando novas tentativas de convencimento e mais perda de tempo.
         Por outro lado, a aposta no caminho institucional para resolver os problemas dos trabalhadores e o progressivo afastamento das direções de suas bases têm dado uma valiosa contribuição no sentido de dificultar o diálogo com o senso comum. As formas elementares de participação direta na ação política têm sido reduzidas a ponto de desaparecer quase totalmente como primeiro estágio do envolvimento. Espectadoras da cena social, as grandes maiorias vêem a política sendo seqüestrada da vida das pessoas não só pela elite, mas também por aqueles que deveriam facilitar os primeiros passos da participação. Se isso não bastasse, apesar da retórica, os movimentos organizados não envolvem suas bases na hora de pensar, debater, executar e avaliar as posições a serem tomadas. Tudo se limita a convites formais, a uma participação onde o direito à palavra sofre sérias restrições ou a plenárias nas quais espera-se a cúpula decidir para votar no que o capa-preta indicar.
Além de refletir posturas autoritárias ou bem pouco democráticas, a relação entre a direção e a base não consegue esconder o atrelamento a interesses e projetos pessoais, a grupos que ocupam cargos de governo ou, simplesmente, em fazer dos movimentos um trampolim para algo maior a ser decidido em fóruns restritos, onde sempre se encontram as mesmas caras. Quando o cotidiano da ação política é feito em nome do povo e pelo povo, mas, estranhamente, sem o povo, a prática acaba negando o que os discursos pretendem apresentar. E, para farejar que há algo errado, basta a simples desconfiança do senso comum.
O que as direções perderam de vista é que as palavras de ordem, por si só, não colocam as pessoas em movimento. O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem (falamos do poder de manter a ordem ou de subvertê-la) é a crença na legitimidade das palavras e daqueles que as pronunciam. Crença cuja produção não é de competência das palavras, mas sim da relação estabelecida por quem as pronuncia.
Os membros da sua espécie só aprendem daqueles aos quais dão o direito de lhes ensinar, o que significa que a confiança é a base sobre a qual se ergue a legitimidade das lideranças e, portanto, das suas palavras. Sem ela, o conteúdo da fala pode ser simples, coerente, lógico, claro, detalhado, comprometido com a classe e historicamente comprovado, mas será apenas escutado e não ouvido. Todo orador que não conte com a confiança das pessoas às quais se dirige, ou que não se preocupe em conquistá-la, terá suas chances de êxito sensivelmente reduzidas pelo senso comum que, diante da incapacidade de contra-argumentar, se satisfaz com a certeza de que se estivesse presente quem, no passado, o havia convencido do contrário, ele demonstraria facilmente o erro de quem hoje pretende mudar suas idéias”.
- “Mas isso torna as coisas impossíveis!” - grita o secretário num excesso de raiva.
- “Ao contrário, faz com que possamos localizar os elementos que ajudam a dialogar com a classe trabalhadora, a usar de maneira eficiente os recursos de que dispomos e a superar a ingenuidade pela qual basta um boletim bem escrito, um discurso inflamado ou um programa de rádio porreta para que o senso comum dê sua adesão às nossas colocações.
         Entre os aspectos que revelam a distância entre as direções e as bases que dizem representar salta aos olhos o fato de que, além de discursar para o povo, a linguagem usada na comunicação ajuda bem pouco na hora de dialogar com sua visão de mundo. Escritos na quase totalidade das vezes por jornalistas que não costumam ter inserção nos setores representados pelo movimento, os informativos apresentam formas e conteúdos que não expressar o sentir dos de baixo.
A lógica estatística e o frio raciocínio dos argumentos teóricos não deixam espaço ao sentimento, caminho pelo qual é mais fácil dialogar com o senso comum. Na maioria das vezes, no lugar de a comunicação encurtar as distâncias entre a compreensão intelectual de quem reflete e teoriza sobre os problemas e o sentir dos de baixo, esta mantém sua falta de sintonia por não expressar o sentimento coletivo que brota nas dispersas, confusas e contraditórias vontades dos indivíduos aos quais dirigimos a palavra.
Construir um diálogo capaz de arranhar as barreiras do senso comum, moldado nos parâmetros do conformismo atual, impõe a necessidade de aprendermos a falar ao coração as idéias que se destinam à cabeça. Longe de um sentimentalismo barato, trata-se de aprender a dialogar para fazer com que os destinatários do nosso esforço de comunicação se reconheçam no que estamos dizendo ao ver refletidas nas expressões escritas ou verbais das direções o que não conseguem traduzir em palavras. Sem a partilha de um sentimento comum para abrir os ouvidos e dialogar com as emoções coletivas, a mais lúcida exposição racional dos motivos e razões que deveriam estimular a passagem do papel de espectador ao de protagonista da história não produz efeito.
Aberta a conexão com o senso comum pelo sentir da maioria pode-se começar a ponderar os elementos em jogo sem esquecer de apontar onde queremos chegar e de mostrar concretamente o primeiro passo a ser dado. Quando a relação entre o que é afirmado e o cotidiano das pessoas é vaga, indefinida, inconsistente ou não incorpora suas preocupações, a chance de a comunicação cair no vazio, elevar a sensação de insegurança e provocar resistências ao que é proposto é proporcional à falta de nexo com o que está sendo vivenciado. Se, de um lado, acontecimentos e situações particulares podem acelerar o passo das maiorias, de outro, apostar em expressões verbais que apontam mudanças momentaneamente incompreensíveis para elas é correr o risco de que as incertezas e as situações que permanecerão sem resposta acabem paralisando e não mobilizando. Basta isso para que o senso comum desconfie que as direções não estão levando em conta as condições reais em que se dará a ação proposta e nem as forças que deverão ser enfrentadas, razão pela qual as pessoas se manterão não com um e sim com dois pés atrás. Para vingar, as idéias precisam se tornar projeto a ser iniciado pelo passo imediato, pela ação possível, pelo que se pode efetivamente fazer e não pelo que se gostaria de fazer e nem pelo que se deveria fazer. Apontar uma meta além de onde alcança a visão do senso comum é querer dar um passo maior do que a perna e queimar etapas importantes.
Em outras palavras, as idéias que transmitimos pelos caminhos da comunicação precisam se transformar em projeto capaz de construir o NÓS que incorpora as posições, os anseios e o desejo de mudança dos de baixo. Longe de despolitizar o debate ou de iludir as pessoas, trata-se de dialogar com elas para plantar a necessidade de sair do imobilismo como condição para enfrentar a realidade e superar o medo. O que implica em tratar as pessoas como adultos aos quais nada se esconde e que devem assumir a responsabilidade e as consequências de suas decisões. Se participar e optar por intervir tem um preço que parece elevado, se conformar com a realidade, se submeter a ela ou fazer o impossível para se adaptar também tem. E costuma ser maior”.
- “E quais são os pressupostos para que isso possa vir a acontecer?”, indaga o ajudante ao testar as afirmações da coruja.
- “Não resta dúvida – diz Nádia ao cruzar a ponta das asas atrás das costas – quanto ao fato de a inserção na realidade com a qual se pretende dialogar ser um elemento fundamental para ler corretamente a visão de mundo dos destinatários da nossa comunicação. Trata-se de olhar a opressão perto dos oprimidos, de perceber o que se vê a partir do lugar deles e o que projetam as imagens do senso comum produzidas em seu meio. Ver com os olhos do povo ajuda não só a conhecer melhor seus sofrimentos e anseios, mas, sobretudo, a ouvir e interpretar suas palavras e silêncios. Aprender a traduzir o sentir, próprio dos simples, em frases e gestos nos quais possam se identificar é a chave que abre a porta ao diálogo sincero e direto, baseado na confiança e no respeito sim, mas franco quanto basta para que também o xingamento e a contestação sejam possíveis, para que não haja fingimentos, nem faz de conta.
Este passo imprescindível na comunicação dos movimentos permite separar sem receios as ilusões das sementes de esperança, o que é fruto do pensamento mágico e o que tem sua origem na indignação e nas situações de resistência do passado. Por este caminho, também é possível traduzir o que a economia política chama de exploração em expressões que tornam visível o que fere a vida das pessoas. Isso pode ganhar consistência ora a partir das marcas de sofrimento que o trabalho deixa em seus corpos, nas relações familiares e sociais, ora ao resgatar a história local e dos sujeitos cujas expectativas excedem o que seria razoável esperar do que é apontado pela mídia e pelos acontecimentos.
         A sensibilidade e o jogo de cintura alimentados por quem, graças à inserção, alia o campo da emoção e do sentimento ao conhecimento científico, auxiliam também na escolha do como se comunicar e de que linguagem usar. A música, o teatro, os testemunhos recolhidos entre as pessoas, as piadas, as ironias, as charges, os contos, a internet e assim por diante oferecem possibilidades cuja utilização vai depender tanto da criatividade do comunicador como de sua capacidade de dirigir a mensagem em etapas que incorporam, questionam e superam as posições de senso comum presentes nos destinatários. A sensibilidade possibilitada pela inserção tende a definir de maneira eficaz não só as formas com as quais podemos dialogar com a visão de mundo das maiorias, como a hora de abrandar ou de endurecer o tom, a de mostrar a solidariedade de quem partilha a dor e a de questionar, por exemplo, qual é o preço que as pessoas estão dispostas a pagar por sua submissão em nome da visibilidade individual.
         Este processo não ganha corpo quando a mensagem é veiculada de cima para baixo ou na base do bom somos nós, o resto não presta (que, infelizmente, ainda predomina em várias expressões do movimento sindical) e nem quando o cotidiano das pessoas é julgado como fútil ou simplório. Posturas como estas levam o senso comum a se sentir menosprezado e a se fechar feito ouriço em sua proteção de espinhos, tornando-se impenetrável. O mundo e a visão de quem busca acordar as maiorias da anestesia em que é mantido seu pensamento deve ser grande quanto basta para que a vida dos de baixo encontre espaço para vir à tona sem medo e se abra ao debate. Só assim é possível reduzir sensivelmente a rejeição e a sensação de insegurança provocadas no senso comum toda vez que suas convicções são colocadas na berlinda.
Aberto o canal de comunicação, trata-se de usar as ferramentas da teoria para interpretar a realidade de forma que esta faça sentido para as pessoas. Algo bem diferente do repetir as teses deste ou daquele autor como maneira de fazer valer a própria autoridade ou tornar inquestionáveis as posições apresentadas. Para o povo simples, além de os pensadores serem ilustres desconhecidos, a mensagem assim produzida costuma ser acessível somente a quem já pertence ao grupo ou partilha de alguma identidade política e cultural.
Seja qual for a maneira pela qual a criatividade dialoga com o senso comum, é fundamental que a comunicação de quem dirige um movimento se destine, prioritariamente, não a discursar e sim a construir a dúvida na visão de mundo do público alvo. Por muito que as pessoas se convençam de que o pensamento da maioria é critério de verdade, não há quem não perceba os limites desta forma de conhecer e interpretar o cotidiano. Todos sabem que, de um lado, há questões mais familiares do que outras na medida em que os interesses individuais fazem com que cada um dê mais importância a alguns temas. De outro, a forma pela qual o sujeito representa o mundo à sua volta é limitada e, apesar da convicção de poder interpretar a totalidade, o conhecimento possível deixa sempre transparecer áreas de sombra, convicções aparentemente claras, mas nas quais há aspectos nebulosos.
É neste âmbito que encontramos elementos importantes da vida diária que, ao virarem rotina, foram assimilados como algo natural e deixaram de ser questionados. Chegado a este ponto, o sujeito não procura novas explicações e se contenta com a visão de mundo alcançada. A preocupação em saber mais volta a aparecer quando passa por situações que colocam em dúvida o que parecia líquido e certo. Enquanto o conhecimento dá pro gasto, funciona satisfatoriamente e nada questiona a validade atribuída, o senso comum reafirma a si mesmo, se fortalece, incorpora aspectos próximos e os utiliza para responder às incertezas, ambições, desejos e expectativas de futuro do grupo humano que é seu portador.
A normalidade e a fluidez desta dinâmica são interrompidas quando surge um problema que não pode ser resolvido no âmbito do conhecido justamente porque o saber acumulado é colocado na berlinda, revela sua fragilidade, expõe as áreas de sombra e não gera respostas convincentes. Isso é possível quando a dúvida é construída não com elementos teóricos alheios ao cotidiano das pessoas, mas sim quando a própria dúvida evidencia algumas contradições insolúveis do senso comum e faz as pessoas sentirem a necessidade de dar uma nova resposta ou de se posicionarem como se estivessem diante de um divisor de águas.
Nada garante que os primeiros tremores no que era tido como sábio, sólido e inabalável sejam suficientes para fazer ruir a visão de mundo alimentada ao longo dos anos. Porém, sem construir a dúvida, será impossível levar as maiorias a perceberem que a desconfiança é a melhor parte do conhecimento, que as aparências realmente enganam e que devemos sempre fazer o inventário dos interesses em jogo toda vez que nos deparamos com o que é veiculado pela mídia. Passo a passo, as pessoas vão perceber que um erro não se torna verdade por se multiplicar na crença de muitos, assim como uma verdade não se transforma em erro pelo fato de ninguém a ver. A possibilidade de estimular a indignação e a rebeldia depende essencialmente deste processo no qual, às vezes, uma boa pergunta é mais eficaz do que uma sequência de afirmações que respondem ao que o senso comum não se coloca como problema”.
- “Até que um exemplo, agora, cairia como uma luva...”, sugere o homem ainda desconfiado.
- “Não um, mas dois. E vou fazer isso não com os escritos de um movimento local e sim do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), do México. Esta escolha se deve à situação delicada em que se encontra um movimento armado, indígena em sua ampla maioria, e que, ao insurgir, precisa dialogar com aspectos complexos da realidade. Estou me referindo tanto ao preconceito e ao racismo em relação aos povos indígenas do país, quanto à questão de ter optado pelo caminho das armas, fato que o coloca em rota de colisão com o senso comum pelo qual as pessoas se dizem contrárias à violência, venha de onde vier. Sem perceber que esta posição torna invisível a violência institucionalizada e implícita nas relações de exploração, na medida em que os meios de comunicação definem como violência tudo o que contraria a ordem vigente, as pessoas tendem a defender o status quo e a legitimar as medidas governamentais.
