Por André Paes
Em nosso arquivo mental
de memória bíblica sabemos e respondemos que o pecado de Sodoma e Gomorra é
relacionado à homossexualidade, ou quando muito, ao ato sexual violento de
homem contra homem. Fundamentamos esse “conhecimento” no relato de Gênesis, no qual
os habitantes de Sodoma e Gomorra se revelam brutos e selvagens, intentando
violentar sexualmente os misteriosos viajantes recém-chegados que visitavam Ló,
sobrinho de Abraão. É assim que nasceu o termo “sodomia” ... Ora, através do
tempo e do espaço, propagou-se e solidificou-se a ideia de que Sodoma e Gomorra
foram destruídas por Deus por este motivo...
A ira divina, então,
recaiu sobre homens que intentaram violentar visitantes vindos do céu? Ora, o
profeta Ezequiel trás luz a esse fato. Segundo ele, deparamo-nos com a seguinte
sentença bíblica: “Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: Soberba,
fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca
fortaleceu a mão do pobre e do necessitado. E se ensoberbeceram, e fizeram
abominações diante de mim; portanto, vendo eu isto as tirei dali”. (Ezequiel
16:49,50).
Muito bem. Temos aqui o
que eu considero a solução de um enigma: qual foi o pecado de Sodoma e Gomorra?
Pelo profeta Ezequiel, tomo conhecimento de que os habitantes de Sodoma e
Gomorra tinham fartura de comida e abundância de ociosidade, mas nunca se ocuparam
de atender o pobre e necessitado. Ora, se tinha pão em abundância, mas viviam
na ociosidade, como conseguiam produzir e obter alimento? Quem produzia a
comida e garantia a possiblidade de que “as filhas” de Sodoma e Gomorra
vivessem folgadas e saciadas? Acredito que o leitor já saiba a
resposta a esse “enigma”. O pecado de Sodoma e Gomorra, portanto, está
relacionado diretamente à exploração dos trabalhadores. O pobre e o necessitado
parecem ser os que trabalham e, mesmo assim, ficam na penúria, o que leva ao
fato de que um grupo possa se esbaldar na abundância e na ociosidade.
Identificamos o pecado.
Proponho que avancemos no diálogo com esse texto bíblico para discutirmos ações
que extingam essa situação de exploração. Pois bem. Poderíamos ventilar duas
coisas. Primeiramente, uma política pública. Sim. Políticas públicas são valiosas
em contextos de populações marginalizadas e vulneráveis economicamente. Se por
um lado podem servir como instrumento eleitoreiro e discursos populistas e
demagógicos, as políticas públicas podem por outro lado, atender necessidades
emergenciais, sendo um bom paliativo para evitar a absoluta carência de quem
está em sofrimento social.
Em segundo, penso na
ação dos próprios “fracos e oprimidos” em uma luta por direitos e até mesmo
pela extinção das relações de exploração e da desigualdade. Por ser um texto
bíblico, a solução vem com a destruição de Sodoma e Gomorra por obra divina,
por que seus moradores “nunca fortaleceram a mão do pobre e necessitado”.
Isto posto, deduzo que
a ação de Deus se dá em favor do “pobre e necessitado”, dos vulneráveis de uma
sociedade que se estrutura na desigualdade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário