quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Você que acompanhou a análise de conjuntura Ecos de 2020, não pode deixar de ler este excelente mapa, um espécie de guia de sobrevivência para o ano de 2022, ficará mais fácil enfrentar as tempestades e compreender as calmarias se soubermos ler os sinais que os acontecimentos nos dão. É o que faz neste artigo Emilio Gennari. Boa leitura.

“O último trimestre de 2021 traz a esperança de que o novo ano dará passos decisivos para sairmos do atoleiro da pandemia. Os índices de crescimento da economia mundial prometem reduzir o desemprego e as vacinas alimentam a expectativa de um 2022 sem máscaras e muitos abraços.

Sob o caldeirão onde as angústias e os sonhos do povo simples se movimentam ao sabor da rotina diária, as chamas da recuperação econômica prometem lucros compensatórios para os ricos e uma dose de esperança para quem, após apertar o cinto, faz de cada migalha recebida um motivo para renovar a sua confiança no sistema.

A poucas semanas de virar as últimas páginas do calendário, quando se olha o panorama internacional, três perguntas expressam as preocupações de quem não se deixa levar pelo otimismo e busca nos fatos os sinais que permitem entrever as sendas do futuro.

O que revela o primeiro ano de mandato do presidente dos EUA, Joe Biden? Em que medida os problemas da economia mundial podem frear o seu crescimento e trazer de volta o espectro da crise? Quantas voltas dará o torniquete da exploração antes que a revolta dos de baixo detenha os planos dos grupos de poder?...

( Emilio Gennari)

           

      


 

                

            Análise de Conjuntura

                       16 de novembro de 2021


À espera de 2022 - Panorama internacional.

            O último trimestre de 2021 traz a esperança de que o novo ano dará passos decisivos para sairmos do atoleiro da pandemia. Os índices de crescimento da economia mundial prometem reduzir o desemprego e as vacinas alimentam a expectativa de um 2022 sem máscaras e muitos abraços.

            Sob o caldeirão onde as angústias e os sonhos do povo simples se movimentam ao sabor da rotina diária, as chamas da recuperação econômica prometem lucros compensatórios para os ricos e uma dose de esperança para quem, após apertar o cinto, faz de cada migalha recebida um motivo para renovar a sua confiança no sistema.

            A poucas semanas de virar as últimas páginas do calendário, quando se olha o panorama internacional, três perguntas expressam as preocupações de quem não se deixa levar pelo otimismo e busca nos fatos os sinais que permitem entrever as sendas do futuro.

            O que revela o primeiro ano de mandato do presidente dos EUA, Joe Biden? Em que medida os problemas da economia mundial podem frear o seu crescimento e trazer de volta o espectro da crise? Quantas voltas dará o torniquete da exploração antes que a revolta dos de baixo detenha os planos dos grupos de poder?

            Não estamos diante de questões que podem ser respondidas somente com teorias e, menos ainda, fazendo os acontecimentos dizerem o que os nossos anseios desejam ouvir. Precisamos reunir pacientemente as peças do mosaico, que foram moldadas durante a crise, montá-las e projetar cenários que alertem a classe trabalhadora para os acontecimentos que virão.

            Resgatar as pegadas do capital no terreno da história é o primeiro passo para limitar o que o futuro apresenta como imponderável e para percebermos em que medida as nossas formas de luta esgotaram as possibilidades de produzir o que desejávamos. Mensurar estas pegadas, calcular a intensidade do passo que as produziu, identificar a meta à qual se dirigem são tarefas que ajudam a preparar respostas capazes de alterar os destinos que o capital pretende impor à humanidade.

 

            1. A política internacional de Joe Biden

            Em dezembro do ano passado, mostramos que o protagonismo da China no cenário mundial estava envolvendo antigos aliados dos EUA e arranhando a influência de Washington nas decisões dos seus governos. Este fenômeno não ocorria apenas pelo peso das relações comerciais que o país mantinha com seus parceiros, mas, sobretudo, pelos investimentos que Pequim realizava no exterior e pelos atritos que Donald Trump semeava mundo afora.1

            Diante deste cenário, a estratégia do presidente dos EUA, Joe Biden não podia ser outra: recuperar o protagonismo do seu país com base em ações destinadas a esfriar o apoio que a China vinha conseguindo e em acordos capazes de fazer recuar as pretensões de Pequim.

            A União Européia foi o primeiro destinatário das investidas estadunidenses. Enquanto Trump havia fustigado Bruxelas com impostos alfandegários, com sanções às empresas envolvidas na construção do segundo gasoduto que transportaria o gás russo para a Alemanha sem passar pela Ucrânia (o Nord Stream 2) e com uma dura cobrança a aumentar a participação do bloco nos gastos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Biden buscou distencionar as relações com medidas que dialogam diretamente com os interesses dos europeus.

            A reconciliação foi selada com o fim das disputas entre Airbus e Boeing junto à OMC pela questão dos subsídios estatais às duas empresas, com a celebração do acordo sobre a importação pelos EUA do alumínio e do aço produzidos no velho continente,2 com os esforços para reavivar a integração da Europa à OTAN e com o levantamento das sanções que haviam interrompido a construção do gasoduto russo, citado anteriormente, denominado Nord Stream 2.

            Ainda que não reste nenhuma dúvida quanto à importância de afastar a UE da China para enfrentar Pequim numa posição mais vantajosa, as concessões de Biden no terreno das relações comerciais não deixam de provocar alguns receios. De um lado, aumentar as importações de aço e alumínio vai fornecer semimanufaturados a preços menores para a indústria estadunidense, mas, de outro, a concorrência acirrada da China nos mercados europeus pode inviabilizar a contrapartida esperada com a compra de produtos fabricados nos Estados Unidos e contribuir para elevar ainda mais o déficit da balança comercial do país.

            Em relação à OTAN, Biden sabe que a UE deseja caminhar para garantir sozinha a segurança da Europa, o que implica na possibilidade de agir autonomamente para gerenciar as crises que envolvem as relações com Rússia, China e o Oriente Médio. Este processo deve ganhar contornos mais definidos a partir de março de 2022, quando uma reunião de cúpula detalhará as relações militares com os países fora do bloco, as regras para a gestão das crises e as metas de desenvolvimento da infraestrutura e dos equipamentos bélicos que se destinam a reduzir a dependência da OTAN.3 Ainda que estejamos longe de poder falar de um claro afastamento da geopolítica estadunidense, ter esta "autonomia" no radar do futuro esboça a possibilidade de as respostas de Bruxelas não se alinharem necessariamente aos interesses de Washington.

            A revogação das sanções às empresas envolvidas na construção do novo gasoduto foi vista como um presente da Alemanha para a Rússia, país que é o fornecedor de uma das principais fontes de energia da Europa e um grande comprador de seus manufaturados. E o fato deste presente trazer a marca dos EUA sinaliza também o desejo de um clima de distensão nas relações entre Washington e Moscou.

            O fato de esta medida estar vinculada à obrigatoriedade de manter o trânsito do gás através da Ucrânia até 2034, não é um grande problema para a Rússia, apesar dos protestos formais do seu governo. As estimativas para o futuro próximo falam de uma exportação anual de 200 bilhões de metros cúbicos de gás, uma quantidade que, mesmo após a entrada em operação do Nord Stream 2, demanda a utilização das linhas que hoje atravessam o território ucraniano.4

            Quem detestou a notícia foi o governo da Ucrânia que considerou o fim das sanções como uma espécie de traição por parte dos EUA. Esvaziar a importância do país como caminho do gás russo para a Europa reduz o poder de barganha de Kiev em relação às pressões militares de Moscou na fronteira entre os dois países e diminui os recursos que o país obtinha com os volumes de gás transportados pelo seu território. A insensibilidade de Biden às queixas ucranianas está apenas mostrando quem manda no jogo e quem para receber alguns favores precisa baixar a crista e aguardar a sua vez. Enquanto trata de se reaproximar da Rússia, Washington guarda na manga um coringa que jogará na hora certa para manter os vínculos com Kiev e dissuadir Moscou de opções bélicas perigosas: o pedido da Ucrânia de integrar a OTAN, uma possibilidade que a Rússia rejeita veementemente.5

            O clima de aparente cordialidade entre Joe Biden e Vladimir Putin quando da renovação do Acordo de Redução de Armas Nucleares no início de 2021, não esconde os burburinhos da nova corrida armamentista. O primeiro sinal inquietante deita raízes no seguido crescimento dos gastos mundiais em armamentos. Segundo o relatório do Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz (SIPRI), com sede em Estocolmo, na Suécia, as nações do globo elevaram este montante para um trilhão e 981 bilhões de dólares em 2020, um aumento real de 2,6% em relação a 2019. Além de ser o maior dispêndio bélico dos últimos 32 anos, é necessário ressaltar que ele ocorreu no período mais duro da crise econômica desencadeada pela pandemia. O fato de os governos aumentarem os gastos em armamentos num contexto tão adverso revela a importância do aumento do poder de fogo nos passos da geopolítica atual.

            Para compreendermos melhor o que está ocorrendo, vamos comparar os dispêndios dos 10 países que, juntos, representam 75% do volume apurado pelo SIPRI, e, eliminada a inflação do dólar, verificar a sua variação percentual em relação a 2019 e a 2011. Esta dupla comparação ajuda a melhor dimensionar a importância do que ocorreu no ano passado. De fato, além de identificarmos a sua evolução em relação ao ano imediatamente anterior podemos averiguar a posição de cada país em relação a 2011, quando o volume total de dispêndios em armamentos atingiu o pico de uma longa fase de crescimento, iniciada em 1998, para, em seguida, se estabilizar num patamar inferior até 2017.6

Quadro 1: Gastos em armamentos, variação em relação a 2019 e 2011

e participação no total mundial

 

Países

2020: Gastos em bilhões

de dólares

Variação percentual

2019-2020

Variação percentual

2011-2020

Porcentagem do gasto mundial em 2020

1. Estados Unidos

778

4,4

- 10

39

2. China

[252]

1,9

76

[13]

3. Índia

72,9

2,1

34

3,7

4. Rússia

61,7

2,5

26

3,1

5. Reino Unido

59,2

2,9

- 4,2

3,0

6. Arábia Saudita

[57,5]

- 10

2,3

[2,9]

7. Alemanha

52,8

5,2

28

2,7

8. França

52,7

2,9

9.8

2,7

9. Japão

49,1

1,2

2,4

2,5

10. Coréia do Sul

45,7

4,9

41

2,3

        Fonte: Elaboração própria a partir do relatório do SIPRI.

            De acordo com o quadro 1, EUA, Reino Unido, Alemanha e Coréia do Sul elevaram seus gastos militares acima da média mundial registrada em 2020. Mas, enquanto os dispêndios de Washington são 10% inferiores aos de 2011 e Londres registra uma queda de 4,2% nesta mesma base de comparação, Berlim aumentou o total em 28% e Seul em 41% em relação a dez anos antes. Não é segredo para ninguém que a Alemanha pretende capitanear o processo que se destina a equipar a União Européia, para que possa decidir sua estratégia militar independentemente da OTAN. Por sua vez, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anunciou em março deste ano que o Reino Unido reduzirá o número de tropas, de tanques e de aviões militares para que parte do dinheiro poupado com estes cortes seja investida no aumento das ogivas nucleares do país de 180 para 260 unidades. Não temos informações em relação aos planos da Coréia do Sul, mas as seguidas tensões com o vizinho do norte e o crescimento do poder ofensivo da China devem levar o país a ampliar tanto os sistemas de defesa existentes como a integração de suas forças armadas com as dos EUA.7

            Com dispêndios estimados em 252 bilhões de dólares, a China elevou seus investimentos bélicos em 1,9%, ante 2019, e em 76% quando comparados com o patamar de 2011. Vale lembrar que, atualmente, Pequim tem entre 250 e 350 ogivas nucleares prontas para o uso e pretende chegar a 700 ogivas em 2027. Além disso, em agosto deste ano, a China testou com sucesso um míssil hipersônico com capacidade de atingir os EUA entrando pela fronteira sul do seu território, onde as defesas contra esse tipo de ataque são bem mais frágeis em relação às que são posicionadas para interceptar artefatos nucleares que a Rússia poderia lançar na rota que sobrevoa o Polo Norte.8 Vale lembrar que as opções bélicas da China não são limitadas por nenhum acordo internacional e o país é aliado da Rússia, que também possui armas hipersônicas e, em 2020, elevou em 26% seus gastos em relação a 2011.9

            A Índia é, sem dúvida, o país que mais surpreende pela variação percentual dos seus gastos. Ainda que o montante de quase 73 bilhões de dólares não seja comparável ao da China e dos EUA, é importante frisar que o aumento dos investimentos bélicos em 2,1% ante 2019 e em 34% em relação a 2011 ocorreu no ano em que a crise econômica causada pela pandemia fez o PIB do país amargar uma queda de 10,3%. Ainda que não tenhamos informações mais precisas quanto ao destino destes recursos, parece impossível explicar o esforço gigantesco da Índia somente em função dos atritos com o Paquistão cujos gastos somaram 10 bilhões e 400 milhões de dólares, uma queda de 2,8% em relação a 2019.10

            Com base nesses dados e no estágio da atual corrida armamentista que expressam, o número de armas nucleares vai aumentar em 2021?