         Mas, no México, algo perturba as expectativas dos insurgentes e da elite. Após o levante de 1º de janeiro de 1994, o presidente Carlos Salinas de Gortari desencadeia uma violenta repressão no estado de Chiapas, berço do EZLN. No dia 11, a sociedade civil dá início a uma série de manifestações pedindo aos dois lados a suspensão do conflito e o início das negociações. Diante da inesperada reação popular, o governo busca manter a iniciativa política e oferece o perdão às forças insurgentes. Cientes da arapuca que se abre à sua frente, em 18 de janeiro, os zapatistas respondem à oferta com uma série de perguntas. Vejamos: Acredito que já devem ter em mãos os documentos enviados no dia 13 de janeiro; ignoro a reação que estes documentos suscitarão e a resposta do governo federal às nossas propostas, por isso não me referirei a eles. Até o dia de hoje, 18 de janeiro de 1994, ficamos sabendo apenas da formalização do “perdão” oferecido pelo governo federal às nossas forças.
Do que temos de pedir perdão? Do que vão nos perdoar? De não morrer de fome? De não calar diante da nossa miséria? De não ter aceitado humildemente a gigantesca carga histórica de desprezo e abandono? De levantarmos em armas quando encontramos fechados os outros caminhos? De não ter respeitado o Código Penal de Chiapas, o mais absurdo e repressivo que se conhece? De ter demonstrado ao resto do país e ao mundo inteiro que a dignidade humana ainda vive e está em seus habitantes mais pobres? De termos consciência da necessidade de uma boa preparação antes e iniciar a luta? De ter ido ao combate armados de fuzis no lugar de arcos e flechas? De ter aprendido a lutar antes de insurgir? De todos serem mexicanos? Da maioria de nós ser indígena? De convocar todo o povo mexicano a lutar de todas as formas possíveis por aquilo que lhe pertence? De lutar por liberdade, democracia e justiça? De não seguir os modelos das guerrilhas anteriores? De não nos render? De não nos vender? De não nos trair?
         Quem tem de pedir perdão e quem pode outorgá-lo? Os que, por longos anos, saciavam sua fome sentados a uma mesa farta enquanto nós sentávamos ao lado da morte, tão quotidiana e tão nossa que aprendemos a não ter medo dela? Os que encheram nossos bolsos e nossas almas de declarações e promessas? Os mortos, nossos mortos, tão mortalmente mortos de morte “natural”, isto é, de sarampo, coqueluche, dengue, cólera, febre tifóide, mononucleose, tétano, pneumonia, paludismo e outras pérolas gastrintestinais e pulmonares? Os nossos mortos, que são a maioria, que morreram, democraticamente, entre os sofrimentos, já que ninguém nunca fez nada, porque todos os mortos, nossos mortos, partiam, de repente, sem que ninguém se desse conta, sem que ninguém dissesse, finalmente, o “basta!”, que devolvesse o sentido a essas mortes, sem que ninguém pedisse aos mortos de sempre, aos nossos mortos, que regressassem para morrer outra vez, mas agora para viver? Os que negaram o direito e a capacidade de nossa gente governar e nos governar? Os que negaram o respeito aos nossos costumes, à nossa cor, à nossa língua? Os que nos tratam como estrangeiros em nossa própria terra, nos exigem os documentos e a obediência a uma lei cuja existência e justiça ignoramos? Os que nos torturaram, prenderam, assassinaram e nos fizeram desaparecer por ter cometido o grave “delito” de querer um pedaço de terra, não um pedaço grande, não um pedaço pequeno, apenas um pedaço do qual se poderia tirar alguma coisa capaz de matar a fome?
Quem tem de pedir perdão e quem pode outorgá-lo?
O presidente da República? Os ministros de Estado? Os senadores? Os deputados? Os governadores? Os prefeitos? Os policiais? O exército federal? Os grandes banqueiros, industriais, comerciantes e latifundiários? Os partidos políticos? Os intelectuais? Galio e Nexos?[3] A mídia? Os estudantes? Os professores? Os colonos? Os operários? Os camponeses? Os indígenas? Os mortos de morte inútil?
Quem deve pedir perdão e quem pode outorgá-lo?
         Por enquanto, é só.
         Saúde e um abraço, que, com este frio, as duas coisas caem bem (acho), mesmo que venham de um “profissional da violência”. Subcomandante Insurgente Marcos.
         Não sei se você percebeu, mas o comunicado zapatista é inteiramente feito de perguntas cujo objetivo é justificar o levante armado e ampliar o debate ao convidar cada leitor a se posicionar, a não ficar indiferente, a colocar em dúvida o que suas convicções poderiam dar como líquido e certo.
