sexta-feira, 3 de abril de 2020

Can we do it?






Este é um símbolo que nos representa, não é, garotas? [WE CAN DO IT!][1]



“A mulher moderna [...] é filha do sistema econômico do grande capitalismo. [...] nasceu com o ruído infernal das máquinas da usina e a sirene das fábricas.” (Alexandra Kolontai).

O desenvolvimento do capital condiciona a mulher a uma nova realidade, novas características da divisão sexual do trabalho. É preciso buscar conhecer a nossa conformação... Mas o foco deste texto tem mais a ver com a reprodução eufórica do que não se busca conhecer. 

Um “feminismo sem classe”, pode tranquilamente ser incorporado pela classe dominante e ser emocionante ao apelar para a questão da “capacidade da mulher” e englobar todas as angústias sofridas por nós, perdendo de vista que a estrutura da sociedade de classes em que vivemos condiciona e alimenta a opressão da mulher sofrida.

O cartaz em questão é um grande símbolo. Mas não é sem classe. ( Ver mais cartazes nas referências)



Num período em que o capitalismo já está em seu estágio mais que maduro, no cenário da Segunda Guerra Mundial, é criado, como um dos movimentos de propaganda de guerra, este belo cartaz de “Rosie, a rebitadora”. Cartaz criado em 1943 por J. Howard Miller, foi feito para a fábrica Westinghouse Electric Corporation, para “levantar a moral dos trabalhadores e trabalhadoras” em apoio à guerra burguesa – como a maioria dos homens da classe trabalhadora estavam sendo enviados para a guerra, cabia à mulher trabalhadora tocar a produção das fábricas. Nesse período, a população trabalhadora feminina tem mais uma vez um aumento sensível, e a campanha vem em incentivo para as mulheres entrarem com tudo na parte mais pesada da produção de armamentos.


A luta das mulheres é usada, propagandeada vinculada a um nacionalismo, é dado como o ganho de um espaço (mercado de trabalho) e exaltado como com isso a mulher estaria cumprindo seu papel na guerra, na sociedade, na vida. Mas um momento... guerra de quem? 

As trabalhadoras são “convidadas” a ir para as fábricas fabricar armamentos pesados para que com estes, trabalhadores americanos e aliados (como soldados) matem outros trabalhadores e trabalhadoras de outras nacionalidades.

E para além de tudo isso, “We can do it!” também (não por acaso) traz consigo o significado, de que a mulher consegue pegar no processo pesado de produção fabril de armamentos, consegue trabalhar e cuidar da casa, consegue trabalhar e ainda dar conta de sua função/obrigação de mulher (ou seja, trabalhar de novo). Porque afinal, dá conta de sua função e ainda consegue “cumprir seu importante papel para a guerra” burguesa. Além de tudo, “We can do it!”, é uma ode à dupla jornada.

E essa imagem criada em prol do capitalismo é que irá promover a luta das mulheres? Que visa a o fim da condição de jugo da mulher? Que visa pôr fim à determinação da condição social da mulher?

Desculpe-me, mas achar um desenho bonitinho não pode ser motivo pra se levar adiante uma bandeira do capital em detrimento da classe trabalhadora (composta por mulheres e homens).

Enquanto o capitalismo existir não pode existir a emancipação da mulher.  O cartaz em questão não é sem classe, mas definitivamente não é da nossa classe (a classe oprimida).

Nem patrão, nem Deus, nem amo, nem marido - por uma sociedade sem classes!

(J. Sant' Ana - 8 de março de 2016 - Editado 08 de março de 2020)
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[1] "Nós podemos fazer isso". Cartaz do comitê americano de coordenação da  produção de guerra.



 Estou orgulhosa... meu marido  quer  que eu faça a minha parte"

"Consulte o seu serviço de emprego EUA. Comissão de mão de obra para guerra."











segunda-feira, 23 de março de 2020

O caminhar para uma distopia...

Por Bruna


Proponho neste texto uma reflexão acerca de uma imagem que temos visto circulando pela internet, expondo uma intersecção de alguns diagramas com livros classificados como distopias, e dizendo que estamos vivendo justamente nela!! Você concorda??


Em oposto à utopia, que prevê uma sociedade perfeita, permeada por um sistema, uma organização ideal, onde todos são felizes e concordam com os meios e modos de vida, nessas distopias os cidadãos estão à mercê de um poder tirânico e totalitário exercido sobre os grupos que nela vivem, não prezando por um bem-estar coletivo, mas sim a favor de uma ideologia do grupo que detém o poder. Nesse modo de “governar” existe corrupção e diversos privilégios para quem “manda”, sendo que o poder é mantido às custas de, por exemplo, não existência de privacidade e liberdade, com controle constante da vida pessoal e pública dos cidadãos e perseguição de quem não concorda com o a situação imposta.
Ao ler esses livros mostrados no diagrama acima, vejo muitas semelhanças com o que vivemos na atualidade, em situações que nos colocam no caminhar para esses extremos tirânicos, com uma vida miserável e sem liberdade.
Poderia falar de qualquer um deles, todos muito marcantes, mas vou falar um pouquinho do “O Conto da Aia” de Margaret Atwood, publicado em 1985, mas escrito em 1956, talvez por ter sido, dentre os citados acima, o que li mais recentemente. O livro também virou a aclamada série “The Handmaid’s Tale”! Recomendo ambos!
Nesse livro, que se passa na república de Gilead, instaurada após uma revolução teocrática, que tem lugar onde antes eram os Estados Unidos da América, anulando totalmente a sociedade anterior. Nessa república, existem as Aias, servas que possuem apenas a função de procriar, servindo de barriga de aluguel, pois após desastres ambientais, a maioria das mulheres não são férteis. Nessa sociedade nunca a infertilidade do homem é cogitada, sempre a mulher que pode ou não ser infértil. As Aias são alocadas na casa daqueles que comandam esse novo poder, são afastadas de seus familiares anteriores, perdem totalmente sua liberdade e são proibidas de diversas coisas, dentre elas de ler e escrever. Inclusive é um mistério como e quando a aia Offred escreve o livro, que é descoberto em uma sociedade, muitos anos após os eventos narrados.
Para além do funcionamento da sociedade, o que mais me chocou foi como as coisas foram acontecendo. No começo, tiraram os empregos das mulheres e o direito de lidar com seu próprio dinheiro, apenas os maridos ou algum homem poderia fazer isso. O Congresso foi aniquilado e a Constituição derrubada, mas não se importaram, pois foi dito que era provisório e logo seria restabelecida a normalidade... Essa maneira de como as coisas vão acontecendo e como nós, vamos aceitando, é muito preocupante e tem diversas semelhanças com a realidade atual!
O modo como passamos por um golpe parlamentar em 2016 e como nosso país está sendo governado, servindo às vontades da mão nem tão invisível assim do “mercado” (ou podemos ler “rentistas”); o modo como estamos aceitando as frases e justificativas toscas do tipo “pergunta para tua mãe, o comprovante que ela deu para teu pai”[1] vinda do cargo mais alto do executivo; a maneira como emendas constitucionais e medidas provisórias que estão alterando modos de vidas historicamente e democraticamente construídos; a forma como estamos perdendo direitos na calada da noite, com atitudes déspotas e com a passividade das pessoas...
O mais assustador acontece agora, neste exato momento, na tentativa de convencer o cidadão brasileiro em “compartilhar o prejuízo” causado pelo Corona Vírus, reduzindo salários e recursos financeiros da população para ajudar as empresas a economizarem sua folha salarial, o fechamento de cidades, aeroportos, controle de quantidade de itens comprados em supermercados, sob a ameaça de um vírus, me leva a pensar que infelizmente estamos caminhando (ou correndo?) para uma distopia... Ah, Thomas More, como eu queria que estivéssemos a caminho de sua Utopia!!



