Com quase 17 pontos percentuais de diferença, a vitória da extrema direita no segundo turno das eleições para a Presidência da República no Chile confirma o desgaste da esquerda que as pesquisas vinham apontando.1 Impossível sem o apoio de um setor expressivo da classe trabalhadora, o triunfo de José Antônio Kast, pinochetista de carteirinha, tem como base a sua capacidade de dialogar com a população, a esperteza em somar forças para boicotar o governo Boric sem desgastar a própria imagem e o sucesso em forçar a Frente Ampla de Esquerda a aprovar medidas que criminalizam a resistência dos marginalizados.2
Não por acaso, entre os indígenas Mapuches, Boric é, e será, lembrado como um mandatário que ampliou a militarização do seu território e proporcionou o suporte legal do qual os capitalistas precisavam para devorar suas terras ancestrais. Longe de trazer um mínimo de justiça, a ação do Estado entre ele se faz presente só através do barulho dos drones que vigiam o cotidiano das comunidades, do ronco dos veículos que percorrem seus territórios com as forças policiais e do Exército encarregadas de desalojá-los3 e, com a Lei Antiterrorismo, aprovada em fevereiro de 2025, no endurecimento das penas a serem aplicadas aos integrantes da sua resistência.4
Do ponto de vista simbólico, o fim da esperança de justiça na “esquerda governamental” coincidiu com a repressão policial à manifestação que, em 19 de outubro de 2024, resgatava a memória dos protestos ocorridos cinco anos antes e reafirmava as reivindicações pendentes desde então.5 Em 27 de maio de 2025, Gabriel Boric completava a obra ao enterrar de vez o compromisso eleitoral com a reparação integral às pessoas que, atingidas pelas balas de borracha dos carabineiros nos protestos de 2019, perderam um ou ambos os olhos.6
Diante da derrota acachapante de Jeannette Jara, integrante do Partido Comunista e Ministra do Trabalho e da Previdência Social entre março de 2022 e abril de 2025, a busca de explicações parte de uma pergunta simples e direta: que motivos teria uma pessoa comum para votar nela? A seguir, resgataremos o cenário a partir do qual você mesmo tirará a sua conclusão.
1. Da decepção à sensação de que o Chile piorou
Em 2021, quando candidato, Boric prometeu um mandato que não seguiria a trilha dos governos da “concertación” que vieram após o fim da “época Pinochet”. Concretamente, no lugar de negociar seguidos rebaixamentos nas garantias dos novos direitos dos chilenos a fim de ter pequenos avanços, a Frente Ampla de Esquerda atuaria no sentido de transformar em realidade as demandas que o povo apresentou nos protestos de outubro de 2019.
Contados os votos, constatado o fato de que os setores progressistas não tinham um número de parlamentares capaz de alcançar a maioria e diante de uma economia duramente atingida pela pandemia, dois caminhos se abriam ao governo Boric7: estimular movimentos de massa que usassem a pressão das ruas para inscrever na lei os direitos reivindicados; ou recuar em direção a uma negociação longa e desgastante com o centro-direita para conseguir algumas concessões.