         A mesma estratégia será usada em outubro de 1999, após a violenta repressão policial de uma manifestação promovida na Cidade do México pelos estudantes universitários em greve. A chave de leitura dos acontecimentos é oferecida de forma criativa na parte de um comunicado sob o título de Perguntas a uma foto. Nela, busca-se fazer exatamente o contrário do que a mídia faz. Trata-se de mostrar não para esconder, e sim para trazer à luz o que a evidência da imagem impede de perceber.Vejamos:
         Dona Foto:

         Você vai me desculpar, mas eu não pude vê-la até a madrugada do dia 17 de outubro. Não, não ache que a estou recriminando. Entendo que, com tanta chuva, você tenha se atrasado. Além do mais, o peso que você carrega não é nada leve. Sabe, quando a vi, senti uma dor aqui. Sim, eu já sabia que têm fotos que fazem doer, só queria que soubesse que você é uma delas.
         Sim, pelas mãos do repórter (Roberto Garduño) temos outros elementos para lê-la a você. A garota, Alejandra Pineda, é estudante da Preparatória 5, e seu irmão, Argel, é da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais, ambas da UNAM. Depois da foto (é o que supomos pela narração), ou seja, depois dos golpes dos granadeiros, Argel trata de ajudar e acalmar Alejandra, “que perguntava por seus companheiros: Como estão? Não pegaram mais ninguém? A minha cabeça doe muito, não queremos mais repressão, queremos educação gratuita”. (La Jornada, 15 de outubro de 1999, pg. 66).
         De acordo com este repórter, e alguns testemunhos recolhidos pelo mesmo jornal, os estudantes já estavam se retirando rumo à Cidade Universitária quando foram atacados pelos granadeiros.
         O que você fala através da sua imagem, e o que é descrito pelas crônicas, reportagens e testemunhos, me diz alguma coisa. Mas, sabe, têm outros questionamentos que não são respondidos nem pela sua imagem e nem pelas páginas do jornal. Por isso, eu queria que você, senhora foto, me permitisse de colocar-lhe algumas perguntas. Tudo bem?
1.   Quantos anos tinha Alejandra antes de ser espancada? 17, 18? E Argel? Quantos anos eles têm agora?
2.   Se a vista não me engana, os granadeiros estão batendo em Alejandra e Argel na lateral do Periférico e não nas pistas centrais (que eram aquelas que iam “desocupar”)?
3.   Os granadeiros que olham à direita da foto, estão olhando naquela direção para não ver o que fazem seus companheiros? Ou estão protegendo os três que espancam Alejandra e Argel, para impedir que alguém venha resgatá-los? Lá adiante (à direita da foto) está acontecendo outro espancamento? Os estudantes se retiram?
4.   O governo do DF espanca Alejandra pelo delito de ser irmã de Argel? Espanca Argel pelo delito de ter vindo socorrer Alejandra? Espanca ambos pelo delito de serem “ultras”? Espanca-os porque os carros pedem que seja liberado o trânsito? Espanca-os pelo silêncio que proliferou lá em cima depois do 4 de agosto? Espanca-os porque é assim que mandam as pesquisas? Espanca-os para provocar o aplauso de Televisa e TV Asteca? Espanca-os por serem jovens? Espanca-os por serem estudantes? Espanca-os por serem universitários? Espanca-os porque é assim que se pode demonstrar que se tem firmeza para governar? Você me perdoe, senhora foto, mas não entendo por que espancaram Alejandra e Argel?
5.   As mulheres que se felicitaram com Rosário Robles por ela ter chegado à chefia do governo do DF, também se felicitaram com ela por mandar espancar Alejandra? Mandaram a Alejandra uma palavra de carinho? Calaram-se? Ou disseram a si mesmas “essa revoltosa teve o que merecia?” O que? Sim, desculpe, você não tem porque saber disso...
6.   Você, senhora foto, apresenta pelo menos 3 granadeiros batendo no estudante. Por que são só dois os policiais indiciados?
7.   Esse cassetete que o granadeiro da extrema direita tem em mãos, é uma exortação ao diálogo? Uma amostra de que o atual governo do DF é “diferente” dos anteriores? Ou é só a medida da distância que separa as palavras dos fatos?
8.   Com quem está falando o homem da camisa quadriculada, se é que é um telefone celular o que ele leva ao ouvido esquerdo?
9.   O motorista do carro que circula mais atrás, e que não é visível na foto, apoiaria a surra que os policiais dão a Alejandra e Argel?
10.O que é que Alejandra tem debaixo do seu corpo? Uma blusa? Um pano? Uma jaqueta?
11.O motorista que está mais no fundo, e que trafega olhando pra frente, nos convida a fazer o mesmo? A passar diante da foto de Alejandra ensangüentada e de Argel caído sem olhá-los, sem olhá-la?