            Os especialistas do SIPRI apresentam um cenário intrigante. Segundo as estimativas do Instituto, na passagem de 2020 para 2021, os EUA devem reduzir o número total de artefatos nucleares de 5.800 para 5.550 e a Rússia deve passar de 6.375 para 6.255, ou seja, as duas grandes potências reduziriam seus artefatos atômicos num total de 370 unidades. Do total que continua nos arsenais, o Acordo de Redução de Armas Nucleares vigente estabelece que os EUA tenham 1.800 ogivas montadas em mísseis prontos para o uso e a Rússia 1.625.11

            Mas a que se apresenta como uma boa notícia ganha tons de preocupação por três fatores que apontam na direção oposta. O primeiro deles diz respeito ao tamanho do arsenal de França, Reino Unido, Israel, China, Índia, Coreia do Norte e Paquistão, países que não são submetidos a nenhum tipo de verificação efetiva ou de limitação desse tipo de armamento. Num único ano, a soma dos artefatos atômicos disponíveis passaria de um total estimado de 1.265, em 2020, para 1.326, em 2021. Sabendo que todos eles são aliados das grandes potências ou orbitam em suas áreas de influência, podemos concluir que, à diminuição dos artefatos sediados nos territórios russos e estadunidense corresponde um crescimento da disponibilidade desse tipo de armamento em outras regiões do globo. Ainda que se trate de um número proporcionalmente pequeno quando comparado ao das grandes potências, a disponibilidade destas armas nos países aliados eleva as chances de golpear os inimigos a partir de outras bases e se torna mais um elemento perigoso no frágil equilíbrio da paz armada na qual o mundo se encontra.12

            O segundo elemento diz respeito aos mísseis que transportam as ogivas atômicas. O Acordo de Redução de Armas Nucleares estabelece apenas quantos mísseis balísticos intercontinentais podem estar carregados e prontos para o lançamento na Rússia e nos EUA, mas não os demais vetores que também podem levar cargas atômicas com um poder de destruição semelhante. A maior preocupação diz respeito aos mísseis hipersônicos de Rússia e China, países que vêm aprimorando mais de um modelo desse tipo de arma. A pesquisa estadunidense relativa a esses foguetes está relativamente atrasada em relação aos seus concorrentes, à medida que os testes realizados por Washington em 15 de julho e 21 de outubro de 2021 falharam por problemas técnicos.13

            Do mesmo modo, não podemos esquecer que os demais países também vêm desenvolvendo foguetes convencionais capazes de alcançar distâncias mais longas com sua carga mortífera. Além dos mais que conhecidos testes da Coreia do Norte, no dia 27 de outubro deste ano, a Índia realizou com sucesso o lançamento do seu novo míssil balístico Agni-V que, com um alcance de 5000 km, pode levar, por exemplo, uma carga nuclear a qualquer ponto do território chinês.14

            Último, mas não menos importante, é o movimento pelo qual os EUA usam a tecnologia militar que desenvolveram para fortalecer os laços com seus aliados. Numa clara manobra para ampliar o poder de dissuasão militar nos oceanos Índico e Pacífico, no dia 16 de setembro de 2021, Washington e Londres assinaram com a Austrália o que foi denominado "Plano AUKUS" (das siglas internacionais dos países signatários).

            Negociado em segredo, o acordo visa compartilhar capacidades cibernéticas, inteligência artificial, tecnologia quântica e, sobretudo, fornece à Austrália a capacidade de construir 12 submarinos nucleares com tecnologia estadunidense. Chama a atenção o fato de que é a primeira vez que Washington compartilha esta tecnologia com outro país e que, com estes equipamentos, a Austrália passaria a ter o mesmo número de submarinos nucleares que hoje são operados pela China. Além de serem bem mais rápidos e difíceis de detectar, estes equipamentos podem ficar submersos por meses, alcançar distâncias muito mais longas das que são percorridas pelos que são movidos a diesel e carregar mísseis nucleares que, por terem bandeira australiana, escapam às limitações dos acordos vigentes.

            Não resta dúvida que, para a Austrália, se trata de um ganho tecnológico relevante, mas, ao dar este passo, o país amarra o seu destino ao dos EUA. Uma concessão dessa monta abre espaço para a Austrália vir a ser uma base de interceptação dos mísseis que cruzarem os céus do Polo Sul em direção aos Estados Unidos. Caso isso se concretize, o país estaria exposto a qualquer confronto que envolva EUA, Rússia e China.15

            Enquanto os governantes das grandes potências proferem palavras de paz, assinam acordos que mantêm a redução de armas nucleares e dão declarações conjuntas que buscam tranquilizar a humanidade, a ampliação e a modernização dos arsenais bélicos corroem vagarosa e incessantemente o equilíbrio de forças que sustenta a paz mundial. As pegadas no solo da geopolítica internacional não deixam dúvidas que, sob a retórica de distensão, são plantadas sementes de guerra.

 

            2. A inflação no caminho da recuperação mundial

            O desempenho das principais economias do planeta ao longo de 2021 é acompanhado por uma incômoda taxa de inflação. Para uma parte dos economistas, trata-se de um problema passageiro que será resolvido com a normalização das atividades produtivas até o final do primeiro semestre de 2022. Para outros, ela sinaliza a possibilidade de um conjunto de fatores frearem perigosamente o crescimento da economia mundial por muito mais tempo.

            As projeções do Fundo Monetário Internacional estimam que, em 2022, a riqueza gerada pelos trabalhadores do mundo inteiro deve registrar um aumento de 4,9%, um ponto percentual a menos em relação ao ritmo esperado em 2021, e deve ficar em 3,3% em 2023.16 Pelos números da entidade, não teríamos nenhuma situação capaz de mergulhar o mundo numa nova recessão, mas sim de causar uma desaceleração progressiva do crescimento.

            Para entendermos melhor o que está acontecendo, vamos remontar em grandes linhas o impacto da pandemia na produção de riquezas e os problemas da recuperação que está em andamento.

            À medida que o vírus se espalhava pelo mundo e o isolamento social era o único fator capaz de conter o seu rastro de morte, as atividades econômicas foram paralisadas em graus e tempos diferenciados. Muitos trabalhadores perderam seus empregos, outros assumiram parte dos custos da profissão com o trabalho remoto e inúmeras empresas foram hibernadas num patamar que buscava preservar os equipamentos existentes e reduzir as perdas geradas pela crise.

            Setores da indústria desativaram parcial ou totalmente a sua produção, cancelaram pedidos de matérias-primas e componentes e buscaram se adaptar a uma demanda marcada por flutuações constantes. Em sentido oposto, as empresas de materiais de higiene e limpeza e de equipamentos destinados ao setor de saúde trabalhavam a todo vapor.

            No setor de serviços, várias atividades fecharam totalmente as portas durante um longo período e outras adaptaram suas estruturas a uma demanda bem inferior à do período anterior à pandemia. Portos, aeroportos, modais ferroviários e rodoviários viram despencar o fluxo de mercadorias, demitiram um contingente considerável de profissionais e deixaram sem utilização navios, aviões, trens e caminhões. O setor hoteleiro, de refeições coletivas e lazer sofreu uma paralização abrupta com sérias consequências em termos de emprego e manutenção das estruturas.

            Bastam estas poucas linhas para percebermos que a fase aguda da pandemia desencadeou na economia mundial uma reação em cadeia que atingiu os centros nevrálgicos da produção, paralisou grande parte do transporte de carga e fez cair os preços das matérias-primas e da energia.

            Em geral, só a agricultura e a pecuária viram a produção e os lucros prosperarem com a ampliação dos negócios.

            Assim como a redução das atividades econômicas conheceu impactos diferenciados em todos os países e em cada setor da economia, a retomada do crescimento proporcionada pelo avanço da vacinação e a diminuição da taxa de contaminação vem ocorrendo de forma desigual. Na base deste ritmo diferenciado encontramos uma somatória de fatores que vão de uma demanda que sente os efeitos negativos da diminuição da renda e do desemprego à elevação dos custos da energia, da falta de profissionais à escassez de materiais, a uma oferta freada pela necessidade de voltar a paralisar a produção para conter os novos casos de contaminação pelo coronavírus e pelo amplo processo de fusões e incorporações de empresas que ocorreu durante a pandemia.

            Alguns exemplos ajudam a ilustrar este processo. Os principais portos e inúmeras indústrias da China, Índia, Vietnã, Bangladesh e Coréia do Sul têm suas atividades suspensas sempre que entre os trabalhadores são constatados focos de Covid-19, o que, obviamente, atrasa a entrega das encomendas e obriga os compradores a uma longa espera que pode paralisar suas atividades.

            Nos Estados Unidos, as classes média e média-alta que, em função da pandemia, se viam proibidas de viajar a passeio e a negócios, de frequentar cinemas, teatros, restaurantes, etc. usaram a renda não gasta nestas atividades para elevar a compra de bens de consumo. No mesmo período, as empresas que ensaiavam o retorno ao trabalho presencial aumentaram significativamente as aquisições dos suprimentos, gerando um pico de demanda sem precedentes. Segundo o Containers Trades Statistics, nos primeiros oito meses de 2021, as cargas de bens de consumo e materiais encomendados pelas empresas aumentaram 25% em relação ao mesmo período de 2019. Este volume considerável esvaziou os estoques existentes, elevou os preços dos insumos das cadeias produtivas e teve que acertar contas com operações portuárias, rodoviárias e ferroviárias que estavam longe de operar nos níveis anteriores à pandemia, tanto no país de origem dos importados como nos EUA.

            Para termos uma ideia do que isso significa, basta pensar que o desembarque nos principais portos estadunidenses conheceu inúmeros pontos de estrangulamento que levaram os navios a tempos de espera prolongados. Em setembro deste ano, por exemplo, em Long Beach e Los Angeles, foi registrada uma fila de 73 embarcações que aguardavam a permissão de atracar para efetuar o desembarque e o embarque dos contêineres, quando, em tempo normais, não deveríamos ter mais que duas ou três aguardando a vez de entrar nestes portos.17

            Não é necessário sermos economistas para entender que, quanto maiores os atrasos no desembarque e no despacho dos contêineres através do transporte rodoviário e ferroviário, mais escassa é a sua disponibilidade para novas cargas e mais caros se tornam os fretes. Segundo dados da Drewry Shipping, em agosto deste ano, o custo médio para enviar um container de 12 metros quadrados dos portos da costa leste da Ásia para o Oeste dos Estados Unidos aumentou 360% quando comparado ao valor do mesmo mês de 2020. Ainda segundo esta empresa, a rota marítima entre Shangai, na China, e Rotterdam, na Holanda, teve os custos do transporte do mesmo container elevados em 659% na mesma base de comparação. Situações parecidas são registradas nas linhas que ligam o sudeste asiático aos demais portos europeus e à América Latina. Ou seja, não estamos diante de um problema pontual ou localizado, e sim de uma realidade que se faz presente no mundo inteiro e que é difícil prever quando será normalizada. Os mais otimistas afirmam que isso ocorrerá no terceiro trimestre de 2022, enquanto os mais cautelosos adiam este prazo para março de 2023.18

            Do lado da oferta, não podemos esquecer o impacto do processo de fusões e aquisições causado pela crise econômica. Diante da queda do faturamento, muitas pequenas e médias empresas se uniram a empresas maiores, reduzindo tanto o número de empregados, como a capacidade de produção. Este mesmo processo foi promovido por grandes empreendimentos que viram na crise a oportunidade de adquirir a baixo preço negócios promissores a fim de incorporar os conhecimentos disponíveis e as estruturas que complementariam o cardápio de seus produtos num processo que, via de regra, envolve um enxugamento de postos e ambientes de trabalho como forma de otimizar a capacidade produtiva e os retornos esperados. Concretamente, isso significa menos gente trabalhando, uma redução da oferta de mercadorias e serviços e um impacto na elevação dos preços em função do maior controle que as grandes empresas passam a exercer sobre os mesmos.

            Para termos uma ideia do volume de capital envolvido, basta pensar que, segundo um estudo da consultoria Bain & Company, em 2020, as fusões e as incorporações movimentaram 2 trilhões e 800 bilhões de dólares e, nos primeiros dez meses de 2021, a agência Bloomberg calcula esse montante em 4 trilhões e 110 bilhões de dólares, um volume que, faltando dois meses para o final do ano, já superou o recorde histórico registrado em 2007. Para termos uma ideia do que isso significa, basta pensar que a soma destes valores corresponde a quase quatro anos de PIB do Brasil. Ou seja, a pandemia promoveu um processo de concentração de capitais cujos efeitos sobre a oferta e os preços se somam aos problemas que descrevemos nos parágrafos anteriores.19

            Mas o impacto da retomada econômica nos preços não guarda relação apenas com os problemas que listamos. Os combustíveis, por exemplo, encareceram no mundo inteiro sob o impulso da maior demanda de petróleo e de carvão mineral. Ao longo do mês de outubro, o preço do petróleo tipo WTI ultrapassou os 80 dólares por barril, sendo que, no mesmo mês de 2020, as cotações flutuavam em torno dos 40 dólares.

            A explicação para esta forte elevação não está apenas no crescimento econômico mundial, mas guarda uma relação direta com a falta de interesse dos países produtores em elevar rapidamente as cotas de extração para encolher os preços desta commodity. O mesmo ocorre com as empresas estadunidenses que extraem petróleo das rochas de xisto. Em outubro deste ano, suas atividades se restringiam a 533 perfurações, quase um terço das 1580 de outubro de 2014, quando os preços do petróleo estavam nos patamares atuais. Duramente atingido pela desaceleração econômica causada pela pandemia, o preço do barril tende a se manter elevado à medida que as empresas petrolíferas se negam a aumentar a extração a patamares compatíveis com a alta da demanda para recuperar parte dos lucros perdidos no auge da pandemia.20

            Considerada a "fábrica do mundo", a China é fortemente afetada pelos preços da energia, e isso não se deve apenas aos valores atingidos pelo petróleo. Os preços do carvão mineral, que representa 67% de sua matriz energética, dispararam devido a uma combinação de forte demanda, baixa oferta e elevação dos custos do transporte. Entre janeiro e agosto deste ano, a produção industrial do gigante asiático cresceu 13,1% em relação ao mesmo período do ano passado, mas a produção local de carvão aumentou míseros 4,4%. A desativação de várias minas chinesas em função da total falta de segurança elevou a demanda de Pequim no mercado mundial, aumentando em 205% os preços do carvão importado da Austrália e em 233% o do que é produzido na Indonésia. Estes aumentos inviabilizam a operação das centrais termoelétricas a carvão que, por lei, são proibidas de repassar a elevação dos custos para o consumidor final. Desativadas ou operando com capacidade reduzida, a quantidade de energia que sai de suas turbinas caiu a níveis tão baixos que os apagões se tornaram uma realidade cada vez mais frequente em várias regiões do país.21

            O setor imobiliário do gigante asiático é outro fator que desperta as preocupações do mundo inteiro. Na segunda metade de setembro, os investidores foram sacudidos pelas notícias de que a Evergrande, um gigante da construção civil, estava sem recursos para pagar as parcelas de suas dívidas que somavam cerca de 300 bilhões de dólares. A quebra da empresa de investimentos imobiliários foi evitada graças à intervenção do governo, mas a desconfiança de que outras grandes empreiteiras têm o mesmo problema eleva os temores de que um possível calote coletivo atinja fortemente os bancos chineses. O mundo teme que, ao bloquear o fluxo de recursos que anima os investimentos do setor, o PIB chinês despenque para níveis próximos do zero e que os problemas internos se espalhem como um rastilho de pólvora pelos canais da economia mundial. E não é para menos. A construção civil responde por cerca de 7% do PIB da China, uma porcentagem que chega a 20% quando incluímos a rede de fornecedores. Daí que uma crise das grandes empreiteiras e dos bancos que as financiam teria um impacto devastador. 22

            Diante dos elementos apresentados, podemos dizer que, em 2022, não faltam espaços para a economia mundial crescer, mas também não faltam obstáculos para uma recuperação sustentada. O aumento da inflação pelo encarecimento da energia, pelas dificuldades nos transportes e pelos descompassos entre oferta e demanda deve levar os Bancos Centrais de vários países a retirarem os estímulos que sustentaram a economia durante a pandemia e a elevarem os juros a fim de esfriar a demanda. Por outro lado, o combate à inflação terá que acertar contas também com a possibilidade de uma nova onda de contaminação pelo Coronavírus que, a depender da gravidade, poderá voltar a paralisar as atividades econômicas das regiões atingidas.

            O grau de incerteza é grande. Os riscos não são pequenos. Por isso precisamos redobrar as atenções ao tamanho e à complexidade dos obstáculos que podem gerar surpresas desagradáveis no caminhar da economia mundial em 2022.

 

            3. O capital aperta o torniquete da exploração.

            Em meio à incerteza imposta pelo desemprego e pela inflação que encolhe o poder de compra dos salários, o aumento da exploração se configura como o único aspecto líquido e certo da retomada do crescimento. Segundo o relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o quarto trimestre de 2021 deve se encerrar com 94 milhões e 600 mil vagas de trabalho em tempo integral a menos em relação ao mesmo período de 2019.

            Contudo, encolher o número de empregos disponíveis não implica numa diminuição proporcional da produção de valor. Ao contrário, segundo as estimativas da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o PIB mundial deste ano deve ficar 2,1% acima do patamar de 2019. Ou seja, ao se confirmarem estas estimativas, teremos um aumento da produção de valor em relação ao período anterior à pandemia com um contingente de ocupados que, em média, é 4,3% menor.

            Todos sabemos que, em tempos de crise, o medo do desemprego e a alegria de ter encontrado um trabalho para garantir o próprio sustento funcionam como uma espécie de acelerador da produtividade. Esta tendência geral é confirmada pela OIT cujos cálculos apontam uma elevação do valor produzido em cada hora trabalhada de uma média correspondente a 18 dólares em 2019 para 18 dólares e 80 centavos estimados em 2021.23

            Mas o medo e a felicidade não dão conta de explicar as situações peculiares que a mídia vem alardeando como sinais de pujança do sistema e nem permite entender como as pressões das empresas usam a exploração do sofrimento como combustível da produção de valor e dos lucros. Vamos visualizar esta realidade mostrando o que se esconde atrás do biombo das aparências que deixam de queixo caído quem, em busca de uma vaga, anseia por ter acesso a ditas oportunidades.

            Começamos pelos Estados Unidos onde, em junho deste ano, as estatísticas mostravam a existência de 9 milhões de desempregados para 10 milhões e cem mil vagas disponíveis. De posse destes números, os empresários pediam a imediata suspensão dos benefícios que o Estado oferece aos desempregados a fim de forçar as pessoas a trabalharem. De outro, os relatos dos empregados revelavam uma realidade bem diferente da que era apresentada pelos patrões. Vamos aos fatos.

            Em primeiro lugar, é necessário deixar claro que a grande maioria das vagas disponíveis é para trabalhos precários que, apesar dos aumentos salariais oferecidos não compensam os riscos e aos quais os funcionários são submetidos. No comércio varejista, por exemplo, 94% das lojas têm problemas para completar o quadro de funcionários à medida que os postos são quase sempre em lugares fechados, não arejados, a contato direto com as pessoas durante toda a jornada de trabalho e sem os meios necessários para evitar o contágio.

            Ainda que a grande maioria dos casos de Covid-19 não leve a óbito, é o trabalhador quem arca com os caríssimos custos do atendimento médico e, até mesmo, nos casos em que as empresas oferecem um seguro saúde, a parcela desembolsada quando de uma internação hospitalar continua sendo alta demais diante dos salários pagos pelos empresários. Concretamente, quem trabalharia tranquilo sabendo que tem uma grande chance de pagar mais do que ganha para escapar da Covid à qual está sistematicamente exposto?

            Nas grandes corporações, o ritmo, as condições de trabalho e a política salarial têm levado muitas pessoas a experimentarem o novo normal da exploração. Recentemente, Microsoft, Facebook, Twitter e Google anunciaram que pretendem rebaixar os salários dos empregados em trabalho remoto. Os cortes ficariam entre 5% e 15% dos ordenados vigentes, sendo que a porcentagem é diretamente proporcional à distância entre a unidade da empresa onde o funcionário trabalhava e a sua moradia. A redução é justificada pelo fato de que os empregados não precisam gastar com esse tipo de deslocamento, como se este critério tivesse sido levado em consideração para calcular o salário da contratação de cada um para o trabalho presencial.

            Diante desta postura, não é difícil imaginar a angústia de quem, ao decidir recusar, sabe estar se colocando fora do quadro de empregados e tem plena consciência de que o próximo emprego poderá oferecer um salário menor em relação ao que receberia após os descontos. Por outro lado, aceitar é abrir caminhos para engolir outras demandas relativas ao desempenho e ao cumprimento de metas que virão na esteira desta submissão. Em ambos os casos, uma dose generosa de angústias e sofrimentos é a única coisa que o trabalhador garante qualquer que seja a sua escolha.

            No caso da Amazon, o tipo de contrato e a carga de trabalho revelam o peso da exploração praticada por esta gigante do comércio eletrônico cujos negócios dispararam durante a pandemia. Muitos trabalhadores são pagos por hora efetivamente trabalhada, o que exclui benefícios como seguro saúde, descanso semanal remunerado e férias.

            Da chegada do pedido à entrega dos produtos aos compradores, o processo de trabalho é controlado por sistemas que gravam todas as informações relativas ao desempenho de cada funcionário. Qualquer fração de tempo alheia ao processo de produção é computada e, caso extrapole o padrão estabelecido, o sistema prepara automaticamente a carta de demissão do empregado.

            Esta mesma realidade vale para os motoristas que entregam as encomendas. Qualquer parada para almoçar, tomar café ou ir ao banheiro é registrada como tempo de não trabalho. Para não sofrerem retaliações, os motoristas urinam em garrafas plásticas no interior dos veículos, comem e tomam café enquanto dirigem numa jornada que nunca é inferior às 10 horas diárias.

            A pressão do ritmo de trabalho se reflete na impossibilidade de respeitar as regras de distanciamento social, de higienizar frequentemente as mãos e no número de acidentes com afastamento. Em 21 unidades da Amazon foram registrados casos de Covid-19, mas, além de não suspender o trabalho, quem protestou pela falta de medidas de proteção foi sumariamente demitido. No que diz respeito aos acidentes de trabalho, em 2020, as unidades sediadas nos EUA registraram 5,9 ocorrências com afastamento para cada 100 trabalhadores contratados em tempo integral, um índice 80% maior do que a média nacional. Ficar na Amazon implica em aguentar um ritmo de trabalho que não deixa tempo para respirar. Sair dela envolve repensar o cotidiano da vida com um salário menor e uma lista de incertezas. Mas, à medida que seguir segurando a barra é sinônimo de se aniquilar sob o peso do trabalho, os sacrifícios da mudança de emprego começam a ser vistos com bons olhos.

            Diante deste conjunto de fatores, não é difícil entender porque, nos EUA, a rotatividade mensal está acima dos 3% dos ocupados. Ou seja, não são os desocupados que querem aproveitar o salário desemprego para não trabalhar e sim as condições oferecidas pelo emprego e a gravidade dos riscos a fazer com que muitos trabalhadores desistam das vagas que ocupam, mantendo assim a discrepância entre o número de postos em aberto e o de trabalhadores e trabalhadoras que se candidatam a eles.24

            No Reino Unido, a dificuldade de encontrar empregados para determinadas funções revela o peso e a importância dos imigrantes para que as atividades econômicas ofereçam os lucros esperados. A saída da União Europeia e a paralização das empresas no início da pandemia fizeram com que mais de um milhão de trabalhadores estrangeiros deixassem o território britânico para retornar aos países de origem. A retomada das atividades econômicas e as dificuldades de uma recontratação no Reino Unido levaram grande parte deste contingente a procurar emprego nas nações da UE.

            O fato de os britânicos de nascimento não terem o menor interesse em ocupar as vagas que a escassez de imigrantes faz brotar nos setores onde se trabalha muito e se ganha pouco faz com que atividades essenciais se deparem com situações de desabastecimento. Em agosto deste ano, por exemplo, a Associação Britânica de Produtores Independentes de Carne afirmava ter 14 mil vagas disponíveis e os criadores de aves apontavam a necessidade de preencher imediatamente 7 mil vagas a fim de garantir a demanda dos supermercados. Contudo, criar aves e acondicionar as carnes espelhavam apenas os problemas que se faziam presentes nas fases iniciais da cadeia produtiva. De fato, o transporte de carga também registrava uma situação particularmente grave com 102 mil postos disponíveis para as funções de motorista e carregador.

            Algumas semanas depois do anúncio desta enorme disponibilidade de vagas, prateleiras vazias, filas intermináveis de veículos nos postos que recebiam o combustível transportado pelos poucos caminhões-tanques em circulação, falta de matérias-primas e suprimentos para as empresas de todos os tipos e tamanho se tornaram acontecimentos corriqueiros em várias cidades britânicas.

            Apesar do impacto desta situação sobre a receita e os lucros, levantar as barreiras à contratação de imigrantes seria reconhecer a importância de um trabalho que sempre foi menosprezado e admitir que o Brexit foi um tiro no pé em termos de disponibilidade de força de trabalho barata e pronta a se deixar esfolar. Elevar os salários locais para tentar atrair os autóctones comprometeria as margens de lucros numa economia que ainda vive as incertezas da pandemia e cuja recuperação não apresenta setores capazes de promover um crescimento sustentado. Ao capital resta então apelar ao Estado para amenizar a escassez de força de trabalho. Neste sentido, o setor de processamento de carnes solicitou e obteve do Ministério da Justiça o aumento da cota de presos autorizados a trabalhar em seus galpões por ordenados inferiores aos dos próprios imigrantes; o transporte de combustível ganhou o envolvimento de 150 motoristas do Exército de Sua Majestade; e o tempo máximo de volante dos condutores teve seu limite ampliado de 9 para 11 horas diárias. 

            Apesar destes "quebra-galhos", a situação está longe de se normalizar e o caso dos motoristas apresenta um elemento que dificilmente será alterado pelos empregadores. É fato que muitos autóctones deixaram a profissão depois que o valor do frete começou a ser calculado com base nos quilómetros rodados e não por hora de volante. Os seguidos atrasos nas passagens de fronteiras depois da saída da União Européia, os engarrafamentos nos portos e nos centros de distribuição causados pelas normas que passaram a regular o comércio exterior depois do Brexit fizeram com que ganhar a vida como motorista de caminhão começasse a não valer a pena. De fato, independentemente do tempo necessário para levar as cargas ao seu destino, o salário é rigorosamente o mesmo. Ampliar a jornada de 9 para 11 horas faz com que os caminhoneiros possam percorrer mais quilômetros e ganhar um pouco mais, ainda que o preço a pagar seja a elevação da fadiga e do risco de acidentes. Mas, garantido o lucro das transportadoras e das empresas que dependem dos seus serviços, a perda de vidas humanas é um fator que o capital aceita sem pestanejar.25

            Na Finlândia, a abundância de vagas guarda uma relação direta com uma série de fatores. De um lado, o país enfrenta uma escassez aguda de força de trabalho em função do envelhecimento da sua população à qual se soma a recusa dos autóctones de trabalharem como enfermeiros e técnicos de enfermagem, como operários metalúrgicos e marítimos ou de assumirem as vagas menos qualificadas do setor de tecnologia da informação. De outro, as dificuldades que os imigrantes enfrentam para aprender a língua local, o forte preconceito dos autóctones em relação aos não finlandeses, o inverno rigoroso, a relutância dos empregadores em reconhecer experiências e qualificações obtidas no exterior e, sobretudo, o custo de vida elevado para os salários pagos a quem ocupa as vagas disponíveis alimentam a defasagem entre a oferta de postos e as pessoas dispostas a ocupá-los.

            Contudo, a pressa do governo em dobrar os níveis de imigração para 20-30 mil pessoas ao ano guarda também uma relação direta com a necessidade de sustentar o sistema previdenciário finlandês. De fato, além de o imigrante ser uma força de trabalho que, ao entrar no país em idade adulta, dispensa os governos de gastarem uma quantidade considerável de recursos para a sua formação, as vicissitudes às quais costuma ser submetido elevam suas chances de um retorno ao país de origem ou de migrar para outras nações onde seus familiares se instalaram.

            Desta forma, em todos os países europeus, é comum encontrar estrangeiros que trabalham durante anos e contribuem regularmente para a previdência social, mas, ao saírem deles antes de completar o período necessário para obter os benefícios, acabam engordando o caixa da seguridade social sem receber nenhum retorno. Os motivos pelos quais a Finlândia abre os braços aos estrangeiros não guarda nenhuma relação com questões humanitárias, mas tão somente com as necessidades de um capital que não encontra espaços suficientes para ampliar a acumulação no país e precisa tirar dos estrangeiros os recursos que garantem a paz social entre os nativos.26

            Resgatar o que se esconde atrás das notícias de "sobra de vagas" e "falta de trabalhadores" que insinuam a presença de um capitalismo pródigo em oportunidades permite mostrar que o capital não tem nenhuma intenção de afrouxar o torniquete da exploração. É nesta direção que, a nosso ver, devem ser lidas as pressões da iniciativa privada para que os governos retirem os auxílios concedidos durante a pandemia e os limites impostos às demissões em função das necessidades do isolamento social. Sem nenhum tipo de proteção, a força de trabalho disponível estaria totalmente exposta às exigências da acumulação pós-pandemia.

            Uma amostra das possibilidades que se preparam em escala global pode ser vista nos acontecimentos da Itália, país onde sobram trabalhadores e faltam empregos. No dia 30 de junho, o governo deixou de reeditar o decreto que, desde 17 de março de 2020, proibia as demissões que não fossem ligadas à falência ou à redução de efetivos mediante um plano de demissões voluntárias acordado com os sindicatos. Para poupar o caixa das empresas, o Estado pagava o correspondente a 80% das horas não trabalhadas de quem estava com o contrato suspenso, sem nenhum custo por parte dos empregadores. Desta forma, os patrões arcavam apenas com os "prejuízos" oriundos da baixa utilização da capacidade instalada, mas não da manutenção de funcionários capacitados que estariam imediatamente disponíveis quando da retomada das atividades.27

            Como todos os dirigentes sindicais e os delegados de base esperavam, uma onda de demissões percorreu a Itália de norte a sul a partir de 1º de julho. Em poucos dias, inúmeras empresas aproveitaram para fechar setores e unidades de produção a fim de transferir, parcial ou totalmente, as atividades aí realizadas para países onde os custos do trabalho são menores. Outras justificaram com "motivos econômicos" a eliminação seletiva tanto de profissionais com os salários mais elevados, como de delegados sindicais e de membros das organizações nos locais de trabalho cujos ordenados não se distanciavam das médias setoriais.

            Do mesmo modo, as demissões que golpearam quem estava articulando os protestos após o fim do decreto, ou havia participado de ações de resistência anteriores, se associaram a uma longa lista de ativistas, delegados e representantes de base que permaneceriam com o contrato suspenso, mesmo após a retomada das atividades, a fim de impedir a presença deles na articulação do chão de fábrica no momento mais delicado dos enfrentamentos.28

            Felizmente, os golpes desferidos pelos empresários despertaram reações inesperadas. Em poucos dias, a resposta dos trabalhadores e das trabalhadoras se fez ouvir intensamente de norte a sul do país. Greves de diferentes durações pipocaram em todas as regiões italianas. Na cidade de Florença, ocorreu um dos momentos mais significativos da retomada dos enfrentamentos. Os 400 operários da empresa de componentes automotivos GKN, demitidos com o fechamento abrupto da unidade onde trabalhavam, sacudiram a cidade com seus protestos, bloquearam as demissões coletivas na justiça e lançaram as bases de um questionamento nacional sobre a possibilidade de as empresas beneficiadas pelos incentivos governamentais transferirem abruptamente as instalações para outros países.29

            Além dos atritos com a polícia, nos portões das empresas, não foram poucos os momentos em que os piqueteiros enfrentaram a violência de jagunços assoldados pelos empregadores, sob a vista grossa dos policiais que acompanhavam os acontecimentos, a poucos metros de distância.30

            Neste cenário no qual se manifesta a rebeldia de uma classe que estava adormecida, não faltam elementos que elevam as preocupações de quantos estão envolvidos na sua organização. O ataque à sede da Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL) perpetrada por grupos neofascistas, no dia 9 de outubro, em Roma, acendeu um sinal de alerta que as manifestações de repúdio ocorridas nos dias seguintes não conseguiram apagar. Enquanto muitos limitaram suas observações ao debate sobre a obrigatoriedade da vacina para todos os trabalhadores como a motivação para o ataque à maior central sindical do país, poucos observaram que esta ação não foi realizada por um grupo isolado de pessoas, e sim por uma multidão que, do lado de fora da sede, assistia à invasão realizada pelos líderes de extrema direita.

            Cuidadosamente preparada em todos os detalhes, a manifestação revelou a capacidade de recrutamento e de mobilização da direita na periferia de Roma, um fenômeno que vem se repetindo nas grandes cidades italianas. Neste sentido, o ataque se apresenta como a ação de quem catalisa o descontentamento social que grassa nestes ambientes, nos quais pequenos comerciantes, desempregados e trabalhadores precários não conseguem fazer ouvir a própria voz, para se credenciar como liderança disposta a enfrentar o status quo.

            Ainda que, no momento, seja impossível tirar maiores conclusões deste acontecimento, a confusão ideológica e os apelos contra as vacinas que ganharam terreno entre o povo simples, podem criar um caldo de cultura favorável à penetração neofascista na base da pirâmide social. Se as manifestações de repúdio à invasão da sede da CGIL eram essenciais sob todos os pontos de vista, a tarefa de reverter o apoio das pessoas comuns aos grupos neofascistas é tão importante quanto urgente.

            A pandemia chegou ao nosso continente num cenário de 6 anos de baixo crescimento econômico, marcado pelo aumento da pobreza e das tensões sociais. De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), a economia da região sofreu uma retração de 6,8%, em 2020, mais que o dobro da média mundial (- 3,2%); cerca de 2 milhões de micro e pequenas empresas fecharam as portas; e a redução de horas trabalhadas sinalizou uma perda correspondente a 26 milhões de postos de trabalho em tempo integral. A precariedade das condições de vida e o empobrecimento da população associado ao desemprego, a impossibilidade de muitos trabalhadores por conta própria exercerem suas atividades e os precários serviços assistenciais do Estado potencializaram o impacto mortífero da pandemia. Apesar de a região ter apenas 8,4% da população mundial, o coronavírus fez com que ela respondesse por 27,8% das mortes por Covid-19 registradas no mundo inteiro.

            De acordo com o estudo da CEPAL, publicado em setembro de 2021, a América Latina e o Caribe devem crescer 5,9% este ano e conhecer uma expansão do PIB de 2,9% em 2022. Isso significa que o continente voltará a igualar a quantidade de riquezas de 2019 somente em meados do próximo ano. Contudo, este passo ocorrerá sem que a renda das famílias volte ao patamar anterior à crise. Se, antes da pandemia, um em cada dois empregos era de trabalho informal, os dados de 2021 revelam que, em média, sete em cada dez vagas geradas pelo crescimento econômico estão na informalidade.31

Trata-se de um dado preocupante, à medida que esses postos, além de não oferecerem nenhum tipo de direito e proteção social, pagam salários inferiores aos do trabalho com carteira assinada. Ou seja, ainda que o crescimento traga algum alívio em relação à situação atual, o aprofundamento da exploração vai manter o número das famílias em situação de vulnerabilidade bem acima dos patamares de 2019. A ausência de reações populares aos desmandos empresariais, uma inflação que corrói o poder de compra dos salários, um Estado que prende e condena quem rouba para comer e atua para dar mais a quem tem demais abrem novos caminhos ao massacre dos mais pobres.

            A um passo de entrar no último mês de 2021, as preocupações com uma nova onda de contaminações percorrem os países da Europa. Diante da forte elevação dos contágios, muitos chefes de Estado voltaram a falar em lockdown.32 A líder técnica da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Covid-19, Maria Van Kerkhove, disse que, entre o dia 8 de outubro e 5 de novembro, na Europa, as contaminações aumentaram em mais de 55%. Ainda segundo a OMS, mantido este ritmo, o velho continente pode amargar mais de 500 mil mortes até o final de fevereiro de 2022.33

            No mundo inteiro, a sede de lucros que força a marcha rumo ao fim das restrições impostas pelo combate à pandemia é a mesma que usa o desejo da população de voltar à normalidade para pressionar os governos a assumirem os riscos e os custos da completa reabertura das atividades econômicas. Nesta correnteza onde toda precaução é vista como uma ameaça aos negócios, a Covid-19 prepara a conta que a humanidade pagará em vidas humanas.

           

            Emilio Gennari, 16 de novembro de 2021.

 

 

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(1) Em: Emilio Gennari, O mundo no final de 2020, texto disponível através do link https://drive.google.com/file/d/1zACZhmiuqYSYpAA0yKrtdr_q46smBxz-/view?usp=drivesdk

 

(2) Os dados citados encontram-se disponíveis em: https://brasil.elpais.com/internacional/2021-06-15/ue-e-eua-selam-fim-do-conflito-airbus-boeing-apos-17-anos-de-disputa.html  e em: https://brasil.elpais.com/internacional/2021-11-01/biden-promove-resposta-internacional-a-crise-das-cadeias-de-abastecimento.html  Acessos em 02/11/2021.

 

(3) Em: https://elpais.com/internacional/2021-02-25/la-ue-impulsa-sus-planes-de-autonomia-militar-pese-a-la-sintonia-con-washington.html#?sma=newsletter_global20210301m  e em: https://elpais.com/internacional/2021-11-15/la-ue-preve-realizar-en-2023-las-primeras-maniobras-militares-de-su-historia.html?sma=newsletter_diaria_manana20211115m Acesso em 15/11/2021.

 

(4) Resumimos neste bloco as informações divulgadas em:

- https://elpais.com/internacional/2021-07-22/el-aparente-enfado-del-kremlin-con-el-nord-stream-2.html?mid=DM73323&bid=659824571#?sma=newsletter_global20210726m  

- https://elpais.com/internacional/2021-07-22/el-aparente-enfado-del-kremlin-con-el-nord-stream-2.html   Acessos em 25/10/2021.

 

(5) Dados divulgados em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58582195  Acesso em 16/09/2021.

 

(6) O relatório completo do Instituto está disponível em: https://www.defesanet.com.br/tt/noticia/40451/SIPRI---Gastos-militares-mundiais-sobem-para-quase-US-%24-2-trilhoes-em-2020/   Acesso em 30/10/2021

 

(7) Em: https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,reino-unido-amplia-arsenal-nuclear-pela-primeira-vez-em-30-anos,70003649950?utm_source=NexoNL&utm_medium=Email&utm_campaign=anexo  Acesso em 19/03/2021.

 

(8) Maiores informações sobre o tema podem ser encontradas em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/sputnik-foi-alerta-para-os-eua-mas-missil-hipersonico-chines-e-desafio-maior/ Acesso em 13/11/2021.

 

(9) Para entendermos a importância das armas hipersônicas num conflito, basta pensar que elas não seguem a trajetória parabólica fixa de um míssil balístico convencional, podem voar em altitudes mais baixas e seu percurso até o alvo pode seguir trajetórias diferentes, o que dificulta o rastreamento e a interceptação pelos sistemas de defesa antimísseis em uso na maioria dos países. As armas hipersônicas podem ser lançadas de foguetes balísticos que as colocam em órbita antes de elas acionarem seus propulsores ou de um avião, como é o caso do míssil hipersônico Kinjal, fabricado pela Rússia. A arma testada por Pequim atingiu 7.344 km por hora, o que possibilitaria dar uma volta completa na terra na linha do Equador em pouco menos de duas horas. Os mísseis da série Avanguard que estão sendo testados pela Rússia podem cobrir distâncias intercontinentais a mais de 24 mil km por hora. Os mísseis hipersônicos acoplados a aviões militares podem levar cargas capazes de afundar um porta-aviões, um objetivo que não pode ser atingido pelos mísseis convencionais existentes. Ao que tudo indica, China e Rússia estão à frente dos EUA no desenvolvimento desse tipo de armamento que, apesar de poder carregar ogivas nucleares, não está sujeito a nenhum acordo que limite a sua fabricação e o seu uso. Os dados citados no texto e maiores informações sobre este tema podem ser encontradas em:

-https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/10/china-testa-nova-capacidade-espacial-com-missil-hipersonico-e-surpreende-eua.shtml

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-45123118

- https://elpais.com/internacional/2021-06-14/la-otan-eleva-el-tono-frente-a-china-al-situarla-entre-los-grandes-desafios-de-seguridad-global.html?mid=DM66889&bid=604495613#?sma=newsletter_diaria_noche20210614m 

-  https://m.dw.com/pt-br/otan-declara-que-china-representa-desafio-sist%C3%AAmico-para-alian%C3%A7a/a-57890805

- https://brasil.elpais.com/internacional/2021-11-08/china-sacode-a-velha-ordem-nuclear-mundial.html?prm=ep-app-cabecera

Acessos em 08/11/2021.