[1] Pode ser conferido no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=aXww5XXoPeU

quinta-feira, 5 de março de 2020

Lula “livre”: Três cenários e uma suspeita.









O Conselhodaclasse oferece uma ótima oportunidade pra você conferir se a tendências da conjuntura apontadas por Mauro Iasi, no blog da boitempo, em novembro do ano passado continuam válidas. No quesito bufão com certeza, haja vista, o palhaço substituindo o presidente na entrevista sobre o crescimento do PIB a poucos dias, em relação a imunidade do filho do presidente, idem, pois ele passeia pelo país debochando das denúncias e provas de suas conexões e de toda a família com o crime organizado. 
Em relação aos desfechos temos que aguardar. Uma certeza porém, a análise revela, o ovo de serpente continua sendo chocado no seio da socialdemocracia, o comportamento do governo democrático popular diante das manifestações de julho de 2013, reprimindo ao invés de incorporar e estimular, nos deu de presente, entre tantas outras, este ovo de serpente, cujo primeiro pedaço quebrado e a ponta do bico revela é um governo de extrema direita, eleito.

Confiram e se manifestem (IDE)



Lula “livre”: três cenários e uma suspeita


“Quando o queijo e a goiabada se encontram na mesa do pobre,
devemos suspeitar dos três: do queijo, da goiabada e do pobre.”
Barão de Itararé
Análise de conjuntura não é um exercício de premonição, mas a capacidade de apontar cenários a partir das contradições que se apresentam. A conjuntura atual começa a apontar, pelo que penso, três possíveis cenários. Agregaremos um elemento importante na dinâmica dos fatos, que foi a saída de Lula da cadeia da lava-jato. Vejamos esses cenários sem que a ordem indique o que penso ser o desfecho de maior probabilidade.
Primeiro cenário: Barão de Itararé – tudo pode acontecer, inclusive nada
A tendência quando avaliamos as contradições do governo fundamentalista/miliciano é querer ver soluções dramáticas, seja do ponto de vista de um retrocesso autoritário mais explícito e de corte fascista (que, acreditem ou não, ainda não veio), ou, no sentido oposto, uma rebelião ao estilo de nossos vizinhos latino-americanos.
Historicamente, o Brasil é pródigo em derrubar essas alternativas extremas. O governo miliciano tem cumprido a agenda do capital com esmero e dedicação. No entanto, a forma como o faz constitui um problema para a ordem burguesa na medida em que cria tensões desnecessárias para tal agenda, ainda que necessárias para a manutenção do bufão descontrolado e sua trupe. Como veremos adiante, existe a possibilidade de que o projeto de tirá-lo do poder para manter essa agenda já tenha começado, mas ao lado dessa possibilidade, e devido aos riscos que envolve, apresenta-se a possibilidade de deixar como está para ver como fica.
Eduardo Bolsonaro não será cassado, Moro permanece ministro, Queiroz não será levado a prestar depoimento, continuaremos sem saber quem mandou matar Marielle, uma outra artimanha jurídica tentará manter Lula fora do pleito eleitoral e o chefe dos palhaços continuará fazendo asneiras e proferindo impropérios enquanto a reforma administrativa e a tributária seguem seu curso. A Globo alternará denuncias indignadas e loas à retomada do crescimento após a administração do amargo remédio da austeridade e seus inevitáveis efeitos colaterais, ao mesmo tempo em que seus comentaristas cuidarão de depositar a culpa pelo atraso da retomada do crescimento na ameaça de um Lula na oposição.
A centro-esquerda marchará tendo como norte um calendário que só tem uma data: as eleições de 2022 (e uma escala nas eleições de 2020). A reforma trabalhista, a reforma da previdência, as matas queimadas e praias manchadas de óleo, os índios mortos, as crianças assassinadas, a morte da universidade pública e o desmonte do SUS se convertem em argumentos de um discurso eleitoral, uma macabra contabilidade do que perdemos e não há o que fazer, criando a ideia de que a única alternativa para avançar é recuar ao tempo da política de conciliação de classes.
Segundo cenário: Matrioska – o golpe dentro do golpe, dentro do golpe
O primeiro cenário tem um limite: o quanto o caráter burlesco e tosco do miliciano pode comprometer a pauta e os negócios de seus patrões. Se, por um lado, a agenda do capital e suas contrarreformas estão andando de acordo com o esperado, entre outras coisas pela boa vontade e competência do Congresso Nacional e seus asseclas, as atitudes destemperadas do presidente e sua trupe e os esqueletos no armário produzem um estrago considerável que tem impacto nos interesses dos segmentos monopolistas (indústria, agronegócio, bancos, comércio, etc.). A retomada raquítica da economia, o resultado pífio do leilão do petróleo, a trava nos investimentos diretos, começam a materializar um risco Bolsonaro que não deve ser desprezado.
Um efeito secundário, mas não menos importante, é o fato de que se o risco Lula alimentou a possibilidade de Bolsonaro e permitiu que o desqualificado chegasse à presidência, o risco Bolsonaro dá uma sobrevida ao lulismo e ao mito do retorno aos tempos do pacto.
Tudo isso leva ao cenário no qual os segmentos da classe dominante podem optar por retirar a peça que os incomoda para manter a agenda no que é fundamental. Duas dificuldades se apresentam nesse caminho. Primeiro, a amputação precisa ser feita sem que pareça uma anulação do golpe de 2016, o que abriria caminho para uma volta do petismo e do pacto de classes que o sustentava. O segundo problema é como a peça amputada reagiria.
Ao que parece, a garantia para que isto se dê, pelo menos na intenção de seus protagonistas, é a passagem do poder para o vice-presidente Mourão. Os segmentos que conspiram nesta direção têm os meios e os recursos necessários mas não controlam as condições materiais que garantiriam a estabilidade desejada, uma vez que estas radicam no comportamento da economia, no terreno pantanoso daquilo que Mészáros descreveu como a tentativa de controle de um sociometabolismo incontrolável. Em poucas palavras, a crise e sua profundidade.
Vemos desde 2016 uma promessa que não se cumpre quanto a estabilidade. Tira-se a Dilma e que Temer constrói uma ponte segura… não deu. Elege-se um presidente que cercado de legitimidade estabiliza o país… também não deu. Por que com Mourão seria diferente? O que os conspiradores esperam é que as contrarreformas comecem a dar resultados para o crescimento do capital de modo que se forje, com a aval dos militares, uma unidade no campo dominante que seja capaz de manter a ordem enquanto os efeitos deste ajuste ainda se manifestem de forma mais contundente, dando o tempo necessário para que se crie uma alternativa eleitoral que se sustente e seja capaz de derrotar a centro-esquerda e a extrema-direita.
A denúncia da Globo e o andamento das investigações que vinculam o presidente e sua família às milícias aproximando-o do assassinato de Marielle, se somam agora à soltura de Lula, como veremos, para demonstrar que o esquema já começou a se mover nesta direção. Ratos que abandonam o navio (como o MBL, artistas pornôs, roqueiros e advogados golpistas) e a popularidade em queda, indicam que o isolamento que antecede a queda esta em curso.
A segunda barreira é mais complexa. O que se supõe é que já se dispõe de recursos de chantagem suficientes para que o capitão renuncie alegando uma doença, real ou imaginária (creio que ele deve ter as duas), facilitando assim o caminho do golpe dentro do golpe. Ocorre que o personagem, diferente de outros, parece não ser suscetível a esse tipo de manobra e terá que ser forçado a largar o osso. Aqui a incógnita: terá ele recursos de reação, ou será blefe?
Além da fidelidade do fundamentalismo religioso, que pode oscilar na última hora, uma vez que o pentecostalismo de negócios aprendeu com a Igreja católica a sobreviver aos regimes que apoia (vamos lembrar que esses setores apoiaram o petismo antes de transitarem para Temer e agora se alinharem o demônio), o presidente parece ter um apoio importante em milícias armadas com ligações com as corporações policiais. Tem, ainda, uma base fiel que deve estar entre algo em torno de 7 a 10% do eleitorado que se identifica com sua pregação de extrema direita, com reflexos em segmentos de massa corrompidas por um discurso antipetista e anticomunista irracional e raivoso.
Tudo isso já é um problema, mas ainda não chegamos à verdadeira incógnita – a saber: qual é o apoio real do presidente na corporação militar? Os generais parecem divididos, com o Heleno de um lado e Cruz e Souza de outro, junto com outros que abandonaram a nau insana (parece que já são onze os militares que pularam fora do governo). Mas a dúvida é a capacidade de Bolsonaro arrastar um segmento das forças armadas na defesa de seu governo. Os militares brasileiros preferem operações que não encontrem resistência, e podem recuar diante da possibilidade de reação e buscar outros cenários.
