| Universidade Columbia. Fotografia: Alex Kent/Getty Images |
“O capital não é fiel à bandeira nacional, mas à melhor resposta para a pergunta “quanto quero ganhar com isso?”[1] (Emilio Gennari)
Donald Trump em seu Make America Great Again (MAGA) se apresentou como a mais recente grande esperança da Nação “americana” em sua segunda campanha presidencial. Mas não se pode julgar um homem pelo que ele pensa de si mesmo, e sim, por meio do estudo da realidade na qual ele constrói sua visão de mundo. Apesar de todas as suas promessas de campanha apontarem em uma direção, as ações tomadas em seu governo – que estão deixando todos atônitos - apontam na direção oposta. O que podemos inferir a partir das controversas ações pessoais e governamentais de Donald Trump?
Um primeiro aspecto a ser observado sobre este fenômeno é o fato dos Estados Nacionais caminharem cada vez mais na direção de uma transição para Estados do Capital enfraquecendo as fronteiras nacionais, que no passado foram a base do nascimento do grande mercado, necessário ao desenvolvimento do Capital.
A partir do surgimento do Estados Nacionais quebram-se as amarras internas à exploração do proletariado. A compra e venda da força de trabalho em território nacional tornou-se livre dos empecilhos feudais e dos outros modos de produção existentes. A partir daí, os capitalistas garantem o monopólio da compra e venda da Força de Trabalho dentro das fronteiras nacionais, as relações capitalistas se desenvolvem sob a égide da Burguesia Capitalista Nacional. Neste contexto histórico, as Burguesias Capitalistas Nacionais procuram fortalecer seu Estado Nacional, para garantir o monopólio da compra e venda da Força de Trabalho e as exportações de mercadorias para realização da Mais-Valia. Este processo desencadeou um poderoso desenvolvimento das forças produtivas do trabalho, gerando a concentração e centralização de Capital e a formação das grandes empresas monopolistas nacionais.
As necessidades da reprodução ampliada do Capital geraram essa forma histórica denominada Imperialismo. A exportação de Capital-mercadoria, de Capital-monetário e a disputa pelo mercado de Força de Trabalho - monopólio das Burguesias Nacionais Capitalistas - são algumas das principais características do Imperialismo. Estas disputas interburguesas provocaram a invasão e partilha da Ásia e da África e terminaram por levar os Estados Nacionais a duas Grandes Guerras Mundiais entre 1914 e 1945.
Entretanto, o período pós-guerra, foi palco de profundas transformações na base material[2] das sociedades capitalistas, a mais importante do nosso ponto de vista, foi a transnacionalização do Capital, ou seja, a compra e venda de força de trabalho deixa de ser monopólio das Burguesias Capitalistas Nacionais. O fim da Guerra fria no início dos anos 1990, abre um período histórico no qual não há praticamente nenhuma barreira para a circulação do Capital e da compra e venda de sua mercadoria fundamental: a Força de Trabalho. Ou seja, os Estados Nacionais que com suas fronteiras haviam sido o motor do livre desenvolvimento das relações sociais capitalistas, converteram-se no seu entrave.
A base material dos Estados Nacionais foi seriamente debilitada e gerou uma série de bizarrices políticas e filosóficas. A defesa da soberania nacional, o anti-imperialismo, bandeiras caras aos revolucionários do século XX, foram seriamente abaladas. O mesmo está acontecendo com o Patriotismo e o Nacionalismo, que produziu estranhas manifestações no Brasil, nas quais, os patriotas desfilavam com camisetas da seleção brasileira com logotipo da Nike, com bandeiras de Israel e Estados Unidos e pedidos de intervenção estrangeira no próprio país[3].
No Plano político, as ações práticas do projeto MAGA de Donald Trump fundamentado na defesa do retorno a “Grande Nação”, a bizarrice é ainda maior, visto que, parece muito mais uma tentativa de sabotar as organizações políticas e militares (ONU – OTAN)[4] que garantiam a força dos Estados Nacionais, pois, acelerou os acordos transnacionais entre UE e Mercosul, UE e Índia[5], etc. No caso da intervenção na Venezuela, em nome da defesa dos "interesses americanos", o “nacionalista” Trump credenciou as transnacionais Repsol (“Espanhola”), ENI (“Italiana”), BP e Shell (“Britânicas”) ao lado da “estadunidense” Chevron, a explorar o petróleo naquele país[6].
No Estreito de Ormuz vemos as transnacionais do petróleo e do complexo industrial-militar e tecnológico lucrarem bilhões e as demais protestarem com a paralisação da circulação do Capital e o encarecimento das matérias-primas.