 

(10) Os dados do Paquistão encontram-se no mesmo relatório do SIPRI, disponível em: https://www.defesanet.com.br/tt/noticia/40451/SIPRI---Gastos-militares-mundiais-sobem-para-quase-US-%24-2-trilhoes-em-2020/   Acesso em 30/10/2021

 

(11) Dados disponíveis em: https://www.sipri.org/media/press-release/2021/global-nuclear-arsenals-grow-states-continue-modernize-new-sipri-yearbook-out-now Acesso em 14/11/2021.

 

(12) Os valores apresentados foram calculados somando as estimativas do número de artefatos nucleares de França, Reino Unido, China, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte, em 2020 e 2021, disponíveis em: https://www.sipri.org/media/press-release/2021/global-nuclear-arsenals-grow-states-continue-modernize-new-sipri-yearbook-out-now Acesso em 14/11/2021.

 

(13) Em: https://super.abril.com.br/tecnologia/missil-hipersonico-dos-eua-falha-no-primeiro-teste/ e em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/10/22/teste-com-missil-hipersonico-dos-eua-falha.ghtml Acessos realizados em 14/11/2021.

 

(14) Maiores informações sobre o tema podem ser encontradas em: https://www.indiatoday.in/india-today-insight/story/agni-v-and-the-end-of-india-s-northeastern-dilemma-1871754-2021-10-31 Acesso em 14/11/2021.

 

(15) Estas e outras informações estão disponíveis em:

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-58545229

- https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58582195

- http://www.chinahoje.net/acordo-de-submarino-nuclear-aukus-traz-cinco-danos-a-regiao-diz-chanceler-chines/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=acordo-de-submarino-nuclear-aukus-traz-cinco-danos-a-regiao-diz-chanceler-chines  Acessos em 30/10/2021

 

(16) O relatório completo divulgado pelo FMI em outubro de 2021 está disponível em: https://www.imf.org/pt/Publications/WEO/Issues/2021/10/12/world-economic-outlook-october-2021  Acesso em 30/10/2021.

 

(17) Em: https://www.bbc.com/mundo/noticias-58943545  Acesso em 02/11/2021.

 

(18) Em: https://www.bbc.com/mundo/noticias-58324770  Acesso em 02/11/2021.

 

(19) Em: https://tiinside.com.br/04/03/2021/fusoes-e-aquisicoes-movimentam-us-28-trilhoes-em-ano-marcado-pela-pandemia-aponta-bain-company/  e em: https://www.infomoney.com.br/mercados/fusoes-e-aquisicoes-globais-atingem-recorde-de-us-41-trilhoes/ Acessos em 14/11/2021

(20) Em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58934505  Acesso em 22/10/2021.

 

(21) Em: https://brasil.elpais.com/internacional/2021-09-30/china-enfrenta-onda-de-blecautes.html?prm=ep-app-cabecera  Acesso em 16/10/2021.

 

(22) Estas e outras informações sobre o tema podem ser encontradas em:

- https://6minutos.uol.com.br/mercado-e-dolar/evergrande-entenda-por-que-a-crise-de-uma-unica-empresa-chinesa-afeta-o-brasil/

- https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58762811

- https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2021/09/22/grupo-chines-evergrande-anuncia-acordo-para-evitar-calote-de-titulo-importante.amp.htm

- https://www.bbc.com/portuguese/brasil-59085524 

Todos os acessos foram realizados em 31/10/2021.

 

(23) Cálculos realizados pelo autor a partir dos dados que constam no relatório La COVID-19 y el mundo del trabajo. Octava edición - Estimaciones actualizadas y análisis, 27 de outubro de 2021 da OIT (disponível em: https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---dgreports/---dcomm/documents/briefingnote/wcms_824097.pdf Acesso em 09/11/2021) e das estimativas do PIB mundial, divulgadas pela OCDE em: https://data.oecd.org/gdp/real-gdp-forecast.htm#indicator-chart Acesso em 08/11/2021.

 

(24) Estas e outras informações sobre a realidade do trabalho nos EUA estão disponíveis em:

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-58182076  

- https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58141303    

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-58181006  

- https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58428025

- https://olhardigital.com.br/2019/04/26/noticias/amazon-rastreia-produtividade-dos-trabalhadores-e-os-dispensa-por-isso/

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-52114445

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-56696522

- https://www.bbc.com/mundo/noticias-56631854

- https://www.wsws.org/pt/articles/2020/07/01/amaz-j01.html

- https://www.dmtemdebate.com.br/a-amazon-prime-day-e-um-pesadelo-para-os-trabalhadores-da-amazon/

- https://progressive.international/wire/2020-06-30-the-amazon-strikes-and-the-language-of-power/pt-br

- https://www.bbc.com/news/technology-57332390

- https://www.bbc.com/news/business-55927024

- https://www.bbc.com/news/technology-54355803

- https://www.cnnbrasil.com.br/business/estados-unidos-registram-recorde-de-pedidos-de-demissao/ 

-https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2021/10/epoca-negocios-pedidos-de-demissao-nos-eua-atingem-maxima-recorde-em-agosto-contratacoes-caem.html

-  https://www.bbc.com/mundo/noticias-58935177     Acessos em 19/10/2021

 

(25) Resumimos neste bloco as informações divulgadas em:

- https://www.bbc.com/portuguese/geral-58354157

- https://elpais.com/internacional/2021-09-14/estanterias-vacias-y-falta-de-trabajadores-la-pandemia-y-el-brexit-agravan-la-crisis-de-abastecimiento-en-el-reino-unido.html?prm=ep-app-cabecera

- https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/exercito-vai-dirigir-caminhoes-tanque-para-abastecer-postos-com-combustiveis-no-reino-unido/

- https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2021/09/29/interna_internacional,1309996/soldados-britanicos-se-preparam-para-substituir-caminhoneiros-na-crise-de-c.shtml    Acessos em 17/10/2021.

 

(26) Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/06/22/finlandia-busca-desesperadamente-trabalhadores-imigrantes-mas-tropeca-no-preconceito.ghtml  Acesso em 15/09/2021

 

(27) Informações mais detalhadas podem ser obtidas em:

- https://www.corriere.it/economia/aziende/21_giugno_26/licenziamenti-fine-blocco-che-cosa-cambia-primo-luglio-proroga-settori-55bc9424-d6c1-11eb-94c4-73c6504e8d78.shtml

- https://www.inps.it/pages/standard/46118

-https://www.ipsoa.it/documents/lavoro-e-previdenza/amministrazione-del-personale/quotidiano/2021/07/28/divieto-licenziamento-orientarsi-dedalo-regole-eccezioni-termini

Acessos em 06/11/2021.

 

(28) A descrição de alguns casos que ilustram os motivos das demissões pode ser encontrada em:

https://www.repubblica.it/economia/2021/07/19/news/scioperi_contro_i_licenziamenti_e_il_governo_studia_nuove_regole-310812490/

https://milano.repubblica.it/cronaca/2021/10/29/news/raben_sittam_cornaredo_sciopero_licenziamenti_delocalizzazione_polonia-324266122/

https://www.collettiva.it/copertine/lavoro/2021/11/05/news/mind_sciopero_contro_i_licenziamenti_improvvisi-1617839/

https://ilmanifesto.it/contro-i-licenziamenti-i-metalmeccanici-scioperano-due-ore-al-giorno-fino-a-fine-luglio/

Acessos em 07/11/2021.

 

(29) Algumas matérias ajudam a termos uma noção da dimensão do movimento grevista que percorre a Itália desde julho deste ano:

- https://www.milanotoday.it/attualita/sciopero-unes-vimodrone.html

- http://sicobas.org/2021/10/16/comunicato-licenziamenti-lavoratori-lgd-deposito-unes-a-milano-continua-lo-sciopero-contro-lo-sfruttamento-per-la-liberta-sindacale/

- https://www.torinoggi.it/2021/07/27/leggi-notizia/argomenti/economia-4/articolo/proseguono-gli-scioperi-dei-metalmeccanici-torinesi-contro-i-licenziamenti.html]

- http://sicobas.org/tag/licenziamenti/

Acessos em 19/10/2021.

 

(30) Maiores informações estão disponíveis em:

- https://ilmanifesto.it/i-buchi-neri-del-capitalismo-e-del-sindacato/?utm_source=lunedi-rosso&utm_medium=email&utm_campaign=21-06

- https://ilmanifesto.it/fedex-altre-botte-agli-operai-vigilantes-ne-feriscono-otto/?utm_source=lunedi-rosso&utm_medium=email&utm_campaign=14-06  Acessos em 06/10/2021

 

(31) Todos os dados citados e maiores informações sobre a realidade da América Latina e do Caribe podem ser encontradas em:

- Roxana Maurizio, Empleo e informalidad en AMerica Latina y el Caribe: una recuperación insuficiente y desigual. Ed. Organização Internacional do Trabalho, setembro de 2021.

- https://www.martesfinanciero.com/voz-calificada/empleo-en-america-latina-una-recuperacion-insuficiente-y-desigual/

- https://revistaopera.com.br/2021/09/04/america-latina-e-caribe-crescimento-com-desemprego-desigualdade-e-pobreza-em-2021/

- https://www.ilo.org/brasilia/noticias/WCMS_779120/lang--pt/index.htm

- https://static.poder360.com.br/2021/03/Panorama-social-America-Latina-2020.pdf

Todos os acessos foram realizados em 13/11/2021.

 

(32) Dados publicados em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/11/05/na-alemanha-ha-recorde-de-casos-de-covid-19-pelo-segundo-dia-consecutivo-ministro-de-saude-fala-em-voltar-a-lockdown.ghtml Acesso em 06/11/2021

 

(33) Estas e outras informações da situação nos países da Europa estão disponíveis em:

- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/10/21/com-pouca-gente-vacinada-leste-europeu-vive-novo-pico-da-pandemia-de-covid-19.ghtml

- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/11/05/covid-por-que-europa-voltou-a-ser-epicentro-das-infeccoes-por-coronavirus-no-mundo.ghtml

- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/11/05/na-alemanha-ha-recorde-de-casos-de-covid-19-pelo-segundo-dia-consecutivo-ministro-de-saude-fala-em-voltar-a-lockdown.ghtml

Acessos realizados em 07/11/2021

 

 

 

 


sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Ex-gestora de fundos, de Paulo Guedes, investiu 350 milhões em funerárias

No capitalismo tudo deve estar no balcão de negócios, inclusive as vidas de mais de 600 mil pessoas que foram assassinadas para que alguns pudessem lucrar com a morte. O interesse da classe burguesa é esse, lucrar não importando em nada com a vida em geral, é o que nos mostra a reportagem abaixo:

 

 

Eis as perguntas que (não) precisam ser respondidas nem pela empresa nem pelo Posto Ipiranga

 

Ricardo Kertzman

29/09/2021 07:07 - atualizado 29/09/2021 08:39

 

Em matéria publicada pelo excelente site ‘Brazil Journal’, do não menos excelente Geraldo Samor, ficamos sabendo que a gestora de fundos Crescera Capital, antes Bozano Investimentos, ex-empresa de Paulo Guedes, o Posto Ipiranga, começou a investir maciçamente no chamado ‘mercado da morte’.

 

Com fabuloso aporte de 350 milhões de reais no Grupo Zelo, de Belo Horizonte, a gestora passou a ser o principal investidor do grupo, que foi às compras, e hoje é o dono de 45 empresas, que vão de funerárias a cemitérios - inclusive o maior da capital mineira - passando por ‘velórios on line’.

 

O aporte multimilionário da ex-empresa de PG se deu em agosto do ano passado, quando o Brasil atingiu a assustadora marca de 120 mil mortos pela Covid-19. Se soubéssemos o que nos esperava, certamente cada um de nós, tendo recursos, é claro, faria a mesma aposta - hoje são 600 mil mortos.

PERGUNTAS

Obviamente, em princípio, não há nada de errado ou ilegal nessa história toda. E não há o menor indício, até o momento, da participação de Guedes na empresa. Mas não deixa de ser um fato curioso, diante de tudo o que este desgoverno vem fazendo em prol do vírus, da doença e dos óbitos.

 

Perguntar não ofende! Perguntar com bom humor, menos ainda. Daí, me ocorreu o seguinte: por que os ex-sócios de Guedes decidiram investir esse dinheiro todo num mercado até então por eles ignorado, justamente em um momento em que a habilidade de PG seria posta à prova?

 

Por que desconfiaram da capacidade do ex-parceiro em, digamos, administrar a situação de forma minimamente adequada? Ou justamente o oposto: conhecem tão bem ‘as habilidades’ de Paulo Guedes que tinham certeza de que daria tudo errado? E nem vou me atrever a fazer ilações, tipo informação privilegiada ou até conluio. Longe de mim pensar em coisas assim tão feias.


FONTE: https://www.em.com.br/app/colunistas/ricardo-kertzman/2021/09/29/interna_ricardo_kertzman,1309867/ex-gestora-de-fundos-de-paulo-guedes-investiu-350-milhoes-em-funerarias.shtml

 


domingo, 17 de outubro de 2021

Goteira



    “Eu estive decidida a arrumar a nuvem acima da minha cabeça. Não queria ser pássaro, queria ser uma aranha com um pouco de conforto, para quando tudo estiver desmoronando fora da minha nuvem, da minha bolha, para quando tudo estiver um pouco mais difícil que o normal, eu consiga entrar novamente na minha situação particular e dormir seca, sem nenhuma inconveniência caindo sobre meu corpo frágil. Não preciso de muito para conseguir sobreviver e viver sobre algo simples é tudo que eu mais gostaria. E minha decisão estava tomada...”