Poucos meses após a posse, Boric optava claramente pelo segundo caminho a fim de superar as barreiras enfrentadas pelo seu governo no legislativo. Em setembro de 2022, a derrota sofrida no referendo popular no qual deveria ser aprovada a Nova Constituição levou a um aprofundamento desta escolha. As percepções de quem havia percorrido o país para explicar a Nova Carta Magna, o resultado da votação e as avaliações subsequentes mostraram a distância entre o governo e as preocupações do povo simples, cujas dúvidas e incompreensões diante das formulações dos constituintes facilitaram o trabalho da direita que orientava a reprovar o texto.8
Sem bases para tirar dos ricos o dinheiro que prometeu aos pobres, Boric viu naufragar, uma após a outra, as promessas da sua campanha eleitoral.9 Almejada pela maioria da população, a gratuidade da educação ficou na lista dos desejos; o acesso à saúde pública sem desembolsos dos usuários conheceu avanços pífios; e a reforma do sistema previdenciário, além de não alterar nenhum dos mecanismos de capitalização que fazem jorrar lucros abundantes nas Administradoras dos Fundos de Pensão, obrigou o Estado a compensar a parte que falta para que o beneficiário alcance o valor mínimo por ela criado.10
Entre as conquistas mais citadas pelo governo Boric, figuram o aumento real do salário mínimo (atualmente correspondente a cerca de US$ 536) e a progressiva redução da jornada de trabalho das 45 horas semanais, em 2023, para 40 horas em 2028.11 Ninguém duvida que se trata de um avanço em termos de direitos. O problema, contudo, está no fato de que estas conquistas em nada beneficiam um terço da população economicamente ativa que, desempregada ou na informalidade, via na ampliação do acesso aos serviços públicos uma espécie de boia salva-vidas.12
Apesar destes avanços, os dados da economia mostram que a classe trabalhadora do Chile precisa lidar com uma taxa de desemprego maior em relação à de março de 2022, quando Boric foi empossado. Na ocasião, 7,8% da população economicamente ativa estava desocupada; em maio deste ano, este contingente alcançou 8,94%; e, apesar de iniciar uma trajetória de queda, fechou outubro em 8,44%.13
Mas, entre os problemas da sobrevivência, o que mais preocupa os chilenos, é a sensação de insegurança gerada pela violência urbana. Em junho, Boric sublinhou que o seu governo havia aprovado mais de 60 leis para modernizar as instituições do Estado diante das novas formas de atuação do crime e, em novembro, na tentativa de apontar certo exagero na preocupação da população com as ações do crime, ponderou publicamente que, no país, o número de suicídios superava abundantemente o dos homicídios.14
Sabendo que as estatísticas pouco ajudam as pessoas que estão com medo, de nada adianta usar seus números para tranquiliza-las. De acordo com o levantamento de 2024, o último disponível, o Chile registrou 1.207 vítimas de homicídio o que equivale a uma média de 6 mortes para cada grupo de 100.000 habitante. O que parece pouco quando comparado, por exemplo, ao Equador (onde a média anual é de 38 mortes violentas para o mesmo contingente de pessoas) é suficientemente grave para que 63,0% dos chilenos se sintam profundamente inseguros. Esta insegurança foi crescendo à medida que, nos últimos dez anos, não só o país viu dobrar o número dos homicídios (de 3 para 6 assassinatos para cada grupo de 100.000 pessoas), como os roubos com violência e intimidação aumentaram em 25,0% e pouco mais de um terço das famílias afirma ter sido vítima de assaltos.15 Daí a concluir que a esquerda fracassou em garantir a segurança pública é um pulo.
Em relação aos suicídios, os dados de 2024 mostram que, no Chile, 1.984 pessoas tiraram a própria vida, o que fez o país atingir o triste marco de 10,5 mortes por grupo de 100.000 habitantes, patamar superior à média de 9 suicídios pelo mesmo contingente populacional apurado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Entendemos sem dificuldade que, ao citar este problema, Boric tentou colocar água na fervura do debate sobre segurança pública e abrir um espaço para mostrar o aumento na atenção à saúde mental promovida pelo seu governo.
Os dados mostram que a rede pública passou de 3 milhões e 200 mil atendimentos, em 2021, para 6 milhões e 300 mil, em 2024, com um aumento de 16.000 internações psiquiátricas no mesmo período de tempo. Contudo, o próprio Boric não demorou a perceber que o seu tiro sairia pela culatra. De fato, apesar da gravidade do problema, o seu governo destinou a este setor apenas 4,5% dos gastos em saúde, quando a média recomendada pela OMS é de 6,0% deste montante. Ao gastar menos do desejado, temos que, em média, um adulto demora 236 dias para ser atendido no sistema público de saúde, mental prazo que sobe para 292 dias no caso de crianças e adolescentes.16
Paralelamente a isso, ao longo do seu mandato, Boric assistiu ao agravamento de problemas ambientais e do perfil de morbidade das pessoas que vivem nas áreas de extração do lítio e do cobre, as principais riquezas minerais do país. Em 2023, o Presidente chileno apresentou a Estratégia Nacional do Lítio, um plano que, ao somar investimentos públicos e privados, aumentaria a produção do “ouro branco” em 70,0% até 2030.17
O Salar do Atacama é a maior jazida de lítio do Chile, com cerca de 8 milhões e 300 mil toneladas em reservas comprovadas e cuja produção abastece cerca de 30,0% da demanda mundial. Mas a nova fase do desenvolvimento alardeada por governo e empresários detonou de vez o ecossistema do deserto do Atacama e reduziu ainda mais a pouca água disponível, ameaçando a vida de 18 populações nativas que já pensam em abandonar seus territórios ancestrais. As bandeiras pretas penduradas nas janelas de algumas das casas denunciam o descontentamento dos moradores que pagam o preço de uma riqueza que destrói o seu presente e inviabiliza o seu futuro.
As coisas foram se agravando também em função da redução das compensações pelos estragos da mineração. Empresas como a Albemarle, por exemplo, se comprometeram a investir o correspondente a 3,5% de suas vendas anuais para esta finalidade.18 O que, inicialmente, proporcionava uma quantia razoável foi diminuindo com a queda dos preços mundiais do carbonato de lítio. Para termos uma ideia deste processo, basta pensar que, em dezembro de 2022, a tonelada do produto era vendida a pouco menos de US$ 70.000. No mesmo mês de 2025, ela era exportada a US$ 9.650.19 Com isso, a quantia correspondente aos 3,5% das vendas caiu pelas tabelas e não proporciona a reparação necessária.
Se você achou que a queda do preço do lítio deve ter atingido a arrecadação do Estado, fique sossegado, pois, no mesmo período, ela foi amplamente compensada pelo aumento de 42,6% no preço internacional do cobre.20 Para falar do carro-chefe das exportações chilenas, nos dirigimos para a região de Antofagasta de onde saem 40,0% da produção deste minério e os empregos vinculados à mineração proporcionam o sustento de 700.000 pessoas. Essencial para a transição energética, o cobre conhece uma progressiva elevação da demanda que, por sua vez, pressiona para que as mineradoras produzam mais em menos tempo.
À medida que este processo avança, o aumento da emissão de material particulado na atmosfera, amplia os casos de autismo, câncer e problemas respiratórios graves nos moradores da região, conforme alertado pela OMS e por várias entidades internacionais que estudam o impacto a poluição ambiental em adultos e crianças.
O crescimento do autismo, por exemplo, é constatado nas instituições dedicadas a cuidar das crianças portadoras deste distúrbio presentes na região. Inaugurada em 2002, a Escola e Fundação Raízes oferecia 40 vagas para os pequenos com autismo severo. No momento em que escrevemos, a mesma unidade de ensino opera em três turnos de 40 alunos cada e tem uma lista de espera de 400 crianças. Longe de atacar as mineradoras, as autoridades tratam de calar os alertas dos profissionais de saúde com o corte de financiamentos. Ao falar da situação atual, a fundadora da escola, Gloria Zamudio, diz: “As autoridades, em vez de ajudar as famílias da nossa comunidade, nos desfinanciam, ameaçam fechar, colocam obstáculos no caminho. Eles fazem guerra contra nós. É isso que enfrentaremos como sociedade nos próximos anos. Uma epidemia dessas crianças que as autoridades e a sociedade em geral preferem ignorar”.21
Em 2009, na cidade de Calama, o governo já sabia que os poluentes oriundos da mineração do cobre estavam 40,0% acima do limite máximo estabelecido pela legislação do Chile. Diante deste descalabro, as mineradoras se comprometeram em reduzi-los em 25%, até 2027. Contudo, não precisamos ser especialistas para entender que, com o aumento da extração, esta redução não trará a melhora desejada. O adoecimento de adultos e crianças faz os moradores temerem que a cidade se torne inabitável, assim como ocorreu com Chuquicamata onde, segundo cientistas estadunidenses, a poluição causada pela mineração causou o nascimento de crianças com malformações e atrasos cognitivos. O Dr. Ivan Silva, pediatra em Calama, traça um quadro sombrio da realidade: “Aqui o Estado não quer saber o que está acontecendo. Não há intenção de aprofundar essas questões para saber se o que estamos vendo tem ligações com a atividade de mineração. Não há institutos de pesquisa. Não há universidades envolvidas. Em Calama, não há médicos suficientes. Não existe um único neurologista pediátrico”.22
Quando somamos as frustrações às preocupações de grupos populacionais que viram aumentar seus sofrimentos começamos a entender tanto a sensação de esgotamento da paciência popular diante das atitudes governamentais. Daí a não aceitar o apelo de votar na candidata da Frente Ampla de Esquerda pelo fato de ela representar o mal menor em relação aos estragos que Kast poderia produzir na condução do país, é um passo que o “desgosto” incentiva. Ao que tudo indica, parte da expressiva derrota de Jeannette Jara ocorreu por ela, como ex-Ministra do Trabalho e da Previdência Social, carregar o peso da reprovação de 57,0% dos chilenos ao governo Boric, curiosamente, um ponto percentual abaixo dos 58,16% dos votos recebidos por Kast no segundo turno.23
Seguindo nas nossas reflexões, vamos resgatar brevemente os principais pontos do programa de governo apresentados pelos dois candidato a fim de visualizar como lidaram com os sentimentos dos eleitores.
2. O diálogo com a população.
Filha de um mecânico e de uma dona de casa, Jeannette Jara, se apresentou como alguém que, por ter nascido numa família de trabalhadores, sabe o que é acordar cedo para ganhar a vida e conhece os perrengues da sua classe social.24 A tradução desta preocupação no campo da economia girou em torno do aumento do salário mínimo para 750.000 Pesos (cerca de US$ 795), de medidas para baratear as contas de energia elétrica e da intenção de reduzir a participação da Unidade de Fomento (uma moeda virtual cujo valor é corrigido diariamente) no cálculo dos planos de saúde, dos aluguéis e das mensalidades escolares.
Aos aposentados e pensionistas, Jara prometeu manter os avanços conseguidos pela reforma da previdência, o que inclui um aumento gradual dos benefícios que estão sendo pagos. No campo da saúde, propôs um programa para garantir o acesso à entrega de medicamentos em domicílio, a regulação dos preços máximos dos remédios considerados essenciais e, a fim de cativar as simpatias dos eleitores de Franco Parisi, candidato do Partido Popular derrotado no primeiro turno, incorporou o reembolso do Imposto sobre Valor Agregado cobrado na venda dos medicamentos.
A tentativa de atrair eleitores de candidatos derrotados marcou presença também no programa para a habitação. No primeiro turno, Jara havia centrado as atenções na necessidade de construir 360.000 casas para zerar o déficit habitacional do Chile. Na segunda rodada do pleito, deu espaço à ideia apresentada por Evelyn Matthei, candidata derrotada da direita tradicional pela qual o governo ajudaria quem tem menos de 40 anos e ainda não comprou a sua primeira casa a cobrir o valor da entrada do financiamento imobiliário.
No campo da migração e da segurança, suas propostas se distanciaram do foco da direita. Jara propôs o fortalecimento do Sistema Nacional de Migração, a criação de um cadastro biométrico provisório para registrar os sem documento e um plano de controle das fronteiras. Quanto ao combate à criminalidade, a candidata focou seu discurso na revogação das leis de sigilo bancário que impedem de rastrear os fundos ilícitos, no controle da venda de armas para reduzir o poder de fogo dos criminosos, no uso de drones e inteligência artificial na investigação policial e no fortalecimento da segurança municipal e privada.25
Ainda que necessárias para atrair os votos dos candidatos derrotados, as propostas incorporadas aumentaram o gosto de cabo de guarda-chuva na boca da militância das agremiações da Frente Ampla que já estava presente no primeiro turno diante da constatação que Jeannette havia feito desaparecer do programa de governo as ideias com as quais ganhou a convenção para a candidatura deste bloco da esquerda. Entre as propostas que haviam marcado a diferença com a sua contendente, Carolina Tohá, estavam a necessidade de avançar com a reforma da previdência acabando com as Administradoras dos Fundos de Pensão (AFPs), de caminhar rumo à nacionalização do cobre e do lítio, de reduzir a jornada semanal do setor público para 40 horas, de reservar assentos no Congresso para os povos indígenas, de focar no fortalecimento da rede pública como coluna vertebral do sistema de saúde e de promover uma nova lei de proteção das geleiras.26
Ao recuar ainda mais para estender a mão ao centro-direita, Jara aumentou a decepção de quem acreditava encontrar nela um pouco mais de Salvador Allende e um pouco menos de Gabriel Boric. A frustração diante da constatação de que, se eleita, o seu mandato manteria intacta a lógica neoliberal que orienta os rumos do país desde a ditadura de Augusto Pinochet explicaria por que, a votação de Jara no primeiro turno atingiu apenas 26,9% das preferências dos eleitores, mais de 3 pontos percentuais abaixo do mínimo esperado e 10 pontos inferior aos 37,0% dos que aprovavam o governo Boric.27
O desempenho do líder do Partido Republicano José Antonio Kast surpreendeu desde o primeiro turno ao alcançar 23,9% dos votos. Levando em consideração que, nesta etapa da disputa eleitoral, a direita chilena se apresentava aos eleitores com outros dois candidatos (Johannes Kaiser, do Partido Nacional Libertário, que obteve 13,93% dos votos; e Evelyn Matthei, da União Democrática Independente, com 12,56%), o resultado do pinochetista superou em 4 pontos percentuais o que havia sido projetado pelas pesquisas.28
Contando com o apoio destes candidatos, Kast centrou o segundo turno nos temas da segurança pública e da imigração, sem se esquecer de mostrar que, na economia, na saúde e na previdência o seu programa de governo atenderia às necessidades mais urgentes das pessoas sem eliminar o pouco que elas tiveram do governo Boric.
Sabendo que a Segurança é a principal preocupação dos chilenos e que as pessoas querem ações imediatas, o diálogo com os eleitores apresentou o que Kast apelidou de Plano Implacável contra o crime. Inspirado no modelo de segurança pública criado pelo Presidente de El Salvador, Nayib Bukele,29 o líder do Partido Republicano afirmou a necessidade imediata de construir prisões de segurança máxima com isolamento total dos chefes do narcotráfico, de aprovar a prisão perpétua e penas mais severas para os criminosos, de criar uma força-tarefa que recupere as áreas por eles dominadas e de acabar com as situações que criminalizam as vítimas por ter agido em legítima defesa.
Ainda que nenhuma pesquisa mostre a existência de uma ligação direta entre aumento das ocorrências policiais e a presença dos imigrantes ilegais, Kast sugeriu a deportação em massa dos sem documentos. Esta medida e um controle rigoroso das fronteiras impediriam a entrada e a presença de pessoas indesejáveis tanto por sua condição econômica, como pelas atividades com as quais ganhariam a vida no país.
O canto da sereia no campo da economia veio com a ideia de cortar o equivalente a 6 bilhões de dólares em impostos pagos pelos cidadãos e pelas empresas ao longo dos primeiros 18 meses de governo. Em nenhum momento da campanha o candidato do Partido Republicano detalhou a fórmula com a qual pretende fazer isso. Perguntado sobre o tema, se limitou a afirmar que tomaria medidas para cortar gastos, eliminar o nepotismo e regulamentar a concessão de licenças médicas para o funcionalismo.
Ao afirmar que os cortes de gastos do Estado não afetarão os benefícios sociais, Kast garantiu que a Pensão Única Universal será mantida, que investirá o equivalente a 770 milhões de dólares para zerar as listas de espera dos hospitais públicos, que oferecerá subsídios para facilitar a compra de terrenos e a autoconstrução das casas e eliminará o
Imposto Predial sobre a primeira residência.30
Ao longo de toda a campanha, Kast evitou propositadamente os temas que, em 2021, desgastaram a sua candidatura. Nos comícios e debates, não entrou na discussão sobre o aborto, sobre as liberdades individuais e a agenda de valores e, muitos menos, fez qualquer alusão ao regime ditatorial de Augusto Pinochet. Em todas as intervenções, centrou seu discurso nas principais preocupações dos chilenos e deu a eles a certeza de que vai atuar com mão de ferro contra o crime.
Num balanço geral dos dois candidatos, é claramente perceptível que a extrema direita respondeu às angústias da população com a objetividade que esta desejava. A partir de março de 2026, veremos como e quanto das promessas de campanha que garantiram a sua vitória em todas as províncias do país se tornarão realidade e, sobretudo, como a extrema direita lidará com os movimentos sociais do Chile.