A alternativa Mourão é uma busca de estabilidade. Se o caminho que leva até ele produzir o caos, será descartado e voltamos ao primeiro cenário.
Terceiro cenário: o contragolpe que é o verdadeiro golpe fascista
McNamara já dizia que a primeira vítima da guerra é a racionalidade. O risco nesse sentido é pensarmos como agiriam os sujeitos e atores principais supondo uma racionalidade que já foi ultrapassada pela crise. Bolsonaro pode já ter ultrapassado o patamar de uma peça com problemas, gangrenou e supurou e tem que ser extirpado. Tomadas as medidas para diminuir sua popularidade (ao que parece é a Globo que tem esse papel), produzir seu isolamento parlamentar (o que cabe a Rodrigo Maia), desacreditá-lo internacionalmente (tarefa realizada pelo próprio Bolsonaro e seus ministros), se desfecharia o golpe dentro do golpe para manter o golpe.
Caso seja blefe e Malafaia apareça abençoando Mourão e as milícias fizerem um acordo (o problema de esperar fidelidade de ladrões, assassinos, traficantes e criminosos é que eles não têm amigos, têm interesses), fora a choradeira dos bolsominions, um exército de robôs descontrolados gritando “perigo, perigo” e um certo ministro da justiça fugindo do país com alguns procuradores, estaríamos no bojo do segundo cenário.
Nosso terceiro cenário se apresenta, portanto, caso não seja blefe e o capitão apresente resistência. Ao que parece, a estratégia do inominável não era ganhar as eleições – cada vez estou mais convencido que ele não se preparou para este caminho. Devemos supor que sua estratégia era, diante de uma vitória de Haddad, dividir o país e propor uma solução de força de corte claramente fascista. Essa não é uma suposição leviana, uma vez que o presidente falou abertamente isso e seus filhos, com o destaque para aquele que apresenta mais nitidamente traços delirantes, o vereados do Rio, defendem isso sem disfarces, como escapou na fala de Deputado Federal que defendeu o AI-5.
O problema deste cenário é que ele não prevê a benção dos segmentos monopolistas e sua real força e acredita que pode chegar a manter um governo forte contra o capital. Lamentavelmente, a burguesia brasileira é pródiga em perder o controle dos processos que ela parece controlar, como estou convencido que aconteceu em 2016. Isso abre a perigosa possibilidade da aventura golpista da “familícia” encontrar condições político-militares de resistir ao possível golpe que tentaria tirá-lo do governo e conseguir apresentar uma solução de força, simultaneamente para evitar a perda de controle (risco Chile) e atacar seus adversários do campo conservador: o Congresso e o STF.
Este cenário depende de quanto o miliciano tem de fato de apoio na corporação militar e policial (legal e miliciana), e sua capacidade de ser a alternativa que resta ao capital diante do risco de descontrole social, seja pela revolta de massas, seja pela possibilidade de retorno pela via eleitoral do petismo.
Uma suspeita
Os leitores mais atentos devem ter notado que os cenários se apresentam no campo das alternativas dos setores dominantes. Ocorre que a alma da conjuntura se encontra na correlação de forças e dos instrumentos e recursos que os atores dispõem para realizar seus interesses. O campo popular está derrotado e isso desloca o centro da conjuntura para as alternativas em disputa no interior do campo dominante.
Na direção oposta desta leitura estão muitos amigos e incorrigíveis otimistas que veem no cenário quase insurrecional na América Latina (Equador, Chile, Haiti, etc.) e nos novos ventos eleitorais que sopram da Argentina e, possivelmente, no Uruguai a esperança de alternativas mais à esquerda se apresentarem também no Brasil.
Evidente que o cenário latino-americano interfere nos acontecimentos no Brasil, mas é necessário avaliar de que forma isto se dá. A derrubada de uma presidente eleita por meio de um casuísmo escandaloso não produziu uma reação à altura. Um governo ilegítimo impõe uma reforma trabalhista com efeitos dramáticos para a classe trabalhadora, e não encontrou resistência significativa. Por fim, a reforma da previdência foi aprovada, como disse um amigo, sem que se riscasse um único fósforo, nem sequer para acender uma vela para chorar pela morte de um dos direitos mais fundamentais.
Quando se pergunta “quando a revolta que explodiu no Chile, explodirá no Brasil?”, me assoma um misto de pena e espanto. Essa explosão já aconteceu… em 2013. E foi enfrentada de forma dura e brutal pelos chamados governos progressistas de plantão. Um processo contraditório e heterogêneo, mas que trazia como uma de suas vertentes um questionamento aos ajustes neoliberais e à política de austeridade, uma reação às condições de vida dos esquecidos, contra a violência policial cujos exemplos mais gritantes é o assassinato de Amarildo e o corpo de Claudia arrastado por uma viatura, mas aos quais se deve somar as chacinas quase diárias nas periferias e favelas, as remoções supostamente para os eventos esportivos, a destruição da natureza, o leilão do petróleo no campo de Libra, o ataque aos direitos dos trabalhadores, a prioridade do agronegócio e farra orçamentária que sangra o fundo público em nome do apetite insaciável do capital financeiro.
A resposta do governo Dilma e do seu infame ministro da Justiça, senhor José Eduardo Cardoso, foi a Portaria Normativa de dezembro de 2013 que iguala manifestantes a quadrilhas criminosas, que colocava em prática as chamadas Operações de Garantia da Lei e da Ordem com as consequências conhecidas, seguida pela Lei Antiterrorismo de 16 de março de 2016. O governo preferiu conciliar com seus algozes e, assim, selou seu destino. Desarmadas de sua força autônoma e sua direção de luta, as massas se tornam presas da manipulação e da extrema direita, o resultado nós conhecemos.
É neste contexto que devemos entender a saída da prisão do ex-presidente Lula. É perfeitamente compreensível que o centro esquerda tenha se empenhado em sua defesa e estão todos de parabéns pela campanha em defesa de sua liderança. Todos nós nos solidarizamos contra a farsa jurídica que o condenou e sabemos, como ficou provado pelas denúncias do The Intercept – Brasil, que a intenção maior sempre foi evitar que Lula participasse das eleições, porque, provavelmente, as ganharia.
Mas não foi a campanha Lula Livre que o tirou da prisão, foi o STF, a mesma instituição que legitimou a farsa que o prendeu e que o manteve preso ao arrepio da lei e da simples observância da constituição. A pergunta é: por que agora agiu de forma diferente? Não posso aceitar o discurso que o STF agiu em defesa da Constituição, restabeleceu a justiça e garantiu a mítico e fantasioso Estado Democrático de Direito, pelo simples motivo que esta mesma instituição foi fundamental para (1) ungir de legitimidade jurídica uma farsa casuística que levou ao golpe de 2016 (2) acompanhar com inoperância bovinamente subserviente as hienas do Congresso descarnado a constituição dos direitos mais fundamentais (3) recusou todos os Habeas Corpus impetrados pela defesa do presidente Lula, inclusive com a palhaçada do voto da ministra Rosa Weber que argumentou no mérito a favor e o recusou por que a maioria assim se pronunciou, inovando ao criar o “centralismo democrático” jurídico na Suprema Corte.
Mais provável é que esta corja de golpistas, coniventes e responsáveis pela destruição do país, agora se movem em outra direção e ela está longe de ser a defesa do país. O STF está, como mostrou a votação, dividido entre os dois primeiros cenários descritos, isto é, deixar tudo como esta (até porque esteve o tempo todo comprometido com o golpe e o arbítrio) ou apostar na operação que visa eliminar a peça incomoda. Não tenho dúvidas que, se o fascismo vencer, encontrará entre os nobres ministros quem encontre justificativa jurídica para legitimar o crime, varrendo para baixo de suas togas toda a sujeira e o sangue, como fizeram em 1964.
Lula saiu da cadeia, e isso é bom. Mas sua saída é um efeito colateral de um plano dos mesmos que o colocaram lá. Estes sem dúvida zelarão para que seus direitos políticos sigam cassados e que, se necessário, ele volte para o cárcere quando as condições jurídicas forem satisfeitas, uma vez que as condenações nas primeiras instâncias ainda estão valendo.
O velho Maquiavel já dizia que nada é mais instável do que o poder que não se apoia na própria força e, assim, depende, da boa vontade dos outros. Tanto o descontentamento das massas, como a pregação de oposição de Lula, se não forem partes de uma alternativa realmente popular, podem acabar servindo aos propósitos de outras forças que tramam em segredo seus planos.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Capital e cansaço: Não é mais preciso punir? Basta Vigiar ou tá tudo junto e misturado.?








Já não basta vigiar e punir, o Capital usa o Sofrimento para no processo de acumulação possuir ainda mais o proletário, de corpo e alma se poderia dizer. Será que o Byung-Chul encontrou Focault?  Confira no instigante artigo que O Conselhodaclasse publica hoje. 





BYUNG-CHUL HAN ADENTRA EM TERRITÓRIO DE MICHEL FOUCAULT: A SOCIEDADE DO CANSAÇO NO ESPAÇO DO VIGIAR E PUNIR!

By Ricardo



Senta, que lá vem “estória”...

Imaginemos uma fábrica. Uma renomada, nacional, do ramo de produção de chapas, portas e painéis – tudo tendo aço como matéria prima. E imaginemos que nesta fábrica, para organizar a embalagem e facilitar o transporte destas chapas, portas e painéis, haja um setor de produção de paletes de madeira. E imaginemos ainda, que na equipe do setor de produção de paletes, haja um ajudante de cognome “Cabeção”.
Cabeção tem 24 anos de idade e vive em casa alugada com sua parceira – não se tem a informação se é em estado marital ou de concubinato – e com um filho de tenra idade. Em seu trampo, na referida organização, lhe é pago um salário/hora de aproximadamente R$5,50 para produzir paletes ao longo de uma jornada diária de oito horas. Meta de 400 para paletes “leves”; 230, quando tem de se fabricar os “pesados” – todos são pesados.
O dedo de cabeção permanece intacto, dentro do possível, após 24 anos de vida. Mas durante certa jornada, cabeção esteve cansado. Iniciou o turno anterior às 14h00; encerrou às 22h00. Levantou às 6h00; o filho tinha de estar na creche às 07h00. O mais sábio a fazer, após deixar o filho na creche, seria retornar para seus aposentos e dormir para o turno seguinte. A esposa trabalha também. Possuem despesas. Precisam cuidar do menino. Volta para o leito? Retoma o sono? Não. A empresa conta com um centro de educação, com profissionais capacitados para educar. Cursos de normas regulamentadoras de trabalhos realizados em grandes alturas, em espaços confinados, utilizando-se dessa ou daquela ferramenta... Tudo em prol da segurança; de um trabalho seguro – irônico né? Ensinamentos que podem torná-lo, de repente, um brigadista. Poderá cuidar dos companheiros de labor. Terá um acréscimo no salário: R$70,00... Duas caixas... 24 litros de leite para o filho. Quem sabe sobre para duas ou três latinhas. Gosta de uma gelada; é humano.
Horário do curso? Das 8h00 ao meio dia. Não sabe se volta para casa para almoçar, se permanece ali esperando o turno das 14h00. É fato: não dormirá. Mas ali estará; esforçando-se; estudando e trabalhando. Mantendo a família e a dignidade de um trabalhador.
Quanto ao processo de produção?... Bem... A equipe do setor é formada pelo operador – que ficará nas serras cortando os caibros e sarrafos nas medidas adequadas para a fabricação dos paletes; pelo empilhadeirista que reabastecerá as serras e as mesas de produção no momento em que se esgotarem os materiais então utilizados. E três ajudantes: um que ficará responsável por lançar e posicionar os caibros na mesa já ajustada e outros dois que se encarregarão de fazerem o mesmo com os sarrafos. E há o sistema de revezamento entre os ajudantes. Cada turno, em uma posição da mesa, assim, todos inevitavelmente passam pelos caibros.
Joga caibros, ajeita-os; joga sarrafos e ajeita-os. Cada um pega seu “pregador” pneumático e aí é só “rátátátá”... Depois, caibros e ajeita-os; sarrafos e ajeita-os. Pregadores e “rátátátá”... 400 vezes no turno.
No início do turno, cabeção reclama da canseira; é quinta-feira, porra. Começam a produção. Sua equipe produz os detestáveis paletes; 400 é a meta. É “rátátátá”. Duas ou três horas depois, seu dedo não está mais intacto.
Precisa do trabalho. Faz o que for necessário para manter seu emprego. Inclusive, pregar os pontos que não são de sua responsabilidade, mas de um de seus parceiros. Na correria, o prego atravessa o dedo do menino. O dedo está intacto... De repente, não está mais...
Vai ser culpado pelo acidente. Dane-se o contexto, a canseira, a quinta-feira, o curso, o menino na creche. Quem mandou fazer o trabalho do outro? Por que a correria? Pela meta?
Há os procedimentos de segurança para a execução de qualquer trabalho e manuseio de qualquer ferramenta ou máquina. Há também as normas padronizadoras de cada processo produtivo, que deixam claro o que cada membro de tal processo deve fazer no ato da produção. Seguindo-se a norma e os procedimentos de segurança, os riscos de acidente diminuem muito. Ele não seguiu normas de padronização da produção nem procedimentos de segurança: “a mão livre deve permanecer a uma distância de pelo menos 20 centímetros da mão que estiver manuseando o pregador”. Sendo assim... CULPADO...
Mas há algo mais... Algo não registrado nas normas de segurança nem nas padronizações dos procedimentos de produção... A necessidade de produtividade... De alcance e, de preferência, até de superação de metas... Necessidade esta, que já não mais é exigida a partir do sistema do vigiar e punir – de nosso velho amigo Foucault. Nãããooo... Em tempos de “flexibilização” do trabalho, de maior possibilidade de movimento individual e autônomo no novo mercado de trabalho, mesmo no contexto da indústria, agora o que conta é a dedicação do integrante do mercado; a iniciativa; o “profissionalismo” – mesmo para os que não possuem formação profissional.
Cabeção e todos os outros operários, não escaparam daquilo que o filósofo Germano-Coreano Byung-Chul Han chamou de Sociedade do Cansaço. Estamos no período da positividade; do sim a tudo. E, sobretudo, do sim ao trabalho – mesmo aos mais aviltantes empregos – já que este apresenta-se a nós, como maleável, como não forçado, como livre e até como lúdico, segundo o próprio pensador.
Em contexto industrial, nada há de lúdico, mas as cobranças já são menores A hierarquia permanece, mas para designações de funções que exigem mais ou menos intelecto ou conhecimento técnico e isso pouco ou nada envolve punições, apesar de ainda haver o vigiar, mais para premiações do que para castigos. O proletário dedicado, que produzir, que alcançar ou superar metas – que pode até quebrar recordes e ter seu feito noticiado no sistema de radiofrequência – quando presenciar – ou até promover – a queda de seu superior imediato, será alçado para o cargo seguinte e terá de desempenhar suas novas funções – caso haja a obrigatoriedade de “cobrança” de subordinados – do modo mais amigável possível. Mas é quase que certo que isso não será necessário. Seu subalterno produzirá muito, de forma rápida e de boa vontade.
 O trabalhador comum, em geral, não sabe que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, e assim, para dar conta de suas metas, jogará caibros ou sarrafos nas mãos de seus parceiros de função para manter seu ritmo e seu desempenho. Mas não por maldade. O movimento não é intencional, pensado, planejado... É automatizado, não observado, apenas executado. Se ao longo do processo produtivo, tiverem de se trombar, se trombarão. Dificilmente, um irá parar, raciocinar e esperar pela passagem do outro. Cada um terá em mente apenas o cumprimento de sua tarefa e pouco se importarão se vier a acontecer esbarrões de operário com operário. A produtividade tem de fluir.
E também tem de haver o aperfeiçoamento. Não o pessoal, o intelectual, o espiritual, tampouco o religioso – apesar do cristianismo predominante entre os operários – e nem o profissional, propriamente dito. Mas o do trabalhador cumpridor de tarefas, das que já cumpri e das que poderá vir a cumprir de modo autômato caso conquiste novo nível na hierarquia. O jovem cabeção assim o fez. Tinha de ser produtivo ao máximo e por isso “pregava muito” no ato da produção dos paletes e concorria com seus companheiros de mesa, ao posto de mais versátil “pregador”. E como os outros, procurava se diferenciar cursando os cursos que a todos eram ofertados e pela maioria cursados. E como tinha de cuidar da vida pessoal, cansava-se bastante, mas explorando a si – o coreaninho de novo – o máximo que podia. É bem possível que esteja aí, neste raciocínio, a gene de seu ferimento.
E quanto aos retardatários? Bom, quanto a estes, basta manterem baixo nível de absenteísmo, estarem de corpo presente e produzirem alguma coisa, que ali permanecerão. Pois mesmo em estado de incomoda improdutividade poderão ter extraída alguma mais-valia e até poderão servir de exemplos a não serem seguidos pelos trabalhadores dispostos a explorarem-se e cansarem-se no dia-a-dia do funcionamento organizacional.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Inteligência Artificial, Indústria 4.0, é o fim do emprego e da classe trabalhadora?











Este texto, entrevista, é muito interessante para os que ouvem falar sobre a nova indústria 4.0 e ficam especulando sobre as consequências para o futuro do trabalho. Como não poderia deixar de ser, chamou-me a atenção a parte da reflexão que trata sobre a organização politica/sindical dos trabalhadores sob essa nova forma de produzir e distribuir riqueza. Se o Brasil é uma plataforma de exportação de commodities dominado pela financeirização e precarização neoliberal, temos discordâncias titânicas, mas não podemos negar, a grande “sacada” do Entrevistado, Rafael Grohmann e sua grande contribuição para a compreensão das novas formas de trabalho para a velha exploração capitalista e o controle da força de trabalho e sua transformação em fonte de acumulação de capital e riqueza. A classe trabalhadora, conforme o entrevistado, como sempre, resiste e se organiza.

Se fosse você deixaria sua plataforma, seja ela digital, seja presencial, e me rebelaria por 5 minutos, pra ler esta belíssima entrevista.

Abaixo tem outros artigos para àqueles que desejarem novos pontos de vista.

Abraços e boa leitura
Carlos Reis. Divergentes






CAPITAL, TRABALHO E A DEPENDÊNCIA 4.0.
Futuro do mercado de trabalho brasileiro pode ser de ‘dependência 4.0’
Entrevista com Rafael Grohmann
Internet das coisasautomaçãoBig Datadataficação. Esses são alguns termos que remetem a tecnologias que já vêm promovendo uma revolução na forma como as pessoas se relacionam e se comunicam, com objetos e entre si, e que vão se aprofundar na década que começa na próxima semana, com grande impacto no futuro do mercado de trabalho. Para entender como o Brasil será afetado e o espaço que o País poderá ocupar numa economia em que os grandes empregadores dizem ser plataformas globais que “não geram empregos, mas conectam pessoas”, o Sul21 conversou com Rafael Grohmann, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos.
A entrevista é de Luís Eduardo Gomes, publicada por Sul21, 23-12-2019.
Grohmann, que também é editor e criador da newsletter DigiLabour, que traz informações e notícias sobre o trabalho na era digital, começa a sua fala destacando que não é possível utilizar no Brasil as mesmas prescrições de gurus e futurólogos sobre o mercado de trabalho que valem para a Alemanha, de onde vem o termo “indústria 4.0”. Por razões óbvias, os dois países não estão no mesmo patamar. Por isso, ele destaca que é preciso pensar sobre o futuro do mercado de trabalho no Brasil e como será possível escapar de um cenário de “dependência 4.0”, que seria a perpetuação de um país exportador de matéria-prima bruta e, agora, importador de plataformas digitais globais.
No entanto, nos cerca de 45 minutos de conversa, Grohmann indica que sua visão não é determinista a respeito do avanço da precarização e desregulamentação do trabalho, como o que tem sido visto a partir da chegada de aplicativos como UberiFood e Rappi. Pelo contrário, a partir da sua pesquisa sobre o trabalho digital, ele dá uma série de exemplos de categorias profissionais que estão emergindo nessa realidade de trabalho “plataformizado” e que estão buscando se organizar, bem como alternativas que estão sendo propostas à concentração dos mercados na mão destas plataformas. A entrevista também é um prato cheio para quem está em busca de dicas de leitura sobre essas questões. A seguir, confira a
íntegra da conversa com Rafael Grohmann.
Eis a entrevista.
O Brasil está preparado para as mudanças no mundo trabalho que virão por aí na próxima década?
Acho que a primeira coisa a ser dita é que a gente precisa, de alguma maneira, se afastar de todas essas prescrições que colocam os futurólogos do mundo do trabalho, que são, às vezes, muito otimistas. É muito engraçado que, há 20 anos, as teses eurocêntricas falavam em fim do trabalho e existe hoje uma explosão de trabalho. Agora, depois de 20 anos, a gente vive um momento de extrema precarização do trabalho, as pessoas falam em futuro do trabalho, inclusive em relação à automação.
É importante a gente localizar qual é o papel do Brasil na cadeia produtiva global, nessa geopolítica do trabalho digital. O Brasil não é a Alemanha, de onde vem, inclusive, a expressão indústria 4.0. A gente não pode importar as teorias e essas prescrições sobre transformação digital como se fôssemos qualquer outro país.
O modo como as tecnologias são incorporadas na indústria, nos serviços e na vida cotidiana das pessoas é muito diferente. E aí se coloca uma previsão de, ou você se prepara pro digital e para a transformação digital, ou você morre. Essa semana mesmo teve uma pesquisa da Fiesp dizendo que o Brasil não está preparado para a indústria 4.0, para a inteligência artificial, etc, mas qual é o papel do Brasil em relação a essas tecnologias? Um País que investe pouquíssimo em ciência e tecnologia, por exemplo. E como vai disputar, no cenário geopolítico, essas questões? Me parece que, às vezes, as pessoas deslocam dessa questão digital todo o contexto econômico e político de um país. Aí criam alguns mantras, que pode-se chamar de um ‘business bingo’ ou de uma gramática do capital, em que você vai colocando na mesa palavras aleatórias, mas que juntas parecem ter algum sentido. Por exemplo, transformação digitalinovaçãodisrupção e por aí vai.
Só para tornar mais claro. O que é essa indústria 4.0?
É um termo cunhado na Alemanha e vem do que chegam a chamar de uma ideologia alemã digital que propõe toda essa dataficação da produção, digamos assim. Se formos usar uma expressão dos anos 90, uma digitalização de toda a produção a partir de questões como internet das coisas, como a inserção de algoritmos, dados e inteligência artificial nos processos industriais. Isso que é chamado de indústria 4.0, especificamente. Mas eu considero que é só um elemento do que eu tenho chamado de trabalho digital.
O que é o trabalho digital? Na verdade, tem duas denominações que eu tenho usado, uma mais ampla e outra mais focada. A mais ampla é: hoje em dia todas as atividades de trabalho, de uma maneira ou outra, estão inseridas na cadeia produtiva de valor do trabalho digital. Por exemplo, um iPhone, para ser produzido, precisa passar desde o trabalho escravo na Foxconn, na China, até os desenvolvedores do Vale do Silício. Ou seja, existe algo de trabalho digital nessa cadeia produtiva toda. Assim como, para você gravar uma música, tem desde o cara que fabrica a guitarra que depois vai parar numa banda que vai gravar uma música para o Spotify. Quer dizer, isso mostra como há uma digitalização de várias etapas, de vários processos relacionados ao trabalho. Outra coisa, e isso é uma definição mais focada, são os trabalhos que necessariamente são mediados por plataformas digitais ou por mecanismos de inteligência artificial. Esse debate tem-se chamado de uberização do trabalho ou plataformização do trabalho.
Sim, acabou ficando conhecido como uberização porque é o exemplo mais conhecido pelas pessoas.
Eu tenho falado que o melhor termo para designar esse processo do trabalho digital não é uberização, mas plataformização, porque, na verdade, é isso o que se mantém. Há uma diversidade de atividades de trabalho que estão sendo plataformizadas. Além de UberiFood e Rappi, que são os exemplos midiaticamente que mais aparecem e tem também tido uma organização dos próprios trabalhadores em relação a isso, há plataformas de microtrabalho.