 

(Vi Noronha)


Domingo é morto. Um dia café com leite gelado, pão duro que virou torrada, dor de cabeça e tristeza por ter que acordar cedo novamente. Quando chove é ainda pior. A aranha no canto da parede é muito difícil de tirar, por isso, eu a deixo ficar lá. Acordo cedo todos os dias para limpar casas que não sejam a minha. Gasto meu corpo e minhas mãos, gasto meu tempo e felicidade, para ficar todos os dias limpando e apenas um dia na semana para pensar nas aranhas da minha parede. A aranha está no teto e o quadro está no mesmo lugar. Passo a vassoura, caem as traças. A teia da aranha é quase invisível e o que quase ninguém vê, a ninguém incomoda e coração nenhum vai sentir.  Então não me importo em deixar lá naquele ângulo apertado que não cabe nenhum móvel. Eu prefiro se for escuro, porque assim existe a desculpa de não precisar olhar com riqueza de detalhes. Além disso, minha visão já não funciona mais, já não consigo subir as escadas daqui, igual subia com a rapidez de quem quer ir para o céu. A casa é a mesma de muito tempo, não houve mudanças para mim, mas existem as mudanças em mim e para eles. Assim eu limpo a casa. Tiro tudo das paredes, junto os bichos no meio do pó e dos fios de cabelo caídos, paro para pensar na minha vida e nas pessoas próximas a mim que estão conseguindo sair do canto da parede e assim eu volto ao normal com o bolo de sujeira. Ninguém lava a louça. Eu fico aqui todos os dias, mas ninguém lava a louça. Já estou acostumada com o canto da parede no qual eu me alimento, não sento a mesa. Trabalho para poder enfrentar minha vida, porque ela sempre será a mesma. Varri, pego tudo para passar o pano, a casa é enorme. Demoro cerca de doze horas para limpar e a sujeira continua aparecendo. Os banheiros são mais difíceis. O cheiro de comida diferente machuca meu nariz, mas eu não me importo porque minha comida é muito boa. Dizem que confiam no meu trabalho, sim, há muito tempo. Não confiam na minha existência. Não pensam o que eu penso, não fazem ideia de onde eu vim e do que eu sei. Esse é realmente um trabalho muito interessante.

Acordo com a cama molhada e com uma goteira caindo no meu braço. Minha casa, que é antiga e eu não faço ideia de quando vou sair dela, está cheia de goteiras espalhadas pelo seu teto. É preciso andar como se eu estivesse em um campo minado, em um labirinto. É horrível quando chove, aperto a mim própria e fico triste com a situação. Eu queria ser, literalmente, a aranha na parede, porque se eu tiver sorte ninguém vai me ver e ninguém vai destruir a minha casa. Não seria preciso eu sair da minha casa, me dedicaria somente a ela. Não precisaria chegar e limpar o chão molhado de goteiras que as telhas já não aguentam mais e acabam espirrando no meu chão. Minha casa é muito pequena, é apenas para mim. Não tenho mais ninguém, sou velha. Trabalho para minha existência se esgotar logo. E deixo as goteiras caírem na minha testa, não como uma tortura, mas como uma forma de mostrar que já não é tão importante ter que me importar com algumas coisas. Não fico na casa. Só entro para descansar e comer minha comida que mata a fome.  Trabalho, limpo aquela casa que não tem nenhum defeito, nenhum problema em seu concreto e altura, nenhum erro em seu décimo andar, está tudo perfeito. O chão consegue refletir meu rosto sujo e meu corpo cansado. E o teto quase é invisível com os lustres e seus sóis iluminando os quatro cantos de tudo aquilo. Qual é o tipo de preocupação dessas pessoas? O que aflige seus corações? Será que eles possuem uma goteira na testa, como eu, que não os deixa dormir? Acho que quando se tem um teto como esse, é impossível ter goteiras caindo pela sua cabeça, ainda que sejam goteiras com água limpa. Não consigo imaginar goteiras aqui, em suas cabeças. Eu vou ter um teto como esse.

Aqui são dois adultos e uma criança. A criança com certeza não tem goteiras, deve ter apenas nuvens, as nuvens de seus pais sobre ela. Colocando isso e aquilo em seus horários que eu quase não consigo bater com os dela. O homem trabalha não sei com o que e nem a mulher, mas também não ficam na casa. Eu fico lá sozinha, limpando. Trabalho em outras casa também, mas é recente. Algumas pessoas já são acostumadas com meu serviço. Eu vi a menininha nascer, vi seu rostinho e ouvi seu choro por bastante tempo. Continuo lá. Vi seu quartinho ser formado, vi sua mãe cansada de cuidar dela, vejo isso até hoje. São todos distantes. Cada um tem um espaço específico na parede, para cada aranha. Eu faço questão de deixar algumas, não porque eu seja uma funcionária ruim, eu sei que não sou. Mas faço isso para poder deixar alguma vida na casa, já que não encontro nenhuma ou raramente encontro. Não ouço conversas, nem discussões. Não discutem comigo e nem me atropelam palavras. Não nos cruzamos pelo caminho. E eu prefiro assim, porque não gosto que me atrapalhem no serviço. E assim meus dias estão indo, com sol e chuva, muita chuva. Estamos em um mês difícil, mas quente. É mais fácil usar guarda chuvas em casa do que na rua. Quando você chega de uma tempestade e só quer descansar na sua casa aconchegante, deitar o guarda-chuva com sua cabeça encostada no chão, para que ele pare de chorar e você guarde ele no outro dia, mas no meu caso não é possível porque preciso me preocupar com a chuva de dentro da minha casa. Meu aluguel não é difícil de pagar, minha casa não é ruim. Seu teto me incomoda, apenas. Eu não tenho mais baldes nem panelas para aguentar a chuva que cai sobre meu chão. Eu mereço mais que isso, sim. Eu sei. Mas não sei se é necessário. Sou velha e acho que consigo conviver com alguns problemas, logo eu vou me embora daqui e não precisarei mais de nada disso. Mas mesmo assim, eu preciso dar um jeito nas goteiras porque elas estão se tornando um instrumento de tortura para minha vida. Já não basta ela própria, que tem que aguentar meu peso sujo limpando o espaço por onde ando, pegando toda a sujeira do lugar para mim e colocando em algum canto, para no final do dia ganhar um dinheiro suado que vai me ajudar a tirar a água e a umidade que estão dentro da minha casa.

Eu penso muito, mas muito nas aranhas dos cantos. E nas traças. Tenho tanta inveja, na minha casa não tem nenhuma teia de aranha, nenhuma aranha. Porque cria um ar de miséria no espaço, no meu espaço miserável. Eu sou miserável e as aranhas daqui são diferentes. É preciso ter cuidado, caso contrário elas me expulsam da minha própria casa. E eu as vejo em outras casas, falo com elas e mantenho suas engenharias e sua arte, para ninguém destruí-las, eu mudo os móveis de lugar. Faço isso na minha casa também, mas não é pelo mesmo motivo, você sabe quais são meus motivos. O que não posso ter na minha casa, eu deixo nos outros espaços e cuido daquilo. E o que o espaço deles não pode ter é bom pra eles, porque por aqui não tem nada de bom. Eu sempre penso que viro parte da traça, aos poucos, aos poucos as goteiras não vão mais me incomodar. Mas se você parar para pensar em algum canto da sua casa, vai perceber que o mundo tem um espaço muito grande, mas não cabe todo o mundo, assim a gente tira suas engenharias e tira suas vidas, com muita facilidade, para que o espaço permaneça ali, caso eu precise, mas também não tento resolver de outra forma. Entende o que quero dizer? Passo minhas horas pensando no sol. Mas também penso nas outras pessoas no sol. Penso no José que está construindo e sentindo a água do seu corpo sair de tanto calor e almoçando sua comida gelada que, mesmo que o dia esteja muito quente, não vai deixar sua fome passar. Eu ainda consigo esquentar minha marmita. Mas eu penso também que o tempo não tem culpa, porque da mesma forma com a chuva, seu trabalho acaba sendo difícil. Enfim, acredito que esteja me entendendo. Um dia eu tenho certeza de que não vamos conseguir ir ao trabalho, porque estaremos metamorfoseando dentro de nossas casas com goteiras, nos transformando em algum bicho pior do que já somos. E assim vão ficar nos ligando, ligando para os nossos, nos procurando para saber porque diabos não fomos construir e não fomos limpar. E não vamos conseguir responder porque não teremos mais nossas bocas bem feitas que cospem palavras ruins e palavras erradas o tempo todo, nem sequer conseguiremos atender os telefonemas porque nossas mãos rasgadas vão estar se desfazendo junto com nossos braços e pernas. Queria muito que esse dia chegasse de fato. Um dia que eu acordasse afogada numa goteira, acordasse de súbito, assustada e pensando em como o espaço ficou maior, mas na verdade eu que diminuí, a cada dia que passava e eu só não estava percebendo minha insignificância no mundo. E vou diminuir feliz, me sentir maravilhosa com meu tamanho e o espaço pequeno de que eu necessito. E vai ficar mais fácil de fugir da água, porque agora ficou muito difícil de me encontrar, só vou precisar de um canto. Me deixe num canto e nada farei. Pode limpar porque eu não sou suja e não estou aqui para atrapalhar sua convivência com as outras pessoas. Não quero atrapalhar a chuva caindo nem o sol queimando. Só quero ficar num canto específico de algum lugar qualquer, um canto que dê para ver tudo, para saber se morrerei hoje ou amanhã, ou talvez eu demore mais um mês ou mais um ano, mas você só precisa me deixar no canto.

Não foi hoje que eu diminuí, mas eu ainda tenho as esperanças. Parou de chover, mas a goteira ainda não parou. É normal em casa assim, velha. Ela vai cair em cima de mim. A umidade está atrapalhando tudo por aqui. Vou sair para trabalhar e quando voltar vou ver do que se trata o rio dentro dessas paredes. Então eu chego na casa com aranhas e teias. Começo a limpar a louça e lustrá-las. E são lindos copos e pratos. Talheres muito diferentes que nunca vi, são muito estranhos e perigosos. Eu não sei porque fazem tudo isso. Então, vou para a parte que mais gosto, que é encontrar as criaturas no meio de algum lugar ou dentro de algum móvel. Pego o lustra móveis e como uma boa atriz, eu finjo que estou limpando e matando todas as aranhas e as traças que estavam escondidas lá. Mas elas me olham e dizem “oi, minha querida. Como foi seu dia? Você está radiante hoje, passe por aqui mais tarde para uma visita. ” E apenas deixo um perfume amadeirado perto de suas construções. Dou risada sozinha, olho para cima para ver o sol que o lustre está criando sobre minha cabeça, olho o espaço e suspiro para sentir o cheiro maravilhoso que deixei para os bichinhos. Saio feliz, pensando que elas não têm nenhuma goteira para atrapalhar suas vidas e isso é muito bom. Tento imaginar seus diálogos comigo e realmente rio sozinha. Tudo seria mais fácil. Mas eu não sei quem precisa mais do que. Se eu preciso disso e das traças e aranhas, ou se essas pessoas precisam de mim, precisam que eu saia do meu espaço e do meu mundo pequeno, corra até aqui, suba seus andares até chegar nos seus espaços e resolva seus pequenos problemas, suas sujeiras discretas e suas louças fáceis que na maioria das vezes não dão tanto trabalho. É muito silêncio e muito trabalho, embora tudo isso seja fácil para mim, embora eu não precise de nenhuma interação, apenas um pouco de troca, de trocados para poder continuar a vir até aqui e cuidar dos pobres bichos.

Estava se tornando um mês bem quente e isso me deixava muito feliz. Tudo ficava mais fácil para mim, embora o mundo não girasse em torno de minha vida e minha casa chuvosa e nublada, mas tudo estava indo bem. Eu tive, finalmente, a coragem e a ideia de arrumar meu telhado, agora com o sol, fica mais fácil de tomar vitamina e sobreviver, acordar cedo e cuidar de tudo que eu sou paga para cuidar, para depois enfim voltar a minha casa e não precisar tomar banho de goteira para tirar minha sujeira, mas tomar banho, de fato, daqueles que tomamos no banheiro, debaixo do chuveiro e quando saímos não precisamos ficar pisando em círculos para fugir da água que acabamos de deixar cair pelo nosso corpo. Eu estive decidida a arrumar a nuvem acima da minha cabeça. Não queria ser pássaro, queria ser uma aranha com um pouco de conforto, para quando tudo estiver desmoronando fora da minha nuvem, da minha bolha, para quando tudo estiver um pouco mais difícil que o normal, eu consiga entrar novamente na minha situação particular e dormir seca, sem nenhuma inconveniência caindo sobre meu corpo frágil. Não preciso de muito para conseguir sobreviver e viver sobre algo simples é tudo que eu mais gostaria. E minha decisão estava tomada, pode parecer que foi difícil chegar a essa conclusão, mas todos esperávamos por isso em algum momento, talvez. Pode não parecer, mas eu também achei uma decisão muito complicada, sim. Porque, pensando bem, eu posso morrer amanhã. Eu sempre penso que somos como aqueles bichos escondidos, que a morte escolhe aleatoriamente e acaba acontecendo assim. Mas então eu pensei, se eu morrer vai estar tudo melhor para mim, então talvez eu mereça algo de simples e bom enquanto eu infelizmente estou aqui. Falei com José sobre o serviço, morávamos no mesmo morro e éramos grandes amigos. Decidiu fazer o trabalho para mim, só precisava correr atrás dos materiais para ser criada a nova nuvem sobre minha cabeça. E o sol amanhecia cada vez mais quente e mais delicioso, me motivava a cada minuto, a cada segundo eu pensava em mudar alguma coisa na minha vida, começando por aquela nuvem velha, mas eu conseguiria fazer uma coisa de cada vez, como quem faz uma teia muito bem trabalhada e paciente – as aranhas me fascinam – e com essa inspiração, eu ia de encontro a casa alta dos milhões de andares que eu tinha que subir para limpar, eventualmente via nos vidros os homens passando aqueles rodos e não se preocupando com seus próprios vidros e casas, pendurados sobre uma corda forte que confiavam bastante, como uma aranha criando sua teia e confiando no seu próprio trabalho. Nós, todos os homens, somos grandes animais insignificantes mesmo. A qualquer momento poderia ser pisado por deus ou perder a importância para aquela corda, que facilmente somos substituídos, raramente reutilizáveis, nunca deixados dentro de zoológicos e também nunca guardados dentro de caixas de vidros e alimentados todos os dias – seria realmente bom – mas estamos aqui servindo e recebendo os trocos, voltando para os cantos das paredes e fazendo tudo de novo e de novo.