3. A caminho da posse marcada para março de 2026.
A contagem dos assentos conquistados nas eleições de 16 de novembro deste ano mostra que direita e extrema direita saíram fortalecidas do pleito. A representação parlamentar formada pela coligação liderada pelo Partido Republicano, pelos libertários, pelo Partido Social Cristão e pela direita tradicional conseguiu 76 das 155 vagas que estavam em disputa. O fato de ter duas vagas a menos em relação às 78 que formam a maioria relativa não deve forçar este bloco a fazer grandes concessões para angariar o apoio que garante a aprovação dos seus projetos.
No Senado, o Partido de Kast passou de um para sete representantes e, com as demais agremiações de direita, contará com 25 das 50 vagas existentes, o que garante uma situação igualmente confortável. Em sentido oposto, as forças de centro-esquerda e esquerda viram sua bancada encolher de 72 para 61 representantes na Câmara dos Deputados, mas aumentaram de 19 para 20 o número de senadores.31
Se a direita não terá que suar a camisa para colocar o seu trem nos trilhos, a esquerda não pode pensar seu trabalho de oposição sem antes se perguntar por que uma porcentagem significativa da classe trabalhadora virou as costas para ela. Pela nossa leitura dos acontecimentos, o medo do comunismo teve um papel insignificante na que é a sua pior derrota após 1990. Por outro lado, sabendo que a violência atinge desproporcionalmente os bairros pobres e que a luta contra ela não era uma prioridade do governo Boric, parece plausível acreditar que, mais do que uma adesão ao projeto de país da direita, os votos de quem está na base da pirâmide social expressam, fundamentalmente, o desejo de poder sair de casa sem medo e de proteger o pouco que conseguiram a duras penas.
Em relação ao futuro governo, a coordenação de campanha de José Antônio Kast foi muito esperta em agir no sentido de mostrar que os chilenos precisam esperar o tempo certo de cada coisa, uma ideia que caminhou de mãos dadas com a afirmação de que os primeiros meses serão bem difíceis para o Chile. O novo Presidente sabe que sua eleição ocorreu por ter conseguido capitalizar os medos e o descontentamento que a esquerda não conseguiu conter. Por isso, deverá encaminhar imediatamente tudo o que não depende da aprovação parlamentar para dar uma sensação de que as coisas vão mudar de verdade, enquanto prepara a aprovação de leis e planos que precisam passar pelo crivo da Câmara dos Deputados e do Senado.
Ainda não sabemos como será o estilo de governo com o qual Kast procurará manter a confiança dos seus eleitores e nem até que ponto tentará forçar os limites impostos pelas instituições do país. Contudo, já está claro que a guinada à direita do Chile aumentará a pressão dos setores conservadores na América Latina, ampliando os espaços de atuação e a capacidade de universalizar suas posições no continente.
As nuvens que se acumulam na linha do horizonte prometem mais destruição do que as lutas conquistaram. Resta saber se e quando os setores progressistas abandonarão a lógica do mal menor e das propostas que não alteram os principais mecanismos de exploração do sistema para reunir forças e organização capazes de destruir o que está na origem dos problemas sociais que a direita não titubeia em controlar sacrificando suas vítimas.
Emilio Gennari, Brasil 17 de dezembro de 2025.
1
Em: https://elpais.com/chile/2025-11-16/claves-politicas-de-la-eleccion-presidencial-y-parlamentaria-de-chile-2025.html Acesso realizado em 20/11/2025.
2
Tratamos deste assunto na análise que divulgamos em outubro de 2024 sob o título Chile: a esquerda que a direita aplaude, disponível em: https://drive.google.com/drive/folders/1YoRRdUt1RVr31bNvhMPvIFt8pBwWYoJA?usp=sharing
3
Em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2025/10/24/nacion-mapuche-los-seis-ruidos-sitiados-el-invisible-legado-de-gabrielboric-hacia-diferentes-lof-en-resistencia/ Acesso realizado em 26/10/2025.