12.Na página 69 do jornal no qual você está em primeiro plano, tem outra foto (também de Rosaura Pozos com os dizeres: “Cena anterior à desocupação policial no Periférico Sul”). Nela, vê-se, em primeiro plano, uma jovem, camisa quadriculada, de joelhos diante da linha de granadeiros. O jovem está com a mochila diante dos joelhos e mostra um livro aos granadeiros. Nos escudos dos policiais pode-se ler claramente: “Segurança Pública - Granadeiros - Distrito Federal”. Em segundo plano, uma mulher de chapéu. Mais atrás um cinegrafista. No fundo, árvores e prédios. Aí vão as perguntas...
12a. Qual é o título do livro que a jovem mostra aos granadeiros?
12b. O jovem de joelhos diz alguma coisa aos granadeiros?
12c. Não era este o ponto 3 da pauta de reivindicações do Conselho Nacional de Greve do movimento de 68 (cito textualmente): “Extinção do Corpo de Granadeiros, instrumento direto de repressão, e não criação de corpos semelhantes” (Parte de Guerra, Julio Scherer Garcia e Carlos Monsiváis, pg. 161)?
12d. A existência e a operação do Corpo de Granadeiros é constitucional?
         O que diz? Que eu perguntei isso só à outra foto? Bom, você tem razão.
Permita-me algumas perguntas finais:
         Você concorda que o motivo da marcha dos estudantes era protestar contra a manipulação da informação sobre o conflito universitário feita pela TV ASTECA e TELEVISA?
         Se você, senhora foto, não tivesse falado, nós teríamos ficado só com a versão que os meios de comunicação eletrônicos e o governo do DF deram na noite de 14 de outubro de 1999, pela qual os estudantes eram os agressores, a polícia que havia intervindo era só feminina e só uma estudante teria sido ferida (“nada grave”) por “um veículo que a atropelou”?
         Tínhamos o direito de esperar que um governo do PRD agiria de forma diferente?
         Deveríamos ficar calados e não perguntar nada?
Sabe, senhora foto, você dá razão à “carta 3 bis”. Mas você não sabe o quanto eu desejei que você não desse razão a esta carta, e sim aqueles que, diante deste espelho presunçoso, se vangloriam de ser “orgulhosos funcionários de um governo democrático como o do DF”.
E, sabe de uma coisa? Toda vez que a vejo, senhora foto, não sei o porquê, mas me dá uma vontade irresistível de pegar uma pedra e jogá-la longe para quebrar de uma vez por todas este silêncio que lá em cima, cúmplice, se cala.
         Como? Sim, pode ir, senhora foto, siga o seu caminho e continue perguntando. Senhora foto, você é tão incômoda e tão questionadora.
         Valeu. Saúde, e eu acredito que o que Alejandra tem debaixo do seu corpo é uma bandeira. Além do mais, creio que se levantou com ela. O Sup acumulando perguntas como se fosse chuva.
         Em algumas ocasiões, o porta-voz zapatista usará lendas indígenas como forma de expressar a estratégia do movimento ou servir de janela que permite, aos que não são do meio, conhecer o mundo dos povos em luta. Em outros momentos, tecerá longos diálogos com um escaravelho, exporá em forma de conto ou história as questões suscitadas pelos acontecimentos, usará poemas para introduzir ou dar o tom aos comunicados e assim por diante. Tudo isso, sem deixar de se posicionar de maneira formal quando as circunstâncias o tornam necessário. A idéia é a de transformar a palavra em arma de combate, de abrir o diálogo, de favorecer o envolvimento das pessoas sejam elas integrantes de movimentos ou cidadãos cuja dignidade não permite aceitar silenciosamente o que está ocorrendo.
         Com isso, não queremos apontar estas formas de comunicação como modelo a ser seguido, mas apenas sublinhar que, ao sair do corriqueiro e esperado, é possível fazer com que o diálogo com o povo seja instigante, incite à reação, não deixe indiferentes, surpreenda, provoque, rompa o silêncio barulhento do conformismo, construa a dúvida nas certezas do senso comum e mantenha abertos os acessos à sua visão de mundo”.
- “É... Mas isso é pra poucos...”, pondera o homem ao sublinhar o caráter excepcional dos exemplos apresentados.
- “Bom, como se diz, rapadura é doce, mas não é mole não. Toda inspiração costuma nascer de uma grande transpiração, ou seja, de um esforço que demanda tempo, dedicação, energias, tentativas infrutíferas, ensaios e assim por diante. Trata-se de um trabalho que ninguém verá, mas sem o qual não há como produzir o novo nem acordar quem está feliz com sua anestesia”.
- “Tem receita pra isso?”.