![]() |
| REUTERS - Diego Vara |
Estamos num período em que as transacionais compram e vendem força de trabalho em qualquer território do mundo, respeitadas as regras locais, e que cada Estado defende os capitalistas que estão explorando naquele território, como disse o CEO da Coca-Cola[7].
Donnald Trump está na realidade cumprindo as demandas que vão além das barreiras nacionais, é um catalizador daquilo que mais diz combater, nas linhas tortas do Capital Nacional a escrita é transnacional[8]. O tarifaço se converte em seu contrário com grandes acordos de livre comércio se desenhando no horizonte - Mercosul-UE[9] e EU-Índia-, além de afetar empresas transnacionais como a Coca-Cola – que na visão de muitos seria estadunidense – com as tarifas sobre o alumínio e boicotes, levando seu CEO a destacar a “localidade” da marca, ou seja, na Alemanha é alemã, no Mexico é mexicana, ou seja, é produzida mundo afora pelo proletariado.
As políticas anti-imigração que seriam um meio de proteger o povo norte-americano do invasor estrangeiro – ironia da história? – se converteu em um remédio amargo para “seu próprio povo” e não poderia ser diferente, qual seria o resultado de impedir a circulação da mercadoria mais importante no Capitalismo: a Força de Trabalho? Aliás, Trump parece ter um fetiche em travar a circulação de mercadorias, não pensando duas vezes em iniciar uma guerra com o Irã, mesmo com os alertas do resultado previsível como consequência do conflito: o bloqueio do Estreito de Ormuz.[10]
O Capital nacional - em suas personificações patrióticas – tem sido expressão dos maiores exemplos da degradação humana[11] - racismo, xenofobia, transfobia, homofobia, misoginia etc. -, os patriotas encarnando esse velho “Walking Dead” nacionalista se debatem com todas as forças agarrados ao passado, suas pátrias brilham em seu cérebro - o ideal cega -, enquanto na prática ostentam bandeiras de Israel e Estados Unidos, se alimentam da transnacionalidade negando-a[12]. Torcem para times que contratam jogadores de várias partes do planeta, suas seleções são patrocinadas por empresas que contratam e exploram a força de trabalho livremente em qualquer localidade do planeta. A fidelidade capitalista só conhece uma expressão: a “valorização do valor”, como escreveu Emilio Gennari. Como um Ezequiel moderno o Capital diz: “Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem fielmente às minhas leis.” (Ezequiel 36:27)[13].
Em uma matéria do site G1 consta a reveladora afirmação na qual a “revista Forbes calcula que a fortuna de Trump agora chega a US$ 6,3 bilhões, um aumento de 60% em comparação ao período antes de sua volta à presidência[...]”[14], a máscara nacional de Trump é sempre posta de lado quando lhe convém, “no Catar, por exemplo, um clube de golfe e casas de luxo com o nome Trump está sendo construído em parte por uma empresa do próprio governo do país” e “no Vietnã, segundo o The New York Times, agricultores foram retirados de suas terras pelo governo para dar espaço a um resort Trump, e o acordo foi aprovado em uma cerimônia oficial com a presença do vice-primeiro-ministro.”
E disse o Senhor Capital ao atual presidente dos Estados Unidos: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de todas as nações, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem proclamando a nação, teu bolso e tua fortuna se regozijarão[15].
Coletivo IDE
[2] Ver Tumulo Revolução Burguesa e Revolução Anticapitalista.
[3] https://www.rfi.fr/br/brasil/20250908-implorando-ajuda-bandeiras-dos-eua-em-atos-bolsonaristas-chamam-aten%C3%A7%C3%A3o-da-imprensa-internacional
[4] https://reportermaceio.com.br/trump-critica-otan-e-afirma-que-alianca-decepcionou-os-eua-ao-nao-oferecer-apoio-em-momentos-criticos-sugerindo-revisao-da-importancia-do-bloco-militar/;
[6] https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/eua-autorizam-que-cinco-petroleiras-retomem-operacoes-na-venezuela/
[7] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2025/05/01/coca-cola-x-trump-e-musk-o-que-esta-por-tras-do-boicote-a-marca-americana.htm;
https://www.youtube.com/watch?v=yc4HEsblXdM
[10] https://exame.com/invest/mercados/blackrock-aposta-em-china-e-japao-como-alternativas-para-investimentos-nos-eua/
[11] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/o-que-e-dei-programa-de-diversidade-que-trump-pos-fim-nos-eua/
[12] https://www.bbc.com/portuguese/articles/c70k600z799o;
https://istoedinheiro.com.br/trump-tem-negocios-em-18-paises-diferentes

Nenhum comentário:
Postar um comentário