4
Nas leituras sobre a lei antiterrorismo que realizamos para a produção destas reflexões, chamou a nossa atenção o fato de que a totalidade dos exemplos explicativos se referiam às ações da resistência Mapuche. De todo o material ao qual tivemos acesso, sugerimos a leitura de:
- Texto da Lei Nº 21.732 que determina as condutas terroristas, fixa as penalidades e revoga a Lei Nº 18.314, disponível em: https://www.bcn.cl/leychile/navegar?idNorma=1211036
- Eduardo Hodge Dupré, La ley antiterrorista chilena: Análisis crítico a la luz de la seguridade, em: Revista Chilena de Derecho y
Ciencia Política, Vol. 16, Nº 1, pgs 1-20, Agosto de 2025. Disponível em: https://share.google/K8uoseRbVq5fUlY4f
- Alejandro Leiva López, Terrorismo y Nueva Lei 21.732, Coleção de Materiais Docentes Nº 57 da Academia Judicial de Chile, 2025.
Disponível em: https://academiajudicial.cl/wp-content/uploads/2022/11/Terrorismo-y-La-Nueva-Ley-21.732-4.pdf - https://www.resumenlatinoamericano.org/2025/02/06/chile-boric-levanta-la-apuesta-represiva-y-promulga-la-nueva-leyantiterrorista-respuesta-de-comunicadores-populares-una-agresion-directa-contra-el-movimiento-popular-en-lucha/ Acessos realizados entre 25 de novembro e 8 de dezembro de 2025.
5
Em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2024/10/19/chile-a-5-anos-del-alzamiento-popular-policia-vuelve-a-reprimir-amovilizados/ Acesso realizado em 30/11/2025.
6
Em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2025/05/27/chile-gobierno-de-boric-sepulta-promesa-de-reparacion-integral-avictimas-del-estallido/ Acesso realizado em 30/11/2025. 7
Você pode resgatar a realidade do país e das forças em jogo faltando dois meses para a posse em Notas sobre as eleições no Chile, uma reflexão que divulgamos em 30 de janeiro de 2022 e que continua acessível em:
https://drive.google.com/drive/folders/1YoRRdUt1RVr31bNvhMPvIFt8pBwWYoJA?usp=sharing
8
Mostramos isso com riqueza de detalhes no texto de 03 de outubro de 2022 Chile: por que a nova Constituição foi rejeitada?, disponível em https://drive.google.com/drive/folders/1YoRRdUt1RVr31bNvhMPvIFt8pBwWYoJA?usp=sharing
9
Você pode resgatar as bases da reforma tributária inicialmente pensada por Boric em:
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60482908 Acesso realizado em 11/12/2025
10
Maiores informações sofre a reforma da Previdência podem ser obtidas em:
- https://www.resumenlatinoamericano.org/2025/01/10/chile-denuncian-que-reforma-previsional-de-boric-beneficia-a-capitalesprivados-video/
- https://www.resumenlatinoamericano.org/2025/01/30/chile-aprueba-reforma-a-su-sistema-de-pensiones/
- https://www.resumenlatinoamericano.org/2025/03/11/chile-constitucional-aprueba-reforma-previsional-el-fin-de-las-afp/ Acessos realizados em 15/11/2025.
11
Em: https://elpais.com/chile/2025-06-01/boric-emplaza-a-la-derecha-en-su-ultima-cuenta-publica-con-la-ley-de-aborto-y-larecalificacion-de-punta-peuco.html Acesso realizado em 15/06/2025.
12
De acordo com o último boletim do Instituto Nacional de Estatística, entre julho e setembro deste ano, 26,2% da força de trabalho atuava em atividades informais. Por sua vez, a taxa de desemprego no mesmo mês atingia os 8,5%. Dados disponíveis em:
http://www.ine.gob.cl/sala-de-prensa/prensa/general/noticia/2025/11/04/tasa-de-ocupaci%C3%B3n-informal-a-nivel-nacionallleg%C3%B3-a-26-2-en-el-trimestre-julio-septiembre-de-
2025#:~:text=Tasa%20de%20ocupaci%C3%B3n%20informal%20a,trimestre%20julio%20%E2%80%93%20septiembre%20de%202025 e em: https://www.ceicdata.com/pt/indicator/chile/unemployment-rate Acessos realizados em 11/12/2025.