- “Não uma receita, mas uma lista de ingredientes com os quais pode-se repensar a comunicação com as bases e tecer formas que ajudam a sacudi-las do torpor em que se encontram. Sabendo que o cotidiano é o âmbito do diálogo com o senso comum rumo à quebra do conformismo, qualquer comunicador que deseje cumprir este papel deve sempre lembrar que não fala ou escreve para si próprio, mas para passar uma mensagem. Por isso, é imprescindível pensar no público ao qual se dirige e um dos caminhos para fazê-lo é se colocando as perguntas que seguem:
a)     Quem são meus ouvintes ou leitores?
b)    Que impacto quero provocar neles?
c)     Que sentimentos pretendo despertar?
d)    Por que razão se interessariam pelo que vou dizer ou escrever?
e)     Qual a mensagem central que desejo transmitir?
f)      Quais os prós e contras do que vou dizer ou escrever para o público ao qual me dirijo?
Só teremos clareza em relação ao objetivo da intervenção quando o recado a ser transmitido se traduzir numa frase simples e direta. Entre os desafios mais comuns, está o de aprender a filtrar o excesso de informações. Quantidade não é qualidade e, às vezes, basta uma frase, uma imagem, uma pergunta ou uma idéia simples para conseguir mobilizar emoções e pensamentos.
Feito isso, já dá pra traçar um rascunho dos passos pelos quais a intervenção pretende fixar a mensagem que desejamos seja captada pelas pessoas. Não dá pra ficar apenas rabiscando idéias, mas é necessário testar sua coerência e, sobretudo, ler e reler o que foi escrito para avaliar se o que salta aos olhos é o que queremos transmitir ou se há elementos que podem desviar a atenção.
Como dissemos, seria ingenuidade pensar que um único informativo ou uma fala bem elaborada pudessem vencer as barreiras do senso comum. Por isso, nossa comunicação terá que ser insistente quanto a água que fura a pedra e tão variada e criativa quanto uma escola de samba do grupo especial. Por claro que seja, o recado dificilmente produzirá o efeito desejado na sua primeira apresentação e, caso optemos pela repetição pura e simples, as pessoas acabarão enjoando e nos mandarão às favas. A saída está em variar a forma literária tornando-a interessante ao utilizar uma idéia original mesmo quando se trata de comentar situações que parecem banais.
Para quem quer se comunicar, a realidade é fonte de inspiração desde que haja sensibilidade para captar o colorido que se mescla na rotina cinzenta do dia-a-dia. E, para isso, não há talento inato ou sopro divino que estimulem a criatividade. É necessário ler muito, se manter informados, acumular conhecimento e treinar formas diferentes de dizer a mesma coisa tentando ir para o que não é comum sem que a mensagem pareça absurda ou ganhe as feições de um repeteco disfarçado. Quanto maior a bagagem cultural, mais fácil será encontrar a fórmula apropriada, tentar o novo, criar algo que surpreenda e cative as atenções do senso comum. Quanto menores e limitados os conhecimentos de que dispomos, mais ficaremos no arroz e feijão que até enche barriga, mas passa longe de estimular o quero mais que se faz necessário para o diálogo prolongado com os de baixo.
Mostrar que a realidade tem aspectos visíveis que cegam e são imperceptíveis justamente por estarem sob os nossos olhos, costuma ser uma tarefa demorada, exigente e paciente, mas precisa ser assumida para que possa emergir o que se esconde por trás do véu das aparências. Quem deseja se comunicar com o povo para que este recupere a capacidade de pensar criticamente, de se indignar e dizer NÃO às seduções da elite tem que estar aberto a novas experiências, a conversar informalmente com pessoas diferentes, que não partilham seus hábitos e seus valores, a olhar com curiosidade e sem encaixar a realidade em compartimentos estanques, como se tudo já tivesse sido catalogado e pré-determinado.
Para observar o cotidiano com a profundidade da teoria e a criatividade da emoção a fim de traduzi-lo em expressões acessíveis, às vezes, precisaremos viver ou experimentar a rotina dos outros, nos colocar no lugar deles, nos deixarmos encharcar pelas sensações confusas e contraditórias que podem derivar desta aproximação e, sobretudo, sermos observadores atentos e prontos a aprender. Sem este esforço, acabaremos nos fechando às pessoas e aos acontecimentos por considerar que tudo não passa de algo trivial, corriqueiro e sem sentido, quando, na verdade, são parte da vida das maiorias. É isso que faz o senso comum avançar a passos milimétricos, quase imperceptíveis, mas que, passado certo período de tempo, deixam transparecer as marcas que as elites imprimiram em sua visão de mundo. Portanto, precisamos manter constantemente em alerta nossa capacidade de captar as mudanças em andamento nos perguntando sempre o porquê das coisas, até mesmo das que parecem óbvias e banais.
Finalizando, vale a pena lembrar que as idéias não têm ora marcada para aparecer. A inspiração pode surgir a qualquer momento e nos lugares mais inusitados. Por isso, é bom manter papel e caneta ao alcance da mão e vencer a preguiça de anotar o que passou pela cabeça. Seria um desperdício perder um momento de inspiração por não tê-lo registrado”.
- “O que está pedindo é bem complicado...”, afirma o homem ao coçar a cabeça.