O dia para a troca da minha nuvem e céu nublado estava marcado. Eu estava realmente muito satisfeita, nada estava me abalando. Falei com José e, como minha casa era pequena, eu lhe perguntei se conseguiria resolver em um dia, eu fazia questão de pagar pelo seu tempo, por tudo que fosse fazer. Ele conseguia tranquilamente. Assim, falei com os meus próximos, disse sobre a felicidade que caia sobre minha cabeça, eu realmente estava me preocupando com a minha existência, estava me sentindo importante para mim mesma. E viva, como nunca antes. Como era boba, devia ter pensado isso muito mais cedo, se soubesse que essa sensação poderia chegar a mim, já teria feito isso. E tudo perdia o sentido em outros lugares. Eu chegava para limpar, achava o lustre enorme e estranho, achava os tetos exagerados e pensava se aquilo era realmente necessário para aquelas pessoas, se apenas não tomar a chuva já não era suficiente. Pois eles gostavam muito de chuva, mas nunca encontrei os guarda-chuvas em suas casas, porque eles não precisavam. Não precisavam de chuva também. Mas sempre os ouvia falar sobre como era tão bom o tempo mudar, como era confortável e via as vezes suas roupas elegantes e quentes como cobertores e achava tudo realmente muito bonito. Afinal, não é culpa do tempo, não é culpa da água da chuva, não é culpa do sol, tudo que eu sinto e tudo que reclamo. Não tem problema nenhum em gostar de um clima assim ou daquele jeito, mesmo que as pessoas estejam morrendo nas ruas de frio, ou não consigam matar sua sede no calor. É tudo muito mais profundo, o céu nublado dessa questão é muito mais pesado, sua nuvem logo cairá sobre a cabeça de todo mundo, ainda bem que meu teto vai estar novo.

Acordei no próximo dia sabendo da mudança, sabendo que o mundo podia acabar, que meu teto seria consertado e nunca mais choveria na minha cabeça e nem no meu sono. José chegou cedo para arrumar, estávamos muito felizes, até mesmo ele. Amigos e a felicidade sempre compartilhada, era muito bom. Fui trabalhar como quem acha que o dia vai ser perfeito e realmente foi. Aquele dia eu tinha certeza que não morreria, não seria como outros dias, seria um dia no qual a morte me daria folga, se eu estivesse em sua lista de mortes do dia, ela riscaria meu nome e diria para quem quer que fosse, quem quer que auxiliasse em seu serviço “hoje não é possível inserir dona fulana na sua miséria de morte, porque ela tem um compromisso muito importante que em nosso protocolo ela pode cumprir. Então, adiaremos o luto de seus poucos amigos e vamos deixa-la viver mais uns meses ou anos ou depende de como ela vai se comportar daqui em diante. ” Aí você insere na fala da morte como acha que eu deveria morrer. A ansiedade tomou meu corpo, parei para pensar se as aranhas se sentem assim e com certeza a resposta é não. Eu nunca tive tanta certeza em querer algo na minha vida. Fui em outra casa fazer o serviço que faço – a mesma casa, o mesmo serviço – olhava tudo de uma forma estranha, achando tudo estranho e limpando tudo, tirando as casas das aranhas que eu não estava mais me importando, não sei o porquê disso, mas acho que agora que estava finalmente feliz com algo relacionado a mim, não estava me importando em deixar tudo realmente limpo, de fato. Não estava me importando com os bichos menores que eu, porque eu achava que era o menor e mais insignificante bicho que já passou por aqui, o mais frágil. Eu não sei o que tinha na água da última chuva que tomei dentro da nuvem da minha casa, mas eu estava me sentindo diferente, uma outra pessoa, parecia que tinha subido na vida, mas com um céu limpo que agora não fazia diferença se ia chover ou fazer muito sol. Já chegaria em minha casa como uma nova pessoa, como se estivesse me mudado, como se realmente tivesse feito algo de significante para mim. Falei com José e ele realmente não quis nada além de ver minha felicidade. Eu resolvi comprar uma bebida para comemorar a minha nova vida de pessoa em situação de novo teto. Mesmo ambiente, mesmo clima e agora não via a hora do tempo fechar, o céu ficar escuro e poder sentir as lágrimas caindo e fazendo um barulho enorme sobre minha cabeça, mas sem me tocar. Eu poderia morrer naquele momento, porque pelo menos, até aquela hora eu tinha experimentado duas horas de conforto no teto novo. E pensava em tanta coisa que podia fazer a partir de agora, que eu tinha o mínimo de conforto. Além de sentir felicidade, satisfação e de não deixar qualquer coisa me abalar como antes. Como era fácil ser feliz, ou viver com pouco. Será mesmo? Será que nunca tive nada de realmente importante? Por enquanto, eu experimentei uma verdadeira felicidade com tudo aquilo.

Chegou novamente um tempo em que o céu fica nervoso e se fecha. Não quer conversa e fica escuro, franze a cara nublada e chora. Um dia de trabalho cheio que eu tomaria muita chuva, que eu queria tomar muita chuva, se não estivesse tão cansada de tudo e de todas aquelas horas cheias de bolo de sujeira e teia e traças, todos escondidos e esperando para serem encontrados. E agora as aranhas me olhavam, cheiravam o lustra móveis pensando “o que houve? Por que está fazendo isso conosco? Você não era assim! ” E se elas tivessem um deus, deus das aranhas ou das traças, elas pediriam a ele para guardar suas casas e lhes dar muita proteção, porque eram frágeis e tinham construções frágeis, se perguntariam o que fizeram de errado para passar por aquilo e enquanto rezavam – seria isso que fariam para seu deus que talvez não exista? – enquanto estivessem naquele momento, eu passaria minhas mãos sobre elas, com o produto da limpeza deslizando sobre o local ocupado por elas por tanto tempo e assim elas iriam embora para o céu ou inferno das aranhas e céu ou inferno das traças embora elas se encontrem em lugares totalmente diferentes espalhados pela casa. E com a felicidade de quem vai ao parque ou de quem acorda num dia de folga, eu fui embora aquele dia. E o céu gritava demais, estava realmente nervoso e chorava com muita vontade, quanto mais ele chorava, mais eu sentia felicidade.  Não sei se isso se torna um certo egoísmo da minha parte, uma certa insensibilidade, mas eu acredito que não, tenho quase certeza de que não tinha nenhum problema nisso, porque na verdade eu estava fazendo as pazes, levantando meu guarda-chuva branco para o céu e mostrando minha felicidade ao vê-lo daquela forma, então estava tudo quitado entre nós dois. E além disso, eu precisaria de muito mais para deixar os céus, de fato, tristes. Estou pensando muito em deixar de querer me tornar uma aranha ou uma traça. Acho que a chuva realmente afetou minha cabeça.

A forma como a cidade é posicionada – seria essa a palavra? – não dá vasão para o choro, para a sujeira do céu, que na verdade não cai dele, só cai água e acaba se misturando com a cidade, mas não existe espaço, é tão grande e não existe espaço, tudo fica apertado, o trânsito fica mais barulhento que o normal, eu tinha até me esquecido disso porque não fazia diferença pra mim, quando eu já tinha a infelicidade de ter a chuva dentro de casa, o trânsito não me incomodava muito, incomodava pouco. Eu conseguia deixar passar aquilo que me irritava, conseguia deixar porque eu sabia que tinha algo maior me esperando, algo pior. Quanto mais eu ficasse no transporte, mais eu demoraria para resolver a situação do meu labirinto ou campo minado que eu teria que passar. Então, quando isso acontece, eu e todos que precisam passar pelas rodovias e por debaixo da terra naquela minhoca tecnológica, todas essas pessoas com o famoso pico no horário, precisam ter o mínimo de paciência para não chorar junto com o céu, para aguardar o momento em que ele consiga respirar e deixar o trânsito correr, deixar a gente chegar em nossas casas, depois de, no mínimo, duas horas no meio da rua, no meio do inferno da rua com a chuva e a sujeira. Ainda andar um pouco para poder chegar, de fato em casa, porque o transporte não nos deixa na porta – na maioria das vezes – e então, nós subimos um pequeno morro, depois de passar por um trânsito demorado, chorão e barulhento. E subo, sozinha e com o pouco de felicidade que ainda me resta, percebo a movimentação que só a chuva consegue causar na cidade e nas pessoas, as pessoas que estão todos os dias apressadas e sérias. E quando não conseguem se apressar, ficam nervosas porque já se acostumaram com seus ritmos e seus climas, se esbarram e não dizem nada, resmungam. Correm para procurar espaço no ônibus e o ônibus se enfia no meio do asfalto e o resto você já sabe.

Quase chegando em casa e a movimentação que é normal, subindo e sentindo a movimentação aumentar, pensando no pior, sempre. A felicidade vai saindo do meu corpo como quem sempre espera pelo ruim que vai acontecer, como quem já está acostumada. Quase chegando ao meu destino, meu destino que agora é tão aconchegante, quase chegando como se eu não quisesse de fato chegar, com medo de que algo estivesse fora do lugar, com medo de achar tudo errado novamente. Eu sinto que a chuva realmente está bem forte e o céu chora com muita força. Sabe a chuva passageira? Aquela chuva que cai com muita força e depois de alguns minutos de gritaria desnecessária, ela para. Aconteceu mais ou menos assim aquele dia. Só que, durou mais de duas horas. A semelhança que eu estou tentando colocar entre essa chuva e a chuva passageira é que, ela desce como quem vai causar destruição e subitamente para de cair, pensa que exagerou e só para. Quando eu quase estou virando a rua do morro da minha casa, a chuva parou e eu comecei a reparar no chão marrom, com a cor de terra, a cor de terra, do barranco que dorme e acorda assustado com esse tipo de situação. Acontece o que a gente menos espera e a vida – ou a morte – prega peças que nem deus, nem aquele deus da aranha ou da traça, conseguem explicar. Depois de pouco tempo com meu novo teto protetor de cabeça, mais especificamente, depois de um mês colocado sobre mim, essa chuva resolveu aparecer e eu tive o entusiasmo de uma criança com o doce que o pai ou a mãe guardou para ela. E achei que, conseguiria aproveitar essa minha casa nova que na verdade tem o mesmo corpo mas uma outra cabeça, só que era uma cabeça muito oca e foi destruída pelo barro cheiroso atrás da minha casa. Eu ri, como quem segura o choro e não acredita em nada do que vê. E do que acabou de passar. Começo a pensar e me perguntar se fiz algo de errado, pensando ser inocente, puxando na memória se fiz algo ruim para que aquilo fosse acontecer comigo, justamente comigo. Podia acontecer em um outro momento, mas talvez eu esteja sempre reclamando e reclamando demais. A ficha não caiu de que tudo o que eu tinha estava destruído e não parei para pensar que seria melhor a morte ter colocado a minha vida em risco naquele dia, deixado meu nome na lista de vida que podiam ser perdidas. Acredito que acabei de me tornar uma aranha sem sua engenhosa teia, uma aranha ou uma traça que, com um vento fraco, acabam perdendo a razão e sentidos e morrem sem nem sentir ou simplesmente perdem tudo, como foi meu caso em que tive que pensar rápido na minha situação. José estava na mesma situação que eu. Quanta coisa pode acontecer em um dia, em um mês, em um minuto. Quanta felicidade acaba sendo reduzida a raiva e tristeza em apenas uma hora. Eu só ri, porque parecia uma verdadeira brincadeira dos céus contra mim, eu pensava em olhar para ele e dizer que eu sentia muito por ter tirado e destruído as casas das aranhas, parecia que tudo aconteceu justamente porque cometi esse crime.

Agora eu estava ali, com José, vendo o sereno cair sobre a rua, estávamos embaixo de algo na rua, nos protegendo da água, mas não do frio. E assim eu acabei realmente percebendo que era uma aranha e que agora eu precisava reconstruir tudo novamente, precisava achar outro canto na parede desse mundo. Dormimos na rua como quem está nessa situação, como quem vê luzes nas casas e não pode desfrutar delas, nem precisa ter lustre, porque eles são feios, mas apenas uma luz sobre a cabeça para lembrar-nos que há um teto segurando a lâmpada. Eu dormi, depois de um mês com meu novo teto – que agora não existe mais – dormi só pensando em descansar e não querendo mais nada, agora havia uma goteira do meu lado, não na minha cabeça, mas estava do meu lado, no teto escuro de algum estabelecimento que achei um bom refúgio, parei para pensar no sono que eu teria essa noite e chorei mais que o céu naquele dia. Voltei para a mesma situação que eu estava, mas agora a goteira estava localizada em outro espaço, um pouco mais longe de mim, mas não deixando de me incomodar. Dormi pensando no próximo dia, pensando que o céu podia cair naquele momento, porque não faria diferença nenhuma, devia ter mesmo caído sobre tudo. A goteira deve ser meu castigo até o fim de meus dias.

 

                                                   Vi Noronha 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Virando a chave da verdade: esclarecimento sobre a degradação do noturno no Paula Santos

 

Ultimamente temos visto diretores e até um professor afirmando que o nosso movimento está atrapalhando a vida dos alunos, que por nossa causa surgiram uma série de problemas e que os alunos estariam sem recursos para o bom andamento das aulas devido a nossa persistência em garantir o direito ao ensino noturno. 

Em um dos vídeos que circularam nas redes, foi demonstrada a estrutura da escola Tancredo e em um post no Facebook tivemos um professor dizendo que não há o que fazer e que ir contra só atrapalharia os alunos, etc. 

 Obviamente tanto as direções das duas escolas quanto o professor estão equivocados, o nosso movimento existe pra resolver os problemas gerados pelas gestões das duas escolas. Em nenhum momento questionamos a qualidade da Escola Tancredo, ao contrário, nós é que perguntamos qual foi o motivo para que uma escola com tamanha qualidade em sua estrutura e recursos viesse a ter encerrado o seu noturno para reabri- lo somente agora? Maior oferta de educação de qualidade para nós não é problema, quanto mais escolas com noturno melhor para os pais, alunos e toda comunidade escolar. 

Que o Tancredo reabra seu noturno sem o fechar na Escola Paula Santos, tem nosso total apoio. Assim teremos duas comunidades escolares com maior acesso a educação. 

Com relação ao acesso a estrutura da Escola Paula Santos pelos alunos e professores do noturno, basta apenas dar acesso a estes, qual o problema dos alunos e professores utilizarem o que é deles por direito? A escola pertence a comunidade escolar, e deve atender as suas demandas não ao que deseja determinada direção. Todos sabemos que a escola Paula Santos trabalha agora com o período integral, e que para tanto deve contar com uma estrutura de qualidade para atender as demandas de tal modelo de ensino, ou seja, se no Tancredo há uma estrutura exemplar como diz a diretora de lá, na EE Paula Santos não pode ser diferente, caso contrário deve se averiguar por quais motivos a escola não possui os recursos de uma escola integral.  

Ora, todos sabemos da qualidade da nossa escola, o problema aí  é a má vontade da direção, pois basta apenas liberar o acesso aos recursos, a toda qualidade da estrutura da escola Paula Santos.  

Concluindo, o movimento pelo ensino noturno não é o problema, o problema é que ele nos seja negado, e se a outra escola também passar a contar com o ensino noturno isso não nos incomodaria, muito pelo contrário seria motivo de comemoração. 

 


domingo, 19 de setembro de 2021

O Psicólogo, a Personalidade e o QI dos Bebês da pandemia

                                                                                                  Max Diógenes.

 

1- PERSONALIDADE


Ao dar um rápido Google, a fim de pesquisar a etimologia da palavra personalidade, constataremos que sua origem é grega; derivada do termo persona, que pode significar, literalmente, máscara. Diz respeito aquilo que em nós é externo; público. Em suma, ao que é, para os demais, aparente, em relação ao nosso modo de ser no mundo.

Na Psicologia experimental, apenas no fim da década de 1.930, o estudo da personalidade fora formalizado, nos Estados Unidos – o exacerbado pragmatismo americano – e, desde então, psicólogos de inúmeras correntes, no mundo todo, que fizeram da personalidade seu objeto de pesquisa, defendem a tese de que, ao falar do processo de desenvolvimento e constituição da personalidade, a coisa, em hipótese alguma – apesar da etimologia do termo – pode se resumir ao que é aparente; externo; público.

Entretanto, somos seres constituídos, na sociedade regida pela troca de mercadorias. E a troca constante, sistemática, funcional, dessas mercadorias, entre os seus diversos portadores, gera, óptica e, consequentemente, psicologicamente, a percepção de uma sociedade naturalmente organizada; e não política e historicamente desenvolvida. Tudo, em nossa vida, está dado; desde sempre; e nada pode ser modificado. Guy Debord, pensador francês, tendo o marxismo como base para a produção de sua obra, descreve tal sociedade, como sendo a “sociedade do espetáculo”. Nessa sociedade, pelo caráter fetichista da mercadoria, que se apresenta a nós, como se tivesse vida própria, nos tornamos meros espectadores dos acontecimentos. Não nos reconhecemos como produtores ativos da história; nossas relações, conduzidas apenas pelas sensações mais imediatamente detectadas, acabam por serem norteadas, nem mais pelo ser e, tampouco, pelo ter, mas pelo parecer. Poderia, numa sociedade assim formada, o pragmatismo da psicologia experimental, superar a camada da aparência, ao estudar a tal da personalidade?

 

*

 

Os estudiosos do tema creem que sim. E, para justificar tal possibilidade, muitos deles, não se constrangem em subverter os sentidos originais do termo “personalidade”, estendendo o estudo e as explicações para as “particularidades”; para o “íntimo”; para o subjetivo.

Óbvio, há as correntes que pretendem entender a personalidade, a partir da tal da óptica bio-psico-social, levando em conta os aspectos naturais, psicológicos e, sobretudo, o “contexto” sociocultural no qual se constitui cada uma das subjetividades. E “contexto” é aqui escrito entre aspas, mesmo, pois, essa contextualização, considera, geralmente, apenas o específico de cada caso, ou seja, via de regra, não há a pretensão de se compreender a constituição da personalidade, a partir daquilo que é universal, por ser hegemônico: a base material da sociedade.

Ao estudar a personalidade, a ciência burguesa, busca compreender a formação dos aspectos predominantes de uma subjetividade, ou pela ação autônoma do indivíduo no mundo ou pela relação desse indivíduo com um mundo muito particular; mas não com o mundo histórico e político. A ciência da burguesia, não consegue subverter a ideologia da burguesia.

 

2- INTELIGÊNCIA


Se ao estudar a personalidade, a ciência burguesa não consegue romper com os limites impostos pela ideologia, por que, no estudo da inteligência, a coisa seria diferente? Pois, como você, leitor inteligente, bem pôde deduzir, não é.

Quando o estudo universaliza as questões da inteligência, o faz apenas para naturalizar a condição do indivíduo; e quando contextualiza, contextualiza apenas o que é muito específico do sujeito. Não há história e nem política na produção dos estudos.

Ou, reformulando a afirmação e ampliando o seu sentido, há sim, história e política; são intrínsecas aos estudos e, raramente, percebidas por quem os realizam: há a reprodução do espírito dominante, constituído na, e mantenedor da base material da sociedade.

 

*

 

3- DISSERTEMOS

 

Há um estudo específico com o qual tive contato e que me motivou a escrever esse breve texto.

Encontrei, sem querer, a notícia sobre o referido estudo, no site do MSN. A chamada para a matéria dizia: “Crianças nascidas na pandemia têm Q.I. menor, aponta estudo”.

Sou psicólogo de formação; bacharel, desde 2.014; nunca consegui levar a sério essas quantificações ou mensurações, normalmente, pautadas por testes que seguem os rigorosos padrões, exigidos pelo método científico. Sempre tive a sensação de que essas qualificações, promovidas por tais testagens – sei que o objetivo dos testes, aplicados como parte de uma bateria de ações do psicólogo em determinado atendimento, não é o de qualificação; mas essa consequência, dessa prática, acaba por ser inevitável – acabam por tornar aos profissionais envolvidos no trabalho, tudo mais fácil, “palpável”, afinal, serão os números, os resultados “empíricos” que trarão determinada referência para um possível diagnóstico e para o planejamento da sequência do atendimento.

 

Enfim...

 

Os pesquisadores são da Brow University, Estados Unidos – de novo –, do departamento de pediatria. Segue, uma citação da matéria:

 

“As análises afirmam que os primeiros anos de vida de uma criança são essencialmente importantes para o desenvolvimento cognitivo. Entretanto, com o fechamento de creches, colégios, parques e outros ambientes infantis, as crianças deixam de ter interações interpessoais e estímulos em casa. – quê? Com fechamento de espaços públicos, a criança deixa de ter estímulos em casa? – Durante a pandemia, muitas empresas adotaram o estilo home office, e os pais estão precisando se adaptar não só com o emprego à distância, como também, com filhos pequenos por perto o dia inteiro, elevando o nível de estresse”.

 

Incrível, não? – e aqui, eu começo a deixar de lado o tom empolado da academia, para gozar com a ironia; meu forte literário.

 

*

O professor Mauro Iasi, em seu artigo OS INTELECTUAIS E A DECADÊNCIA IDEOLÓGICA, publicado no blog da Boitempo, nos ensina que...

 

“Marx estava convencido de que existe um nexo entre as ideias dominantes e as relações sociais dominantes – ou, mais precisamente, as relações ‘que fazem de uma classe a classe dominante’. O movimento histórico, no entanto, caminha por contradições de forma que as relações sociais dentro das quais as forças produtivas se desenvolveram podem se converter em obstáculos. No momento em que isso ocorre, estabelece-se uma contradição e as ideias que antes correspondiam se tornam inautênticas, não correspondentes”.

 

Façamos, então, a partir desse ensinamento do professor, uma análise da análise feita pela equipe da reportagem, em relação ao artigo que “comprova” o baixo Q.I. de crianças nascidas na pandemia. Elucidemos as contradições.

 

*

 

Provavelmente, qualquer um que esteja lendo esse texto, conhece uma criança, nascida entre fevereiro de 2020 e o presente momento, certo? E é possível que, inclusive, essa criança que você conheça, por milhões de motivos, mas, sobretudo, por não ter idade nem para saber respirar direito – obviamente, uma brincadeira exagerada – não frequente uma creche e que, portanto, não receba estímulos para além daqueles que são emitidos por seus entes mais próximos. Por incrível que pareça, muitos pais, ainda se sentem receosos em deixar um filho na tenra idade, em mãos de desconhecidos, mesmo que tais desconhecidos sejam profissionais. E aí perguntamos: tal realidade era imensamente diferente dessa, antes da pandemia? Quantos de vocês, adultos leitores, ficaram em creches, com um ano e meio de idade, para que papai e mamãe pudessem trabalhar? Creio que o número de frequentadores de escolinhas, com um ano e meio de idade, aqui entre nós, se aproxime do zero.

 

“Ah, mas a matéria e o artigo deixam claro que não se trata só de creches, mas também de praças, parques, shoppings, etc. Nesse período a socialização da criança se tornou mais difícil, pois a maior parte dos locais que, normalmente, estão abertos ao público, não estavam em funcionamento... Oh...”.

 

Oh... E tanto nos States, quanto no Brasil e em quase todos os outros países, o cidadão médio, em sua maioria, se esforçou por se isolar por completo, né?

Mas não sejamos hipócritas. É sim, possível, que todos nós conheçamos pessoas que sejam, por inúmeros determinantes, capazes de deixarem seus frágeis filhinhos, sob os cuidados de desconhecidos, por muitas horas em um dia. Muitos trabalhadores/trabalhadoras têm tal necessidade; mas, raramente, encontram vagas em creches e pagar pelo serviço, não é algo barato e, portanto, simples. Em geral, apelam para vizinhos, amigos e parentes, ou seja, para conhecidos. A que classe pertencem essas pessoas que você conhece e que conseguem deixar o filho em uma creche? De qual realidade – americana ou brasileira, não importa – o estudo, de fato fala? De uma maioria?

 

“...e os pais estão precisando se adaptar não só com o emprego à distância, como também, com filhos pequenos por perto o dia inteiro, elevando o nível de estresse”.

 

Insisto: de qual realidade – americana ou brasileira, não importa – o estudo, de fato fala? De uma maioria?

E olha que somos uma sociedade conservadora, que valoriza a constituição da família; rs... Na aparência...

 

4- FINALIZEMOS

 

Ao esmiuçar o principal item analisado pela matéria em relação ao estudo, podemos constatar facilmente, que a realidade caga para o controle do método e para o recorte feito pelos pesquisadores.

Tanto para os pesquisadores, quanto para os leitores e analistas da pesquisa, o que vale, é um padrão de vida, no qual haja home-office, creches acessíveis, obediência geral às políticas de isolamento, “inevitável” falta de estímulos caseiros...

Os números foram obtidos por meio de testes e, como a realidade por si, não justifica os números, eles criam uma realidade que possa ser condizente com as mensurações apresentadas pelos testes.

É como o professor Iasi, utilizando-se de Marx, Engels e a Ideologia Alemã, diz e nos ajuda no complemento do raciocínio: o desmentir dos conceitos, pelo mundo real, em nada abala as convicções da consciência burguesa.

Os cientistas dessa história continuarão a estudar a personalidade partindo do movimento autônomo do indivíduo e das especificidades de sua microssociedade; continuarão a querer mensurar a inteligência de bebês de um ano e meio; continuarão a produzirem mundos que justifiquem os resultados obtidos por sua ciência e que permitam a continuidade da reprodução do espírito dominante...

 

Em suma...

 

Continuarão brincando de serem cientistas... Ou... De PARECEREM cientistas...

 

https://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/crian%c3%a7as-nascidas-na-pandemia-t%c3%aam-qi-menor-aponta-estudo/ar-AANyjLa?ocid=mailsignout&li=AAggXC1&fbclid=IwAR0SgqwURz8PZGCHA8CXJpUdg21n798M3b_XHCLgZlkaJJZpgIJ8kWtVVpE

 

https://blogdaboitempo.com.br/2020/09/14/os-intelectuais-e-a-decadencia-ideologica/