A mais conhecida é a Amazon Mechanical Turk, onde as pessoas treinam para a inteligência artificial, em condições, às vezes, precaríssimas. É basicamente uma plataforma da Amazon, criada em 2005, cujo slogan é inteligência artificial. Ou seja, são o que eles chamam de robôs humanos treinando reconhecimento facial, preenchendo questionários, alimentando banco de dados, ganhando pouquíssimo dinheiro, a maioria nos Estados Unidos e na Índia.
Os brasileiros não poderiam participar, porque só os trabalhadores dos EUA e da Índia recebem dinheiro, mas recebem em crédito na Amazon tudo que ganham e só podem gastar na Amazon. O que eles fazem? Esperam dar um número x de créditos, compram um Playstation e revendem no Mercado Livre ou em outro site qualquer. Ou seja, junta o ápice de plataformização do trabalho com o que é histórico no Brasil, que é a viração.
Como funciona? Que tipo de trabalho a pessoa faz nessa plataforma?
Nessa plataforma da Amazon, e tem outras, as empresas do mundo todo podem pedir tarefas para as pessoas executarem, é o chamado trabalho de multidão. Como pedirem para as pessoas reconhecerem mil fotos do que é um cachorro e do que é um gato, porque a inteligência artificial, no fundo, é uma tomada automatizada de decisões que funciona a partir de uma grande base de dados. As pessoas ficam alimentando esses dados. Então, desde isso, até moderadores de conteúdo que têm que dizer o que é um conteúdo cheio de sangue, pessoas decapitadas e tudo que é tipo de coisa. Tem pesquisas e livros que têm tratado deste tema especificamente. Um deles se chama ‘Ghost Work’.
Então, basicamente, é um trabalho para alimentar banco de dados?
Pode ser desde esses que eu falei, tem pesquisas envolvidas também, às vezes pessoas respondem questionários, tem preenchimento de banco de dados. Por exemplo, ‘Quero que vocês preencham todos os possíveis lugares turísticos de Nova York para uma empresa de turismo’. Tem transcrição e tradução de textos, de áudios. Cada tarefa dessas [tem um valor]. Cada foto que você avalia, são 10 cents de dólar [por exemplo]. Na maior parte das vezes, [os trabalhadores] são da Índia. Mas essa é só a plataforma mais conhecida. Tem plataformas dessas de microtrabalho que são mais avançadas do que essa da Amazon. Tem pessoas que treinam dados para carros autônomos em uma empresa que até foi comprada pela Uber. A maior parte das pessoas são da Venezuela e tem até brasileiros envolvidos nisso.
Eu tenho categorizado as plataformas de trabalho em três tipos. A primeira é o tipo de trabalho que exige uma localização específica do trabalhador, tipo Uber, iFood, que você precisa estar no lugar. A segunda são as plataformas de microtrabalho, em que se alimenta a inteligência artificial e, a terceira, plataformas de macrotrabalho, que é o trabalho freelancer que se plataformizou também, desde designers, jornalistas, publicitários. Tem plataformas em que você pode contratar desde um Papai Noel até um assessor de imprensa. Isso sem considerar, de alguma maneira, todo o trabalho gratuito que a gente faz alimentando os dados como usuários das redes sociais.
Esses trabalhos plataformizados serão a maior parte dos postos de trabalho que serão oferecidos daqui a alguns anos ou ainda vai coexistir com o trabalho operário, de atendente de loja, etc?
É importante dizer que o que diferencia também o Brasil de processos da Europa e dos Estados Unidos é que, aqui, o bico e a viração, que é o se virar, sempre foi a norma, não a exceção. No fundo, aqui o trabalho informal sempre foi a regra. Então, convivem e vão conviver trabalhos históricos, esse trabalho operário e o trabalho de atendente, com esse trabalho plataformizado. Isso vai ocorrer por muito tempo. De maneira que, um, a automação nunca vai ser completa e, dois, o que vai existir é que se vai cada vez mais espremendo sub-empregos, plataformizados ou não, e não necessariamente uma automação completa.
Nessa crescente plataformização do trabalho, nós vemos que o freelancer de classe média, há dez anos, não trabalhava numa plataforma, alguns trabalhavam por opção e outros por imposição, para pagar as contas. Isso, de alguma maneira, se plataformizou. Existe cada vez menos uma absorção pelo mercado formal, quando há a absorção pelo mercado formal, não existe mais uma carreira. Mesmo na carreira de jornalista, que é uma profissão que eu estudo há mais tempo, as pessoas ficam, no máximo, 10 anos numa redação, em média. Tem muita gente que transita entre carreiras, mesmo no mercado formal. Então, de maneira que, daqui a 10 anos, essas coisas vão continuar convivendo no Brasil.
O que já está acontecendo no Brasil é o aprofundamento dessa divisão entre o que é terceirizado, quarteirizado, e o que é trabalho formal. Porque esses trabalhos plataformizados nada mais são do que uma terceirização por meio de plataforma digital, e o que está sumindo é a contratação direta pela empresa, em que o trabalhador pode ter benefícios, plano de saúde, etc. A pergunta que eu faço é: a tendência é uma precarização cada vez maior das condições de trabalho?
O Ricardo Antunes [sociólogo e professor da Unicamp] tem falado, além do Privilégio da Servidão, que é o último livro dele, que o capitalismo de plataforma é a proto forma do capitalismo. Ele vai dizer que, nesse momento, o capitalismo retorna a formas primitivas de exploração. O que acontece é que, nessa terceirização ou quarteirização, as empresas de plataforma muitas vezes não se colocam como uma empresa de trabalho, se colocam como uma empresa que só conecta pessoas. Isso vem da ideologia do Vale do Silício da disrupção, entre aspas.
O que há de diferente nessa plataformização? Você tem as plataformas que são geridas por algoritmos, que têm seus vieses, inclusive de gênero, de raça, que tem seus mecanismo discriminatórios, que, por sua vez, alimentam-se de dados dos consumidores e dos trabalhadores. Por exemplo, a Uber está preparando o carro autônomo, então não dá para descolar a questão dessa plataformização do trabalho do debate sobre dados e algoritmos. Existe então uma vigilância e um controle algorítmico desses trabalhadores, principalmente em plataformas ligadas a localização. Há uma vigilância que se dá por meio dessas plataformas e é muito mais eficaz do ponto de vista da gestão do capital.
Existe aí também uma gamificação [inserção de elementos de videojogos] do próprio trabalho incluída nos processos de gestão. ‘Faça mais uma corrida’, ‘mude de nível’, tem plataformas que parecem um jogo. ‘Você está no nível 2, faça mais tempo de trabalho que você chega no nível 3’. Mas, de alguma maneira, esses processos de gamificação se dão também em outras atividades que não em plataformas.
O que eu tenho falado é que a plataformização do trabalho é um combo de um processo de dataficação, ou seja, dessa centralidade de dados e algoritmos na nossa vida, mais uma racionalidade neoliberal, empreendedora, completamente perversa, que justifica todo esse processo, e também um processo de financeirização. Essas coisas não estão deslocadas ao se pensar a plataformização do trabalho.
Isso tem um limite social? Até que ponto as pessoas podem suportar esses trabalhos? Por exemplo, o Rappi teve um protesto no Rio de Janeiro, em que os entregadores apontavam justamente como essa gamificação e a oferta de descontos muitas vezes reduz a remuneração, que já é baixa, deles. É possível que isso cause um choque social? É possível que isso seja, de alguma forma, mitigado pelo impacto social grave que traz a total precarização e desproteção da classe trabalhadora? Como tu vês isso?
Eu não acredito no que eu chamo de ideologia da Vanessa da Mata, ‘as coisas não têm mais jeito’, ‘acabou’, ‘boa sorte’. Não existe trabalhador inorganizável. Não é porque estão em condições plataformizadas ou que nós estamos há muito tempo em condições individualizadas de trabalho que as pessoas não são organizáveis. Como você falou, existe um limite. Tem acontecido em todas essas categorias, desde as plataformas de microtrabalho até as plataformas de localização específica, um processo de reconhecimento dos trabalhadores como trabalhadores. O que é super engraçado, porque, há quase 10 anos, a gente fez uma pesquisa sobre jornalistas em São Paulo e eles não se reconheciam como classe trabalhadora. Isso tem se transformado em vários estratos das classes que precisam do trabalho, para usar uma expressão do Ricardo Antunes. Se a sua renda depende da própria força de trabalho, você é um trabalhador, seja você ganhando R$ 20 mil, seja você ganhando um salário mínimo. Isso tem gerado uma nova onda de organização coletiva dos trabalhadores.
Eu vou dar agora uma série de exemplos. Desde, digamos assim, a camada média alta de trabalhadores do Vale do Silício que estão tentando criar um sindicato, tem o Tech Workers Coalition, que é dos trabalhadores da área de tecnologia. Aqui no Brasil, você tem o Infoproletários, que são trabalhadores de TI em luta. Você vê um movimento acontecendo tanto no norte, quanto no sul. Já há organização coletiva de trabalhadores de Uber. Aqui no Brasil, já tem associações na Bahia, em Pernambuco, tem uma em São Paulo já filiada à CUT.
A partir do debate na Inglaterra, tem hoje uma organização coletiva dos trabalhadores da indústria do videogame, que também naturalizavam áreas de trabalho como se fossem um jogo. Hoje tem o Game Workers United em 10 países, trabalhadores se movimentando. Inclusive, no Brasil e na Argentina, tem capítulos desse Game Workers United. Você tem, na Alemanha, um sindicato de youtubers vinculado ao maior sindicato metalúrgico alemão, que é o IG Metall, em que os youtubersreivindicam da plataforma maior transparência algorítmica e resultados mais transparentes em relação à desmonetização dos youtubers. E une youtubers de esquerda e direita. Até se coloca nesse debate o quanto que essa luta e essa organização não é necessariamente a mesma luta entre capital e trabalho dos anos 1980.
Quando você tem novos mecanismos de controle, isso exige novas maneiras de organização dos trabalhadores, não repetição das mesmas. Por exemplo, um dos debates que se tem levantado é que não dá para você confrontar UberYoutube ou a indústria de games de uma maneira somente local.
luta dos trabalhadores é uma organização de baixo para cima, mas tem que ser uma luta internacional. O grande dilema é que essas plataformas são globais. Tem rolado uma nova onda de sindicalização, e aí é sindicalização mesmo, de jornalistas, desde BuzzfeedVoxVice, entre outras, e a partir de plataformas digitais. ‘Nós não fazemos só memes, nós também somos trabalhadores’. Ou seja, acho que já estamos, senão perto, nesse ponto de virada em que as pessoas já estão cansadas e buscando mecanismos de organização. A própria Amazon Mechanical Turks tem no Turker Nation uma maneira de organização do trabalho.
Uma coisa que é importante dizer é que muitas dessas maneiras de organização dos trabalhadores de plataforma são também por vias digitais. Desde grupos do WhatsApp e Facebook, até uma plataforma chamada Discord. É muito interessante que é uma plataforma para games. Como ela tem uma interface muito amigável, essa plataforma é usada para organizar os trabalhadores, marcar reuniões, discutir questões, então vira uma plataforma realmente de debate e organização dos trabalhadores. É algo que alguns autores têm falado de usar a gamificação a favor dos trabalhadores, uma gamificação vinda de baixo. Nesse cenário do trabalho digital, eu não vejo como algo inevitável.
Então, na verdade, essa precarização pode ser combatida de alguma forma.
Sim. Na verdade, estão em processo de luta e eu acho que é nisso que todos os lutadores envolvidos com essas questões estão imbuídos. Eu posso citar três tipos de movimentos que eu tenho visto em relação a mudar as coisas no trabalho digital. E nenhuma dessas coisas é revolucionária, mas também tem gente tratando de uma forma mais radical.
A primeira dimensão é o que eu tenho chamado de regulação do trabalho nas plataformas digitais, um movimento vindo do pessoal da área jurídica que tem lutado para regular esse trabalho que é dito que não é trabalho ou não tem vínculo com as empresas como um trabalho que seja reconhecido. Isso vai desde atuações do Ministério Público do Trabalho, que está, de alguma maneira, envolvido com essa questão no Brasil todo, tem relatórios sobre isso. A OIT [Organização Internacional do Trabalho] tem feito relatórios sobre o que chama de trabalho decente agora nas plataformas digitais.
Tem um trabalho que nós estamos trazendo agora para o Brasil, que é um projeto de Oxford, chamado Fair Work — trabalho justo –, que, partindo dos critérios da OITsobre trabalho decente, tenta classificar as plataformas de trabalho de acordo com essa questão. Basicamente, ela tenta pressionar as plataformas digitais por melhores condições de trabalho, por vias jurídicas, políticas, midiáticas. Já tem pilotos na Índia, na África do Sul, está começando na Alemanha e na Irlanda, e vamos começar, no ano que vem, no Chile, no Brasil e na Indonésia. Essa primeira questão é a regulação do trabalho.
Uma segunda dimensão é a organização coletiva dos trabalhadores, que têm, de alguma maneira, redescoberto formas tradicionais de luta, mas também se descobrindo nesse processo como trabalhadores e quais mecanismos de organização podem ser colocados. E uma terceira dimensão é uma tentativa de criar outras formas de organização do trabalho que sejam autogeridas. Aí eu indico principalmente um movimento, que também tem vindo para o Brasil, mas vem dos EUA, que é o chamado cooperativismo de plataforma, que busca aliar todo o potencial tecnológico das plataformas com a organização do trabalho cooperativado. Isso significa desde, por um lado, plataformizar cooperativas já existentes, até transformar plataformas em cooperativas. Tem desde cooperativas de agricultores que plataformizaram tipo um iFood, em que você pode comprar direto deles. Tem proposta de Airbnb que sejam geridas pelas cidades. Aqui no Brasil, tem o Cataki, que é a plataforma dos catadores de latinha, tem cooperativas de fotógrafos, de games, em várias áreas.
Então, esse movimento de cooperativas de plataformas tem vindo forte e tem outros movimentos que têm se colocado nesse debate. Por exemplo, o pessoal dos EUA que fez a campanha da Ocásio-Cortez [deputa da esquerda do Partido Democrata nos EUA], no ano passado, está criando a Means TV, que está sendo chamada de Netflix anticapilista e é uma plataforma de streaming para conteúdos anticapitalistas, funcionando como uma cooperativa de produtores de audiovisual. Então, tem rolado movimentos também em buscas de autogestão e outras formas de organização do trabalho. Essas três dimensões são reformistas.