- “Mas não impossível!” - rebate Nádia ao cortar o ar com um gesto rápido da asa esquerda. “Se até um casca-grossa e teimoso como você consegue falar com uma coruja, não vejo porque o diálogo que almejamos não possa encontrar pessoas abertas e interessadas em tentar o novo. Há muitos caminhos pelos quais é possível reconstruir a capacidade de as pessoas dizerem NÃO e a colocá-las em movimento para mudar a realidade. Nenhuma vitória sobre o senso comum será conseguida apenas no campo do debate das idéias, mas, para se concretizar, deverá fazer com que o NÃO das palavras se confirme na ação das pessoas e em seu progressivo envolvimento ”.
- “Então, há esperança!”, afirma o ajudante ao respirar aliviado.
- “Sim” – responde a ave ao piscar os olhos. “Mas à diferença do que você imagina, ela só vive nos que não se conformam, nos que questionam e não se adaptam, nos que reclamam e buscam construir as condições da mudança. A esperança nasce toda vez que alguém, ao sentir-se ferido em sua dignidade, rompe as correntes que o amarram à ordem e começa a dizer NÃO. Fazendo isso, acende uma chama tão frágil quanto a de uma vela, mas clara quanto basta começar a vencer a escuridão.
         Na noite de 1º de dezembro de 1955, na cidade de Montgomery, estado de Alabama, nos Estados Unidos, uma mulher de uns 40 anos, de baixa estatura, negra, meiga e de fala mansa entra no ônibus que a levará pra casa. Cansada pela jornada de trabalho no porão da alfaiataria de uma loja de departamentos, ela senta na primeira fileira de bancos reservada aos negros. O veículo vai ficando lotado e, a certo ponto, o motorista ordena que ela ceda o lugar a um homem branco. Rosa Parks pronuncia uma única palavra: NÃO.
O motorista ameaça mandar prendê-la, mas ela não cede.
Momentos depois, um policial lhe pergunta porque não se levanta. Por que vocês nos humilham? - responde Rosa com toda simplicidade. Não sei, mas é a lei, e você está presa! - rebate o agente ao detê-la.
Dias depois, a mulher que ousou dizer NÃO é julgada e condenada por atentado à ordem pública.
         Diante do veredicto, cerca de cinco mil pessoas se reúnem em volta da Igreja Batista de Holt Street, na parte mais pobre da cidade, para apoiar o solitário ato de coragem de Rosa. Ao dirigir-se à multidão, o reverendo Martin Luther King Jr., diz: Chega uma hora em que as pessoas ficam cansadas de serem pisoteadas pelos pés de ferro da opressão. Chega uma hora em que as pessoas ficam cansadas de serem empurradas para fora do brilho do sol de julho e de serem abandonadas ao frio penetrante de uma montanha em novembro. Em seguida, elogia a coragem de Rosa que permanece de pé, em silêncio.
         Do NÃO desta mulher tímida e reservada nasce um boicote aos ônibus que durará 381 dias num dos mais importantes protestos pelos direitos civis do século 20. Para chegar ao trabalho ou se locomover, os negros enfrentam quilômetros a pé, pegam carona com estranhos ou se viram como podem. Do NÃO que se torna ação coletiva surge um movimento que muda a história dos Estados Unidos.
A luz que Rosa havia acendido com sua indignação já não era só dela. Ao espalhar-se pelo ambiente, havia sacudido a resignação, abalado o conformismo, inquietado os que se acomodavam na própria servidão e, agora, incomodava os poderosos.
         É o NÃO que se faz movimento, palavra e ação.
         Há muitos NÃO que estão sendo pronunciados pelo mundo. Tímidos. Incertos. Frágeis. Às vezes, sem rumo definido. Mas incômodos quanto pedras no sapato. Questionadores de um silêncio cúmplice. Desejosos de mostrar o que a mídia esconde. Gritados, sussurrados, transmitidos, enfim, pronunciados por homens e mulheres que aceitam correr o risco de dar cor e forma à esperança na difícil tarefa de mudar a história”.
         Terminado o relato, Nádia se aproxima da janela e ganha os céus da cidade que ainda dorme.
         No horizonte, as primeiras luzes do amanhecer penetram silenciosas o escuro véu da noite. Diárias e insistentes, renovam o convite a não desanimar, a recomeçar, a tentar novamente, a transformar o cotidiano em espaço da inconformidade, da indignação, da rebeldia, da construção de um mundo onde a vida de todos, e não o lucro de poucos, ocupe o centro das preocupações dos seres humanos.








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[1] As citações acima foram extraídas do livro de João Bernardo, Democracia Totalitária, pg. 66.
[2] Em Cláudio Abramo, A regra do jogo, pg 117.
[3] Galio é um livro do jornalista Héctor Aguilar Camín, e Nexos é a revista na qual escreve e que reúne intelectuais que apóiam o governo.

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