13
Você pode acompanhar a trajetória mensal das taxas de desemprego dos últimos 5 anos em: https://pt.tradingeconomics.com/chile/unemployment-rate e em: https://www.ceicdata.com/pt/indicator/chile/unemployment-rate
Acessos realizados em 10/12/2025
14
Em: https://elpais.com/chile/2025-06-01/boric-emplaza-a-la-derecha-en-su-ultima-cuenta-publica-con-la-ley-de-aborto-y-larecalificacion-de-punta-peuco.html Acesso realizado em 15/06/2025.
15
Você pode encontrar estes e outros dados sobre o tema em:
- https://elpais.com/chile/2025-12-07/de-boric-a-kast-los-desilusionados-de-la-politica-chilena-hacen-mover-el-pendulo-no-cumpliolo-que-prometio.html
- https://www.bbc.com/mundo/articles/c93ng5gn5nwo
- https://www.bbc.com/mundo/articles/cql9766ykw5o Acessos realizados em 11/12/2025
16
Todos os dados citados foram publicados em: https://www.bbc.com/mundo/articles/c93ng5gn5nwo Acesso realizado em 10/12/2025.
17
Maiores informações sobre o tema podem ser encontradas em: https://elpais.com/chile/2023-12-27/avanza-la-estrategia-nacionaldel-litio-en-chile-la-estatal-codelco-acuerda-con-sqm-explotar-en-conjunto-el-salar-de-atacama-hasta-2060.html Acesso realizado em 28/01/2023.
18
Estas e outras informações podem ser encontradas em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckg37npj40ro e em: https://elpais.com/america-futura/2025-03-26/mucho-litio-y-poca-agua-el-dilema-de-atacama-ante-el-auge-del-oro-blanco.html Acessos realizados em 11/12/2025.
19
Você pode acompanhar a evolução dos preços do carbonato de lítio ao longo dos últimos cinco anos em:
https://pt.tradingeconomics.com/commodity/lithium Acesso realizado em 11/12/2025.
20
A porcentagem foi calculada com base nos valores divulgados em: https://pt.tradingeconomics.com/commodity/copper Acesso realizado em 11/12/2025.
21
Este depoimento e todos os dados citados no desenvolvimento deste tópico foram publicados em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2025/05/16/chile-medicos-alertan-de-una-crisis-de-salud-infantil-en-el-corazon-de-lamineria-de-cobre-2/ Acesso realizado em 30/11/2025.
22 Idem. 23
Dados publicados em: https://elpais.com/chile/2025-12-13/boric-comienza-a-despedirse-de-la-moneda.html Acesso realizado em 13/12/2025.
24
Em: https://elpais.com/chile/2025-11-16/jeannette-jara-la-esperanza-de-la-izquierda-de-boric.html Acesso realizado em 25/11/2025.
25
Em: https://elpais.com/chile/2025-12-12/las-propuestas-de-jeannette-jara-la-exministra-que-lucha-por-mantener-a-la-izquierda-enla-moneda.html Acesso realizado em 13/12/2025.
26
Em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2025/10/16/chile-la-comunista-jara-y-sus-abruptos-cambios-del-programa-original/ Acesso realizado em 01/11/2025.
27
Dados publicados em: https://elpais.com/chile/2025-12-13/boric-comienza-a-despedirse-de-la-moneda.html Acesso realizado em 13/12/2025.
28
Em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/chile-kast-surpreende-e-diferenca-para-jara-e-de-2-pontos-no-1o-turno/ Acesso em 10/12/2025.
29
Você pode ter o detalhamento das principais medidas deste plano em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0jd0yxdvlvo Acesso realizado em 10/12/2025.
30
Em: https://elpais.com/chile/2025-12-12/las-propuestas-de-jose-antonio-kast-el-ultraconservador-que-busca-llegar-a-la-monedaen-su-tercer-intento.html Acesso realizado em 13/12/2025.
31
Estas e outras informações mais detalhadas podem ser encontradas em:
- https://elpais.com/chile/2025-11-17/que-ha-pasado-en-las-elecciones-de-chile-ocho-graficos-para-entender-losresultados.html#?rel=mas
- https://elpais.com/chile/2025-11-17/el-partido-republicano-de-kast-triunfa-en-la-camara-de-diputados-y-en-el-senado-chileno.html - https://elpais.com/chile/2025-11-18/el-populismo-y-las-opciones-ultraconservadoras-sacan-musculo-en-chile.html Acessos realizados em 13/12/2025.