Mas tem pessoas que vão defender, e isso está no livro ‘Riding for Deliveroo’, que a cooperativa é uma situação paliativa e que isso só vai ser melhorado se houver uma expropriação das plataformas digitais pelos trabalhadores, pensando que esse seria o futuro do trabalho possível e não o futuro do trabalho que as empresas, de alguma maneira, querem e nos fazem engolir. Em abril do ano que vem, uma programadora chamada Wendy Liy vai lançar um livro chamado ‘Abolir o Vale do Silício’, em que ela vai dizer como é possível reapropriar a tecnologia do Vale do Silício para fins socialistas. Todos esses exemplos que eu falei mostram, de alguma maneira, que as coisas estão em movimento e que, se há por um lado uma força muito forte dos novos mecanismos do capital por maior controle, por intensificar a precarização do trabalho, há também, ainda que em menor grau, tentativas de resistência e alternativas a esse cenário. Então, acho que é o nosso papel como trabalhadores, como pesquisadores, como academia, não só analisar esse cenário, mas também ajudar a criar mecanismos e também políticas públicas para que se transforme de uma maneira justa. Precisamos buscar formas de reapropriar as plataformas de formas coletivas e cooperativas, o que inclui pensar a noção de comum aplicada a dados, algoritmos e softwares
Pegando esse gancho das políticas públicas. O que temos visto é o aprofundamento do chamado neoliberalismo no mundo, desregulamentação, privatização, o que está alinhado com a questão da plataformização que, como tu disseste, é talvez uma retomada ao estágio inicial do capitalismo, sem regras. Isso não vai colocar uma grande pressão no poder público para suprir demandas de saúde, de educação, um pouco do que a gente vê nos EUA com o crescimento da pauta da universalização do sistema de saúde?
Eu sempre fico com o Dardot e o Laval, do livro “A Nova Razão do Mundo”, pra dizer que o neoliberalismo, além de uma política econômica, é uma racionalidade, um estado de espírito que vai sendo incorporado na vida das pessoas e na maneira de viver delas no dia a dia, de maneira que, inclusive, o próprio estado não é exatamente um estado mínimo, mas um estado que busca promover o empreendedorismo em todas as facetas da vida, com um discurso de eficiência, de objetividade. O que acontece é que você coloca em cima dessa racionalidade empreendedora a questão da plataformização e que esse imaginário de dados e algoritmos são coisas objetivas e eficientes. Isso envolve todas as questões que têm sido chamadas de desburocratização, como se tudo fosse resolvido como isso. A plataformização está, a partir de uma lógica empreendedora, inclusive no ponto de vista do estado, que ajuda a promover e a facilitar esse tipo de questão.
Por um lado, esse debate sobre a regulação é um debate que o estado brasileiro vai ter que também dar resposta. Na verdade, nesse cenário político, eles não querem dar resposta a nada disso, mas vai ter uma pressão, não só por políticas públicas de educação e saúde, mas também do próprio trabalho. As últimas pesquisas o IBGEcolocaram que a informalidade bateu recorde no Brasil, sendo que a informalidade já era a própria norma. E as saídas oferecidas são muito tímidas. Você veja o próprio caso do MEI [Microempreendor Individual].
Obviamente, eu prefiro alguém que tenha MEI do que não ter nenhum tipo de proteção, mas a MEI já é um pequeno paliativo, não resolve a nossa questão. Ela, de uma maneira, formaliza algumas atividades que estavam completamente invisíveis, o que por um lado é bom, mas não pode ficar só aí. Num país em que o próprio Ministério do Trabalho é extinto, como a gente pode esperar políticas voltadas para o trabalho decente? Acho que essa é a grande questão. É preciso, no debate sobre o futuro das tecnologias e o futuro do trabalho, considerar os trabalhadores como ponto de vista central, porque, senão, a gente vai estar reproduzindo e aumentando desigualdades e a exclusão no País. Então, em vez de um futuro do trabalho que é só para a elite brasileira, é preciso restabelecer a ideia de futuro do trabalho no presente a partir do ponto de vista dos trabalhadores.
A gente começou falando que existia uma diferença entre o futuro do trabalho no Brasil e na Alemanha. Qual é a perspectiva de um país periférico, como o Brasil, que fez uma escolha, e isso já há muito tempo, de seguir como exportador de commodities, de matérias-primas brutas? Qual é o futuro de um país que tem se colocado como periférico no capitalismo nessa sociedade que vai ser completamente alterada pela internet das coisas, pela automação, etc?
Dependência. A gente volta, na indústria 4.0, à dependência 4.0. Essas plataformas digitais, de alguma maneira, dependem de mecanismos que o Brasil não controla. E uma coisa básica, 30% do dinheiro pago aos motoristas da Uber não fica no Brasil. Ou seja, como é que a gente cria mecanismos para confrontar isso do ponto de vista brasileiro, senão a gente vai aprofundar o nosso lugar periférico e dependente. Aí precisa também, e esse é um movimento que nós pesquisadores estamos começando a fazer, dialogar com pesquisadores do sul global que têm pesquisado essas questões. Esse é o grande desafio, de como superar esse lugar de país periférico, mas que demanda uma mudança estrutural de base no que se refere às políticas de tecnologia e à questão do próprio trabalho. De tudo que eu disse que acho que não é inevitável, acho que essa é a barreira, do ponto de vista brasileiro, mais difícil de ser transformada, justamente porque, como você destacou, é uma questão histórica e que, de alguma maneira, agora se aprofunda. Qual é a autonomia do país em relação à tecnologia?
É muito engraçado, muito curioso, como tem um autor chamado Álvaro Vieira Pinto, que foi professor do Paulo Freire, que é um pesquisador dos mais relevantes para pensar tecnologia do ponto de vista brasileiro e escreveu, nos anos 70, um livro chamado ‘O Conceito de Tecnologia’, pensando o que significa tecnologia do ponto de vista do capitalista dependente no Brasil, e é um autor completamente esquecido, inclusive pela própria esquerda, e que poderia, mesmo com livros da década de 70, nos ajudar a pensar como recondicionar a autonomia do País e dos brasileiros em relação à tecnologia e a esse capitalismo dependente. E aí, o Álvaro Vieira Pinto diz que não dá para descolar tecnologia e trabalho e sair por aí, e isso são palavras dele, dizendo que agora vivemos uma revolução tecnológica ou que agora vivemos numa era tecnológica, porque o ser humano sempre produziu tecnologia. O que significa pensar quais os papeis que essas tecnologias desempenham no cenário econômico-político global e qual o lugar do Brasil. E eu termino fazendo um convite à leitura desse livro do Álvaro Vieira Pinto, chamado ‘O Conceito de Tecnologia’.

Nota: 
Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o XIX Simpósio Internacional. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida, a ser realizado nos dias 19 a 21 de outubro de 2020, na Unisinos Campus Porto Alegre. (Nota de IHU On-Line).
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